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Frenesi (Rubenny)

Summary:

Rubens descobre que seu melhor amigo tem de se mudar e que está apaixonado por ele no mesmo dia. Johnny, seis meses depois, volta, e percebe que o que esteve procurando por todo lugar, todo o tempo, na verdade, era seu melhor amigo.

ou, um dia frio dá trégua com um reencontro quentinho.

Fanfic situada no universo alternativo de Veritatis & Realitas(pode ser lida sozinha!), que é uma fanfic colegial de ordem paranormal escrita por mim.

(oneshot, rubenny, rubens centric, leiam as tags.)

Notes:

tô muito ansioso pro rpg voltar, sério, já preparei absolutamente tudo pro dia 18! enquanto a gente espera, eu escrevi essa one bonitinha desses dois, q tá bem longuinha até, então me perdoem por quaisquer errinhos, já que não tive muito tempo para revisar.

algumas situações e mecânicas da escola que eles querem entrar(e entram) podem ser entendidas melhor se vocês lerem minha fanfic colegial, Veritatis & Realitas.

PLAYLIST DA FANFIC: https://open.spotify.com/playlist/5xxWZbqRby9p05JD41FDI4

desafio de hj é: quantos “eu sei” eles falaram a fanfic toda? boa leitura!

Work Text:

capa:

     Conheci o Johnny no curso preparatório oficial para Veritatis & Realitas. Estava determinado em conseguir entrar na escola de jovens dotados e talentosos, então implorei para meus pais me deixarem entrar, já que as mensalidades estavam baixas e muitos pais tinham receio de matricular seus filhos por não saberem se a reconstrução da escola seria feita a tempo. Eu mantive a esperança. Havia tido a minha cota de preconceito e transfobia em instituições escolares, então sempre me mantive longe dos holofotes. Não que meu cabelo branco natural ajudasse, mas eu tentava.

     Crescendo, eu sempre achei que nunca iria ser amado. Um pouco deprimente, mas nada mais que a verdade. Desde os meus 10 anos, eu sabia que algo na minha pessoa estava errado. Talvez não errado, mas fora de lugar, definitivamente. Nenhuma das outras garotas parecia tão preocupada com sua aparência como eu era. Como eu passava horas intensivas olhando no espelho, tentando me dar alguma certeza, eu queria muito mudar, nunca tinha satisfação. Até que um dia, eu comecei a me olhar diferente. Meus pais demoraram a usar o nome novo, verdadeiro. Eventualmente, se acostumaram com Rubens Naluti. Foi uma burocracia e tanto para mudar de nome, poder começar a hormonoterapia logo cedo… Mas consegui. Então, tudo se tornou mais calmo, cada pequena mudancinha me fazia sentir melhor, mesmo que na escola, os professores e colegas pareciam errar meu nome e pronomes de propósito, e discussões durante aulas de biologia se tornaram cotidianas. Com o tempo, foi melhorando, mas ainda sentia essa falta de pertencimento, mesmo cheio de amigos. 

 

--- Verão de Fevereiro ---

 

     A minha primeira conversa com Johnny Tabasco foi simples:

        - Menino, cê tem uma borracha pra me emprestar? - O menino sentado na minha frente chamou minha atenção, virado para mim na cadeira.

        - É Rubens, e eu tenho, sim - Respondi, entregando-o à borracha.

        - Valeu, Rubens, sou o Johnny.

        - Eu sei, seus amigos falam alto - eu sorri, e ele riu.

        - Pois é.

 

     Qualquer pessoa naquela sala já havia observado o quão agressivo e intimidante ele podia ser, sempre respondendo os outros de forma seca. Parecia bem diferente de seus amigos, que falavam alto e brincavam o tempo inteiro. Me perguntava se eles só estavam lá para se divertir, invés de estudar e se empenhar, talvez eu só estivesse sendo um tanto invejoso. Quando conversei com ele, não parecia tão maldoso assim. 

 

---

 

     A primeira vez que puxei assunto com o Johnny foi engraçada. Todos os alunos estavam comendo na cafeteria da instituição, e mesmo assim, ali estava Johnny, em uma área longe de tudo, perto de onde eu mesmo ficava. Tinha um jardim bonito ali perto, gostava de ficar olhando e ouvindo música.

        - Oh, oi!

        - Oi, Rubens.

        - Posso me sentar aqui?

        - Uh, claro.

        - Obrigado. Você está preocupado com essa primeira fase de audições?

        - Não. Eu acho que vou conseguir entrar.

        - Eu tô com um pouco de medo.

        - Como você vai entrar? 

        - Eu sou um autodidata. Eu sei falar algumas línguas e sei algumas coisas sobre informática - Comecei a comer, sentado ao seu lado no banco - Não sei se é o suficiente.

