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Another One Bites the Dust;

Summary:

Como eu imagino um relacionamento entre a Olivia e o Dodds (pai!) praticamente desde que ele apareceu, nesse ponto da história aqui os dois já estão juntos. Até casaram. Há menção a outros promotores da série, mas a principal e em questão é a minha favorita, Alex Cabot. No mais é uma reedição do episódio de nr 11 da 17ª temporada, o 'Townhouse Incidente'. Aquele em que a Olivia vai verificar se a família do outro menino de quem a babá dela toma conta está bem, e acaba sendo feita de refém pelos bandidos. Vocês vão reconhecer as referências.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

Já era quase dia de natal, e Olivia tinha aproveitado que - pelo menos por enquanto - as coisas estavam um pouco menos corridas na delegacia para fazer algumas compras naquele dia de manhã. Ela e Noah tinham se mudado do antigo apartamento no meio do ano, de modo que já estavam completamente adaptados à vizinhança nova e às diferenças por ali. Lucy também, apesar do pequeno atraso essa manhã. Na verdade, ela achou até mais cômoda a mudança dos dois para o endereço do apartamento de William, pois o outro garoto de quem ela também tomava conta de vez em quando morava ali bem perto. “Liv, vou me atrasar meia hora. Mas estou indo, desculpa!” Justo quando ela estava pensando na garota, Lucy mandou mensagem. Alguma coisa dentro dela avisou que aquela mensagem estava esquisita. Deixou o café do garoto pronto na cozinha e foi chamar Noah pra comer antes que a babá chegasse. William já tinha saído cedo, pois estava tendo mais trabalho do que o normal antes do recesso no escritório da procuradoria. Ela e Noah estavam juntos na cozinha quando a babá chegou depois do tempo mais ou menos estipulado.



“Você tá bem, Lucy?”

“Não exatamente… eu passei pra deixar um presente pro Jimmy, o outro garoto de quem eu tomo conta junto com a irmã. Tem alguma coisa errada naquela casa Liv.”

“Do que você tá falando? O que você viu?”

“A mãe estava estranha quando abriu a porta, e não me deixou entrar. Ela recebeu a lembrança pela frestinha. Não tenho certeza por causa da sombra, mas parecia que o rosto dela estava machucado. E deu pra ouvir o pai do Jimmy gritando da cozinha, e ele nunca grita com eles daquele jeito.”

“São só eles três em casa?”

“Eles e a irmã mais velha do Jimmy, do primeiro casamento do pai dele. A Cris tem dezesseis anos, o Jimmy tem cinco. Você pode passar por lá e ver se tá tudo bem? Por favor?”



Nos quase seis anos - Noah faria seis dali a alguns meses em Abril de 2020 - em que Lucy trabalhava para ela, Olivia nunca tinha visto a garota tão preocupada. E a moça tinha aprendido muito pelo simples fato de observá-la, então o instinto de achar que tinha algo errado com a família de Jimmy fez com que ela fosse direto à Olivia. Ela deixou o filho e a babá ocupados na cozinha, e antes de sair prometeu à garota que passaria pela casa da família Pearson. O endereço ficava a menos de dez minutos do apartamento de William em que eles agora moram desde o casamento, então rapidamente a capitã estava tocando a campainha. Uma mulher, que ela julgou ser a mãe de Jimmy, atendeu a porta exatamente da mesma forma relatada por Lucy, foi quem falou com ela.



“Pois não?"

“Sarah? Sarah Pearson? Eu sou Olivia Benson…”

“Eu sei. A outra patroa da Lucy, não é? Ela não está aqui hoje.”

“E ela não passou por aqui hoje?”

“Não. Tem dois dias que eu não vejo a Lucy.”


Alguns pontos a considerar: De cara Olivia percebeu que a mulher parecia nervosa, e ouviu também as vozes exaltadas vindas de dentro de casa; Segundo, ela viu o machucado bem no rosto da mulher, um pouco abaixo do olho; E três; ela sabia que Sarah estava mentindo, pois Lucy tinha dito que passou por lá de manhã. Somando tudo isso ela teve a certeza de que algo de muito errado estava acontecendo ali. Colocou uma das mãos na cintura num gesto inconsciente, reconhecendo a arma ali escondida ao alcance do menor movimento. Depois vasculhou a bolsa à procura de um cartão, mas antes que ela tivesse a chance de entregá-lo a mulher ouviu a voz de um homem gritar lá de dentro. “Deixa ela entrar.” Sarah nem bem abriu a porta, e Olivia já entendeu o que estava acontecendo ali. Uma mulher a tinha sob a mira de uma arma, enquanto as duas crianças estavam amarradas ao corrimão da escada e sentadas nos degraus, sob a arma do homem que provavelmente tinha gritado.



“Quem é você?”

“Meu nome é Olivia Benson. A babá dos Pearson trabalha para mim também, eu vim até aqui procurar por ela…”

“Ela é policial. Tá aqui o distintivo.”



A mulher, que tinha tomado de Olivia a bolsa dela assim que ela entrou na sala e Sarah fechou a porta atrás das duas, tinha virado o conteúdo da bolsa que Olivia carregava no ombro. Joe, o homem com a arma, entrou em pânico. Imediatamente deixou as duas crianças assustadas onde estavam e foi até Olivia, murmurando algumas palavras pouco coerentes enquanto as mãos dele passeavam por todo o corpo dela numa revista. “Ele está procurando a minha arma, ele está só procurando a minha arma.” Olivia tentava repetir pra si mesma mentalmente, de olhos fechados enquanto respirava fundo para sufocar a náusea que queria subir, porque os gestos do homem despertaram nela imediatamente os piores gatilhos que ela tinha: eram os rostos de Lewis e do guarda da prisão alguns anos antes misturados, e as cenas que aconteceram também se confundiam.



“Aha, aqui está. Segura aí baby.”

“Escuta… como é mesmo seu nome?”

