Chapter Text
Nova York, 17 de Fevereiro de 2016.
A sala e a varanda do apartamento eram espaçosas o suficiente, e ainda assim Erin tinha a impressão errada de que as pessoas não ficariam confortáveis. Ainda que por dois dias, o sábado e o domingo, ela e David conseguiram se desvencilhar de seus compromissos e fugir para Nova York para comemorar com a filha deles. Eram algumas datas importantes que se aproximavam e eles resolveram juntar tudo num só momento especial, e fazer aquele jantar informal para ela e os amigos que ela quisesse.
“Vocês querem fazer o que?”
“Um jantar para nós, você e os amigos que você quiser chamar.”
“Como uma festa de aniversário.”
“Também. Você tem mais coisas a comemorar do que os seus trinta anos. Vai ser bom.”
“É. E você pode escolher quem convidar, que nós decidimos depois disso se escolhemos um restaurante bacana ou se fazemos isso em casa mesmo. No nosso apartamento.”
“Em casa. Por favor. Eu nem ia querer chamar muita gente não. Eu tenho estado muito cansada esses dias, a cerimônia de um evento fora não me agrada…”
“Tudo bem. Em casa então.”
“Olivia, William e Noah. O Mike, não sei se ele ainda tá namorando. Amanda e Sonny devem vir com a Jesse, já que vai ser em casa. Fin e a noiva. Hales, Jimmy e Joey. Alguém do departamento de vocês vai estar na cidade?”
Erin, David e Karen conversavam ao telefone dias antes da sexta-feira de aniversário e finalmente conseguiram convencê-la a fazer a comemoração. Os pais entendiam que no trabalho que ela tem, que eles tinham, às vezes essas pessoas da delegacia ou do mesmo time acabam se tornando os seus amigos mais próximos e um pouco a sua família também. Eles pensaram em falar com Emily e a família, mas ela e Hotch estavam viajando por conta do trabalho, e descobriram também que Elizabeth estava sobrecarregada de trabalho na cidade, de modo que seriam somente a família deles e os amigos de Karen. David queria usar a reunião com os amigos e a família mais próxima, e isso incluía a chefe dela, como desculpa para entregar o presente de aniversário especial que ele e Erin planejaram para ela. Os dois estavam na cozinha conferindo a organização do buffet e conversando com um dos dois garçons que tinham providenciado, Haley ainda estava terminando de se arrumar, e os outros filhos não tinham chegado ainda. Jimmy e Joey estavam vindo de LA especialmente pra isso, e Karen vinha de casa com o marido e a filha.
“Você acha que ela vai gostar do presente?”
“Ela precisa dele. Ela mesma disse que vem de semanas de muito cansaço para fazer uma festa grande hoje…”
“Ela se parece demais com você, você sabe disso né?”
“Do que você tá falando agora?”
Quando David falou na semelhança entre mãe e filha, Erin largou o copo de suco que tinha pedido para si e se virou para encarar o marido. Tinham chegado de Washington há menos de duas horas e tudo por ali parecia bem encaminhado, provavelmente com a ajuda de uma gorjeta extra por conta do serviço contratado em cima da hora.
“De que ela é apaixonada pelo trabalho dela. Que ela não admite fazer algo ‘mais ou menos’ bem feito. De que ela se envolve às vezes no percurso desses casos por mais que ela não queira. E de que são dois anos trabalhando na Unidade sem tirar férias.”
“Como nós deixamos ela fazer isso?”
“Nós não ‘deixamos’ nada, meu amor. Ela é sua filha, se lembra?”
“Ah, na hora da teimosia e de não aceitar ordens de ninguém ela é só minha filha?”
Haley tinha chegado na cozinha um pouco antes disso, e ela conseguiu ver os dois rindo enquanto a mãe se aproximava de David para um beijo, e balançou a cabeça enquanto abria a geladeira. Tirou uma cerveja para si enquanto tranquilizava o rapaz que quis atendê-la, dizendo que estava tudo bem. Erin já tinha passado da fase de evitar a bebida enquanto faziam festas em casa, e isso sinceramente não era mais uma questão e ela convivia bem nesses ambientes.
“Nesse ponto sim. Ao mesmo tempo em que o coração enorme é dele, a vontade de querer abraçar o mundo e resolver os problemas dos outros antes dos dela é dele, o sarcasmo às vezes insuportável é dele… quase três anos que a gente sabe disso e até hoje eu agradeço que a Karen na verdade é uma mistura de vocês dois.”
