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Entre risos e conversas alegrando o refeitório, acomodado em uma das mesas, Floyd dá uma mordida generosa no cannoli em sua mão, quase o devorando de uma só vez. Olhos fechados enquanto se maravilha com a doçura em seu paladar.
— Hmm! Hmm! Doces são tão gostosos a qualquer hora do dia — o tritão não se incomoda de falar com a boca cheia. — Mas depois do almoço parece que fica ainda melhor — outra mordida, tão gulosa quanto à anterior.
Ao lado do irmão, Jade exibe um sorriso sereno. Há um certo conforto em observar Floyd se divertindo.
— Não me lembro da última vez em que te vi tão empolgado com um doce antes. Tenha cuidado para não comer os próprios dedos — ele estende um guardanapo.
— É porque esse cannoli é de outro mundo! — Floyd limpa os lábios rapidamente. — Não acha, Jade?
— Concordo. Os chefes fantasmas se superaram dessa vez — ao contrário do gêmeo, Jade morde com delicadeza sua guloseima, apreciando cada nuance de sabor. — O exterior é crocante, e por dentro o recheio é tão fresco e cremoso que derrete na boca. As gotas de chocolate acrescentam mais doçura, mas nada exage-
A fala é interrompida pelo som de dentes cravando exasperados em uma maçã. De frente para os irmãos, o líder de Octavinelle mastiga sua fruta com as sobrancelhas franzidas.
Jade reprime um sorriso cínico. Em vez disso, forja seu sorriso educado como de costume.
— Oh, queira me desculpar, Azul. Foi rude da minha parte deixar outra pessoa com vontade. Talvez eu deva comer em outro lugar?
Ashengrotto estreita o olhar, tendo a sensação de que o colega está planejando algo.
— Não gaste sua ''gentileza'' comigo, Jade. Pode continuar o seu monólogo detalhista sobre o quão maravilhoso é esse cannoli enquanto come na minha frente — ele endireita os óculos. — Estou perfeitamente bem com essa maçã… saudável — por fim, Azul dá outra mordida, tentando se convencer de que a fruta é tão saborosa quanto um doce recheado e frito por imersão.
Floyd inclina a cabeça, um tanto confuso.
— Maçãs são legais, mas beeem sem graça se comparar com os cannolis de hoje. Totalmente perdedoras — ele lambe o creme em seus dedos. — Por que não vai lá pegar antes que acabe, Azul? Você ama fritura, os cannolis vão ficar chateados se você não levar eles pra casa — o tritão faz beicinho, sua expressão um tanto tristonha pelas guloseimas sem lar.
O líder gesticula em negação.
— Nem pensar. De jeito nenhum. Fim de história. ‘Doce’ é apenas um eufemismo para essa bomba calórica, pronta para explodir a glicose na corrente sanguínea e depois ser armazenada na forma de gordura — seus lábios se retorcem em desgosto. — Se hoje fosse meu aniversário, eu até poderia comer sem restrição um ou dois, talvez quatro já que eles parecem tão apetitosos…
Azul se apressa em comer outro pedaço da maçã, sua mente já perturbada por sua antiga forma. Foram anos de exercícios e dietas para abandoná-la, de maneira alguma ele permitirá que seu esforço tenha sido em vão.
Os gêmeos se entreolham.
— Heeein? Quem liga se um doce vai te deixar gordo ou não? Você é gostoso dos dois jeitos. Eee… — Floyd expõe os dentes afiados, sorrindo brincalhão. — Nos dois sentidos também! Ahaha!
Azul não sabe se deve se sentir envergonhado, ou preocupado com o desejo do colega de devorá-lo.
— Se você quer se manter esbelto, é uma decisão somente sua — Jade finaliza seu cannoli, limpando os lábios. — Por outro lado, não acho que seja certo se privar de comer o que gosta. Quantas coisas deliciosas você já perdeu por pensar em algo tão passageiro quanto aparência? A vida não é uma dieta sem fim.
— Uhum, quando a gente morrer todo mundo vai ‘tá magro quando sobrar só os ossos — Floyd balança a cabeça em afirmação. — Bom mesmo é comer o que quiser quando quiser, sem essa coisa chata de seguir uma dieta estúpida. Tipo comer bolo na janta ou doritos no almoço.
