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Solstice

Summary:

Akk e Ayan estão na faculdade e nada parece ter mudado até Ayan descobrir um segredo que Akk guardou por mais de um ano.

Notes:

Minha primeira fic de bl e eu tô muito nervosa porque são minhas duas séries favoritas e não tem nem um mês que eu entrei nessa loucura que é o mundinho bl e já tô investida nesse nível. Enfim, espero que gostem!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Era pra ser mais um dia tranquilo na faculdade. O sol brilhava no céu, o metrô tinha lugar pra sentar e o ar condicionado das salas estavam funcionando. Nada parecia que daria errado naquele dia. Mas, desde que resolveu se envolver com o homem mais desconfiado e cabeça dura que já conhecera, Ayan não teve um dia de paz sequer.
Estava caminhando na rampa pra trocar de bloco quando sentiu uma mão segurar forte no seu pulso e, ao virar, deu de cara com Akk, o dito cujo. E sua expressão não estava nada boa.
- Eu sei que foi você - foi tudo que Akk falou antes de Ayan suspirar e tentar não sorrir pra não deixá-lo mais irritado.
- O que que eu fiz agora, pé grande?
- Você sabe o que você fez - Akk rosnou.
Desde que fizeram o último ano do ensino médio juntos e Akk descobriu que Ayan foi pra sua escola com o único intuito de acabar com a ordem de lá, mesmo depois de se formarem e acabarem indo pra mesma universidade, Akk continuava convencido que tudo de ruim que acontecia com ele era culpa de Ayan. A doença de monitor de Suppalo nunca abandonou Akk, por mais que ele tivesse conseguido abrir os olhos nos últimos meses antes de se graduar. Mas Ayan tentava relevar devido aos seus sentimentos por ele. Sentimentos esses que nunca foram retribuídos.
Ayan suspirou, segurou no pulso de Akk com a mão livre e fez com que ele o soltasse delicadamente. Sem tirar os olhos dos dele, Ayan sorriu.
- Eu sei que você acha que o mundo gira em torno de mim porque não consegue me tirar da sua cabeça, mas eu não sei do que você tá falando.
Akk pareceu se desconfigurar por dois segundos, mas logo se recompôs e deu um passo pra trás pra se afastar de Ayan.
- Não se faz de idiota, Ayan! - ralhou - Eu sei que foi você que postou as fotos dos produtos alterados na empresa do Tawi!
Nessa hora, Ayan não conseguiu segurar a risada que escapou, o que deixou Akk ainda mais irritado.
- Você acha que eu invadi uma fábrica, abri as caixas de lote, desmontei os produtos, tirei foto, botei tudo de volta e voltei pra casa pra postar no meu fake no twitter? Tudo isso sozinho? - questionou ainda sorrindo e Akk apenas bufou em resposta - Eu sabia que você me admirava, mas isso é exagero até pra você, monitor.
- Não se faz de imbecil, você ou faz parte desse grupo que tá fazendo isso ou é quem opera o perfil deles no twitter! Isso é muito a sua cara e eu tenho certeza que você tá envolvido de alguma forma.
Ayan respirou fundo, tentando não ficar irritado demais porque, afinal, era Akk na sua frente, ele não queria brigar, por mais que esse sempre fosse o intuito de Akk quando chegava perto dele. Então Ayan puxou o celular do bolso e o estendeu na direção de Akk.
- Pra que isso? - Akk questionou confuso.
- Meu telefone. Abre e olha se tem alguma coisa suspeita aí, já que você nunca acredita na minha palavra.
Akk clicou a língua e empurrou a mão de Ayan pra longe sem muita força.
- Você pode muito bem ter um telefone reserva pra fazer isso, até pra caso queiram te rastrear.
- Você é tão esperto e entende tanto disso que tô começando a achar que quem tá liderando esse grupo é você - falou brincando e recebeu um empurrão de leve no peito.
- Não fala merda!
- Não ficaria surpreso de ver o Kan e o Wat nas filmagens invadindo a fábrica enquanto você guia eles de casa depois de invadir as câmeras de segurança. Você tem capacidade pra isso.
- Eu tenho caráter, diferente de você!
Ayan deu um sorriso de canto.
- Não fui eu que trouxe a maldição de Suppalo de volta.
- Eu já assumi pra todo mundo meu erro! Você quer mais o que de mim?!
- Você sabe o que eu quero de você…
Ayan deu um passo, ficando próximo de Akk novamente, e sorriu ao ver o olhar dele vacilar. Suas respirações se misturaram e Ayan sentiu seu coração palpitar antes de sentir duas mãos tocando seu peito e o afastando devagar.
- Eu já falei que não vou retribuir seus sentimentos - Akk disse com a voz mais grave que o normal.
O sorriso foi sumindo aos poucos do rosto de Ayan e, ao ponto que sua expressão desabou, Akk já havia se afastado e caminhado pra longe. Ele acompanhou com o olhar as costas de Akk conforme ele se afastava andando rápido e, por fim, engoliu o pequeno nó em sua garganta. Pior do que saber que a pessoa que você havia se apaixonado não te corresponderia, era saber que ela correspondia sim, só se recusava a admitir. Akk não tinha coragem de agir quanto aos seus sentimentos, principalmente por Ayan ser a causa da maioria dos seus problemas no último ano de ensino médio. Tanto que ele já assumia que os problemas das primeiras semanas de faculdade também eram culpa de Ayan.
Na noite anterior, um grupo chamado ROL havia invadido uma das fábricas de produtos de Tawi, que era um grande empresário e político influente na cidade, e exposto substâncias duvidosas que iam nos produtos dele. Ayan tinha certeza de que esses produtos haviam sido plantados lá pra causar certa indignação e havia achado a ideia genial. No fundo ele queria fazer parte desse grupo, mas ainda não havia descoberto quem eles eram. E a raiva de Akk vinha justamente do fato de que ele havia começado a estagiar como químico naquela semana na empresa que foi invadida. E ele foi um dos muitos funcionários que foi dispensado para que o que aconteceu fosse averiguado. Ayan entendia a revolta de Akk, mas, infelizmente, não tinha como se iniciar uma guerra sem sacrifícios.
Ele suspirou e ajeitou sua mochila no ombro antes de continuar andando pro seu bloco.
Ayan estava na sua aula de história da arte quando viu Akk entrar apressado e se sentar nas primeiras fileiras. Ayan franziu o cenho extremamente confuso porque Akk não deveria ter nenhuma matéria de artes fazendo engenharia química e ele nunca nunca se atrasava pra nada. E, muito menos, tinha uma bolsa no estilo carteiro cheia de manchas de tinta e canetinha. Isso sem contar sua blusa social da faculdade que estava amarrotada e seu cabelo bagunçado. Ele também estava mais comprido? Não… impossível. Devo estar confundindo - Ayan pensou. Mas não tirou os olhos da nuca do menino ao ponto dele se remexer e virar pra trás, encontrando seu olhar e lhe lançando uma expressão emburrada, como quem pergunta “tá olhando o quê?”.
Talvez fosse sim Akk ali afinal.
Não. Impossível.
Quando a aula finalmente acabou e Akk saiu apressado de novo, Ayan correu atrás dele até alcançá-lo na rampa entre os blocos.
- Ei, Akk! - chamou quando segurou no cotovelo dele e, assim que se virou, Akk o encarou irritado.
- Akk?! - ele estreitou os olhos antes de revirá-los e soltar uma risada - Claro… tudo faz sentido agora.
Talvez pra ele porque Ayan nunca se sentiu mais perdido na vida.
- Por que você tava na minha aula de história da arte? Tá querendo me espionar tanto assim? - Ayan questionou e Akk riu.
Riu com dentes e tudo, e tombou a cabeça pro lado.
Ayan estava começando a se questionar sobre sua sanidade, porque aquele não era Akk… mas era!
- Tem razão… você me descobriu - Akk fez um bico e tocou no rosto de Ayan, acariciando sua bochecha com o polegar e se aproximando dele.
Ayan sentiu seu coração falhar quando o rosto de Akk passou pelo seu e a boca dele encostou no lóbulo da sua orelha.
- Você deve ser o famoso Ayan - sussurrou e o ar quente fez aquele lado do corpo de Ayan se arrepiar. Ele tentou se afastar, mas teve seus braços segurados - As histórias não fazem justiça nenhuma ao quanto você é realmente bonito.
Ayan engoliu em seco. Ele devia estar sonhando, era a única explicação.
- Akk… - soltou com um fio de voz, era a primeira vez que se sentia fraco perto dele. Quase rendido, por mais que sentisse que algo estivesse muito errado.
- EI! - alguém gritou e Ayan se sobressaltou quando sentiu essa pessoa puxar o ombro de Akk pra longe dele.
Quando se recompôs viu que era… Akk? Mas dessa vez era o Akk que havia encontrado antes da aula com sua blusa impecavelmente passada e todos os botões fechados, cabelo arrumado e cortado, mochila bem posicionada e limpa. O Akk que Ayan conhecia e… era apaixonado. Mas então…
Olhou pro outro Akk, que tinha um sorriso no rosto mesmo com a cara de pura raiva de Akk para ele antes de empurrá-lo contra a parede.
- Ei, Akk! - Ayan tentou se meter, mas não sabia nem qual era o verdadeiro. Ele se sentia dentro de uma série Sci-fi.
- Você é um babaca, Yok! - Akk gritou, empurrando o peito do outro de novo - E você! - se virou pra Ayan - Eu sempre soube que era imbecil, mas nunca imaginei que fosse burro!
Ayan estava tão sem palavras e confuso que sequer conseguiu reagir com uma resposta a altura.
- Pega leve com ele, Akk - Akk 2 (Yok?) se aproximou ainda rindo e tocando no ombro de Akk - Eu aposto que você nunca contou pra ele sobre mim.
- Quem é você? - Ayan questionou, ignorando o olhar fuzilante de Akk para os dois.
- Meu nome é Yok, sou irmão gêmeo desse estressado aqui - apontou Akk com a cabeça.
- IRMÃO GÊMEO?! - Ayan gritou surpreso e Akk apenas clicou a língua e revirou os olhos, se afastando dos dois.
- E pra que eu ia contar sobre você? Não é como se ele fosse meu amigo!
- Ah, mas ele parecia ser muito mais que isso pelas coisas que você falava - Yok sorriu de canto pra Ayan de novo e recebeu um soco no braço de Akk.
- Cala essa boca antes que eu te jogue daqui de cima!
Yok riu, completamente não afetado pelo irmão.
- E como você pode ver, o ranzinza aqui é o irmão mais velho. Muito prazer finalmente te conhecer, Aye - Yok estendeu a mão e Ayan segurou, o cumprimentando.
Ele ainda estava um pouco sem palavras, então olhou pra Akk em busca de respostas.
- Sim, Ayan, eu tenho um irmão gêmeo. E isso não muda em nada na sua vida.
- Seu irmão gêmeo tava na minha aula de artes - Ayan finalmente encontrou sua voz - Você devia saber o curso dele e que, eventualmente, a gente se encontraria e eu ficaria totalmente perdido sem entender porra nenhuma!
Akk bufou.
- Eu não imaginei que o curso de arquitetura teria aula mista com o de artes tão cedo. E, também, não é como se eu ficasse pensando nesse idiota cruzando o caminho das pessoas. A maioria delas ignora a presença dele.
- Magoou - Yok resmungou e levou um tapa na barriga com as costas da mão.
- Você foi o único idiota que correu atrás dele mesmo ele te ignorando.
- Como você esperava que eu fosse ignorar uma versão sua toda amarrotada e manchada de tinta?! - Ayan questionou indignado, fazendo Yok erguer uma sobrancelha pela ofensa e Akk dar um pequeno sorriso - Isso foi um elogio, inclusive - ressaltou, encarando Yok e recebeu um empurrão no ombro vindo de Akk.
Yok riu e afastou Akk de Ayan.
- Eu sei que eu sou a melhor versão dele, mas acho que você percebeu sim a diferença entre a gente quando eu abri a boca pra falar com você.
Ayan desviou o olhar e sentiu suas bochechas corando. Ele realmente percebeu algo de errado quando Akk pareceu dar em cima dele, mas Ayan jamais iria afastá-lo. E não admitiria isso na frente de nenhum dos dois.
- Ayan - Akk chamou, fazendo ele encará-lo - Você jura que não tá vendo diferença nenhuma entre a gente além das roupas?
Agora que os dois estavam diante dele, Ayan percebia qual era qual. Mas não queria dar o braço a torcer, então apenas deu de ombros e escondeu um sorriso quando Akk bufou indignado.
- Eu sou muito mais bonito - Yok ressaltou e recebeu um tapa - E bem menos agressivo. E você é uma gracinha, se ele não te quiser, eu quero - sorriu e pegou na mão de Ayan.
Akk deu um tapa ali, fazendo os dois soltarem as mãos, e empurrou Yok pra mais longe de Ayan.
- Você tá proibido de chegar a menos de dois metros de distância dele! - ordenou com o dedo na cara de Yok, que sorriu e tentou morder a ponta, mas Akk o afastou rapidamente.
- Você só assustava os pivetes daquela escola de malucos, irmãozinho. Sabe muito bem que ameaças não funcionam comigo. Se você ficar me proibindo, eu vou sentir ainda mais vontade. Escondido é mais gostoso, né, Aye? - Yok piscou pra Ayan e ele sentiu o coração acelerar por um segundo.
Por mais que não fosse Akk falando aquilo, era a idealização de Akk que Ayan sempre teve, então não tinha como ele não se afetar.
- Some daqui, Yok! - Akk rosnou, o empurrando em direção a rampa.
Yok riu e olhou pra Ayan por sobre o ombro enquanto descia.
- Te vejo semana que vem, Aye - acenou e sumiu na primeira curva da rampa.
Akk encarou Ayan irritado como nunca antes.
- Você - apontou e andou até estar diante de Ayan, segurando nos lados abertos do seu moletom e o sacudindo - Por que você é assim?!
- O que que eu fiz agora, senhor Jesus Cristo? - choramingou, já fraco com o tanto de emoções que sentiu nas últimas horas.
Primeiro ficou feliz de ver Akk assim que chegou na faculdade, depois se irritou com as acusações, depois ficou triste pela rejeição, então surpreso com a aparição de Yok, quase infartou com a possibilidade de estar sendo correspondido, e, por fim, a bomba de saber que Akk sempre teve um irmão gêmeo que Ayan nunca soube sobre.
- Você não ouse sair com o meu irmão, Ayan, ou eu juro por deus! - ameaçou apontando o dedo na cara de Ayan, que foi responder, mas Akk continuou - Quer saber? Na verdade eu não me importo! Se você quiser, o problema é seu! Depois não vem chorando quando ele quebrar seu coração! - Akk foi se afastando e falando sem parar, não deixando Ayan dizer o que queria - Na verdade, pensando bem, vocês dois se merecem mesmo! São dois irresponsáveis, inconsequentes que acham que podem salvar o mundo sozinhos!
Akk finalmente lhe deu as costas e saiu a passos pesados e apressados.
Aquele brilho nos olhos dele eram lágrimas? Impossível.
Ayan voltou a ficar mais confuso do que nunca e precisou apoiar as costas na parede pra tentar processar todos os acontecimentos daquele dia.