Haley, que tinha ficado em silêncio desde que chegou a tempo de pegar o fim da conversa deles, finalmente falou algo. Ela tinha estado mais quieta e na dela nos últimos dias e Erin percebeu isso, ainda mais que a filha do meio era a única que tinha ficado morando com eles depois que Joey e Jimmy se mudaram pra LA no último ano por conta de uma oportunidade de trabalho. Ela tinha acompanhado o cuidado com essa festa e com o presente secreto, e por mais que se sentisse mal com a dorzinha ao visualizar tudo isso… ao mesmo tempo ela não conseguia deixar de pensar na sorte da irmã em ter o pai que ela tinha, por mais caótica que tenha sido a descoberta disso. Erin se lembrava da conversa delas no aeroporto mais cedo, a caminho dali.
“David trouxe café pra nós, ele foi ao banheiro e já volta. Tá tudo bem com você?”
“Tá…”
“Eu te conheço, Hales. Você sabe que pode me contar se você quiser, não sabe?”
“É que eu tenho vergonha… mas eu tô feliz de ver que a minha irmã conquistou tanta coisa pra vida dela nos últimos três anos desde que tudo aconteceu, e que uma dessas coisas foi um pai maravilhoso que faz tudo por ela.”
“E você sente falta disso?”
“Quase nunca. Eu juro. Eu só acho que eu tô sensível demais esses dias, sabe como é.. não sei o que é pior, ficar sensível demais ou com raiva de qualquer coisinha.”
Erin puxou a menina para um abraço ali no meio da cozinha, enquanto repassava o diálogo das duas no aeroporto. David olhava de uma pra outra pensando no que tinha acabado de ouvir, sendo que ele não sabia dessa conversa rápida anterior e nem desses sentimentos da outra filha de Erin. Ele entendeu que talvez fosse melhor conversar em particular com a mulher num outro momento, então por hora eles saíram dali depois de pegar alguma coisinha pra comer, e foram esperar os convidados na sala. Os primeiros a chegar foram Karen, Colin e Jenny. Que entrou no apartamento correndo à procura dos avós.
“E foi assim que nós perdemos a nossa filha e que eu perdi os meus pais.”
“Oi Haley!”
“Oi Colin! Os dois estavam impacientes porque vocês não chegavam. Parabéns irmã.”
Depois da filha do meio cumprimentar o cunhado, ela e a irmã se abraçaram e Karen sentiu o aperto no gesto de Haley, a angústia misturada com o carinho que sabia que ela tinha colocado nas palavras. A mais velha repetiu o gesto comum de Erin, e depois que se afastou do abraço deixou um beijo na testa da irmã, que suspirou antes de finalmente se soltarem.
“Cadê o Joey e o Jimmy? Ela não tinha os dois aqui pra dar atenção depois de semanas longe?”
“Eles chegaram de viagem e foram direto buscar o presente que nós três compramos pra você, daqui a pouco eles devem estar chegando por aí.”
Os três foram na direção dos pais, e logo estavam todos se abraçando e trocando os parabéns com a garota. O dia do aniversário seria no dia seguinte. Do pessoal da delegacia, Amanda e o namorado foram os primeiros a chegar, com a bebê de pouco mais de três meses. Que parecia impaciente e especialmente irritada com alguma coisa.
“Leva elas até o seu quarto, filha. Lá tem menos movimento, é mais escurinho… pode ser melhor pra ela se acalmar.”
“Vem, Amanda.”
“Obrigada sra Rossi. Vamos, eu vou com você.”
A mulher agradeceu a oferta de Erin primeiro antes de seguir Karen pelo apartamento, e deixou a dona da casa para trás com um sorriso no rosto, depois de ter ouvido a forma como Amanda falou com ela. Colin ficou fazendo companhia a Sonny, o namorado de Amanda e que ele sabia que era um dos colegas de Karen da delegacia também, enquanto David e Erin logo chamaram um dos garçons para servir algo a eles. Joey e o namorado não demoraram a chegar, e eles pediram dois minutos para irem se instalar no quarto antes de voltar para a sala. Logo estavam de volta e conversando entretidos, e apesar de não terem essa convivência diária, o papo fluía tranquilamente. Eles se conheciam de nome e de alguns encontros rápidos, e Erin e Olivia já tinham uma relação de trabalho anterior, mas no geral essa era a primeira vez que estavam todos juntos e num momento tão de paz.
