Chapter Text
As gotas de chuvas juntavam-se umas às outras, formando poças nas ruas que refletiam as nuvens cinzas que embaçavam seus olhos; os tilintares que seus sentidos capturaram o fizeram, por alguns segundos, ter uma sensação de conforto. Era gostoso acordar e ouvir os sons dos talheres batendo-se uns nos outros, na louça da xícara de chá quente que era levada aos lábios em um riso mudo. Com as pernas balançando no ar, enquanto as mãos em sua cintura carregavam seu coração, Wonwoo tinha o mundo em seus braços. Acreditava que o sorriso de Mingyu era a coisa mais linda do universo, e pensava que se um dia o perdesse, doeria muito.
E o perdeu. Eles se perderam.
Wonwoo via-se sem conseguir atravessar o rio de memórias, sendo arrastado pela correnteza que era Kim Mingyu. A memória de quando o conheceu ainda era fresca em sua memória, e sabia que não esqueceria tão cedo. Sempre ouviu falar que o amor era uma faca de dois gumes, porque, na mesma intensidade que você pode ser feliz amando uma pessoa, pode sofrer fazendo o mesmo. Ele sabia que não era o culpado. Mingyu também não era; talvez a vida fosse apenas dura demais. Talvez.
E a certeza sobre o fato anterior era devida a visão que tinha de Mingyu sentado rindo com seus também amigos, fingindo que nada havia acontecido, que não o afetava, e aquilo matou Wonwoo por dentro de uma maneira que o fez virar o copo com aquele líquido ruim que queimava a garganta. Sua cabeça doía e seus dedos tremiam enquanto segurava o copo. Ele pensou que depois de dois meses longe, estaria bem. Acreditou que não choraria ao encontrar seu ex-namorado novamente.
Mas estava errado.
Crispou os lábios em uma tentativa de não chorar. Não queria parecer patético. Era o aniversário de Jeonghan, e ele não queria estragar o clima alegre e confortável; ele sabia que os olhos gentis de Seungcheol observavam cada movimento seu, e não foi uma surpresa sentir a mão quente parar em seu joelho, apertando como um conforto. Seungcheol sorria pequeno como se lhe dissesse que tudo ficaria bem, e ele realmente queria acreditar naquilo.
Uma música tocava quase esquecida, sendo abafada pelas conversas animadas no centro da sala. As músicas desconhecidas em inglês eram provavelmente obras de Hansol, com suas playlists estranhas com artistas que nunca ninguém ouviu; Mingyu estava sentado ao lado de Soonyoung, rindo de algo que Seokmin estava contando. Foi impossível não abrir um sorriso triste ao ver como tudo parecia igual.
Menos pela parte em que ele não estava sentado ao lado de Mingyu com os dedos entrelaçados aos seus. O gelo do uísque estava derretendo em sua mão ao mesmo tempo em que ele era levado ao passado, que no momento, parecia utopia. As mãos entrelaçadas, os corpos em uma dança rodando na rua, no meio da chuva, enquanto o branco dos sorrisos se encontravam. Um pouco desnorteado com as lembranças, Wonwoo levantou-se em um impulso, chamando a atenção de algumas pessoas, incluindo a de Mingyu, que o fitou por alguns segundos. Ele sentiu suas orelhas ficarem vermelhas e abaixou a cabeça, olhando para Seungcheol que o fitava com curiosidade.
“Eu… Eu já volto”, disse enfiando o celular no bolso e pegando sua jaqueta no gancho atrás da porta do apartamento. Desceu três lances de escada rapidamente, respirando ofegante ao alcançar a frente do prédio, onde tirou um maço de cigarro do bolso e com os dedos um pouco trêmulos pelo frio, acendeu um, levando os lábios e tragando fundo, soltando a fumaça em seguida.
Ouviu passos se aproximarem e torceu para não ser Mingyu, mas mais uma vez a sorte não estava ao seu lado. Sentiu o perfume que conhecia tão bem inundar seus sentidos enquanto ele encostava na parede ao seu lado, sem dizer nada por alguns minutos, apenas esperando Wonwoo terminar seu cigarro, e quando ele ameaçou pegar outro, sentiu a mão dele segurar a sua, o impedindo.
“Desde quando você fuma?”, Wonwoo apenas deu de ombros. “O que deu em você hoje? Você não costuma beber tanto…”.
“Por que você se importa?”, questionou de maneira ríspida, vendo o Kim arquear uma sobrancelha. Soltou um suspiro em seguida, passando a mão pelo cabelo. A quantidade de álcool que bebeu já fazendo efeito em seu corpo, deixando sua visão um pouco desfocada. “Desculpa…”, pediu em um sussurro trêmulo, e pelo que o ex-namorado conhecia de si, sabia que ele estava prestes a chorar, e Mingyu nunca soube lidar com pessoas chorando, mesmo que fosse uma pessoa da qual ele conhecesse como a palma de sua mão. “Eu só acho que não consigo lidar com tudo tão bem quanto você. As coisas estão difíceis na faculdade, e meus pais ainda estão falando sobre a escolha do meu curso, e… Você já deve saber, mas eu saí do apartamento do Minghao… É ainda estranho fazer tudo sozinho, quando estou tão acostumado com…”, Wonwoo parou de falar, percebendo que estava despejando muitas coisas em cima de Mingyu. Ele provavelmente não queria ouvir as lamentações do seu ex-namorado, pensou Wonwoo.
Afinal, talvez ele estivesse terminado consigo justamente porque Wonwoo se lamentava demais.
“Você pode simplesmente esquecer tudo isso e subir, podemos fingir que nada aconteceu”.
“Eu também sinto sua falta, Won”, Mingyu sussurrou como se fosse um segredo. “Você não precisa lidar com tudo sozinho, você pode conversar comigo, ou se não se sentir confortável, tem seus amigos. E pare de pensar que você é um fardo ou algo do gênero, nós todos amamos você”.
“Não é fácil com você dizendo isso”, Wonwoo sorriu de forma triste. “Eu só queria ser mais forte, Mingyu”, confessou sentindo seus olhos ficarem úmidos. “Ainda é difícil acordar sem ter você ao meu lado, às vezes pela noite eu simplesmente te procuro nos meus lençóis. Eu já estou bêbado e provavelmente vou me arrepender de estar dizendo isso tudo amanhã, mas às vezes eu sinto que não vou conseguir seguir em frente sem você, e eu me odeio por ser tão dependente das pessoas. Quando eu morava com Minghao era mais fácil, mas ao mesmo tempo eu me sentia um intruso entre ele e o Jun. Eles não tinham tanta liberdade comigo lá, e agora que estou morando sozinho é horrível. O apartamento é grande e sempre parece vazio, e eu simplesmente não sei o que fazer”.
Mingyu apertou os punhos sem saber o que fazer; tinha medo de abraçar Wonwoo e acabar piorando uma situação pela qual ele se culpava.
“Às vezes eu acordo e chamo seu nome”, Mingyu sussurra, atraindo a atenção do ex-namorado. “Esses dias eu cheguei em casa com uma porção dupla de frango. Eu ainda faço muitas coisas pensando em você, e é automático. Comprei seu shampoo preferido esses dias, e isso é comum, Wonwoo. Nós moramos juntos por três anos, é normal demorar um pouco para acostumar, você está indo bem, e eu sei que vamos superar isso”.
“Esse é o problema, Mingyu. Parte de mim não quer superar isso porque eu te amo, mas a outra parte está remando sozinha em busca disso, porque eu não posso ser egoísta te pedindo para embarcar comigo sem rumo,c
Ele queria evitar uma queda ainda maior.
Wonwoo não insistiu para eles tentarem, ele sabia que era uma batalha perdida; mas tinha suas opiniões. Ele estava tentando durante todo esse tempo, mas tentar salvar um relacionamento sozinho era como ir para uma guerra desarmado, onde você apenas se machuca. E ele já estava ferido demais vendo quem ele amava desistindo de si; de tudo que eles construíram durante cinco anos.em um barco vazio. É irônico, não é? O vazio era para ser algo leve, mas então porque ele está tão pesado a ponto de me fazer afundar?”.
Ele não soube o que dizer à Wonwoo, porque sabia que se entrasse naquele jogo de confissões, acabaria machucando os dois ainda mais com as palavras entaladas em sua garganta. Ele queria dizer a Wonwoo esquecer sobre tudo e que eles poderiam tentar novamente. Ele sabia que ficariam bem por um tempo, mas era essa a grande questão. Apenas por um tempo, e logo tudo voltaria à estaca zero novamente. Mingyu havia percebido naquele ínfimo tempo sozinho que às vezes, o amor não é capaz de salvar tudo. Ele amava Wonwoo, mas o relacionamento deles havia virado uma rotina cansativa, com algumas brigas das quais eles n
Mas ele não culpava Mingyu. Culpava o universo por não ter feio o amor ser tudo que eles precisavam; mas Mingyu se culpava. Se culpava por ter medo de se machucar ainda mais. Se culpava por ter sido covarde desistindo dos dois, mas ele sabia que, na época, era tudo o que podia fazer com a mentalidade que tinha.
“Você está tremendo, vamos subir”, disse vendo os dedos de Wonwoo ainda trêmulos, e seus lábios estava começando a ficar mais roxos. Era outubro, e o outono gelado avisava que o inverno que estava vindo seria forte; Wonwoo levou a mão até as bochechas e secou as lágrimas que escorreram, e respirou fundo, tentando se livrar do aperto no garganta que o fazia querer chorar mais. Ele se sentia patético, o que lhe fez rir sem humor, chamando a atenção de Mingyu, que pensou que talvez, seu ex-namorado estivesse realmente bebido muito.