        - Eu acho que é, você tem mais chance de entrar do que eu, na verdade. Eu sou mecânico, ou algo do tipo. Eu sei bastante coisa sobre motores e… Tudo mais - pareceu inseguro de repente.

        - Eu não acho, isso é muito mais legal e importante - disse, e vi ele sorrir um pouco - Por que você não tá com os seus amigos?

        - Briguei com eles - percebi o novo roxo no olho.

        - Ah… Tá tudo bem?

        - Sim, eles só são uns fudidos - Ele suspirou - Na verdade, eles falaram merda sobre você.

        - Quê? 

        - É, você é tipo-... Trans ou sei lá, né? Eles estavam te zoando - Ele olhou para mim, parecia confuso com a minha expressão, eu estava calmo, sem reação - Aí eu bati neles.

        - Ah. Mas por quê? Eles são seus amigos, e eu só… sou eu.

        - Eu não sou um filho da puta, sabe? - riu, sem humor - Todo mundo me olha e se sente intimidado, acha que eu sou um fudido sem moral alguma. Eu sei o que é errado. 

        - Não, eu sei que você não é um filho da puta, é só que… eu não acho que é pra tanto, e achei que ninguém me notasse.

        - Tem gente que te nota, você é tipo, bem carismático e sempre faz perguntas. E eu sempre sento na sua frente, eu sei que você existe.

        - Eu não queria que isso acontecesse. Não com você, mas com os outros. 

        - Eu consigo entender. Mas nem sempre a atenção é ruim. Tipo, eu vi uma menina que sorri toda vez que vê que você levanta a mão, eu acho que ela gosta da sua voz.

        - Da minha voz?

        - É.

        - Legal. Tem um monte de menina que fica olhando pra você, na sala.

        - Eu sei - ele riu, baixo, e eu sorri.

 

     Depois daquilo, começamos a conversar mais, durante a aula, me pedia emprestado várias coisas, pedia ajuda com as atividades, e almoçava comigo.

 

---

 

     A primeira vez que o Johnny me chamou de amigo eu me senti muito feliz, foi algumas semanas depois, mas dessa vez, estávamos na minha casa, quando ele recebeu uma ligação.

        - Alô? Ah, oi Padre, eu tô na casa de um amigo. Estarei de volta no orfanato antes das 10 horas - Eu sorri, colocando minha mochila no chão. Ouvi alguma pessoa respondê-lo, e um riso - Então eu vou ter que ficar aqui, padre, o orfanato fica longe e já perdi a carona. 

     A expressão dele parecia vitoriosa, assim que terminou a ligação, eu perguntei para ele do que se tratava:

        - O que foi, Johnny?

        - Posso dormir aqui? Tá chovendo muito forte e não posso voltar pro orfanato assim.

        - Óbvio que sim, nós somos amigos, né? - Eu ri, e ele deu um soquinho fraco no meu braço.

        - Somos.

     Eu me joguei na minha cama, e ele fez o mesmo.

        - Eu preciso pegar um colchonete, você nem cabe aqui direito. 

        - Se eu me apertar contigo, eu consigo dormir - Chegou mais perto, encolhido. Ele é muito alto, e bem maior que eu. Rimos, apertados na cama de solteiro.

        - Se bem que minha mãe me mata se eu dormir de conchinha com você - eu ri, e ele olhou pra mim.

        - Por quê?

        - Sei lá, ela acha estranho, porque… Sei lá.

        - É, mas é estranho mesmo, eu entendo; eu te amassaria se dormisse assim com você.

        - É, verdade - Concordei, e rimos.

 

     Ele não costumava falar muito sobre o orfanato, só sobre os antigos amigos dele de lá, normalmente reclamava sobre o quão chatos e pessoas péssimas eram. Eu não falava muito de mim também, mesmo que ocasionalmente tivesse alguma pergunta sobre minhas dificuldades. Só fazíamos piadas. 

    Após pegar o colchonete, falei com a minha mãe, que não pensou muito sobre - um amigo, finalmente… era a primeira vez que alguém ia dormir no meu quarto -, mesmo que feliz por mim. Ao voltar, ele olhava para as luzes de fada do meu quarto com um dos meus livros em mãos. Johnny é muito bonito.

        - Tá aqui.

        - Obrigado, Rubinho.

        - Rubinho? Andou falando com o cara da cantina do curso?

        - É, e combina com você. Balu é um homem muito sábio.

        - Achei que não gostasse do apelido que ele te deu, Pimentão.

        - Mas eu gostei do seu. Faz sentido. Rubinho.

        - É Rubens - Brinquei, ele sorriu.

     Dormimos tarde, jogando jogos de tabuleiro aleatórios que tinha, ou brincando com uns brinquedos velhos que tinha guardado.