“Joe. Mas isso não te interessa.”

“Escuta Joe. Ninguém sabe que vocês estão aqui ainda, porque você e a sua parceira não levam o que tem de levar e somem daqui antes que a situação comece a chamar atenção?”

“E levar algumas joias e meia dúzia de eletrônicos? Quando eu estou esperando o papai voltar com cem mil? Claro que não. Eu não passei a noite aqui a toa.”



Olivia sabia que ele e a parceira não sairiam assim tão fácil, mas precisava ir descobrindo aos poucos o que é que estava se passando ali. Então não era o pai que tinha gritado mais cedo quando Lucy fez a visita, e sim Joe. E se o pai ‘foi buscar os cem mil’, havia pelo menos mais um cúmplice que o estava acompanhando. Esse homem devia saber que a mulher e os filhos estavam em casa sob a mira dos dois malucos, e recebendo as piores ameaças o tempo todo para não vacilar. Joe voltou para onde o garoto e a irmã estavam porque o menino começou a chorar e se debater, e ele queria que o garoto calasse a boca.



“Deixa eu ver o que ele tem, Joe. Ou a mãe dele. Por favor. É só uma criança.”

“Você fica quieta, detetive.”

“Você não quer deixar ele assustado demais, a vizinhança pode ouvir…”

“Você fala demais.”


Ela estava tentando convencer o homem a poupar o garoto, especialmente porque ele e Noah tinham praticamente a mesma idade e imediatamente o seu coração de mãe gritou dentro do peito. Olivia não estava preparada para o tapa forte que veio do homem quando ele deu meia volta e se aproximou dela de novo, de modo que cambaleou para trás e quase caiu, não fosse pela porta em que ela se apoiou. Ela não sabia se pelo tapa dele ou pela pancada quando ela quase caiu, mas imediatamente sentiu o filetinho grosso e de gosto esquisito no canto da boca. A pancada não só deixaria a marca no rosto, como o tinha ferido também e aquele gosto era um pouco de sangue escorrendo. Jimmy continuou gritando para que os dois o soltassem, e Joe se aproximou da dupla e cortou o lacre de plástico que os amarrava ao corrimão com a faca grosseiramente. Depois disso saiu arrastando a menina e o garoto escada acima junto com a sua cúmplice. Olivia e Sarah ficaram sozinhas por alguns instantes, e a mãe aproveitou.



“Eles chegaram à noite, fizeram o meu marido ligar pro banco e pedir a retirada do dinheiro, agora pela manhã foram com o terceiro cúmplice buscar. Meu marido é advogado, nós mudamos de Miami pra cá depois de algumas ameaças lá. Parece que as ameaças nos seguiram.”



Ela disse rápido, antes de os passos serem ouvidos de volta na escada e Joe e a parceira estarem descendo. O choro da menina junto dos gritos do irmão ainda podiam ser ouvidos, mesmo que num tom bem mais baixo agora. Joe ouviu o telefone de Olivia tocando, e ela fez um movimento devagar para pegar o aparelho no bolso do casaco. Era a foto de Lucy, indicando que era ela a remetente da ligação.



“É a minha babá. Eu preciso responder, antes que ela desconfie de algo.”


Olivia escolheu as palavras com muito cuidado, mesmo nos poucos segundos que tinha para pensar no que dizer. Sabia que eles tinham visto Lucy passar por ali, sabiam que eles tinham ouvido a conversa breve dela com Sarah, e sabiam que eles tinham registrado mentalmente a informação de que ela já tinha contado sobre ter pelo menos um filho também.



“Manda uma mensagem. Dita pra mim o que você vai dizer antes de enviar, ou a Roxie atira nela.”

“‘ Vim fazer compras. Ligue para o William e o Alex, eles vão buscar o Lewis em casa para passar o Natal. ’ William é meu ex-marido e Alex é o filho mais velho dele, no acordo de guarda do divórcio ele ficou com o garoto em alguns feriados alternados.”

“Pode mandar. Pronto. Agora me dá aqui o telefone, e cala a boca.”



Depois que ela apertou no enviar, Joe tomou o telefone das mãos dela com força e desferiu outro golpe contra ela, que dessa vez a derrubou sentada no sofá. Novamente ela tinha a certeza de que a marca de mais esse tapa ia ficar roxa na expressão dela, e Sarah a olhava, dividida entre a preocupação e o medo da violência daquele homem. Em casa, Lucy achou a escolha de palavras da patroa tão completamente desconexa que seu primeiro instinto foi ligar para William. Quando o marido não atendeu, a babá ligou para a segunda pessoa mais próxima de Olivia: Fin. Relatou o ocorrido tão rápido por telefone que não tinha certeza se o detetive entendeu direito o que ela estava falando.



“Não sai de casa. Eu ainda estou indo pra delegacia, vou desviar o caminho por aí e buscar você e o Noah. E vou pedir ao Mike pra achar o pai dele e mandá-lo se encontrar com a gente na delegacia.”



Tutuola disse, antes de desligar o próprio telefone. Lucy fez com que Noah trocasse de roupa rapidamente, dizendo que Olivia tinha tido uma emergência no trabalho e pedido para que eles dois fossem encontrá-la lá, e logo os dois estavam descendo para esperar o homem na portaria do condomínio. Fin os conduziu até a delegacia provavelmente mais rápido do que deveria, e já na chegada encontraram com Mike e William se cumprimentando atordoados.



“O que tá acontecendo? Tudo o que eu ouvi do Mike foi que eu precisava correr pra cá porque algo aconteceu com a Olivia.”

“Vamos conversar lá em cima? Na sala de reuniões?”