“Pode ir na frente, eu vou fumar outro cigarro”, por mais que Mingyu quisesse protestar, Wonwoo era um adulto e sabia o que estava fazendo. Ele queria pensar que sim; tudo ficou silencioso após o Kim subir, e Wonwoo ficou alguns minutos olhando para o nada, com o cigarro apagado preso nos lábios. Ele sequer encontrava forças para acendê-lo naquele momento. Voltou para o apartamento de Jeonghan depois de algum tempo e se alguém notou seus olhos inchados, não comentou nada. Sentou-se ao lado de Seungcheol que tinha uma conversa animada com Jisoo sobre um filme que havia assistido anteriormente, e deu sorte por ter lido o livro daquela saga, assim pode entrar na conversa naturalmente, e por mais que soubesse que sua tolerância ao álcool era fraca, pegou uma cerveja, tentando se distrair e parecer que estava bem. Sentia vez ou outra o olhar de Mingyu em suas costas e tentava não pensar em todas as coisas que eles haviam conversado mais cedo, porque em algum lugar bem escondido dentro do seu coração, ainda havia uma chance de esperança que lhe dizia que ele e Mingyu ficariam juntos novamente.
Ele não queria se agarrar àquilo porque apenas doeria mais; ele precisava seguir em frente e colocar novamente seu barco na água, e aprender a remar sozinho.
A festa seguiu bem, mesmo que o clima não estivesse tão normal quanto ele pensava. Seus amigos tentavam revezar entre ficar com os dois porque não sabiam como eles iriam agir se fossem colocados na mesma roda, e ver que estava causando problemas deixou Wonwoo ainda pior. Ele realmente deveria ter ficado em casa.
Depois de beber mais algumas latinhas de cerveja, ele já não se sentia tão dono de seu corpo, como se não tivesse controle total sobre seus movimentos. Já passava das onze e aos poucos seus amigos começavam a se despedir; parecia a hora certa para ir embora. Ele se aproximou de Jeonghan que conversava com Jisoo na cozinha, vendo o mais velho sorrir em sua direção.
“Estou indo, hyung”, sussurrou para ele. “Mais uma vez, te desejo felicidades e que esse novo ano seja repleto de coisas boas”, disse um pouco enrolado, fazendo Jeonghan rir e o puxar para um abraço.
“Obrigado por ter vindo, Won. Eu sei que as coisas não estão tão fáceis ultimamente. Saiba que sou um ombro se quiser chorar, ou um colo se quiser apenas conversar também. Estamos aqui com você”, Jeonghan disse baixinho em seu ouvido, vendo Jisoo concordar e se juntar ao abraço, esmagando Wonwoo entre eles, o que lhe fez rir mesmo com uma dorzinha no peito. “Fique bem. Você merece ser feliz”, ele sorriu, agradecendo Jeonghan e depois pegou o casaco na porta, tropeçando nos pés enquanto acenava para o resto das pessoas na sala. Mingyu o acompanhou sair, e ficou preocupado com ele indo embora sozinho bêbado, mas quando deu por si, Seungcheol se levantou dizendo que também estava indo para casa, e que levaria Wonwoo com ele, deixando-o despreocupado.
Seungcheol encontrou Wonwoo na escada do segundo andar, e ele parecia estar com um pouco de dificuldade tentando descer os degraus, o que lhe fez rir por um momento. Ele interrompeu os pensamentos do outro abaixando-se na frente dele.
“Sobe”.
“Você não precisa fazer isso, hyung”, resmungou, mas jogou os braços sobre o pescoço de Seungcheol e sentiu-o segurar suas pernas. Era confortável mas ao mesmo tempo estranho. Seungcheol era conhecido como o coala do grupo, por sempre estar agarrado à alguém, então estar do outro lado foi um pouco estranho, mas ainda assim, bom. Wonwoo sentiu sua cabeça girar um pouco enquanto eles desciam as escadas - já que o elevador do prédio não estava funcionando -, então deixou sua cabeça no ombro do mais velho e em poucos minutos dormiu. O carro de Seungcheol estava estacionado na frente do prédio, então não foi difícil para ele colocar Wonwoo com segurança no banco da frente.
Apesar de Wonwoo ter se mudado há pouco tempo, Seungcheol já havia decorado o caminho até sua casa. Enquanto o semáforo ficava vermelho, ele olhou para Wonwoo dormindo ao seu lado e reparou nas olheiras um pouco fundas em seus olhos, pensando se aquele garoto estava se cuidando direito. Ele sabia que seu término com Mingyu estava sendo difícil, principalmente porque, até alguns meses atrás, ele estava pensando em pedi-lo em casamento. Doía seu peito ver seu melhor amigo tão arrasado daquela maneira, deixando seu instinto protetor ainda maior sobre ele.
Seungcheol só queria que ele voltasse a sorrir como antigamente.
Deixou o carro estacionado em frente ao prédio em que Wonwoo morava e abriu a porta do carro, o tirando de lá com cuidado e colocando-o de volta em suas costas. Wonwoo era tão leve que o preocupava. Ele fez uma nota mental dizendo que faria com que o melhor amigo melhorasse sua alimentação; Seungcheol entrou no elevador e apertou o botão do segundo andar do prédio. A porta se abriu revelando o corredor ainda escuro e a luz por sensor acendeu assim que ele pisou fora da caixa metálica, indo até o final do corredor onde Wonwoo morava.
“Wonie?”, chamou o amigo pelo apelido, tocando seu braço calmamente tentando acordá-lo para que pudesse obter a chave, e demorou alguns minutos para que ele abrisse os olhos, sentindo sua cabeça girar levemente ao olhar para as luzes do corredor. Custou um pouco para compreender que estava em frente ao seu apartamento, e então lembrou-se de que estava nas costas de Seungcheol. “Você consegue ficar de pé?”.
Wonwoo assentiu, e mesmo ainda um pouco tonto, conseguiu ficar de pé e buscou as chaves no bolso, encontrando-as no bolso da jaqueta de couro que usava. Ele procurou a chave e começou a rir quando não conseguiu enfiá-la na fechadura, fazendo Seungcheol o olhar com um sorriso divertido nos lábios. Ele com certeza o zoaria por isso no outro dia. O Choi tirou o molho de chaves de sua mão e com uma facilidade enorme, destrancou a fechadura e girou a maçaneta, dando espaço para Wonwoo entrar e assim que fez, jogou os sapatos na soleira de qualquer jeito e se jogou no sofá da sala, sentindo seu corpo estranho ainda.
Seungcheol se sentou ao seu lado e passou a mão sem seu cabelo, acariciando os fios castanhos desgrenhados. Seus fios estavam longos como ele nunca havia visto antes, e ele percebeu que Wonwoo ficava bem de qualquer maneira. Ele parecia ter pego no sono com o carinho, e o Choi se perguntou se ele deveria ir embora. Estava preocupado demais com o bêbado no sofá, medo que ele acabasse passando mal sozinho porque sabia que ele não era o melhor em beber, principalmente por ter o estômago sensível; decidindo ficar mais um pouco, levantou-se e foi até a cozinha fazer um pouco de café para Wonwoo, porque sabia que ele acordaria horrível no dia seguinte, e uma xícara de café poderia ajudar bastante. Ligou a cafeteira elétrica na cozinha e esperou alguns minutos, e então ouviu um baque na sala, o que lhe fez correr até o cômodo, e ouviu Wonwoo vomitando no banheiro, indo até lá para ajudá-lo. Esfregou suas costas em um conforto enquanto via o amigo vomitar.
Wonwoo depois de vomitar todo o conteúdo do seu estômago, encostou na parede do banheiro e começou a chorar, e dessa vez teve o conforto que tão procurava nos braços quente de Seungcheol, que ficou abaixado lhe abraçando enquanto ele colocava tudo para fora. Havia algo no abraço do Choi que sempre funcionou como um calmante natural para si, que o fazia se sentir seguro de alguma forma. E era essa segurança que ele precisava no momento; o mais velho o ajudou a escovar os dentes e lavar o rosto depois de quase meia hora chorando, e colocou o café quente em uma caneca para ele, que se sentou amuado no sofá e ainda fungando, bebeu o líquido quente e ficou em silêncio.
“Desculpe por dar trabalho”, sussurrou para Seungcheol, que negou com a cabeça e o puxou para um abraço. Eles sempre foram próximos dessa maneira, então não era uma surpresa para nenhum dos dois ficarem colados por tanto tempo. Seungcheol sempre gostou de contato físico, e Wonwoo o conhecia há tanto tempo que já havia se acostumado com o jeito grudento do melhor amigo, e mesmo que não admitisse, gostava bastante.
“Deixa isso para lá. Você está se sentindo melhor?”.
“Não sinto mais vontade de vomitar”, respondeu terminando de beber o café.
“Isso é bom. E mentalmente?”, ele não sabia se deveria ter aquela conversa com Wonwoo ainda estando um pouco alto, mas também sabia que ele costumava derramar as coisas mais fácil quando bebia; seus muros costumavam baixar e o Choi pensou que essa fosse a melhor maneira de ajudá-lo. Saber quais eram as dificuldades que o melhor amigo estava passando.
Wonwoo ficou alguns segundos em silêncio. Ele já se sentia em uma situação tão patética que não se importou em deixar as lágrimas rolarem novamente, dessa vez com mais calma. Seungcheol esperou ele se sentir pronto para começar a falar.
“Eu odeio sentir tanta a falta dele, Cheol. Não é o meu primeiro término, mas não havia doído também assim antes. É como se ele tivesse levado meu coração com ele e agora eu não sei como vou sobreviver com esse vazio no meu peito. O que eu devo fazer?”.
Oh, aquilo doeu em Seungcheol; ele respirou fundo tentando esconder a dor em seu peito.
“É engraçado como o vazio no peito parece estar cheio de lágrimas, não? Eu sei que seu coração está doendo. Eu também já vi uma pessoa que amo indo embora, e foi a pior coisa que já me aconteceu. Nos primeiros dias, eu pensei que morreria, sentia meu peito fundo e não conseguia fazer nada sem pensar na pessoa. Está tudo bem em não estar bem, Wonie. Às vezes precisamos chorar todas as lágrimas que estão aqui”, ele apontou para o peito de Wonwoo. “Assim eliminamos todos os sentimentos ruins e abrimos espaços para os bons que virão. Nenhuma dor dura para sempre, isso posso te dizer com certeza, e vou estar aqui colocando um band-aid até seu coração se curar totalmente”, Seungcheol disse beijando sua têmpora, o que lhe fez sorrir pequeno.