 

Na semana seguinte, assim que Ayan chegou pra aula de história da arte, Yok já estava lá. Ayan o cumprimentou de longe e sentiu o rosto queimar quando ele sorriu de volta.
Por que ele não podia ser o Akk?
Ayan assistiu a aula frustrado, tentando não olhar pra cópia do amor de sua vida e falhando. Quando a professora os liberou, Ayan tentou sair apressado, mas foi parado por Yok no meio da rampa.
- Por que a pressa? - questionou com um sorriso e Ayan engoliu em seco.
- Não quero que o Akk me veja com você - foi sincero, mas Yok apenas riu.
- E você tem medo dele desde quando? Lembro muito bem que uma das maiores indignações do meu irmão sempre que conversávamos era como você não obedecia ele e aquilo fazia ele surtar.
- Não é questão de medo nem de submissão.
- É porque você ainda tem esperança de que ele vai te corresponder - concluiu e riu quando Ayan arregalou os olhos por um milésimo de segundo - Você não é tão difícil de ler quanto meu irmão falava.
Ayan suspirou, soltando seu pulso do agarre de Yok delicadamente, foi então que viu a tatuagem fina que ele tinha envolvendo o antebraço.
- O que você quer comigo? - questionou - Eu vi que você não anotou nada na aula, é isso que você quer? - tirou sua mochila do ombro pra pegar seu caderno, mas Yok o fez parar no meio do ato.
- Não preciso de anotações, tenho memória fotográfica - disse e Ayan o encarou surpreso - Vim falar com você pra te convidar pra uma coisa. Mas, antes, preciso que você me prove que é confiável.
- Eu nem sei pra o que você tá me convidando, como você espera que eu te prove alguma coisa?
- Só posso dizer que é do seu interesse.
- Você nem me conhece.
- Estou começando a achar que te conheço melhor que o meu irmão - Yok sorriu e piscou, fazendo o rosto de Ayan esquentar mais uma vez - Vou te procurar de novo ao longo da semana pra conversarmos - e deu dois tapinhas no ombro de Ayan antes de ir embora.
Ayan o acompanhou conforme Yok ia tirando a blusa social da faculdade e ficando apenas com uma regata cavada que mostrava a tatuagem em seu ombro que eram três pássaros voando e outra em sua costela que parecia uma letra do alfabeto chinês. Ayan suspirou e passou as mãos no cabelo, sem saber o que pensar sobre tudo aquilo. Sentiu alguém o observando e, ao olhar em volta, encontrou o olhar de Akk no topo da rampa. Ele provavelmente tinha visto boa parte daquela interação.
Ayan fez menção de ir na direção dele, mas Akk deu meia volta e se afastou rapidamente.
Inferno.

