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Demian

Summary:

[ Versão alternativa de PETER PAN ; Personagem novo/original.]

Work Text:

Demian o deitou na grama, 

encarando o fundo de um olhar cheio com confiança,

e pôde sentir seu próprio coração tocar o dele. 

Cachos louros pendiam ao redor de seu rosto ,

 olhos glaciais ostentavam um brilho majestoso e quente, o 

peito clamando por uma vontade arrebatadora que estendia-se

diante dele ; tudo que fazia era olhá-lo.

Inconsciente, os lábios entreabertos faziam 

um convite. O barulho de galhos, pássaros ,sussurros de sereias

 e a brisa compunham o plano de fundo de uma realidade que mais se passava por sonho.

Joe repousava diante dele como uma pintura. 

Um sonho longínquo ; delirante de um poeta que perdeu a sanidade por

uma musa indomável e a transformou em

pura arte.

Boca seca demais, 

batalhando arduamente contra a penosa necessidade 

por um oásis que pairava diante de si, Demian inclinou-se mais perto.

Sua atenção oscilava : Hora nos olhos, hora nos lábios carmesim que o seduziam

pelo simples fato de existirem. 

Queria que o tempo parasse e que deixasse apenas eles existirem. 

Queria que Joe não tivesse mais com o que

se preocupar. Pegava-se sendo um egoísta perverso

que o queria apenas para si.

Se não fosse a vida alternativa de seu amante,

no mundo além da Terra do Nunca, eles ficariam juntos para 

sempre.

Só eles. Apenas eles.

Se amavam. Não tinha dúvidas quanto àquilo.

Tanto que transbordava.

Sem tirar os olhos dele, sem dizer uma palavra,

chorou que não fosse embora.

‘’Por favor.’’, quis dizer.’’Fique.’’, quis implorar. 

Só que não podia.

Bastava pouco para que uma conversa como aquelas

se transformasse em gritos e acusações sem fundamentos.

Preferia ,assim como Joe, manter o que era belo. ; Ignorar o que não era.

O sol recaia morno em suas costas , com raios atravessando 

seus cabelos para fazer as mechas louras brilharem como fogo puro,

mas a sombra em seu rosto era boa o suficiente para tornar

confortável a visão.

Existia amor. ; Compreensão. ; Clemência.

Joe tocou seus cabelos. Sorriu como se estivesse fascinado e

logo desviou os olhos antes de soltar um tímido ‘’ Você é o Sol’’ em

sua direção.

Demian sorriu de volta antes de beijá-lo com ternura na têmpora,

a cachoeira caindo ruidosamente ali perto.

Queria fazer mais que isso.

Ouviu Joe suspirou para o carinho, comovido. ; Ele era a sombra.

Um sombra melancólica e bela que tinha ciência que não existia

sem o Sol.

 Uma selvaria antinatural no peito de Joe

peito concordava,

seu rosto queimava e o suor em sua nuca antecipava.

Uma ansiedade o fez perder o ar, uma tensão o prendeu

no fundo de sua garganta e ele quis sufocar.

Sua mão corajosa ousou encostar o rosto angelical que pairava

acima. Esfregou a pele em uma delicadeza cuidadosa de quem

não ousa precipitar diante de algo tão valioso

e quis chorar.

Diante de seus olhos, erguia-se um deus.

Seu deus precioso.

Para adorar e venerar com toda a sua alma. ; De entregar a ele

seu coração, suas crenças, seus segredos.

Um deus que era capaz de pavimentar seu futuro com rosas

ou terra seca. Que na presença o enchia ; Na ausência, o matava.

Se Demian soubesse o quanto era amado, o 

quanto era querido e estimado, seria diferente?

Se Joe pudesse arrancar seu coração do próprio peito ,

revelar seus pensamentos, ímpetos ,como um segredo, 

Demian iria embora com ele?

Acharia o suficiente?

‘’Existe uma Terra do Nunca sem mim para você, meu Sol?’’

Tinha Demian a consciência que a adrenalina que sentiu

por todo esse tempo ,as mariposas em seu estômago, 

nunca foi fruto do medo ou excitação de um jovem bem disciplinado 

quebrando as regras?

Sabia Demian que eram sempre os seus sorrisos, 

 , cuidado, proteção e

a paixão em cada toque que o 

faziam querer explodir e renascer?  

‘’Querido, você sabe?’’ 

Como quem entende, uma curva esforçada surgiu

no lindo rosto de seu anjo.

Mas seria mesmo Demian um anjo? Não seria ele

um demônio perverso que o levaria direto para sua própria

perdição? Não seria a própria existência dele um pecado?

Oh, estava perdido se fosse o caso!

Sentiu uma mão gentil deslizar afetuosamente por cima de sua coxa macia

, roçando  o suficiente para que a penugem fina arrepiasse, 

e levantou os olhos para encontrar um olhar 

penetrante o estudando.