“Eu não quero elogiar muito, pra não atrair… mas é muito bom vocês estarem todos aqui pra gente comemorar meu aniversário. Obrigada por terem vindo.”
“Seu aniversário. Os nossos três anos de casamento daqui a pouco. Seus dois anos de SVU. Você tem muito a comemorar hoje, Baby.”
Aproveitando a deixa do discurso dela, Colin se intrometeu e falou um pouco da série de momentos bons que eles tinham para celebrar e que não poderiam passar batido. Enquanto os dois trocaram um abraço, com a garota visivelmente emocionada, os irmãos dela faziam graça e tiravam fotos. Joey e Jimmy finalmente entregaram o presente deles e de Haley, o cordão de ouro com a bonequinha pendurada, a inicial do nome da filha dela gravada na parte de trás do pingente.
“É lindo, gente.”
“A gente sabia que você ia gostar.”
“A ideia foi da Hales e o presente é nosso, de nós 3.”
Os três irmãos se abraçaram primeiro, mas logo depois Karen puxou Jimmy pela mão e estavam os quatro juntos. Era impressionante como eles, que sempre tiveram uma ligação absurda e de uma cumplicidade enorme, abraçaram o outro garoto desde o começo e o trouxeram para dentro dessa relação deles. Era tudo o que Joey precisava, ser acolhido e bem recebido pela família depois do processo conturbado de revelação entre ele e o pai deles. Eles estavam entretidos ali, e Karen estava mostrando o colar à Amanda antes de o irmão colocar no pescoço dela, quando a campainha tocou. Faltavam apenas Olivia e Fin chegarem, acompanhados, e por coincidência os dois tinham chegado juntos naquele instante.
“Vovó, o Noah chegou! Ele pode brincar comigo e os brinquedos que você me deu?”
“Pode, meu amor. Mas vamos falar com a mãe dele primeiro, deixar ela falar com a sua mãe… tudo bem?”
Erin, que estava sentada junto com David e a menina, riu da animação dela quando viu os novos convidados chegando juntos. Ela e Noah iam à mesma creche juntos, e ele era cerca de um ano e meio mais velho do que ela, mas ainda assim eram como melhores amigos. A mulher se levantou para cumprimentar os recém-chegados, e depois de Olivia e William, passou à Fin e a noiva dele. O conhecia vagamente de quando ela e Emily trabalharam junto com a delegacia, e foi apresentada à mulher naquele instante.
“Phoebe Baker, minha noiva. Esses são Erin Strauss e David Rossi, os pais da Karen.”
“Seja bem vinda, Phoebe.”
“Obrigada, sra Strauss. Eu devo dizer que já conhecia os nomes. Dos jornais e de tanto ouvir falar de vocês dois. É um prazer finalmente encontrá-los pessoalmente.”
“Erin, David, é um prazer reencontrar vocês assim.”
Depois que Phoebe cumprimentou os dois, Olívia se adiantou para desviar um assunto antes que os dois se sentissem de alguma forma… constrangidos. Ela sabia, através de Karen, que Erin não gostava muito de trazer para casa o trabalho na Casa Branca. E sabia também que David detestava a bajulação sobre eles por conta disso. Não que a outra mulher tivesse feito por mal, e ela não fez, ela realmente só não tinha como saber. E Phoebe entendeu, pelos olhares trocados, que não era um assunto que deveria ser estendido (nem o comentário e nem a situação em cima disso), então simplesmente seguiu com a conversa casual. Logo Jenny voltou a pedir a atenção dos avós pra ir buscar os brinquedos, e David foi com a menina enquanto os últimos a chegar acompanharam Erin até a varanda.
“Os quatro estavam junto com Amanda e Carisi ali na sala falando de jogos e de mais algumas coisas que eu não consegui acompanhar… a gente acabou separando sem querer a ala dos pais da ala das crianças.”
Erin disse rindo, e rindo porque era surreal pensar dessa maneira sendo que não tem mais nenhuma criança ali há muitos anos. Joey, que era o mais novo, já estava com quase vinte e três anos. Amanda tinha a filha junto com ela depois que a menina se acalmou, e eles voltaram à conversa sobre livros e sobre os jogos de tabuleiro novos que Joey e Jimmy tinham comprado para eles dois. Os três filhos de Erin eram apaixonados por essas coisas e tinham uma grande coleção que era compartilhada entre eles.