 

Pelo visto Yok não era alguém de palavra igual ao seu irmão porque Ayan não teve notícias dele até a aula de história da arte da semana seguinte.
Ayan ficou na porta da sala esperando Yok sair depois de falar com a professora, mas ele apenas fez um gesto com a cabeça como se quisesse que Ayan o seguisse. E ele assim o fez.
Estavam a meio caminho de sair do campus quando Akk surgiu junto com Kan e Wat. Yok e Ayan pararam de andar e o primeiro suspirou.
- Dá pra sair da frente? - questionou e Akk o ignorou, encarando Ayan.
- Ele não vai pra lugar nenhum com você - disse antes de olhar pra Yok novamente.
Yok soltou uma risada pelo nariz e olhou pra Ayan de rabo de olho.
- Fica a seu critério, Aye - deu de ombros e continuou andando, esbarrando no ombro de Akk e passando direto por Wat, que prudentemente saiu do caminho.
Ayan encarou Akk e os dois tiveram uma breve discussão silenciosa antes de Ayan dar um passo adiante. Akk prendeu a respiração sem perceber.
- Admite o que você sente por mim que eu não dou mais um passo - Ayan pediu com o rosto a centímetros de distância.
Akk trancou o maxilar e seu queixo tremeu.
- Se algum dia você realmente quis alguma coisa comigo, você não vai a lugar nenhum com o meu irmão - falou com a voz baixa e trêmula como nunca - Se você for com ele, eu nunca mais vou confiar em você.
Ayan deixou um canto seu lábio se erguer em um sorriso triste.
- E quando foi que você confiou? - questionou e tocou no ombro de Akk antes de desviar o olhar do dele e caminhar na direção que Yok havia ido.
Ayan não olhou pra trás.
Nem Akk.
Kan e Wat trocaram olhares preocupados antes de amparar Akk e levá-lo dali, sabendo bem sobre a relação que ele tinha com o irmão gêmeo e sobre seus reais sentimentos por Ayan.
Yok estava na beira da calçada em frente a saída do campus escorado em uma moto e não ficou surpreso quando viu Ayan andando na sua direção.
- Sabia que você era confiável - sorriu e jogou um capacete pra ele antes de colocar um em si mesmo e subir na moto - Sobe aí.
Ayan hesitou.
- Você tem algum outro lugar que precisa estar, madame? - Yok questionou e Ayan bufou.
Talvez ele não gostasse realmente dessa outra versão de Akk.
Por fim, colocou o capacete e subiu na moto.
Yok dirigiu por quase trinta minutos com ele. Ayan estava começando a achar que estava sendo sequestrado quando pararam diante de um galpão em uma rua deserta e não pavimentada. A partir daí Ayan teve certeza de que estava sendo sequestrado. Yok parou a moto e os dois desceram.
- Espera aqui fora - orientou depois de abrir o portão e empurrar a moto pra dentro.
Ayan olhou em volta, tentando gravar bem os arredores e lembrar o caminho que fizeram pra quando precisasse pedir por socorro, e se sobressaltou quando Yok chamou seu nome de lá de dentro. Ele engoliu em seco e entrou.
O galpão parecia ser uma oficina de motos misturada com um puxadinho pra moradia precária e o cheiro era de óleo de motor e suor de homem. Ayan não gostava muito do primeiro. Seguiu a voz de Yok e logo chegou ao centro do galpão, onde havia um sofá velho e nele estava um menino de cabelo curto arrepiado sentado ao lado de um mais baixo que tinha franja e usava óculos - esse parecia ainda mais destoado daquele ambiente do que o próprio Ayan, mas, a julgar pela linguagem corporal dos dois, eles eram um casal. Perto do sofá havia uma mesa com bancos longos e, sentado sobre ela, estava um garoto de cabelo descolorido e expressão ainda mais questionadora do que o de cabelo curto do sofá. Vindo de dentro da oficina apareceu um homem ainda mais velho vestido de macacão de mecânico e, por incrível que pudesse parecer, era o que tinha a expressão mais amigável. Mais próximo de Ayan estava Yok, o encarando sério e beirando a impaciência.
- Então? - o de cabelo curto questionou quando Ayan finalmente chegou até Yok.
- Esse é o Ayan que eu falei pra vocês essa semana - Yok explicou - Aye, esses são Gram - apontou o de cabelo loiro - Sean e White - apontou os dois no sofá - E nosso líder Kumpha.
- Líder? - Ayan questionou, o encarando.
- Você já deve ter ouvido falar do ROL - White falou do sofá e Ayan o encarou.
- Sim, e daí?
Sean soltou uma risada.
- Você trouxe pra gangue alguém mais burro que o Black, parabéns, Yok!
White deu um tapa de leve no peito de Sean com as costas da mão.
- Ele só tá se fazendo de sonso! Ele andava com o meu irmão na escola - explicou e Sean ficou tenso, se levantando do sofá.
- Você sabe que o seu irmão é um merdinha escravo de sistema.
- EI! - Ayan se adiantou, peitando Sean - Olha como você fala dele, seu otário!
Sean soltou uma risada de escárnio e White o segurou pelo braço, o afastando de Ayan.
- Não foi isso que ele quis dizer - White garantiu.
- Foi sim - Yok disse com a voz firme e suspirou antes de encarar Ayan - Ninguém ama meu irmão mais do que eu, mas você sabe muito bem até onde ele vai pra manter as coisas em ordem.
Ayan não queria concordar, mas sabia que não podia negar também.
- A real é que o Ayan entrou na Suppalo algumas semanas atrasado e iniciou um motim dentro da escola - Yok explicou.
- Então foi você?! - Gram o encarou, agora parecendo maravilhado - Cara, sou seu fã!
Ayan piscou rápido algumas vezes, não sabendo como responder àquilo.
- Ahn… obrigado?
- A questão é que ele é um de nós - Yok disse.
- Porra nenhuma - Sean negou e cruzou os braços - Você estudou em Suppalo sem bolsa pra ter entrado atrasado assim sem problemas. Certo?
- Certo.
- Ele é ainda mais privilegiado que o seu irmão, já que pra ele só falta consciência de classe.
- Sean - White o repreendeu com o olhar e ele o encarou irritado, mas, assim que seus olhos encontraram os de White, sua expressão suavizou - Eu também sou privilegiado. Isso não impede nada.
- Mas você é você - Sean resmungou desviando o olhar e Gram e Yok reviraram os olhos.
- Enfim - Yok se pronunciou - Ele conseguiu sozinho iniciar uma revolução que fez Suppalo abolir os uniformes e expôs a maldição da escola de forma que todo mundo soubesse que sempre foram os monitores que causaram aqueles acidentes pra manter todo mundo na linha.
- Como você descobriu tudo isso? - White questionou, agora parecendo maravilhado também.
- Ah, eu tive ajuda - deu de ombros - Mas… foram vocês mesmo que invadiram a fábrica do Tawi? E botaram fogo na casa dele?!
- Foi - Yok sorriu orgulhoso - E pretendemos atacar de novo, mas precisávamos de reforço e, quando te encontrei na faculdade e soube que você era o Ayan que meu irmão tanto reclamava, tive certeza que era um presente dos céus.
- Vocês… querem que eu participe do próximo golpe? - Ayan questionou surpreso.
- Só se você se sentir confiante e estiver ciente das consequências - Kumpha se pronunciou pela primeira vez, fazendo todos voltarem a atenção pra ele - Você não é mais um adolescente. Não está em um protesto simples protegido pelos seus direitos como estudante. Agora você é um adulto e está prestes a cometer um crime.
- Assim você vai assustar ele, Kumpha - Gram choramingou.
- Não acho que ele vá se assustar tão facilmente - Kumpha sorriu antes de encarar Ayan.
- Eu…
- Tá na cara que ele é um iniciante, não tá pronto pra isso - Sean resmungou e Ayan o encarou irritado.
- Qual é o seu problema, cara?
- O meu problema é você dar mole e foder a gente por causa do seu namoradinho escravoceta de milionário e ditador!
- Já mandei você não falar assim dele! - Ayan foi pra cima de Sean novamente, mas foi impedido por uma mão no seu peito.
Kumpha o encarou sério e o afastou devagar antes de se virar para Sean.
- Você sabe as condições da família do Yok e o motivo do irmão dele seguir esse caminho - falou sério e Sean trancou o maxilar, mas assentiu respeitosamente antes de olhar para além de Ayan.
Quando olhou pra trás, viu que ele encarava Yok, que desviou o olhar pra encontrar os olhos de Ayan.
- Podemos conversar? - pediu e Ayan olhou em volta, vendo todos se afastando até deixá-los sozinhos.
Yok suspirou e se jogou deitado no sofá, cobrindo o rosto com o braço e ficando assim por uns segundos, talvez pensando por onde deveria começar. Ayan permaneceu de pé, se sentindo um peixe fora d’água, mas, ao mesmo tempo, sentindo que deveria continuar ali. Até finalmente Yok tirar o braço do rosto e se sentar, olhando pra Ayan.
- Você conhece o Akk, sabe que mais do que ninguém ele sofre com o sistema - falou e Ayan assentiu - Nós amamos ele, então conseguimos entender melhor do que outras pessoas.
- Como você pode deixar alguém falar assim do seu irmão? Ainda mais sabendo tudo que ele passou!
- Nós passamos tudo juntos, Ayan - Yok se levantou, ficando mais alto que ele e o deixando irritado por ter que olhar pra cima - Eu não fui pra Suppalo porque eu não quis. Tinha capacidade de ganhar uma bolsa assim como o Akk, mas eu nunca tive o desejo de ser o orgulho da nossa família. E esse fardo acabou recaindo pra ele. O que eu faço pode acabar atrapalhando a vida do Akk, assim como as coisas que você fez, mas não é só porque meu irmão quer se encaixar nesse sistema por achar que deve alguma coisa aos nossos pais que eu tenho que seguir isso também.
- Você sabia que ele começou a estagiar na fábrica na semana que vocês invadiram e sabotaram ela? - Ayan soltou e viu Yok arregalar os olhos em surpresa por uma fração de segundos antes de recuperar a expressão de antes.
- Não tem como ganhar uma guerra sem algumas baixas.
- Você tá disposto a destruir o Tawi mesmo que isso signifique o fim do sonho do Akk?
Yok encarou Ayan por longos segundos antes de dar um sorriso triste e suspirar. Ele levou a mão até o rosto de Ayan, alisando sua bochecha com o polegar como havia feito na primeira vez que se viram, mas, agora, Ayan não precisou usar todas as suas forças pra não se deixar levar por aquele toque. Ele não lhe causou nada demais.
Não era Akk ali, afinal.
- Mais uma vez eu tava enganado e o Sean tava certo - lamentou - Você não tá pronto.
- Eu tô pronto! - Ayan segurou o pulso de Yok e o afastou a mão dele do seu rosto - Eu não tenho obrigação moral com o Akk. Desde que nos conhecemos ele já sabia que eu era assim e inclusive já espera que eu faça parte disso. Mas ele sabe que você faz parte?
- Claro que não! Seria demais pra ele.
Ayan soltou uma risada de escárnio e negou com a cabeça.
- Você acha que conhece seu irmão, mas não sabe de porra nenhuma - Ayan se afastou e ajeitou a mochila no ombro - Você devia dar mais créditos ao Akk, já que foi ele quem segurou o fardo de ser quem ele também não queria só por você ter pulado do barco primeiro.
Yok inflou as narinas, visivelmente irritado, mas não disse nada.
- Pode me incluir na próxima missão - Ayan falou - Mas, se eu fosse você, contaria a verdade pro Akk.
- Assim como você contou sobre o seu tio?
- Meu tio era minha família. O Akk era um desconhecido! Não mistura as coisas, Yok - Ayan lhe deu as costas pra ir embora.
- Espera! - Yok disse e ele parou de andar - Você acha mesmo… que ele entenderia?
Ayan deixou um canto da sua boca erguer em um sorriso antes de virar de frente pra Yok de novo.
- Você não fez sua pesquisa direito sobre o motim em Suppalo - falou e Yok franziu o cenho - O Akk foi quem me ajudou pra que tudo desse certo. O quanto antes você perceber que ele pode ser um ótimo aliado, antes vocês vão conseguir finalizar o plano de vocês.
- Ele nunca aceitaria cometer um crime!
- Ele era monitor chefe em Suppalo! Quem você acha que causou a maldição daquele ano e teve coragem de expôr tudo depois?
- O Akk também participou da maldição?
- Não só participou como fez tudo sozinho. Só aliviaram a punição dele porque isso entrou no acordo quando estávamos negociando com os reitores da escola e porque o Kan e o Wat assumiram a culpa junto, mesmo não tendo feito nada.
- Por isso não foi nada pra ficha dele…
- E a escola abafou o caso o máximo que conseguiu. Acho que você precisa passar mais tempo com o seu irmão e menos tempo com ESSE MERDA DESSE SEAN - falou mais alto as últimas palavras e ouviu uma porta batendo com força no segundo andar da oficina.
Ayan sorriu satisfeito e Yok riu.
- Eu consigo ver perfeitamente porque meu irmão gosta de você - falou e Ayan desviou o olhar, sentindo o rosto esquentar.
Era impossível ouvir e ver Yok e não pensar em Akk.
- Vem, vou te levar pra casa - ofereceu, indo buscar a moto.
Ayan aceitou porque, mesmo se quisesse, não saberia sair dali.

