Work Text:
Quantico, VA, JAN/2011.
Erin estava ocupada demais na própria sala o dia todo, revisando os últimos relatórios financeiros depois que passou o fim do ano. Hotch voltaria das férias na segunda-feira seguinte, depois de ter passado as últimas semanas do fim de 2010 longe, e mesmo que ela tenha sido obrigada a passar praticamente até o último dia antes do recesso trabalhando, Erin não reclamou e absorveu para ela o que pode do trabalho de Aaron. Ele tinha decidido dar mais atenção ao filho naquele período em que estavam completando um ano da morte de Haley e por esse motivo Erin se esforçou para ser compreensiva. Hotch sabia disso, e agradeceu a ela algumas vezes nesse intervalo. David sabia também, e por várias vezes se esgueirou até a sala dela quando o time estava na cidade, para levar almoço ou para lembrar a ela de comer.
“Você tem que almoçar.”
“Daqui a pouco. Eu estou ocupada com alguns casos recentes de outras unidades, Douglas está me esperando para uma reunião sobre eles ainda hoje…”
“Erin, são quase duas da tarde. O diretor pode esperar uma hora. Você vai parar agora e vai almoçar. Eu não estou perguntando.”
Ela batia o pé, ele brigava com ela, ela fechava a cara, mas ele não estava nem aí e insistia. No último ano desde que eles se reencontraram em LA, exatamente como ela havia pedido, os dois continuaram se vendo. Sempre indo jantar fora, fugindo do escritório dela para comer alguma coisa na hora do almoço, às vezes combinando e saindo para fazer alguns programas longe dali e além disso, e por várias vezes terminando a noite juntos num hotel até de manhã. “É pra manter a tradição e lembrar daqueles dias em LA” Erin sempre argumentava, e David não via outra alternativa senão aceitar. Em segredo, do jeito que ela quisesse, a forma pouco importava… ele só queria que os dois pudessem ficar juntos. E durante vários meses as coisas funcionaram muito bem dessa maneira. Só que desde o aniversário dela (em 14 de Dezembro, ou seja, quase um mês atrás) que os dois não passavam uma noite inteira juntos e, quando conseguiam sair para comer alguma coisa, sempre que a conversa chegava ao ponto crítico os dois acabavam discutindo e se afastando. As coisas estavam esquisitas dessa forma desde o caso envolvendo Stanworth e a investigação que levou à prisão dele depois.
“Vocês não podem acusar um homem sem ter evidência física que comprove o que vocês estão dizendo.”
“Mary Ruthka tinha pele sobre as unhas dela. Ela pode ter deixado marcas, arranhado ele.”
“Você não pode prender um homem com base na POSSIBILIDADE de ele ter um arranhão, eu espero que você saiba disso agente Morgan.”
“Nós não podemos prender esse homem, é isso que você quer dizer. Não precisa disfarçar Erin. O seu problema é porque ele é alguém importante.”
David, que estava atrás de Morgan, chamou a atenção dela quando pronunciou o seu nome pela primeira vez desde que a discussão começou. Morgan estava entre os dois, literal e figurativamente falando, porque ele não fazia ideia do relacionamento que os dois tinham começado desde em Los Angeles. Ninguém do departamento tinha certeza na verdade, ainda que nesse intervalo David tenha deixado escapar vários indícios de que estava envolvido com alguém. Ele só não deixou que soubessem com quem, caso contrário ele podia dar adeus ao relacionamento que tinha! Somente Hotch desconfiava de alguma coisa já, porque geralmente era ele quem dividia o quarto com David durante as viagens do time, e vez por outra flagrava o fim de uma ligação ou algo do gênero. Erin passou por Morgan como se ele não estivesse ali, e o agente se virou para observar a troca que aconteceu logo depois.
“Você não entende o que significa ter que fazer política, entende David? Você nunca entendeu.” “Eu entendo. Eu só não me importo. Eu não me importo a partir do momento em que um burocrata, um senador, quem quer que seja se aproveita do medo que as pessoas têm de partir pra cima dele e acusá-lo só porque ele tem imunidade. É por causa de pessoas como você que pessoas como James Stanworth continuam livres e achando que podem fazer o que quiser.”
