Work Text:
Warm enough for ya outside baby, yeah
(Tell me that it's warm enough here for ya)
Is it warm enough for ya inside me, me, me, me?
Drew Barrymore 一 SZA
único: fim do outono, início de primavera.
Shiba Hakkai encontra-se na situação mais adversa que poderia pensar para o dia de hoje: está sem jaqueta no último dia de outono, o que não é tão absurdo, mas levando em consideração que este é o dia mais frio do ano (e dos dias que, até então, eram frescos e com chuvas finas pela tarde), pode-se dizer que o garoto foi surpreendido, até demais, pelo clima.
Calafrios descem pelo corpo de Hakkai toda vez que um vento congelante entra por uma das janelas da sala e vem em sua direção. Ele tenta acabar com os arrepios relâmpagos que surgem passando as mãos repetidamente sobre os braços, porém nada expulsa o frio que sente desde o começo da manhã.
Em poucos minutos, ele tem sorte: pode procurar seu melhor amigo, seu parceiro, o maior do mundo. Ele é perfeito para resolver o problema atual do Shiba, com certeza o faria como ninguém e sem pestanejar. Basta que vá ao clube de costura, liderado por Mitsuya Takashi, e terá seu conforto.
Então, ele o faz quando o sensei os dispensa. Caminha a passos largos, ignorando os olhares mais medrosos direcionados a si. Outra coisa que Mitsuya curaria sem esforço.
Quando desliza a porta do clube, ele encontra o amigo sozinho, sentado de frente para a mesa. Talvez fosse o horário, ou talvez fosse fruto da recente reabertura do clube, que ainda busca membros para a equipe por meio de cartazes. Toda a atenção de Takashi está nele em questão de segundos.
Não são necessárias palavras para que o costureiro descubra o problema de Hakkai, visto que sua postura ainda é de cobrir como pode seus membros. Apenas uma olhada mais concentrada e um suspiro trazem um casaco de lã às mãos de Mitsuya.
A peça é visivelmente menor do que Hakkai veste, mas nenhum dos dois comenta sobre. Nunca comentaram, até agora.
"Você vai acabar relaxando todos os meus casacos desse jeito, cara", Taka-chan diz quando Hakkai já está vestido, distanciando-se para mexer em alguma gaveta.
A fala em si incomoda Shiba, pois de forma alguma sua intenção é acabar com as roupas de Mitsuya. Mas como poderia Hakkai não querer vesti-las? Está frio e elas cheiram a Taka-chan.
"Mas a partir de agora, vai ser impossível esquecer a jaqueta", ele continua.
Nos pouquíssimos segundos envolvido pela lã apertada, Hakkai pode se sentir quente de novo. Dos pés à cabeça, da ponta do nariz até o mindinho do pé. Agrava-se quando Taka-chan segura um alfinete com a boca e o abre, conectando os dois lados do casaco e fechado a roupa propriamente.
"Se você continuar esquecendo, você vai adoecer e Taiju vai arrancar meus ouvidos fora com todos aqueles sermões, como se eu fosse um dos seus responsáveis."
Eles já estão próximos o bastante para deixar Hakkai estagnado em seu lugar, mas Mitsuya prova-se empenhado em continuar sendo o causador de bochechas coradas e pernas bambas quando sussurra: "O único modo de te manter aquecido seria te abraçando, mas acho que não daria muito certo, não é?", e sorri timidamente, como se a ideia fosse errada por si só.
No entanto, nada para Hakkai quando ele fala, em alto e bom som, para que o amigo escute: "Você não precisa de um motivo para me abraçar, Taka-chan."
Takashi arregala os olhos, desviando o olhar que esteve conectado em todos os momentos em que se encararam. Suspira ao coçar a nuca, parecendo convencido a tomar a maior decisão de sua vida, resignado. Inclina-se para frente, levando as pernas junto pouco depois.
Como Hakkai conseguiu envolver a cintura de Mitsuya com ambos braços tão rapidamente é chocante até mesmo para ele, mas o costureiro não parece se importar. Nesse momento, nada mais importa além dos corpos se tocando de uma forma conhecida, mas com um novo significado, um novo tom.
Mitsuya enterra o rosto no peito fragilizado do amigo, inala o ar em busca da fragrância de Hakkai espreitada pela própria roupa e encontra conforto quando sua bochecha choca-se contra um coração acelerado. Ao seu suspiro, Shiba deixa que o próprio corpo relaxe, apertando o costureiro contra si.
Só ousa presenciar a visão de Takashi em sua totalidade porque sente algo roçando sobre seu peito, ainda confuso em como reagir ao que tanto ansiava. Mitsuya passa seu nariz avermelhado sobre o casaco, talvez na tentativa de esquentar-se, mas o que mais chama a atenção de Hakkai é a visão dos olhos fechados, dos cílios grandes, da expressão serena de Takashi. Ele com toda certeza será um estilista renomado algum dia, mas, olhando-o de tão perto, Hakkai tem ainda mais certeza de que Mitsuya seria o melhor dos modelos; ele deveria sê-lo. O que regou o jardim de Hakkai sempre foi e sempre será Mitsuya Takashi, de pouquinho em pouquinho, cada dia mais, e essa visão isolada desabrochou campos e campos de rosas que ele nunca pensou que existissem.
O outono está acabando, o inverno está vindo, mas para Hakkai, é primavera. Especialmente quando os punhos em suas costas se abrem e Takashi sussurra, em plena paz:
"Que bom você ter fechado a porta."
Hakkai não fechou a porta.
