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Cinzentos. Amargos.
A vida era algo como aquela cor deprimente, sem vida, sem brilho. Também era amarga, talvez como algum legume comumente odiado pelo seu gosto. Às vezes sem nenhuma chance de melhora, ou quando existente, está muito longe do alcance de alguém que luta pela vontade de viver todos os dias. Todas as noites. Todos os segundos.
Mello sequer lhe poderia dizer se apenas esperava pelo sopro frio da morte o levar, ou se sua mente ainda lutava para sobreviver e permanecer naquele mundo amargo. Quando caminhava, não sentia vivo o suficiente para sentir que estava andando por conta própria, mas estava vivo. Algo permanecia ali, mesmo que as noites mal dormidas ou a péssima alimentação fizessem de tudo para levá-lo. Quando olhava pela janela, observava fixamente o cinza no céu, talvez tivesse aceitado que as coisas permaneceriam daquele jeito. Talvez, esperasse profundamente que um raio de sol brilhasse na imensidão de tristeza, dor e angústia para consertar tudo. Como o carinho de uma mãe ao dizer que tudo ficaria bem, porque era forte.
Não teve o carinho da mãe ao crescer em uma instituição para jovens superdotados. Possivelmente um nome um tanto carinhoso para o orfanato. Mas apenas de saber que aquela sensação calorosa existia o fazia desejar poder tê-la. Chegar em casa e ganhar um bom cafuné, um chocolate quente nos dias frios e um doce “eu te amo”, isso tudo fazia parte de um pensamento juvenil de alguém que sequer conheceu os pais. Para isso, Matt estaria ali. Porque se em algo era bom, era em ser amigo dele. Os anos se passavam na instituição, mas a amizade entre os dois garotos persistia, quando Mello decidiu ir embora, Matt estava junto para ir também. Jamais existiria um Mello sem um Matt.
Deixar Winchester para ir para Los Angeles, uma das grandes decisões da vida de Mello. Não viveria debaixo de sombras, ou permaneceria no segundo lugar. Agora se encontrava ali, na cidade em que à poucos anos transformava num verdadeiro caos, sem aquele mesmo poder de antes. Talvez desejasse voltar a apostar rachas pela cidade como fazia antes, quem sabe o vento maravilhoso do carro a mais de 180 quilômetros por hora trouxesse aquilo que foi um dia de volta. Mas sabia que não teria mais graça, afinal, nada mais tinha graça. Era só muito... Cinza.
Quando parava muito para pensar, percebia que aquele raio de sol talvez fosse Matt. Definitivamente aquele ruivo era a imensidão do sol, em toda a sua loucura porque claro, se existia alguém mais louco que Mello, este era Matt. Quando apostavam corrida com mafiosos idiotas, com toda a certeza ele estaria no banco do passageiro gritando algumas palavras tão obscenas que jamais poderiam ser repetidas. Quando seus incentivos faziam com que a adrenalina corresse ainda mais por suas veias e pisasse com tudo no acelerador. No fim, sempre o teria para o parabenizar. Matt era a loucura, era o sol, talvez nos momentos mais estressantes a pura arrogância. Mas no fim ele sempre seria o sinônimo de amor, como o pôr do sol em uma região litorânea.
Mello sempre definiria o sentimento que tinha por Matt como o pôr do sol, porque este sempre o lembraria. Em todos os pores do sol que pudesse ver, sempre teria na mente a imagem daquele tão admirável quanto. Porque o pôr do sol era como o amor, e este sempre presenciou o amor daqueles dois. Com toda a certeza do mundo, as melhores memórias seriam dos pores do sol encostado em grades, enquanto demonstrava tudo o que sentia em beijos. Aqueles tão apaixonados, também como os que trocavam em algum beco escuro no meio da noite. Mas sim, Mello escolheria os dos pores de sol, com toda a certeza do mundo.
