Chapter Text
Corra. Se esconda. Fique em silêncio. Nunca chame atenção.
A quietude assustadora da noite era maculada pelo som baixíssimo de pés pequenos. A velocidade da corrida e a leveza de seus passos não impedia o sentimento de pavor que fluía nas veias de Damian.
Cala-se. Preste atenção aos arredores. Se falhar, você morre.
Se fosse há cerca de dois anos atrás, ele preferiria morrer a admitir que estava com medo, mesmo que fosse apenas para si. Medo é uma fraqueza. A fraqueza leva à morte.
Nunca pare de correr. Eles vão te achar se você baixar a guarda. Se isso acontecer, seu destino será pior que a morte.
Seus pés batiam nas poças de água, mas ele não podia realmente se importar com a barra da calça molhada. Não quando havia um punhado de assassinos atrás dele. Não quando ele estava praticamente desarmado e sozinho.
Sobreviva, Damian. Você tem que sobreviver.
As últimas palavras de sua mãe ainda estavam vivas em sua memória. Era quase como se pudesse ouvi-la sussurrando no seu ouvido. Como uma velha canção de ninar que te ajuda a dormir. No caso de Damian, o davam impulso para não desistir.
Seu peito doía, respirar ar gelado não ajudava em nada sua saúde já fraca pela péssima alimentação. Ele sabia que se continuasse assim, não viveria tanto quanto sua mãe queria, mas era mil vezes melhor sucumbir a uma doença banal do que viver para ser a marionete de seu avô. Ser seu maldito receptáculo.
Era por isso que agora, Damian não podia deixar aqueles desgraçados o pegarem.
Assassinos surgiram na sua linha de visão e instintivamente ele virou uma esquina, amaldiçoando quando parou em frente a uma parede de tijolos. Um maldito beco, ótimo. Era tudo que ele precisava.
Damian sacou sua adaga medíocre. Era tudo o que ele tinha para se defender. Os assassinos da liga se aproximaram, o encurralando como uma presa. Como o garoto já suspeitava, eram oito. Oito assassinos bem treinados contra um moleque de onze anos, justo. Damian se armou numa posição, pronto para lutar.
Um deles se aproximou, ele usava um emblema verde jade na frente, provavelmente o comandante da missão.
— Essa brincadeira já durou tempo demais, herdeiro rebelde. Volte conosco e não sofrerá consequências tão dolorosas, aceite a misericórdia do Cabeça de Demônio — sua voz era impassível. Damian rosnou em resposta.
— Vão para o inferno! — e atacou.
Os próximos minutos foram um flash intenso de chutes, socos, lâmina com lâmina e sangue. Eles eram bons, mas Damian era incrível. Não era menos de se esperar do neto de Ra's Al Ghu. Ele se movia como uma onça, aproveitando de seu tamanho para dar golpes baixos e de sua agilidade para que fossem eficazes. Estavam mortos, todos mortos. Damian estava ofegante quando arrancou a adaga do pescoço do comandante. Ele viu o corpo cair flácido, os olhos vazios e vidrados. Não queria matá-los, eles apenas estavam seguindo ordens, mas era arriscado demais deixá-los vivos.
Damian se afastou do beco, vendo com indiferença os corpos espalhados pelo beco. Seu corpo doía como o inferno, talvez ele tivesse duas ou três costelas quebradas, não seria a primeira vez. Ele levantou a camisa, apenas para franzir a testa para o enorme e feio ferimento que estava ali. Era um corte profundo, se ele não tivesse desviado rápido, teria atravessado seu estômago. " Ótimo, era o que eu precisava" pensou ironicamente.
Ele tinha que sair dessa cidade agora, o quanto antes. Damian não sabia a quanto tempo eles tinham saído na missão de pegá-lo, mas certamente seu avô já estaria suspeitando da demora. Suspirou derrotado, havia menos de um mês que ele havia chegado em Detroit. Não era uma cidade com o céu mais azul do mundo, mas ele até gostou dos tons de cinza durante o dia. Entretanto essa folha acabou, novamente. Era hora de fugir outra vez
Fugir, fugir e fugir. Sempre fugindo.