“Você nunca me contou sobre isso antes… Sobre essa pessoa”.
“Foi apenas uma pessoa que conheci no ensino médio, não é recente”, ele riu. “E eu superei totalmente”, Seungcheol esperava que Wonwoo não perguntasse sobre aquilo novamente. Sobre algo que esteve enterrado em seu coração por tantos e tantos anos; de todas as pessoas, Wonwoo era a única que ele não queria que soubesse. “Você quer que eu fique aqui essa noite?”.
“Você pode ficar?”, Wonwoo questionou olhando para ele, que assentiu. “Então, por favor”.
Já sentindo-se sóbrio o suficiente, Wonwoo tomou um banho quente e colocou pijama, deitando-se na cama com Seungcheol enquanto eles assistiam Friends. O mais velho sabia que a série sempre melhorava o humor do melhor amigo, então deixou ligada enquanto acariciava os fios, mas acabou dormindo na frente de Wonwoo, que soltou um riso baixo ao ouvi-lo roncar. Desvencilhando dos braços do mais velho, ele o cobriu e foi até a varanda. Sentia-se sem sono agora que estava sóbrio e acendeu um cigarro enquanto olhava para a imensidade iluminada que era Seul. Olhou o cigarro queimando em sua mão e perguntou se deveria estar fazendo aquilo.
Com um suspiro, tragou uma vez, soltando a fumaça pelo nariz enquanto ouvia os sons da cidade. Na madrugada era sempre mais melancólico. Como morava em uma região agitada de Seul, era sempre barulhento. De madrugada ouvia as pessoas rirem, a música alta tocando, e muitas vezes pensava que estava sozinho. Costumava passar todos os fins de semana com Mingyu maratonando alguma série, ou ia ver seus amigos, mas desde que terminaram ele não sabia o que fazer. Sentia-se cada vez mais sozinho em uma solidão que havia criado em sua mente, e não sabia ao certo como escapar daquilo.
Wonwoo sempre foi prisioneiro da própria mente, que ultimamente esteve lhe dizendo que ele não era bom o suficiente para Mingyu, e acreditar naquilo era o que mais doía. Sua mente lhe dizia que logo Mingyu encontraria uma pessoa melhor que ele e seria feliz, e no final das contas, ele veria quem ele ama se casando com outra pessoa.
Ele queria conseguir desejar que Mingyu fosse feliz com outra pessoa, mas ainda não conseguia dizer isso nem para si mesmo. Pensou estar sendo egoísta, mas no fundo ele sabia que estava apenas sendo humano.
Ele tentaria superar Mingyu e silenciar aquela voz rude que lhe dizia coisas ruins em sua cabeça, mesmo que isso demorasse tempo; ele precisava conseguir.
Quatro meses se passaram desde aquele dia, e Wonwoo sentiu muitas coisas mudarem naquele cinco meses que estava morando sozinho. Seu apartamento já não parecia tão estranho e ele estava se acostumando a viver consigo mesmo novamente, e mesmo que tivesse dias difíceis, ele dizia a si mesmo que precisava. Que ele precisava se reconhecer e se amar novamente.
Havia encontrado Mingyu mais algumas vezes depois naquilo, e por mais esquisito que fosse, não foi tão ruim como antes. Ainda doía um pouco ver Mingyu e dizer ao seu cérebro que ele era somente um amigo agora. Ele e Seungcheol se aproximaram ainda mais nesses últimos meses, e o garoto vivia mais em seu apartamento do que em qualquer outro lugar, assim como Jisoo que havia vindo a tiracolo, o que significava que Seungcheol, Jisoo e Jeonghan não saíam de seu apartamento, o que lhe deixou feliz. Ele gostava bastante da presença dos mais velhos e aquilo estava fazendo bem para si.
Naquela sexta-feira, estavam todos enfiados no apartamento grande de Jihoon, comemorando que o garoto havia conseguido um emprego em uma produtora grande. Mingyu e Wonwoo já não estavam tão estranhos um com o outro mais, conseguindo se entrosar em conversas de maneira natural, o que fez o grupo suspirar aliviado por não ter de revezar entre dois grupos diferentes nos encontros; uma música animada em inglês tocava e ele sabia que mais uma vez, Hansol havia colocado mais uma de suas playlist contendo músicas indies que quase ninguém conhecia, mas esse toque era familiar a Wonwoo. Os acordes bonitos do violão preenchendo a sala o fizeram olhar, sem querer, para Mingyu, que olhou em sua direção no mesmo instante e abriu um sorriso pequeno, e ele nunca pensou que um simples curvar de lábios fosse destroçar seu coração daquela maneira; sentia-se ser levado para o passado, onde seus olhos haviam se encontrado com os do Kim pela primeira vez, há cinco anos.
Wonwoo não gostava do inverno.
O inverno sempre lhe trouxe sensações ambíguas. A paisagem pintada de branco pela neve sempre lhe pareceu ser um vazio bonito sem fim, e os dias sem sol sempre lhe pareceram melancólicos. Essas eram apenas algumas das razões que faziam Wonwoo desgostar da estação gelada. E naquele inverno, do qual ele já estava considerando horrível por não sentir suas falanges direito por conta do frio intenso que cantava pelos prédios em forma de vento, o sumiço de seu melhor amigo fez tudo ficar ainda pior.
O caso era que Wonwoo nunca foi uma pessoa sociável; todos à sua volta tinham o conhecimento desse fato. Fluff havia desaparecido no dia anterior devido a uma porta mal fechada e mesmo depois de três dias, o Jeong não havia visto rastro do gato de pelagem cinza. O desespero corria por suas veias enquanto no inverno de três graus ele colava cartazes de desaparecido pelos postes do bairro. Mal havia conseguido dormir direito pensando que seu gato poderia estar congelando naquele frio rigoroso. Havia colocado a caixa de areia do Fluff para fora, na esperança que o gato retornasse, mas depois de quase uma semana, muitas noites mal dormidas e lágrimas, ele estava quase perdendo a esperança de encontrá-lo. De encontrá-lo com vida principalmente, já que o gato não estava acostumado com as ruas e os perigos delas.
Sentia-se culpado. Se ele tivesse cuidado melhor do seu animal de estimação, talvez a cena fosse diferente, pensava enquanto olhava alguns comentários em um fórum de Seul onde as pessoas faziam publicações de animais desaparecidos; era triste ver que tantas pessoas continuavam buscando mesmo depois de anos. Ele já não sabia o que fazer.
Wonwoo havia sido ensinado a gostar de literatura desde criança, por sua avó, que era professora de universidade. Desde pequeno havia sido presenteado com livros de fantasia, o que lhe fez pegar um enorme gosto pela leitura. Sua avó materna sempre foi uma figura que lhe inspirou a ser alguém bom; ainda na pré-adolescência, Wonwoo havia se afogado em livros de romances, se tornando um romântico incurável enquanto ficava mais velho. Havia lido em um livro uma vez que você sabe que encontrou a pessoa certa quando olha nos olhos dela e ela te ilumina.
No começo, aquela pequena frase não fazia muito sentido para si; não até aquela quarta-feira de dezembro, quase véspera de natal. Wonwoo estava lendo um dos seus livros preferidos no momento, da Saga Percy Jackson e os Olimpianos, quando seu computador notificou que seu fórum havia recebido uma mensagem. Ele, ainda com uma gota de esperança molhando seu coração, deixou o livro de lado e sentou-se de frente para a máquina, vendo que um user chamado min9yu_k havia comentado. Seu coração acelerou de repente e ele sentiu seus dedos tremerem enquanto respondia a mensagem.
min9yu_k: eu acho que encontrei o seu gato… eu não tenho certeza, mas pelas fotos eles parecem o mesmo…
everyone_woo: oh, meu deus! você pode me passar o seu número? podemos marcar um lugar para nos encontrarmos?
min9yu_k: claro!
Em alguns minutos a mensagem tão aguardada chegou, então Wonwoo adicionou o número no seu celular e imediatamente mandou um sms. O nome do garoto era Kim Mingyu e ele morava do outro lado da cidade, o que de certa forma fez Wonwoo murchar um pouco. Como Fluff havia ido parar do outro lado da cidade em pleno inverno?; ele tentou não se deixar abalar por isso e tentou seguir com a cabeça erguida. Mingyu havia lhe mandado uma mensagem pedindo para eles se encontrarem em uma praça no centro, sendo que estava com um gato e não poderia entrar em muitos dos estabelecimentos.
Wonwoo não era o tipo de pessoa que sairia em pleno inverno para realizar algo a não ser que fosse preciso; seu melhor amigo, Seungcheol, sempre tentava lhe arrastar para os festivais de inverno que tinham na cidade, mas quase sempre desistia. Wonwoo preferia mil vezes ficar dentro de casa lendo um dos seus livros ou jogando no computador, mas era uma situação diferente. Ele estava sentado em um banco, sentindo seus dedos dos pés doerem por conta do frio, e balançava as pernas em ansiedade pura enquanto esperava Mingyu. O garoto disse que estaria vestindo uma jaqueta de couro e all stars vermelhos, enquanto Wonwoo apenas vestia um casaco forrado preto, usava um cachecol branco e luvas, se agasalhando da melhor maneira que podia.
Mesmo com o inverno castigando a cidade, ela ainda assim estava lotada, já que era final de dezembro e muitas pessoas saíam para comprar lembrancinhas de natal; olhar para todos aqueles casais faziam Wonwoo pensar na teoria da pessoa certa, e imaginava que cada pessoa tinha sua luz particular sendo representada de uma forma, e aquele garoto com um pouco mais de um e oitenta, aproximando-se e tapando a geada fria que vinha do Sul, sorria como se tivesse o sol nos lábios. Se houvesse alguém que pudesse ser a representação do astro, com certeza seria Kim Mingyu carregando um gato cinza dentro do casaco.
