Work Text:
Contrariando todas as leis do universo, Ranmaru quem acordara mais cedo naquele dia. Extremamente ansioso para a viagem que faria para o interior mineiro.
Felizmente, a viagem seria feita de ônibus, com uma caravana, e Reiji, seu companheiro, não teria que dirigir por horas logo cedo.
O mais velho tinha o sono muito leve, mas foi impressionante como ele adormeceu, em um piscar de olhos, assim que sentou (caiu) na poltrona, talvez o ombro de Ranmaru fosse um bom travesseiro.
Como precaução, Kurosaki carregava consigo um lencinho de poá, bem bonitinho, porque o outro era um babador profissional do sono, e ele não queria pagar para ver uma mancha em seu casaco novo.
— Nem pense... — colocou o paninho embaixo da bochecha de Reiji, com o maior cuidado para não acordá-lo.
Um pouco mais de três horas para chegar, Ranmaru decidiu deixar o celular de lado e cochilar também, e sonhou com bananas... Todas as delícias que comeria mais tarde.
— Ran-Ran! — ouviu baixinho.
E quando virou, Reiji aparecera vestido como uma banana descascada, a casca era como uma sainha que balançava com o movimento do homem. Estava mais para um pesadelo, mas Ranmaru não podia distinguir a realidade.
— Me coma, Ran-Ran!!
— AAAAA! — ele abriu os olhos de repente, ofegante, mas o que diabos era aquilo?
— Ran-Ran, o que houve? — Reiji perguntou, voltando para o assento. Meia hora para o destino e o ônibus tinha feito uma última parada a pedido de alguns passageiros.
Ranmaru ficou estático, esperando o mais velho magicamente se transformar naquele ser perturbador, mas nada aconteceu. Ah, a boa e velha realidade...
— Só um sonho... Ruim... — era um homem de poucas palavras, e se Reiji estivesse esperando uma dissertação sobre os motivos, não a teria, para sua infelicidade.
Mas ele aprendeu a lidar com isso, a aproveitar as vezes que Kurosaki se mostrava mais receptivo e falante, como quando visitaram o Rock in Rio; também apreciava o silêncio que foi o festival de outono. Todos os momentos eram preciosos quando estavam juntos, não importava muito.
— Tuuudo bem! Eu comprei chips, você quer? — Reiji já estava abrindo o pacote de batatinhas e mandando ver, Ranmaru apenas assentiu, pegando algumas.
— Esses lugares são caros pra um caralho. — comentou, como uma indireta para a placa do Graal que ficava cada vez mais distante.
— Você acha que sou tapado, mas eu não sou tão assim... Esses eu trouxe de casa, eu comprei sim, mas não agora. — o moreno deu uma resposta natural, como se já esperasse aquele comentário. — Eu olhei aqui, e um pacote ainda menor, custa praticamente cinco lá no mercado da esquina. Absurdo!
Ranmaru olhou para Reiji, chocado, ele virou o jogo e fez ele ser o tapado?!
Você disse que me amava, seu falso! – pensou, ofendido com a reviravolta.
Sem mais interrupções, o ônibus parou na entrada da pousada, também alugada pela mesma empresa. Era hora do almoço e algumas pessoas iriam descansar antes de curtir o festival, que rolava o dia inteiro, e o retorno aconteceria na manhã seguinte.
À noite haveria outras atrações, como música ao vivo e brinquedos infláveis, mas não eram elas que chamavam a atenção da dupla. A gastronomia dali utilizava muitas bananas – a fruta sagrada e perfeita – logo, não poderia perder aquela oportunidade.
De dia era muito mais calmo e as barraquinhas de comida dominavam o espaço, ou seja, o paraíso para Ranmaru. Depois de guardar as mochilas no quarto, tomar um banho e pegar a câmera, os dois seguiram para a rua do festival, localizada a dois quarteirões de onde estavam.
Numa curta distância, era possível observar a decoração local, que utilizava bananeiras artificiais. Sem desperdício.