Damian não poderia realmente dizer que ele estava vivendo, no mais, ele estava sobrevivendo. Ele se perguntava se realmente valia a pena, ficar correndo de uma cidade a outra, estado ou outro, país ou outro. Até do continente. Há cinco meses atrás, ele estava no Japão.
Não era realmente o estilo de vida mais alegre ou satisfatório, ele já havia passado fome, frio e dor. Mas essa era a mais linda liberdade que Damian já viveu. Quer dizer, ele podia acordar a hora que ele quisesse, onde já se viu? Não precisava seguir ordens, não precisava provar nada. Não seria a marionete de seu avô, ele tinha sua vida.
E a este ponto, Damian se recusava a desistir. Sua mãe havia morrido para que ele pudesse escapar. Durante um curto tempo, ele foi até feliz, antes que a tragédia o alcançasse mais uma vez. Damian sabia que não era alguém destinado à felicidade, mas de vez em quando ele se deixava sonhar. Deixava pensar como seria se fosse diferente. Até que a realidade o atingisse outra vez e ele tivesse que lidar com sua frieza. Ele não deveria ser feliz . Aonde passava, a marca da morte ficava registrada.
Mas novamente, ele não sabia porque não desistia. Talvez fosse por sua mãe. Ou pela triste verdade de que morrer não adiantaria nada, os assassinos de seu avô o jogariam no poço e ele voltaria à estaca zero, só que pior desta vez.
Damian se permitiu relaxar minimamente quando chegou em sua casa segura. Bem, não era exatamente uma casa. Era um antigo estabelecimento, não estava abandonado, mas não era alugado há um tempo. Ou seja, felizmente tinha água nas pias velhas do banheiro e até um chuveiro que funcionava, embora não esquentasse direito, era muito mais do que suficiente.
Ele clicou o celular descartável para ver o horário. 3:35h da manhã, a estação embarque só abriria às 6:00h, talvez ele pudesse tentar dormir um pouco e estancar o ferimento feio na barriga.
Se passaram vinte minutos para Damian terminar de tomar um banho e tentar ao máximo higienizar o corte profundo. Agora ele estava deitado num colchão velho, usando o celular descartável como fonte de luz para o caderno em seu colo. O lápis era ruim e as folhas piores ainda, mas ele conseguia fazer algo bonito ali. Desenhava sua mãe, o sorriso leve no rosto e os cabelos soltos caindo como cascata, emoldurando seu rosto impecável.
Ela não estava assim quando morreu. Talia não morreu de um jeito bonito ou honroso, ela foi dilacerada pelo seu próprio pai. Tudo para que Damian pudesse viver essa fulga terrível o tempo todo. Mas não era culpa dela, não, era dele. Sempre foi dele. Talia pode não ter sido a mãe perfeita, mas ela tentou. Ela fez o melhor que pôde e isso era mais do que suficiente para Damian lembrar dela com carinho e admiração. Lembrar dela como sua mãe , que ele sempre amaria.
Quando se deu por satisfeito, Damian fechou o caderno e guardou cuidadosamente na bolsa ao lado do colchão. Não tinha muita coisa lá, algumas mudas de roupas que ele precisava lavar, um MP3 com fones salvos por fita crepe e a outra coisa mais valiosa que ele carregava. O pedacinho de memórias felicidades.
Damian pegou e tocou o instrumento musical com carinho. O ukulele de madeira escura ainda estava bonito, as cordas bem arrumadas desde a primeira vez que o viu. Ele gostava de tocar quando se sentia pra baixo, música sempre ajudava. Lembrava dela também, a pessoa que ele também podia chamar de mãe. A segunda pessoa pela qual ele prometeu não desistir.
