Work Text:
A primeira vez que Yoongi abriu os olhos foi encantadora. Mesmo que o quarto estivesse mal iluminado, apenas com algumas velas acesas, a cera polida que compunha a pele dele já brilhava sob a luz amarelada.
— Olá, Yoongi — seu criador, Namjoon, disse; foram as primeiras palavras que ouviu.
Namjoon tinha um sorriso gentil e uma aura calma. Sua casa não era muito cara, e ele tinha alguns outros trabalhos além de vender velas para se manter. Talvez o motivo de ele ser da maneira que é fosse pelo perrengue que ele já passou, talvez não, mas o que Yoongi podia afirmar com certeza era que ele não conheceria pessoa melhor que seu dono; e quando Yoongi decidiu contá-lo esse fato com essas mesmas palavras, ele riu.
— Eu não sou a melhor pessoa, Yoon, nem seu dono. — Ele sorriu.
Mesmo insatisfeito com a resposta, Yoongi deixou o assunto ir. Aos poucos ele conheceu as outras pessoas que conviviam em sua casa, como Hoseok e Seokjin — pequenos seres moradores das plantas que o dono dele adorava cultivar —, ou Sana — que vinha para beijar a pele, acariciar as preocupações e fazê-las sumir. Com toda essa gente, o tempo passava rápido.
Uma vez, no seu segundo dia, Namjoon o contou uma coisa que ele nunca mais esqueceu:
"Você é uma vela, dita para trazer luz e calor, entretanto, eu nunca te acenderei, Yoongi. A minha primeira criação, eu o fiz para ser feliz, não para ter os dias contados."
Três dias após o começo de sua vida, Yoongi viu Namjoon acender uma vela diferente. Ela não tinha uma forma como a dele, era apenas um cilindro, mas sua tonalidade era um amarelo vívido.
— O que é isso, hyung? — perguntou ao homem que observava o fogo aos poucos se desenvolver na ponta.
— Isso, Yoongi, é uma vela de longa duração — explicou com um sorriso em seu rosto.
— E ela dura quantos dias?
Namjoon, por sua vez, nunca respondeu sua pergunta, entretanto, seu sorriso grande ainda que fechado perdeu sua intensidade. Mais tarde, no mesmo dia, ele acende outra vela, desta vez, arroxeada.
— Esta é uma de longa, realmente longa duração — respondeu antes mesmo de seu anjo de vela questionar.
— Quão longa? — Curioso e hesitante, foi como ele fez a pergunta.
— Tipo, infinita. — Dessa vez, Namjoon sorriu largo e aberto, com direito a covinhas. Yoongi preferia assim.
No seu quarto dia de vida, ele acordou ao som de uma conversa alta e empolgada. Para a sua surpresa, as duas chamas sobre as velas — tanto a de longa duração quanto a infinita — ganharam corpo durante a noite. Uma era alta e encorpada e a outra parecia ser do mesmo tamanho que Yoongi, mas tão encorpada quanto a mais alta.
— Oh, a vela-inseto acordou! — o fogo mais alto, que estava em cima da cera roxa, gritou.
— Tae, não é um inseto, é um anjinho! — o outro fogo protestou.
Mesmo que não fosse um elogio, a vela sentiu que caso pudesse esquentar, suas bochechas estariam queimando.
— Vejo que vocês já se conheceram — Namjoon disse, aprovando. — Ou não se conheceram, segundo o rosto do Yoon.
— Namjoon-hyung — choramingou com um bico extremamente fofo —, quem são esses?
— As velas que eu acendi ontem. Jimin, a vela de longa duração, e Taehyung, a vela de longa, realmente longa duração. — Acenou para eles enquanto falava.
— Mas eles não são velas? — Yoongi perguntou, um pouco confuso.
— Ah, realmente. Eles são as chamas, Yoon, fogo. Mantenha uma certa distância entre vocês para nenhum ferimento ocorrer, por favor — pediu com um certo medo em sua voz.
Cansado de se manter no mesmo lugar, Yoongi voou até os ombros de seu criador.
— Vou manter, hyung. — Bateu as mãos pequenas no ombro onde estava sentado. Não conseguindo ficar parado por muito tempo, ele foi voando, com ajuda da brisa, às plantas, onde Hoseok e Seokjin já esperavam.
— Conversou com as chaminhas? — Seokjin perguntou assim que os pés de Yoongi encostaram desajeitadamente na borda do vaso.
Ele colocou os pés na terra recém molhada e sentou na borda, deixando as costas para Namjoon e as outras velas. A luz do sol que batia ali felizmente não era o suficiente para derreter o material duro que ele era feito.
— Cuidado com o fogo, anjinho, vai virar sopa — Seokjin continuou, rindo da sua própria fala.
