Work Text:
Já não era surpresa para o senhor e senhora Byun não encontrar o caçula em seu quarto nas manhãs de sábado, o adolescente saía cedo para nadar com os amigos e retornava um pouco depois do almoço.
A família Byun morava em uma cidade praiana da Austrália há bons anos. Tudo começou quando o senhor Byun, em busca de novas experiências de vida, decidiu vir à Oceania e por ali ficou, logo caiu de amores pela bela jovem que em todas as tardes de sábado estava na praia com as amigas. Os apaixonados se casaram anos depois na mesma praia que se conheceram, ao pôr do sol, rodeados de amigos e parentes. O filho mais velho do casal chegou depois de um ano de casados e o caçula quando o primogênito tinha sete anos. Baekbeom e Baekhyun eram a alegria da casa, que logo foi preenchida com mais um membro, o bebezinho Baekmin, bons anos depois.
Mesmo sendo irmãos, os garotos eram completamente diferentes um do outro. Enquanto Beom gostava de passar as tardes jogando videogame, Baekhyun preferia correr pelo quintal ou ir à praia nadar, sempre respeitando os limites dados por seus pais, é claro, mas, conforme o tempo ia passando, o Byun mais novo começou a extrapolar esse limite. Ali perto tinha uma enorme ilha, lugar onde muitos pescadores iam para pegar seus peixes e jovens para acampar na areia do local, essa ilha tinha o nome de Mako e sempre despertou uma certa curiosidade por parte do australiano.
Então, quando fez quatorze anos, junto de seus dois melhores amigos, Jongin e Sehun, juntaram suas coisas e foram juntos à Mako, onde passaram a noite à beira-mar e tudo teria dado certo se o jovem Byun tivesse ficado no acampamento. Durante a madrugada, Baekhyun teve a brilhante ideia de explorar a ilha.
Assim que se certificou que seus amigos dormiam feitos pedras, levantou devagar, pegou uns panos de prato de dentro das mochilas, junto de uma lanterna e uma garrafa de água e correu mata adentro. Após cerca de vinte minutos de caminhada, nunca esquecendo de amarrar um pedaço de pano em árvores para não se perder, o Byun chegou a uma estranha caverna, a pedra do lugar tinha desenhos estranhos e confusos. Uma pessoa normal teria entendido aquilo como um sinal de: pare o que está fazendo, seu idiota! Volte para sei lá de onde veio. Entretanto, Baekhyun não era uma pessoa de seguir sinais escritos em rochas e andou mais um pouco até encontrar uma caverna, não demorando para correr dentro dela.
Toda a parede de pedra era repleta de desenhos confusos e símbolos, caminhando mais um pouco, Baekhyun encontrou um buraco no chão que mais se parecia com uma pequena piscina, sorriu de canto e nem precisou pensar duas vezes, já foi arrancando suas roupas, ficando apenas de bermuda e pulou dentro da água azul. Riu alto e mergulhou algumas vezes, sorrindo largo ao sentir a água geladinha bater em sua pele.
O garoto descansava encostado em uma das pedras, ainda dentro da piscina, quando sentiu algo puxar seu pé. Assustado, o garoto olhou para a água a fim de ver se era algum de seus amigos que estavam pregando um truque por fugir do acampamento, mas tudo que encontrou foram suas pernas balançando para os lados, estava sozinho ali. Vendo que algo muito estranho estava acontecendo, decidiu voltar para praia, mas quando tentou sair da água, sentiu novamente como se alguma coisa estivesse o prendendo e, quando percebeu, foi puxado para o meio da piscina, onde uma forte luz iluminou seu rosto antes de apagar completamente.
Baekhyun foi encontrado pelos amigos na manhã seguinte, claro que levou bons sermões por sair do acampamento no meio da noite e ter preocupado os dois.
O Byun ainda estava um pouco confuso com a situação da noite anterior, mas optou por deixar aquela história de lado por enquanto. Porém, assim que chegou em casa e correu para tomar seu banho, teve uma nem tão agradável surpresa, foi como se suas pernas se juntassem para formarem uma única parte, o que fez com que caísse na banheira feito bosta. Soltou um resmungo de dor, mas quando olhou para suas pernas, paralisou.
Tinha duas opções: estava louco por conta da água salgada no ouvido ou ainda estava sonhando.
No lugar onde suas pernas deveriam estar, estava uma dourada, enorme e brilhante cauda de peixe. O Byun a encarava sem entender o que estava acontecendo, fechou os olhos e começou a fazer de tudo para acordar daquele “sonho”. Beliscou, apertou os próprios braços e deu leves tapinhas em seu rosto e, respirando fundo, abriu seus olhos dando de cara com aquela coisa.
— Tudo bem, Baekhyun, pense em algo — falou para si. Desligou a torneira da banheira e tentou sair de lá sem cair de cara no chão gelado, o que claramente não aconteceu.
Tinha sorte de ter seu próprio banheiro, caso contrário, estaria muito encrencado. Com uma certa dificuldade, arrastou seu corpo para o meio do quarto, suspirando aliviado ao ver a porta do cômodo fechada. Pegou uma toalha que estava sob a cama, colocando-a em cima da cauda e alcançou o telefone, ligando para os amigos, pedindo que viessem rápido para sua casa, porque algo estranho tinha acontecido. Não preciso dizer que Sehun o xingou de tudo que era nome e que Jongin só não o mandou tomar naquele lugar porque estava morrendo de sono.
Enquanto esperava os amigos, Baekhyun encarava a sua nova companheira, ela pesava feito pedra, talvez seja porque não estava acostumado com aquela coisa e não estava nem um pouco a fim de continuar com ela. O Byun encostou a cabeça no colchão e suspirou longamente, sua garganta estava seca demais, olhou para o quarto à procura de uma garrafa de água e resmungou ao vê-la sob sua mesinha, longe demais para ir se arrastando. Bem que poderia ter algum poder, igual os jedis usando a força para alcançar seus sabres de luz a distâncias, deu de ombros e ergueu a mão na direção da garrafa, fazendo uma pequena força.
Sorriu ao ver que o objeto nem tinha se movido, no entanto, quando abaixou a mão, a garrafa praticamente voou em sua direção, acertando seu braço em cheio. O Byun fechou os olhos, torcendo para que aquilo não passasse de um sonho completamente sem sentido, porém quando os abriu teve a péssima notícia de que era tudo real. Jogou a cabeça para trás, soltando um resmungo e praticamente implorando para que seus amigos chegassem logo.
Milhares de perguntas passavam por sua mente; e se ficasse daquele jeito para sempre? Nunca mais poderia correr na areia da praia ou dançar! Não poderia mais ser um garoto normal de quatorze anos.
Byun Baekhyun, se recomponha! Coloque essa sua cabecinha de sardinha para funcionar pelo menos uma vez na vida!
Olhou para a toalha felpuda em seu colo e começou a esfregá-la por todo seu corpo, não deixando nem uma gota de água sequer, não esquecendo de seus braços e cabelo, estava tão concentrado em seu trabalho que mal escutou o som da porta dos fundos da casa ser aberta e o barulho de passos pelo chão de madeira se aproximando. Quando seus músculos já estavam cansados, uma estranha camada de água cobriu seu corpo e, no mesmo instante que a porta se abriu, suas amadas pernas estavam de volta, deixando o garoto com apenas uma toalha cobrindo suas partes íntimas.
Seus amigos o olharam sem entender, era sério mesmo que Baekhyun tinha os chamado quase desesperado ao telefone para chegarem, estavam esperando encontrar o rapaz com um corte na perna ou machucado, mas não sentadinho do mesmo jeito que tinha vindo a este mundinho azul e verde.
— É sério, Baekhyun? Pensei que estava morto ou coisa do tipo! — Jongin resmungou, o Byun podia ver a cara amassada do Kim, a boca inchada e os olhos quase fechando devido ao sono que passava por seu corpo. — Olha, sei que temos intimidade demais e tals, mas acho que medir o coleguinha e comparar com os dos outros é meio sexta série.
— O quê? Não, Jongin, que nojo! — Baekhyun gritou, segurou melhor a toalha e se levantou. — Alguma coisa estranha aconteceu comigo na ilha, algo muito fora do normal!
— É, com certeza aconteceu, um bicho deve ter entrado na sua cabeça e colocado ovos no seu cérebro! — Sehun, o mais novo do trio, falou debochado. Baekhyun fechou a cara e pegou a garrafa de água que estava jogada ao lado da cama, olhou para o Oh antes de abrir o plástico e jogar todo o conteúdo líquido em seu corpo, soltando a toalha antes. — Baekhyun! Por Deus, o que está fazendo? — O mais novo levou as mãos ao rosto, ato repetido por Jongin, logo começaram a soltar palavrões e xingamentos para o mais velho, apenas pararam quando escutaram o som de algo caindo no chão.
Jongin foi o primeiro a tirar a mão do rosto, seu corpo congelou, sua garganta parecia ter perdido toda a umidade natural e seus lábios cheios se partiram em total surpresa. Sehun, ao notar o silêncio repentino do amigo, decidiu saber o que estava acontecendo e quase caiu para trás ao ver Baekhyun — ou que deveria ser Byun Baekhyun — caído em sua frente com a cintura para cima despida e seguindo mais para baixo com uma cauda dourada de peixe.