“As normas existem por um motivo, agente Rossi. Para que nós façamos as prisões necessárias sem dar chance de que os criminosos escapem logo depois. Assim que não restar dúvida ele vai ser preso, você pode ter certeza disso.”
No instante em que ele disse isso, pelo menos na parte final do comentário, David sabia que tinha cruzado uma linha de onde ele seria incapaz de voltar. Ele viu nos olhos de Erin, que agradeceu o fato de Morgan estar atrás dela e portanto sem poder encará-la, a mágoa e a raiva que ela sentiu ao vê-lo acusar ela dessa forma. E o fato de ela ter usado o cargo e o sobrenome dele entregaram que ele tinha se ferrado, e muito.
Erin estava mais uma vez relembrando a fatídica conversa que causou o racha entre eles, quando foi tirada de seus devaneios pela sua secretária. A única pessoa que sabia exatamente o que estava acontecendo era Jane. Até porque Rossi já havia conquistado a mulher na surdina, para deixá-lo entrar na sala da chefe quando quiser sem chamar a atenção de mais ninguém, ou para ajudá-lo a sair dali da mesma forma. A secretária fez algo até então inédito, que foi entrar na sala de Erin antes mesmo que ela autorizasse.
“Senhora, perdão pela entrada, mas eu fiquei sabendo de algo aqui pelos corredores que a senhora vai querer saber.”
“Você não pode estar seriamente acreditando que eu estou interessada nas fofocas de bastidores desse departamento, Jane. Eu tenho muita coisa a fazer.”
“Tem haver com o time Alpha.”
“O que aconteceu? Eles não estavam envolvidos num caso local nos últimos dias?”
Quando Jane mencionou o time, todos os sentidos de Erin esqueceram o que ela estava fazendo e focaram na secretaria. Jane sabia que ela ia gostar de saber o que ela tinha ouvido Penélope conversar com Kevin enquanto os dois deixavam o prédio do departamento há alguns minutos atrás. Jane estava descendo junto com eles para buscar um lanche rápido no fim da tarde, enquanto os dois desciam para ir embora apressados, e ela ouviu a conversa deles no caminho de elevador até lá embaixo.
“Tem haver com esse caso local. Eles pegaram os dois sociopatas que estavam atingindo e saqueando as lojas de conveniência de postos de gasolina.”
“Eles encerraram o caso? Essa é a fofoca? E qual é o problema nisso?”
“Encerraram. Depois que os dois fizeram algumas pessoas de refém. O negociador tentou fazer com que eles se rendessem, mas os dois acabaram trocando tiros com a polícia e terminaram o dia mortos.”
“Que negociador, Jane? De quem você tá falando?”
“Parece que era o agente Rossi. Os dois bandidos morreram, um policial morreu, e um agente do BAU foi atingido pelos tiros e levado de ambulância pro hospital.”
“Que agente, Jane? QUE AGENTE?”
O pânico dela escalonou muito mais rápido do que ela conseguiu controlar, e Erin já estava de pé e sequer se lembrava de ter levantado. Jane percebeu isso e correu para pegar uma água para ela na mesa de apoio ali do lado antes de continuar.
“Ela não disse o nome. Ela não disse. Eu não sei se ela sabia. Ela só disse que o agente Hotch e o restante do time estavam a caminho do hospital. Ela falou o nome do hospital, calma. Eu anotei ali fora para entregar à senhora.”
Erin tomou a água, pegou o papel, enfiou na bolsa junto com o telefone e saiu sem dizer nada. Para onde ia, que horas voltava, não informou nem mesmo se ela voltava. Ela deixou Jane plantada no meio da sala dela sem explicação alguma. Por todo o caminho até o hospital ela pedia, mesmo sem se lembrar mais como fazia isso, para que ninguém estivesse seriamente ferido. E, ainda que isso fosse um pouco de egoísmo da sua parte, pedia especialmente para que a pessoa atingida não fosse ele porque não queria pensar na ideia. Cyndi Lauper estava cantando no rádio do carro quando ela estacionou na frente do hospital cerca de trinta minutos depois, e viu o carro de Aaron Hotchner parado um pouco adiante. Emily e ele estavam encostados no carro juntos e conversando, e ela pode ver qualquer coisa no ar entre eles dois que entregava uma intimidade velada, uma intimidade que precisava ser disfarçada e que ela conhecia muito bem. Ela ainda tentou se esconder, mas não teve jeito e precisou descer para cumprimentar os dois.
