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Kim Kai não lembrava com nitidez dos acontecimentos informados no jornal da última semana porque estava cansado. Tinha acabado de voltar de uma missão nos planetas Kepler, restaurando algumas fontes de água congeladas — problema causado com certa frequência ultimamente, principalmente quando o Rei da Água, Suho, levou o humano Kim Minseok, que era capaz de manipular o estado do elemento primordial e congelá-lo, para o planeta E-408.
Sua vestimenta espacial era mais bonita do que confortável, então retirou o respirador assim que voltou para o Conselho Universal, o órgão interestelar mais poderoso do espaço visível, que mantinha a convivência harmoniosa entre os exoplanetas. Mas isso é história para depois.
Além do respirador, que consistia em uma espécie de máscara de metal, fazia questão de usar um chapéu — que ele jurava já ter sido um ícone da moda entre os humanos antigamente — e que era muito útil para segurar seu cabelo, comprido até os ombros e com a franja até o meio do rosto, longe dos olhos. Praticamente morava em sua sala de trabalho no Conselho, por isso mal chegava e já arrancava suas botas pesadas, largando-as pelo corredor.
Afinal, mesmo podendo se teletransportar, ainda era um humano e sentia muitas dores no corpo, principalmente depois de transitar por todos os planetas habitáveis mais próximos. Então chegou na estação, que parecia como qualquer escritório terrestre já pareceu, foi até a máquina de café do andar que dividia com os outros agentes, apertou o botão do cappuccino de chocolate e suspirou.
— Kai, Kai! Quando você voltou? Ficou sabendo das últimas? — Yixing veio correndo ao seu encontro, segurando um monte de papéis e até derrubando alguns pelo caminho. Trejeitos humanos resistiam aos tempos. — É uma boa e uma não tão boa, qual você quer saber primeiro?
— Eu acabei de chegar, manda a boa — respondeu, abaixando para olhar se o copo já estava cheio. O cheiro adocicado do líquido e o barulho da máquina faziam com que seu corpo relaxasse, amava sentir que estava em casa.
— Baekhyun aceitou o convite do rei da Terra — informou animado, sorrindo em seguida e esperando a reação de Kai. O mais novo apenas ajeitou a postura ao lado da máquina, sorrindo com escárnio. Olhou para o lado, bufou, massageou as têmporas:
— Certo, qual é a notícia boa? — perguntou sarcástico, fazendo Yixing murchar.
— Kai, não seja assim… Você devia ver como ele está feliz — argumentou, observando o amigo pegar o copo de café e virar as costas, se afastando. — Montaram uma despedida para ele no salão principal. Comentaram que o rei virá pessoalmente buscá-lo.
— Obrigado por me avisar, agora sei pra onde não devo ir — zombou, se teleportando para dentro de sua sala. A porta sempre ficava trancada, Kai não gostava de ninguém por perto enquanto estava trabalhando, muito menos quando tinha que lidar com a situação em que outro humano iria para o planeta E-408. Yixing resmungou um pouco contra a parede, pedindo para entrar e conversar, mas Kai só ignorou, colocando seus fones de ouvido e aumentando o volume da música.
Deu um gole em seu café, respirando fundo em seguida e descansando a cabeça no ombro. O painel de metal na parede à sua frente com imagens de animais e de paisagens sempre ajudava a acalmar suas ideias, mas olhar para o retrato do canto fazia seu coração pesar. “Turma de 5487”, dizia a legenda da foto onde ele, Minseok, Baekhyun, Chen e Yixing sorriam abraçados em seus trajes espaciais, na viagem que fizeram quando se formaram agentes do Conselho Universal.
Assim como Kai, os quatro eram humanos que nasceram com poderes, o que aconteceu depois que o Deus do Tempo decidiu viver como eremita, se isolando de qualquer contato. Até o universo encontrar o equilíbrio novamente, a disrupção fez com que a Terra sofresse as consequências, absorvendo energia elemental de forma distorcida, afetando os recém-nascidos desse período. Kai podia se teletransportar, já Minseok, Baekhyun e Chen podiam controlar substâncias; alteravam o estado da água, o curso da luz e da eletricidade, respectivamente. Já Yixing nasceu com poderes curativos.
Muito era especulado sobre esses humanos excepcionais, mas pouco se sabia. Kai acreditava que seus poderes eram um presente, então decidiu aceitar seu destino quando foi recrutado pelo Conselho Universal, pronto para servir aos interesses da Terra e preservar a vida humana, que resistia por um fio.
Por conta disso tinha tanto rancor de Minseok, que se juntou ao Reino da Água há dois anos, e agora de Baekhyun, que estava prestes a abandonar seu posto como agente espacial para servir ao rei da Terra, o elemento que rege todos os minerais existentes. Odiava pensar que seus amigos, que juraram junto consigo que iriam cuidar da humanidade, cederam tão fácil aos interesses dos Primordiais, como eram chamados os quatro reinos do planeta E-408, uma espécie de capital do universo.
Lembrava como se fosse hoje da animação dos colegas descendo a rampa de desembarque da nave, na primeira vez que deixaram a Terra. Baekhyun comentando como adoraria conhecer alguém da linhagem real, Yixing com medo de que eles se parecessem como extraterrestres dos filmes antigos que Kai gostava. Mas o E-408 era bem similar à Terra e eles foram bem recebidos, não iria mentir. Porém eram memórias dolorosas, principalmente por conta de um certo príncipe que fazia parte delas.