Foi necessária quase meia hora para que Sehun e Jongin notassem que o Byun estava em apuros com aquela coisa. Eles moravam cercados de água e mais água, manter o mais velho longe dela seria uma missão impossível, sem contar que teria que dar uma ótima explicação para seus pais de o porquê ele não podia mais mergulhar com eles nas saídas em família e Baekhyun era péssimo em mentiras, ficava nervoso demais e acabava se entregando facilmente.
O mais velho estava assustado com aquilo tudo e, por mais que a dupla mais jovem também estivesse, nunca deixariam o rapaz sozinho naquela situação, encontrariam uma forma de trazer o amigo a sua forma normal sem despertar nenhuma suspeita da família Byun — ou das suas.
A primeira vez que Baekhyun percebeu que ter uma cauda de peixe não era o fim do mundo, foi quando, em uma ensolarada tarde de sexta-feira, decidiu mergulhar, seria a primeira vez em dois meses que entraria no mar desde que toda aquela confusão tinha se iniciado.
O sol estava rachando e queimava sua pele, o Byun respirou longamente antes de tirar as roupas, deixando-as sobre uma pedra bem escondida na beira da praia, ficando apenas de calção de banho. Correu até a imensidão azul e mergulhou fundo, sentindo aquele formigamento nas pernas antes da cauda dourada aparecer.
Agora, não tinha mais volta.
Fechou os olhos, sentindo seu corpo relaxar embaixo da água geladinha, era uma sensação estranha, como se agora fizesse parte daquele mundo, ele conseguia sentir a energia do mar, dos peixes, de cada forma de vida que ali tinha. Baekhyun se sentia mais vivo do que nunca.
Desde aquele dia, o adolescente passou a mergulhar mais vezes, gostava de estar em meio à água salgada e acabou desistindo da ideia de encontrar uma forma de voltar ao normal, estava encarando aquilo como um presente misterioso e único. Sabia que um dia poderia se arrepender da decisão e que seria necessário contar aos seus pais sobre seu segredo, mas a gente só vive uma vez, então por que não aproveitar essa oportunidade única de poder ver o oceano de um ponto de vista diferente e novo?
~ 4 anos depois ~
Baekhyun nadava com toda velocidade que tinha em suas nadadeiras, tinha que ganhar aquela corrida daqueles dois palermas.
Nos últimos anos, por conta de suas saídas para mergulhar, suas habilidades de nado ultrapassaram suas expectativas, ele agora era capaz de nadar mais rápido que um barco mediano com um motor relativamente potente. Mas, isso não era a única coisa nova, além da natação em seu auge, tinha descoberto que com a cauda alguns poderes tinham vindo de tiracolo, agora ele conseguia mexer as coisas, principalmente a água, usando a própria mente — coisa que ele lembrou de ter feito no dia que ganhou a cauda com aquela que garrafa plástica — e fazer algo como vapor quente, o que o ajudava em situações desesperadas.
O trio estava a caminho de Mako, como sempre, para cumprirem a tradição de acampar ali que mesmo com a nova companheira do Byun foi mantida, a única diferença era que agora eles também ficavam mais tempo na caverna onde Baekhyun fora transformado; o lugar recebeu o nome carinhoso de Piscina da Lua, visto que o local realmente lembrava uma piscina e a lua em seu ponto mais alto parava exatamente em cima dela.
Outra grande descoberta que tinha feito era relacionada ao seu contato com a água, depois de vários incidentes e testes, ficou confirmado que ele apenas virava um tritão quando recebia excesso de água no corpo, por exemplo, poderia se transformar se alguém derrubasse um copo de água sobre si ou se molhasse toda a mão. Porém, se por algum acaso um animal molhado, ou alguém com cabelo ou toalhas molhadas balançasse em sua direção, ele viraria um tritão, por isso tomava todo cuidado para não passar perto de animais e de pessoas saindo da praia ou da piscina pública.
O Byun levantou o corpo, sorrindo vitorioso ao ver que tinha chegado segundos antes dos amigos na beira da praia da ilha. E, com esse mesmo sorriso, nadou na direção dos amigos que desligaram o barco e se preparavam para atracar.
— Acho que bati meu recorde! E você está me devendo dez pratas, Nini! — Sehun riu alto da cara do melhor amigo. Nunca entendeu o porquê de Jongin continuar apostando coisas relacionadas ao nado com Baekhyun, era notável que o mais velho ganharia de lavada. O Kim revirou os olhos e jogou uma maçã na cabeça do amigo, que resmungou de dor e pegou a fruta, mordendo-a em seguida.
— Vou é te dar um soco, isso sim — Jongin murmurou, além dessa ameaça, um xingamento tão baixo que nem o Byun foi capaz de ouvir, estava ocupado demais rindo das feições irritadas do amigo. — Eu juro, que se você não parar de rir, eu irei aí e te afogarei. — Apontou o dedo para o tritão que lhe mostrou a língua.
O Kim largou as cordas na areia da praia e pulou na água, nadando até Baekhyun, para em seguida jogar seu corpo sobre o alheio, pouco estava se importando se o amigo era capaz de respirar embaixo d‘água. Sehun revirou os olhos com a cena, às vezes nem parecia que ele era o mais novo naquela amizade, sofria por ser o único a ter um pouco do cérebro ainda em funcionamento.
O Oh terminou de arrumar as coisas na areia fofinha da ilha e esperou as duas crianças pararem de brigar como dois animais, o que não demorou muito para acontecer, visto que Jongin saiu da água pisando forte, enquanto Baekhyun ria alto e nadava para beira. Jongin pegou uma toalha dentro da mochila e secou todo o rosto, espremendo seu short e blusa para tirar o excesso de água, quando terminou, colocou a mochila nos braços ao mesmo tempo que Baekhyun apareceu ao seu lado, já em sua forma humana, trajando uma blusa fina branca, um short largo e tênis velhos.
O ar estava quente, mas um tanto fresco por conta da proximidade com o mar, o vento batia levemente em seus rostos, chegaram em uma boa hora, ainda era cedo, então daria para explorarem mais da ilha e procurarem mais coisas dentro da caverna da Piscina da Lua. O trio caminhava animado por entre as árvores e galhos caídos, rindo e lembrando de quando eram mais novos e das várias vezes que se perderam na mata espessa.
A caverna estava da mesma forma que a tinham deixado no mês passado — glória, isso significava que ninguém tinha entrado ali naquele intervalo de duas semanas —, as paredes decoradas com algumas polaroids com fotos do trio. Lâmpadas pisca-piscas velhas de natal da senhora Oh, que funcionavam apenas com a pequena bateria que Sehun sempre levava, e algumas bolsas com roupas extras escondidas por entre as pedras, além da câmera que Sehun tinha deixado ali para caso algo acontecesse sobrenatural eles seriam capazes de saber. Largaram as mochilas em um canto e se sentaram na borda da piscina, sendo Sehun e Jongin os únicos a colocarem os pés dentro da água geladinha do local.
Não sabiam exatamente quanto tempo ficaram ali dentro conversando, mas notaram que já estava quase anoitecendo quando a luz dentro do local começou a diminuir, por isso decidiram voltar para praia e montar uma pequena fogueira para esquentar seus jantares, que eram basicamente miojo e peixes. Jongin puxou o celular de um dos bolsos da mochila e colocou uma música antiga para tocar, os amigos balançavam a cabeça conforme a batida enquanto comiam bem seus alimentos.
— Fiquei sabendo que a casa do Senhor Joe foi comprada, já sabe quem vai morar lá, Baek? — Jongin perguntou. O Senhor Joe era um velho rabugento que vivia na casa ao lado da residência da família Byun e tudo o que ele sabia fazer era reclamar de que os jovens de hoje em dia não sabiam fazer mais nada da vida, além de passarem seus dias em seus celulares e computadores, perturbando a paz alheia. Vivia pegando no pé do trio, então quando souberam que o homem estava indo embora, faltaram soltar rojões de comemoração.
— Parece que é uma família com um filho pequeno — Baekhyun respondeu dando de ombros, claro que estava curioso para saber quem seriam seus novos vizinhos, todavia sua mente estava ocupada em pensar em negações para os possíveis convites que receberia da família. — Me passa a água, Nini, por favor.
— Mas, como sabe que eles têm um filho pequeno? — dessa vez, foi Sehun quem perguntou. Baekhyun pegou a garrafa de água das mãos do Kim antes de responder.
— Eles estavam carregando uma caixa com uns bonecos do Homem de Ferro, Deadpool e por aí vai, então deduzi que eram brinquedos de uma criança — concluiu, bebendo um pouco do líquido, tomando um cuidado maior para não derrubá-lo em seu corpo.
— O filho deles pode muito bem ser um adolescente que gosta dos bonecos da Marvel, um colecionador quem sabe — o Kim falou, Baekhyun balançou a cabeça como se desacreditasse na ideia. Jongin sorriu malicioso. Sehun respirou fundo já sabendo o que aquele sorriso significava. — Aposto vinte pratas que ele é da nossa idade.
Baekhyun ergueu o rosto, portando o mesmo sorriso do amigo, cuspiu na palma da mão e a esticou para Jongin que repetiu o ato antes de apertar a mão estendida para si, selando mais um das várias apostas feitas pelos rapazes. Sehun resmungou de nojo com aquilo, existiam várias formas de selar promessas sem ser algo tão nojento, porém agradecia que os dois não eram doidos a ponto de cortarem as próprias mãos e fazerem aqueles acordos de sangue que só acontecem nos filmes — que quase sempre dão merda no final.
E também, levando em consideração a inteligência reduzida dos dois, era bem capaz de se cortarem mais do que esperavam e da maneira errada ainda por cima.