“Agente Hotchner, eu achei que você estivesse de férias. Até segunda-feira pelo menos.”
“Eu estava. Mas eu soube do caso e do tiroteio, eu tinha que vir ver se… se o time estava bem.”
“Engraçado, porque aconteceu a mesma coisa comigo. Chegou ao meu conhecimento no departamento que houve um tiroteio e eu vim ver se estava tudo bem.”
Hotch e Erin se entreolharam, e a mulher entendeu. Entendeu que tinha nele o mesmo pânico que nela, e que ele precisava ver com os próprios olhos que Emily estava bem e estava inteira. Assim como ela foi lá apenas para ver Rossi diante dos olhos dela, de pé e bem, independente da distância e do clima estranho entre eles. Somente quando os olhares dos dois se cruzaram e que eles se reconheceram exatamente na mesma situação, é que Strauss se deu conta de que todo o esforço para se esconderem até ali cairia por terra naquela noite. Emily resolveu tomar a frente da conversa, vendo esse momento em que os dois se reconheciam em situações muito parecidas.
“Não fui eu. E não foi o Dave também. O Derek participou da troca de tiros junto com a polícia e acabou pegando um tiro de raspão, mas ele tá bem. Ele só veio pra cá porque o Rossi e a JJ obrigaram.”
“O Derek? Foi ele?”
“Foi. Vamos lá dentro encontrar com eles?”
Emily viu nitidamente o semblante de Erin ganhar uma leveza imensurável depois do que ela disse, e esboçou um sorriso involuntário. Hotch já tinha confidenciado a ela as desconfianças em cima de Rossi, e a cena que ela estava vendo ali diante dos dois lhe deu a certeza: era ela a mulher com quem o amigo deles vinha saindo e estava namorando há meses. Emily guiou os dois até lá dentro, uma vez que ela sabia onde exatamente o time estava porque veio lá fora somente para encontrar Aaron quando ele ligou. Derek estava saindo da enfermaria, JJ de um lado e Garcia do outro preocupada com o curativo dele. Na sala de espera, do lado de fora, Rossi e Reid esperavam por eles três e pela volta de Emily. A surpresa foi grande e pelos mais variados motivos quando eles viram os três chegarem.
“Erin? O que você tá fazendo aqui?”
“Nós viemos assim que ficamos sabendo do acontecido. A gente queria ter certeza de que vocês estavam bem e também que o departamento não precisava de nada. Eu liguei para a Erin no caminho e nós nos encontramos aqui.”
Hotch se adiantou quando viu os olhares dos dois se cruzarem, e ele podia jurar que ao mesmo tempo em que os olhos dela estavam quase marejados, os de David estavam arregalados num tom de surpresa puro. Os outros olharam para Hotch, Emily e Erin, e deram de ombros. Tinha algo estranho no ar, eles pensaram, mas quem sabe não era só o resto de adrenalina ainda por tudo o que aconteceu. Logo foram informados de que Derek estava liberado, que tinha precisado apenas de um curativo pois foi algo de raspão, e que tudo o que o médico disse foi que ele poderia ir pra casa descansar o fim de semana para voltar ao trabalho na segunda.
“Vamos pra casa. O encerramento disso pode esperar até segunda-feira, foram emoções demais por hoje.”
“E os relatórios? A polícia local vai ficar no nosso pé, Hotch.”
“Vão embora daqui. Eu cuido disso com algumas ligações. Vocês precisam descansar, na segunda vocês fazem o que tiverem de fazer.”
Foi Hotch quem fez menção de dispensá-los inicialmente, já assumindo de volta a postura de chefe da equipe. Morgan interveio, porque sabia que não sabia que seria tão fácil assim se livrarem de alguma burocracia no fim desse caso. No fim, finalmente a voz de Erin foi ouvida ali na sala de espera desde que eles chegaram, e eles agradeceram quase todos ao mesmo tempo. Depois das despedidas, houve alguma discussão sobre como fariam para ir embora. Garcia e JJ fizeram questão de levar Derek em casa, e Reid foi com eles três.
“A gente deixa o Dave em casa. Vão, vão cuidar do Derek.”
