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03 | Breve

Summary:

Pat foi para mais um almoço fatigante em sua casa — que alivia ao ver as irmãs e a mãe —, mas não amacia a presença maçante do pai.

O que ele não esperava, era que, do outro lado do muro, uma mudança estava por vir. E nem sabia que seria tão rápido.

Pat teme o retorno da solidão; Pran vive um dilema; Dissaya encara um dor.

Um muro, uma linha, um elo.

Um reencontro, em breve.

Notes:

Oi leitores GreenReds! 💚❤

Que bom te ver por aqui! E DE NOVO!

Essa história — como as outras três que escrevi — fazem parte do mesmo universo de BadBuddySeries. Então, funciona como uma continuação de como acredito que PatPran possam viver "o futuro".

Como vocês sabem eu costumava escrever no ponto do vista do Pran (AQUELA NOITE e TANTO), mas desde QUASE estou tentando algo novo, fazendo histórias narradas. Assim posso abordar melhor as emoções de outros personagens, principalmente do Pat. E deixa eu te contar: eu me apaixonei por ele!

Eu sempre trago algo diferente, e nessa história teremos bastante diálogo. E apesar de ter apenas 3 capítulos, é a mais longa que escrevi. Espero que gostem!

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: O muro

Chapter Text

*

— Que bom te ver aqui de novo, filho! Vai almoçar com a gente todo dia? — Pat dá um sorriso enquanto entra em casa e antes de responder à mãe, é interrompido pelos passos rápidos de Ink descendo a escada.

— Paaaa, seu irmão veio encher o saco de novo! — Diz Ink enquanto sorri olhando para Pat.

— Iiiink, deixa ele quieto! Ele deve estar sem tempo e cansado, e veio se aproveitar de nossa refeição. — Pa aparece logo atrás da namorada, lhe dá um tapinha no ombro e se apoia, piscando para Pat em pirraça.

— Posso notar o cansaço no rosto dele, baby. — Ela se aproxima de Pat e cutuca o queixo com o indicador, fingindo analisar sua expressão.

— Iiiink! — Pat devolve com o mesmo tom de implicância, mas acha engraçado. — Você virou uma irmã muito chata. Já não bastou o tanto de vezes que você disse isso ontem?

— Apesar de quê... você parece bem melhor que ontem. O que fez noite passada, ein? — Ela ergue as sobrancelhas, encarando Pat sem desviar.

— Ink! — Pa reprime a namorada. Pat arregala os olhos e franze os lábios, preocupado. Será que dá mesmo para perceber o que eu e Pran fizemos noite passada?

— Sorte a sua que eu gosto de você! — Diz ele, dando um peteleco na testa dela e sorri.

— Eu sei, você é como um irmão mais novo para mim.

— Eu tenho a sua idade, pirralha. — Pat apoia os punhos na cintura, ergue o queixo e ajeita a postura. — Olha meu tamanho, você não tem medo?

E de repente, a sala se torna um caos. Pat prende a cabeça de Ink em seu braço esquerdo, e finge dar soquinhos em sua barriga. Ink posiciona sua perna, com muita dificuldade atrás da perna de Pat, tentando empurrá-lo — sem resultado aparente. Ele solta a cabeça dela e se segura no balaústre da escada, procurando se equilibrar e ela aperta seu nariz sem pena. Que tipo de ataque é esse? Pergunta Pat, com os olhos molhados por conta do golpe na região sensível.

Pa assiste a tudo isso, impressionada em como eles despertam a criança interior um no outro sempre que se encontram. Ela desiste, enfim, da interação padrão entre o irmão e a namorada e senta-se no sofá olhando os últimos e-mails da equipe de produção do filme que está fazendo.

— Crianças! Podem parar a briga e me ajudar a pôr a mesa? Daqui a pouco o pai de vocês aparece aqui irritado com o barulho!

Kaew surge na sala, acalmando os ânimos do filho e da nora e em sua mão, carrega um recipiente que exala um cheiro defumado maravilhoso, e apesar de ter reclamado, ela sempre fica feliz com toda essa movimentação. Ela ganhou uma filha, e mesmo que Ink não more oficialmente lá, é bom ter pelos ambientes da casa, aquela energia tão parecida com a do Pat.