Quando terminaram de comer e após descansarem por alguns minutos, voltaram com calma para a caverna, não demorando para arrumarem os colchões que seriam suas camas naquela noite, não eram dos mais confortáveis, mas é bem melhor do que dormir em um chão de pedra. O trio pegou no sono após minutos de conversas banais e piadas, grande parte delas direcionadas a Jongin por quase sempre ser o perdedor das apostas com Baekhyun.
• • 🧜♂️ • •
Assim que o dia amanheceu, o Byun escorregou o corpo para dentro da piscina, acordando a dupla mais nova com o barulho de seu corpo se chocando com a água, mergulhou rapidamente para acordar mais rápido, estava todo quebrado e dormir todo torto não ajudava muito. Subiu para a superfície após bons minutos de nado para esticar as nadadeiras e comeu seu café da manhã, uns biscoitos e suco já nem tão gelado, ali mesmo, sentado com a cauda dentro d'água.
O trio terminou de arrumar as coisas dentro das mochilas e na caverna, tomando cuidado para não deixar aparente que estiveram ali dentro.
Baekhyun entregou sua mochila para os amigos, dizendo para eles irem à frente, já que queria nadar mais um pouco antes de irem embora. Sem reclamar, a dupla colocou a sua mochila junto às outras e deixaram a caverna assim que o mais velho mergulhou na piscina, eles se encontrariam na beira da praia em alguns minutos.
Com os olhos fechados, a cauda balançando devagar para cima e para baixo, Baekhyun sentia-se menos tenso, ao mesmo tempo que sentia suas energias renovarem. Ria conforme os peixinhos passavam ao seu lado, as escamas fazendo cócegas em seus braços e rosto, de longe avistou um tubarão, controlou a vontade de nadar até ele e fazer-lhe um carinho.
Ao ver que o barco dos amigos sobre sua cabeça, nadou em direção às pedras para poder se secar, sentou-se em uma delas e esticou a palma da mão para cima da cauda e a fechou, resmungando um pouco ao sentir a água das escamas evaporar e o familiar formigamento tomar conta de seu corpo.
Não demoraram muito para chegarem à cidade, o porto estava cheio por conta dos vários turistas que chegavam ou devido aos cruzeiros que faziam algumas rápidas paradas ali. Os amigos prenderam o barco e seguiram para casa do Byun, por ser a mais próxima, e porque sabiam que a deliciosa comida da senhora Byun os esperava prontinha para ser devorada. No entanto, tudo que encontraram foi a dona da casa, carregando o caçula no colo, enquanto conversava animada com uma mulher desconhecida; elas riam alto, como se fossem velhas amigas.
— Louise, esse é o meu filho do meio, Baekhyun, e esses são Sehun Oh e Jongin Kim, esses três são amigos desde crianças — Erikka falou assim que viu o filho se aproximando com os amigos, beijou o rosto do menino e se voltou sorridente para a mulher. — Baek, essa é Louise Park. Ela, o marido e o filho são os novos moradores da casa do Velho Joe. E onde está, Chanyeol? — perguntou virando-se para a mulher.
Chanyeol? Provavelmente era a criança, dona daqueles inúmeros brinquedos de super-heróis. E que Deus o proteja de sua mãe não sugerir que ficasse de babá para ele!
— Deve estar arrumando as coisas no quarto ou lendo mais um de seus gibis — respondeu, com os olhos fechados e a cabeça balançando levemente. Ergueu o rosto assim que escutou o barulho da porta da casa ser aberta e olhou para trás. — E, falando nele...Yeol, venha cá!
Baekhyun olhou por cima do ombro da mulher, esperando ver um garotinho melequento de oito anos, todo sujo e coberto de ranho, porém seus olhos capturaram a visão de um rapaz alto, de cabelos castanhos escuros, bagunçados como um ninho de passarinho, de óculos de armação redonda caindo em seu nariz.
Ele era lindo!
A afirmação rodava na mente do Byun do meio conforme o garoto se aproximava da mãe. O tal de Chanyeol abaixou a cabeça levemente como cumprimento, não dizendo uma palavra sequer.
— É um prazer conhecê-lo, Chanyeol. — A Byun sorriu abertamente. — Espero que goste da vizinhança. Caso queira, Baekhyun pode mostrar-lhe a cidade e, quem sabe, ajudá-lo com as matérias do colégio.
A mulher estava mais empolgada que a própria senhora Park e Baekhyun não entendia o porquê. Ele tinha cara de um tipo de guia para adolescentes novatos na cidade? Sentia muito em informar que Jongin era a pessoa mais capacitada para tal trabalho. Quando sua mãe começava a falar tanto assim, Baekhyun parava geralmente de dar ouvidos, apenas sorria e balançava a cabeça como se concordasse com alguma coisa, quando, na realidade, sua cabeça estava no maravilhoso petisco de lagosta do café perto da escola.
Ah, como amava sentir aquele gostinho da carne passeando por seus lábios.
Argh, estava faminto, precisava comer alguma coisa já.
Soltou um resmungo ao perceber que aquela conversa duraria mais do que o esperado, seu lanchinho teria que esperar um pouco, mas se dependesse da animação das mulheres à sua frente, aquele papinho duraria o resto do dia.
• • 🧜♂️ • •
Acordar cedo não estava na lista das coisas que Baekhyun mais amava no mundo e, olha que essa lista era repleta de coisas assustadoras e estranhas, como, por exemplo: aranhas, insetos enormes, aquelas algas marinhas que grudam feito cola em sua cauda e o monstrinho preto do famoso filme “A Viagem de Chihiro” — se você nunca teve um pesadelo por conta daquele cara, parabéns, o seu estado mental deve ser de ferro atualmente.
Resmungou alguns palavrões, rolando o corpo na capa à procura de seu celular, só não jogaria o aparelho na parede porque não tinha dinheiro para comprar outro e seus pais apenas iriam dizer para dar o seu jeito de arrumar grana para adquirir um novinho em folha.
Sentou-se na cama, com os olhos ainda meio fechados e o cabelo espetado, se arrependendo amargamente de ter dormido tão tarde na noite anterior, esquecendo-se completamente do início das aulas na manhã seguinte; se bem que Sehun tinha os avisado que tinham algo importante no dia posterior, mas os outros estavam ocupados demais fazendo apostas de nível primário dois enquanto se entupiam de batatas fritas. Jogou o corpo para fora da cama, pegando a muda de roupa que deixou separada na noite anterior em cima da cadeira ao lado de sua escrivaninha, respirou fundo encarando o relógio na parede antes de entrar no banheiro, se certificando de trancar bem a porta.
No começo era estranho entrar na banheira e dar de cara com a sua companheira de escamas douradas, porém não podia ficar sem tomar banho, tudo o que menos queria era começar a cheirar como peixe.
Encostou a cabeça na parede fria do banheiro, suspirando longamente, sentia-se mal por não conseguir contar a sua família sobre seu nem tão pequeno incidente em Mako, mas conhecendo os pais que tinha, sabia muito bem que os mais velhos fariam de tudo para impedir que colocasse os pés — ou nadadeiras — na ilha novamente, o que jamais poderia acontecer. Após o ocorrido, Baekhyun se sentia ligado à ilha de alguma forma, como se sentisse cada forma de vida ali existente e ficava ainda melhor quando nadava nas redondezas do local.
Talvez, apenas o fato de Sehun e Jongin serem os únicos a saberem disso seja a melhor coisa e ele esperava que esse segredo continuasse apenas entre eles; não queria que ninguém descobrisse, sabe-se lá o que fariam consigo, provavelmente seria vendido para algum daqueles circos que expõem coisas exóticas ou para laboratórios a fim de ser estudado, ou, na pior das hipóteses, para o mercado clandestino.
(E ele também não queria trocar o nome do grupo no aplicativo de mensagens que tinha com os amigos. “Três homens e um segredo” é uma grande e importante nomenclatura).
Quando notou que já estava limpo o bastante, tirou a tampa do ralo da banheira e ergueu o corpo, fazendo força nos braços para conseguir sair de lá. Esticou a palma da mão até estar sob sua nadadeira e foi a fechando devagar, o banheiro sendo coberto por uma fina camada de vapor que fez com que a cauda de peixe desse lugar às suas amadas e bonitinhas pernas bem humanas. Levantou-se, terminou de secar o cabelo com uma toalha velha e correu para se vestir, checando sempre o horário no celular.
Quando pronto, calçou seus tênis e colocou o resto de seus livros dentro da mochila antes de sair em disparada para fora do quarto, descendo as escadas rapidamente e indo em direção à cozinha, onde seus pais se encontravam conversando tranquilamente, enquanto Baekmin brincava com os pequenos sanduíches no prato à sua frente.
Ao que tudo indicava, Baekbeom já tinha ido embora, sabia como o rapaz odiava se atrasar para os primeiros dias de aula e, mesmo na universidade, esse hábito de aluno exemplar se manteve.
Enfiou alguns sanduíches na mochila junto a uma garrafa de água, pegou uma fruta e beijou o rosto da mãe antes de sair correndo, gritando que não queria se atrasar.
Sehun e Jongin o esperavam na esquina de sua casa, assim que os viu, gritou por seus nomes e correu até eles, logo o trio começou a caminhar em direção ao colégio local. A SM High School era uma escola como exatamente as outras, o único diferencial da instituição era que seus alunos eram excelentes em quase explodir os laboratórios de química durante as aulas ou quando estudavam lá.