— Não tenho intenção de ficar próximo mesmo. — O anjo de vela deu de ombros.
— Ah, claro. — Hoseok riu depois de um tempo em silêncio. Ele caminhou um pouco mais para perto das janelas, sentando levemente numa folha. — A garota dos Kang sempre parece interessada, agora, o garoto… — Riu mais, observando os olhos curiosos da garota na direção da casa de Namjoon.
Era engraçado que embora habitantes das plantas de Namjoon fossem minúsculos, sua curiosidade e capacidade de fofocar eram enormes.
— Coitadinha, mal sabe ela que ele quer o irmão dela, e não ela. — Seokjin riu, junto com Hoseok e Yoongi.
— Mas o filho do pescador Seo quer o Joon também — contestou Yoongi. — Ele é bonito, aquele cliente que vem aqui todo verão também é.
— Você quer que o Joon-hyung sofra com um amor de verão, Yoongi-yah?! — Seokjin gritou, seu tom de voz engraçado fazendo Hoseok rir ainda mais, quase caindo da folha onde tinha se sentado.
Eles não conseguiram continuar a fofocar, já que Namjoon chegou — com as bochechas tão vermelhas quanto pimentões — e levou todos para a bancada onde as chamas estavam. Ali tinha algumas ceras, linhas e essências, mas estava mais arrumado do que nunca; segundo Namjoon, desde que a loja de velas foi herdada por si, ele tentou mantê-la organizada.
— OK, meus caros companheiros, tenho mais uma pessoa especial para apresentá-los — Namjoon climatizou com sua voz grossa. — Alguém que imagino que possa ser grande companhia para você, Yoon. Agora… — Ele aguardou algo acontecer, e uma lata de ferro à sua frente chacoalhou levemente, mas nada além disso. — Ai, Jeongguk. — Eles ouviram um riso em resposta antes de Namjoon finalmente revelar o que estava na lata. — Este é Jeongguk… Ele não é um boneco de cera, mas ele tem a mesma magia que você, Yoon.
Jeongguk era aparentemente de metal, suas juntas não rangiam, mas quando se chocavam, causavam um tintilar típico. Ele era bem pintado e formado o suficiente para parecer uma versão menor de um humano. Seja lá o que Namjoon fez com ele, ele fez bem, como sempre.
— Uau, Joon-hyung, você devia ser dono de uma loja de brinquedos! — Hoseok elogiou, sorrindo largo e acenando bastante.
— Ele é fofo — Taehyung disse, preso na borda de sua vela pelo pavio.
— Ele é alto — Yoongi murmurou com um bico, se aproximando.
— Ele é alto e fofo, e sim, eu deveria ser dono de uma loja de brinquedos! — Namjoon aceitou os elogios (até o de Yoongi).
— Eu acho o anjinho mais fofo. Olha, ele tem uma auréola! — Jimin, que até então estava quieto, opinou enquanto deitava no espaço pequeno da vela e apoiava a cabeça na mão. — Se bem que o homenzinho de ferro é bochechudo! Dá vontade de apertar.
— É, mas não deve ser mole. — Taehyung fez bico.
Com isso, Seokjin caminhou até Jeongguk e colocou uma mão esverdeada sobre o rosto do mesmo. Ele apertou um pouco a bochecha e passou no cabelo dele as suas mãos.
— A bochecha é dura, mas o cabelo não. Ele é contrário do Yoongi — o homem riu.
— Hyung, faz ele parar — Jeongguk pediu.
— Qual dos hyungs? — Namjoon se entreteve, mas finalmente parou as mãos de Seokjin.
Após isso, eles voltaram aos seus lugares: Seokjin e Hoseok foram conversar (leia-se fofocar) pela janela; Yoongi planou até o seu cantinho dentro de uma gaveta; Taehyung e Jimin se sentaram um de frente para o outro e começaram a bater papo; mas o único que não sabia onde ficar era Jeongguk.
— Hm… — Namjoon coçou a nuca enquanto pensava.
O homem abriu a terceira gaveta da mesa — tendo que tirar algumas coisas lá de dentro para deixá-la vazia — e começou a separar algumas coisas, como pedaços de madeira, papelão, pequenas almofadas, espumas e tecidos. Então, sob os olhos curiosos de Jeongguk, ele montou um quarto para o mesmo, com uma cama, uma mesa e uma cadeira. Por último, ele separou uma corda e amarrou uma das pontas na maçaneta da gaveta de Yoongi, que se mantinha parcialmente fechada.
— O que é isso, hyung? — O homem de ferro perguntou com olhos esbugalhados.
— Seu quarto, Guk. É simples, mas qualquer coisa é só pedir.