Hotch dispensou o restante dos amigos, que não reclamaram. Logo os quatro saíram caminhando devagar e entretidos numa conversa qualquer, deixando os dois casais para trás. Erin estava afastada enquanto falava ao telefone, provavelmente conversando com o delegado responsável da polícia envolvida no tiroteio. Rossi olhava para ela concentrado, ainda sem entender como ela tinha chegado ali tão rápido e o que ela tinha ido fazer de fato. Emily olhava do amigo para a mulher, e uma risada baixa escapou antes de ela falar.
“Diga a ela que a gente já vai. Até segunda.”
“Espera.”
“O que? A gente sabe que a carona foi só uma desculpa. Agora que não tem mais ninguém aqui vocês dois podem ir embora em paz. Vai pra casa Dave, e descansa.”
David ainda tentou interromper Emily, mas quando Hotch concordou com ela, o Italiano congelou no meio do caminho. Depois relaxou os ombros e sorriu, no que Aaron sorriu de volta para ele. Tinham se entendido silenciosamente de que era tudo um segredo, mas que estavam seguros entre si. Os dois apertaram as mãos, Rossi e Emily se abraçaram, e depois o primeiro casal deixou a sala de espera em direção ao estacionamento de braços dados. David ficou esperando que ela saísse do telefone, o que aconteceu quase dez minutos depois. Quando ela veio dizer a Aaron que estava a par de tudo o que tinha acontecido e que eles eram esperados na segunda para preencher os relatórios necessários, se deu conta de que estavam somente ela e David ali.
“Pra onde eles foram?”
“Pra casa. Eu só não sei qual das duas.”
“E te deixaram aqui? Emily não disse que ia te dar carona?”
“O que você veio fazer aqui, Erin? De verdade.”
“Ver se o seu time estava inteiro e ver se o meu departamento não precisava de alguma coisa? Eu falei.”
“Corta a baboseira de que proteger o Bureau é seu trabalho, porque eu vi nos seus olhos quando você chegou. E eu te conheço. Fala, Erin.”
“Ok, eu vim saber se você estava bem. Tudo o que eu ouvi foi que tiros foram disparados, pessoas morreram, e que você tava no meio. Eu entrei em pânico. Satisfeito?”
“Shhh, calma. Você está vendo que eu tô bem. Vamos embora daqui, vem. Me dá a chave do seu carro.”
Rossi viu que as mãos dela estavam meio trêmulas quando ela tentou enfiar o telefone de volta na bolsa e teve alguma dificuldade com isso, ele não sabia se era por conta da tensão da situação ou se era por conta da pressão que provavelmente as pessoas com quem ela esteve em ligação fizeram. Ele puxou uma das mãos dela, depois a outra, e logo deu um abraço apertado. Erin suspirou audivelmente, e David sentiu como se ela tivesse ‘derretido’ naquele abraço dele. Céus, os dois estavam morrendo de saudade um do outro! Erin entregou as chaves a ele e não queria saber pra onde ele iria levá-la, só queria sair dali e ficar com ele. Ela tinha a cabeça encostada no banco, os olhos fechados, e o pensamento estava tão distante que num primeiro momento ela não registrou qual era o caminho que ele estava fazendo. Depois de hoje, ela teve certeza: ela se apaixonou de novo e sem querer, até tentou evitar mas obviamente não deu certo. Depois que ela disse isso em voz alta, podendo refletir sobre com um pouco mais de clareza, o pavor que ela sentiu dizia que ela estava irremediavelmente… entregue.
“Erin, eu tô falando com você.”
“O que? O que você disse, eu não ouvi.”
“Eu percebi… aonde você tava?”
“Pensando.”
“Eu posso perguntar em que?”
“Em nós. Eu estava com saudades, David.”
“A gente tem muito o que conversar. Mas eu também estava, morrendo.”
“Você ainda tá com muita raiva de mim? Vocês estão?”
“Nós entendemos porque tudo aconteceu da forma como aconteceu, e o próprio Derek reconheceu que naquela conversa lá atrás você estava correta.”
“Então porque você disse as coisas daquela forma?”
“Porque eu explodi, num momento de raiva. Eu sei que eu não devia, mas aconteceu. E eu nunca te pedi desculpas por isso porque a gente não teve essa chance. Me perdoa Erin.”