Era um instrumento caricato, tão pequeno. Parecia inútil, e seu avô provavelmente diria que era. Completamente diferente do violino e piano que o forçaram a aprender, este aqui era um instrumento simples, que carregava a alegria da simplicidade em suas cordas. Se Damian fechasse os olhos, ele ainda podia ouvi-la tocando e cantando ele, o ensinando a manusear as cordas pequenas. Ele aprendeu rápido e se apaixonou rápido também. Pamela Sales era o nome da mulher mais bela que já conheceu, junto com sua mãe. Ela mostrou um pouco de como é o calor do amor, de uma vida simples e longe disso tudo. Como algo tão simples como um ukulele pode mudar completamente seu dia.
Seus dedos foram para as cordas, fazendo o acorde de ré menor. Tocando com suavidade e conhecimento das cordas. Ele cantou baixinho no ritmo da música.
Você costumava dizer que fomos cortados da mesma forma
Duas almas perdidas, passearam sem rumo até aquele dia
Eu não tenho arrependimentos, pelo menos eu tento não ter
Q uero esquecer, pelo menos eu tento muito
Seus dedos se moviam calmamente, sem pressa, sem planejamento, apenas seguindo a melodia. Ele fechou os olhos e imaginou outro lugar.
Eu tentei tanto, eu tenho lavado as lágrimas
Eu me libertei, eu posto de lado meus medos
Eu fechei a porta e eu estou feliz assim
Você sempre será o dia em que eu me apaixonei
Damian pensava como a vida de Pamela estaria bem melhor se ele não tivesse cruzado caminho com ela. Ainda ainda estaria viva, ainda estaria se apresentando e ainda teria o sonho vivo de se apresentar para um público maior. Ele destruiu isso dela, ele a matou. Foi impossível evitar a queimação em seus olhos.
Agora, eu estou aqui sem você
Eu vou viver sem você
Agora que você foi embora, eu tenho que continuar
Eu não posso olhar para trás.
A melhor parte de mim quebrou quando eu disse adeus
Uma única lágrima solitária escapou quando ele tocou o último acorde.
E eu estou aqui para dizer adeus
~×~
No fim, Damian tirou um cochilo de mais ou menos uma hora e meia. Mais do que ele esperava, sinceramente. Ele catou suas coisas e logo partiu.
Praguejou baixinho quando seu ferimento mal enfaixado latejou, juntamente com suas costelas. Seu corpo pedia muito mais descanso do que as míseras horas em que ele se acomodou ali. Porém seria burrice permanecer no mesmo lugar após um ataque. Os ataques estavam vindo com mais frequência, seu avô estava perdendo a paciência finalmente? Damian desejava desesperadamente que não.
Com muita força de vontade, ele se levantou por completo, seu corpo inteiro doendo.
Ele chegou à estação às 6:30h, havia poucas pessoas. Andou devagar até a moça da passagem, seus olhos estudando as opções de viagem que piscavam na tela.
Ghotam apareceu, e Damian inconscientemente desviou o olhar. A ideia de ir para Ghotam, pedir ajuda ao seu pai era tentadora, mas ele já havia desistido dela há muito tempo. Seu pai já possuía filhos, que ele mesmo escolheu. Havia muito mais contras do que prós. Seu pai nem sabia de sua existência. E se ele o rejeitasse? Ou pior, se o mandasse direto para seu avô? Além disso, Damian atraia problemas como uma luz que atrai mariposas. Ele realmente não precisava causar um estardalhaço desnecessário. Ele tinha se virado bem até agora.
— E então garoto, para onde vai? — a moça perguntou impaciente pela segunda vez.
Os olhos de Damian vagaram novamente, até pousarem em uma opção. Longe o suficiente de Detroit e guardada por um morcego aliado do pai. Talvez a liga pensasse um pouco antes de ir atrás dele. E ele não estaria exatamente no território do pai. Decidido então, Damian a olhou e entregou o dinheiro.
— Bludhaven, por favor.