Yoongi observou Jeongguk deitar em sua cama do alto, diretamente da primeira gaveta, e sorriu. Novamente, Namjoon se provava ser o melhor homem que ele poderia conhecer. Ele se esparramou na cama, pronto para tirar uma soneca, quando alguém estourou sua bolha e o fez levantar rapidamente.
— Ele parece um gatinho, por que ele é um anjinho? — Jimin perguntou.
Sinceramente, essas chamas não dormiam?, o anjinho pensou.
— Gatos não podem ser anjos? — Taehyung questionou de volta, cruzando os braços alaranjados brilhantes.
— Podem, mas ele não tem orelhas de gatinho — a chama de longa duração respondeu.
— Hm, Min, eu concordo com você, mas a ideia das asinhas veio antes do rosto dele e das orelhinhas, infelizmente. — Namjoon suspirou teatralmente enquanto arrumava algum pedido.
Yoongi ignorou a vontade de enfiar o rosto no travesseiro com mais força e soltar um grito bem agudo (de vergonha) e adormeceu.
No seu quinto dia de vida, Yoongi acordou com uma ventania. Primeiro, ele convidou a presença de Sana, abrindo os braços enquanto se espreguiçava e deixando o vento bater em seu rosto, até prestar atenção nos gritos.
— Namjoon! Joon-hyung! — Taehyung chamava, desesperado.
Quando o anjo de cera subiu na mesa, percebeu que as duas chamas estavam quase sumindo com o vento. Jimin nem gritava, tão fraco e translúcido que não tinha mais forças para isso. Então, com o desespero aparente dos dois e agindo sem pensar, Yoongi implorou mentalmente para que Sana se acalmasse enquanto pulava na estante ao lado direito da mesa.
— Yoongi, cuidado! — pediu Seokjin, que já previa o que ele pretendia fazer.
Ele desviou dos enfeites e tralhas na superfície e, quando chegou à ponta, saltou e se agarrou nas cortinas da janela em que a casa de Seokjin e Hoseok ficava, contrária à janela que a ventania vinha. Aproveitando o vento, balançou a cortina longa e leve de um lado para o outro, usando como um cipó, e se lançou em direção ao quarto de Namjoon, que ficava sempre de portas abertas. O anjo de cera usou suas asas frágeis para chegar até o travesseiro em que o seu criador babava.
— Namjoon-hyung! Joon-hyung! Acorda! — Ele começou a beliscar as bochechas do mesmo, o que o fez acordar de forma rápida.
— O quê, Yoongi? — Perguntou com sono, os olhos mal abertos.
— A Sana! Sana está quase apagando o Jimin e o Taehyung!
Antes mesmo de terminar sua clama por ajuda, o homem já levantava, desesperado. Ele correu, com Yoongi se pendurando em suas vestes, até às janelas e as fechou, logo indo à mesa onde suas criações mais recentes choramingavam, fracas.
— Mil perdões, eu esqueci a janela aberta — pediu. — Estava realmente quente ontem. Vocês estão bem?
As chamas, agora voltando um tanto trêmulas ao tamanho normal, apenas afirmaram com a cabeça, procurando calor em se encolher. Yoongi soltou as roupas de Namjoon e foi até a mesa, onde Jeongguk já estava, preocupado. Ele parou em frente às velas e se sentou ali, apenas as observando. Jimin estava agarrado ao pavio de sua casa enquanto Taehyung se abraçava como conforto. De repente, Taehyung riu.
— O anjinho-gato e o homenzinho-de-ferro estão nos assistindo — a chama de duração infinita murmurou. — Me sinto abençoado e protegido. — Riu um pouco mais e acarretou Jimin a fazer o mesmo.
Eles olhavam para Yoongi e Jeongguk como se quisessem os abraçar, mas todos sabiam que não iriam.
Namjoon, que se moveu para buscar Seokjin e Hoseok, voltou à mesa e os deixou lá. Hoseok grudou na cera alta da vela de longa duração, embora estivesse bem quente, e Seokjin o acompanhou, abraçando a vela infinita.
— Eu fiquei tão preocupado! — Os seres que moravam nas plantas se queixaram juntos. Mesmo que fosse comum, eles ainda se entreolharam como se fosse algo estranho.
— Tão preocupado que nem o cliente bonito de verão pode me distrair — murmurou Seokjin.
— Oh, ele está de volta? — Yoongi se levantou para bisbilhotar pela janela e arrastou Jeongguk (que era bem pesado, por sinal) com ele. Ambos precisavam de uma distração.