Desde que a situação entre Ming e Dissaya havia sido exposta, a mãe do Pat tentava equilibrar a relação entre pai e filho a todo custo, mas assim que pôde, Pat quis sair de casa e ela apoiou a decisão.

Ela sabe que ele não está bem. Aparentemente, está tudo bem, mas mãe sempre sabe. Ela vê que Pat tenta se aproximar do pai, mas que não é genuíno, porque muitas vezes foi, mas Ming simplesmente nunca cedeu. Ela viu, ao longo dos anos, as brincadeiras diminuindo, os sorrisos de cumplicidade se esvaindo e a permanência de Pat na casa, se estreitando. Ela tudo vê, mas nada faz, ou faz o que pode e tenta não transparecer. Mas ela sente, com todo o coração, o rancor e decepção que o filho carrega no sorriso cansado de todo dia. E vai manejando. Deixarei que eles resolvam.

— O que está acontecen–... ah, Pat está aqui. — Ming sai do escritório com o cenho franzido e voz neutra, e se senta na mesa sem cumprimentar o filho. Apenas lança um olhar e acena com a cabeça. Eles não têm mais assunto.

— Sawasdee krap, pá. — Pat o cumprimenta em respeito e nota que não será um dia fácil. O semblante leve e divertido que havia adquirido na brincadeira com Ink desaparece completamente de seu rosto. Ele não sabe o porquê, mas ainda se surpreende com o jeito fechado do pai. E não é bem o orgulho do Ming que o irrita, mas a indiferença constante e esse muro que ele construiu em volta de si, maior que o muro que o separa da casa vizinha, o qual não o deixa enxergar nada além das próprias vontades. Ainda assim, Pat não quer decepcioná-lo. E apesar de entender as origens do pai, ele fica triste. Ele nunca me pediu desculpas. Pat está decepcionado com o pai, e isso perturba sua cabeça sempre que o encontra. E ele realmente nunca pediu desculpas. Para ninguém.

Uma parte importante da carta que recebeu do Pran ontem à noite, também criou morada em sua mente e ecoou durante todo o tempo enquanto estava no trabalho essa manhã, e permanece até então:

"Nossos pais já sabem, eu tenho
quase certeza, te falei?"

Não foi a frase em si, mas outra coisa. Não cabia naquela ligação de ontem insistir no assunto, mas Pat já havia percebido algo diferente acontecendo há um certo tempo.

Ele e Dissaya têm se "esbarrado" com frequência. Ela até maneia a cabeça positivamente quando o vê e é quase possível notar um vinco de sorriso em seu semblante, mas Pat concluiu que estava "vendo coisas onde não tem", porque ele sempre quis ver essas coisas.

— Venham comer, vai esfriar! — Kaew chama, interrompendo os pensamentos de Pat, e todos se dirigem à mesa.

*

Ouvindo conversas paralelas entre seu pai e Ink ou sua mãe e Pa, enquanto come em silêncio, Pat se perde em pensamentos do dia anterior.

Ele se lembra, especificamente, de quando estava saindo da casa dos pais para voltar ao trabalho. Ao mesmo tempo que se despedia de todos em voz alta e alegre por fora, por dentro — em silêncio —, se martirizava por sentir ciúmes da relação deles com Ink. Sim, ela havia falado vezes demais, sobre como a aparência dele estava péssima — assim como hoje —, mas ele sabia que era brincadeira. Depois do caos que foi aquele dia em que Pat assumiu que gostava de Ink, e ela revelou que não, ele não gostava dela, mas sim, de outra pessoa, Pat soube que havia ganhado uma amiga para a vida. Uma irmã. Pat gosta dela. E o pai, que não lhe abre um sorriso sincero desde que foi flagrado no mercado com Pran, também gosta, e sorri abertamente conversando com a nora. Perdido em autopiedade, fechou o cadeado do portão de sua casa e notou que alguém o assistia. Dissaya estava no jardim regando as flores, levemente inclinada em sua direção, mas o rosto esquivava, cantarolando notas quaisquer. Ele olhou algumas vezes para checar se ela o olhava. NadaEu devo estar exausto mesmo... Por que ela estaria olhando para mim? Talvez Ink tenha razão, preciso descansar, falou sozinho, já dentro do carro que estava estacionado em frente à sua casa e deu partida. Ainda almoçando em silêncio e devagar, Pat se lembrou também de outro dia em que a encontrou em um mercado e notou que ela havia derrubado, sem querer, alguns sachês de tempero e ele logo pediu para que um vendedor fosse ajudá-la — sem que ela soubesse. Faz um bom tempo que ele percebe olhares disfarçados, mas anula todos, porque se proibiu de pensar sobre.