A primeira aula era de biologia e, infelizmente, não era sobre biologia marinha que Baekhyun amava por motivos óbvios. Estudar relações ecológicas estava longe de ser divertido e o Byun já estava pronto para sonhar com peixinhos palhaços durante a classe, quando o professor entrou acompanhado de um adolescente desajeitado, que Baekhyun reconheceu como sendo seu mais novo vizinho. Chanyeol vestia uma blusa larga com estampa de algum super-herói, uma bermuda clara e tênis pretos, os cabelos escuros ainda estavam com os cachinhos do dia anterior.
O docente apresentou o rapaz aos alunos, pedindo para que eles o tratassem bem e o mandou sentar duas carteiras de distância de Baekhyun, que sorriu fraco para o vizinho, achando adorável ver as bochechas gorduchas adquirirem um tom avermelhado.
Chanyeol parecia um cãozinho assustado, olhava para todos e prestava atenção em cada movimento feito pelos estudantes e pela professora. O lápis rabiscava a folha branca calmamente, onde deveriam estar as palavras da matéria, porém o Park parecia não se importar muito em copiar o conteúdo do quadro.
Baekhyun apoiou o rosto em uma das mãos, com os pensamentos voltando para a água geladinha do oceano, as correntes marítimas batendo em sua pele e toda a vida marinha ao seu redor, nem notou o tempo da aula passar e quando percebeu, já estavam sendo liberados para o primeiro intervalo. Juntou suas coisas e correu para fora da sala, ainda teriam mais duas aulas antes do intervalo do almoço, mas tudo era melhor do que ficar dentro daquela sala sufocante.
• • 🧜♂️ • •
O refeitório estava lotado e barulhento como de costume, as chamadas panelinhas já estavam sentadas em suas respectivas mesas e o televisor do local passava as notícias do jornal da escola. Mesmo com toda essa distração, Baekhyun não tirava os olhos de seu prato. O trio estava sentado em sua mesa de sempre, a mais próxima da porta de saída do lugar, achavam a localização perfeita, pois se algo acontecesse, eles seriam os primeiros a meterem o pé dali.
Enquanto Jongin estava mais ocupado em jogar migalhas de pão no cabelo de Baekhyun apenas para irritá-lo, Sehun olhava entediado para todos do local, revirando os olhos quando via Yuta, um dos jogadores do time de futebol do colégio, soltar alguma cantada para uma garota qualquer na mesa perto de si, sendo que todos sabiam que ele tinha um penhasco pela chinesa da sua turma de biologia, Song Yuqi, mas o garoto parecia fingir que aquele sentimento amoroso não existia e que implicava com ela por puro divertimento.
O Oh estava prestes a dar um tapa nas nucas dos amigos, pois os garotos começaram a se bater do nada, quando avistou um garoto alto e de cabelos escuros, totalmente perdido no refeitório. Chanyeol segurava sua bandeja com certa força, mas era possível ver suas mãos tremerem levemente, o garoto procurava uma mesa vazia ou um lugar que pudesse se sentar. Vendo tal situação, Sehun ergueu o braço e balançando a mão gritou pelo nome do garoto, chamando-o para sentar-se com eles. Os mais velhos pararam a pequena briga que estavam tendo a tempo de verem o rapaz tímido sentar-se na mesa, especificamente ao lado de Baekhyun.
Chanyeol não sabia o que fazer — só o fato de ter sido chamado para sentar com alguém no primeiro dia já poupava todo aquele sofrimento de ter que almoçar completamente sozinho por um bom tempo —, por isso continuou a comer, mastigando baixo e devagar.
— Então… Chanyeol, não é? — Sehun falou, chamando a atenção do mais alto e acabando com o silêncio vergonhoso que se instalou na mesa. O Park balançou a cabeça confirmando. — Minha mãe disse que vocês vieram da Coreia, é sério isso?
Mesmo sendo descendentes de coreanos, tanto Jongin quanto Sehun nunca tinham pisado em solo asiático. Já Baekhyun visitou a Coreia muito pequeno, portanto não tinha lembranças claras do tempo que passou por lá, por isso seus olhos curiosos se voltaram para o Park que falava um pouco sobre a vida no país, o sotaque aparente na voz do garoto tornava-o ainda mais adorável.
— Nos mudamos para cá por conta de uma transferência no trabalho da minha mãe, ela é bióloga marinha — falou, bebendo um pouco de seu suco de frutas. Baekhyun começou rapidamente a prestar mais atenção na conversa ao ouvir a profissão da mãe do rapaz, tinha muito interesse nessa área de biologia e agora essa vontade praticamente triplicou. — E ela também começou um estudo sobre algumas ilhas aqui perto e espera conhecê-las um dia.
— Fizeram uma bela escolha vindo pra cá, o que mais temos são ilhas — Jongin falou bebendo um pouco de seu suco. — Ela tem ideia de qual quer estudar primeiro?
Chanyeol fez uma cara pensativa, tinha ouvido a mulher falar de tantas ilhas que estava até confuso, porém uma em específico chamava a atenção da pesquisadora, ela dizia que existia algo ali que não era possível de ser explicado pela ciência, como fosse algo de outro mundo. A Ilha de Mako despertava uma curiosidade extraordinária em quem demonstrasse interesse em conhecê-la, como um feitiço antigo semelhante ao de várias lendas.
— Conhecem algo sobre Mako? Ela vive falando dessa ilha, nunca entendi o motivo, ela apenas fala que aquele lugar parece que a chama para visitá-lo. — Baekhyun sentiu o ar fugir de seus pulmões quando ouviu o nome da ilha ser pronunciado pelo Park. Seus olhos foram diretamente para os amigos, que estavam praticamente do mesmo jeito que si. — O que foi? Aquele lugar é tão estranho assim?
— Na realidade, não tem nada naquela ilha, apenas mato, mato, uns bichinhos minúsculos e mais mato — respondeu Sehun, indiferente, mordendo um pedaço do doce em sua bandeja. — Uma perda de tempo.
Chanyeol deu de ombros, voltando sua atenção para a comida à sua frente. E Jongin, vendo o clima tenso que se instalou ali, puxou assunto sobre algum filme de heróis que sairia no mês seguinte, coisa que fez os olhinhos redondos de Chanyeol brilharem como os de uma criança quando está frente a frente ao seu doce preferido.
Baekhyun suspirou aliviado ao notar que o assunto fora completamente esquecido, toda vez que alguém tocava no assunto Mako, seu coração faltava sair do peito de tão nervoso que ficava.
Mesmo não entendendo muito do que os mais novos falavam, tentou entrar no assunto a fim de distrair sua mente de pensamentos sobre a descoberta de seu maior segredo.
• • 🧜♂️ • •
Já fazia cerca de cinco meses desde que a família Park havia se mudado para a casa ao lado da sua, nesse tempo, Baekhyun e o coreano ficaram muito próximos, o que foi uma surpresa para todos, afinal o Park era como uma criança que cresceu demais e amava falar de super-heróis e coisas do gênero, enquanto Baekhyun estava mais para um velhote que só pensava em comer e dormir o dia todo.
Contudo, o Byun gostava da companhia do mais novo, era gostosinho passar tardes junto a ele, deitados no chão da sala da casa de algum deles, enquanto se enchiam de doces e porcarias assistindo filmes e jogando vídeo game durante o resto do dia. Sehun e Jongin chegaram a dizer que estavam sendo trocados pelo garoto de orelhas grandes e que um dia o jogo viraria, o australiano só sabia revirar os olhos e rir alto.
Com essa aproximação, Baekhyun chegou a pensar em contar seu segredo a Chanyeol, porém tinha medo da reação do outro. Não sabia se ele iria dizer que era um pirado e que precisava de um médico ou se era ele quem estava maluco e precisava ser internado imediatamente. De qualquer forma, o resultado poderia não ser da melhor forma possível. Não era do costume de Baekhyun passar seus dias — nem suas amadas e preciosas noites de sono — pensando sobre sua causa, ela já era tão parte de si que ele quase esquecia que ela existia. Porém, gostava de pensar como seria se sua amiga não fosse real, as coisas seriam muito mais simples e ele não precisaria se esconder até de seus pais.
Era um sonho um tanto distante e ele nem sabia se um dia seria capaz de encontrar uma forma de voltar a ser um humano normal.
Aquela era uma péssima época para estar com a cabeça cheia, semana de provas estava sendo extremamente cansativa, como se o mundo todo tivesse decidido se tornar a bagunça, sem contar que a lua cheia estava próxima, o que apenas aumentava a cota de estresse do jovem Byun. Quando mais novo, o rapaz costumava amar as noites de lua cheia — era maravilhoso ver aquela bola branca brilhante no céu repleto de estrelas —, contudo, depois do acidente em Mako, o adolescente descobriu que aquela luz da lua o afetava diretamente.
Ele basicamente se comportava como as sereias dos contos, aquelas que tinham como divertimento atrair marinheiros para o fundo do oceano com sua beleza e voz divina para matá-los no final, tudo para o seu divertimento.
Foi ainda no primeiro ano como tritão que Baek soube dos efeitos da lua cheia sobre si.
Ele lembra de estar na casa de Jongin deitado em seu colchão, já bem tarde da noite, quando decidiu abrir as cortinas por conta do calor e quando o brilho lunar iluminou seu rosto, foi como se ele não estivesse mais ali. O adolescente apenas abriu a porta que dava direto em uma varanda e começou a caminhar em direção ao mar metros à frente da residência, o barulho das trancas acordou Jongin que mal teve tempo de reagir, pois o amigo tinha pulado na água e desapareceu.