Quando chegaram à casa de Hoseok e Seokjin — mas não sem usar as asas de cera de Yoongi —, não conseguiram se concentrar no cliente conhecido, já que Sana se materializou. Ela foi descendo lentamente. O vestido estendido (que servia como um paraquedas) não mostrava nada por baixo, nem mesmo pernas. De alguma forma, ao chegar no peitoril da janela, a mulher conseguiu abrir um pouco a janela — apenas o suficiente para passar — antes de se jogar sobre o anjo de cera, pedindo desculpas. Ter Sana em seus braços era peculiar, como segurar uma bolsa de ar. Ela era linda, pesava nada e seus cabelos e vestido azul e branco balançavam como se estivessem contra uma ventania. Ela era a personificação do vento.
— Eu tenho mais dois minutos só. Desculpem-me, sério! — pedia com a voz ofegante. Ah, sim, ela também tinha o tempo contado longe do ar corrente. — E vocês aí, chaminhas! Não foi por mal, eu juro! — ela gritou por cima do ombro de Yoongi, tentando e conseguindo chamar atenção das chamas.
— Nós sabemos que você não consegue controlar, noona — Yoongi afirmou, balançando Sana no abraço. — Quem é ele? — O vento perguntou assim que se soltou do aperto, apontando para Jeongguk. — Ah, espera. Esquece, eu já tô desaparecendo. — Era verdade, ela ia sumindo aos poucos, como se virasse fumaça. — Me desculpem mesmo! — E assim, ela sumiu, sua risada carregada no ar.
— Esquisita — Jeongguk murmurou, com o maior bico possível nos lábios.
No sexto dia, o anjo de cera acordou calmamente, entretanto, assim que subiu à superfície, não teve a recepção esperada. Tudo estava nos devidos lugares, mas Jeongguk, Taehyung e Jimin estavam embalados em uma conversa estranha.
— Talvez você derreta — palpitou Taehyung.
— Talvez ele só derreta se ficar muito tempo — ofereceu Jimin.
— Talvez eu não queira testar — Jeongguk quebrou a expectativa dos dois.
O homem de ferro tinha o bico grande e usual nos lábios finos, os olhos receosos e com medo. Eles queriam testar a capacidade de Jeongguk com fogo, o que era insanidade, mas não algo que Namjoon não havia previsto.
— O ferro dele sobrevive algum tempo no fogo, dependendo de quão forte — Yoongi sussurrou para a chama sob a vela de longa duração, mas ela nem reagiu.
— Eu sobrevivo algum tempo no fogo, hyung? — Foi Jeongguk quem perguntou à Namjoon, tendo ouvido Yoongi.
— Sobrevive, na teoria — afirmou com um quê de porém que logo foi acrescentado: — Mas é melhor não testar. O seu metal pode não ser tão resistente quanto eu pensava.
Com isso, os três mais novos desanimaram como balões murchando. O homenzinho de ferro se sentou no chão com um rugido de metal contra metal; Jimin balançou suas pernas flamejantes na borda da vela; Taehyung fez um bico maior que o de Jeongguk. Yoongi tentou animar a chama hipnotizante que era Jimin novamente:
— Ei, pelo menos agora vocês têm uma teoria. Se vocês pedirem com jeitinho, talvez o Namjoon-hyung empreste um pedaço do material que ele usou no Guk para vocês testarem. — Sorriu.
De novo, foi ignorado, o que fez seu sorriso se desmanchar rapidamente. O fogo agia como se nem tivesse o escutado. Yoongi apenas sabia que ele tinha ouvido pela forma que a cabeça dele se inclinou em sua direção enquanto falava.
— Jimin — ele chamou em vão. — Chaminha — quase implorou, mas ainda, nada.
Irritado e sem pensar direito, Yoongi tentou pegar o pé do fogo, para puxar levemente e ver se finalmente conseguiria conquistar sua atenção. O que aconteceu, no final, foi bem pior. A cera de sua mão derreteu assim que chegou perto o suficiente.
— Merda! — ele sussurrou, falando pela primeira vez um palavrão.
A outra mão do anjo de cera foi automaticamente para a que pingava, ganhando gotas ardidas nela. Mesmo que ardesse bastante, estava secando rápido.
— Yoongi! Eu não falei para você manter distância?! — Namjoon berrou preocupado.
O humano pegou um pano e tentou limpar um pouco a cera, mas só piorava. A mão esquerda de cera estava com os dedos derretidos e queimados, e a direita estava levemente deformada pelos pingos. Yoongi não teve tempo de olhar para Jimin, já que Namjoon começou a polir e consertar sua mão direita, fazendo-o chorar de dor. Quando ele terminou, no entanto, só piorou.
— Yoon… Eu vou cortar sua mão esquerda, ok? — Antes que o anjo pudesse responder, ele continuou:
— Eu preciso refazê-la, não tem como eu refazê-la com ela no seu corpo, é muita dor.