Fin apontou com a cabeça pro garoto, que olhava para cada um dos adultos ali sem entender o que estava se passando também. Subiram todos juntos, e no elevador Noah ficou entre o homem mais velho e Lucy, e William bagunçou os cabelos dele enquanto subiam. Já estava acostumado a ele desde que ele tinha mais ou menos um ano e o namoro começou, mas o apego foi para um nível completamente diferente quando eles passaram a morar juntos. Noah foi levado à sala de descanso com Carisi para diverti-lo e entretê-lo, enquanto o restante do squad se trancou na sala de Olivia. Mike, Karen, Amanda e William ouviram o relato de Lucy de novo. E Fin, agora que tinha mais calma para prestar atenção no que ela estava dizendo, fez Lucy repetir a história da mensagem.



“Ela me pediu pra ligar pro William e pro Alex, porque eles iam buscar o Lewis para passar o natal. Nada nessa mensagem faz sentido e foi por isso que eu procurei o detetive Tutuola. Eu tentei ligar pro senhor antes, mas o telefone não atendeu.”

“Eu estava ocupado, não ouvi. Mas eu não entendi a mensagem também.”

“Você tem certeza que foi isso que ela falou?”

“Ela não falou, ela escreveu. Tá aqui.”


Lucy mostrou o telefone com a mensagem de texto esquisita, e Fin leu palavra por palavra o que ela tinha relatado. Ele queria ter certeza de que não estava imaginando errado, e pelo visto não estava mesmo. Olivia estava referenciando o psicopata que a atacou, junto com a promotora principal que acompanhava os casos da delegacia deles. Qualquer que fosse a situação de perigo em que ela estava naquele momento, ela estava mandando pistas sem que os bandidos percebessem.



“Alguém traz a Cabot do escritório da promotoria pra cá. A Liv tá fazendo um monte de referências ao caso dela com o Lewis. Ela sabia que a gente ia perceber isso e que ao mesmo tempo isso não ia alertar os caras.”

 


Fin e Amanda eram os únicos presentes que efetivamente viram todo o caso Lewis de perto, apesar de os outros terem ficado sabendo ao longo dos anos depois de terem entrado na delegacia. Apesar dos detalhes nebulosos que eles tinham, porque haviam lacunas nos arquivos do caso por decisão da própria Olivia, estes eram suficientes para entregar que a coisa toda foi horrível. Dodds sabia da tortura e das marcas escondidas no corpo dela, porque bem no inicio do relacionamento deles, antes do namoro se tornar… íntimo , ela escolheu alertá-lo disso. Como se aquelas marcas pudessem afastá-lo de alguma forma. Karen saiu para ir atrás da promotora enquanto os outros ficaram ali sem saber o que fazer. Logo Lucy veio até eles para perguntar o que fazer com Noah, e William decidiu que enquanto Olivia não estivesse bem o garoto não sairia dali. Então a babá foi ficar com o garoto na sala de reuniões para que Carisi viesse ajudá-los e trabalhar junto com eles. Enquanto Karen e a promotora não chegavam, os oficiais começaram a busca no histórico da família para entender quem eram aquelas pessoas e o que estava acontecendo. Na residência dos Pearson, Joe já estava começando a ficar impaciente quando a filha mais velha desceu as escadas correndo.



“O Jimmy tá passando mal. Ele não consegue respirar direito.”

“Ele é asmático. Eu vou lá levar a bombinha e acalmar ele…”

“Senta aí. Você não vai a lugar nenhum.”

“Ele é meu filho. Por favor.”


Sarah chorava enquanto Joe olhava da parceira dele para ela, e logo ele mandou a mulher apontar a arma para a mãe do garoto para que ela se acalmasse. Olivia assistia à cena, angustiada. Pela criança, pela mãe, pela saúde do menino lá em cima sem saber o que estava acontecendo. Pesou as opções que tinha e respirou fundo antes de dizer alguma coisa. 



“A Roxie fica com ela aqui embaixo. Eu vou com você até lá em cima ver o que está acontecendo. Alex, o filho mais velho do meu ex marido é asmático também e eu sei como lidar com isso. Por favor.”


Joe pensou por alguns segundos, até que pressionou a arma contra as costas de Olivia fazendo ela se levantar. Ela tinha decidido sustentar a existência de um ex-marido e desse suposto filho quando fosse preciso, para apoiar mais mentiras novas que ela precisasse ir contando na tentativa de proteger a mãe e as crianças. Sarah disse aonde no quarto estava o remédio e Joe subiu com a mulher, a filha já tinha voltado para junto do irmão quase imediatamente. O susto veio quando eles abriram a porta do quarto devagar. O líquido transparente foi jogado na direção do rosto deles de um ponto acima das cabeças, enquanto a pancada nas costas de Joe veio de algum lugar atrás da porta. Não tinha sido o suficiente para ele ser nocauteado, mas o homem cambaleou com os olhos ardendo.



“O QUE FOI ISSO? NO QUE VOCÊS ESTÃO PENSANDO, PORRA?”

“Deixa a gente sair daqui.”

“Você vai sair daqui, mas vai sair comigo. Pra aprender a se comportar. E você, fica aqui com o seu garotinho doente.”


Os olhos de Joe ainda lacrimejavam com o contato com o álcool em gel, enquanto a parte de trás da cabeça doía da pancada pelo taco de baseball. Ele amarrou uma das mãos de Olivia no estrado do beliche, e depois disso puxou o garoto da cama de cima aonde ele estava, fazendo o mesmo com a mão direita dele. Olivia e o menino estavam presos juntos enquanto Joe arrastava a garota pelo corredor, que ia esperneando e se debatendo. A capitã engoliu em seco, os olhos marejados, porque ela sabia o que ia acontecer ali do lado. Pelos gritos de socorro da adolescente, ela sabia! Jimmy começou a chorar de novo, e ela o puxou como pode para o colo. Murmurava algumas palavras de conforto, pedia para ele respirar devagar e se acalmar, mas os gritos da irmã enquanto o bandido abusava dela não estavam facilitando o seu trabalho.



“Já sei. Isso é seu? Você consegue assistir um filme aqui?”