— Olha aquela ali, que bananeirona! — Reiji correu saltitante para uma delas, posando para a foto.
O homem tinha uma das mãos sobre a boca, exageradamente surpreso, enquanto a outra tocava as bananas. Ranmaru sorriu quase imperceptível, pedindo para que o modelo Reiji fizesse poses mais normais.
Andando um pouco mais, o estômago do mais novo roncou alto com o cheiro vindo da primeira barraquinha, a placa indicava que ali eram vendidas comidas salgadas com alguns exemplos; torta, nhoque, tartare e até um tal de bife de banana, que foi o que mais chamou atenção. Ranmaru não era vegetariano, mas poderia pensar no assunto caso fosse bom, afinal, estamos falando de bife.
Havia uma pequena fila, cerca de cinco pessoas na frente, muitos almoçavam a própria comida do local em vez de procurar um restaurante.
— Ron-Ron, faz a barriguinha do Ran-Ran! — Reiji cantarolou enquanto esperavam, a cada barulho ele cutucava o lugar e observava a reação de Ranmaru, que não estava gostando muito.
— Eu vou te empurrar e rir do seu tombo. — ameaçou sério, sentindo as mãos do outro rapidamente saírem de seu abdômen.
Kotobuki choramingou no meio de uma risada, abraçando forte o corpo do mais alto para não cair, surpreendentemente sendo abraçado de volta.
Quando chegou a vez deles, Ranmaru tomou a frente para fazer o pedido, estava juntando dinheiro há muito tempo para aquele evento e ambos queriam experimentar de tudo. Tinham até um roteiro programado: fingir que estavam em um programa de culinária, como jurados, e avaliar os diversos usos da banana.
— Obrigado. — pegou o pratinho após pagar e se virou para caçar um lugar para sentar e comer.
Só depois de acomodado em uma mesa vazia, percebeu que Reiji não o seguiu. Estranhou sim, o caminho até ali foi quieto, mas não esperava perder o companheiro tão de repente.
Com o coração acelerado e uma gota de suor descendo pela testa, olhava para todos os lados, respirou fundo, tentando ficar calmo. Reiji era um adulto, iria saber o que fazer, ele sempre sabia…
Quando estava com o garfinho pronto para abocanhar o primeiro pedaço do bife, uma figura pulou na sua frente gritando "HAAA", um ataque surpresa. Quase que a comida caiu.
Mas que m-
— Já comendo sem mim? Me dê um pouquinho! — abriu a boca, esperando o aviãozinho que não decolou.
Ficaram se encarando por algum tempo até Ranmaru desviar o olhar para sua comida.
— Hummm — Reiji sorriu, observando a falta de resposta. Conseguia ver a preocupação em seus olhos, mesmo que estivesse tentando se fazer de difícil, e quem melhor para amolecer aquele coraçãozinho com suas técnicas de fofura especiais? — Me desculpa, Ran-Ran, uma criança doida correndo esbarrou em mim, e quando retornei a realidade, você já tinha sumido, eu estava procurando essa sua cabeça branca!
Antes que o mal humorado dissesse algo, Reiji sentou na outra cadeira e beijou a bochecha dele, em seguida nos lábios.
— Meu emburradinho.
— Qual você quer primeiro? — Ranmaru ignorou o apelido, pegando novamente o garfo para alimentar o outro.
Enquanto comia, ouvia Reiji contar detalhes sobre a criança doida e seu momento perdido, o drama de não encontrar o amado na multidão, pensando que fora abandonado cruelmente. Às vezes ele aumentava um pouco os fatos, só um pouco.
A próxima parada era para a sobremesa, como sorvete, bombom, pavê… E novamente, pediram uma pequena porção de cada doce disponível.
Era a vez de Reiji pagar, ele estava em sua "formiga era" ultimamente, portanto o acordo era que as despesas com isso fossem todas dele.
