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Lágrimas deslizam de meus olhos sem cessar. À minha frente, o corpo de minha amada flor de lótus ao chão, com uma espada atravessada em seu peito. Não qualquer espada, mas Shuoyue, a minha espada. O tempo parece congelar naquele momento e aos poucos minha mente volta a razão. Corro em direção ao corpo ao chão, torcendo para não ser tarde demais.
Tento sentir seu pulso, que percebo cada vez mais fraco. Minha garganta parece cada vez mais seca, nada parece querer sair além de um baixo sussurro "Por favor, acorde..."
Sinto a respiração pesada de Jiang Cheng, enquanto seus longos cílios tremem, num ensaiado movimento para abrir os olhos. Ao me ver ali, ele esboça um tímido sorriso, deixando as lágrimas virem.
- Você está aqui. - Disse com dificuldade - Eu quebrei nossa promessa, espero que consiga me perdoar.
Ainda não consigo entender com clareza o que aconteceu, a culpa me dominando. Fecho os olhos e lembro da promessa feita, a promessa que eu quebrei primeiro.
- M-me desculpe! Eu não queria... Eu ju-juro que não queria. - Falei entre soluços. Segurei as mãos de Wanyin, que me olhava de maneira serena, enquanto dava seus últimos suspiros, mas antes de ir, como um último sussurro disse "Eu te amo".
-*-
Numa noite quente e céu estrelado, uma promessa foi feita, quatro anos antes. Ambos declararam seus sentimentos banhados pelo luar de Yunmeng. Juras de amor e a promessa de que ficariam juntos por toda a eternidade, sem traições ou abandonos. Naquele momento a imensidão dos olhos roxos refletiam a mais genuína felicidade e eu me afogava cada vez mais dentro dela. Aquele sorriso, mostrado para poucos, parecia ainda mais encantador, se for possível. Naquele momento, eu queria que o tempo parasse, mas quanto mais se quer tempo, mais cruel ele é e escorre pelos dedos. A lembrança, contudo, permanece intacta em minha mente e coração.
Antes disso, passamos por muita coisa. Assim como eu, Jiang Cheng tinha muitas feridas em seu coração. Muitos o enxergam rígido como uma rocha, mas poucos percebiam a vulnerabilidade escondida por trás de toda aquela armadura.
Quantas vezes o via chorando, a noite, escondido na beira do lago, durante minhas visitas por motivos políticos. Seu olhar frio refletia dor e solidão, embora a língua de prata não desse espaço para se perceber. A gentileza escondida em palavras ríspidas e vulgares, mas que jamais deixariam de apoiar quem precisasse. Depois de conhecer esse ser em suas muitas camadas e cheio de complexidade, não pude deixar de me apaixonar por ele e tentar me aproximar.
Em uma de minhas costumeiras visitas, que tinham ficado cada vez mais frequentes, dispensei a necessidade de ser anunciado, indo na direção, já conhecida por mim, aos aposentos do Jiang. Ao chegar na porta escuto um som de algo metálico caindo. Escuto "Droga!" entre sons que pareciam ser um fungar de nariz. Sem pensar, abri a porta de maneira brusca e me deparo com a pior cena que sequer poderia ter imaginado: um Cheng de olhos e nariz vermelhos com um olhar assustado em minha direção, uma pequena adaga ao chão manchada em vermelho. Vermelho esse que escorria por seus braços. Por impulso, apenas o abracei, chorando, o mesmo continuava em choque. O tão grandioso e temido Sandu ShengShou, além de domar os três venenos que denominaram o nome de sua espada, também travava uma imensa luta com a depressão que o consumia.
Não foi a última vez em que o mesmo tentou se machucar. Foram anos nessa luta, que aos poucos e depois de muita resistência, ele não travava sozinho. Não digo que as coisas se tornaram melhores, porque mentir é proibido, mas ao menos o peso foi compartilhado. Assim como as frequentes cartas, uma rotina de visitas entre seitas e a oportunidade de poder fazer parte da vida um do outro também eram.