Mas aqueles todos, os eu te amo, os beijos trocados em um pôr do sol em Los Angeles não estavam sendo capazes de amenizar o cinza de Mello. Não importava se Matt o dissesse que sempre voltaria ao pôr do sol. Aquele mundo ainda era cinza demais, e queria não deixar com que o raio de sol fizesse seu trabalho. Não queria que o bom salvasse sua alma de ser consumida em tristeza e amargura e isso matava o homem por dentro, cada dia mais. Assim, parecia que a vontade de viver queria desistir, visto não ter mais forças para suportar. Apesar de estar ali. E estar ali já era um grande sinal, apesar de tudo.
Se Matt o encontrasse naquele estado, com toda a certeza levaria uma grande bronca. Demorou para se acostumar com a preocupação vinda dele, visto todo o perigo em que viviam e tanto adoravam. Mas Matt era o amor, então ele apenas queria que Mello não se encontrasse no fundo do poço, assim viveriam insanamente pelas ruas. Aproveitando as noites de rachas e bebidas tão quanto aproveitavam as grades, ou talvez os becos. Viver, era isso que Matt tanto amava, e estar no limite dela era extremamente excitante. Se completavam um pouco naquilo, porque ambos eram o limite. Da loucura, da insanidade, da inconsequência e do amor. Da paixão que sempre nutriram um pelo outro.
Mas viver assim não valeu a pena, se parasse bem para pensar. Nunca iria valer se apenas Mello estivesse vivo agora.
Evitava muito se pegar pensando no que não deveria ter feito. Era ainda muito doloroso, viver machucava porque apenas não conseguia parar de pensar. Quando Matt levou aquele tiro, Mello jurou sentir aquela sua vontade de viver sumindo. Se apagando lentamente a cada segundo conforme Matt perdia seus sinais vitais. Não soube como restou algo quando a imagem daquele que tanto amou indo embora passava bem em frente aos seus olhos. Era tudo cinza então. Ouviu muito dizer que sempre que o sol se pusesse, Matt sempre voltaria para Mello, mas então, o pôr do sol tinha começado. No momento que o corpo dele caía com força no chão. Matt voltaria no pôr do sol, mas, tinha ido embora num dos mais belos momentos do dia.
O pôr do sol daquele dia tinha acabado de passar, mesmo que um tanto encoberto pelas nuvens cinzentas e pesadas, e Mello estava caminhando pelas ruas. Com um casaco pesado, tão quanto as nuvens, ou até mesmo sua mente. Ao menos, naquele momento queria tentar não pensar, porque pensar doía. Mas era uma perca de tempo, sabia que Matt estaria presente no mínimo. Até mesmo a fumaça dos carros e caminhões o lembra do cheiro do cigarro que ele fumava ao seu lado, em pores de sol como aquele, que estavam acabando e marcava o início de mais uma noite para ser viver intensamente, até mesmo apenas uma volta para casa. Mello se cansou. Não de viver, não ainda. Apenas se cansou de andar, porque o destino era realmente engraçado. Se encontrava encostado em um muro sujo, em sua frente grades que muitos pirralhos pulavam, ou até mesmo criminosos que fugiam da polícia. O cinza sumiu, talvez momentaneamente, mas era algo. Ali o sol iluminava, como fazia em todos os momentos que amou Matt em grades com aquela. Poderia se ver ali, mas não via.
Ali somente existia Matt, acenando docemente para si. Talvez cumprindo sua promessa de que voltaria assim que o sol se pusesse. Porque ele era bom em promessas, e em cumpri-las também. Talvez fosse bom, Mello agora não passaria de um corpo indigente em um beco, talvez um drogado aos olhos da sociedade. Já que sem um Matt não existe um Mello, e sem um Matt e um Mello os pores do sol nunca seriam os mesmos, tinham a obrigação de viver o sempre naqueles finais de dia, em grades. Em qualquer canto de Los Angeles que pudesse presenciar o amor.
