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ANTES DA TORRE
Quando Khun pensa nas datas dos principais acontecimentos da sua infância – sua entrada na escola, a adoção de Kiseia, o começo do processo de seleção de princesas, Maria – ele construía um parâmetro para determinar mais ou menos sua idade em outros eventos menos centrais.
O primeiro desses momentos foi antes que ele entrasse para a escola Khun, então ele devia ter por volta de três anos. Naquele dia, sua mãe sentou-se na cama dele assim que ele acordou e lhe contou o que tinha de errado com ele.
Era crucial que ele soubesse, que ele entendesse, porque quando você conhece a ameaça, você pode destruí-la (ou nesse caso evitá-la).
“Isso é extremamente perigoso, Aguero. Pode nos fazer ser expulsos se alguém descobrir, por isso não confie em ninguém.”
Os meses seguintes só podiam ser descritos como sufocantes.
A cada passo de Khun, sua mãe pairava – por falta de uma palavra melhor – sobre ele, perguntando como tudo ao seu redor se parecia, como cheirava, como soava, como era seu gosto, sua textura, sua forma.
Quando ela folheou com ele um livro e ele apontou as palavras coloridas, sua mãe lhe disse que aquele livro não tinha cores.
Esse foi o primeiro “desvio” que ele descobriu.
Alguns dias depois ele descobriu como seu corpo coçava sempre que ele via os números ímpares, arrepiava quando ele via um número na casa de centena e formigava quando eram números múltiplos de sete.
Desde então Khun teve que se preocupar em esconder a forma como via e sentia o mundo ao seu redor. Isso porque os atípicos – nome popular para pessoas como ele – e suas famílias diretas eram automaticamente expulsos assim que descobertos.
O grande argumento era: atípicos frequentemente tinham problemas em controlar shinsu. Para uma família capacitista isso era inaceitável. Além disso, a Família Khun reconhecia o problema como hereditário, para resolver o “problema” de forma efetiva e permanente, todos diretamente associados ao atípico identificado eram automaticamente expulsos. Mais uma aplicação do ditado popular “cortar o mal pela raiz” que é dito para todos os deserdados.
A maior parte da família, entretanto, sabia que era uma grande hipocrisia. Atípicos eram identificados por toda a Torre, sim, mas a proporção dentro da família Khun era maior. O que induzia automaticamente que não eram as esposas que portavam o gene defeituoso, mas sim o grande chefe de família.
Mas a família Khun nunca foi justa. E Khuns sempre davam um jeito de sobreviver.
O primeiro grande desafio para Khun foi quando entrou na escola, aos quatro anos.
Era de conhecimento comum que os professores testavam os alunos para encontrar quem tinha desvios com mais empenho nos anos iniciais, mesmo que de forma velada.
A mãe dele tinha treinado a mente dele exaustivamente para perceber quais as intenções das perguntas dos professores e qual eram suas estratégias que o levariam a um beco sem saída que o desmascararia.
Nem todos seus meio-irmãos que estudavam na mesma sala que ele tiveram tanta sorte. Na sua turma com inicialmente trinta e um alunos, três também eram atípicos e foram descobertos pelas mesmas inspeções que ele se safou. E como sua mãe disse, eles e suas mães e irmãos inteiros foram expulsos.
Com o tempo, porém, a confiança em excesso trás imprudência. E parecia tão irreal descobrirem que Khun começou a adaptar seus desvios para aprimorar funções e facilitar suas obrigações. E Khun AA sempre foi, por sua natureza, um preguiçoso.
Um preguiçoso sempre encontrava a forma mais fácil de fazer algo. Em todos os anos que passou na Família Khun, ele tinha sido uma prova viva disso.
Ele adaptou seus desvios de identificar rapidamente números e ver cores em algumas palavras para fazer o máximo com o mínimo de esforço. Isso diminuía substancialmente seu tempo estudando, e seu esforço na tarefa. Então ele só corria o olho nas páginas enquanto suas mãos passavam rapidamente as páginas sem se importar com se preocupar em levar suspeitas. À medida que foi ficando cada vez melhor, teve tempo livre até para começar a pescar.
NA TORRE
De dentro de seu farol principal na aula de Leroro para portadores da luz, Khun já estava entediado.
Já fazia alguns minutos que ele só mantinha uma atenção parcial à voz do professor. Em vez disso, ele se concentrou em fazer pequenas pesquisas na rede do andar.
Como um amador no uso de faróis, ele não sabia proteger devidamente sua pesquisa de algum administrador do andar que supostamente poderia querer xeretar no que ele estava pesquisando. Inclusive uma das suas prioridades para um futuro próximo era aprender sobre isso, porém, por enquanto, ele poderia se dar ao luxo de fazer algumas pesquisas mais seguras e previsíveis.
Primeiro alguns membros da sua família. O nome Kiseia brilhou laranja assim que ele terminou de escrever, acompanhado do já enjoativo azul que ele sempre enxergava no nome Khun. A informação que ele procurava estava lá: ela ainda não tinha entrado na Torre.
Próxima pesquisa: Maria, com o leve tom rosa, contrastando com o amarelo Zahard ao seu lado que quase feria suas retinas. O resultado era mais extenso, pois além da ficha habitual tinham várias notícias sobre aparições, entrevistas e fofocas. Como ela era uma princesa isso era inevitável, com certeza Endorsi teria um resultado semelhante. Ele se impediu de abrir algum deles e focou nas informações importantes para a escalada dele – e agora de Bam.