Demian o agarrou firme no quadril em um gesto que 

significava reivindicação, posse e ,por fim,

‘’Fique’’. 

Não insistiria de uma

maneira convencional, pois sabia que era inútil. Em vez disso,

lutaria de outro meio porque

,no fundo, ainda tinha esperanças que Joe desistisse

de mundo dele e vivesse no seu.

 Muito mais íntimo que os toques ousados, que o arrepiar,

que o calor, que o indecente, Joe o fazia vulnerável. 

Tudo sobre ele era fascinante : Sua pele escura ,

os  olhos pretos e brilhantes de formatos felinos,

 seu cabelo sempre tão bagunçado e macio, 

seu sorriso ingênuo de uma gentileza cômica que não era

poupada nem com piratas

que arrancam olhos por tesouros,

sua prudência , sua capacidade de 

conseguir ser atencioso e compreensivo em seus shorts 

esquisitos na altura das coxas,

 suas meias longas, sua estúpida

gravata borboleta, tudo.

Absolutamente tudo.

Tudo parecia novo a cada momento que o olhava.

O fascinava. De novo, de novo e de novo...

Joe não percebia que o venerava ?

Que nunca, em uma vida imortal, quebraria seu

coração uma vez sequer? 

Que ,no lugar de entidades mágicas, era nele que Demian

encontrava salvação?

Joe deixá-lo não era justo.

Não quando já era tão tarde para reivindicar seu

coração.

Era como se permitir cair de um 

penhasco muito alto com um sentimento sombrio de

resignação, e ter que se forçar a lembrar de voar quando

estivesse chegando perto demais das pedras.

Se não queria ficar com ele até o fim, porque

Joe lhe deu tanta esperança ?

Por que ficou quieto até o fim?

Por que, de repente, não era mais suficiente? 

Demian tentou entender. Quebrou sua cabeça

e coração incontáveis vezes, lutando arduamente contra

o rancor ,a raiva, a angústia e ,por fim,

um coração despedação. 

O amava a esse ponto.

Ao ponto de sacrificar sua sanidade 

e aceitar o oco que ficou no lugar

de um órgão que não era mais seu com um sorriso aberto.

Uma parte dele, essa consciênte, 

reconhecia que mesma frustração que sentia agora,

Joe também passava por ela.

E talvez tenha sido isso, essa consideração atenciosa que lhe era

nova, que o tenha feito aceitar tudo

de bico calado.

Demian não desistiria da Terra do Nunca

pelo mundo de Joe.

Nesse ponto, os egoísmos deles eram gêmeos.

Eram tão terrivelmente parecidos, tão 

teimosos, que chegava a ser apaixonante.

Ainda assim, por que sentia-se tão triste?

O ter era o suficiente.

Ele teve Joe. Joe foi dele.

O moreno o lançou um sorriso triste e não precisou muito para

que um beijo os juntasse no processo.

Suas respirações podiam ser uma só.

Os mundos não. 

Demian não desistiria de suas lutas com

piratas, suas caças a tesouros, suas diversões

de dias à fio, recheadas de 

brigas em tavernas e viagens com sereias

nada confiáveis,

para tornar-se um advogado comum

em um mundo onde tudo o seria 

demasiadamente novo.

Joe ,por outro lado, não desistiria de seu futuro

planejado, antecipado por anos, para viver

em uma realidade que conheceu de uma

hora para outra.

Demian era forte, era brilhante, conhecia

a Terra do Nunca como ninguém, tinha laços,

tinha reputação, admiradores e parecia saber o 

que fazer e dizer sempre. 

Mesmo o insigne Peter Pan,

de quem Joe tanto ouviu falar em histórias de dormir

e achava tratar-se apenas de uma fantasia de 

criança, se curvava como em respeito a um ‘’irmão mais velho’’

nas raras vezes que o loiro decidia dar as caras. 

Demian tinha tudo. 

 Era necessário naquele mundo de um

jeito que Joe não era. E manteria-se necessário até

o fim da vida.

Joe era estudado,

estava empenhado em conseguir um cargo maior 

em sua ocupação em Londres,

passou sua vida cultivando boas relações, 

bons amigos, que

 o impulsionariam seu futuro e fez planos. 

Desistir de tudo para

viver em um mundo com alguém que conheceu recentemente 

não era um deles.

E doía pensar naquilo. Doía porque Demian

se esforçava muito por ele e o amava como nenhum outro

jamais fez.

No começo, talvez tenha se atraído pela Terra do Nunca.

Talvez, tenha acreditado que apenas um louco

 trocaria um mundo com sereias, 

fadas e mistérios pela vida monótona 

e acelerada de Londres, só

que ,aos poucos, sua estadia

por lá foi perdendo o propósito. 