O líder entreabre os lábios, mas não possui argumentos, o ponto de vista dos irmãos lhe parece correto, cada um à sua maneira. Tantas vezes em que desistiu de saborear o que realmente queria, tendo apenas o aroma provocando seus sentidos. Talvez se não exagerar no que for mais calórico, mantendo um equilíbrio, ele não tenha mais que abrir mão de seus desejos para manter seu peso atual.
Tão logo o pensamento lhe ocorre, Ashengrotto se levanta de maneira repentina, mantendo a cabeça abaixada.
— Eu… Eu… — ele fecha os punhos ao erguer o rosto. — Eu vou comer aquele cannoli! — sua voz ressoa determinada, nada será capaz de lhe abalar.
Prestes a sair da mesa, o líder avista um dos chefes recolhendo o prato dos doces, restando nada além de migalhas. Com um suspiro derrotado, Azul se acomoda de volta no banco, seu olhar deprimido enquanto apoia o queixo nos dedos cruzados.
— Tarde demais para mudar de ideia. Com sorte, quem sabe os cannolis estejam no menu no próximo mês, ou ano que vem…
Os gêmeos compartilham um sorriso malicioso.
— Imaginei que isso aconteceria. Portanto… — Jade revela um cannoli escondido. — Guardei um a mais só para você — seus lábios se curvam em um sorriso cordial.
Os olhos azulados brilham maravilhados. Mas em segundos o encanto desaparece deles, substituídos por seriedade.
— Muito bem. O que vocês querem por ele? — o líder endireita os óculos. Ashengrotto não acredita em gentileza verdadeira, especialmente vinda daqueles irmãos.
— Nada demais. Só um beijo para cada um de nós… — o sorriso de Jade se alarga.
— Na bocaaa! — Floyd solta uma risadinha.
Um rubor adorável colore as bochechas de Azul, olhos arregalados. Não é a primeira vez em que ele beija ambos, ou tem um beijo roubado vez ou outra por Floyd, porém não pode conter a timidez com um pedido tão íntimo.
Contudo, ele arqueia uma sobrancelha ao se dar conta de que foi pego em uma armadilha.
— Ah, então eu estava certo sobre as suas intenções, Jade. O tempo todo o plano era me convencer de comer cannoli só para vocês me beijarem. Que ardilosos — o líder cruza os braços. É impossível descobrir o que Jade está planejando até que ele consiga o que quer.
O tritão leva a mão ao peito, falsamente ofendido.
— Falando assim faz parecer que não estamos preocupados com a sua relação de ódio com a comida. Que cruel pensar tão mal de nós, Azul — Jade enxuga lágrimas inexistentes.
— 'Tá, 'tá, chega de conversa mole. Quero o meu beijo agora! — Floyd fecha os olhos, ansioso.
Azul toma alguns instantes para se preparar, reunindo coragem. Ainda ruborizado, ele aproxima seu rosto devagar, seu coração delirando conforme a distância entre ambos diminui. O líder poderia ter barganhado a oferta, mas não entende o porquê de ter aceito a condição dos gêmeos com tanta facilidade.
Finalmente, seus lábios tocam os de Floyd com delicadeza, a boca dele contendo alguns resquícios da ricota adocicada, tornando o beijo ainda mais saboroso. Em seguida, Azul concede o mesmo selar amável para Jade, se deleitando com aqueles lábios açucarados pelas gotas de chocolate.
Tendo cumprido sua parte, Azul enfim aprecia o cannoli, cada mordida mais especial do que a outra. Os irmãos Leech apenas o observam, satisfeitos.
— Que taaal? — Floyd apoia o rosto em uma das mãos. — ‘Tá gostoso? Comeria mais um?
Com a boca cheia, o líder acena em afirmação.
Entre uma risadinha e outra, Floyd coloca mais alguns cannolis em cima da mesa.
— Por favor, sirva-se à vontade — Jade revela os dentes afiados em seu sorriso.
— Desde que continue pagando a gente, é claro! Não seja um caloteiro, Azul.
O olhar do líder altera entre as guloseimas e os gêmeos, certo de que até o final do intervalo ficará mais do que saciado com uma dose tão elevada de açúcar, tanto dos doces quanto dos beijos.