A manhã do sexto dia foi traumatizadora. Os choros não eram só de Yoongi, mas de todos os seus amigos preocupados. Ele via Seokjin e Hoseok na borda do vaso, observando tudo com os olhos grandes; Namjoon que tinha os olhos marejados enquanto trabalhava; Jungkook dentro de seu quarto, tampando o choro de todos, até o seu próprio, com um travesseiro no ouvido; Taehyung que se prendeu no pavio de sua vela, assustado do que podia fazer; e Jimin que nem havia se mexido, ainda sentado com as pernas sob a borda, em choque.
Contudo, embora aquele dia tenha sido cheio e bizarro, após o anjo-gato se acostumar com o final sem nada que era o seu pulso, as coisas se acalmaram. Ele conseguiu falar com todos e acalmá-los, até a Sana, menos Jimin. A chama tinha saído do choque, mas ainda estava assustado por ter machucado alguém próximo.
Na manhã do sétimo dia, Yoongi decidiu que não iria mais aguardar. Ele se sentou ao lado da vela de longa duração e cortou a conversa que a chama tinha com Taehyung:
— Posso falar com você, por favor? — As últimas palavras saíram cheias de cansaço.
Taehyung se virou rapidamente para Jeongguk, que estava próximo. Jimin, no entanto, demorou um pouco para olhar para ele, mas assim que seu olhar parou no pulso da vela, ele paralisou.
— Não é sua culpa, sabe? — Foi tão abrupto que a cabeça do outro virou rapidamente em sua direção, saindo do lugar vazio que vinha depois do pulso dele. — Eu não deveria ter tentado, sabe, te encostar — o anjo disse, coçando a nuca. — Mas, sabe, se você não tivesse, você sabe, me ignorado, eu não teria… tentado. Não que isso importe, sabe? Não é sua culpa, sério.
Ele parou, mantendo o olhar fixo no chão.
— Por que você fez aquilo, afinal?
— É idiota — Jimin confessou depois um período preenchido por um suspiro longo.
— Conta, eu também sou idiota-
— Não fale "sabe" de novo, Min Yoongi — Seokjin gritou, mal prestando atenção neles, ou fingindo não prestar. As bochechas de cera poderiam aderir um tom avermelhado se sangue corresse ali embaixo.
— Eu só… A Sana, ela é bem legal, né?
A mudança de assunto deixou o cérebro da vela confuso.
— É, eu acho — disse, hesitante.
— Ela é engraçada e carismática… — Suspirou. — Bonita e-
— Você estava com ciúmes? — o anjo de cera o interrompeu, surpresa clara no seu tom.
Ninguém havia sentido ciúmes dele antes, afinal, Yoongi só tinha sete dias de vida. Na verdade, a única vez que ele ouviu falar sobre esse sentimento foi quando Seokjin e Hoseok riam sobre a expressão da filha dos Kangs enquanto Namjoon falava com o irmão dela.
— O quê?! Não! C-ciúmes não… — A chama abaixou o volume, ainda murmurando algumas negações e nunca olhando na direção de Yoongi.
— Então, o que foi? — Yoongi perguntou, um franzido entre as sobrancelhas.
Jimin parecia tímido, mantendo-se calado por longos minutos, entretanto ele podia estar apenas pensando no que falar. Torcendo as mãos no colo, ele pareceu finalmente se decidir com um suspiro.
— É só que… Ela pode andar por aí; conversar com todo mundo; abraçar todo mundo, te abraçar… Eu acho que eu só tava com inveja.
Antes que o outro pudesse dizer algo, ele continuou:
— E aí, toda vez que eu olhava para você eu lembrava dela te abraçando, e eu queria te abraçar. — O bico em seus lábios mostrava o quanto estava chateado sobre o assunto.
Yoongi não sabia o que falar; embora soubesse que todos seus amigos sentiam carinho por si e até o davam abraços, ele nunca teve alguém que expressasse em palavras o que pensava dele. Ele estava… embaraçado.
Contudo, antes que o anjo pudesse falar qualquer coisa, os interromperam. Namjoon entrou na loja com o filho dos Kangs. Eles estavam embalados em uma conversa empolgada sobre seres mágicos, Namjoon provavelmente explicando “comos” e “porquês” de todo o seu trabalho. O dono da loja carregava uma pequena mão de cera na palma.
— Eu dei vida à eles, são como meus filhos, eu acho. — Ele riu.
— Isso é fofo — Minsoo, o filho dos Kangs, respondeu com um sorriso bobo no rosto.
Ah, as pessoas apaixonadas. Será que ele olhava assim para Jimin?, Yoongi pensou. Quando percebeu o que se questionava, ele chacoalhou a cabeça de um lado para o outro, assustando Jimin e o visitante.
— Que coisa fofa! — O humano disse, andando na direção do boneco de cera.
