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Num fim de noite em Janeiro, o mês mais frio e chuvoso da estação, Hermione lutava, em vão, para se manter concentrada na leitura. O único ponto de luz no quarto provinha de uma lâmpada no teto, que piscava de tempos em tempos. Assim como fazia com as goteiras da chuva, ela ignorava completamente os reparos urgentes da casa.
Acomodada à cama, segurava nas mãos o exemplar cuja lombada puída ainda permitia ler o título em letras douradas: "Les fleurs du mal". Encontrava-se presa na mesma página há horas. Em parte, ela tinha dificuldade em virar a última página, da mesma forma que sua mente tinha de ater-se à realidade.
Após mudarem para essa casa, Hermione descobriu que tinha um problema. Seus — muitos — livros não cabiam na estante, onde já haviam os dele. Severus lhe disse que podia doar alguns, se quisesse. Ela, então, os separou em uma caixa. Ele nunca admitiu entusiasmo pela obra, no entanto, no dia seguinte, misteriosamente, o livro de poemas estava na estante de volta. Quando questionado, Severus desconversou atraindo-a para seu colo, sentado na poltrona do escritório, calando-a e, ao mesmo tempo, provocando-lhe ruídos de prazer. Eles se amaram e ela deixou o livro cair, rasgando na última página.
Em algum momento entre um suspiro mais longo, Hermione sentiu um calafrio repentino percorrer as extremidades dos seus membros.
Severus tinha roçado em suas pernas por baixo da coberta quando deitou-se ao seu lado. “Seus pés estão gelados, Hermione…”
— Eu sei — respondeu em voz alta, retesando-se contra o encosto.
As paredes de tijolos da casa em Cokeworth não isolavam as baixas temperaturas como deviam. De repente, um estalo no receptáculo da lâmpada extinguiu de vez a luz artificial, assustando-a. Só havia, agora, a claridade bruxuleante dos postes na calçada que invadia através das vidraças, molhadas pela chuva invernal.
“Você podia ter evitado isso, você sabe…”, ralhou ele.
— Não é minha culpa se as fiações da sua casa estão velhas — devolveu-lhe, mesmo sem poder vê-lo.
Ele riu, nasalado, zombeteiro.
Hermione sentiu como se os lençóis da cama se ondulassem ao seu redor, numa carícia macia, quente e envolvente. Na ausência da completa visão, sua mente trabalhava com exímio para formar as imagens.
Severus tinha se aninhado contra seu corpo, apoiando o queixo liso, sem barba, em seu ombro. As pernas, ele as entrelaçou com as delas, prendendo-a, definitivamente, no lugar. Normalmente, ele ocupava muito espaço na cama, mas agora parecia querer se fundir a ela. Naquela época, também era inverno, mas o corpo dele queimava febril há dois dias. Não tinha adiantado as poções, tampouco o tratamento alternativo para a infecção persistente. Ele depositou um beijo na curva de seu pescoço — o hálito quente —, antes de desvanecer em seus braços.
Alguns estalidos na vidraça a alertaram para uma chuva de granizos e a despertou do devaneio. Inconscientemente, tateou o lado oposto da cama. Nada. Ninguém. Ela estava exausta de viver entre o limiar de seus flashbacks e uma realidade distorcida. Era amargo o gosto do nada.