Ele soltou uma das mãos da direção e estendeu para ela, que não se mexeu. David entrelaçou as mãos dos dois, que ficaram sobre o colo dela. Como ela não se afastou e nem repeliu o gesto, o homem sorriu. Erin enfim se deu conta de que o caminho era o da casa dele, mas de que adiantava relutar agora? Tinha resistido a essa ideia inicialmente porque era como se isso fosse tornar as coisas reais, oficiais, domésticas… passarem um dia, uma noite, um fim de semana, um minuto que fosse na casa dele ou então na casa dela. Era como o quase-casamento de volta outra vez, pelo menos na cabeça dela. E ela tinha muito medo de se jogar nisso e acabar não dando certo. Ele estacionou o carro na garagem dele, os dois se separaram e desceram ao mesmo tempo, e David estava ativando o alarme de volta depois que eles entraram em casa, o que o distraiu.
“Hey, você é famoso, sabia? Seu dono fala demais em você.”
“Mudgie!”
O cachorro praticamente pulou na direção dos dois, e por pouco não pulou em cima de Erin fazendo com que ela perdesse o equilíbrio com o gesto. Ela entregou a bolsa à David, e depois disso abaixou um pouco para fazer carinho atrás das orelhas do cachorro, que recebeu o gesto de muito bom grado. Mudgie nunca era tão receptivo assim com pessoas completamente desconhecidas, o que era o caso de Erin, e no entanto ali estavam os dois juntos sem que o cachorro tivesse sequer latido ou estranhado a presença da mulher.
“Parece que ele se apaixonou por você. Eu não posso dizer que não entendo.”
“Eu nunca fui muito fã de cachorros… de bichos de estimação no geral.”
“Eu sei. Por isso eu queria ter deixado ele preso antes de você entrar, pra não te assustar.”
“Você não precisa mudar nada na rotina da sua casa porque eu estou aqui hoje, David.”
“Eu quero que você se sinta confortável, só isso.”
“Obrigada. Mas tá tudo bem, sério.”
Erin agradeceu o gesto dele, que sorriu. Depois de trancar tudo de volta, ele deixou as chaves da porta e a chave do carro dela na mesa de apoio na entrada de casa, a bolsa ficou ali em cima junto. Rossi estendeu a mão para ela, que a apertou e num impulso se levantou de novo. Ela se adiantou à ele, se aproximando o suficiente para juntar os lábios dos dois. Estava com muito mais saudades disso do que imaginava, porque foi como se um suspiro de alívio tivesse escapado no meio do beijo. Que se repetiu por diversas vezes até que o cachorro começasse a correr ao redor dos dois para chamar atenção.
“A comida dele deve ter acabado.”
“A Jane! Meu Deus, eu preciso ligar pra ela!
“O que aconteceu?”
“Foi ela quem me contou o que aconteceu. Eu só fui embora sem olhar pra trás, se eu a conheço bem ela ainda está lá na minha sala esperando por notícias ou pra saber se pode ir embora. Coitada.”
“O que deu em você? Cadê a Erin que eu conheço?”
“Você, você deu. De repente parecia que alguma coisa ia acontecer com você sem a gente ter feito as pazes, porque eu só sabia do tiro mas não sabia quem tinha levado. Eu sei lá, eu só saí correndo.”
“Erin? Eu também te amo. Vem, enquanto eu cuido do Mudgie você liga pra Jane. Depois a gente pensa no jantar.”
Ela não tinha dito em voz alta, mas não precisava também. Ele entendia até o que ela não dizia. Num primeiro segundo ela ainda pensou em corrigir, mas logo se deu conta de que estaria mentindo se dissesse o contrário. Ela pediu pra tirar os saltos ali mesmo, e depois que o fez os dois foram caminhando juntos até a cozinha. Exatamente como ele sugeriu que fizessem, ela ficou ao telefone enquanto ele foi cuidar do cachorro no jardim lá fora. Como a mulher certamente passaria a noite com ele, David ficou alguns minutos com Mudgie antes de deixá-lo preso para o lado de fora da casa. Tinha comida, água, conforto e o jardim inteiro à sua disposição. Ele ficaria bem dormindo lá fora por uma noite! Erin estava olhando em volta, um copo de água nas mãos, quando ele se juntou de novo à ela na cozinha. Por puro instinto, se aproximou dela o suficiente para trocar mais um beijo antes de perguntar.