 

No dia seguinte, Ayan estava voltando do almoço na cantina quando viu Akk e Yok conversando. Ayan duvidava que Yok estivesse contando toda a verdade pra ele, considerando que os dois pareciam conversar amistosamente - na medida do possível -, mas já era um começo.
Akk pareceu sentir seu olhar e se virou na sua direção. Ayan sentiu seu coração acelerar só de ter a atenção de Akk por breves segundos antes dele lhe lançar o olhar mais gélido que já lançou desde que se conheceram. Ayan segurou uma risada de nervoso e, assim que Yok saiu de perto, ele caminhou até Akk.
Ao perceber a aproximação de Ayan, Akk tentou caminhar pra longe, mas ele o alcançou e segurou sua mão, o puxando consigo até um canto mais afastado do estacionamento. Akk não resistiu e foi junto, mesmo bufando no cangote de Ayan vez ou outra.
Quando pareceram estar escondidos o suficiente, Ayan se virou e puxou Akk pra um abraço, envolvendo os braços no dorso dele e encaixando o rosto no seu ombro, fechando os olhos e sorrindo ao sentir o cheiro familiar de amaciante de roupa e sabonete de bebê.
Ayan permaneceu no abraço até sentir seu coração agitado se acalmar e todo o gelo do olhar de Akk mais cedo derreter. E, novamente, Akk não resistiu. Apenas fechou os olhos e apoiou as mãos nas costas de Ayan, sentindo a maciez do moletom que ele usava até hoje.
- Você alguma vez lavou isso? - Akk questionou, fazendo Ayan rir e se afastar pra encará-lo.
- Você já lava pra mim todas as vezes que rouba ele pra você.
- Eu não roubo nada, idiota, você que fica botando ele em mim, como se eu quisesse!
- E você cheira ele toda vez que tem oportunidade, então o meu cheiro não deve ser tão ruim assim.
- Cala sua boca. Eu não sei por que você tá falando comigo se eu deixei bem claro que não quero mais te ver na minha frente.
- Acho que depois de um ano já dá pra concordar que você mente toda vez que fala isso.
- Você que não sabe respeitar meu espaço. Tóxico.
Ayan riu e segurou o rosto de Akk com as duas mãos. Seus polegares traçaram a curva do alto das maçãs do rosto dele e seus olhos foram dos dele pro nariz e então a boca. Ayan sentiu o ar faltar de tanta vontade que sentia de beijá-lo.
- Posso te beijar? - pediu, já completamente hipnotizado. Ele se aproximou e seus lábios quase tocavam os de Akk quando ele paralisou com a resposta.
- Não - firme como nunca.
Ayan engoliu em seco e se afastou, se contentando em apenas roçar a ponta do seu nariz na bochecha de Akk antes de dar um passo pra trás e deixá-lo ter seu espaço.
- Você se ilude demais - Akk falou e Ayan sentiu como se flechas tivessem acertado seu coração - Depois do que você fez comigo ontem, acha mesmo que eu vou deixar você me beijar?
- Akk… você não entende.
- Nem tenta me explicar! Eu sei que quanto mais você falar, com mais raiva eu vou ficar.
- Eu precisava fazer isso… o que o Yok te falou mais cedo?
- Não te interessa. Coisa de irmão.
- Você logo vai entender - garantiu e tentou tocar o rosto de Akk novamente, mas ele o afastou.
- Eu não quero entender! Você dizia tanto que gostava de mim, que iria me esperar, mas na primeira oportunidade de fugir com uma versão melhor de mim você foi!
Ao ouvir aquilo, Ayan suspirou, em partes aliviado por ser apenas ciúmes e Akk não ter regredido em sua fase revolucionária, mas em partes se sentindo culpado por tê-lo feito acreditar que teria olhos pra qualquer outra pessoa que não fosse ele.
- Akk… - passou os indicadores pelos passadores de cinto da calça dele e, delicadamente, o puxou pra perto de novo - Eu não vou sorrir pra você não achar que eu tô de deboche, mas você não tem noção do quanto eu tô aliviado…
- Aliviado por quê, seu idiota?! - Akk espalmou as mãos no peito de Ayan, mas não usou sequer metade da sua força pra afastá-lo de verdade.
- Você é tão bobo… eu nunca podia imaginar que teria um ataque de ciúmes desse.
- CIÚMES É O CARALHO! - Akk ralhou, ficando com o rosto vermelho de raiva e vergonha.
Ayan riu e abraçou sua cintura, afundando o rosto no seu peito e ouvindo seu coração acelerado.
- Você é tão inteligente… nunca pensei que seria burro ao ponto de acreditar que eu te trocaria por qualquer pessoa na face da terra… independente do rosto ou personalidade - aos poucos, a rigidez no corpo de Akk foi diminuindo e ele foi se encaixando no abraço, suas mãos repousando nos ombros de Ayan e seu peito contraindo com o suspiro forte e trêmulo que ele deu - Você tá chorando? - perguntou sem olhar pra cima e sentiu as mãos em seus ombros apertarem o tecido do seu moletom - Eu não tenho olhos pra ninguém além de você… sempre foi e sempre será você.
O peito de Akk saltou em um soluço e Ayan sentiu uma lágrima pingar na sua bochecha. Então afastou o rosto apenas o suficiente pra encarar Akk, que tentava reprimir um choro e falhava miseravelmente.
- Por quê? - Akk perguntou com um fio de voz e Ayan franziu o cenho confuso - Por que você não fica com ele? O Yok é a versão de mim que você sempre sonhou. Revolucionário, sem medo de falar o que pensa, sem medo de ser quem ele é…
- Porque ele não é você! - Ayan segurou o rosto de Akk com as duas mãos novamente e secou suas lágrimas com os polegares - Ele pode ter seu rosto, sua voz, ser teimoso e estouradinho igual a você, mas, ainda assim, ele não é você! Não foi por ele que eu me apaixonei, não foi com ele que vivi os momentos mais felizes da minha vida desde que o meu tio morreu. Não é nele que eu penso desde a hora que eu acordo até a hora que eu vou dormir. Você não entende que não basta a pessoa se parecer com você, ela precisa ser você e ninguém é você, Akk. Ninguém que eu conheço tem coragem de ir atrás do próprio sonho por mais que todas as circunstâncias digam que ele não vai conseguir. Ninguém foi capaz de conquistar um lugar de honra e mesmo assim teve coragem de correr o risco de perder tudo por pessoas que ele nem conhecia, só porque ele entendeu que aquilo era o certo. Ninguém me repreende com olhar de desejo igual à você…
Ayan sorriu ao ver as bochechas de Akk enrubescerem.
- As escolhas dele são muito mais nobres que as minhas - Akk retrucou - Eu sou egoísta.
- Não. Você é a pessoa mais altruísta que eu já conheci. Mesmo querendo se juntar à ele, continua aturando esse inferno porque quer dar orgulho pros seus pais.
- Eu sou um covarde.
- Você era um covarde. É só te darem o isqueiro agora que você é o primeiro a acender o coquetel molotov e tacar na autoridade mais próxima que tiver. Você só precisa de uma faísca e eu posso ser sua faísca! É pra isso que eu tô aqui. E é por isso que eu nunca vou te deixar! Não vou deixar seu fogo se apagar nunca porque eu te amo!
Akk arregalou os olhos quando as lágrimas começaram a escorrer dos olhos de Ayan.
- Eu te amo muito… - repetiu e soluçou, abraçando Akk com mais força do que antes.
Akk não disse mais nada e os dois choraram nos braços um do outro ali escondidos até suas respirações se acalmarem.
Ayan foi o primeiro a se afastar. Ambos se sentaram no chão e Ayan pegou um lenço na sua mochila, limpando o rosto de Akk delicadamente conforme ele encarava o nada à sua frente.
- No que você tá pensando? - Ayan perguntou quando começou a se limpar.
Akk suspirou e pegou o lenço da mão dele, fazendo a limpeza ele mesmo e deixando um beijo na têmpora de Ayan antes de se levantar.
- Aonde você vai? - Ayan questionou.
- Vou descobrir o que meu irmão quer conversar comigo.
Ayan se levantou e segurou as mãos dele nas suas.
- Quer que eu vá com você?
- Por que eu tenho a impressão de que você sabe exatamente o que o Yok tem pra falar comigo? - estreitou os olhos e a falta de resposta de Ayan fez ele suspirar - É melhor eu ir sozinho. Nossas brigas costumam ser feias.
- Mais que as nossas?
- Sim porque não tem beijo no final.
- Eca! Graças a deus, né!
Akk riu e segurou na nuca de Ayan, se inclinando na direção dele e tocando seus lábios por alguns segundos antes de estalar um beijo ali e se afastar.
Ayan fez bico.
- É a primeira vez que você me beija por iniciativa sua e vai ser só isso? - choramingou e Akk revirou os olhos.
- E se dê por satisfeito.
- Sim, senhor.
Akk soltou o ar pelo nariz em uma risada e negou com a cabeça antes de se aproximar e inalar o cheiro do pescoço de Ayan. Então foi embora.
Ayan ficou ali apenas com o frio dos lábios úmidos e o arrepio do lado direito do seu corpo.