— É, muito fofo, mas também me arruma cada trabalho — Namjoon se queixou, como um pai velho.
— Foi ele que perdeu a mão? — Minsoo se abaixou no nível da superfície da mesa e ficou cara a cara com Yoongi e todos os outros. A falta de algo no final do braço de Yoongi respondia o suficiente.
O dono da loja deixou a pequena mão de cera na mesa, perto de Yoongi, e pegou os dois seres que viviam em suas plantas para levá-los até onde todos estavam reunidos. Ele também coletou alguns equipamentos que usava para fazer pequenos consertos em cera, tirando os que tinha usado para fazer a mão do bolso. Namjoon adorava ir ao parque esculpir suas criações, com a natureza ele tinha paz.
— Eles são tão pequenos e fofos, duvido que te deem tanto trabalho assim.
— Não duvide — Namjoon riu —, passe dois dias aqui e você perceberá. Eles são pequenos capetinhas.
— Ei! Eu não sou um capetinha! — Seokjin reclamou. — Sem falar que eu sou o maior daqui!
Seokjin tinha o tamanho de uma pouquinho-menor-que-o-normal banana. Todos eles tinham poucos centímetros —às vezes milímetros — de diferença. Assim, os dois humanos riram de sua fala.
— É… Eu vou colocar a mão dele de volta. É um pouquinho doloroso para ele — Namjoon avisou depois de um tempo.
— Ah, eu já tenho que ir mesmo. — Minsoo se levantou.
— Você pode ficar, não era uma indireta para você ir embora! — Ele logo se explicou.
— Não, Joonie, tudo bem, eu realmente tenho que ir. Meu pai vai fazer um almoço importante e eu tenho que estar pronto, fisicamente e mentalmente — o visitante brincou. — Tchau, pequenos.
Assim, ficou só a família dentro da loja. Havia um silêncio levemente tenso entre eles, já que logo iriam ouvir os gritos de dor de Yoongi. Ainda havia o risco da mão dele não funcionar como deveria.
— Se somos todos seus filhos, quer dizer que somos todos irmãos? — Yoongi perguntou com certo desconforto. Ele não conseguia ver todas as criações de Namjoon como seus irmãos.
— Acho que não, quer dizer, talvez. Vocês não saíram de mim e eu não criei vocês como irmãos, mas se você se sente assim sobre algum dos outros, então, sim…?
— E se eu sentir algo mais por algum deles? — O ser de cera sussurrou, apenas para seu criador ouvir.
— Então, vocês não são irmãos, claramente. — Ele riu. — Algumas pessoas que acreditam que um Deus criou todos nós, mas nem por isso somos todos irmãos.
Enquanto Namjoon colocava sua nova mão no lugar, o pequeno grudou nesses questionamentos para distrair a mente. Ele não podia se apaixonar, certo? Ele não havia sido criado para isso.
No oitavo dia de vida de Yoongi, ele acordou feliz. Sua mão estava de volta e ele estava se apaixonando. Depois de consertar sua mão, ele viu Jimin sorrir para ele e soube que estava amando, por mais que estranho que pareça. Era um amor complicado, quase impossível, mas ele não se importava em ficar para sempre apenas conversando com Jimin.
Sua felicidade acabou no momento em que saiu da gaveta.
Pela primeira vez, ele percebeu que a vela de longa duração estava bem menor do que quando a viu pela primeira vez, cera derretida e queimada, com o pavio também já queimado. Agora, ele estava preocupado, infinitamente preocupado e triste. E revoltado, com Namjoon.
Ele passou por todos que estavam na mesa, que gritaram protestos, tão preocupados quanto ele, mas por um motivo diferente: o franzido entre as sobrancelhas de Yoongi e as pequenas gotinhas de cera acumuladas nos seus olhos; se elas escorregassem, poderiam fazer um estrago em seu rosto. Ele passou pela estante e usou a cortina como cipó, voando o resto do caminho até o quarto do seu criador.
— Namjoon-hyung! — Gritou o mais alto que podia, fazendo o homem se assustar.
— O que foi, Yoon? — O homem largou as roupas que dobrava na cama e pegou o anjo de cera na mão.
— Por que você fez Jimin uma vela com tempo contado? Por que você não fez ele durar para sempre que nem o Tae? Por que você quer vê-lo sofrer assim? Fazer a gente sofrer assim? — O pequeno cruzou os braços, batendo um dos pés contra a palma de Namjoon.
O rosto de seu criador caiu rapidamente. Ele parecia culpado, triste, preocupado… Com tantos sentimentos ruins em seu rosto, todos os que Yoongi nunca quis ver nele. Mas, naquele momento, Yoongi estava sentindo aquilo também e queria respostas.