 

--- Outono de Maio ---

 

     A primeira vez que eu ajudei o Johnny com um machucado foi três meses depois da nossa primeira conversa. Tinha entrado em outra briga, com algumas pessoas do orfanato Santa Menefreda, onde vivia. Os meninos de lá pareciam bem problemáticos, e pareciam gostar de arrumar brigas com Johnny, mesmo que ele fosse alto e bem forte, muito mais que eles. Eram covardes e iam brigar com ele em grupo. Daquela vez, Gal tinha cortado a bochecha de Johnny, quando todos já estavam indo embora do curso do V&R. Quando fui dar tchau para Johnny, percebi o sangue e decidi o ajudar.

        - Ele é um covarde da porra, fica provocando e depois chama os amiguinhos…

        - Sim, mas isso daí parece feio, eu posso te ajudar.

        - Não precisa, vai, vamos voltar - Mesmo assim o puxei pela camisa xadrez que sempre usava.

        - Você vai voltar pro orfanato assim? Eles vão querer te quebrar de novo, Johnny. Vai, eu limpo e depois a gente vai pra minha casa, ou algo do tipo, o que você quiser - Chegamos no banheiro, e ele finalmente cedeu.

        - Como você sabe fazer tudo isso?

        - Vídeo aula - Eu ri, antes de falar a verdade - Na verdade, depende do que você está falando. 

     Peguei um paninho que tinha guardado na minha mochila e o umedeci, com cuidado. 

        - Esses negócios de primeiros socorros e tudo mais.

        - A biblioteca da minha escola tem alguns livros que ensinam umas coisas assim, E eu também pesquisei muito na internet sobre - Johnny se sentou na bancada, e fiquei entre as pernas dele, alcançando pelo seu rosto. Ainda tinha que olhar pra cima. Eu passei o pano úmido pelo machucado, e ele grunhiu - Relaxa.

        - Tá ardendo, Rubens.

        - Eu sei, calma. Ainda vou ter que passar Mertiolate.

        - Dói muito - Coloquei um pouco de sabonete para limpar por completo. Apesar daquilo, ele ria. Parecia querer acabar com a minha seriedade.

        - Você está sendo dramático - Eu ri.

        - Dr. Naluti, acho que vou desmaiar! - Ele brincou, e eu ri, sentindo minhas bochechas quentes.

        - Estou quase terminando, sr. Tabasco.

     Joguei minha mochila no chão e comecei a procurar o remédio e curativos. Johnny me olhava curioso. Voltei à minha posição anterior; entre as pernas dele, enquanto segurava seu rosto, tentava mirar o spray no machucado. Apertei aquela tampinha do frasco, e ele grunhiu de novo.

        - MEU OLHO.

        - DESCULPA, JOHNNY, CALMA - Passei o lado limpo do pano em seu olho, que lacrimejava - Desculpa, Johnny.

        - Você é um médico terrível, eu vou te processar.

        - Eu já disse desculpa! - Ríamos.

     Então percebi que o corte era longo demais para o band-aid, e procurei o algodão e a fita cirúrgica.

        - O que cê’ tá fazendo?

        - Tentando fazer um curativo - Disse.

     Para finalizar o trabalho que fiz, bem feito -devo adicionar-, colei o algodão pressionado ao machucado, assim, nada de ruim entraria, e não iria infeccionar.

        - Pronto?

        - Pronto.

        - E o beijinho pra melhorar? - Ele perguntou, com uma voz engraçada, enquanto arrumava as coisas de volta na minha mochila, e eu não esperava uma reação assim, repentina. Mesmo que fosse verdade que constantemente estava me provocando e fazendo piadas daquele tipo, às vezes ainda me pegava de surpresa. Nem me lembro quando foi que começou, me convenci de que era apenas ele tentando brincar comigo. E no começo realmente era.

        - Vai sonhando, Tabasco.

     Ele riu, e enquanto saímos do banheiro, apoiou seu braço no meu ombro.

        - Posso ir pra tua casa?

        - Você sabe que sim.

 

--- Primavera de Setembro ---

 

     A primeira vez que brigamos foi boba, mas me deixou triste. Tenho quase certeza que ele ficou igualmente abalado. Foi por causa dos antigos amigos dele.

        - Foi com quem, dessa vez? - Apontei para o hematoma no seu olho.

        - Leonardo Gomes.

        - Você tem que parar com isso. Qual foi o motivo?

        - Insinuaram que a gente era um casal.

        - Só por causa disso? Você sabe que eles vivem falando essas merdas, por que-

        - Te chamaram de minha ‘namorada’ - Ele mordeu sua maçã.

        - E? Melhor ‘namorada’ a ‘namorado’, pra você, não?

        - Rubens…

        - O que eu quero dizer é que você precisa parar. Você acha que tá me ajudando, mas não muda nada. Sabe como se acaba com essas coisas? - Ele murmurou algo como resposta - Acabando com seja lá o que tiverem falando, ignorando…

        - Você tá falando que é melhor a gente parar de ser amigo, então?