Tudo foi acontecendo devagar e com muito cuidado, aos poucos recebi a abertura para também poder compartilhar os sentimentos que mantinha dentro do meu coração. A promessa simbolizava um casamento silencioso a qual a lua nos dava sua benção.
-*-
Era manhã em Gusu. Como esperado, os discípulos andavam de um lado para o outro cumprindo suas obrigações.
Após tomar meu café da manhã, fui aos meus aposentos cuidar da papelada diária costumeira. Dentre as correspondências, havia o convite de uma das seitas menores para uma caçada noturna. Aceitei, seria bom treinar um pouco, me sentia enferrujado cuidando somente da parte burocrática do Recanto das Nuvens.
Tudo corria bem, até que uma fumaça densa toma conta de tudo e se torna impossível enxergar qualquer coisa além dela.
Ouço ruídos e passos em minha direção. Por instinto, meu corpo fica cada vez mais tenso e alerta. Uma risada alta atrás de mim. Como mágica, a fumaça se dispersa. A risada agora ecoa em minha mente e perco o controle da minha mente e de meu corpo. Tudo se torna um grande borrão preto.
Sem saber como ou quando, me deparo com um corpo ao chão, não qualquer um, mas de meu amado A-Cheng, com minha espada em seu peito.
Corro até ele para vê-lo morrer bem diante de meus olhos, sorrindo e dizendo que me ama.
O desespero toma conta do meu ser. Como isso pode ser possível? A pessoa que eu mais queria proteger e prometi que jamais o machucaria, uma amarga contradição desse destino que tanto nos amaldiçoa.
Novamente, escuto a risada vindo de dentro da minha mente, cada vez mais escandalosa. Minha cabeça parece explodir e sinto minha visão ficando vermelha e algo com cheiro ferroso e quente escorrendo por meus ouvidos, nariz e boca: sangue. Que belo final trágico, após perder o controle e matar meu amado, sinto minha vida se arruinando em um desvio de qi. Castigo ou redenção? Agora tanto faz.
Aos poucos minha mente se apaga. Nada mais importa.
-*-
- A-Huan, caralho. Se você não acordar e levantar, eu juro que quebro a porra das suas pernas AGORA!
"A-Cheng?!" Abro os olhos e vejo que estou no quarto de Wanyin. Nada parece fazer sentido, mas não dá tempo de tentar refletir sobre, a dor no ombro, vinda do soco do mesmo me faz voltar pra realidade.
De forma involuntária, começo a chorar, deixando Cheng assustado.
-Porra A-Huan, nem foi tão forte assim, para de drama. Já não basta o susto que me deu, seu filho da puta! Você foi encontrado desacordado na floresta e te trouxeram para Yunmeng, por ser mais próximo que Gusu. - Seu corpo parece perder aos poucos a tensão. - Você está desacordado por horas! Disseram que a criatura que mataram soltava uma névoa venenosa, mas ninguém sabe ao certo como isso funciona. Ah, foda-se, você sabe o quanto estava preocupado?! - Disse me dando outro soco no ombro.
- Sinto muito, minha flor de lótus, eu realmente não queria te preocupar. Estou tão aliviado de te ter aqui comigo! - Disse entre soluços. - Ah, você não sabe o quanto foi difícil! Eu te amo tanto, A-Cheng! - Puxei ele para meus braços e como um gatinho manhoso, ele aninhou sua cabeça em meu peito, me olhando carinhosamente.
-Do que você está falando? O que aconteceu?
- Nada, só um pesadelo... "Ainda bem". - Digo aliviado, beijando a testa de Cheng, sorrindo. - Vamos oficializar nosso casamento e me mudarei para cá.
E ficamos presos nos braços um do outro pelo resto do dia. Dessa vez o tempo foi bondoso conosco.