— A verdade, Yoon, é que eu nunca fiz o Jimin nem o Tae. — Namjoon suspirou, se sentando na cama e deixando Yoongi na sua perna. — A última coisa que recebi dos meus avós foram os dois, foi o que me fez querer continuar com essa loja. Eles me pediram para acender os dois no mesmo dia, já que seriam melhores amigos. Mas, como Jimin duraria bem menos tempo que Taehyung, eu nunca quis acender nenhum dos dois por medo. Depois de perder meus avós, eu não queria perder mais ninguém. Ele ficou um tempo quieto, provavelmente pensando em suas próximas palavras. — Mas, Yoonie, nada dura pra sempre, você tem que aceitar isso. Eu tenho. Por mais que queiramos, nada ficará aqui eternamente, algo tem que partir para que mais possam nascer e crescer. Eu li isso num livro, pouco antes de acender os dois.
Então, de forma levemente egoísta, ele acendeu Taehyung e Jimin para perder o medo de perder as coisas. Por mais chateado que Yoongi estivesse, ele entendia. Ele nunca perdeu ninguém em seu curto tempo de vida e apenas saber que Jimin tinha menos tempo que ele restante, já o fazia enlouquecer.
— Quanto tempo resta para ele? — Ele tinha medo da resposta, mas precisava saber.
— Dois dias, acho. — O dono da loja suspirou novamente.
— Ele sabe?
— Uhum.
Eles ficaram em silêncio por um tempo, tentando organizar seus pensamentos. Quando Namjoon levantou, o deixando na cama, para continuar a dobrar as suas roupas, Yoongi se decidiu: precisava fazer aqueles últimos dias os melhores dias da vida de Jimin. Yoongi voltou à mesa como se nada tivesse acontecido. Ele não havia chorado, mesmo que quisesse, então não havia evidências de uma discussão além daquela saída dramática.
— O que houve, Yoongi? — Hoseok e Seokjin perguntaram juntos, com tanta preocupação que nem estranharam o fato de terem falado ao mesmo tempo.
Jimin ficou calado enquanto todos questionavam Yoongi. Ele sabia, viu o outro olhar para sua vela curta e depois para a de Taehyung, que estava do mesmo tamanho, apenas com uma gota fina de cera escorrendo.
O anjo respondeu nada e se sentou ao lado da vela de longa duração, as pernas abertas e estendidas à sua frente e suas palmas no chão atrás de si, sustentando seu tronco. Ele sentiu o calor da chama e percebeu que não poderia deixar Jimin ficar triste, tinha que distrai-lo.
— I don't care if Monday's blue — começou a cantarolar, o inglês saindo com um sotaque forte.
Essa era uma música que Namjoon costumava cantar toda hora, ela já tem um ritmo animado, mas assim que todos o acompanharam, eles conseguiram deixá-la mais feliz ainda.
— Monday you can fall apart. Tuesday, wednesday, break my heart. Thursday doesn't even start. — Yoongi inalou fundo, cantando para Jimin. — It's friday, I'm in love.
O homenzinho de cera fingiu não vir como Jimin perdeu o ritmo completamente e sorriu para ele. Se ele olhasse aquele sorriso por mais de um minuto, ele derreteria.
Depois da cantoria (que gerou diversos risos por desafinarem ou errarem a letra), Hoseok abriu a janela com a ajuda e Jeongguk. O vento não estava forte, o que possibilitou a chegada tranquila — isso é, sem atormentar as chamas — de Sana. Eles conversaram até tarde, contando com a participação do Namjoon. Yoongi estava tão feliz vendo Sana e Jimin conversarem que adormeceu ali mesmo, ao lado de Jimin, naquela mesa dura.
A manhã do nono dia foi pacífica. Ele e Jimin pareciam tentar ignorar ao máximo o fato de que amanhã talvez a chama sumisse. Eles, enquanto isso, testaram como Jeongguk aguentaria o fogo com uma peça não utilizada.
— Tá ficando vermelho! — Taehyung exclamou com a peça de metal em mãos.
— É, TaeTae, a temperatura do metal está aumentando — Namjoon explicou. — A magia funciona, já que a tinta não queimou e o metal não está derretendo.
Assim que ele terminou de falar, Jeongguk começou a subir a vela de duração infinita e, ao chegar no topo, abraçou Taehyung. Todos riram da faceta chocada da chama infinita.
— Quem diria que nosso Gguk seria tão carinhoso assim! — Hoseok riu. — Eu também quero um abraço.
E Jeongguk realmente deu um abraço em Hoseok, apenas depois de dar um em Jimin (e de se esfriar). Yoongi sentiu um aperto em seu peito ao ver a cara feliz mas dolorida do fogo. O fogo murmurou um agradecimento enquanto abraçava Jeongguk.