“Você é Jeon Wonwoo, certo?”, ele questionou olhando para si com expectativa, e Wonwoo abaixou o cachecol branco depois de assentir, exibindo um sorriso pequeno. Seu sorriso aumentou quando o Kim tirou o gato cinza da jaqueta. O gato estava usando uma roupa improvisada feita de meias, e o Jeon o reconheceu pela manchinha no nariz, que fez seus olhos se encherem de lágrimas. Ele levantou para pegar o gato e o abraçou forte contra o peito, deixando suas lágrimas rolarem quando o gato se esfregou em si, miando baixinho enquanto reconhecia o dono. Mingyu sorriu vendo a cena, sentou-se no banco que antes Wonwoo ocupava, observando o gato manhoso no colo do garoto pedindo por carinho e o Jeong nunca foi tão grato em sua vida por encontrá-lo.
“Eu realmente não sei como te agradecer, estava feito um doido procurando por ele na cidade toda… Eu já estava esperando o pior, então, obrigado”, Wonwoo fez uma reverência ao Kim, que apenas sorriu e disse que aquilo não era necessário. “Eu queria entender como esse fujão foi parar do outro lado da cidade”.
“Isso foi minha culpa… Eu estava almoçando com a minha mãe em um restaurante aqui por perto e vi ele revirando as latas de lixo… Estava muito frio, então nós o levamos para casa. Ele estava gordinho e parecia bem cuidado, então concluímos que era de alguém. Procurei nos fóruns de animais desaparecidos até te encontrar”, Mingyu sorriu, acariciando a cabeça do gato enquanto Wonwoo voltava a se sentar. “Se eu soubesse que seu dono era tão bonito, tinha revirado a cidade para encontrá-lo antes, Bolota”, sussurrou para o gato, mas em um tom propositalmente audível para que Wonwoo também ouvisse, o que fez seu rosto corar enquanto ele arregalava os olhos. Wonwoo apenas desviou o olhar e puxou o cachecol para cima, tentando esconder suas bochechas coradas.
Aquela foi a primeira vez que Mingyu conheceu alguém tão fofo que fez as borboletas em seu estômago dançarem de um lado para o outro, e ele por alguns segundos pensou que estivesse louco.
Kim Mingyu sempre comparou Wonwoo à primavera. Era uma estação amena, que tinha muitos dias quentes e estáveis, e ele amava a maneira que os olhos deles sempre lhe apresentavam um amor estável, sem qualquer via de dúvida; a maneira como seus sentimentos desabrocharam como flores, tornando seus dias mais coloridos e bonitos.
Wonwoo era primavera no mais puro significado, e vê-lo tornar-se inverno ao longos dos anos tornou seu coração um lugar escuro. Mingyu sabia que o amava, e sabia que era recíproco. Mas também sabia que Wonwoo era uma pessoa cercada de suas inseguranças consigo mesmo, e se culpava por não ter conseguido fazê-lo confiar em si mesmo.
Fazê-lo se amar da maneira que ele o amava.
Wonwoo o amou na ansiedade, nos dias sombrios, quando ele próprio não se amou o suficiente; ele o amou em todas as estações, mas o amor próprio que lhe faltava sempre os machucou mais do que tudo.
Essa estação desconhecida sempre machucaria Mingyu, porque ele não sabia quando iria chover, esfriar ou florescer dentro do namorado; e Wonwoo sempre foi fechado demais para contar, sempre tentando sorrir e esconder o que realmente sentia para não ser um fardo. Mingyu queria que ele tivesse confiado mais; que visse em si mesmo todas as cores bonitas da primavera que ele conseguia ver nos olhos castanhos.
Mingyu havia se mudado para Seul há poucos meses, então não conhecia muitas pessoas. Conhecia seu vizinho americano, Hansol. O garoto havia se mudado há pouco tempo também, vindo de Nova Iorque, e Mingyu estava tentando lhe ajudar com o coreano fazia algumas semanas. Isso fez eles se aproximarem rápido, e tendo o mesmos gostos por músicas e séries, logo se consideraram melhores amigos.
Hansol havia se apaixonado por um garoto no primeiro dia de aula. O americano era completamente anti social, e Seungkwan era extrovertido até demais. Não foi nada fácil conseguir coragem para se declarar ao garoto que era capitão do time de vôlei, visando que ele sempre estava cercado de gente em volta, mas mesmo com seu jeitinho quieto e simples, Hansol conquistou seu coração; a primeira festa do ano letivo veio quando o time de vôlei ganhou o primeiro jogo no campeonato que os levaria para o estadual.
A irmã de Mingyu o deixou na porta da casa do Boo; ele olhou para o celular enquanto esperava por uma mensagem de Wonwoo. Havia criado coragem para lhe chamar para sair, então estava nervoso esperando por uma mensagem. Sabendo que o garoto gostava de chá, o levaria até uma cafeteria que gostava, que servia chás, cafés e doces. Desde aquele dia não havia conseguido tirar o sorriso do Jeon da cabeça, e aquilo estava lhe perturbando. Havia em seu peito uma ansiedade em vê-lo que o Kim nunca havia sentido antes, mesmo não sabendo muito sobre o garoto de sorriso bonito.
Assim que entrou, encontrou Jeonghan com Jisoo sentados no sofá conversando bem próximos, naquela época, eles ainda não eram um casal. Mas todos sabiam. Todos da escola sempre souberam que eles seriam um do outro em algum momento. Jisoo abriu um sorriso simpático ao ver Mingyu. Ele também era do time de vôlei da escola e estava sempre sentado na mesma mesa que o Boo. Já Jeonghan era do time de natação, e havia ganhado muitos troféus para a escola. No canto da sala, estavam Jihoon com Hansol, os dois cuidando do som da festa. Mingyu ficou surpreso com o tanto de gente que tinha na festa. Ele obviamente sabia que o Boo era uma borboleta social, mas não imaginava que a festa seria naquele nível.
Mais uma coisa que ele havia aprendido sobre. Ele comprimentou algumas pessoas e seguiu até a cozinha, onde sabia que estaria o Boo. A cozinha parecia ser o único lugar que dava para ouvir os próprios pensamentos naquele lugar. Mingyu entrou e viu Seungkwan conversando com alguém, e se aproximou para cumprimentá-lo.
Existia algo na forma como os olhos de Wonwoo se curvavam quando ele sorria que sempre fez o coração de Mingyu errar o compasso. Seus olhos acompanhavam o curvar do seu sorriso, e aquilo era a coisa mais adorável que o Kim já havia visto na vida. Wonwoo estava sentado na banqueta da cozinha americana com uma coca-cola na mão enquanto conversava com Seungkwan e outro garoto que não lhe vinha o nome na mente agora. Mingyu se aproximou com o coração na boca, se apoiando na bancada da cozinha e dando-lhe seu melhor sorriso.
“Acho que essa festa acabou de ficar ainda mais interessante”, Mingyu disse sorrindo. Wonwoo se assustou brevemente por alguém estar tão perto, mas sorriu de maneira tímida para si. Por mais que Mingyu fosse um cara cheio de cantadas e trejeitos, ele ainda assim não sabia como chamar as pessoas para sair, já que nunca havia saído sério com alguém. Ele nunca se interessou por alguém o suficiente para querer algo sério, mas havia um mistério nos olhos de Wonwoo que o fazia querer ficar. Querer descobrir todas as suas cores, quais segredos aquele universo castanho guardavam.
Wonwoo lhe atraiu de uma maneira que na época ele não soube explicar.
“Kim Mingyu”, disse baixinho.
“Eu não sabia que vocês se conheciam”, Seungkwan disse curioso, servindo um copo com uma bebida de cor estranha para Mingyu. Ele tinha quase certeza que não tinha álcool naquilo, mas a cor ainda assim era duvidosa.
“Eu te falei sobre o garoto que encontrou meu gato”, Wonwoo disse, bebendo mais um gole da coca-cola. Ele estava tão bonito que Mingyu só queria abraçá-lo e dizer o quão lindo ele era. O garoto estava com seus fios castanhos caindo sobre os olhos, o óculos de grau deslizando levemente o nariz, uma blusa xadrez e seus jeans rasgados. Wonwoo parecia ainda mais bonito do que naquele dia.
“Eu jamais imaginaria que esse Mingyu era esse”, apontou para o garoto que vestia uma jaqueta de couro. A jaqueta de couro sempre foi a marca do Kim. Muitas vezes o garoto parecia um rebelde sem causa por causa do seu estilo, mas todos sabiam o quão doce Mingyu era.
“E como o Bolota ‘tá?”, perguntou verdadeiramente interessado. Fluff havia ficado uma semana toda com Mingyu e o garoto havia se apegado ao gato, que dormiu em cima de si todos os dias naquela semana. Seu quarto havia ficado vazio depois que Fluff foi entregue ao dono, então o Kim estava tentando convencer sua mãe a lhe deixar ter um também.
“Ele ‘tá bem, guloso e preguiçoso como sempre. Acho que ele sente a sua falta, porque às vezes fica miando e procurando algo pela casa. Ele nunca havia feito isso antes, então eu acho que ele está procurando você”, ouvir aquilo fez o peito de Mingyu ficar quentinho.
“Eu também sinto a falta dele. Nunca havia tido um gato antes. Eu tinha um cachorro quando morava em Busan. Depois disso não tive mais nenhum animal. Estou tentando convencer a minha mãe a termos um gato”.
“Você pode convidar sua mãe para ir a um abrigo de animais”, Wonwoo disse sorrindo. “Minha mãe também não queria que eu adotasse o Fluff, até que eu convidei ela sem ela saber para onde ia, até um abrigo. Lá ela se apaixonou pelo Fluff. Pode ser que essa técnica também seja infalível para você”.