Seu telefone tocando no ponto eletrônico que não saía de seu ouvido espantou seus pensamentos melancólicos. Quando atendeu era apenas Aiya, a inteligência artificial do Conselho.
— Olá, Kai — cumprimentou polidamente. — Peço desculpas por estar ligando em seu horário de descanso, mas percebi que ainda não sabe dos acontecimentos mais recentes.
— Olá, Aiya, não sei não. Sou todo ouvidos — informou, se ajeitando na cadeira e acionando o visor da sua mesa de trabalho, equipada com hologramas, sensores e outros dispositivos igualmente tecnológicos. No canto dela, o rosto de Aiya se formou.
— Recebemos diversos chamados nos últimos três dias relatando problemas com a performance do… de um certo elemento na Terra — disse cautelosa. — Kai, eu não queria estar te dando essa notícia, mas sempre sobra para mim.
— Calma, Ya, o que aconteceu? — Ele riu, tentando confortar o robô, o que era engraçado per se. — Sempre te colocam para me dar as piores notícias, já estou preparado.
— Bom, a princípio nada foi feito porque parecia algo passageiro. Mas a situação se agravou nas últimas horas e hoje, pouco antes do seu retorno, recebemos uma chamada de uma sonda espacial que informou disrupções na estrela central do Sistema Solar.
— Aiya… seja menos prolixa, sim?
— O fogo sumiu, Kai. E o Sol está apagando.
Com a menção da palavra, o agente sentiu seu corpo arrepiar. Conhecia os Primordiais do Fogo muito bem e automaticamente se irritou pensando que, o que quer que estivesse acontecendo, eles estavam fazendo de propósito.
— Como assim “o fogo sumiu”, Aiya? — perguntou depois de alguns minutos processando a informação, sem conseguir questionar a segunda parte em voz alta.
— Todo o fogo existente na Terra se apagou, Kai. As pessoas não conseguem mais acender um fósforo que seja e isso não deveria acontecer, já que os elementos convivem em harmonia há miríades.
— O rei do Fogo não deu nenhuma satisfação? — Sentiu a boca amargar com o termo, dando mais um gole em seu café para tentar se livrar da sensação.
— Como você esteve em missão recentemente e acredito que não acompanha as notícias dos Primordiais, não deve saber que o rei do Fogo foi consumido, não?
Kai se afogou com seu cappuccino na hora, tossindo e batendo no peito freneticamente depois disso. “Consumido” era um eufemismo para morte, quando um rei era literalmente devorado por seu elemento e deveria ser substituído, o mais rápido possível, pelo herdeiro do trono.
A questão é que o rei do Fogo atual não tinha completado nem o equivalente a dez anos terrestres no poder, muito menos tido filhos. Kai, inclusive, assistiu à coroação, que aconteceu no mesmo ano de sua formatura. Park Yooran, agraciado em nome do arconte do fogo, recebeu a chama da eternidade na frente de todos os habitantes do planeta.
— Depois que o rei Yooran foi consumido, o Conselho instaurou uma operação junto a Inteligência do planeta E-408 para investigar o acontecido. O principal suspeito agora é… o irmão mais novo do rei.
— Chanyeol, Aiya. Pode parar de ser tão condescendente comigo. Passaram sete anos, eu não me importo mais — suspirou, analisando a imagem que a robô projetou na tela: a chama eterna queimando sozinha no trono, protegida por uma redoma de vidro, já que não tinha mais um receptáculo. — E onde aquele irresponsável se meteu? Provavelmente alguém armou isso, ele nunca mataria o irmão.
— Esse é o problema, Kai. Não conseguimos achar o Chanyeol em lugar nenhum no espaço visível.
— E o que os Primordiais estão fazendo para ajudar? — perguntou irritado. Kai não era nem um pouco afetuoso com os quatro reinos. — Aliás, o rei da pedra não vem até aqui hoje buscar o Baekhyun? Muito desocupado para a situação.
— É o rei da terra, Kai — corrigiu.
— Pois eu só conheço uma Terra e ela não tem rei — retrucou, cínico. — Inclusive, monarquia é um negócio batido, não? O que os Park têm que só eles podem manter a chama eterna?
— Foi uma pergunta retórica ou você realmente quer saber, Kai? — A inteligência artificial questionou sinceramente, ainda sem saber lidar com o agente.
— Foi, eu sei como funciona a linhagem dos elementais. Mas, vai, o que está acontecendo com o Sol?
— Está apagando, voltará a ser o que era sem o fogo. O Conselho vai se reunir logo mais para definir a missão e colocar Chanyeol na lista de procurados. Se o fogo sumir, consequentemente a vida na Terra morrerá com o apagamento do Sol. — Ela ponderou por alguns segundos o que deveria dizer, analisando os níveis de tensão no corpo do Kim. — Você sabe da história do Sol ou devo passar um filme educativo de cinco minutos de duração, Kai?
— Não precisa, eu sei.
Kai sabia a história do Sol como ninguém. Se lhe perguntassem como, ele iria dizer que aprendeu na escola de cadetes. Não seria de toda mentira, claro, mas quem lhe contou a história do Sol, de um jeito que ele nunca iria esquecer, foi Park Chanyeol. Seu ex-namorado, herdeiro real da linhagem do Fogo, e atual desaparecido interestelar.