 Pat! Estou falando com você! — Ming chama a atenção do filho que parece estar em perdido no próprio mundo. Pat olha assustado, de cabeça e boca cheia, e gesticula para que o pai fale. — Como está a empresa?

— Um pouco caótica. Mas acredito que em breve vamos estar melhores que nunca. — Sorri com os olhos, tapando a boca cheia de comida com a mão enquanto fala.

— Hum, e o List in? Já está funcionando?

— Ainda estamos corrigindo alguns bugs na programação do aplicativo, mas também acho que em breve vai estar funcionando bem.

— Hum... "acho", "em breve", quando vai ter certeza? Estou confiando em você, filho!

— Eu sei que está.

Pat responde sério e coloca os punhos cerrados na mesa, segurando os talheres com força. Ele detesta quando o Pai volta a usar aquele tom. O tom que usava na época em que ainda exercia algum poder sobre o filho. Pat respira fundo — algo que aprendeu com Pran —, para controlar o seu lado impulsivo. Mas ele está com raiva. E chateado. E depois de ontem à noite, naquele telefonema com Pran, viu enfim, todas as possibilidades que têm daqui para frente. Veste um sorriso sarcástico e diz:

— E se não fosse eu, , quem estaria fazendo? Você? — Piada.

— Não precisa se ofender. Estou preocupado com a empresa. Eu te dei o aval para comandar à sua maneira. — Ming solta um sorriso debochado, enquanto é assistido com olhos atentos por todos na mesa.

— E eu estou, não estou? Já falei que está tudo bem com a empresa. — Pat baixa a cabeça e volta a comer, buscando encerrar a conversa. — Pode ficar calmo e dormir sem peso na consciência. — Se for possível, quis completar, mas não valeria a pena.

Sua mãe oferece sobremesa, interrompendo mais uma briga, que diferente da que presenciou entre Pat e Ink, não seria amigável, nem teria um fim próximo. Todos aceitam e Ming se levanta para pegar, aproveitando a oportunidade para fugir do embate. Pat olha para a mãe com olhos de empatia e agradece. Ela segura a mão dele e dá um beijo. Mãe sempre sabe.

Depois da refeição, ele sobe para o seu antigo quarto e se senta na cama, de frente para a sua bateria. Ele sente uma leve pontada na cabeça, se joga para trás de olhos fechados, e permanece assim por uns minutos. Toda aquela interação no almoço poderia ter sido evitada se eu soubesse disfarçar melhor. Mesmo que grande parte de Pat tenha a necessidade urgente de não precisar lidar com o pai, uma outra parte, ainda maior, sente solidão. Uma sensação de abandono invade seu peito.

Ele pensa em Pran. E por um breve segundo, pode até sentir que o outro está no quarto da casa ao lado, lendo um manhwa que ele emprestou; ou apontando seus infindáveis lápis de cor, que jamais seriam capazes de colorir algo da mesma maneira que Pran colore os seus dias, que estão cada vez mais cinzas com sua falta; ou escrevendo mais uma música para lhe dedicar, com uma melodia doce que preencheria as lacuna de cada dia que passa sentindo essa falta; ou então, sentado em sua cama, ansioso pelo momento em que Pat iria pular sua janela, e calar sua boca, não com a mão, mas com um beijo. A falta de um beijo — que nunca faltava.

E então, volta à consciência. Sente o fundo dos olhos doer, e antes que a lágrima se forme, ouve batidas na porta.