“Mike falou com você?”
“Não. Ele só disse que ia se atrasar um pouco, mas que viria.”
Olivia e William conversavam baixinho, enquanto David voltava do quarto com Jenny numa mão e na outra ele e a menina traziam os blocos de montar para que ela e Noah se divertissem ali no chão perto de onde eles estavam. Mike era o filho de William, e tinha sido transferido para a Unidade no último ano com a promoção de Olivia de Sargento a Tenente, já que nenhum dos detetives ali fazia grande questão de prestar os exames e assumir a responsabilidade. Ele tinha receio de que as pessoas imaginassem que ele estava ali porque o pai dele era chefe da Polícia em Washington e mexeu os pauzinhos, ou então porque Olivia fez o mesmo em virtude do relacionamento entre ela e William. De modo que ele vinha trabalhando com muito mais determinação no último ano, como se estivesse constantemente sob observação e como se ele precisasse ‘se provar’ pra alguém.
“Nós vimos o filme essa semana, antes da premiação do Oscar…”
“Olivia tem uma queda pela Meryl e pela Susan, então ver as duas juntas no cinema foi como um presente.”
“Mas também, quem não tem uma queda por elas duas?”
Olivia, William e Fin puxaram o assunto do filme quase biográfico sobre Erin, cujo livro de David inspirou o roteiro, e Erin sorriu. Esse pelo menos era um assunto que falava um pouco de trabalho e que ao mesmo tempo eles conseguiam e gostavam de discutir. E ela sabia que David adorava se gabar sobre esse assunto, então naquele momento ela o deixava livre pra contar vantagem sobre isso.
“Meu cérebro entrou em curto quando David chegou em casa me dizendo que o filme ia sair, com elas duas no elenco. É a Meryl Streep, pelo amor de Deus.”
“Eu posso imaginar. Mas ela está fantástica no papel, sério. E eu não fazia ideia dos desdobramentos e de tudo o que ocorreu envolvendo aquele caso em 2013.”
“A gente acompanhou tudo pelos jornais, já que aconteceu aqui no nosso quintal. A Liv chegou a oferecer a ajuda da delegacia à prima dela, mas nós soubemos que vocês já estavam sendo bem assistidos…”
Erin começou falando dela e da atriz que a ‘interpretou’ nos cinemas, e logo estavam divididos entre detalhes do roteiro do filme e do caso que levou àquilo tudo. E apesar de a ideia parecer estranha pra quem vê de fora, eles estavam até bem à vontade conversando sobre o assunto enquanto a maioria deles bebia uma coisinha ou outra. Aquele grupo continuou concentrado ali na varanda, tanto que não ouviram o som da campainha e nem mais uma visita chegando depois de alguns minutos.
“Mike, finalmente! Eu achei que você não viria mais.”
“Tem quase um ano que você me azucrina o dia inteiro pedindo pra eu trazer café, você acha que eu ia perder o seu aniversário? Nunca Hayes, nunca.”
Karen levantou de onde estava, deixando a cerveja na mão do marido, e foi cumprimentar o amigo e parceiro. Ela sentiu, quando ele chegou à Unidade, que ele partilhava o mesmo sentimento que ela de ter receio dos olhares das pessoas pelo sobrenome e as relações que eles carregam. Era por esse motivo inclusive que, no trabalho, todos a conheciam e chamavam pelo sobrenome de casada dela. Tudo uma tentativa de se distanciar um pouco da imagem e do nome da mãe. Mas enfim, quando Mike chegou os dois acabaram trabalhando juntos em algumas diligências, e hoje depois de um ano eram como parceiros. Ele entregou os chocolates especiais que tinha trazido como presente para ela e pediu licença pra ir cumprimentar William e companhia, prometendo voltar para junto deles assim que possível.
“Com licença. Boa noite, boa noite!”
“Filho, finalmente você chegou. David, Erin, esse é Mike Dodds.”
“A Karen tem falado demais de você nos últimos meses. É um prazer te conhecer, rapaz. Seja bem vindo.”