        - Não, Johnny-

        - Mas eu ouvi você muito claramente falar que-

        - Porque você se importa tanto, Tabasco? Isso é um problema que tem mais a ver comigo do que com você, então eu fico mais que feliz de te livrar desse peso de ‘ter’ que me defender.

        - Não se esqueça, Naluti, que eu saí de perto deles quando mal te conhecia, tá legal? Não é um peso porra nenhuma. Cala a boca.

        - Você acha que eu preciso de defesa? Que eu sou alguém a ser protegido??

        - Óbvio que sim, Rubens, olha o seu tamanho e olha o deles.

        - Do que isso importa? Eles mal falam de mim na minha cara…

        - Mas e se um dia eles quiserem bater em você?

        - Aí, e só aí, eu estarei fudido, Tabasco, mas é uma situação hipotética demais pra falar desse jeito - Enfiei mais um salgadinho na minha boca, mas continuei a falar, mesmo com ela cheia - E são escrotos demais pra isso, iriam falar que ‘não batem em menina’ e ponto final.

        - Tá bom, então. Se fode sozinho então.

     Passamos o resto do intervalo em silêncio e o resto do período um sem olhar na cara do outro. Até que ele, assim que a aula acabou, me deu um bilhete escrito, antes de correr para ir embora.

 

“Você é meu melhor amigo e te ver machucado me deixaria triste e puto. Não queria ficar brigado com você, jamais. Por favor me perdoa, eu não consigo evitar tentar te ajudar como eu posso, porque você sempre parece que não liga pra essas coisas e me frustra muito porque é chato e deve te deixar com tristeza e raiva também. Eu prometo tentar manter mais a calma quando eles falam isso, eu te juro.

                            Johnny”

     Eu sorri assim que terminei de ler. Era bem do feitio dele falar sobre o que tá sentindo por bilhetes. Parece se proteger de quaisquer ameaças com sua guarda sempre alta. Eu o perdoei, e o dia seguinte passou como se nada tivesse acontecido.

 

--- Verão de Dezembro ---

 

    Lá pela época da segunda fase de testes, já no final do ano, eu percebi gostar dele, depois de passarmos o ano inteiro saindo, jogando e conversando, ele era meu amigo mais próximo, de todos os tempos, e de longe a conexão mais forte que criei em pouco tempo. Foi depois de um jogo de futebol que ele jogou, junto ao time da escola dele, Escriptas. Eu nunca liguei muito pra esportes, e de qualquer forma, preferia Vôlei e Basquete a Futebol, mas me surpreendi quando me encontrei vidrado no jogo. Os escriptas tinham um ótimo domínio de campo e da bola, fazendo com que o outro time ficasse intimidado, os Nostradamus. Mas lá pelo segundo tempo o jogo começou a virar. Percebi que uma certa rivalidade entre os jogadores dos Escriptas estavam os impedindo de conseguir resultados melhores. Depois que perderam, encontrei com Johnny, e ele estava bravo, discutindo com Gal e algum outro menino do orfanato. Assim que me viu, mostrou o dedo do meio para eles e veio correndo até mim. Eu sorri, bochechas avermelhadas. Eu abri meus braços querendo abraçá-lo, e ele gritou estar suado, mas mesmo assim o abracei, rindo. Ele me perguntou se eu gostei do jogo, e eu respondi que claro. Saímos para tomar sorvete e jogar pedrinhas em um lago próximo ao campinho onde organizaram o jogo. 

        - E eu achei que você não gostava de futebol…

        - Agora eu gosto - ri - Mas ainda prefiro jogar videogame.

        - Você é um nerd imenso.

        - Shhh…

     Ali, aos 13 anos, eu percebi; nunca tinha ligado muito pra romance, Mas mesmo falando que não me importava muito com gênero, e coisas do tipo - talvez fosse porque não conseguia sentir nenhum tipo de atração por ninguém daquela escola, todos esses anos foram passados em concentração para os estudos e ódio pelos que me desprezavam, não tive muito tempo para isso -, percebi que, na verdade, me importava com gênero, e tinha, sim, um tipo; garotos. Na escola, no curso, meus amigos estavam sempre falando sobre garotas e suas melhores qualidades, ou algo do tipo… Mas sempre preferia olhar e admirar os corpos fortes, preferia os cabelos curtos e mais fáceis de passar meus dedos entre, as sobrancelhas grossas que conseguem me dizer exatamente o que sentem, os músculos… mas também gostava dos sorrisos, os olhos brilhantes, hipnotizantes. e talvez, das cicatrizes. Demorei tempo demais negando que aquilo era atração, e não só inveja. Impossível negar, sou homossexual. 

     Olhei para Johnny, e senti muita vontade de falar sobre o que estava pensando. Convenientemente o bastante, ele me perguntou:

        - Rubens, tá tudo bem? Tá pensando sobre o quê?