Baekhyun acordou dentro da piscina da lua, com os braços e cauda cansados, como se tivesse nadado até o outro lado do mundo em apenas uma noite. Desde então, nas noites de lua cheia, Sehun e Jongin dormiam em sua casa e davam um jeito de trancar todas as portas e janelas, cobrindo tudo que pudesse refletir a luz do satélite.
Jogou a lapiseira em cima dos livros, fechando os olhos enquanto suspirava longamente, estava muito estressado e com a cabeça lotada de perguntas. Encarou o visor do celular, arrastando o dedo pela barra de notificações, sorrindo leve ao ver mensagens animadas de Chanyeol sobre o filme que veriam assim que a semana de provas acabasse, o Park estava contando os dias desde o anúncio e comemorou como criança quando viu que a data de estreia seria no último dia de prova, como um belo presente.
Baekhyun, às vezes, em meio aos seus devaneios diários, se pegava pensando no mais novo, seja visualizando sua animação quando falava de algo que gostava ou quando simplesmente estava parado apreciando a música dentro dos fones de ouvido, gostava de como a presença de Chanyeol lhe fazia bem. Parecia que junto a ele, o Byun sentia-se dentro d'água, com as fracas ondas batendo em seu corpo, o vento gelado em seu rosto e o cheiro da maresia entrando em suas narinas, simplesmente parecia nadar por aí, era uma sensação estranhamente boa.
Estava tão preso em seus pensamentos sobre Park Chanyeol que nem notou a porta ser aberta, apenas voltou a si quando sentiu mãozinhas gordinhas em suas pernas e a risada alta de um bebê.
Abaixou a cabeça dando de cara com seu irmãozinho caçula, riu fraco e o pegou no colo, beijando seus fios loiros em seguida. Erikka, que estava parada na porta, sorriu com a visão e falou:
— Seu pai e eu temos que resolver umas coisas na cidade, como Beom está na aula, pode dar banho no Min para a reunião na casa dos Park's hoje?
Céus, Baekhyun estava muito ferrado.
Começando pelo fato de que tinha esquecido completamente dessa reunião e agora não podia dar mais desculpas ridículas para dizer que não estava querendo ir. O problema em si não era a reunião, mas sim o lugar que ela seria realizada. A família vizinha transformou o quintal de trás da casa em uma área de convivência, onde realizavam reuniões de família ou apenas passavam seu tempo livre, aquele lugar era praticamente colado com o oceano e qualquer barco que passa por lá é capaz de molhar quem estivesse perto.
Ou seja, um péssimo lugar para um tritão como Baekhyun estar.
Porém, como tinha esquecido completamente e agora não podia mais fugir, apenas balançou a cabeça, pegando o irmãozinho no colo antes de sair do quarto e seguir em direção ao do caçula para pegar as roupas escolhidas pela mãe.
A loira beijou o rosto dos filhos antes de sair, dizendo sempre o mesmo aviso: que caso qualquer coisa acontecesse, ele deveria ligar imediatamente para ela, seu pai ou para Beom que eles viriam correndo ajudar. O Byun do meio balançou a cabeça, dizendo que ela não tinha o que se preocupar, que tudo estava sob controle e nada daria errado.
(Era isso o que ele esperava mesmo sabendo que, sendo ele, aquilo não tinha chances de dar certo).
A única coisa positiva nisso tudo era que seu irmão não lembraria de sua cauda e isso aliviava seu coração.
Deixou o irmão em sua cama e foi até o banheiro, engolindo em seco ao abrir o registro. Respirou fundo e colocou o dedo dentro da água para sentir a temperatura, retirando-o rapidamente quando teve certeza de que estava em uma condição agradável e se apressou para secar o dedo antes que sua amigona aparecesse. Ao voltar para o quarto, encarou o bebê sentadinho em sua cama, alheio a tudo o que acontecia, parecia mais focado em levar as mãos babadas a colcha de cama enquanto ria alto.
— Ainda bem que você não vai lembrar de nada do que vai ver agora — falou ao pegar o irmãozinho no colo, beijando seu rosto em seguida. Suspirou longamente antes de tirar as roupinhas do bebê e caminhar de volta para o banheiro, trancando a porta em seguida. E, com o irmão nos braços, entrou na banheira, suspirando longamente ao sentir o tão conhecido formigamento, quando se deu conta que sua cauda estava bem ali. Baekmin, em seu colo, ria alto enquanto batia as mãozinhas na água.
Baekhyun ria com as caras e bocas que o bebê fazia quando via as bolinhas de água se moverem por entre seus dedos, a risada inocente de Baekmin o acalmava, de certa forma o fazia esquecer da preocupação que rondava sua mente só de pensar em sua cauda.
— Esse vai ser o nosso segredinho, sim? — Sorriu para o caçula, que riu alto, colocando as mãos no rosto do mais velho, como se entendesse cada palavra dita por ele.
• • 🧜♂️ • •
Talvez, a pior invenção do mundo fosse, realmente, as reuniões de família, porém a com os seus vizinhos pode entrar em muito bem ganhar esse posto. Não que a família Park fosse uma família ruim, muito pelo contrário, eles eram pessoas amáveis e muito alegres, gostam de fazer piadas e brincadeiras, sempre tentando manter a atmosfera do lugar a mais leve possível, Baekhyun só estava envergonhado por estar sentado exatamente em frente a Chanyeol, este que não parava de sorrir para si, fazendo seu pobre estômago revirar de nervoso como se vários peixinhos estivessem nadando ali dentro.
Abaixou o olhar para o celular em seu colo, suspirando derrotado ao ver que não tinha nenhuma mensagem de seus amigos para o distrair daquilo tudo. Estava prestes a bloquear o celular quando o aparelho vibrou, um sorriso brotou em seus lábios quando viu quem era o remetente:
[YEOL] 15:30
seu colo parece ser mais interessante que a conversa de seu pai sobre como ele amou conhecer a austrália
[BAEK] 15:30
pode acreditar
pra quem escutou essa história mais de mil vezes
qualquer coisa fica interessanteKKKKKKKKK
[YEOL] 15:31
quer sair daqui?
posso dizer pra minha mãe que combinamos de ler algumas revistinhas que chegaram ontem
[BAEK] 15:31
a suas ordens capitão!!
— Mãe, podemos subir? — o garoto perguntou com uma voz baixa para a mulher sentada ao seu lado. — Prometi ao Baek que não iria ler a nova edição do Homem-Aranha até ele estar comigo.
A mulher sorriu fraco e se levantou, tirando da mesa o prato do filho e do pequeno Byun.
— Podem ir, mas nada de lerem até muito tarde, vocês têm que estudar para suas provas.
Os garotos sorriram abertamente e praticamente correram para dentro da casa (beijando os rostos de suas mães antes, claro), subiram as escadas afobados em direção ao quarto do Park. Baekhyun, que entrou no cômodo, se jogou na cama do garoto, era íntimo o bastante para ter esse tipo de atitude, praticamente já era de casa. Chanyeol pegou o celular e colocou uma de suas playlists favoritas antes de deitar ao lado do Byun, sorrindo leve ao sentir os dedos finos do rapaz mexendo em seus cabelos castanhos.
Uma das coisas que mais surpreendeu Baekhyun quando conheceu Chanyeol mais afundo foi o seu gosto musical, o garoto ouvia praticamente de tudo, desde a música mais calma — com apenas o som do violão —, a rocks com energia e batidas mais presentes. Contudo, o Park era viciado em lo-fi, aquelas músicas com melodias bem leves, com suaves sons de coisas que acalmam qualquer um, muito usadas por estudantes em seus horários de estudo ou quando as pessoas apenas querem relaxar e esvaziar a mente após um dia estressante, era umas das várias playlists de lo-fi que estava tocando no momento.
A batida calma ecoava pelo quarto, em total harmonia com a luz que passava pela janela, causando uma iluminação laranja no quarto, as respirações calmas dos amigos que aproveitavam a companhia um do outro.
— Primeira palavra, sensação.
Baekhyun sorriu.
Aquela era uma brincadeira que haviam criado quando queriam saber mais sobre o outro, mas nenhum tinha coragem de formular uma pergunta, então apenas diziam uma palavra por vez e o outro deveria respondê-la da maneira mais sincera possível.
O Byun ajeitou seu corpo na cama, suspirando pensativo antes de responder.
— Cansado, essa semana de provas não está me fazendo bem. — E ainda tem o fator Lua Cheia, mas esse pode ficar oculto no momento. — Temos muito conteúdo para estudar e, sinceramente, não acho que vou conseguir revisar tudo.
— Qual é, Baekhyun? Você é um dos mais inteligentes da sala, todos sabem como suas notas são ótimas — Chanyeol rebateu, socou de leve o braço do rapaz que riu alto. — Se diminuir sua capacidade outra vez, eu te mato.
— Você não mata nem uma mosca.
— Paga pra ver, então.
— Tudo bem, senhor valentão, minha vez agora — disse o Byun, revirando os olhos. — Segunda palavra, pensamento.
Chanyeol franziu as sobrancelhas por breves segundos, tentando formular uma resposta.
— Ultimamente, tenho pensado em como as coisas são engraçadas — falou calmo, Baekhyun virou os rosto para poder vê-lo falar. — Sabe, a Yuqi e o Yuta, eles pareciam querer se matar sempre que se viam e agora estão juntos, acho isso engraçado.