— Posso entrar? — Ink fala em tom de cuidado. Pat assente. — Como você está?

— Bem. — Sibila com uma interrogação na voz.

— Não, Pat. É sério. Como você realmente está? — Ela senta na cama, atravessada, e se deita com a cabeça na barriga dele.

— Agora estou prestes a vomitar... esse cabeção pesado... shia Ink. — Reclama, enquanto tenta tirá-la de lá.

— Não tenho culpa, sua irmã não sai da minha cabeça. — Ela entra na brincadeira quando percebe que ele não quer conversa séria.

— Não sei por que eu te ensinei isso. E a Pa jamais pesaria tanto quanto seu cabeção — Pat desiste de se livrar do peso.

— O que estão falando de mim? — Pa entra no quarto, e se deita ao lado da namorada, aninhada em seu ombro, apoiando a cabeça na coxa do irmão.

— Vocês não têm noção de espaço, não é? — Pat diz, já irritado.

— Até parece que você tem. — Pa ergue o corpo e apoia a ponta do cotovelo na coxa dele, o fazendo dar um pulo na cama. Ink é jogada para frente, batendo sua cabeça na de Pa.

— Shia, Pat! Sr.-Eu-Tenho-Noção-de-Espaço. — Enfatiza a expressão, dando risada, enquanto Ink da beijos em sua testa. — Sim, o que vocês estavam conversando?

— Seu irmão não está bem. — Afirma Ink, e Pat revira os olhos.

— Eu estou bem! — Sussurra com uma voz arranhada, impaciente.

— Pat, a gente está do seu lado, ok? Eu não posso imaginar como deve estar sendo difícil para você. — Pa o conforta, de verdade dessa vez. E elas não têm mesmo como imaginar, pensa Pat.

— Claro, você e Ink não se desgrudam. — Ele brinca mostrando a língua. Pa empurra a testa do irmão com a ponta dos dedos, sem paciência, e ele apoia as mãos na cama.

— Só toma cuidado para não reprimir todos os sentimentos e ficar igual nosso pai. — Diz e faz uma careta fofa mostrando a língua para amenizar o peso de sua fala. Ela está realmente preocupada com ele. Ink aperta suas bochechas, a distraindo.

— oey! — Pat se joga novamente para trás e coloca um travesseiro no rosto — Eu só queria um pouco de paz no meu quarto!

— Enquanto eu estiver nessa casa você não terá um pingo de paz!

Ink começa a fazer cócegas nele, enquanto Pa segura suas pernas, que se debatem, e Pat volta a sorrir como havia sorrido antes de encontrar o pai. A brincadeira entre os três se estende pelos corredores da casa, levando um sorriso de alívio até o rosto de Kaew, que pensa no almoço de amanhã, com a esperança de que o filho volte a aparecer para visitar. O alarme no celular de Pat toca, anunciando a hora de voltar para o trabalho.

Ele se despede de todos, assim como no dia anterior, enquanto passa o cadeado na garagem, e começa a ouvir uns sons de água batendo sobre o piso, acompanhados de pequenos gritos desordenados vindos do lote vizinho.

*

Dissaya tenta com muita dificuldade pegar a mangueira de jato de água, que está solta no jardim. Ela foge enquanto arranja uma maneira de capturá-la, e parece, aos olhos de Pat, que essa atividade já leva um certo tempo dado o estado de suas roupas. Ele passa correndo através do portão automático — que já estava aberto — e procura o registro.

— Quebrou! — Dissaya clama em desespero. — Tem que fechar o geral, mas é muito alto. Eu não alcanço!

— Onde fica? — Pat olha em volta, desnorteado, por estar onde está e por tentar, assim como Dissaya, fugir dos jatos molhados.

— Ali! Ali!

Ela grita e aponta para o topo do muro com uma mão, enquanto se protege dos ataques da mangueira com a outra. Pat se volta imediatamente para a parede alta que divide sua casa da casa de Pran, e vê flores lindas brotando nos enormes arbustos que o rodeiam; vê, também, toda a sua extensão preenchida com hera japonesa, que esconde o concreto e, certamente, o registro.