 

Akk chegou em casa e viu a moto de Yok na porta, coisa rara aquela hora do dia. Quis dar as costas e voltar pros braços de Ayan, mas sabia que aquela conversa precisava acontecer há muito tempo e, afinal, havia chegado a hora. Ele destrancou a porta e viu Yok botando comida na mesa pra mãe deles e conversando com ela em linguagem de sinais. Seu pai estava no sofá vendo televisão e Akk o cumprimentou antes de tocar no ombro da mãe e cumprimentá-la em sinais também.
Yok apenas o encarou e pediu licença, saindo por onde Akk havia entrado, e ele o seguiu.
- Sobe - Yok disse depois de jogar o capacete pra Akk e dar partida na moto.
Os dois dirigiram por mais de uma hora até chegarem em uma praia que Akk conhecia muito bem. Haviam crescido ali antes de Akk passar pra Suppalo e seus pais se mudarem pra uma casa simplesmente em uma pequena favela pra que pudessem continuar convivendo com os filhos, já que também não podiam pagar um dormitório pra Akk.
Yok estacionou a moto e Akk deixou o capacete sobre o banco antes de caminhar até o cais, sabendo que o irmão viria logo atrás.
Os dois se sentaram com os pés em direção à arrebentação e ficaram encarando o pôr do sol.
Só quando anoiteceu foi que Yok resolveu falar.
- Eu faço parte do ROL - falou de uma vez, como quem tira um band aid.
Ele esperava que Akk fosse gritar, espernear, se levantar, bater os pés e, depois do seu show, iria embora. Mas aquele era outro Akk. Ele apenas assentiu uma vez e dobrou os joelhos em direção ao peito, abraçando eles.
- Você sabe como minha mãe vai ficar se alguma coisa acontecer com você, né? - foi tudo que Akk falou e Yok assentiu.
- Não tem um dia que eu não peça perdão pra ela antes de sair de casa, mas eu tô fazendo isso por ela também e você sabe.
- Eu sei… - Akk suspirou. Parecia cansado de tudo, inclusive de retrucar.
- Você não vai dizer nada?
- O que você espera que eu diga? Que isso é um absurdo e que se você for preso eu vou te visitar só pra cuspir na sua cara?
- Basicamente, é.
- Mas disso você já sabe.
- E o que que eu não sei?
- O quanto eu queria poder lutar do seu lado.
Yok arregalou os olhos e virou o rosto na direção de Akk, esperando que ele risse e dissesse que era uma pegadinha, mas Akk estava mais sério do que nunca. Seus olhos tinham um brilho quase faminto, que Yok nunca vira antes a não ser quando olhava no espelho.
- Você sabia que eu tô trabalhando na fábrica de bebidas dele, né?
- Fiquei sabendo ontem… se você vai ficar puto comigo por ter ficado de licença–
- Cala a boca e me deixa falar - ralhou e se virou com o corpo todo de frente pra Yok - Você me trouxe aqui pra eu te dar sermão ou porque me quer do seu lado?
Yok olhou nos olhos de Akk por longos segundos antes de suspirar.
- Eu não quero ser o responsável por você abrir mão dos seus sonhos. Ainda mais depois de você ter lutado tanto pra chegar onde ninguém na nossa família jamais conseguiu.
- Eu quero lutar pra que as gerações depois de mim não precisem passar pelo que eu passei - Akk falou com a voz firme e sem parecer mais cansado - Se eu cheguei até onde cheguei, quero, pelo menos, poder fazer parte dessa revolução. Eu não quero que mais menino nenhum seja oprimido ao ponto de quase cometer crimes pra manter uma bolsa de estudos! Eu não quero que apenas os ricos continuem chegando nos lugares de prestígio! Eu não quero que pessoas como a gente morram só por amar livremente! Eu não quero ver mulheres sendo humilhadas pelos mais diversos motivos! Eu não cheguei até aqui pra fazer parte do sistema, Yok, é isso que você nunca entendeu! Eu lutei pra chegar até aqui porque, no meu lugar de poder, eu tenho mais chance de mudar alguma coisa! Sem contar que, não importa o quanto eu lute, enquanto esse sistema ainda existir, só tem como eu chegar até certo ponto.
O queixo de Yok tremeu. Ele não sabia o que dizer, havia perdido as palavras no momento que Akk assumiu querer um lugar nessa luta junto com ele. Nem em seus maiores devaneios imaginou seu irmão falando aquelas coisas e a felicidade que transbordava em seu peito naquele momento escapou pelo canto dos olhos.
Quando sua primeira lágrima escorreu, Akk a capturou com o polegar.
- Seu namorado tava certo - Yok disse e Akk franziu o cenho - Você tá mesmo mudado.
- Cala essa boca! Ele não é meu namorado.
- Então ele tá disponível?
- PORRA NENHUMA! Experimenta chegar perto dele de novo pra você ver se eu não arranco suas duas pernas!
Yok riu e puxou Akk pra um abraço apertado.
- Quero te levar pra conhecer um lugar - disse por fim e pegou a mão do irmão, correndo pelo cais conforme digitava algo no celular e subia na moto.
Os dois dirigiram por mais duas horas até chegarem em um galpão.
- Que porra de lugar é esse, Yok? - Akk questionou torcendo o nariz e saltou da moto quando ela desligou.
- Sua segunda casa a partir de agora.
- Mas nem se eu tivesse passado por um transplante de cérebro com você eu ficaria nesse lugar insalubre.
- Devo admitir que tô aliviado que pelo menos alguma parte de você ainda continua aí.
- Cala a boca.
Yok abriu o portão e empurrou a moto pra dentro. Akk entrou em seguida e os dois foram juntos até o centro, onde o ROL inteiro estava reunido, inclusive Ayan.
Akk arregalou os olhos quando viu ele e caminhou a passos largos na sua direção. Ayan estava sorrindo e abrindo os braços até ver a expressão de ódio no rosto de Akk, que socou seu peito com as duas mãos, fazendo lhe faltar o ar, então lhe aplicou um golpe de judô, o derrubando sobre o tatame que havia no chão.
- Gostei dele - Sean resmungou e se encolheu pro lado de White quando Akk o encarou, ainda cheio de ódio.
- Ahn… acho que ele dispensa apresentações, né? - Yok falou enquanto Akk voltava pro seu lado e Gram ajudava Ayan a levantar.
- Então vocês são o ROL - Akk falou - E recrutaram esse idiota, né? - disse apontando Ayan com a cabeça.
- Se você continuar assim, pode entrar no lugar dele - Sean disse com um sorriso e recebeu uma cotovelada na costela de White.
- Eu só quero saber por que eu apanhei agora - Ayan resmungou.
- Eu sabia que você ia se envolver nessa merda! Você é um idiota!
- Você também tá se envolvendo!
- Mas eu sei o que eu tô fazendo!
- E eu não sei?!
- Não interessa! Não quero você indo preso! - Akk berrava.
Ayan sorriu, o que deixou ele ainda mais irritado.
- Eu também te amo, pé grande - falou com a voz doce, o que fez com que Akk fizesse menção de avançar nele de novo, mas Yok o segurou pelo braço.
- Você vai ter muito tempo pra enfiar a porrada nele depois que aprovarmos sua entrada no grupo.
- Como assim eu não tô aprovado ainda?!
- Eu voto que sim - Sean levantou a mão e White o seguiu, sorrindo pra Akk, que encarou Yok e viu ele assentir.
Akk encarou Gram que, com medo, ergueu a mão rapidamente e, por fim, encarou Kumpha.
- Como a decisão foi unânime, bem vindo ao ROL, Akk.
- Obrigado.
- Acabei de perceber que agora vamos ter dois casais de boiolas e eu e o Gram - Yok resmungou desgostoso.
- A gente pode namorar também, gostoso - Gram sorriu.
- Sai fora - fez cara de nojo e usou Akk como escudo quando Gram se aproximou.
Todos riram, inclusive Akk que ajudou Gram a chegar em seu irmão com facilidade, sendo considerado um traidor do próprio sangue.
Depois de muito descontrair, Kumpha precisou trazer a atenção de volta pra eles.
- Bom, odeio ser o estraga prazeres…
- Na verdade você ama, Kumpha - Sean falou e ele riu.
- Acho que esse papel fica mais pra você, né?
- É verdade - Gram, Yok e White concordaram.
- Eu não esperava isso de quem dorme comigo, mas tudo bem!
White riu e o abraçou de lado.
- Continuando - Kumpha disse - Nossa próxima missão é a mais arriscada de todas, por isso que tivemos que conseguir reforços, vamos precisar de toda ajuda possível.
- Sei de mais gente que pode ajudar - Akk se pronunciou e todos o encararam surpresos - Que foi? Vocês acham que o Ayan revolucionou a escola inteira sozinho?
- Sim - todos responderam em uníssono, menos Yok que olhava pro irmão com um sorriso orgulhoso.
- O Ayan não chegaria a lugar nenhum sem mim - Akk sorriu e piscou pra Ayan, que desviou o olhar com um sorriso idiota no rosto.
- Cara, eles são piores que o Sean e o White - Gram choramingou.
- Larga de ser recalcado - Sean ralhou e deu um tapa na cabeça dele.
- Quem pode te ajudar, Akk? - Kumpha perguntou - São confiáveis?
- Boto minha mão no fogo por eles. Ajudaram a gente na revolução em Suppalo e também trabalham na fábrica.
- Jura?! - Ayan disse, surpreso.
Akk sorriu e sacou seu celular.
- Já volto.