Que servia seus atributos por lá ? Seus conhecimentos,

sua gerência, tudo que se esforçou? Que adiantava?

 Não era necessário por lá. Era motivo de troça pelos

piratas nas tavernas, de comentários maldosos de sereias

invejosas, de pó mágico soprado na cara em puro desdém por Pixie.

Nunca gostou de participar de lutas. ; Conversas e acordos

 com piratas o assustavam. ; As sereias o odiavam por

sentirem estarem sendo trocadas e, por causa disso, 

mal conseguia mais admirá-las com a mesma impressão 

de antes. ; Pixie disputava a atenção de Demian

com ele todos os dias e vivia lhe pregando peças

desagradáveis. Depois de um tempo,

foi ficando exaustivo.

Demian até pudesse ser um motivo bom

o suficiente para permanecer, só que, ainda assim, 

não era forte o suficiente.

Tinha medo que o romance ,assim como em 

seu mundo, acabasse e a solidão o

deixasse à deriva no final.

Ademais, não podia assumir a culpa sozinho.

Demian não trocaria nada daquilo por

 Londres. Consequentemente, 

também não trocaria nada por ele.

Ambos estavam se mordendo,

furiosos, mas exatamente pelos mesmos motivos, usando

os mesmos meios… as mesmas justificativas. 

Ah, se o tempo na Terra do Nunca fizesse sentido!

Se não fosse tão caótico e diferente!

Se o tempo não passasse rápido demais!

Por quanto tempo esteve fora? 

Pareceu tão pouco!

Em sua cabeça, foram apenas poucos dias, mas Demian o contou 

certo dia que já se passaram três meses! 

Três meses!

Como estava sua mãe? Estaria preocupada?

Oh, claro que estaria! Que horrível!

Horrível!

Pensava ela que ele fora vítima de um sequestro? 

Do cruel matador em série das notícias do jornal

matinal? 

Ah, que horrível! Horrível!

Como foi egoísta!

Precisava voltar para casa.

Agora, mais que nunca!

Demian disse que entendia, o encorajou, mas Joe percebia que

 a expressão dele contava uma história diferente.

Demian estava infeliz. Esteve infeliz desde 

a última discussão que tiveram.

No presente, com Demian por cima, o beijando tão

apaixonadamente com aquele significado profundo de perda,

tudo que Joe pôde fazer foi abraçá-lo com força.

‘’Me visite algum dia’’, pediu entre beijos.

Sabia o quanto Demian detestava precisar ir ao outro mundo, mas

não conseguiu segurar.

Esperava reencontrá-lo algum dia. 

Queria isso com todo seu coração.

Mesmo que tivesse que esperar por anos,

assim o faria. Bastaria que 

ele voltasse para reencontrá-lo.

Em acordo, o loiro deu um aceno com a cabeça 

sem parar de beijá-lo e acariciá-lo.

Somente quando esquentou mais, os avanços foram cessados

e postos no limite.

Demian parou o beijo em certo momento, 

 olhou ao redor com a astúcia de um coelho e afiou os olhos 

para qualquer barulho ou sinal de enxeridos bisbilhotando , o que

Joe descobriu ser mais comum do que

 poderia imaginar.

O moreno plantou os cotovelos no chão quando viu Demian

ficar de joelho com um semblante concentrado 

portando uma pedra redonda e grossa em uma das mãos.

O loiro a ergueu no ar, ganhando mira e impulso

com cautela, e arremessou com força desmedida na outra direção.

Joe acompanhou o movimento ,intrigado,

até que escutou um ‘’Ai!’’ dolorido saindo de trás de uma pedra grande 

na entrada da mata densa e sentiu-se corar.

‘’Então, realmente, tinha alguém assistindo.’’

Demian ainda continuava olhando ao redor, impávido.

Tinha o rosto fechado em puro desagrado quando disse :

‘’Se vocês, garotas, não forem embora, vou cortar a cauda de vocês

e fazer um banquete.’’

No mesmo segundo, barulhos na água entregaram que estava certo.

Demian averiguou mais uma vez e logo estalou a

 língua no céu da boca, aborrecido. Havia desistido.

Voltou-se a Joe, sem aviso prévio erguendo-o do chão 

pelo quadril com autoridade e o instruiu que

se segurasse bem, pronto para tirá-los dali.

Antes de tirá-los do chão para levá-los a um lugar mais

reservado, bufou uma risada breve para o estalo carinhoso que levou

no seu pescoço e as mãos firmes o agarrando com paixão.

Pareceu estar esperando que Joe o dissesse alguma coisa,

só que o moreno não soube o que dizer. 

Unicamente tornou a beijá-lo, dessa vez na bochecha

com uma intensidade calorosa, de afeto

e simultânea necessidade.

‘’Eu sei’’, Demian murmurou, compreendendo seu coração. ‘’Eu também.’’

E voaram.