Mike cumprimentou primeiro o pai dele e Olivia, e logo o velho o estava apresentando aos pais de Karen. Desde que ele entrou na unidade e os dois começaram a trabalhar juntos com frequência, o casal teve poucas oportunidades de ir a NY e nenhuma de encontrá-lo socialmente, de modo que aquele era efetivamente o momento em que estavam sendo apresentados mesmo. Mike era como um amigo para a garota, sem qualquer implicação remota além disso. Noah chamou a atenção do homem recém chegado e Mike falou com o garoto antes de se despedir deles e voltar à sala, de onde os outros já o estavam chamando.
“É sempre muito interessante ver vocês dois juntos. Aliás, vocês quatro. Ver o William conviver com o Mike e com o Noah ao mesmo tempo.”
“Sabe que eu também acho, às vezes? Meu filho vai fazer trinta e cinco, o Noah fez quatro. Eu não esperava que fosse voltar a ter essa convivência com uma criança de novo.”
“A gente teve muita sorte de ter encontrado você.”
Foi Fin quem apontou, depois de ver a interação entre Dodds e o filho e depois entre o filho dele e Noah. O comentário curto foi tudo o que Olívia disse, quase ficando vermelha de vergonha depois disso. Não que conversar sobre o relacionamento longo deles fosse um problema, ainda mais porque sempre que esbarrava com Erin ela se lembrava daquela conversa que tiveram na delegacia anos antes. Não eram pessoas estranhas. Mas é que mesmo tanto tempo depois e de um relacionamento sólido como o que eles tinham construído, às vezes ela ainda ficava pensando que era bom demais pra ser verdade e que ela finalmente tinha encontrado paz e um companheiro que parecia ser perfeito. Era como se ela estivesse constantemente à espreita de que isso pudesse ser tirado dela de alguma forma.
“Falando sobre Susan Sarandon, vocês viram os boatos sobre a série que ela vai fazer agora depois do filme e do Oscar?”
“Não. Quer dizer, ainda não li nada sobre isso.”
“Ryan Murphy quer fazer uma série de oito episódios sobre os bastidores e a produção e pós-produção de Baby Jane.”
“Ryan Murphy, o Ryan Murphy de American Horror Story?”
“Ele mesmo. E ele quer a Susan como Bette Davis e a Jessica Lange como Joan Crawford.”
Phoebe é quem tinha introduzido o assunto, mas logo tinha arrastado Erin e Olivia junto com ela. William, David e Fin observavam enquanto as três conversavam sobre as fofocas iniciais, às vezes participando com comentários pontuais, e assim eles ficaram ocupados por quase uma hora mais entre conversas amenas desse tipo. Foram finalmente interrompidos por Jenny e Noah, que vinha atrás da menina que foi chamar a atenção da avó dela.
“Vovó, que horas a gente vai jantar?”
“Nós estamos com fome.”
“Noah!”
“Tudo bem. Eles estão certos, já passou da hora deles jantarem. Eu vou levar vocês pra comerem lá dentro, tudo bem?”
“Eu vou com vocês.”
Quando o filho dela reforçou a reclamação da pequena, Olívia quis repreendê-lo para que ele não parecesse muito folgado, mas Erin entendeu e tranquilizou a mulher. As duas saíram levando as crianças pela mão, e ao passar pela sala de estar viram que os jovens estavam concentrados num dos jogos de tabuleiro novos que Joey tinha comprado. Erin sorriu ao ver que pelo menos por algumas horas eles podiam ser apenas… eles mesmos, sem o peso do trabalho nem de qualquer outra coisa. Podiam se divertir e jogar um pouco na sala de casa enquanto tomavam uma cerveja, nessa leveza e rindo entre si. Erin deixou Karen ali ocupada com os amigos e foi cuidar do jantar da menina pra ela.
“Cuidado com a bagunça, Noah.”
“Eles são crianças. Tá tudo bem.”
Erin e Olivia pegaram alguma coisa pra elas mesmas comerem, enquanto deixavam as duas crianças comendo e conversando nos intervalos. Havia o jantar para ser servido quando eles quisessem, mas no geral eles acabaram preferindo ir comendo aos pouquinhos e somente beliscando a comida ao longo da noite. Elas estavam distraídas e foi Erin quem quebrou o silêncio entre as duas no ambiente.
“Você sabe porque a Karen quis entrar pra SVU?”
“Ela me contou depois de umas semanas, do caso com a amiga dela.”