 

Pouco mais de meia hora depois, um carro estacionou em frente a oficina e Akk foi abrir o portão, voltando com mais três garotos.
- O Kan tá de segurança no turno da noite - apontou pro seu lado direito pra um menino alto e com rosto bem delineado, que acenou nervoso - O Wat foi obrigado a pegar um trabalho pra bancar a faculdade de cinema já que os pais dele falaram que não pagariam, então ele conseguiu um bico na parte da lavanderia higienizando os aventais e essas coisas - apontou pro seu outro lado, onde um menino com rosto arredondado e lábios grossos sorriu e uniu as mãos na frente do rosto em cumprimento - E o Thua tá no laboratório junto comigo - indicou o menor do grupo, que estava ao lado de Kan e apenas deu um pequeno sorriso quando o encararam.
- Isso é perfeito! - Sean se surpreendeu - Temos um cara pra burlar a segurança, um pra arrumar disfarces e dois pra guiar a gente lá dentro!
- Isso tá bom demais pra ser verdade - Yok negou com a cabeça, mas tinha um sorriso no rosto - Tá falando sério, Akk? Vocês não vão entregar a gente pra polícia amanhã?
- Vão precisar chamar é uma ambulância depois que eu te moer no soco!
- Então vamos recapitular - Kumpha trouxe a atenção de volta - Seus amigos vão preparar o terreno pra gente de lá de dentro. O da segurança vai arranjar uma brecha pro Sean, o White e o Ayan entrarem e tomarem a sala de câmeras. Nisso o Akk e o Thua vão passar direto pelos funcionários e chegar no depósito. Lá eles abrem o portão pro Yok e o Gram e entregam os uniformes que eles conseguirem com o Wat, então os dois roubam o caminhão que tá com as drogas e levam pro nosso ponto de encontro. Enquanto isso, os outros três que ficaram na sala das câmeras, dois ficam de guarda e o outro apaga tudo até o segurança voltar pra buscar vocês e te tirar de lá de dentro.
- A gente larga o caminhão no ponto de encontro e foge. Depois liga pra polícia - Yok explicou.
- E onde seria esse ponto? - Ayan questionou.
- Na sede da maior empresa do Tawi, onde estão acontecendo os protestos - Yok respondeu com um sorriso perverso, o qual ele retribuiu.
O único homem mais maldoso que Chadok naquele país era Tawi, então Ayan teria prazer de ajudar a derrubá-lo.
- Só uma pergunta - Akk se pronunciou - Por que o Ayan vai se infiltrar lá dentro também? Ele não tem treinamento nenhum.
- Nós só vamos fazer essa missão daqui duas semanas, que é quando um novo carregamento tá pra chegar, certo? - Sean pressupôs e Akk assentiu.
- Como você sabe?
- Nós estamos de olho nesse depósito há semanas. Já percebemos os padrões. A cada quinze dias chegam três caminhões, sendo que um deles só é descarregado do lado de dentro do depósito.
- E nesse meio tempo vocês pretendem treinar o Ayan pra chegar no nível de vocês?
- Para de me rebaixar - Ayan resmungou - Não é como se eu estivesse na linha de frente, só vou ajudar a vigiar a sala de câmeras!
Akk bufou, mas assentiu.
- Se algo der errado, o ideal é que só tenham vocês que trabalham lá circulando - Kumpha explicou.
- Não que você já não vá perder seu emprego de qualquer jeito - Yok deu de ombros - Já que vamos fazer de tudo pro Tawi falir.
- Muito bom contar com vocês - Kan debochou e todos riram.
Depois de combinar o plano, o grupo foi se dispersando e logo só estavam Akk e Ayan sentados no sofá. O silêncio era confortável e, mesmo que não estivessem se tocando, sentir o calor da presença um do outro já era suficiente.
- Por que você resolveu entrar nessa? - Ayan questionou.
- Você sabia muito bem que eu aceitaria quando mandou o Yok me contar tudo.
- Sabia… mas não significa que eu queria. Só achei que seria melhor deixar você mesmo decidir.
- Que bom que você sabe que não tem que tomar minhas decisões por mim.
Ayan riu e deslizou até sua cabeça deitar no ombro de Akk. Muito melhor assim.
- Pena que você não agiu da mesma forma quando me viu aqui - provocou e Akk riu.
- Quando eu briguei com você na faculdade, eu sabia que você não tinha nada a ver com isso. Mas eu sei lá, acho que queria te assustar de alguma forma, fazer você parar antes que a oportunidade surgisse e não tivesse mais como voltar atrás.
- Akk, eu sou privilegiado pra caralho… se tem alguém que você devia tá se preocupando, esse alguém é você mesmo e o seu irmão.
Akk suspirou e assentiu.
- É, eu sei… mas não quero que nada aconteça com você. Agora a gente não tá só enfrentando um diretor carrancudo, são traficantes e caras armados e treinados. Por isso que eu não queria que você participasse.
- Eu sou tão treinado em me esgueirar pelas beiradas quanto você. Inclusive até mais, já que o senhor chefe dos monitores podia entrar onde quisesse a hora que quisesse.
- Você entendeu o que eu quis dizer… só inclui meus amigos nisso porque sei que eles me xingariam se descobrissem que deixei eles de fora e porque eles não vão correr nenhum risco já que são funcionários e os capangas do Tawi conhecem quem trabalha lá. Mas vocês não.
Ayan colocou a mão sobre a de Akk no colo dele e a apertou.
- Vai dar tudo certo - garantiu.
E Akk quis mais do que tudo acreditar nele.