        - Nada…

        - Ah, então… Eu queria te falar um negócio importante. Que eu estava esperando pra te dizer com certeza.

        - Pode falar.

        - Você sabe que eu preciso de uma família para entrar no Veritatis & Realitas, né?

        - Eu sei, você falou - Muito tempo depois, reconheceria as pessoas que Johnny me contou que tinham sido adotadas para poder entrar na escola como Dante e Beatrice, sendo adotados por um ator famoso.

        - Então, eu fui adotado - Ele sorriu, olhando pra água.

        - SÉRIO? JOHNNY!! Que bom! - O abracei e percebi a expressão dele, feliz, mas com com um subtom estranho de receio, com suas sobrancelhas juntas - Que foi? Não é bom?

        - Sim, é bom, eu vou me mudar com eles segunda… - Era sábado - Só que aí vem o problema, teve um imprevisto, bom… positivo, mas que deixa as coisas um pouco mais difíceis. Meu pai adotivo recebeu uma oferta  para ir trabalhar no Rio, com um pagamento bem melhor do que ele tem aqui - Eu olhei para ele, perplexo. - E eles me falaram em ir para lá já que não sabem se eu vou conseguir entrar no V&R ou se a restauração vai ficar pronta até lá. Ano que vem eu vou pra lá, e depois, se tudo der certo, eu volto.

        - Quê? - Eu disse, ainda tentando entender o que estava acontecendo - Qua-Quando? Você volta, né?

        - Eu vou na primeira semana de janeiro, Rubens. Se eu conseguir entrar no V&R, eu volto.

     Ele encostou sua cabeça em meu ombro, e percebi estar prendendo minha respiração, tentando achar as palavras para dizer algo. Não sabia se o consolava, fazia alguma piada, o abraçava ou só ficava em silêncio. Falei:

        - Você é meu melhor amigo. Único, talvez. Vou sentir sua falta.

        - Eu descobri hoje de manhã, você foi a primeira pessoa que quis contar isso. Não que tenha outras pessoas pra contar, mas… É. Você também é meu melhor amigo, Rubens.

 

     Passamos o resto da tarde rindo e brincando em um parquinho que tinha por perto. Eu decidi que até ele ir embora, eu ia tentar vê-lo o máximo possível. Eu havia acabado de perceber o quanto gostava dele, não só como amigo, não queria tê-lo longe.

 

---

 

     Em um dos dias que decidi passar a tarde com ele, já que estávamos de férias, do curso e da escola - Mesmo que Johnny não fosse retornar a nenhum dos dois depois que as férias acabassem. Ele me chamou para ir à piscina dele. Porque aparentemente, os pais adotivos dele eram ricos. De primeira, fiquei relutante, mas depois aceitei, disse que seus pais estavam trabalhando a tarde inteira, e ficaremos a sós na piscina. O problema não era só o binder, porque logo de cara ele já havia me dito poder entrar de camiseta, mas eu tenho muito medo de me afogar.

     Eu não sei nadar, nunca cheguei a aprender; quando eu era criança, eu fui à praia com meus pais e minha irmã, quando uma onda me levou para longe, bem fundo, e eu quase morri. Até hoje tenho medo de ir à praia, por causa do trauma. E ainda não consigo me sentir muito confortável na piscina, porque eu sou muito baixo, e dependendo da altura, eu não consigo nem ficar em pé direito.

        - Johnny, é muito fundo? - perguntei, enquanto ele segurava minhas pernas, eu sentado na borda.

        - Não, ó - Ficou de pé, e a água batia na altura de seu peito

        - Não ajuda muito - Eu ri, pensando e repensando em entrar.

        - Pula, aí se for muito fundo pra você eu te seguro.

        - Não sei nadar, Johnny.

        - Eu sei, mas pra acabar com seu medo de uma vez, você precisa pular. Segura o nariz e prende a respiração. Confia, eu já fiz natação, sei do que tô falando. 

     Me levantei e pensei em pular, Johnny se afastando aos poucos. Fiz como ele aconselhou antes de me submergir na água morna da piscina. Ele rapidamente me segurou quando percebeu que eu não conseguia voltar à superfície. Eu ofeguei, segurando forte em seus ombros. E ele riu.

        - Você conseguiu! Rubens, você conseguiu!

        - NÃO ME LARGA POR FAVOR. JOHNNY. MUITO FUNDO. MUITO.

        - CALMA RUBENS, PARA DE GRITAR, EU NÃO VOU TE LARGAR.

        - FUNDO. MUITO.

        - RESPIRAR, RUBENS, LEMBRA DE RESPIRAR.