— Esse bolinho de chuva é tão bom! — Ranmaru tinha uma expressão muito feliz, satisfeito com tudo.
Era quase impossível imaginar que ele podia ter essa expressão, era super rara. Por isso, Kotobuki rapidamente pegou a câmera e o fotografou, sorrindo com o xingamento que veio a seguir.
— Eu sei que você tira muitas fotos minhas quando estou distraído, nada mais justo que fazer também! — Reiji argumentou, olhando a galeria, e outro não teve como refutar. — Mas eu prefiro olhar para você assim, pertinho de mim.
Outra super rara, Ranmaru envergonhado. Normalmente ele lidava com isso com agressividade, mas estava tímido e vermelho.
— É p-porque… Às vezes, você é fofo.
— Tem muitas fotos aqui… — quanto mais passava as fotos, mais podia vê-lo. — Só às vezes, né…
— Termina de comer, temos outras coisas para fazer. — tirou o aparelho das mãos dele e pendurou no próprio pescoço.
No final, foi difícil, mas conseguiram fazer o ranking dos melhores pratos do dia, pois não havia piores. Mesmo que a banana fosse perfeita por si só, ela podia ter muitas outras formas e nuances.
Passaram cerca de duas horas na feirinha e, além de comer, visitaram as barraquinhas de artesanato. A maioria das peças eram feitas com a fibra da bananeira, talvez, em outra oportunidade, eles iriam comprar alguns para decorar a casa.
Ao lado de uma das barracas, no final da rua, uma adolescente distribuía algo para quem estava indo embora, e olhando mais de perto, Reiji notou que eram florzinhas, também de fibra e pintadas nas mais variadas cores.
— Muito obrigada por nos visitar! — ela disse quando ele se aproximou, pegou a flor rosa e o entregou.
— Obrigado! — sorriu para ela e voltou correndo para Ranmaru, todo sorridente. — Olha Ran-Ran, tem até flor com bananeira.
O mais novo sorriu também, pegando da mão dele ao ter uma ideia. Colocou uma mecha do cabelo de Reiji atrás da orelha e ajeitou a florzinha lá, demorando um pouco mais no carinho sobre a bochecha dele.
— Fofo. — foi a única coisa que Ranmaru disse, esperando algum tipo de reação exagerada.
— Assim meu pobre coraçãozinho não aguenta… — se equilibrou na ponta dos pés, beijando a ponta do nariz dele.
— Reiji. — disse com seriedade, tendo a atenção do mesmo. — Eu pensei bastante, sabe, muito mesmo antes de tomar essa decisão, e ainda não cheguei ao nível brega de me ajoelhar para você em público, e eu não estou falando nada com nada, você sabe que eu não sou bom nisso de ficar enchendo linguiça, mas eu queria fazer isso, então… — procurou no bolso da calça um par de correntinhas, com pingentes de uma banana e um donut.
Reiji ficaria com o pingente de banana, e Ranmaru com o donut. Era extremamente brega, mas combinava com eles, e é tudo o que importa.
— Isso é… — o rosto dele foi se iluminando gradativamente, entendendo o que Ranmaru queria dizer nas entrelinhas, mas estava muito tímido para fazer. — Ran-Ran! E-eu quero namorar com você! Você é minha bananinha, eu quero te comer todinho!
— Eu não quero mais namorar com você. — se virou e saiu andando.
— Você pode me comer então, eu não ligo! — ele tentou novamente, apenas piorando a situação com alguns olhares chocados de pessoas que passavam por ali.
— Reiji, cala a boca, por favor. — colocou a mão sobre o rosto e correu, o mais velho foi atrás, rindo. Quando chegaram perto da pousada, Ranmaru se virou de repente, prendendo o namorado nos braços. — Eu te amo!
— Eu também te amo, Banan-
Sem dar chance para a provocação, Ranmaru o beijou como nunca antes, depois de tanto tempo choramingando por aquele homem fofo e gostoso, podia chamá-lo de seu namorado.