Ela disse, se esticando ao máximo para pegar um tablet e os headphones sobre a mesa de cabeceira, depois disso entregando-os ao garoto. Ele colocou os fones na cabeça, e Olivia pode ouvir o finzinho de uma música antes de o menino mudar de aplicativo. “You did not break me / I'm still fighting for peace / I've got thick skin and an elastic heart” Ela tentou lembrar do restante da letra, mesmo sem a melodia acompanhando, enquanto balançava o corpo do garoto no colo dela mesmo sentados. Procurou lembrar e cantarolar, qualquer coisa pra sair dali e ir para outro momento que não fossem as lembranças dos próprios ataques e do abuso que ela sofreu nas mãos de Lewis, gatilhos que tinham sido despertados desde que Joe arrastou a irmã mais velha pro quarto ao lado. Longe dali, quando chegou à delegacia Cabot estava incrédula com o que Karen tinha lhe contado no caminho pelo elevador.



“Alguém tentou falar com ela? Ela fez contato?”

“Nada desde a mensagem da Lucy.”

“Nós pesquisamos um pouco sobre o histórico da família para ver se algo justificava um ataque assim, um sequestro relâmpago, qualquer coisa.”

“E o que vocês encontraram?”

“Eles mudaram de Miami há algum tempo, mas há zero histórico da vida deles lá. Era como se esses nomes não existissem até o contrato de aluguel da casa deles ser assinado aqui em Nova York quando o Jimmy tinha três anos de idade.”

“Você sabe o que isso quer dizer, Cabot.”

“Sei. Eu vou ligar pros delegados federais.”



Os dois últimos comentários vieram de William e Alex, e quando a promotora usou o ‘delegados federais’, os policiais entenderam: essa família provavelmente estava vivendo ali sob a proteção do programa de proteção a testemunha. Os nomes deles de verdade nem eram esses, a história familiar certamente era muito mais complexa do que eles podiam sonhar. Alex se isolou deles na sala de interrogatório enquanto falava ao telefone, e tudo o que eles puderam ver foi ela gesticular energicamente e brigar com alguém durante a ligação. Vinte minutos se passaram até que os gritos de Cris diminuíram consideravelmente. A pobre menina tinha desistido de lutar, e isso fez com que algumas lágrimas escapassem dos olhos de Olivia contra a sua vontade. Jimmy estava aparentemente distraído pelo filme, de modo que não entendeu a tensão extraordinária que pairou no ar quando o par voltou para junto deles no quarto. A roupa da menina estava rasgada, o lado direito do rosto machucado da mesma forma que o de Olivia, e ela estava muda.



“Agora ela não vai mais se rebelar.. não é, querida?”



Joe disse, antes de empurrar Cris na direção da cama, que caiu sentada e se afundou no abraço de Olivia. Joe ainda estava ali de olho nos três quando o telefone da Capitã, enfiado no bolso da calça ainda meio aberta do homem, vibrou. Era da delegacia.



“Um tal de Mike está perguntando se pode te ligar pra pedir ajuda com o caso dele.”

“Ele é meu parceiro, detetive junto comigo. Eu preciso responder antes que ele ache estranho.”

“Porque você não faz logo uma chamada? Conta o que está acontecendo, pede reforços, e a gente espera a polícia chegar? VOCÊ ACHA QUE EU SOU IDIOTA?”



Novamente os gritos e mais uma agressão contra ela quando contrariado, e nesse momento Olivia percebeu que ele não estava exatamente em seu juízo perfeito. Não que uma violência dessas e tudo o que ela tinha visto até ali pudesse ser considerado normal em algum universo, mas era algo além. Como se ele estivesse drogado, ela só não sabia do que. De repente Mike começou a ligar pra ela, e Joe ficou nervoso.



“Responde que tá ocupada e não pode falar. Manda ele se virar.”

“Eu não posso dizer isso assim, Joe.”

“Pode. E vai.”

‘Eu não posso atender agora, mas ligo assim que chegar em casa’ Eu posso responder dessa forma? Pra parecer menos suspeito?”


Quando ele autorizou, a mensagem de Olivia foi enviada. Na delegacia eles tinham alguma esperança de que ela atendesse, ou que o sequestrador atendesse para fazer as suas exigências, mas a mensagem foi um banho de água fria. Cabot finalmente veio pra junto deles com algumas informações concretas.



“O pai foi advogado em Miami e mexeu com as pessoas erradas. Antes do julgamento dos membros de uma das gangues de lá, quando todas as outras testemunhas foram sendo mortas em acidentes suspeitos, os delegados tiraram a família dele de circulação fazendo parecer que os quatro tinham morrido num acidente de carro. O pai entrou em contato com o gerente dele no banco ontem a noite, e foi hoje de manhã buscar cem mil dólares em dinheiro vivo. Ele ainda estava no banco quando o segurança do banco o abordou, acompanhado de um cara que ele tinha dito que era seu segurança particular. O homem era o terceiro elemento do esquema e está sendo trazido pra cá sob custódia.”



Eles não queriam saber que favores Alex tinha cobrado pra ter conseguido tantas informações tão rápido, só queriam saber de esclarecer isso o mais rápido possível e trazer Olivia de volta pra casa em segurança. Ficou estabelecido por ela que nenhum deles tinha a distância emocional suficiente para confrontar o suspeito, de modo que ela própria é quem iria conversar com o cara enquanto Fin e Mike se ocupavam do marido de Sarah. O comparsa entregou que Joe tinha perdido dois irmãos no banho de sangue que a disputa de gangues em Miami se tornou depois do julgamento com a participação da família Pearson, e que ele queria vingança por isso. Eles levaram quase dois anos para achar o rastro da família, mas finalmente os encontraram ali em Nova York. Como? Com a ajuda de um infiltrado dentro da polícia ‘em casa’, que os ajudou a ir escavando onde podia até chegar a algum lugar.