O Byun tinha que concordar, o mais novo casal da SM High School era o típico casal clichê, do tipo que as birras deram lugar ao sentimento novo e maravilhoso, conhecia os dois, pois eram de sua turma de biologia e admitiu que ficou surpreso, assim como toda a escola, quando a notícia do namoro veio à tona, afinal aqueles dois faltaram se matar se ficassem no mesmo lugar por mais de cinco minutos.
Mas, Chanyeol tinha razão, era uma coisa engraçada. Baekhyun achava cômico como esse sentimento ficava escondido em situações como aquelas, muitas vezes as implicâncias bestas tem sempre o mesmo motivo: querer chamar atenção da pessoa, mas não tem ideia de como e, às vezes, as ideias são meio bestas.
O Byun lembrava bem quando gostou de uma garotinha no primário chamada Taeyeon, se não estava enganado, e depois que descobriu que ela gostava de ver insetos, decidiu trazer um besouro que encontrou no jardim da escolinha para mostrar a garota, resultado: ela levou um susto e acabou chorando a tarde toda.
Agora, eles eram bons amigos e essa lembrança virou algo que eles amavam relembrar.
— Deve ser legal sentir isso, sabe, saber que alguém gosta de você. — O Park sorriu com um olhar distante, os óculos caindo em seu nariz e as bochechas rosadas davam a ele um ar adorável. — Espero que um dia eu possa sentir isso e saber que essa pessoa existe.
O tritão mordeu o lábio inferior, um tanto nervoso, sabia que aquele nervosismo e embrulho no estômago não eram comuns quando se está com amigos, ele já havia sentido isso em outras ocasiões e sabia muito bem o que significava.
Respirou fundo, segurando a mão grande do rapaz, entrelaçando seus dedos, sorrindo bobo ao ver como as mãos eram diferentes uma da outra, a mão do Park era macia e praticamente cobria toda a sua.
— Talvez, você já saiba que essa pessoa exista, Yeol.
Naquele instante, Baekhyun não sabia ao certo como aquilo aconteceu, talvez tenha sido a proximidade, a aura do lugar ou até mesmo a batida da música, que agora parecia estar cada vez mais distante, mas nada disso importava quando tinha os lábios finos do Park junto aos seus. Seu coração batia cada vez mais forte e as borboletas em seu estômago faziam a festa, ele não poderia deixar de sorrir durante o ato.
Chanyeol tinha gosto de batatinhas, mas não daquelas enjoadas, mas sim as que quando coloca uma na boca não quer mais parar de comer, também tinha o sabor salgado das águas do mar, Baekhyun sentiu-se teletransportado para oceano, um oceano quentinho e aconchegante, um lugar que ele nunca mais gostaria de ir embora.
E, ao sentir as mãos grandes e trêmulas do amigo em sua bochecha, deixando ali leves carinhos, teve certeza que estava em seu porto seguro.
• • 🧜♂️ • •
Às vezes, Baekhyun gostaria de ser Alex Russo daquela série de TV, pois veja bem, se tivesse uma varinha poderia fazer sua vida voltar ao normal ou simplesmente diminuir o efeito da lua sobre si em um passe de mágica, literalmente. Se bem que se fosse um feiticeiro não poderia ser um tritão ou poderia?
Bem, isso não era de muita ajuda no momento, visto que a noite daquele dia era de lua cheia e seu único alívio era que seus pais e irmãos estavam fora da cidade naquele fim de semana.
Seus pais juntos do caçula da família foram para casa de alguns parentes em Sydney, enquanto seu irmão mais velho foi passar o final de semana com a namorada no outro lado do estado, claro que seus pais quiseram levá-lo, mas como uma atuação digna de um Oscar e uma mentirinha de que tinha trabalhos demais para terminar, Baekhyun conseguiu a permissão de ficar em casa sozinho por dois dias, desde que mantivesse contato e ficasse sob a vigilância da Sra. Park.
Deu sorte de que a vizinha disse que não ficaria em sua casa, mas sempre que pudesse iria até lá para saber se estava bem e se precisava de alguma coisa, fez também o Byun prometer que caso qualquer coisa acontecesse ele deveria ligar imediatamente para ela ou para Chanyeol que eles estariam na casa em questão de segundos.
E o pobre australiano torcia para que nada acontecesse enquanto estivesse trancado ali.
Sehun e Jongin já estavam a caminho de sua casa para ajudá-lo a cobrir as janelas e tudo que refletisse a luz da lua. Baekhyun jogou o corpo no sofá, apertando o celular nas mãos enquanto olhava ansioso os ponteiros do relógio da sala se moverem devagar como tartarugas, odiava essa época do ano e o que ela fazia consigo, mas fazer o quê? Nada na vida é como queremos.
Sentiu o celular vibrar em suas mãos e seu coraçãozinho disparou ao ver que era uma mensagem de Chanyeol, sorriu bobo e mordeu seu lábio inferior ao respondê-lo. Desde o incidente no quarto do mais novo, também conhecido como beijo, os garotos se aproximaram ainda mais e começaram a ter um novo tipo de relacionamento, se assim pode dizer. Quando estavam na casa de algum, faziam questão de sentarem abraçados ou segurarem as mãos, até uns beijinhos eram dados aqui e ali, às vezes eram pegos encarando um ao outro sem motivo aparente e riam com a situação embaraçosa.
Baekhyun sabia muito bem que estavam gostando um do outro e esperava que seu sentimento fosse retribuído.
[YEOL <3] 17:50
vou adivinhar
você tá deitado no sofá olhando para o nada enquanto pensa:
nossa eu poderia estar fazendo uma maratona de filmes com o chanyeol
Baekhyun soltou um riso alto, sentindo suas bochechas doerem por conta do tamanho do sorriso.
[BAEK] 17:50
errado senhor chnayeol stranger
em partes é isso k
se não estivesse doente até poderia estar fazendo alguma coisa
[YEOL <3] 17:51
posso dar uma passada ai depois do jantar
[BAEK] 15:31
não quero que fique doente
não vai ser legal ter duas pessoas vomitando o próprio estômago KKKKKKKKKKKK
Baekhyun não era uma pessoa de mentira, primeiro porque odiava esconder as coisas das pessoas ao seu redor; segundo e mais importante, sempre acabava contando a verdade em menos de meia hora. Porém, sua situação atual não o ajudava a manter essa pose de bom moço sem falar lorotas por aí, sem contar o fato que tinha medo do que poderia fazer caso não conseguisse se controlar, temia que algo ruim acontecesse com Chanyeol.
Suspirou longamente para afastar tais pensamentos de sua mente. Precisava relaxar.
A conversa com Chanyeol perdurou por mais duas horas, Baekhyun apenas largou o telefone quando escutou o barulho da porta sendo aberta e imediatamente reconheceu quem estava entrando na residência. Com anos de amizade, Sehun e Jongin tinham as cópias das chaves da casa dos Byun, para no caso de alguma emergência ou coisas do gênero, e aquilo era uma emergência.
Os garotos carregavam mochilas cheias de cortinas e panos pretos, fitas adesivas e uma variedade de coisas que poderiam ser usadas para cobrir qualquer coisa que refletisse à luz da lua, além de uma sacola repleta de filmes antigos para maratonar durante a noite. Após uns bons minutos colando as cortinas na parede e grudando os papéis pretos nas janelas e se assegurando que nenhuma luz era capaz de passar pelas frestas das portas, puderam enfim relaxar, jogando os corpos no tapete felpudo da sala.
Tudo daria certo, exatamente como nas outras vezes, passariam por mais uma lua cheia juntos.
• • 🧜♂️ • •
Já passava das onze da noite quando os três garotos resolveram fazer uma pausa na maratona de filmes, estavam com fome e as cabeças começaram a doer por conta do tempo que passaram em frente à televisão.
— Vamos conferir algumas janelas, ver se deixamos alguma passar — Sehun disse, esticando os braços e passando as mãos nos olhos. Baekhyun apenas confirmou com um leve balançar da cabeça, pegou as tigelas vazias e caminhou para a cozinha, enquanto os mais novos se separaram, Sehun foi ao segundo andar e Jongin para os fundos da casa, onde tinha um pequeno escritório.
O tritão suspirou longamente, abriu o armário para pegar milho e preparar mais pipoca para os três. Encarou com pesar as cortinas fechadas e janelas com papéis escuros, conseguia escutar os passos de Sehun no andar de cima, além do abrir e fechar de portas de Jongin a poucos metros de si. Sendo sincero, se não fosse por eles, o Byun já estaria preso em algum aquário servindo de atração turística.
Estava tão preso nas várias paranoias que passavam por sua mente que nem escutou o som da porta da varanda se abrir. E, quando sentiu algo apertando sua cintura, pensou que fosse seu fim.
— Pensei que pessoas doentes não pudessem comer pipoca.
Chanyeol.
A voz brincalhona do mais alto chegou aos seus ouvidos e, mesmo um pouco aliviado, deu leves tapas no braço encarando-o com seu melhor olhar de raiva. O Park riu fraco e segurou o rosto do amigo com as duas mãos, beijando-o levemente, apreciando a maciez dos lábios rosados.
Baekhyun poderia aproveitar ao máximo aquele beijo, mas teve um momento de lucidez ao notar que o rapaz estava ali, em sua casa, em uma noite de lua cheia! E, mesmo a contragosto, separou o beijo.
— Como entrou aqui? Tenho certeza que tranquei as portas — o mais velho perguntou, ajeitando o corpo o suficiente para ficar abraçado ao mais alto. — Está aprendendo a invadir casas agora, senhor Park?