“Olha, eu realmente vou tentar. Se eu tiver sucesso, você pode me ajudar a comprar coisas necessárias para um gato viver… Eu te mandei uma mensagem agora pouco, aliás”.
“Meu celular morreu”, Wonwoo mostrou o celular desligado em cima da bancada. “O que você mandou?”.
“Na verdade”, disse sentindo suas orelhas ficarem vermelhas. “Eu queria saber se você quer ir em um encontro comigo… Tipo, se você gostar de homens também é claro.. Como eu sou burro, eu sequer perguntei se você gosta… Eu entendo perfeitamente se você disse que não, porqu”, antes que Mingyu terminasse de falar, Wonwoo riu, segurando seu braço para que ele prestrasse a atenção em si.
“Eu aceito ir em um encontro com você”, respondeu com um sorriso e riu do desespero de Mingyu. O Kim parece surpreso por um minuto. Mil cenários haviam se passado por sua cabeça naquele minuto, e em apenas alguns o sorriso de Wonwoo se curvava enquanto ele dizia sim.
“Pelo que observei, dançar não é muito a sua praia”, Mingyu comentou sem tirar os olhos de si. Era engraçada a forma como seus olhares sempre se encontravam, parecendo que havia algo magnético na forma como eles se prendiam. Essa era apenas mais uma das coisas das quais ele nunca soube explicar sobre seu relacionamento com Wonwoo.
“Tenho dois pés esquerdos”, Wonwoo riu. “E você, por que não está dançando?”.
“Acho que conversar com você é mais interessante”, Mingyu apoiou o queixo na mão enquanto falava, e Wonwoo só conseguia pensar no seu coração batendo tão forte enquanto Mingyu olhava daquele jeito para si, parecendo que estava prestes a transbordar fascínio. Como o romântico incurável que era, ele sabia que todos os sintomas estranhos que estavam revirando seu estômago eram paixão. Não havia sido a primeira vez que seu interior havia sido balançado por causa de Kim Mingyu e aquele madito sorriso que conseguia carregar um sistema solar inteiro de tão brilhante.
Wonwoo sempre considerou Mingyu como o sol. Com seu jeito brincalhão e seus sorrisos fáceis, havia conseguido derreter a camada grossa de gelo da qual Wonwoo criou para proteger seu coração, e aquilo aconteceu com uma facilidade e normalidade que o Jeon não viu motivos para lutar contra. Seu coração sempre parece bater no mesmo compasso que o do Kim, por isso ele soube quando terminaram que não era apenas o dele que estava quase parando, alagado com as lágrimas não choradas e tentativas que não os levaram para lugar algum. Sempre havia visto Mingyu como um espelho seu, mas então por que naqueles últimos meses juntos ele parecia estar sem aço? O amor já não era refletido da mesma maneira, e ele não conseguia ver-se nos brilhos dos olhos do garoto.
Eles não sabiam onde haviam errado, mas também não tinham mais forças para procurar. Eram dois estranhos se amando tentando se reconhecer novamente; e pela primeira vez eles aprenderam que o amor não é capaz de salvar uma relação.
Deitados no gramado na casa de Seungkwan pela madrugada, enquanto a festa lá dentro tomava proporções absurdas, Wonwoo contava quando estrelas conseguia ver no céu nublado de Seul. A luz minguante estava escondida entre nuvens, e seu peito estava agitado por ter Mingyu deitado tão próximo de si.
“Você acredita em alma gêmea?”, questionou ao Kim, ainda sem tirar os olhos do mar pouco estrelado que era o céu.
“Sim. Mas eu acho que vou mais pela parte lógica do que pela romântica”, Mingyu apoiou o cotovelo no chão e o rosto na mão novamente, para que pudesse olhar para ele enquanto conversavam. “Eu acho sim que nesse mundo exista uma pessoa que será igual a você em quase tudo, que será seu espelho. Nos gostos, nas manias, e em todas essas coisas, mas essa pessoa pode não ser necessariamente o amor da sua vida. Pode ser um amigo, um familiar. Eu li uma vez que nem sempre o grande amor da sua vida será sua alma gêmea, sabe? Você pode se apaixonar por uma pessoa totalmente oposta de você, e está tudo bem. Sua alma gêmea também pode encontrar seu amor em outra pessoa que faça bem ao seu coração. Acho que não existe uma regra quanto à quem será o grande amor da sua vida”.
“É uma visão interessante”, Wonwoo levantou-se na mesma posição para olhar para si. “Eu gosto mais de pensar na versão romântica. Que existe uma pessoa por aí que irá te completar a ponto de você se sentir a pessoa mais feliz do mundo. Me julgue, mas eu sou romântico”,
“Eu acho uma maneira fofa de pensar, para falar a verdade. Nossa visões são bem diferentes sobre o amor”, Mingyu riu.
“E você acha que é possível encontrar sua alma gêmea no grande amor da sua vida?”.
“Será a pessoa mais sortuda do mundo a que o fizer”, sorriu. “Eu sempre pensei que não queria encontrar uma pessoa que me completasse, e sim que me fizesse transbordar. Minha mãe sempre me disse que você mesmo deve se completar com o seu amor, e então encontrar alguém que te ame tanto que te faça transbordar”.
“Eu nunca havia parado para pensar dessa forma… E você acha que conseguirá esse feito”.
“Estou ansioso para descobrir”, disse enquanto levava os dedos gelados até a pele macia e quente da bochecha de Wonwoo, que não se afastou ao toque, apenas fechou os olhos e deixou Mingyu acariciar seu rosto como se ele fosse a coisa mais delicada do universo. Mingyu via naquele garoto um poço de delicadeza, mas aquilo não significava que ele achava Wonwoo frágil. Ele havia passado por muita coisa, mas nunca tirou o sorriso benevolente do rosto. Seu maior erro foi não ser bom consigo mesmo, mas o Kim sabia que aquilo não era culpa sua.
Era culpa das pessoas que o faziam acreditar que ele não era o suficiente.
Sempre existiu algo na forma como os dedos de Mingyu tocavam a pele de Wonwoo que funcionava como um calmante natural. Era como se seus dedos conhecessem cada dor, cada nervosismo, cada ansiedade; suas mãos sempre mapearam o corpo de Wonwoo como uma propriedade que ele mesmo não conhecia.
Wonwoo sempre teve a certeza de que Kim Mingyu era sua alma gêmea, e passou muitos anos desejando ser o grande amor da sua vida também.
Dormir no sofá de Seungkwan enquanto conversava com Mingyu foi o que aproximou-os ainda mais. Mingyu acabou descobrindo que Wonwoo estudava na mesma escola que ele, mas era um rato de laboratório de biblioteca e estava sempre isolado em algum lugar enquanto entrava nos universos dos livros que lia. Eles começaram a sentar-se de frente um para o outro entre as prateleiras, estudando juntos, rindo de alguns personagens que passavam vergonha, e até mesmo chorando juntos quando liam algo triste. Somente as páginas dos livros podiam contar como eles se apaixonaram, como foi o primeiro entrelaçar de mãos, o primeiro “eu gosto de você”.
O primeiro encontro deles havia sido um desastre; Wonwoo estava sentado sozinho depois da festa de Jihoon. O cigarro aceso estava entre os dedos, estava pela metade, e as cinzas caindo no chão. Ele havia bebido bastante, e a chuva torrencial lá fora o lembrava da primeira vez que havia beijado Mingyu. Eles finalmente haviam combinado um dia para irem até a cafeteria preferida de Mingyu no momento. Era uma cafeteria de aparência simples. As paredes foram pintadas de um rosa bebê, e haviam várias patinhas de gato pintadas de branco na parte de dentro. Wonwoo abriu o sorriso mais bonito do universo quando chegou e viu Mingyu parado em frente a um café de gatos. Era uma cafeteria que tinha uma parte separada para as pessoas brincarem com os gatos que moravam ali.
Ele estava vestindo uma jaqueta jeans por cima de um suéter azul, e seus jeans rasgados. Mingyu estava com sua jaqueta de couro como de costume, mas havia ajeitado os fios lisos para trás e Wonwoo odiava admitir que o deixou atraente demais; a primeira coisa que Wonwoo fez ao entrar foi ir ver os gatinhos que estavam perambulando na parte permitida. Eles se sentaram perto de um enorme arranhador, que havia alguns gatos dormindo e outros brincando.
Wonwoo parecia uma criança olhando para tudo, e o brilho dos seus olhos sempre foi algo que Mingyu comparou às estrelas. Era como se estivesse colocado uma constelação inteira naqueles olhos castanhos.
“Eu não fazia ideia de que um lugar como esse existia”, Wonwoo comentou animado, vendo um gato o olhando com certa curiosidade. Wonwoo esticou a mão para si e esperou que o bichano chegasse perto, e assim que ele permitiu, Wonwoo acariciou sua cabeça, sorrindo.
“Eu descobri há um tempo. Sempre vinha aqui para brincar com os gatos, até o Fluff aparecer. Sempre gostei bastante de gatos, e me sentia bem feliz em vir aqui alimentá-los. Eles são umas gracinhas. Esse é o Mopimopi, ele tem esse nome porque parece uma bola de pêlo”, disse pegando um gato branco peludo que se aproximou. Mingyu o pegou com cuidado e o gato resmungou quando ele o abraçou, como se ele estivesse acostumado a fazer aquilo. Wonwoo observou com encanto no olhar, pensando que Mingyu era ainda mais fofo do que ele havia imaginado.
Eles passaram bastante tempo brincando com os gatos até que resolveram comer. A cafeteria estava vazia naquele horário, então eles se sentaram em uma mesa do outro lado, já que não podia-se consumir nada na parte onde os gatos ficavam. Mingyu pediu um frappuccino e um pedaço de bolo de nozes, enquanto Wonwoo pediu um dos cafés mais doces, e bolo de chocolate. Mingyu percebeu que o garoto gostava de coisas doces, o que era uma observação interessante. Wonwoo começou a encontrar alguns doces em sua mesa na escola todos os dias depois disso.