“Eu posso te oferecer um acordo, se você me ajudar a atrair o seu amigo e a mulher dele. Se a Capitã Benson e as crianças forem liberadas em segurança a promotoria pode te livrar da possibilidade da pena de morte, e te proteger da represália do Joe.”

“Eu não acredito em você.”

“Pois deveria. Eu sei do que eu estou falando, e se você não se esconder muito bem, uma hora ou outra o Joe vai fazer muito pior pra se vingar. Porque ele vai saber que foi um vacilo seu no banco que entregou a coisa toda.”

“Mas não foi isso que aconteceu.”

“Eu e você sabemos, mas ele está lá dentro sem notícias suas. E você já está preso pela cumplicidade no sequestro. Quando a casa for invadida e ele sair de lá, de preferência vivo, eu posso contar a ele a versão da história que eu quiser.”



William e Karen assistiam à conversa de Alex com o comparsa, enquanto Carisi e Amanda estavam observando Fin e Mike tentarem acalmar o pai. Em casa, quase uma hora depois desses dois interrogatórios paralelos, Joe estava andando impaciente pelo quarto de olho nos três ali. Lá de baixo, o barulho de um tiro assustou Olivia e Cris, e Joe amarrou a garota junto do irmão pra ir até lá ver o que estava acontecendo. Tinha acontecido alguma disputa entre Roxie e Sarah, e por instinto a parceira atirou na mulher, atingindo um dos ombros dela em cheio. Ela estava caída no chão, agonizando pela dor, e a outra mulher não sabia o que fazer. Quando o homem foi até a janela ver se o som tinha chamado a atenção dos vizinhos, viu que a rua estava fechada numa ponta e na outra, e que aos poucos eles estavam sendo cercados. Ordenou para que Roxie fosse até lá em cima e trouxesse Olivia junto, e a mulher pareceu não gostar muito dos gritos ou da impaciência dele. Logo estava descendo as escadas com Olivia, que de tão mal arrastada que a mulher vinha trazendo ela, cambaleou no último degrau e acabou caindo e puxando Roxie junto dela. A dor lancinante no tornozelo veio quando ela tentou ficar de pé, dando a certeza de que ela tinha se machucado. Mas a determinação de ver isso resolvido era tão forte que ela respirou fundo, como se engolisse a dor para focar no que tinha lhe trazido até ali embaixo.



“Seus colegas te ligaram, mas foi pra falar de trabalho. Eles sequer sentiram a sua falta.”

“Eles estão ocupados demais…”

“Não tenta me enrolar. A casa tá sendo cercada. Eu quero que você pense em alguém pra quem você pode ligar e que realmente deve estar sentindo sua falta à essa altura. Alguém que se preocupa de verdade se você vive ou morre.”



Olivia pesou as suas opções de para quem ligar, querendo escolher alguém que se enquadrasse nisso e que ao mesmo tempo pudesse negociar com o sequestrador. Sabia que era isso que Joe queria. Estendeu as duas mãos amarradas juntas pedindo o telefone, e Joe riu dela.



“Você vai me dizer o nome, eu vou ligar, e deixar no viva voz. Uma gracinha que seja e eu mato as crianças lá em cima e depois vou atrás do seu precioso filho. Você me entendeu?”



Ela só acenou com a cabeça informando que tinha compreendido, e depois disso mostrou para quem Joe deveria ligar. Lá fora, porque todos na delegacia tinham resolvido ir no momento em que Alex disse que a SWAT já estava montando o cerco, o telefone de William tocou no bolso dele, e o barulho assustou aos presentes ali dentro do furgão. Ele mostrou a foto de Olivia e Noah juntos na viagem à Califórnia do início do ano, e o comandante da SWAT reagiu primeiro.



“Nós ainda não tivemos tempo de rastrear e grampear seu telefone. Atende no viva voz, e aqui dentro ninguém respira.”

“Ok. Dodds falando.”

“Oi. Eu e Joe estamos aqui na sala, com a Roxie e a Sarah, e eles tem alguns pedidos a fazer.”



Mike foi quem registrou os nomes dos dois que Olivia tinha dito, para juntar as informações que já tinham sido extraídas do terceiro elemento que estava com eles desde a delegacia. Fin e Carisi estavam numa viatura lá fora trancados e tomando conta do cara, para o caso de precisarem dele. Dodds percebeu que Olivia não deu qualquer sinal de uma relação pessoal entre eles, então achou melhor não fazer isso também e seguiu o protocolo silencioso ditado por ela.



“E o que eu posso fazer por vocês, Benson? Você pode me deixar falar com o Joe, por favor?”

“Eu estou te ouvindo, idiota. Eu quero um carro pra sair daqui, sem rastreador. E eu quero o meu irmão de volta com o dinheiro que ele foi buscar.”

“Eu posso tentar providenciar o seu carro Joe, mas vai levar um tempo.”

“Você tem meia hora, espertinho.”

“Talvez a gente precise de um pouco mais do que isso…”

“Nem um minuto a mais. Caso contrário o próximo tiro vai ser na cabeça da sua protegida.”



Joe estourou o espelho da parede com um tiro, e lá de fora eles não sabiam onde a bala tinha acertado, só escutaram o barulho. Depois disso, Joe desligou. William deu um chute no pé da mesa mais próxima, enquanto Mike se aproximou do pai. Cabot fez a ligação que foi preciso, para que trouxessem um carro pra eles. Quinze minutos depois, Joe voltou a entrar em contato com William, que puxou assunto com ele.



“Nós estamos com o seu irmão, Joe. E o carro já está sendo trazido pra cá.”

“Eu quero uma rota de saída daqui livre. Sem carro, sem helicóptero, sem absolutamente ninguém me seguindo. Se eu perceber que tem alguém atrás de mim, eu e a Roxie matamos a sua namoradinha. Você me entendeu?”

“Você não pode simplesmente sair daqui levando um membro da Polícia, Joe. A SWAT não vai deixar.”

