Work Text:
Gyeongju, Coreia do Sul, 2020
O tecido, branco e frágil, tremulou ao redor do corpo magro de Kim Hongjoong à medida que as lufadas gélidas do vento o tocaram. No topo de uma montanha, sitiado de verde vívido e fulgurante, seus pés nus tocaram o solo úmido, a terra agarrando em sua pele, manchando-a do mais puro marrom. Múltiplas cores, solo e céu, deixaram-o absorto em seu íntimo. O intenso laranja queimando o azul, como chamas rebeldes incontroláveis, era o pôr do sol, a passagem do dia para a noite. Ao apagar das chamas, o índigo dominaria, sendo somente iluminado com os corpos celestes que Kim tanto amava.
Como em um carrossel, lembranças doces rodopiavam em suas memórias sincronizadas as notas melódicas. Suaves, elas carregavam consigo nostalgia, uma saudade profunda, enraizada de forma notória em seu coração. Para Kim era cômico, com uma pitada de tragédia, que o reluzir das estrelas não pudesse ser comparado com os brilhos salteados nas orbes castanhas de Song Mingi. Orbes que prevaleciam em seus mais secretos sonhos e despertavam seus desejos de amor.
Encontrá-lo foi como navegar em águas amenas, ondas brandas se chocando com o casco puído de um navio, quase imperceptível, contudo, suficientemente forte para levá-lo ao destino almejado e Mingi o levou ao abismo da paixão. Desconhecidos, colegas, amigos e, ao fim de uma noite estrelada, amantes. Etapas definidas pelo destino e inesperadas por ambos. Hongjoong se considerava cético, descrente em tudo que o rodeava e não pudesse ser comprovado, entretanto, Song o levou a crer na lenda japonesa do fio vermelho, Akai Ito.
Julgou-se um tolo, serpenteando entre a oralidade de uma lenda em busca de uma elucidação, esmiuçando até mesmo suas entrelinhas. Akai Ito. Um ínfimo fio vermelho atado no dedo mindinho se conectando a outro ser. No mindinho está presente a artéria ulnar, ligada ao coração. Um órgão pequeno, como um punho fechado, peso leve, mas que sua leveza não dita sua relevância. Setenta e duas batidas por minuto, trinta e oito milhões por ano. Cientificamente, Kim possuía cônscio da real função do coração, contudo, a lógica se transformava em fluído, escorrendo por seus dedos, deixando-o como um parvo, porque ao tratar de seu amor por Mingi, sua busca por uma explicação era falha.
Nos braços de Song, Kim ansiava fazer morada. Era clichê, ele sabia. Contudo, a calidez do outro acariciava sua pele, adentrava em seu corpo e tocava sua alma. Em movimentos suaves seus corpos se entrelaçavam, como em uma dança ao som das mais doces notas. Olhavam-se, castanho contra castanho. Para Hongjoong, Mingi carregava em suas íris Sirius, a estrela mais brilhante do céu noturno. Oh, engano meu! Como uma mera telespectadora, dou-me o privilégio de cometer equívocos, portanto, rasuro o meu erro: para Hongjoong, Mingi carregava em suas íris o Universo, sendo ele, infinito.
Amava-o, uma certeza tão cristalina quanto água de uma nascente e tão somente o amor o guiava como afluente de um rio, desaguando em sentimentos inomináveis, amor se tornou simplório demais. Nessa água mergulhou consciente e se afogou sem ao menos perceber, contudo, sabia que não desejava emergir, sentia-se completo à medida que se sufocava, contraditoriamente, para ele era um sopro de ar livre. Amar Song Mingi era sinônimo de liberdade.
Riu de si mesmo, interrogando-se sobre sua entrega demasiada ao amor. Era amado à medida que amava? Ora fiar-se que sim, ora negava-se a crer. Mas em seu estúpido coração, o dono dos mais belos olhos estava intrínseco, como uma cicatriz pérpetua que carregava consigo. Perdeu-se em si mesmo ao se entregar para Mingi e possuía a plena certeza de que não almejava se encontrar. Irracional, julgou-se. Contudo, a racionalidade não o permitia voar e por Mingi ele alcançou voo, desbravando os céus.
Sentia-se solitário. Ladeado da mais fascinante vista, entretanto só, como um pequeno pássaro perdido de seu ninho. Hongjoong possuía muitos anseios, não era egoísta, mas tornava-se um ao desejar fervorosamente Mingi ao seu lado. Cobiçava seus toques, seus sussurros, seus sorrisos. Cobiçava compartilhar momentos. Não tê-lo para si era como enxergar o mundo em seus tons mais frios, um eterno inverno. Amá-lo o fazia ter sentimentos que não o agradava, no fim, estava fora do controle de si mesmo e Mingi não estava mais ao seu alcance.
Sentou-se sobre seus pés nus, a terra úmida laivando seus jeans preferidos, o vento lhe tocando os fios pretos de seu cabelo desordenado. Inspirou profundamente, permitindo o ar entrar em seus pulmões, o cheiro lhe agradando, trazendo-lhe conforto. Expirou, sentiu-se vazio. Fechou seus olhos, sob suas pálpebras, miúdos pontos de luz saltitavam, sendo esquecidos à medida que o rosto de Mingi tomava forma em sua mente. Atentou-se ao pequeno ruído de passos, seus lábios se repuxando em um frágil sorriso.
— Achei que você nunca mais voltaria — soou fraco, tão baixo que talvez o outro não pudesse ouvi-lo.
— Eu sempre voltar para você, Joong — a voz rouca aqueceu seu coração, arrepios salteando sua pele. — Sinto muito por demorar tanto.
— Como sabia que eu estava aqui? — riu de si mesmo após perguntar, Mingi sempre o encontraria, porque Hongjoong era seu lar.
— Polaris me guiou até você — caminhou até Joong sentando-se ao seu lado, entrelaçando seus dedos frios nos quentes de seu amado. — Assim como da primeira vez em que nos vimos.
Kim abriu seus olhos e contemplou o seu Universo, tão suntuoso quanto antes, deixando-o absorto em seu mar de amor.
— Eu senti sua falta — sorriu, densas lágrimas deslizando vagarosamente por sua pele pálida, pousando em seus lábios trêmulos.
— Eu sei — Song sorriu fraco, ansiando tocar Kim, ansiando ser tocado.
Hesitante, Hongjoong levantou a palma de sua mão, almejava tocar seu amado, sentir sua pele macia com as pontas de seus dedos, acariciar os fios castanhos e lisos, contudo, sentia-se sufocado com a incerteza corroendo-lhe as entranhas.
— Eu estou aqui — o sussurro terno de Mingi lhe deu coragem e, ao tocar seu homem, Kim pôde voar novamente.