“O que você quer pro jantar?”
“Eu não sei. Eu ainda estou tão anestesiada com o susto que eu levei que eu não sei. Mas você pode sugerir e eu te acompanho, faz alguma coisa que você goste.”
“Erin… tem certeza que você não tá me escondendo nada? Você tá estranha.”
“Eu não tô. Eu juro. É que eu estou tentando entender o que aconteceu comigo mesma, pra poder quem sabe conseguir te dizer algo.”
“Porque você não começa do começo? Ou de qualquer lugar que seja. Eu prometo te ouvir e não julgar nada se você quiser que eu fique só calado escutando.”
“Não. Quer dizer, a gente precisa conversar na verdade.”
“Certo. Eu vou trabalhando aqui enquanto você fala, pode ser? Eu estou cozinhando mas vou prestar atenção em você, eu prometo.”
Ele não queria que a mulher achasse que ele estava distraído, porque ele não estava. Podia estar andando pra lá e pra cá na cozinha mas estaria ouvindo atento o que quer que ela dissesse. Era a primeira vez que faziam isso, mas quem sabe não era algo que meio que de estabelecia como padrão e uma rotina para eles com o tempo? Erin acenou com a cabeça e subiu num dos bancos altos, apoiando os braços sobre a bancada de mármore no meio da cozinha. David foi até a parte refrigerada da despensa, e voltou de lá com uma garrafa de vinho branco e duas taças. Encheu uma delas até a metade e passou para ela, enquanto fez o mesmo com a outra e levou junto com ele até o fogão.
“Tudo bem. O que aconteceu entre a gente não devia ter acontecido, não dessa maneira. O relacionamento se misturou com o trabalho, de repente David e Erin eram a mesma coisa que a Strauss e o Rossi. A gente deixou que um problema de trabalho afetasse algo tão bom que a gente tem fora dali. Até aqui faz sentido pra você?”
“Faz. Eu acho que faz. Você não vai deixar de ser minha chefe, eu não vou deixar de te irritar o tempo todo…”
“Nisso você tá certíssimo, você não vai. Mas um segredo? Não muda. Por favor.”
Erin reclamou, e ao mesmo tempo estava rindo, o rosto meio escondido pela taça que ela tinha erguido para tomar um pouco do vinho. David olhou para ela, abriu e fechou a boca algumas vezes, ligeiramente desconcertado. Acabou permanecendo em silêncio enquanto separava os ingredientes para preparar o prato bem rápido, a boa e infalível receita da massa que vinha desde a avó dele e que ele provavelmente poderia preparar de olhos fechados.
“Continuando. Como você disse, eu não vou deixar de ser sua chefe e as disputas vão continuar existindo e acontecendo. Todos esses dias longe me fizeram refletir que isso não pode acontecer de novo. Porque do mesmo jeito que eu não pretendo deixar de ser a sua chefe, eu não quero deixar de ser a sua namorada também.”
“Você não vai o que?”
“Não vou deixar de ser sua chefe. Não foi você que disse isso primeiro?”
“É, mas eu tô falando da segunda parte. Repete pra eu ouvir, por favor?”
“Eu sei que parece ridículo e que a gente não tem mais a idade dos meus filhos… mas é o que é. Ou não?”
“Erin, fala pra eu ouvir. Só mais uma vez. Por favor. Eu juro que eu te deixo em paz.”
“Eu não quero deixar de ser sua namorada também. Foi nisso que você se prendeu?”
Ele riu, um sorriso que provavelmente era o maior que ele deixava escapar em muito tempo, e que era algo tão genuíno. Os itens já estavam separados e dispostos na parte do balcão bem ao lado do fogão, mas ele parou o que estava fazendo e deu a volta na bancada. Erin girou ao redor de si no banco para virar de costas, e ele apoiou as duas mãos sobre os joelhos dela. Quando se beijaram talvez pela décima vez naquela noite, o gosto era um misto do sabor do vinho e do que ele se lembrava da boca dela, e de que estava com tanta saudade. Depois de uns segundos ele encarou os olhos dela, porque era isso que queria antes de falar.