“Eu posso, e eu vou. Quando eu e os meus parceiros estivermos longe daqui em segurança, eu penso se libero ou não a sua amiga.”


De novo ele desligou, não sem antes lembrar a William que ele tinha somente mais quinze minutos. Olivia estava sentada no sofá, tentando não pensar na dor que o tornozelo machucado lhe incomodava mais a cada minuto, quando o bandido se voltou para ela. 



“Ele tá certo, Joe. Eles não vão deixar você sair daqui comigo e vivo.”

“Eles vão. Porque você vai ser meu escudo humano. Pra atirar em mim, eles vão ter que atirar em você primeiro.”

“Sabe o que pode te ajudar? Deixa alguém vir levar a mãe das crianças. Ela tá perdendo sangue demais e você não quer um homicídio na sua conta. Ela pode morrer se não for socorrida logo.”



Joe ficou calado pelos próximos minutos, pensando na proposta da mulher diante dele. O torpor causado pela cocaína não estava deixando ele pensar direito, e em algum lugar dentro da cabeça dele ele se dividiu entre deixar a mulher sangrar até morrer, antes de ouvir os apelos da namorada para que deixasse um enfermeiro vir e resgatar a mulher antes que ela morresse. Roxie olhou lá pra fora pela janela e viu a polícia de Nova York, as ambulâncias, a equipe da SWAT e até a imprensa presentes. A coisa estava ficando feia rápido demais. Ela se voltou ao namorado, nervosa. Finalmente convenceu ele de voltar a ligar para quem quer que Olivia tivesse indicado como contato.



“Antes que a mãe das crianças morra, você vai mandar dois enfermeiros para virem resgatá-la. Mas eu quero ver eles tirarem toda a roupa aqui bem na frente da janela. Sem arma, sem gracinha, sem surpresa. A sua namoradinha vai estar o tempo todo com a minha arma na cabeça dela.”


William confirmou que teriam o que ele pediu em dois minutos, e desligou o telefone. Mike e um enfermeiro de verdade foram preparados para entrar, mantendo apenas as cuecas e a camiseta branca sob o colete a prova de balas. Sem surpresas exatamente como Joe tinha exigido. Lá dentro eles confirmaram o pulso e a gravidade do impacto do tiro, e o enfermeiro disse que não tinha muito tempo. Mike e Olivia trocaram um olhar e ele viu como ela estava, e a mulher acenou com a cabeça algumas vezes e antes que fizesse mais qualquer outro movimento recebeu a coronhada nas costas, na altura das costelas.


“Quietinha. E vocês, vão embora antes que essa mulher morra. Diga ao namorado dessa aqui que ele tem dez minutos para o carro estar parado aqui na frente, com o tanque cheio e as chaves na ignição. E mais uma coisa: os coletes de vocês ficam.”


Mike e o enfermeiro despiram os coletes a prova de balas e os deixaram no chão devagar, antes de sair com a maca para socorrer Sarah lá fora. Joe vestiu uma das peças, e forçou Olivia a caminhar até Roxie no pé da escada e fazer o mesmo com ela. “Se você quiser se render, se render e se livrar disso, é só se ajoelhar no chão e erguer as duas mãos. Eles não vão atirar em você.” Olivia disse muito baixo no ouvido da outra mulher, agradecendo o fato de que lá fora o carro deles estava chegando e que o barulho das sirenes tinha distraído a atenção de Joe por alguns segundos. Ele a puxou de volta pra trás pelo cabelo, sob a mira da arma dele, e logo o telefone dela tocou com a ligação de Dodds.



“Seu carro está aqui. Seu irmão e o dinheiro também. O que você acha de sair com os outros pra ir embora?”

“Boa tentativa, mas eu não sou idiota. A Roxie vai sair e revistar o carro. Se estiver tudo limpo, eu e a minha amiga Olivia saímos logo depois. Nós vamos entrar devagar no banco de trás, a Roxie dirige, e a gente vai embora. Se vocês tentarem nos abordar, se vocês tentarem qualquer coisa, a Olivia morre. Você me entendeu?”



Novamente o telefone foi desligado sem aviso, e a angústia de Dodds e de todo mundo ali fora só crescia. Sabia que ele ia olhar da janela, então posicionaram o irmão dele junto com uma mochila bem na frente do carro, para ele ver que estavam falando a verdade. Roxie desceu os degraus devagar, o telefone dela em mãos o tempo todo para que Joe soubesse através da ligação feita entre eles que estava tudo limpo. Primeiro ela constatou que não haviam escutas e nem surpresas dentro do carro, mas quando os olhares dela e do irmão do namorado se cruzaram, o medo nos olhos dele fez a mulher perceber que aquela era uma causa perdida. Que de um jeito ou de outro a chance deles escaparem dali com vida era próxima de zero. Foi quando ela se lembrou das palavras de Olivia, pediu desculpas ao namorado antes de largar o telefone, para em seguida fazer como a mulher tinha lhe orientado. Dentro de casa Joe ficou possesso, e descontou isso com mais algumas coronhadas com a arma nas costas e pelos braços da mulher. Ela respirou fundo antes de falar.



“O QUE FOI QUE VOCÊ FEZ? O QUE VOCÊ DISSE PRA ELA?”

“Você ainda tem uma chance de sair daqui, Joe. Comigo. Eu sou sua melhor chance. A gente vai sair devagar, você vai pegar o carro, e nós vamos embora.”

“E COMO A GENTE VAI FAZER ISSO HEIN?”

“Você vai sair com a sua arma apontada pra minha cabeça. Eles não vão atirar em você até ter certeza de que eu não corro risco. Usa o meu corpo como escudo e você vai conseguir escapar.”



