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Fandom:
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Characters:
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Language:
Português brasileiro
Collections:
Advento da Vitória
Stats:
Published:
2022-05-29
Words:
500
Chapters:
1/1
Comments:
9
Kudos:
20
Hits:
80

O gosto do nada

Summary:

Um fim de noite frio e chuvoso em Cokeworth provoca a mente de Hermione de muitas formas e evoca algumas memórias.

Notes:

Esta história foi escrita em resposta ao Desafio "Advento da Vitória", promovido pelo grupo Severo Snape Fanfictions.

Prompt: Flashbacks

Estou muito contente em poder contribuir para mais um prompt do desafio.
Dessa vez, tirei inspiração em um poema que gosto bastante, e que despertou em mim a vontade de escrever essa história. Vou compartilhá-lo na íntegra, nas notas finais.

Disclaimer: Harry Potter pertence à J. K. Rowling, sou apenas uma humilde fã da saga do bruxinho que gosta de escrever fanfictions. Plágio é crime.

Boa leitura!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

                                                                      O gosto do nada - por Crik Snape

                                                                                                   

Num fim de noite em Janeiro, o mês mais frio e chuvoso da estação, Hermione lutava, em vão, para se manter concentrada na leitura. O único ponto de luz no quarto provinha de uma lâmpada no teto, que piscava de tempos em tempos. Assim como fazia com as goteiras da chuva, ela ignorava completamente os reparos urgentes da casa.

Acomodada à cama, segurava nas mãos o exemplar cuja lombada puída ainda permitia ler o título em letras douradas: "Les fleurs du mal". Encontrava-se presa na mesma página há horas. Em parte, ela tinha dificuldade em virar a última página, da mesma forma que sua mente tinha de ater-se à realidade.

Após mudarem para essa casa, Hermione descobriu que tinha um problema. Seus — muitos — livros não cabiam na estante, onde já haviam os dele. Severus lhe disse que podia doar alguns, se quisesse. Ela, então, os separou em uma caixa. Ele nunca admitiu entusiasmo pela obra, no entanto, no dia seguinte, misteriosamente, o livro de poemas estava na estante de volta. Quando questionado, Severus desconversou atraindo-a para seu colo, sentado na poltrona do escritório, calando-a e, ao mesmo tempo, provocando-lhe ruídos de prazer. Eles se amaram e ela deixou o livro cair, rasgando na última página.  

Em algum momento entre um suspiro mais longo, Hermione sentiu um calafrio repentino percorrer as extremidades dos seus membros.

Severus tinha roçado em suas pernas por baixo da coberta quando deitou-se ao seu lado. “Seus pés estão gelados, Hermione…”

— Eu sei — respondeu em voz alta, retesando-se contra o encosto. 

As paredes de tijolos da casa em Cokeworth não isolavam as baixas temperaturas como deviam. De repente, um estalo no receptáculo da lâmpada extinguiu de vez a luz artificial, assustando-a. Só havia, agora, a claridade bruxuleante dos postes na calçada que invadia através das vidraças, molhadas pela chuva invernal. 

“Você podia ter evitado isso, você sabe…”, ralhou ele.

— Não é minha culpa se as fiações da sua casa estão velhas — devolveu-lhe, mesmo sem poder vê-lo. 

Ele riu, nasalado, zombeteiro.

Hermione sentiu como se os lençóis da cama se ondulassem ao seu redor, numa carícia macia, quente e envolvente. Na ausência da completa visão, sua mente trabalhava com exímio para formar as imagens.

Severus tinha se aninhado contra seu corpo, apoiando o queixo liso, sem barba, em seu ombro. As pernas, ele as entrelaçou com as delas, prendendo-a, definitivamente, no lugar. Normalmente, ele ocupava muito espaço na cama, mas agora parecia querer se fundir a ela. Naquela época, também era inverno, mas o corpo dele queimava febril há dois dias. Não tinha adiantado as poções, tampouco o tratamento alternativo para a infecção persistente. Ele depositou um beijo na curva de seu pescoço — o hálito quente —, antes de desvanecer em seus braços.

Alguns estalidos na vidraça a alertaram para uma chuva de granizos e a despertou do devaneio. Inconscientemente, tateou o lado oposto da cama. Nada. Ninguém. Ela estava exausta de viver entre o limiar de seus flashbacks e uma realidade distorcida. Era amargo o gosto do nada. 

Notes:

Quem me conhece sabe que Angst é o meu tipo favorito de escrita. Ao contrário do que se esperaria, eu tive um imenso prazer ao escrever essa.

A proposta era trazer uma realidade de perda e superação pela morte do personagem, retratando uma mente que vive entre o limiar das memórias e de uma realidade distorcida onde ela mal pode dizer o que é real ou ilusão. Por isso Hermione responde em voz alta as falas de Severus que ela criou em sua própria cabeça. E, assim, ela se perde, constantemente, em memórias do passado.

Talvez eu faça uma continuação (ultimamente evito fazer promessas rsrsrs)

Obrigada a todos que comentarem!
Um beijo!

Segue o poema:

 
>> O gosto do nada

Espírito sombrio, outrora afeito à luta,
A Esperança, que um dia te instigou o ardor,
Não te cavalga mais! Deita-te sem pudor,
Cavalo que tropeça e cujo pé reluta.

Conforma-te, minha alma, ao sono que te enluta.

Espírito alquebrado! ao velho salteador
Já não seduz o amor, nem tampouco a disputa;
Não mais o som da flauta ou do clarim se escuta!
Prazer, dá trégua a um coração desfeito em dor!

Perdeu a doce primavera o seu odor!

O Tempo dia a dia os ossos me desfruta,
Como a neve que um corpo enrija de torpor;
Contemplo do alto a terra esférica e sem cor,
E nem procuro mais o abrigo de uma gruta.

Vais levar-me, avalanche, em tua queda abrupta?

Charles Baudelaire (1821-1867)
- extraído do livro "As flores do mal", tradução de Ivan Junqueira