“Foi mais que isso. Ela me disse dessa mulher que acreditou na amiga dela, e no impacto que a luta dessa policial em defesa da amiga dela teve pra ela. O que você faz pelas vítimas que você acompanha…”
“Eu não quero deixar essa conversa triste demais… mas vinte anos nesse emprego, junto à minha experiência pessoal, me ensinaram o significado de empatia. Essas mulheres precisam disso.”
“Exato. Eu cheguei a sentir algum ciúme, sabe? De ver que a minha filha estava tão encantada e mirando num exemplo de mulher que não era eu, que não era a madrinha dela. Mas depois eu entendi que a Karen deu sorte. Eu não podia ter pensado numa pessoa melhor para ser essa mentora que ela tem em você.”
“Eu… não sei o que dizer. Eu conheço o seu nome, mais do que eu te conheço pessoalmente. E é muito importante pra mim esse reconhecimento.”
Karen tinha rapidamente se tornado a protegida de Olivia dentro da delegacia, que via nela o coração empático e o potencial enorme pra ir muito longe ainda, independente dos sobrenomes que a garota carregava. Quando terminaram o jantar e os dois pediram pela sobremesa, Erin sugeriu que Jenny fosse pedir à mãe dela para cantarem os parabéns. Assim eles poderiam partir o bolo. As duas crianças saíram em disparada até a sala e a menina se atirou no espaço entre os pais dela no sofá, que estavam em dupla no jogo em que eles tinham estado concentrados pela última hora.
“Mamãe, mamãe, a vovó me disse pra te chamar pra gente cantar os parabéns.”
“Vamos cantar, então!”
Karen disse, estalando vários beijos na bochecha da garota que ria e se debatia para que a mãe a soltasse. Colin e Joey foram buscar o bolo escondido e as velas para usar, e logo estavam reunidos ao redor da mesa de centro mesmo, depois de afastarem as peças do jogo deles. Noah e Jenny se ajoelharam no chão bem em frente à mãe dela no sofá, William e o restante dos outros veio da varanda, e assim que estavam todos reunidos o marido de Karen acendeu a vela e os parabéns começaram. Tudo o que a garota conseguia pensar era em agradecer por esses trinta anos que se passaram. Mesmo com os percalços e mesmo com as novidades recentes, ela hoje podia dizer que era uma mulher realizada. Com os pais, com a filha, com o marido, com o trabalho e com esses amigos de lá. Quando terminaram a música e Jenny a ajudou a apagar a vela, tudo o que ela conseguiu foi agradecer e pedir apenas pra conservar essa paz e essa harmonia.
“Agora, falta o nosso presente.”
“O que, a festa não foi o presente de vocês?”
“Irmã, você não conhece o seu pai? Ele deu esse apartamento de presente pra mamãe num aniversário dela. Você acha mesmo que ele não ia te dar nada num aniversário como o de hoje?”
Quando Karen perguntou, confusa, a resposta veio de Haley já que ela tinha acompanhado todo o processo em casa. David foi até o quarto deles e voltou de lá com o envelope que tinha as passagens e alguns detalhes do roteiro. Eram quinze dias de viagem, divididos entre a Itália e a Espanha, e a escolha se deu de certa forma porque eram os países de origem das famílias e deles dois. Colin ajudou David e o agente de viagens indicado por ele a elaborarem um roteiro inteiro de passeios por Roma, de carro até cidades próximas, com direito a um fim de semana inteiro em Veneza antes de irem pra segunda parte da viagem. O esquema na Espanha não seria muito diferente, e eles começariam a viagem por Barcelona antes de terem o restante do roteiro para seguir.
“A gente queria que vocês tivessem viajado de lua de mel.”
“É. Mas como o casamento veio num período.. conturbado das nossas vidas, e logo depois disso vieram a Jenny e o trabalho na SVU, os planos foram adiados.”
“Vocês tinham planos pra minha lua de mel? Só eu que acho isso estranho?”
A pergunta de Karen, que tinha estado agarrada à filha dela no colo enquanto ela comia o seu pedaço de bolo, fez com que eles todos rissem na mesma medida em que Erin ficou ligeiramente sem graça pela confusão que a escolha de palavras acabou gerando.
“Não exatamente, criança. Mas a gente queria te dar um presente. Que por acaso tinha haver com isso.”