Chanyeol riu, deixando um leve selo na testa alheia.
— Sua mãe me pediu para ver como estava, acabou me contando onde guardam a chave reserva da porta da varanda e aqui estou eu!
Em uma situação normal agradeceria pela preocupação de sua mãe, mas aquele era um péssimo momento. Tinha que tirar o Park de lá o quanto antes, ergueu o olhar para o relógio da cozinha, entrando em desespero ao ver que faltavam poucos minutos para meia-noite, horário que a lua estaria em seu ápice e não sabia o que aconteceria consigo.
— Por que as janelas estão todas fechadas? Vai acabar morrendo sufocado.
Chanyeol separou o abraço, caminhando até a porta da varanda, puxando o rapaz consigo, dizendo que a noite estava muito bonita para não ser vista.
E, mesmo com todos os esforços para convencer o maior de fechar a porta, Baekhyun não conseguiu alcançá-lo, logo uma luz branca atravessou a sala, iluminando o cômodo apagado e, naquele instante, o Byun estava sob efeito da lua cheia. Era como um feitiço, algo dentro de si, um instinto, que ordenava que saísse daquela casa, que aquele local era sua gaiola e, com isso em mente, o tritão se pôs a caminhar, ignorando os chamados confusos do Park, atravessando o longo quintal até o píer.
Os chamados de Chanyeol se tornaram gritos, que logo foram ouvidos pelos outros dois rapazes dentro da casa, que correram como se suas vidas dependessem disso.
Chanyeol chamava o amigo, mas era como se ele estivesse em uma espécie de transe, os olhos vidrados na lua que brilhava e o caminhar lento pelo píer. Antes que pudesse ter alguma reação, o Byun pulou na água gelada, afundando quase que no mesmo instante. O desespero tomou conta de seu peito ao notar que o amigo não voltou para superfície e, quando estava pronto para correr para chamar ajuda, a cabeleira loira submergiu.
Baekhyun o encarou, os olhos castanhos escuros agora estavam com uma cor azul-claro mais brilhante que a luz da lua que iluminava aquela noite gelada. Aproximou-se da ponta do píer e estendeu a mão para o amigo, que sorriu fraco e segurou a mão do rapaz, puxando-o para dentro d'água. Olhou para trás, podendo ver Sehun e Jongin correndo até eles.
O tritão sorriu fraco e com uma voz baixa, começou a recitar uma bela e calma melodia, o som penetrou na mente de Chanyeol, deixando-o fora de si, a mente nublada, completamente fascinado pela música que saía por aqueles lábios, mal notando que afundava conforme tentava se aproximar do loiro.
O mais alto estava prestes a afundar de vez quando seu corpo foi puxado por alguém e, como um estalo, voltou a si, com a agonia de não conseguir respirar direito e o peito apertado. Sehun o segurava, enquanto Jongin parecia tentar afastar Baekhyun.
Chanyeol não conseguia ouvir o que Oh dizia, sua mente ainda estava naquele transe estranho, seu corpo aos poucos voltava ao normal, mas seus olhos não deixaram de encarar as íris claras até que elas afundaram e desapareceram no mar.
• • 🧜♂️ • •
Baekhyun acordou com uma forte dor de cabeça, seus braços doíam como inferno e ele sentia como se sua cauda fosse cair a qualquer instante.
Um segundo… cauda?
Quando se deu conta de que sua companheira estava ali, pôde prestar atenção onde estava. Certamente, aquele lugar não era a confortável sala de sua casa, era uma das grutas escondidas da ilha Mako. Quando olhou com mais calma, notou figuras nas paredes, desenhos e símbolos que certamente não estavam ali antes, quando sentiu uma pontada na cabeça, sua mente foi inundada pelas memórias da noite passada.
A preparação para a passagem da lua.
A chegada de Chanyeol do nada.
A luz da lua tocando seu rosto.
E ele atraindo o Park para o oceano com seu poderoso canto, prestes a afundá-lo quando sentiu o corpo alheio ser tirado de si por Sehun e Jongin.
Fechou os olhos desejando que aquilo tudo não tivesse passado de um pesadelo, contudo a expressão amedrontada de Chanyeol o dizia que era tudo verdade.
• • 🧜♂️ • •
Chanyeol nunca foi uma criança de acreditar em contos de fadas, coisa que toda pessoa que se preze um dia achou que aquilo tudo fosse verdade. Quando mais novo, gostava de assistir aqueles documentários do “History Channel” sobre a possível existência de uma espécie semelhante aos humanos, mas que vive nas águas do mar, as famosas sereias. E, até semana passada, ele achava que tudo aquilo não passava de uma invenção do ser humano para vender filmes, brinquedos, etc.
Porém, quando Sehun e Jongin o tiraram de dentro da água naquela noite, ele pôde voltar a si, sentiu como se tudo o que acreditasse tivesse sumido de sua mente. E a única coisa que lembrava era dos olhos escuros de Baekhyun, que mais pareciam refletir à luz da lua, além da voz suave do rapaz o atraindo para dentro d'água. Se não fosse por aqueles dois, Chanyeol não tinha certeza se estaria vivo para contar a história.
Claro que implorou para que aquilo não passasse de uma brincadeira de mau gosto do trio, visto que sabiam que ele era uma pessoa muito medrosa e qualquer coisa já era motivo para que ficasse assustado. Contudo, as feições preocupadas dos rapazes diziam que aquilo não era uma brincadeira e sim uma dura realidade.
Desde o incidente, Chanyeol evitou encontrar Baekhyun a todo custo, se esquivando sempre que o via no corredor ou na rua, tentando ao máximo ficar longe dele. O afastamento estava indo super bem, até que um dia — uma semana depois do ocorrido —, Byun conseguiu prendê-lo dentro do banheiro masculino da escola para que pudesse se explicar, onde, como podem imaginar, não foi uma conversa muito boa. Enquanto Baekhyun tentava contar seu lado da história, Chanyeol o encarava assustado, com a mente confusa e repleta de perguntas que ele certamente não sabia como seriam respondidas pelo mais velho, então por não saber como agir naquela situação, decidiu evitar o rapaz o quanto pudesse, mesmo que isso o machucasse profundamente.
Baekhyun não foi à escola no dia seguinte, nem nos dias posteriores, por mais que fosse a última semana do ano letivo, onde tinham apenas curtas aulas para encerrar o conteúdo, o Byun não tinha o costume de faltar, além de que era uma figura presente nos cursos de férias que começaram no último dia de aula.
Tanto Sehun, Jongin e Chanyeol foram questionados sobre o sumiço do mais velho, a dupla mais nova apenas respondia que ele provavelmente decidiu mudar um pouco seu começo de férias para fazer algo novo, porém nem eles tinham ideia do que estava acontecendo, sempre que ligavam para casa do amigo eram recebidos por um olhar distante do garoto pela janela do quarto e um suspiro preocupado de Erikka, que estava preocupada com o comportamento do filho.
O Park respirou fundo e, antes que pudesse terminar de fechar sua mochila para enfim voltar para casa, foi surpreendido com dois braços, cada um em um lado de seu corpo, levantou o rosto dando de cara com Jongin e Sehun, ambos o encarando profundamente.
— Sabemos que você e Baek brigaram por conta daquela situação e que talvez esse seja o motivo do sumiço dele — Jongin disse sério, destoando de seu comportamento risonho e repleto de piadas.
Chanyeol pressionou os lábios, sabendo que o Kim estava dizendo a verdade.
— Aquilo tudo me assustou, tudo bem? Em uma hora, eu estava com o garoto que gostava e, na outra, estava sendo atraído para o fundo do oceano por uma versão peixe dele! — Balançou a cabeça com as lembranças daquela noite, fechou os olhos e encostou a cabeça no armário atrás de si. — Por que ele não me contou? Por que me escondeu isso tudo? E vocês, por que não me contaram o que estava acontecendo com ele naquela noite?
Sehun suspirou.
— Por medo de uma reação como essa, ele deve ter ficado com medo de contar, tente entender a situação dele, Chan — respondeu. Oh passou as mãos no cabelo e deixou seu corpo cair sentado no chão enquanto suas costas encostaram nos armários, sua ação sendo imitada pelos outros dois logo em seguida. — Éramos muito novos quando tudo aconteceu e, na época, víamos como ele estava assustado com aquilo tudo, principalmente porque sabíamos como se sentia por esconder um segredo tão grande como aquele dos pais e do irmão. Eles são as pessoas que Baekhyun mais confia no mundo.
— Ainda é difícil para ele conviver com isso mesmo depois de tanto tempo, é algo que sempre o deixa mais preocupado que o normal, mas ele mudou depois que te conheceu. — Chanyeol ouvia as palavras dos amigos em silêncio, sentindo seu coração pesar ao pensar o garoto estava sentindo naquele momento. — Ele parecia mais leve, como se aquela cauda fosse só um acessório incomum, era como se o Baekhyun de antes do incidente estivesse de volta.
Chanyeol sentia seus olhos encherem de água, as lágrimas finas desciam por suas bochechas e seus lábios apertavam em uma tentativa de conter o choro.
— Ele não vai querer me ver, mesmo que eu passe a noite toda plantado no quintal da casa dele. — A voz baixa e chorosa chegou aos ouvidos dos garotos ao seu lado, não adiantava mais esconder que também estava sofrendo com tudo aquilo, sentia falta da companhia do Byun, da risada escandalosa, dos dedos finos brincando com os seus e o sabor dos lábios doces.