 

---

 

     A primeira vez que eu dormi na casa nova dele foi no último sábado de dezembro, dia 26. Eu lembro muito bem porque minha família sempre ia viajar nesse dia, depois do natal. Os pais do Johnny estavam fora da cidade de novo, e ele não queria ficar sozinho, principalmente quando nós tínhamos pouco tempo juntos ainda.

        - Minha cama é grande e você cabe bem.

        - Cê não tá falando isso só pra não ter que pegar um colchão pra mim, né? - Ri.

        - Você me conhece bem demais.

        - Eu sei - Ri, sem antes me virar para ele, percebendo uma arminha na sua mão.

        - Isso foi uma ameaça, você sabe demais.

     Começamos então uma corrida, enquanto eu tentava achar a outra arminha, para então, uma batalha justa se consolidar. A outra estava no sofá, e eu a carreguei rápido antes de atirar nele, bem na barriga. Batalha justa é uma ova. 

        - AI-

        - VINGANÇA! - Ri.

     Voltamos para o quarto e ele colocou algum filme de terror antigo para assistir, mesmo que tivesse começado a dormir no meio. Eu fiquei brincando com o cabelo dele, enquanto assistia o resto do filme tosco. Depois desliguei e fui dormir. 

     Meu sono não durou por muito tempo, já que acordei no meio da madrugada com Johnny murmurando algo, com uma clareza gerada pela tela de seu celular.

        - O que cê’ tá fazendo? - perguntei, minha voz arrastada e cheia de sono.

        - Não consigo dormir - Percebi sua mão fazendo carinho nos meus cabelos.

        - Mas aí eu não consigo dormir também - Ele riu.

        - Desculpa - Ele beijou minha testa. Isso eu lembro com clareza, foi isso que me impediu de ter o resto de uma noite decente de sono - Olha, Rubinho, eu tô jogando esse jogo de enigmas, quer me ajudar?

        - Tá bom - Aceitei, mal sabendo o que nos esperava.

     O jogo do Anfitrião era uma série de testes que iam ficando cada vez mais difíceis com o tempo. Eu já havia ouvido falar em algum lugar, falavam ser do demônio e que pegava suas informações pessoais, mas não é como se eu acreditasse, mesmo assim, eu aconselhei Johnny a não deixar rastros, usando algum VPN.

     Já estava amanhecendo e ainda estávamos jogando. A fase era especialmente difícil, e o texto na tela dizia que era a fase final antes de uma certa iniciação. Eu pensei que era só um ARG, ou algo do tipo, e me surpreendi quando e-mails chegaram para mim e para Johnny.

     “Rubens Naluti, você é bom, para um autodidata. Será que a Rebeca iria gostar de saber que você está mexendo com coisas perigosas na internet? Ela sempre te disse para tomar cuidado. O caminho até a Veritatis & Realitas é longo, mas você está no caminho.

                                            Anfitrião.”

 

     Mas Johnny não quis mostrar o que recebeu, disse que dizia a mesma coisa, então deixei quieto.

 

     Seria pouco dizer que ficamos petrificados e paranóicos com as mensagens. Johnny ficou o dia inteiro tentando nos distrair, e funcionou. Engraçado que esse tal de Anfitrião nunca mais mexeu conosco… Bom, até realmente entrarmos na escola.

 

---

 

     Não o vi durante a festa de Ano novo, já que viajei para visitar alguns familiares, mas o vi pouco antes de se mudar, de ir embora. A gente foi ao mesmo lago que tínhamos ido antes, e dessa vez, quando ele me perguntou sobre o que estava pensando, eu decidi falar o que estava pensando, de verdade.

        - Eu sou gay - Falei.

        - Oh.

        - É.

        - Você sabe que eu não ligo - Ele disse, com um sorriso pequeno.

        - Eu sei, só me senti meio… não sei, sabe? Por que isso significa que vai ser mil vezes mais difícil achar alguém que goste de mim. Porque as garotas são mais de boa com essas coisas, e os garotos não - Nem sabia porque estava falando essas coisas para ele.

        - Mas eu sou de boa com isso.

        - Mas tipo, romanticamente - eu disse, e vi ele desviar seus olhos - Garotos não gostam de mim, e me veem como uma garota… Mas romance não é tudo, também. É mais deprimente do que triste.

        - Não são a mesma coisa? - Ele me perguntou, e eu não soube responder;

        - Sei lá - Eu ri, e ele procurou minha mão, com a sua, quente e bem maior que a minha, apertou-a, olhei para ele, curioso, e ele ainda olhava para outro canto, desviei o olhar também.

        - Eu não queria ir embora, sabe. E assim, só de saber que eu provavelmente nem passei nas duas primeiras fases… Me deixa mal. Deprimente - Ele brincou, e eu apertei a mão dele de volta.

        - Você vai passar, e a gente vai junto - Eu disse, mais querendo acreditar nas minhas próprias palavras do que realmente acreditando.