O próximo foi Ran, o azul escuro que sempre o lembrava de um céu noturno limpo e claro. Ran era um atípico escondido assim como Khun, além de ser um prodígio da família. Khun já tinha um plano para o convencer a se juntar a ele assim que Ran entrasse na Torre.
Então ele pesquisou integrantes do andar. Os mais próximos – amigos, talvez, segundo a lista que ele ajudou a completar: Bam, Rak, Hatsu, Isu, Endorsi, Anaak.
Talvez ele já tivesse feito a conexão inconscientemente no seu cérebro. A verdade é que quando ele leu que Anaak Zahard estava morta, Khun nem piscou.
Khun entrou na cozinha para esquentar seu jantar atrasado no microondas. Ran estava meio deitado em um sofá, iogurte pendurado na boca enquanto jogava um videogame. Khun passou por ele sem uma saudação. De alguma forma, foi uma pequena gentileza da parte de Khun não induzir Ran a ficar irritado com os sons que ouvia sempre que olhava para alguém.
A verdade é que Ran teve muita sorte de ter apenas um tipo de desvio, por mais irritante que ele pense que seja. Sempre que Ran olhava para alguém, um som específico soava em sua cabeça. E ele organizou os sons em escalas de irritabilidade, que variavam de pouco incomodo a “eu mataria essa pessoa para parar com isso”.
Contra a sua expectativa, Ran desviou os olhos do videogame para olhar em sua direção quando Khun estava passando. Talvez o som que Ran ouvia quando olhasse para ele não fosse tão ruim, porque Ran não evitava olhar tanto quanto era esperado. Khun estendeu a mão e passou carinhosamente no cabelo de Ran, dando uma leve arrumada antes de seguir seu caminho para o quarto e voltar a trabalhar no seu farol.
Em um teste de piso todos os segundos eram preciosos. Talvez não para todos, mas era para Khun. Qualquer segundo que ele pudesse conseguir adiantar poderia dar a ele mais controle tanto sobre sua equipe quando em todo o teste. E para isso ele usava todos os truques e artimanhas que conseguia e seus desvios – surpreendentemente – o ajudavam muito.
Khun já tinha se tornado um especialista de cores, passando por centenas de páginas por minuto no seu farol. Sabendo sobre o que era cada parte dos dados com base em cores chaves que brilhavam e nas coisas que sentia. Ele apenas gastava tempo lendo dados que já sabia que tinham o que ele precisava.
Com certeza isso fazia valer a pena a dor de cabeça e nos olhos que ele tinha depois.
Desde que acordou do coma, Khun têm se sentido estranho. Não apenas sua temperatura corporal tem oscilado bizarramente, um peixe de fogo potencialmente perigoso preso no seu corpo e soltando ameaças ocasionais e Rak olhando pra ele como se ele fosse uma tartaruga de casco mole. Ugh.
Além disso, ele tem um sentimento inédito germinando dentro do seu peito: gratidão. Ele não pode evitar o sentimento, apesar de ter se provado inconveniente mais de uma vez. Os inconvenientes são situações como a que ele se encontra nesse momento: em uma sala de treinamento, sobre a tutela de ninguém menos que Hansung.
É inevitável, ele pensa com um suspiro, talvez eu tenha me tornado uma tartaruga de casco mole, afinal. Afinal de contas, Isu e sua equipe passaram dois anos atrasando sua escalada para tentar revivê-lo. E Khun não acha que merece, então tem concordado com várias ideias estúpidas nas últimas semanas.
A aula em questão é de controle de shinsu básico, porque Isu quer aprimorar algumas habilidades de Explorador. Para regulares rank-C era esperado que os exploradores que usem buscadores tenham dinâmicas mais complexas com o equipamento e isso só é possível com um maior controle de shinsu.
Claro, Isu era inteligente o suficiente para fazer muito apenas com as habilidades dos companheiros, se delegando apenas a estratégia. E por isso ele fazia tanta questão de melhorar suas próprias habilidades, porque qualquer aprimoramento seria um avanço significativo. Khun entende e compartilha o pensamento, até o admira, embora neste momento tudo o que ele queira seja estrangulá-lo.
Khun estava sentado no chão, suando e exausto. Ao redor dele, todos estavam usando roupas novas de treinamento, onde tinham seus nomes bordados nos bolsos.
Desde que Khun entrou na Torre, ele têm ficado tentado em significar as cores que enxergava nos nomes de pessoas. É uma ação imperdoavelmente sentimental e provavelmente também sem sentido. Se as cores forem aleatórias ele teria perdido sabe-se lá quanto tempo atribuindo significado baseados em nada.
Mas um pequeno sorriso ameaça aparecer em seu rosto quando ele olha para o nome cinza de Hatsu, a cor de uma lâmina que ele viu em um livro infantil. E o verde de Isu sempre fazia ele se sentir um pouco melhor, quase confortável.
E o mais significativo: Baam. Que antes era apenas noite, uma palavra sem significado o suficiente para ter uma cor. Depois de conhecê-lo, ela brilhava com as cores de um vasto campo dourado do Andar de Evankhell. Brilhava como esperança. Brilhava como segundas chances. Como recomeços. Como Baam.