“Eu não vou dizer que eu fui inocente pelo que aconteceu, porque eu não fui. Eu prometo me esforçar para separar as duas coisas, a minha namorada da minha chefe. Eu vou fazer o meu melhor pra que a gente não acabe brigando de novo pelo mesmo motivo.”
“É algo que a gente tem que fazer juntos. Mas nós estamos na mesma página, nós queremos a mesma coisa. Então vai dar tudo certo. Não vai?”
“Você fica tão bonitinha assim, eu acho que as pessoas não fazem ideia desse seu lado.”
“Que lado?”
“Insegura. Frágil. Tudo o que as pessoas veem o dia todo é a Dama de Ferro do BAU, sempre com aquela máscara impassível, é como se nada pudesse te abalar. E mais, falando tanto assim sobre o que você sente, eu não me lembro quando foi a última vez que você fez isso. AI! Isso doeu, tá?”
“Era pra doer mesmo. Eu não esperava chegar aqui de novo, mas eu cheguei. A gente chegou. E a sensação de perder isso, que nem nome tinha, me deixou assustada. Eu não quero perder David, não quero.”
“Você não vai perder. A gente não vai perder, a gente não vai a lugar nenhum. Ouviu? Não vai.”
Ela deu um tapa sonoro no ombro dele, e apesar do barulho o gesto não tinha doído de verdade, ele queria apenas fazer cena. Isso era tudo o que ela precisava ouvir e de que os dois precisavam saber, para terminar aquele dia em paz e para encerrar de vez esse ciclo. Finalmente essa briga ficaria para trás e eles poderiam seguir adiante com a vida deles. Juntos de novo dessa forma, com não deveria ter deixado de ser. David surrupiou mais alguns beijos dela antes de voltar ao fogão, dessa vez para preparar de fato o jantar, sabendo que ela provavelmente estava com fome já que frequentemente esquecia de comer caso estivesse estressada ou envolvida demais com o trabalho. Quando a comida ficou pronta alguns minutos depois, os dois estavam sentindo como se tivessem tirado um peso gigantesco das próprias costas. Eles estavam conversando sobre o caso e sobre o que ele tinha feito no fim da negociação com os bandidos até terem os reféns quase todos liberados.
“ Isso aqui tá uma delícia. Como eu disse logo no começo desta noite, foi tudo o que a Jane me disse. Negociação, reféns, tiros, ambulância, policiais mortos.”
“E pensar que essa confusão toda não teria acontecido se ela tivesse feito a fofoca certa.”
“Ela não ouviu a história toda, coitada. Além do mais, ela tinha certeza que eu ia querer saber do que tinha acontecido.”
“Nesse caso eu vou mandar um presente pra ela essa semana.”
“David! Eu não quero você chamando a atenção das pessoas, de mais ninguém além da minha secretária. Ela saber que nós estamos juntos já é o suficiente.”
“Não se esqueça do Hotch e da Emily, meu amor. Você viu a cobertura que eles nos deram hoje?”
“Eu vi. Mas eles só fizeram isso porque eles precisavam se proteger também, não foi? Que outro motivo os dois teriam pra te ajudar? Quer dizer, para ajudar a gente, nós dois?”
“Não passa pela sua cabeça que a ideia deles sobre você pode mudar? Que eles podem te ver com outros olhos? Que talvez um dia nós vamos acabar nos tornando amigos?”
“É, não? A sua amiga não gosta de mim e isso ficou claro desde o dia em que ela chegou àquele departamento. O Aaron talvez seja um pouco mais… maleável, mas ela? Não. Nunca.”
“Vocês duas são mais parecidas do que você imagina, talvez por isso tantas divergências. Quando você se deixar conhecê-la e vice-versa, vocês vão perceber isso, e eu tenho certeza que vocês vão ser grandes amigas.”
“Grandes amigas? Eu e Emily Prentiss, David? Tem certeza que você bebeu só essa meia garrafa de vinho aí?”