“Depois do Natal nós pedimos a ajuda do seu marido e ele foi o grande responsável pelas ideias do roteiro. O que incluiu um jogo entre Barcelona e Real Madrid no Camp Nou no meio do campeonato espanhol que me deixou com inveja.”
“Vocês estão falando da Europa?”
“Abre o envelope e você vai entender.”
Depois de Erin se explicar, a conversa ficou monopolizada entre David e Karen. Era o primeiro grande presente de fato que ele dava à filha desde que a reconheceu como tal. Apesar da sua vontade nas primeiras semanas de compensar os quase vinte oito anos em que ele não pode dar presentes e acompanhar a vida dela, com o tempo ele entendeu que a relação próxima era no que ele deveria focar. À medida que ia lendo a sugestão de roteiro, que já incluía até todos os detalhes de transfers e hospedagens, Karen ficava mais e mais surpresa.
“Eu não posso ficar quase vinte dias longe viajando. A delegacia está com menos uma pessoa…”
“Por favor, você não acha que nós teríamos feito isso tudo sem consultar a sua mentora querida antes, acha?”
“Exatamente. Foi por isso que eu pedi apenas pra eles marcarem para depois que a licença da Amanda acabar. Ela volta, ai você pode tirar as suas férias. Já tem dois anos que você está na Unidade e não fez isso ainda. Está na hora.”
Dessa vez tinha vindo de David, mas era a segunda vez que se referiam à Olivia dessa forma, como ‘mentora’ e não somente como ‘chefe’, e a tenente não conseguiu deixar de se sentir lisonjeada com o reconhecimento e o carinho daquela família. Ela sabia que enquanto pais, eles se preocupavam diariamente com o trabalho de risco que a filha deles tinha, independente de eles terem ou não experiência no assunto. Talvez porque eles tem é que os dois estavam sempre tão preocupados.
“É por isso que tá marcado aqui só pro final de Maio?”
“Exatamente. A partir do dia 15 você entra de férias, e no dia vinte e… que dia mesmo eles viajam? Não lembro ao certo, mas a partir do dia 15 de Maio você entra de férias e eu só quero te ver de novo depois do dia 20 de Junho.”
Como as duas estavam conversando entre si, o primeiro abraço que ela deu em alguém foi em Olivia. Prometeu trazer presentes para todos eles, que logo estavam implicando e fazendo uma lista enorme de pedidos, muito mais pelo prazer de provocá-la do que por qualquer outra coisa. Depois de todos os abraços e novamente da rodada de felicitações, os adultos puderam voltar à configuração inicial entre a varanda e a sala de estar, e os mais novos até deixaram o jogo de lado enquanto conversavam sobre viagens e sobre o que Karen e Colin veriam ou deixariam de ver. Amanda e Sonny foram os primeiros a se despedir, para levarem a bebê para dormir direito em casa. Fin e Phoebe pediram pros dois esperarem e desceram junto com eles. Não demorou muito e Olivia resolveu seguir o mesmo caminho, quando viu Noah e Jenny dormindo juntos no sofá depois de tanto brincarem. Mike carregou o menino no colo, e depois de se despedirem de todo mundo os quatro desceram pra ir embora.
“Eu acho que a gente pode ficar aqui hoje. Né?”
“Por mim podemos sim. Assim a gente dorme até mais tarde amanhã e já deixa os seus pais irem treinando pros quase vinte dias em que eles vão ficar sozinhos com a Jenn.”
“Eu ainda não tenho certeza se eles vão dar conta…”
“Amor, você conhece a sua mãe? Ela toma conta de tanta coisa, uma criança de quase três anos não vai ser problema pra ela.”
Karen e o marido conversavam entre si decidindo se iam dormir em casa ou não, mas o fim do comentário deles acabou provocando uma gargalhada nos demais. A menina já dormia no quarto dos avós, e eles insistiram para que não a tirassem de lá, e assim os três filhos foram cada um para um dos quartos de hóspedes e eles puderam encerrar aquela noite de festa. Um dos detalhes sobre a viagem e a folga que eles resolveram dar de presente à ela foi de que os dois prometeram ficar com a criança por todo o tempo em que eles estivessem fora. Iriam para Washington de manhã cedo no domingo marcado para a viagem, que sairia de lá num vôo à noite. Assim acomodariam a menina na casa de David e Erin, e ela entenderia que eles iam viajar, mas que voltavam dali uns dias e que ela não ficaria sozinha ou sem o rosto de alguém próximo.