“Então por isso eu acho que a Medusa é uma das personagens mais injustiçadas da mitologia”, Wonwoo comentou enquanto terminava de comer seu bolo.
“É engraçado como ela é sempre abordada em todo lugar como vilã…”, Mingyu completou. Wonwoo havia começado a falar sobre o livro de Percy Jackson que estava lendo, e entraram em uma conversa sobre mitologia. Mingyu também gostava de ler, mas não era um leitor assíduo como Wonwoo, e ouvi-lo falar sobre as milhares de coisas em sua cabeça era uma das coisas que Mingyu sempre amou. O garoto parecia um poço de conhecimento e era sempre adorável enquanto falava das coisas que gostava.
As coisas começaram a dar errado quando Mingyu e toda sua falta de delicadeza, virou seu café e derramou na calça de Wonwoo. O garoto deu um pulo pelo susto e sua sorte foi não estar tão quente.
“Meu deus do céu”, Mingyu disse se levantando e tentando ajudar Wonwoo com seus jeans manchados, e o garoto só conseguiu rir com o desespero de Mingyu em limpar sua roupa enquanto pedia desculpas. “Eu realmente sinto muito”, disse parecendo arrependido. Ele havia colocado em sua cabeça que havia estragado tudo, mas a risada gostosa do Jeon lhe dizia outra coisa.
Wonwoo estava com a calça toda manchada pela bebida? Sim. Ele se importava? Naquele momento com Mingyu andando ao seu lado parecendo dono do mundo com aquele sorriso, ele pensava que não.
Havia um rinque de patinação no centro, onde muitos casais costumavam ir aos finais de semana, e ele havia pensando em cada detalhe daquele encontro. Queria que Wonwoo se divertisse da mesma maneira que ele estava se divertindo enquanto conversava sobre milhares de assuntos.
“Você já patinou no gelo?”, Mingyu perguntou a ele quando eles chegaram perto do rinque, e Wonwoo negou.
“Cheol tentou me arrastar para cá algumas vezes, mas você sabe que eu não sou a pessoa mais sociável do mundo”, e naquele momento, o Kim sentiu-se especial. Especial por Wonwoo ter aceitado sair consigo mesmo não gostando tanto de estar fora de casa.
“Você pode segurar minha mão”, Mingyu disse com um sorriso no rosto. Eles pagaram pelo ingresso e pegaram os equipamentos. Mingyu ajudou Wonwoo com os patins, e com todo o equipamento de segurança. Ele costumava patinar bastante com sua irmã quando eles eram pequenos, então acreditava que não deveria ser muito difícil. Realmente não foi difícil ficar de pé em cima das lâminas afiadas, pensou o mais novo enquanto entrava no rinque e esticava a mão para Wonwoo, que parecia estar com dificuldades. Era adorável a forma como ele segurou firme em Mingyu quando eles pisaram no gelo.
“Isso é um pouco assustador”, Wonwoo comentou rindo enquanto tentava não cair. Era difícil se equilibrar no gelo, então ele apenas deixou-se ser guiado por Mingyu que parecia ter muito mais equilíbrio. Eles olharam em volta e começaram a rir. Todos os casais estavam patinando consideravelmente bem, mas eles pareciam dois desastrados prestes a se esborrachar no gelo. Wonwoo estava com as duas pernas abertas tentando não cair enquanto se agarrava à Mingyu, tornando a cena engraçada para quem via; e como o desastrado de carteirinha que era, Mingyu perdeu o equilíbrio quando Wonwoo o puxou pela jaqueta, levando ambos para o chão.
Tudo aconteceu tão rápido que quando Mingyu percebeu, já estava caído sobre Wonwoo no gelo, e o garoto embaixo de si começou a rir, com o rosto alguns centímetros do seu. Mingyu sentiu a respiração quente bater contra seu rosto, e começou a rir da situação também. Eles ficaram alguns segundos se encarando com os rostos colados. Wonwoo parecia ainda mais bonito visto de pertinho daquele jeito. Seus cílios eram grandes e faziam sombra em suas bochechas. Havia algumas sardas quase imperceptíveis se você não olhasse direito, e suas sobrancelhas eram lindas também. Mas o que hipnotizou mesmo Mingyu naquele instante, foram os lábios bem desenhados formando o sorriso mais bonito que ele já havia visto.
Mingyu sempre acreditou que todo sorriso novo de Wonwoo era mais bonito que o anterior, e ele nunca conseguiu escolher qual era o seu preferido; mas o sorriso que Wonwoo deu quando ele o beijou pela primeira vez, enquanto a chuva torrencial caía sobre os dois, foi o mais marcante de sua vida.
Mingyu se odiou por muito tempo por não consegui-lo mais fazê-lo sorrir daquele jeito.
Com Wonwoo com algumas dores pela queda e com a calça jeans manchada, Mingyu acreditava que aquele encontro havia sido um desastre completo, mas ele não sabia que podia ficar pior. Enquanto ele acompanhava o Jeon até o ponto de ônibus, uma chuva torrencial que não estava na previsão do tempo começou a cair, pegando ambos de surpresa. Já era tarde então não haviam muitas pessoas na rua, e as que restavam, correram para dentro de algum estabelecimento.
Mingyu segurou a mão de Wonwoo e eles começaram a correr pelas ruas que ficavam encharcadas, e no branco dos sorrisos misturados, o Kim percebeu que estava apaixonado. Ele queria ver Wonwoo sorrindo por mais tempo, queria fazê-lo rir, queria ouvir suas milhares de teorias sobre o universo e ouvi-lo ler seus livros preferidos. Ele queria ser o motivo daquele sorriso lindo que ele lançava em sua direção sempre. Era egoísta querer guardar um sorriso para si?
Eles pararam de correr quando chegaram no ponto de ônibus, e as mãos continuaram entrelaçadas. Mingyu sorriu para si, com os fios molhados agora caídos sobre os olhos, e Wonwoo tinha certeza que o seu coração ia sair pela boca por ele estar tão próximo de si. Mingyu levou os dedos até o cabelo de Wonwoo, que caía em seus olhos, e os tirou dali, olhando fixamente para si antes de sorrir.
“Você é a pessoa mais bonita que eu já vi na minha vida”, Mingyu disse para si como se estivesse contanto um segredo, e aquilo fez Wonwoo sorrir ainda mais, e eles estão tão próximos que ele acreditava que o Kim fosse capaz de escutar as batidas rápidas do seu coração. Foi Wonwoo que o abraçou primeiro, passando os braços em sua cintura enquanto Mingyu levava a mão direita até seu rosto para acariciar, e foi no meio de uma chuva torrencial que eles se beijaram pela primeira vez.
Wonwoo tinha gosto de chuva, bolo de chocolate e calda de caramelo; foi o beijo mais doce e viciante que Mingyu já experimentou em sua vida.
Quando Wonwoo chegou em casa aquele dia, dormiu sorrindo como há meses não fazia. Ele pegou uma gripe por causa da chuva? Sim, mas ele estava arrependido? Nem um pouco.
Choi Seungcheol sempre foi uma pessoa transparente, mas no dia seguinte, pela primeira vez o garoto teve que aprender a esconder o que sentia quando viu Wonwoo sorrindo enquanto contava que estava apaixonado por alguém. Ele nunca pensou que um coração partido por um amor unilateral fosse doer tanto. Sempre foi óbvio o interesse entre Mingyu e Wonwoo, mas Seungcheol só percebeu que realmente não teria chance quando eles começaram a namorar.
Não havia como competir por alguém quando a parte pela qual você luta está rendida.
Seungcheol apenas desejou naquele momento que Mingyu fizesse Wonwoo a pessoa mais feliz do mundo; não era aquela felicidade que ele viu nos olhos naquela segunda-feira quando Wonwoo foi para a faculdade. Fazia um pouco mais de dois anos que ele e Mingyu estavam morando juntos, e foi quando tudo começou a desmoronar.
Wonwoo sentou-se na cadeira na biblioteca na hora do intervalo, onde estavam Seungcheol e Jisoo, e o garoto não disse uma palavra antes de começar a chorar. Seungcheol e Jisoo se entreolharam assustados, sem saber o que fazer no momento. Wonwoo nunca foi uma pessoa que demonstrava o que sentia, então vê-lo desmontar dessa maneira em público os deixou desesperados. Seungcheol foi o primeiro a levantar a sentar ao seu lado, lhe abraçando enquanto sussurrava que ficaria tudo bem, tentando lhe acalmar. Wonwoo chorava de maneira tão sentida que Jisoo pensou que tivesse acontecido uma tragédia.
Depois de um bom tempo chorando em silêncio, Wonwoo tentou se recompor e suspirou fundo, escondendo o rosto entre as mãos com vergonha por ter chorado tanto em público. Fazia um tempo que Seungcheol não via o melhor amigo com os olhos brilhantes como costumavam ser, e vê-lo se fechar daquele jeito estava o deixando doido de preocupação.
“Eu acho que o Mingyu vai terminar comigo”, disse baixinho, sentindo vontade de chorar novamente, e aquilo pegou os dois amigos de surpresa.
“O que? Como assim?”, Seungcheol perguntou assustado. Ele e Mingyu pareciam estar bem da última vez.
“Por que você acha isso, meu bem?”, Jisoo perguntou com a delicadeza que fazia parte de si, passando a mão nas costas de Wonwoo em um conforto. Ele sempre foi o mais delicado dentro do grupo quando o assunto era confortar alguém. Ele tinha um ótimo abraço e sempre parecia saber o que dizer. “Vocês brigaram?”.
“Não foi a primeira vez”, confessou, fungando mais uma vez antes de começar a contar. “Eu sinto que estou pendurado em uma corda, esperando pelo fim do nosso relacionamento. Não é a primeira vez que brigamos, mas é a primeira que não pedimos desculpa… Antes conseguiamos resolver com diálogo, mas dessa vez é diferente. Eu sempre consegui ver através de Mingyu, mas nesses últimos meses, é como se ele estivesse fechado para mim, e eu simplesmente não sei o que fazer”, ele estava sentindo seus olhos ficarem úmidos de novo quando sentiu a mão de Seungcheol sobre a sua.