— Meu Deus, alguém está pedindo a filha dos Kangs em casamento! — Seokjin exclamou do peitoril onde sua casa ficava, interrompendo o momento.
Yoongi assistiu Jeongguk e Hoseok correrem até a janela para saberem o que está acontecendo, tendo que ir pela estante, o que demorava bem mais do que voar até lá.
— Você não vai ver? — Jimin o questionou, curioso.
— Nah, prefiro ficar aqui. — Sorriu ao ponto de suas gengivas amareladas aparecerem.
Eles ficaram em silêncio, rindo quietamente das reações dos três na janela ao ouvirem Namjoon dizer que era um presente de namoro e não um pedido de casamento.
Eles se reuniram no lugar usual e fofocaram a tarde toda, mesmo quando Minsoo chegou. Acabou que o homem também era um grande fofoqueiro e complementou a história.
Yoongi sentiria falta disso, de Jimin, de todos.
Foi na noite do nono dia de vida de Yoongi, quando Namjoon dormia pacificamente em sua cama igual a todos os outros moradores, que Yoongi decidiu. Ele se levantou da cama, andando até a vela de longa duração. A chama estava acordada e assustada, como todos estariam em seu lugar. Amanhã seria o dia, mas, ainda assim, Jimin agia como se ele fosse desaparecer a qualquer momento.
Quando os olhos deles se conectaram, a vela-anjo-gato teve certeza de sua escolha. Namjoon disse que não o criou para ter os dias contados, mas sim, para ser feliz. Entretanto, ele sabia que tinha seu tempo de vida curto, por isso os contou um por um. Ele era frágil demais, derretia e quebrava facilmente, era óbvio que seu tempo acabaria em um estalar de dedos. Yoongi não conseguia ser feliz sendo extremamente cuidadoso consigo mesmo, nem assistindo as pessoas que ele ama morrer; porque ele iria. Ele poderia viver para sempre, assistir Jimin queimar; Seokjin e Hoseok envelhecerem e morrerem; Jeongguk enferrujar e quebrar; e até Namjoon morrer; o único que sobreviveria junto com ele era Taehyung, amaldiçoado com a vida eterna.
De qualquer forma, Yoongi gostou da vida e das memórias que teve, demais para estragá-las vendo coisas tão tristes. Então, se aproximou de seu amor, subindo rapidamente na vela baixa. O calor subindo quanto mais próximo, a cera já derretida perto da chama sujando e machucando Yoongi, mas ele nem sentiu. Jimin era tão lindo. Ele brilhava tanto, exalava calor para todos, até um pouco demais para Yoongi, já que o material que formava seu cabelo se deformou.
— Yoongi… — Era uma clama e também um aviso.
Mas o anjo de vela já teve o suficiente de avisos, ele sabia das consequências e iria tomá-las. O que seria sua vida sem Jimin, afinal?
Rapidamente, cansado de sofrer, ele se aproximou e pegou as mãos do fogo entre as suas. Elas eram tão sólidas e, ao mesmo tempo, translúcidas ao baixo das suas.
Yoongi queria gritar.
O anjo apenas largou as mãos para pegar a cintura de Jimin em uma mão derretida e o pescoço na outra.
Seu corpo deformava e borbulhava.
A vela beijou o fogo lentamente, mesmo que seu tempo estivesse acabando.
Tão rápido quanto tudo começou, se encerrou. A cera de Yoongi virou líquida, se esvaindo das palmas de Jimin e caindo sobre seu pavio. Era doloroso sentir sua fonte de calor se apagando lentamente.
Logo, com um soluço final, havia apenas o final de uma vela, o pavio queimado até perto do fim e cera derretida.
No que era para ser o décimo dia da vida de Yoongi, Namjoon acordou devagar, apenas para se desesperar assim que saiu do quarto. Taehyung chorava sem lágrimas, apenas lamúrias; Jungkook não estava em sua gaveta e a de Yoongi estava completamente fechada; Seokjin e Hoseok encaravam a janela com caminhos de lágrimas secas em seus rostos. O pior de tudo era…
Jimin se apagou.
Foi-se, restando apenas uma vela usada.
Tão simplesmente, duas vidas acabaram. Duas vidas, um primeiro amor e diversas amizades.
Apenas para ter certeza, o criador abriu a gaveta da vela-anjo e encontrou Jungkook com o rosto enfiado no travesseiro. Ele olhou para seu criador com olhos arregalados e cheios de óleo, e eles diziam tudo:
Yoongi e Jimin se foram.
Eles também disseram para Sana, que virou ar no mesmo instante.
Então, para todas as criações de Namjoon, sempre existirá a história da vela, o anjo que parecia um gatinho, e da chama brilhante como uma estrela; a história de que nada vive para sempre, independente de quanto você queira.