O homem já tinha planejado fazer isso, mas a ideia apresentada por ela era como se fosse nova. Olivia precisou pensar rápido demais pra chegar a essa conclusão. Sabia que havia atiradores de elite escondidos nos prédios ao redor, esperando pelo menor sinal e espaços livres para atirar nele sem ferir mais ninguém. E sabia também o que precisava fazer, que era caminhar até lá fora com um tornozelo provavelmente fraturado. Joe puxou o corpo dela na direção da porta e esses movimentos simples fizeram a onda de dor percorrer o corpo de Olivia inteiro! Ele mandou que ela abrisse a porta devagar, enquanto caminhava muito lentamente com uma mão agarrada à cintura dela enquanto a outra segurava a arma na sua cabeça. Lá fora todos prenderam a respiração ao assistir a cena. Os gritos para não atirar foram ouvidos, e ela reconheceu as vozes de Mike e do pai dele. Deram mais alguns passos até a ponta da calçada, e Joe parecia falar sozinho quando Olivia fez o movimento necessário: curvou o próprio corpo para baixo, o suficiente para o atirador do prédio em frente ter o campo livre. Não ouviu o barulho do tiro, mas sentiu o sangue dele espirrar e molhar as suas costas antes do corpo bater no chão. Sem apoio, quando ele caiu e ela estava solta, Olivia acabou caindo junto só que pra frente.



“Acabou. Acabou. Ele tá morto.”

“Vai ver as crianças. Eles estão amarrados lá em cima.”

“Fica com ela velho, que eu vou lá com eles.”

“O Noah…”

“Na delegacia, com a Lucy. Ele está bem.”


Mike disse, deixando o pai se abaixando o suficiente para sentar ao lado dela no chão e puxar o corpo pra junto dele. Olivia se contorcia de dor, e já nem sabia mais se era pelos golpes que recebeu ou pelo tornozelo machucado. Mas quando ela sentiu o abraço de Dodds e ouviu ele dizer que Noah estava seguro, o choro de alívio veio. Veio junto com a respiração acelerada, a tontura e a dor de cabeça insuportável. Tudo isso se juntou e ela desmaiou por alguns segundos, fazendo Dodds gritar por um médico e pedir uma ambulância pra ela. A próxima coisa de que ela se lembra é de acordar no meio do caminho pro hospital, com Dodds do lado dela e uma enfermeira junto de um médico conversando com o marido pra entender mais do estado dela.



“Meu pé.”

“Não fala. Tá tudo bem, a gente viu que ele tá machucado.”

“Ele.. ele me bateu. Algumas vezes.”

“Shhh, não fala Liv. Tá tudo bem. Você está bem."

“Manda a Karen.. a Cris.. ele abusou.”


E ela não conseguiu falar mais nada, porque a falta de ar e o cansaço insuportável vieram. Dodds registrou a informação para repassar aos colegas assim que possível, embora à esta altura eles provavelmente já soubessem disso. Na chegada à emergência, Olívia  foi levada direto para uma sala de cirurgia, e a ortopedista de plantão foi chamada, além de uma série de outros médicos. William ficou do lado de fora em pânico, e conforme o tempo ia passando algumas pessoas foram se juntar a ele. Alex e Fin foram os primeiros a chegar. Eles disseram que Mike estava acompanhando o desenrolar do caso junto de Carisi, e que Amanda e Karen estavam junto de Cris e da mãe dela. Eles já sabiam de como a garota tinha sido abusada, e quando Dodds disse que Olivia contou que ouviu tudo, Fin segurou o nó que veio na garganta dele. Eles ficaram em silêncio por quase duas horas, até que uma enfermeira veio avisar que a médica tinha acabado a cirurgia do tornozelo dela e já vinha falar com eles.



“Vocês são os familiares de Olivia Benson?”

“Ele é o marido. E nós somos amigos e colegas de trabalho dela.”

“Oh, ok. Além do tornozelo quebrado, provavelmente por uma queda da escada ou de alguma altura semelhante, ela não quebrou mais nada. Ela tem uns machucados bem feios pelo abdômen e nas costas, mas nada quebrado. Vocês conseguem me dizer o que aconteceu?”


Os três se entreolharam, e sem entrar em grandes detalhes contaram à médica do ocorrido ao longo daquele dia. A doutora Torres disse que com o relato deles, entendia muita coisa do que tinha visto nos exames de Olivia. Por fim, depois da conversa com a família, disse que ela seria transferida pro quarto depois de mais uns quarenta minutos a uma hora na sala de recuperação, e que eles podiam ir esperar por ela lá. Os três se abraçaram aliviados, e a médica compartilhou o sentimento de leveza deles. Foram até o quarto fazendo ligações para avisar a todos de que estava tudo bem e que logo ela estaria no quarto. William pediu a Mike que levasse Noah até lá e que liberasse Lucy pra ir para casa. Primeiro porque a pobre da garota estava mal com o fim daquele dia, que tinha começado com uma suspeita dela e acabou do jeito que acabou. E segundo porque ele sabia que pedir pra ver o filho seria a primeira coisa que Olivia faria quando abrisse os olhos. Mike prometeu pedir a Karen que conversasse com o garoto para prepará-lo para ver a mãe doente no hospital, sem dar detalhes do que aconteceu, antes de levar ele até lá. A cirurgia não tinha sido das mais complicadas e nem das mais demoradas, só a recuperação que ia ser bem chata. As semanas de repouso, a bota no pé e as muletas seriam os melhores companheiros de Olivia. Alex estava pegando água pra ela e Dodds quando um enfermeiro abriu a porta do quarto. Eles prenderam a respiração de ver que Olivia vinha levemente acordada, com o soro e a medicação pra dor conectados juntos, e ouviram o outro enfermeiro que a trazia dizer a eles.



“Mesmo sem poder falar, ela passou o caminho inteiro até aqui pedindo pra ver o Noah e perguntando se ele tá bem.”

“Ele está vindo pra cá com o Mike. Ele está bem.”