— Os dois precisavam de tempo para assimilar o que tinha acontecido — Jongin disse, encarando Chanyeol com um amigável sorriso. — E acho que já está mais do que na hora para se resolverem.
— Onde posso encontrá-lo? Passei na casa dele antes de vir para aula e a tia Erikka disse que ele tinha saído minutos antes — perguntou em um fio de voz. Sehun riu fraco e entregou ao Park um papel dobrado.
— Acho que sabe onde.
Chanyeol o encarou, sorrindo abertamente como agradecimento, limpou o rosto rapidamente e levantou-se correndo, deixando a escola rapidamente, correndo literalmente como se o mundo estivesse acabando bem atrás de si.
— Acha que fizemos a coisa certa? — Jongin perguntou ao ver o rapaz correr desengonçado pelo pátio do colégio.
Sehun riu fraco e colocou o braço por cima do ombro do amigo antes de levantarem.
— Talvez, mas só vamos descobrir quando aqueles dois voltarem.
O Kim deu de ombros e então começaram a caminhar para fora da instituição, torcendo internamente para que aqueles dois cabeças-ocas se resolvessem o quanto antes.
Quando chegou em casa, Chanyeol, largou a mochila em um canto da sala, beijando o rosto da mãe antes de deixar o local — ato que deixou a mulher um tanto confusa e assustada com sua chegada repentina, porém antes que pudesse falar alguma coisa, o filho já tinha sumido tão rápido quanto sua aparição — e seguir para às docas, onde procurou ansioso pelo barco de seu pai e, assim que o viu, não poupou tempo em entrar no transporte e ligar o motor, seguindo o caminho em direção à ilha Mako, sentindo seu coração bater cada vez mais forte em seu peito. Quando finalmente pode ver as árvores da ilha, foi como se soubesse exatamente o que fazer.
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Chanyeol respirou fundo ao finalmente encontrar a tal caverna, torcia para que o Byun estivesse ali e que o perdoasse por ter sido um idiota sem ter ao menos tentando entender tudo o que o outro sentia com tudo aquilo.
A caverna por dentro era um tanto gelada, as paredes de pedra pareciam aumentar de tamanho conforme caminhava e certas vezes gotículas de água caiam em sua cabeça. Ao mesmo tempo que tentava manter a calma e não surtar por conta do nervosismo que sentia, fazia de tudo para manter fresca em sua memória as instruções dadas por Sehun e Jongin de como chegar na tal piscina da lua, além de seguir o mapa entregue por Sehun, Chanyeol esperava que fosse logo, aquele lugar estava o dando arrepios mesmo que tivesse acabado de entrar.
Depois de bons minutos, conseguiu avistar um tipo de luz, apertou o passo e chegou em um lugar mais aberto, onde nele tinha algo que havia uma grande semelhança com uma piscina, a água era a mais azul que já tinha visto na vida e dentro dela estava um corpo boiando, um corpo de um ser meio-homem, meio-peixe.
Aproximou-se devagar podendo ver o rosto sereno de Baekhyun, os olhos fechados enquanto respirava profundamente, o movimento de sua cauda dourada produzia leves ondinhas que batiam no corpo, ele parecia tão tranquilo, como se nada fosse atingi-lo desde que estivesse ali.
— Hun, Nini, não estou muito a fim de conversar, logo volto pra casa. — Uma voz soou no local, Chanyeol sentiu seu coração apertar ao ouvir o tom abatido da voz do tritão, ele parecia estar segurando o choro. — Jongin? Sehun?
Quando ergueu o corpo, confuso ao não ouvir uma resposta vindo de seus amigos, Baekhyun esperava ver de tudo, provavelmente um curioso que acabou encontrando a caverna, que agora estava tirando várias fotos que seriam mandadas para as mais famosas revistas científicas e grandes canais de televisão, menos encontrar um Chanyeol parado perto da borda, o encarando com um olhar curioso e um tanto triste.
Virou o rosto e estava pronto para mergulhar quando ouviu o barulho de água, quando olhou para trás lá estava o Park, nadando para perto de si e, por mais que não pudesse ver suas mãos com clareza, sabia que elas estavam tremendo devido ao nervosismo. Tinha uma ideia de que ele apenas queria conversar, quem sabe esclarecer todo o ocorrido, contudo ainda não tinha forças para encarar aqueles olhos castanhos e explicar sua situação.
Por mais que tentasse falar, as palavras não saíam de sua boca, era como se um bolo estivesse sendo formado em sua garganta o impedindo de proferir qualquer coisa e seu peito se machucou ainda mais quando os olhos chorosos de Baekhyun encararam os seus. Chanyeol podia ver como o outro estava assustado, os orbes tremiam e pareciam o ver com certo medo, havia uma enorme ansiedade naquele olhar e ambos não sabiam o que fazer, temiam por uma reação adversa, contudo não podiam ficar assim, mesmo que o começo de relacionamento que tinham tivesse de acabar, a amizade entre eles tinha que se manter forte como antes.
Foi Chanyeol que deu o primeiro passo, aproximando-se lentamente do mais velho até estar atrás dele, encarando as costas nuas, com gotas de água escorrendo pela pele branca.
— Me desculpe, Baek, por tudo. — A voz do Park era o único som dentro da caverna, fazendo com que ela parecesse uns tons mais altos que a realidade. — Eu estava assustado com tudo, confuso e sem saber o que fazer… Sei que deve estar com raiva de mim e não o culpo por isso, admito que estava errado em não deixar que me contasse a verdade.
Baekhyun permaneceu em silêncio, os braços abraçando o próprio corpo enquanto tentava conter as lágrimas que já tornavam sua visão embaçada.
— Vou entender se não quiser mais me ver, mas juro pela minha vida e pelos meus gibis que seu segredo está seguro comigo. Caso queira, pode fazer alguma magia de tritão para apagar minha memória — brincou. Suspirou longamente, erguendo uma das mãos para tocar os cabelos claros do garoto, sorrindo fraco ao sentir a textura dos fios que tanto amava acariciar.
Afastou-se devagar do rapaz, estava perto de sair da piscina quando sentiu a água movimentar atrás de si e uma mão fina segurar a sua, então seu corpo foi puxado para um abraço forte.
Os braços de Baekhyun envolviam seu pescoço e ele já não conseguia mais conter o choro, deixando com que as lágrimas saíssem o quanto quisessem enquanto repetia diversos pedidos de desculpas. Contornou a cintura do Byun, trazendo-o para mais perto e afundou o rosto na curvatura de seu pescoço, sentindo o cheirinho de água salgada que tanto amava.
O Park tentou respirar fundo, mas seu coração parecia trair sua intenção de se acalmar, não sabia mais se tremia por estar dentro d'água por tempo maior do que estava acostumado ou se era por conta da presença do Byun, sentia tanta falta do calor do corpo do outro que pensava que ele sumiria caso o soltasse daquele abraço molhado.
Baekhyun se afastou lentamente, seus dedos percorriam todo o rosto do mais novo, contornando suas bochechas, mexendo em seus cabelos e acariciando levemente seus lábios cheinhos, antes que pudesse tomar qualquer atitude, havia duas mãos o segurando parado e os lábios dele nos seus. Foi como se todo aquele medo que o corroía desaparecesse, a caverna gelada havia se tornado o local mais quente e aconchegante que poderia existir no universo, uma das mãos grandes de Chanyeol apertavam sua cintura, fazendo-o soltar grunhidos contra sua boca, enquanto a outra se ocupava em brincar com seu cabelo ensopado.
Separaram as bocas contra a própria vontade, suspirando juntos, os lábios roçando um no outro, deixando alguns leves selos, enquanto suas mentes tentavam assimilar o que estava acontecendo. Baekhyun poderia ficar ali o dia inteiro, admirando as feições envergonhadas do Park, mas notou o corpo à sua frente tremer de frio, sorriu fraco empurrando Chanyeol levemente para mais perto da borda e o mais novo saiu da piscina, sendo aquecido pelo vapor quente que saía das mãos finas do tritão, que ao ver que o amado estava mais quente, ergueu o corpo para sentar-se ao seu lado.
— Primeira palavra, sensação.
A frase fez Baekhyun sorrir ainda mais, segurou o rosto do outro e encostou suas testas, sentindo a respiração quente do rapaz bater em sua pele.
— São tantas coisas que estão passando na minha cabeça agora que acho que não saberia como explicar em uma palavra só — respondeu em um sussurro, recebendo um leve selar na testa e olhos brilhantes o encarando profundamente.
— Temos muito tempo para você me contar todas elas, Baek — murmurou.
A resposta fez Baekhyun sentir aquele calorzinho gostoso tomar conta de seu peito, beijou a bochecha do outro antes de tomar seus lábios novamente em um beijo lento.
Separou seu rosto de Chanyeol com um sorriso travesso no rosto, encarou a piscina e, em seguida, o rapaz que pareceu entender a mensagem que estava tentando passar. O mais novo segurou sua mão e pulou para dentro da piscina, respirando fundo antes de afundar e ter seus lábios tomados pelo tritão, era uma sensação estranha, mas gostosa de sentir, voltaram várias vezes para superfície apenas para Chanyeol buscar mais ar antes de afundarem novamente e suas bocas se encontrarem mais vezes do que pensavam.
Talvez Percy e Annabeth tivessem perdido o posto de casal com o melhor beijo subaquático da história, pois Baekhyun sabia que aquele sim era o melhor beijo do mundo, um beijo que mostrava todo o amor que aquele azarado tritão sentia por aquele curioso humano de olhos brilhantes.
FIM