— Não consigo ver. — Ele está agitado e completamente molhado, pois Dissaya tentou pegar a mangueira desde a origem da torneira, mas acabou direcionando o jato de água para Pat.

— Fica ali do lado daquela flor amarela!

Pat calcula, por meio segundo, os obstáculos à sua frente e simplesmente entra nos arbustos, estende o braço até o registro com muita facilidade — e espinhos nas pernas —, e o fecha. Dissaya recupera o folego, apoia uma mão na cintura e leva a outra ao rosto, até região dos olhos. Do mesmo jeito que Pran faz quando o pirraço, Pat notou.

— Shia! — Dissaya esquece que seus dedos estavam sujos de terra, até que sente os olhos arderem.

Pat rapidamente dá apoio a ela em seu braço e a guia para dentro da residência. De repente, ele está na casa de Pran e não sabe como permanece em pé. Ele olha para aquela sala, deslumbrado — no real sentido da palavra — como quem se deixa ingenuamente fascinar por algo que lhe falta. Ele pensa que estava com sua família agora há pouco, e menos de dois minutos depois, está completamente encharcado e com pedaços de pétalas amarelas e folhas verdes grudadas em sua calça. E dentro da casa de Pran. E ele entrou pela porta da frente. Veja, Pran, estou em sua casa, pensa enquanto deseja que Pran estivesse ali.

Dissaya pede que ele a leve até a cozinha para pegar o soro fisiológico. Deixa comigo, diz e a deixa parada na sala, vai até a geladeira e volta com o soro na mão. A guia até o banheiro social da casa e abre a torneira para que ela lave os olhos. Ela agradece.

Ele sai às pressas do banheiro, sobe as escadas em passos largos, e demora alguns segundos até que Dissaya volte a ouvir os mesmos passos fazendo o caminho contrário. Ela consegue, enfim, abrir os olhos e se depara com Pat segurando uma toalha e uma caixinha transparente com algodão. Ela o olha por um momento antes de pegar os itens que Pat buscou e nota que ele está trêmulo, bagunçado e com olhos arregalados.

Pat estava tão perplexo em ter entrado naquela casa pela porta da frente e mais preocupado ainda com a visão dela, que não se lembrou que ele não deveria saber onde encontrar toalhas, ou a caixa de algodão do Pran com tanta rapidez e agilidade, a não ser que já tivesse ido lá outras vezes. E ele sabe que foram várias vezes e por vários anos seguidos. Pat estende a mão, entregando a toalha para ela e apoia a caixinha de algodão na bancada do banheiro.

— Sra. Dissaya me desculpe por entrar sem permissão. Eu queria ajudar e... Fiquei tão preocupado que... Eu imaginei que ess–

Pat fala rápido e nervoso, enquanto Dissaya segura a toalha que ele esqueceu de largar por completo. Ela o assiste se perder em argumentos, coloca sua mão na dele — que está agarrada firmemente na outra extremidade da toalha —, sustenta seu olhar no do rapaz para que entenda, e diz:

— Pat, eu sei.

Ela assume com um sorriso contido, mas sincero, e em seu olhar, a culpa é evidente. Pat solta e a toalha como se levasse um choque elétrico. Ele desvia imediatamente dos olhos atentos que o observam, um tanto confuso, mas assente.

— Preciso ir. — Diz e se apressa pelo mesmo portão que entrou. Abre o carro e da partida sem olhar para trás.

Pat se lembra que está ensopado apenas quando chega no galpão da loja. Pega o celular para falar com Pran, mas ele não atende à ligação. Pat nota inúmeras mensagens de texto não lidas, com todos os xingamentos existentes nessa vida. Pran se atrasou para o trabalho por conta da dinâmica da noite passada. Deve estar chateado comigo. E com razão. Mas não me arrependo, diz para si com um semblante orgulhoso, ainda ofegante.

E com as mãos se demorando no volante e um sorriso — de esperança e confusão — no rosto pelo que aconteceu minutos atrás, admite para si:

— Pran tinha razão. Eu tinha razão. — Fecha os olhos, agita a cabeça para se despertar do cansaço e da revelação, e repete três vezes: — Um dia a mais é um dia a menos. Vamos Pat!

*