Foi Fin quem respondeu, enquanto se adiantava para ajudar os enfermeiros a trocar Olivia de uma cama para a outra, no que Dodds repetiu o gesto dele. Depois de acomodá-la e de ver ela gemer de dor durante esse processo de mudança, William se aproximou dela na cama pra deixar um beijo na sua testa. Ouviu o ‘obrigada’ fraco que veio dela, antes de ela continuar falando.


“Eu sabia que podia confiar em você. E que você ia conseguir negociar com eles.”

“Com a minha própria vida. Você sabe disso.”


Ele respondeu a parte do comentário dela sobre a confiança, e não exagerou nem um pouco. Queria que ela não esquecesse de que ele cuidaria dela como a própria vida se fosse preciso. Ele continuou de pé na cabeceira da cama fazendo cafuné nela, enquanto Fin e Alex relataram todo o ocorrido longe da casa enquanto eles tentavam resolver o caso. Falaram da proteção à testemunha e do que tinha levado a família até ali, e disseram que eles seriam novamente incluídos no programa assim que possível, e isso fez com que Olivia demonstrasse preocupação pela garota.



“Eu posso.. posso conversar com ela.. antes de eles sumirem de novo?”

“Se eles não tiverem sumido ainda quando você sair daqui, eu vejo o que eu posso fazer.”

“Ela precisa saber que pode até levar um tempo, mas que ela vai se recuperar. E que aqui tem pessoas que se preocupam com ela e que sentem por ela.”


Pela primeira vez desde que a morte de Joe aconteceu, Olivia conseguiu concluir duas frases inteiras sem gaguejar ou sem precisar parar pela falta de ar. Dodds, Cabot e Fin não conseguiam acreditar que mesmo depois de tudo essa era a maior preocupação dela. Sabiam que ela já tinha lidado com infinitas vítimas de abuso antes, mas provavelmente nunca com uma cuja agressão ela tinha praticamente presenciado. E dessa forma tinham muito receio de como ela processaria isso tudo. Permaneceram nos relatos sobre o ocorrido por mais algum tempo até ouvirem as batidas na porta, seguidas da entrada de Mike, Karen e de um Noah bastante assustado.



“Vem cá, meu amor. Vem cá. Sobe aqui.”

“Você tá bem? Seu pé já tá melhor?”

“Eu vou ficar bem. Você promete que vai cuidar de mim?”

“Prometo. Prometo que eu vou me comportar também. E que eu vou levar água e café na cama pra você. O Bill me ajuda, não ajuda?”

“É claro que sim, cara. Agora vem aqui pra você deitar do lado da sua mãe e fazer cafuné nela no meu lugar porque ela tá precisando.”


William esticou os braços, erguendo o menino do lado dele na cama e o deitando ao lado de Olivia de um jeito a não machucá-la e de não encostar demais nela. Olivia suspirou de alívio, tendo o seu menino ali no colo dela e bem, e sabendo que Jimmy ficaria bem também com a mãe dele. No fim de tudo, depois de um evento tão traumático, pelo menos as coisas não terminaram ainda piores! Karen disse que David e Erin mandavam lembranças e que estavam à disposição pro que precisar, no que a Capitã agradeceu a disponibilidade. Noah e Olivia, um fazendo carinho no outro, foram baixando o ritmo de conversa até que os outros ali presentes viram que os dois dormiram juntos. Como ninguém se atreveria a acordar ou separar a dupla, Alex simplesmente pegou a coberta que estava aos pés da cama para acomodar os dois. Depois disso ela avisou que ia embora, ‘pois tinha muito trabalho pela frente aquela noite’, e se despediu dos amigos antes de sair. Karen foi a próxima, lembrando que a filha dela a estava esperando em casa. 



“Vai levar ela, filho. Depois eu queria te pedir pra trazer algumas coisas nossas de casa, tudo bem? Eu e o Noah vamos passar a noite aqui mesmo…”



Mike apenas concordou, antes de se despedir do pai e sair. William se acomodou na cadeira ao lado da cama como pode, decidido a ficar ali velando o sono da mulher e do filho. Lhe cortava o coração pensar em tudo o que ela tinha passado ao longo daquele dia interminável, mas pelo menos agora ela estava bem. Fisicamente, e na medida do possível. Lembrou de falar com ela e com o terapeuta na manhã seguinte para que conversassem pois sabia que ela ia precisar. Mensagens de apoio chegavam o tempo todo no telefone, dos amigos e de pessoas que os conheciam, dizendo estarem a disposição para ajudar como fosse preciso. Pelo menos três colegas de trabalho de Cabot na promotoria entraram em contato oferecendo apoio a ela, e William agradeceu às mensagens de Sonya, Jo e de Rafael, e os três diziam mais ou menos a mesma coisa: que estavam prontos para ajudar e para visitá-la assim que ele dissesse que podiam. William respondeu que Olivia estava descansando da cirurgia no tornozelo naquele exato momento, mas que além disso ficaria bem quando saísse dali. Quando finalmente os telefones dos dois deram uma trégua, ele olhou de lado e viu que Olivia e Noah continuavam dormindo pesadamente, e resolveu ele mesmo tirar um cochilo até Mike voltar. Sabia que podia porque estava vendo, ali do lado, a sua família inteira. Inteira e segura, e era só o que ele queria naquele momento.

Notes:

Sonya, Rafael e Jo = Sonya Paxton, Rafael Barba e Jo Marlowe. Outros promotores que eu adoro e de quem eu quis fazer a menção sutil! Outra menção discreta é aos meus personagens favoritos/meu casal favorito de Criminal Minds (David Rossi & Erin Strauss) através da personagem original da história: a 'Karen' é filha dos dois, e na história é policial e trabalha junto com Olivia e companhia.

E eu adicionei tb em algum momento a alma desastrada que a Mariska tem, de volta e meia cair e se quebrar/machucar o joelho e o tornozelo de alguma forma. Hahaha espero que tenham curtido! Comentários são bem vindos. []