Erin estava nas últimas porções do seu jantar, e eles tinham acabado de abrir a segunda garrafa do mesmo vinho branco que ela tinha se apaixonado, coisa que David anotou mentalmente para não se esquecer. Ela estava rindo porque essa ideia lhe parecia absurda demais para que ela concordasse com ela tão facilmente. David não insistiu, no tempo certo isso iria se ajeitar, ele tinha certeza. Ele começou a organizar a cozinha quando os dois terminaram de comer, e Erin ficou sentada com a taça em mãos, os olhos para lá e pra cá acompanhando os movimentos dele. Tinha alguma coisa nessa cena tão doméstica e tão leve entre eles dois naquela noite que estava deixando Erin incrivelmente… ainda mais apaixonada, se é que isso é possível. Ela poderia facilmente se acostumar com essa rotina, e aquilo poderia tranquilamente se tornar o fim de todos os dias dela, que ela não iria reclamar nem um pouco. Pelo contrário, isso era tudo o que ela mais queria!
“Eu vou ver se o Mudgie está bem lá fora, depois a gente pode subir. Eu pensei em te emprestar um pijama pra você dormir, apesar de eu preferir não te dar nada. Fica melhor, você sabe.”
“Ridículo, você é ridículo!”
“Ah, nem vem. Não vem com essa de ficar sem graça não porque eu já te vi tantas vezes que eu sou capaz de me lembrar de cada centímetro e…”
“Ok, ok. Você venceu. Mas imagina uma das suas camisas brancas e, quem sabe… mais nada?”
“Eu gosto do jeito que você pensa. Você é uma mulher inteligente, Erin Strauss.”
“Eu aprendi algumas coisas com um certo mestre, sabe. Mas a gente pode parar de falar, por favor? E subir?”
A pergunta dela era clara, cristalina, e David não demorou mais do que dois minutos entre ir e voltar do jardim. Logo estava puxando a mulher pela mão escada acima, e apesar de nunca ter pisado nessa casa antes, era como se alguma coisa nos instintos dela a estivesse guiando e logo ela empurrou a porta certa. O quarto dele, o maior de todos, no fim do corredor. Ela nem viu como aconteceu, mas mal entraram no quarto e as mãos dele já estavam desfazendo cada botão da blusa do conjunto de tecido vinho que ela estava usando para aquele dia de trabalho. A trilha de beijos foi seguindo o caminho na mesma direção do corpo dela em que ele ia desfazendo os botões, e daí em diante o silêncio reinou no quarto. Não era a primeira, não era a segunda, eles já tinham perdido as contas de quantas vezes os dois tinham ido para a cama juntos. Mas dessa vez foi diferente. O tom da relação que eles tinham mudaria completamente a partir daquele dia e eles tinham essa certeza. Erin estava no seu lugar favorito do planeta, os olhos fechados, a respiração sem compasso algum, e tinha um sorriso imenso no rosto.
“Eu quero que o teu cheiro fique aqui pra sempre, depois de hoje. Eu nunca mais vou trocar essa roupa de cama.”
“Não é mais fácil você me fazer voltar aqui?”
“Ou isso, ou isso. Eu acho que você ficou sem opção. Você vai ter que se mudar pra essa casa e pra essa cama.”
“Bom, eu não posso garantir nada pelo restante das nossas vidas. Mas eu posso garantir pelo menos o restante deste fim de semana.”
“Já é um começo. Você só vai sair daqui na segunda-feira para ir trabalhar. Tá decidido.”
“Você sabe o que é isso? É cárcere privado, David.”
“Pode trazer as algemas. Digo, pode me prender. Espera. Pode trazer as algemas para me prender.”
“EU TE ODEIO!”
Erin disse, de novo dando um tapa nele, dessa vez na parte do peito que estava descoberta. Mesmo na penumbra do quarto ele percebeu que ela tinha ficado ligeiramente corada. Ou então era o corpo dela reagindo à quantidade de esforço que tinham acabado de fazer, ele nunca saberia ao certo. Girou o corpo sobre o dela, repousando as duas pernas uma de cada lado do corpo da mulher, e quando o rosto dele estava se aproximando Erin o surpreendeu e se adiantou. O beijou antes que ele fizesse isso com ela. Ela tinha a sensação de que talvez ele não estivesse errado e que eles fossem de fato passar a maior parte das próximas quarenta e oito horas ali, juntos. Mas sinceramente? Ela não queria nada diferente disso. Ela passaria e passaria de muito bom grado. (TBC)