“Em um relacionamento, a comunicação é extremamente importante. Vocês precisam conversar para tentarem ver o que está errado. Eu tenho certeza que vocês se amam, e que irão conseguir resolver isso se sentarem para conversar. Não deixe seu orgulho falar mais alto, Won. Orgulho não leva ninguém a lugar algum”, Seungcheol disse, e Jisoo encarou a cena por alguns minutos.
Ele sabia. Ele sempre soube que Seungcheol era apaixonado por Wonwoo desde que eles eram pré-adolescentes. Dói ver a pessoa que você ama sofrendo por outra pessoa; Jisoo sentia aquilo na pele todos os dias, e não sentia sozinho.
“Ele não vai terminar com você assim, Wonwoo. Segue o conselho do Cheol. Vocês precisam conversar sobre o que está acontecendo. Todo casal tem suas brigas, eu mesmo já perdi as contas de quantas vezes eu e o Jeonghan já brigamos, mas conseguimos resolver porque conversamos e pedimos desculpas. Não fique pensando em coisas ruins quando vocês sequer conversaram, tudo bem?”, Wonwoo assentiu.
Seu coração estava fundo enquanto ele pensava nos cenários que poderiam acontecer quando ele e Mingyu sentassem para conversar, e aquela foi a primeira vez que ele teve um ataque de pânico. A realidade era que Wonwoo sempre foi uma pessoa ansiosa, mas nunca havia passado por uma situação tão desesperadora quanto aquela; ele estava indo para casa acompanhado de Jihoon, que morava perto. Ele estava sentindo seu coração bater forte enquanto o carro estava parado em um semáforo. Jihoon estava cantarolando uma música, baixinho, enquanto prestava a atenção no trânsito, distraído demais para perceber que o amigo estava balançando a perna sem parar. Ele sabia que Mingyu provavelmente estaria em casa quando ele voltasse, e pensar em conversar com ele sobre o relacionamento que estava ruindo fez seu coração disparar. Ele levou a mão até o peito e sentiu que estava prestes a vomitar.
“Hyung, você pode parar o carro?”, perguntou fechando os olhos, sentindo uma tontura horrível. “Eu acho que vou vômitar”.
“O que?”, Jihoon olhou para Wonwoo, e ele estava tão pálido que o garoto praticamente jogou o carro no acostamento, sem se preocupar com as pessoas que estavam buzinando atrás. Ele saiu do carro e deu a volta, abrindo a porta e ajudando Wonwoo a tirar o cinto de segurança. Wonwoo não vomitou, ele apenas sentou-se na calçada enquanto sentia seu corpo tremer inteiro, e sua visão ficou desfocada por alguns minutos.
“Eu não consigo respirar”, ele sussurrou, sentindo seu peito doer e sua garganta fechar e isso deixou Jihoon desesperado. O produtor pensou em todos os sintomas e percebeu que Wonwoo estava tendo um ataque de pânico. Ele já havia tido um no passado e conhecia perfeitamente os sintomas horríveis.
“Respira comigo”, Jihoon o ajudou com a respiração, e apesar de tê-lo ajudado momentaneamente, Wonwoo ainda sentia sua cabeça girar e seu peito doía. “Vou te levar no hospital, e não aceito o contrário”, o garoto ajudou Wonwoo a voltar para o carro e eles seguiram para o hospital mais próximo. Não demorou muito para Wonwoo ser atendido. O clínico geral o medicou e ele acabou dormindo, exausto pelo ataque de pânico. Enquanto ele dormia, Jihoon havia mandado mensagem para Mingy avisando que eles estavam no hospital, e ele estava curioso para entender o que havia acontecido. O porquê de Wonwoo sussurrar que achava que Mingyu não o amava mais enquanto surtava.
Ele nunca havia visto Wonwoo tão desestabilizado antes.
Mingyu chegou ao hospital quase vinte minutos depois, e encontrou Jihoon parado no corredor do quarto, mexendo no celular. Ele parecia estar assustado quando olhou para Jihoon, mas se acalmou assim que viu Wonwoo dormindo, parecendo melhor.
“O que aconteceu?”, Mingyu perguntou. Jihoon apenas havia dito que havia levado Wonwoo ao hospital por um mal estar, querendo conversar melhor com ele pessoalmente.
“Eu acho que devo perguntar isso... Por que o seu namorado teve um ataque de pânico fodido enquanto dizia que achava que você não o amava mais, Mingyu?”, Jihoon foi direto, e o Kim olhou para si assustado com aquela informação.
Ele havia feito Wonwoo acreditar que não o amava mais; Mingyu nunca se perdoou por isso.
“Eu sei que não tenho nada a ver com o relacionamento de vocês, mas Wonwoo é meu amigo. Um dos meus melhores amigos, e eu juro por deus que se você magoar ele, eu vou quebrar sua cara. Me dê um motivo para não te bater aqui, e agora”, Mingyu suspirou fundo e passou a mão pelo cabelo, sem saber ao certo como dizer aquilo. Tudo estava tão confuso entre e Wonwoo naquela época que ele não entendia ao certo onde eles estavam.
“Nós brigamos ontem”.
“Só isso? Porque eu estava conversando com o Cheol agora pouco e ele me disse que Wonwoo chorou hoje, em público, desesperado enquanto dizia que achava que você ia terminar com ele”.
“O que? Eu não vou terminar com ele”, Mingyu arregalou os olhos, olhando para Jihoon que esperava por uma resposta. “Nós não estamos tão bem nesses últimos meses, mas em um nenhum momento eu disse que queria terminar com ele”.
“E você disse isso a ele alguma vez? Tentou sentar e ter uma conversa clara com ele?”, Mingyu negou. “Então é isso que você deveria fazer, idiota. Ele teve um ataque de pânico porque está sendo deixado no escuro na relação de vocês. Vocês moram juntos, como você quer que ele se sinta? Ele saiu de casa para ir morar com você. Você deveria cuidar melhor dele”.
“Eu sei, me desculpa”.
“Não é para mim que você deve pedir desculpas… Eu estou saindo agora porque preciso ir para o trabalho ainda. Ele deve receber alta ainda hoje. O leve para casa, e avise se algo acontecer”, Mingyu apenas assentiu e assistiu Jihoon ir embora.
O garoto sempre sincero em tudo; era uma característica sua, e ela fez Mingyu, na época, enxergar o que estava acontecendo.
Wonwoo dormiu por quase duas horas enquanto Mingyu esteve sentado ao seu lado, vigiando seu sono. O garoto tinha uma expressão perturbada no rosto e o Kim nunca havia se sentido tão culpado por algo. Deveria ter sido mais claro com Wonwoo, já que sabia que o namorado tinha suas próprias inseguranças. Mingyu chorou um pouco antes de Wonwoo acordar, porque ele também não sabia o que ia acontecer entre eles. Era claro que ele amava Wonwoo. Claro como o céu é azul, mas havia algo empurrando a relação deles para baixo que ele não sabia o que era. Ele tinha certeza que seu amor era recíproco na mesma intensidade, mas aos poucos eles estavam perdendo o dom da comunicação.
Wonwoo acordou um pouco desnorteado, tentando entender onde estava enquanto sentia seu corpo letárgico por conta do medicamento que havia tomado. Ele piscou algumas vezes e viu Mingyu ao seu lado, mas não conseguiu entender direito o que ele estava falando.
“Você está bem?”, Mingyu perguntou segurando o seu rosto. “Me desculpa, meu amor”, disse deixando algumas lágrimas escaparem enquanto beijava a testa de Wonwoo, que ainda estava tentando assimilar tudo que estava acontecendo. Ele estava em um hospital, e nem lembrava direito o que havia acontecido para ir parar ali. Assim que Mingyu o soltou, ele respirou fundo e piscou novamente, sentindo sua cabeça latejar. Então ele se lembrou do dia que teve, da ansiedade de saber o que iria acontecer com seu relacionamento, se Mingyu realmente estava pensando em terminar consigo. “Eu não vou terminar com você, Wonwoo… Eu sei que não estamos tão bem, mas nós vamos conseguir superar isso, tudo bem?”, disse abraçando-o, e aquilo acalmou Wonwoo.
E eles tentaram superar, mas mesmo existindo amor, não dá para salvar um relacionamento quando as partes dele não estão prontas para ficarem juntos. Mingyu e Wonwoo sentaram para conversar e pensaram que todos os problemas estavam resolvidos, mas no final eles estão tão cansados de tentar encontrar uma solução para aquele relacionamento que um ano depois, eles terminaram.
Wonwoo começou a fazer tratamento para ansiedade depois de ter tido outro ataque de pânico na semana de provas da faculdade; e aqui estava, sentado conversando com o psicólogo enquanto contava como estava sendo ter Mingyu em sua vida apenas como um amigo. Ele desejava conseguir superar isso logo, mas é difícil conseguir superar um relacionamento de cinco anos de uma hora para a outra. E Wonwoo tinha certeza de uma coisa. Ele nunca amaria uma pessoa como ele havia amado Mingyu.
Ao sair do consultório psicológico, encontrou Seungcheol esperando do lado de fora, como sempre. Seungcheol havia o ajudado a encontrar um bom psicólogo, e sempre o acompanhava nas consultas mensais, ou quando ele precisasse. Naquela sexta-feira, eles haviam combinado de tomar sorvete, e enquanto Wonwoo comia seu sorvete de chocolate com calda de caramelo, recebeu uma mensagem de Mingyu. Eles haviam terminado há dez meses, e desde então as mensagens eram raramente trocadas.
Ele sentiu seu coração bater mais forte quando leu a mensagem em que Mingyu perguntava se eles podiam se encontrar.