     Foi aí que percebi o olhar do Johnny sobre mim, estava lacrimejando, eu segurei seu rosto fazendo carinho nas cicatrizes em seu rosto, frutos das brigas que sempre se envolve… minha respiração parecia pesada de repente, e eu tremia, só um pouco. Ele estava se aproximando mais, com suas mãos subindo para o meu pescoço, quando ouvimos o celular dele tocar. A tela quebrada de sempre mostrava sua mãe o ligando. Pediu para que voltasse logo. Então fomos, de bicicleta, como normalmente andávamos por aí. 

     Quando me deixou na frente de casa, eu percebi o quanto doía nele, assim como doía em mim. O abracei, forte, e ele depositou um beijo na minha bochecha. 

     Assisti de longe enquanto ele pedalava e pedalava, até sair da minha vista e vida. Chorei o resto do dia. Meu melhor amigo…

 

--- Outono de Abril ---

 

     Meus pais me trocaram de escola no começo do ano. E como uma coincidência interessante, fui estudar na escola Nostradamus de Ensino Fundamental para o 9°Ano. A mesma escola cujo time venceu o último jogo de futebol entre escolas, onde Johnny jogou, perdeu, e culpou os garotos do orfanato. Eu senti muita saudade dele, toda vez que lia o nome da escola, lembrava desse jogo, e do que ele me disse depois.

     Não é como se eu não recebesse mensagens dele, eu recebia… Até que ele quebrou seu celular. Ele me mandava fotos de todos os lugares que ia e vivia mandando áudios contando as coisas mais diversas que aconteceram com ele. Eu respondia tudo e mandava atualizações do que ensinavam no curso. Quando saíram os resultados da segunda fase, e nós dois passamos, acabamos por ficar a madrugada inteira conversando em uma ligação, o que seria muito legal se não tivesse aula no dia seguinte… Ele me disse para tomar café, mas nem isso adiantou muito, acabei dormindo por toda a aula de matemática.

     Na verdade, eu mandei mensagem pra ele, naquele mesmo número, e ele respondeu. Conversamos na mesma intensidade de sempre, mas ainda era diferente de estar frente a frente. Me perguntava se ele sabia o tanto que gostava dele, me perguntava se sentia nojo de mim por tudo isso.

 

--- Inverno de Junho ---

 

     Quarta fase do processo de escolha de alunos foi uma prova. São um total de 100 alunos que entram, por ano, o que reduz minha chance de entrar bastante. A multidão que se criou dentro da instituição onde passaram a prova foi o suficiente para me assustar. Bem que queria achar faces familiares, mas até aquele momento, nada.

     A prova era de conhecimento geral, nem tão difícil assim, e me assustei ao perceber que os alunos que terminavam a prova eram levados para algum outro processo. Quando chegou minha vez, pareciam querer me entrevistar. Perguntas relacionadas ao que sei fazer, algumas em relação a conhecimentos gerais, nada demais. Me senti estranho. Será que é assim que uma entrevista de emprego se parece? Quando saí da sala, encontrei alguém que não esperava, sentado do lado de fora, o próximo a entrar. Tinha que ser ele, mesmo… às vezes acho que minha vida é um clichê. 

 

     Johnny estava mais alto, com uma cicatriz nova e maior, na vertical, indo da sua testa a sua bochecha, quase que seguindo a linha da raiz de seu cabelo. Quando seus olhos se encontraram com os meus, senti borboletas sobrevoando pelo meu estômago. 

        - Johnny… - Sussurrei, enquanto ele se levantava para entrar na sala.

        - Rubens…! - Ele parecia tão surpreso quanto eu.

     Tenho certeza que fiquei vermelho. Era ele, e sua voz estava um pouquinho mais grossa.

 

     Eu esperei por ele do lado de fora, ansioso e com frio, afinal de contas, aquele era o dia mais frio que já havia visto passar por aquela cidade, estava com umas 5 camadas de roupa, por isso meus movimentos pareciam mais robóticos, duros, achei engraçado. Quando o vi, o puxei para um abraço e a surpresa dele se tornou em força naquele abraço gostoso que me envolveu por completo. Nem sentia mais tanto frio, nem precisava mais de tantos agasalhos, só dele.

        - Senti tanto a sua falta!

        - Desculpa. Eu queria ter te ligado e ter falado com você, mas eu não consegui. Parecia que nada era o bastante, eu precisava te ver.

        - Tá tudo bem! - O perdoei, feliz por aquilo ter acabado - A gente vai passar, Johnny, eu tenho certeza!

        - Rubens!

        - Johnny! - Repeti seu nome, parecia como mel derretendo e adoçando na minha língua.

        - Você cresceu!

        - Você também! - Rimos.

     O abracei de novo, forte, estava viciado naquilo, depois de tanto tempo.