 

Como prometido, Kumpha treinou não apenas Ayan como Akk também. Os dois estavam sempre lutando contra Yok e Sean, que eram os mais experientes na luta corporal do grupo. E treinavam pontaria com Gram e White, que foram os que se especializaram nisso. Akk até os ensinou a fazer coquetéis molotov melhores e, na encolha, produziu mais bombas de gás pra eles. Ayan patrocinou novos fogos de artifício e uma moto, já que não era muito ideal participar dessas coisas de carro.
O dia da missão havia chegado mais rápido que qualquer um deles poderia imaginar. Akk estava saindo de casa pra trabalhar quando uma moto parou diante dele. Ayan tirou o capacete e Akk revirou os olhos, mas sorriu.
- O que que você tá fazendo aqui?
- Vim levar meu namorado pro trabalho, não posso?
- Primeiro, eu não tenho namorado. Segundo, você não devia estar com os outros?
- Vamos nos reunir só lá pra meia noite. Dá tempo de eu te levar pra jantar antes de ir pro trabalho ainda.
- Eu não gosto de me atrasar, Ayan.
- Por que você parou de usar meu apelido depois que a gente se formou?
- Porque ficamos as férias inteiras sem nos falar e eu achei que não fosse te ver nunca mais.
- Você tinha meu telefone também, sabia?
- Quem queria me conquistar era você.
- Minha parte eu fiz, né. Faltava você admitir que gostava de mim também.
- Pode colocar essa frase no presente porque eu ainda não admiti nada.
Ayan soltou uma risada e negou com a cabeça.
- Você é a pessoa mais cabeça dura, teimosa e impossível do mundo, sabia?
- Ainda dá tempo de você correr pro outro gêmeo.
- E esse ciúme já é mais do que eu preciso pra saber que você já é meu e eu sou seu - Ayan se inclinou na direção de Akk, mas ele apenas espalmou a mão no seu rosto e o afastou, rindo e pegando o capacete reserva em seguida.
- Acho bom me levar pra comer alguma coisa gostosa - exigiu ao sentar no banco de trás.
- Tão servindo Akk ao molho madeira em algum lugar?
- Cala essa boca! - Akk riu e deu um tapa no ombro dele.
- Se segura firme, meu pé grande - Ayan segurou as mãos de Akk e fez ele envolver sua cintura.
- Você só tá inventando isso pra se aproveitar de mim, pensa que eu não sei? - Akk sussurrou e Ayan sorriu antes de dar partida na moto.
- E você tá tirando casquinha aí também, né? - remexeu o quadril, o qual estava muito bem encaixado entre as pernas de Akk, e riu quando ele pigarreou e chegou pra trás.
Os dois seguiram viagem e, apesar de não dar tempo de realmente ir em um restaurante, Akk sentiu seu coração palpitar quando percebeu que estavam no trailer no qual comeram juntos pela primeira vez na época da escola e ele fez Ayan se esconder junto com ele do trio do World Remembers.
- Sério? - questionou com um sorriso quando os dois tiraram o capacete e Ayan deu de ombros.
- Tinha que te levar pra um lugar que eu teria certeza que você ia gostar, né? E a essa hora nosso café LGBT friendly já fechou.
- Idiota.
Os dois sorriram e foram caminhando lado a lado até uma das mesas.
Por incrível que pudesse parecer, as senhoras do trailer lembraram deles e, além de prepararem uma janta bem gostosa e quentinha, ainda cederam bolinhos de carne extras em comemoração ao relacionamento duradouro.
- E quando que você vai contar pra elas que não tem relacionamento nenhum aqui? - Akk provocou quando os dois ficaram a sós de novo.
- E você acha mesmo que eu vou perder as bolinhas de carne extra? Se você parar de vir aqui comigo eu venho fingindo que você me deu um pé na bunda pra ainda ganhar miojo de graça!
Akk riu e negou com a cabeça.
- Você é ridículo…
- E eu só tô esperando você admitir que me ama também.
- Espera sentado pra não cansar - disse, mas tinha um sorriso no rosto.
- Eu tenho todo o tempo do mundo. Por você eu espero até nevar na Tailândia.
- Cala essa boca!
Ayan riu e eles terminaram de jantar em silêncio. Pagaram pela comida, se despediram das senhoras e voltaram pra moto.
No caminho até a fábrica, Akk apoiou a cabeça nas costas de Ayan e apertou os braços em volta dele em um abraço aconchegante e gostoso.
Ayan soltou uma das mãos do guidão e colocou sobre uma das de Akk, a acariciando.
Nenhum dos dois disse nada.
- Pode me deixar aqui - Akk avisou quando se aproximaram da entrada da fábrica.
- Ainda tá meio longe - Ayan estranhou, mas parou a moto mesmo assim.
- É melhor não sermos vistos juntos. Muito menos a placa da sua moto.
- Eu vou colocar uma falsa na oficina depois de te deixar aqui.
- Mesmo assim… melhor não arriscarmos - Akk desceu da moto e entregou o capacete pra Ayan.
- Tá querendo me despistar porque tem um amante na firma, é? - provocou e Akk revirou os olhos.
- Muito presunçoso da sua parte achar que você é o fiel e não o amante.
- Então você trairia o amor da sua vida comigo. Muito bom saber.
- Vai a merda, pouca sombra.
Ayan riu pelo apelido que não ouvia há muito tempo.
- Te vejo mais tarde, pé grande.
- Tira o capacete - Akk pediu.
- Por quê?
- Só me obedece.
Ayan suspirou e assim o fez.
Akk se inclinou rapidamente e estalou um beijo nos lábios dele.
- Boa sorte. Por favor, não se machuca - encostou suas testas e inalou o cheiro de Ayan antes de se obrigar a se afastar e caminhar pra longe sem olhar pra trás.
Ayan ainda o acompanhou até que ele sumisse na escuridão da estrada, então botou seu capacete e voltou pra oficina pra fazer os preparativos finais.

 