“Mingyu me mandou mensagem”, ele disse olhando para Seungcheol, que o encarou com curiosidade. “Ele perguntou se podemos nos encontrar hoje, naquele pub perto da faculdade…”.
“Você tem alguma ideia do que ele quer?”.
“Eu sinceramente não faço ideia”.
“E você está bem para isso?”, Wonwoo deu de ombros, e Seungcheol deu um peteleco na testa dele. “Não é assim que as coisas funcionam. Vocês ficaram bem machucados com isso tudo, principalmente você… Sei que seus pais estão falando na sua cabeça para você trocar de curso, e isso está te estressando, e lidar com tudo que aconteceu entre vocês novamente pode te fazer mal, então eu pergunto, você está bem para ir conversar com Mingyu?”.
“Sinceramente? Não estou. Dói ficar perto sem poder segurar a mão dele. Sabendo que eu perdi ele dessa maneira, que nós nos perdemos porque a minha vida é uma bagunça…”.
“Um relacionamento é formado por duas pessoas, Won. Para fazer dar certo, as duas precisam tentar, então pare de se culpar por algo que você não tem como controlar”.
“Eu sei… Na verdade, eu deveria saber, mas simplesmente não entrar na minha cabeça que eu não tive culpa, Cheol.. O psicólogo disse que isso pode levar um tempo… Mas quanto ao Mingyu, eu nem tenho certeza sobre o que ele quer, pode ser algo nada a ver com o que aconteceu entre a gente, às vezes ele pode estar querendo só alguém para conversar”, Seungcheol acabou concordando. Ele sabia que o Kim não era má pessoa e não faria nada para machucar Wonwoo propositalmente, mas ele ainda assim se preocupava.
Ele havia visto Wonwoo em uma situação tão ruim, de saúde física e mental há alguns meses atrás, que considerava todo cuidado pouco; Wonwoo voltou para o trabalho naquele dia e sua mente apenas ficou viajando para lugares do qual ele não queria voltar. As memórias dele com Mingyu ainda assombravam sua mente, que tentava lhe dizer que ele havia perdido tudo aquilo porque nunca foi o suficiente para Mingyu.
Mingyu costumava ser sol. Costumava ser um sistema solar inteiro; mas agora, Wonwoo estava no escuro, tentando retomar a vida depois de passar cinco anos se dedicando a um relacionamento que fez de sua primavera, inverno. Ele sentia que perder Mingyu foi o mesmo que arrancar todas as folhas de uma árvore, deixando-a nu, indefesa, esperando sua beleza florescer novamente.
Wonwoo ajeitou o óculos no rosto antes de entrar no pub naquela sexta-feira. O local estava cheio como de costume. Ele e os amigos estava acostumados a ir naquele pub nos finais de semana, então conhecia bastante gente que frequentava o local. Soojung acenou para si assim que ele chegou. Era uma garota que fazia o mesmo curso que si, que sempre o acompanhava quando ele queria ver um filme inspirado em algum livro. Eles eram bons amigos. Mingyu estava sentado em uma mesa mais afastada enquanto bebia uma cerveja e droga, por que ele tinha que continuar sendo tão bonito?
Ele sorriu assim que viu Wonwoo, que sentiu seu coração errar uma batida.
“Desculpa pelo atraso, o trânsito estava horrível”, Wonwoo disse se sentando, pedindo para o garçom trazer uma cerveja para si.
“Está tudo bem, não faz muito tempo que cheguei”, sorriu. “Desculpa por te mandar uma mensagem assim, do nada, mas eu precisava conversar com você”.
“Aconteceu alguma coisa?”, perguntou preocupado, olhando para Mingyu.
“Sim, mas eu não vejo como algo ruim, ao menos não para mim…. Bom, nós tivemos uma longa história, e você fez parte de muitos momentos da minha vida, então eu queria que você fosse a primeira pessoa a saber… Eu consegui uma bolsa para estudar moda”, Wonwoo sorriu tão verdadeiramente com a notícia que o coração de Mingyu doeu.
“Isso é maravilhoso, Mingyu! Eu estou realmente feliz por você, sei o quanto você se dedicou estudando… Em qual faculdade é?”.
“Parsons”, sussurrou, e ele viu Wonwoo arregalar os olhos em surpresa. “Eu recebi o e-mail hoje de manhã, e você está sendo a primeira pessoa a saber… Ainda parece que estou sonhando, sabe? A ficha não caiu…”, Wonwoo concordou, ficando em silêncio por alguns minutos.
“Me desculpa, isso realmente me pegou de surpresa… Isso significa que você está se mudando para Nova Iorque, não é?”.
“Eles deram um mês para eu arrumar toda a papelada e o visto…”.
“Eu realmente estou feliz por você, sempre foi seu sonho estudar moda em Parsons. Me sinto honrado por ser o primeiro a saber”, e mesmo com o coração doendo por saber que talvez, ele nunca mais fosse ver Mingyu, Wonwoo sorriu. Por mais que quisesse acreditar que seria um até logo, sua cabeça lhe dizia que Mingyu nunca mais retornaria.
Ele não queria acreditar na voz que estava em sua cabeça, mas era difícil não ouvi-la quando ela gritava tão alto.
“Você fez parte dos meus sonhos, Wonnie, então eu tenho que te agradecer por sempre ter me encorajado a persegui-los, se você não tivesse me apoiado da maneira que fez, eu não teria conseguido. Eu sei que é difícil falar sobre nós, mas eu sempre vou lembrar de você como a melhor parte da minha vida”, Mingyu sussurrou com a garganta embolada. “Merda, eu acho que vou chorar”, disse rindo enquanto levava as mãos até os olhos e enxugava o canto deles.
“Você fez parte dos meus anos mais felizes, Mingyu. Sei que nossos últimos meses juntos foram um pouco conturbados, mas eu nunca vou deixar eles apagarem todos os anos maravilhosos que passei ao seu lado. Eu amo você, você sempre será alguém especial para mim, então eu te desejo apenas coisas boas. Tenho certeza que terá uma carreira de sucesso como estilista, e que irá alcançar todos os seus objetivos”.
“Eu amo você também, e espero um dia ter um terço da força que você tem. Você é incrível”, disse sorrindo para si.
“Vai, agora vamos parar com essas coisas emotivas antes que eu chore. Precisamos comemorar e organizar uma festa de despedida para você. Avise o grupo que estamos aqui e chame todo mundo”, Mingyu riu, assentindo e pegando o celular, e em cerca de uma hora estavam todos sentados em uma mesa do pub comemorando e rindo. Seungkwan como o dramático que era chorou horrores e fez Mingyu prometê-lo que voltaria para a Coreia, enquanto Hansol começou a falar sobre todas as coisas que amava em Nova Iorque, dizendo ao noivo que eles poderiam visitar Mingyu nas férias.
E entre todas as pessoas, havia uma com o coração apertado, mesmo que feliz.
Porque Wonwoo havia percebido que Mingyu estava seguindo sua vida, enquanto ele continuava parado no mesmo lugar, se culpando por tudo e com um pingo de esperança que lhe dizia que algum dia, eles iriam se encontrar novamente. Talvez fosse bom Mingyu estar longe para o processo de superação de Wonwoo, para que pudesse focar em regenerar seu coração. Ele precisava de um coração sem dor para que pudesse se amar novamente, e seu terapeuta estava trabalhando para que isso acontecesse.
Mingyu, que sempre foi o verão, foi embora no inverno. E Wonwoo voltou a odiar o inverno, que o deixava sofrendo com frio e solidão, sem ter quem abraçá-lo por trás e fazê-lo sentir-se aquecido.
“Como você está?”, Seungcheol perguntou a Wonwoo enquanto eles voltavam do aeroporto, depois de terem visto Mingyu embarcar rumo a Nova Iorque.
“No momento, bem. Parece que meu peito está anestesiado de alguma maneira. Eu estive me preparando mentalmente para isso, mas eu também sei que em algum momento, eu vou chorar”.
“E eu vou estar lá com um pote de sorvete com calda de caramelo para te fazer companhia”.
“Não tenho eu o melhor amigo do mundo?”, Wonwoo riu enquanto ligava o rádio do carro de Seungcheol. “Mingyu deixou o Binbin no meu apartamento hoje. Estávamos dividindo ele nesses meses. Ele passou alguns meses comigo e Mingyu vinha visitá-lo de vez em quando, e eu ia até Mingyu quando ele estava com a guarda. Ele acostumou dormir entre nós dois, então de madrugada ele fica miando procurando pelo MIngyu. Demorou um tempo para ele entender que ele não viria mais, e agora ele fica olhando para mim como se eu estivesse lhe devendo explicação”, ele riu novamente, mas Seungcheol sabia que aquele era um assunto delicado. “Dizem que os gatos conseguem sentir tudo o que os donos sentem, então eu acho que é por isso que ele fica procurando o Mingyu pela casa… Ele… Ele sente tanta a falta do Mingyu, sabe, Cheol?”, e ele acabou chorando antes do planejado. “É difícil dormir em uma cama tão grande quando você está acostumado a dormir com alguém, é difícil comer sozinho quando aquele que você sempre esperou chegar, não está comendo com você… Binbin sente falta disso”.
“Claro que sim, Binbin sente. Binbin vai conseguir superar, porque ele é um gato forte, e o gato mais inteligente de todos, e também o mais bonito”, Seungcheol passou a mão pelo rosto do amigo, enxugando a bochecha. “Desculpa, eu realmente não tenho sorvete agora, mas isso não quer dizer que não podemos passar uma sorveteria no caminho”.
“Diga para Jihoon parar também, ele disse que pessoas tristes dão inspiração para ele escrever músicas, e estou bem triste agora”, Wonwoo começou a chorar e rir ao mesmo tempo, o que fez Seungcheol rir por alguns minutos e abraçá-lo da melhor maneira que podia enquanto esperava o semáforo abrir.
Mingyu não voltou nas férias no primeiro ano. Nem no segundo. E depois de três anos, Wonwoo parou de esperar.