        - Tá frio pra caralho, Rubinho…

        - Eu sei - rimos - Você vai ficar aqui por quanto tempo?

        - Férias de julho e não vou de volta se passar por essas duas fases restantes.

        - Não consigo entender como seus pais preferem voltar para cá pela sua educação, eles não ganham mais lá?

        - Aparentemente nem teve tanta diferença. E eu também não entendo. Eles são bons demais pra ser verdade - Riu - Você é bom demais pra ser verdade.

     Eu queria muito beijar ele, mas invés disso, só ri, tímido, e mandei mensagem para meus pais, falando que ia me atrasar.

 

     E como nos velhos tempos, andei de bicicleta com ele, até aquele mesmo lado, que agora parecia extremamente frio.

        - Como você tá? - perguntei.

        - Bem. Feliz.

        - Você parece melhor, mesmo. 

        - Hmm, sim, na verdade, esses 6 meses foram bem legais. Mas esse sorriso no meu rosto é porque eu estava com saudades mesmo - Ele estava sendo bem mais direto que antes. De repente, parecia que não precisava mais dos agasalhos, meu corpo já estava quente o bastante. Eu sorri para ele - E você? Como você esteve?

        - Ah… Eu mudei de escola, e isso aqui aconteceu… - Apesar do frio, levantei minha camiseta, e debaixo de todas as camadas quentinhas, duas cicatrizes no meu peito. 

        - Caralho, que foda!

        - Sim! - Não queria ficar quieto, procurei algo para dizer - E como que- Tá ficando com alguma menina? Gostando? 

     Péssima escolha de palavras a minha, mas pareceu agradar a ele, que sorriu, olhando bobo para o lago.

        - Eu até estava ficando com algumas meninas - Riu - Mas tinha outra pessoa na minha cabeça. Alguém que eu gosto…

        - Como ela é?

        - Por que você assume que é uma garota?

        - Oi?

        - Por que você acha que é uma menina?

        - Sei lá, você só fala de meninas, eu não sei. Não deveria ter assumido de qualquer jeito, desculpa.

        - Não, tudo bem. Eu mesmo não sabia até um tempo… Eu sou Bi - Olhei para seu rosto, estava vermelho.

        - Então…

        - É você - Ele disse, e me levou alguns segundos para tentar entender se aquilo era realmente real - Eu estava procurando partes de você em outras pessoas… Eu meio que me ceguei… Que gostava de ti.

        - Você está falando sério?

        - Sim. E tudo bem se você não quiser nada, porque… Eu tô feliz em estar perto de você. Eu nunca achei que ia gostar de alguém, então… meio que me pegou de surpresa também.

        - Faz quanto tempo?

        - Desde o ano passado. Eu queria ter te beijado aquele dia.

        - Johnny…

        - Shhh… Eu sei, Rubens… Mas eu tenho certeza que não gosto de você como uma menina. 

        - Eu sei, e não queria falar isso. Eu queria dizer que também gosto de você. 

        - Você gosta?-

        - Johnny, eu te amo.

        - Eu também te amo, Rubens - Ele me abraçou, de lado, nossos corpos encaixando perfeitamente, mesmo que desajeitados, ambos corados e morrendo de vergonha - Isso é estranho?

        - O quê? Amar seu melhor amigo?

        - É - Ele riu, olhando para mim.

        - É meio estranho, sim, mas deu certo. A gente se gosta - Eu afirmei.

        - A gente se gosta… O que a gente faz agora?

        - Eu não sei… Eu não sei… - Começamos a rir, alto. Nossas risadas tomaram conta dos arredores do lado, das arvorezinhas que faziam uma trilha até o resto do parque… Eu segurei a mão dele, e minha boca parou com os risos, em um selo desajeitado, infantil e inocente.

        - Calma, vamos de novo - Ele disse, com sua mão no meu rosto, aproximando-se. Eu comecei a rir novamente, e ele sorriu - Seu bobão, eu tô tentando te dar um beijo!

     E eu cedi. O mundo parecia parar solenemente para o selo de nossos lábios, um contra o outro em um ritmo constante mas simples, gostoso. Aquele era meu primeiro beijo, e estava mais que feliz de ser com Johnny Tabasco. Meu melhor amigo, e agora, namorado.

 

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     Passaram-se meses desde que aquilo aconteceu. Estamos finalmente namorando, indo ao colégio que tanto sonhávamos mas… Algo está errado. O Anfitrião tem algo a ver com essa escola, e cabe a nós e alguns outros alunos descobrir do que se trata… 

     Pelo menos, enquanto não estamos investigando isso ou estudando, tenho tempo para assistir ao Tabasco jogando futebol no novo time, de aprender a nadar na casa dele, e me esquentar com o calor gostoso do corpo dele.

     E ninguém precisa saber sobre nós, todo mísero toque -escondido ou não- já é perfeito e satisfatório por si só.

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