Ayan estava tão cheio de adrenalina e ansiedade que tudo passou em um flash. Quando ele viu, já estavam sendo chamados por Kan pra poder entrar na fábrica.
- Valeu, Kan - agradeceu quando passou pela porta.
- Não façam eu me arrepender - Kan resmungou antes de fechar a porta atrás deles.
Ele os guiou até a sala de câmeras sem que encontrassem ninguém no caminho, como planejado.
- Tá no horário de troca de turno, por isso que tá vazio aqui - explicou quando eles entraram na sala das câmeras - Eu ontem botei laxante na bebida do cara que fica comigo tomando conta das câmeras hoje, então é pra eu ficar sozinho aqui agora, vocês podem ficar tranquilos.
- Vou ficar com você lá fora - Ayan disse - Vocês dois ficam de olho nas câmeras. White, presta atenção se alguém estiver se aproximando daqui e Sean monitora o Akk e os caminhões.
White e Sean assentiram e Ayan foi pra porta com Kan.
- Tem certeza de que isso vai dar certo? - Kan perguntou nervoso.
- De qualquer forma, não vai dar problema pra vocês, vamos garantir isso independente do que aconteça.
- Mas também não é como se eu quisesse que algo de ruim acontecesse com vocês também.
- Calma, vai dar bom.
Kan pegou o celular e leu a mensagem que havia chegado.
- Wat acabou de entregar os uniformes pro Thua e pro Akk - avisou.
- Beleza. Agora é a sua deixa.
Kan saiu pra poder escoltar Yok e Gram até as portas da garagem sem passarem por nenhum segurança ao mesmo tempo que Akk pegava o celular e avisava pra Yok se preparar pra encontrá-lo.
O tempo passava e Ayan se sentia cada vez mais inquieto. Algo não estava certo. Ele abriu a porta e botou a cabeça pra dentro.
- Eles já entraram? - quis saber.
- O Kan acabou de chegar na porta da garagem com eles e o Akk abriu a porta enquanto o Thua tá vigiando - Sean avisou.
Ayan suspirou aliviado.
- Fudeu - White disse - Fudeu, fudeu, fudeu!
Ele levantou e puxou Sean com tudo.
- Que foi?! - Ayan questionou nervoso.
- Tem uma escolta inteira vindo pra cá! Acho que descobriram a gente!
- Mas como?!
- Maldito do parceiro do Tawi deve ter acesso remoto das câmeras - Sean rosnou, se recompondo conforme os três corriam pra fora da sala.
Ao mesmo tempo, Yok e Gram entravam e corriam em direção ao caminhão, sendo guiados por Thua.
- Cadê o Ayan? - Akk perguntou pra Kan ainda do portão.
- Eles ficaram na sala de câmeras.
Antes que Akk pudesse responder, eles ouviram tiros e arregalaram os olhos. Ambos saíram correndo pra dentro da garagem e foram em direção à fábrica.
- Thua! - Kan parou no caminhão e segurou nos braços dele - Você tá bem?
- Uhum - garantiu - Os tiros vieram de dentro da fábrica. É melhor vocês se apressarem - disse olhando pros outros dois.
Yok deu partida no caminhão e, devido a urgência da situação, pisou na ré e arrebentou o portão da garagem, passando por cima de tudo que viu pela frente na hora de manobrar.
Gram gritava desesperado conforme se agarrava em algo pela sua vida.
- LARGA DE SER FROUXO - Yok gritou, rindo alucinado conforme dirigia em direção à estrada - Agora não tem mais volta!
Na fábrica, Akk sentia seus ouvidos zumbirem pelo segundo tiro disparado, agora com ele lá dentro. Ele queria gritar, chamar por Ayan, mas sabia que não podia, então apenas correu junto com Kan e Thua conforme tentavam não parecer cúmplices e falhando, já que o desespero de Akk era nítido.
Mais três tiros seguidos foram ouvidos e eles se encolheram e cobriram as orelhas. Logo o alarme soou, significando que todos os funcionários deveriam evacuar o prédio.
- AYAN - Akk berrou, já não se importando mais com cautela ou segurança. Ele precisava ter certeza de que Ayan estava bem.
- Akk - Kan sussurrou, tentando impedi-lo, mas acabou correndo junto com ele, trazendo Thua consigo.
Akk continuou gritando e correndo até uma mão surgir e tampar sua boca. O coração de Akk quase parou, antes dele perceber que era Wat. Akk se sentiu aliviado por um milésimo de segundo, até ver a expressão de desespero no rosto dele e seu uniforme todo ensanguentado.
- O que aconteceu?! - Akk perguntou e Kan o segurou pelos ombros.
- Você tá machucado?!
- Não! Não é meu o sangue! - avisou e olhou pra Akk.
Só aquilo já foi o suficiente pro seu coração ir parar no estômago.
- CADÊ ELE?! - questionou agarrando a roupa de Wat.
- Vem comigo!
Wat os guiou até uma parte mais escondida do almoxarifado, onde nem mesmo Akk e Thua conheciam, apenas Kan sabia por já ter feito ronda ali.
- AYAN - a voz de Akk falhou assim que viu o rosto suado dele e sua mão coberta de sangue conforme ele tentava pressionar uma toalha na barriga, sem sucesso.
Akk correu como nunca e ajoelhou diante dele, de repente esquecendo todos os procedimentos necessários pra se fazer numa hora como aquela.
Sean estava ao lado de Ayan com um tiro na coxa e White tentava estancar o sangramento - que parecia ainda pior.
- Como isso aconteceu?! - Akk perguntou desesperado.
- Calma, Akk - Kan pediu, o segurando pelos ombros e o afastando pra que Thua pudesse se aproximar e tentar estancar o sangramento de Ayan.
Akk chorava copiosamente conforme via o rosto pálido de Ayan se contorcendo de dor e desejava incessantemente que tivesse sido ele no lugar.
- Não… não - repetia com o rosto inundado de lágrimas.
- Akk, por favor - Kan implorou - Eles não podem saber que a gente tá aqui…
Akk mordeu o lábio com força suficiente pra romper a pele em uma tentativa de cessar seus gritos e soluços. Mas nada adiantou quando a cabeça de Ayan tombou pro lado com os olhos fechados.
- NÃO! NÃO! - Akk se soltou de Wat e Kan e empurrou Thua pra longe, segurando o rosto de Ayan nas suas mãos - Não… - agora ele sussurrava, perdendo as forças - Você não pode me deixar… Não depois de tudo que você fez, não depois de fazer eu me apaixonar por você, não, eu te proíbo! - Akk sacudia a cabeça de Ayan e sua única esperança era que conseguisse sentir o rosto dele ainda quente nas suas mãos geladas - Você não pode me abandonar… não depois de levar meu coração com você… não pode, não pode!
As lágrimas pingavam sem parar do rosto de Akk e ele tremia tanto que acabava sacudindo o corpo de Ayan junto.
- Por favor… por favor, você me prometeu que não ia se machucar - sua voz mal saía conforme ele se inclinava e apoiava a testa no peito de Ayan - Acorda, por favor… eu… eu ainda nem disse que te amo de volta - confessou em um sussurro.
Akk sentiu uma vibração na palma das suas mãos, que estavam próximas a garganta de Ayan, então ele logo ergueu a cabeça com os olhos arregalados.
- Aye? Aye, você tá me ouvindo? Segue minha voz!
Mais um gemido, agora que foi ouvido por todos. Então as pálpebras de Ayan tremeram e, lentamente, ele abriu os olhos.
- Você sempre foi quentinho como um copo de café - resmungou, mas só Akk conseguiu ouvir, já que colocou o ouvido bem próximo da boca dele - Mas agora você tá muito gelado.
Akk soltou uma risada de puro alívio.
- Pelo menos isso te acordou - Akk se inclinou e deu um beijo na testa de Ayan - Agora fica com a gente, não desmaia de novo, tá bom? A gente vai te levar pro hospital.
Kan e Wat pegaram Ayan e Sean no colo e os levaram até onde Kumpha havia chegado com um carro. Os dois feridos foram colocados ali rapidamente.
- Encontro vocês no hospital - Kumpha disse e arrancou com o carro.
Akk odiou não poder ir junto pra segurar na mão de Ayan, mas, pelo menos, White estava lá pra ajudar.
- E agora? - Kan questionou.
- A gente volta, bota nossas roupas limpas e vai pro hospital também - Wat disse - Eles evacuaram a fábrica, não é pra gente ficar lá. Sem contar que vão saber que fizemos parte de tudo mais cedo ou mais tarde. Não tem mais volta.
- Como eles descobririam?
- Quando a gente voltou pra fábrica, eu vi o chefe da segurança com um tablet na mão - Thua contou - Acho que eles tem acesso remoto nas noites do carregamento ilegal.
- Malditos! Você não sabia disso, Kan?! - Akk questionou.
- Claro que não! Eu sou novato, só fico nos lugares mais imbecis, tipo aquele canto do almoxarifado que ninguém lembra que existe e só guardam avental e toalha de rosto pros banheiros!
- Não adianta brigar agora - Wat falou - Vamos pegar nossas coisas e ir pro hospital.
Akk foi na frente, correndo como se sua vida dependesse daquilo.
E meio que dependia, porque ele não sabia do que seria capaz se algo acontecesse com Ayan.
Assim que chegaram no hospital, Akk correu até White ao avistá-lo na recepção.
- Cadê eles?! - questionou e White segurou nos seus braços com firmeza, o acalmando.
- Já entraram em cirurgia pra retirar as balas. O Kumpha tá vendo um jeito da gente fugir assim que eles acordarem porque não podemos falar com a polícia. E eu preenchi a ficha deles com nomes falsos.
Akk assentiu, relativamente aliviado em saber que eles já tinham tudo sob controle.
Agora era só esperar.
E foram as duas horas mais longas da sua vida, mas, finalmente, os feridos foram liberados pra ir pro quarto.
Akk ficou com Ayan e White ficou com Sean enquanto Kumpha combinada com Kan a fuga deles dali usando os dois carros. Como ele precisaria guiar o quarteto pra fora, Kan ficaria com um carro ligado, enquanto Wat ficaria com o outro.
Thua ajudaria a colocar Ayan no carro de Kan enquanto Kumpha ajudaria a colocar Sean no carro dele.
Felizmente, os dois acordaram quase ao mesmo tempo, e Akk e White se apressaram em colocá-los em cadeiras de rodas. Eles os empurraram até o corredor dos elevadores, mas acabaram dando de cara com a polícia.
Kumpha tomou a frente e Akk logo reconheceu o policial que estava no comando.
- Arrombado do caralho - ralhou.
- Que foi? - Ayan perguntou.
- Esse otário é ex do Yok. Os dois sabiam demais um sobre o outro e divergiam demais em opiniões, então acabaram terminando.
- O Yok se envolveu com um policial?!
- É uma longa história - Akk bufou.
O olhar do ex de Yok logo encontrou o de Akk e ele vacilou por um momento.
- Não me olha assim não, seu nojento, eu sou o Akk. Nunca soube diferenciar a gente, né, seu merda?
Dan pigarreou e ignorou as ofensas de Akk, voltando a encarar Kumpha.
- É melhor vocês se entregarem pacificamente e tentarem um acordo. Os caras tão dispostos a colaborar.
- Porra nenhuma! - Akk ralhou - Acha mesmo que eu vou confiar em você?!
- Pode perguntar pro Yok.
Akk segurou o guidão da cadeira de Ayan com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos.
- Segura meu Ayan - disse pra White antes de sair de trás da cadeira e parar diante de Dan, ignorando as armas sendo engatilhadas em sua direção - Tô vendo o quanto vocês tão sendo pacíficos apontando arma pra dois feridos no meio do corredor de um hospital.
Dan suspirou cansado.
- O que você fez com o Yok, seu babaca?
- Temos eles sob custódia pra conversar também.
- Um caralho! Vocês atiram primeiro e perguntam depois! Olha o que seus homens fizeram com eles! - apontou atrás de si.
- Não foram meus homens.
- Mas foram os caras que colaboram pra manter o mesmo sistema que você defende há tantos anos! Mesmo depois de chegar na posição máxima de poder você continua sendo um merda covarde! Eu tenho nojo de você!
Akk cuspiu no chão aos pés de Dan. Então sentiu uma mão pousar sobre seu ombro.
- Vamos ouvir o que eles têm a dizer - Kumpha pediu e trouxe Akk de volta pra cadeira de Ayan.
Ele trocou olhares com White e isso fez um alerta apitar na mente de Akk. Algo estava pra acontecer.
Kumpha aceitou ser algemado e os cinco foram junto com a polícia até um dos elevadores. Assim que ele chegou no andar, um soco foi desferido na cara do primeiro policial e um chute no saco de outro antes de uma joelhada na cara.
Eram Yok e Gram!
Akk foi empurrado quando um tiro soou, acertando a parede atrás dele.
- Se abaixa! - White orientou conforme ajudava Sean a engatinhar pra fora da cadeira.
Akk fez o mesmo com Ayan.
Os quatro seguiram pro elevador conforme Yok, Gram e Kumpha nocautearam os policiais, e seguraram a porta até eles conseguirem entrar. Akk sorriu ao ver Yok dar um soco bem dado no rosto de Dan antes de pegar a chave da algema dele e correr por último pra dentro do elevador.
Todos suspiraram aliviados, mas continuaram com a adrenalina a mil conforme Yok libertava Kumpha e até chegarem no segundo andar.
- Daqui a gente desce pela escada de emergência que os carros tão lá - Kumpha orientou.
Akk e Yok amparavam Ayan enquanto Gram e White ajudavam Sean para que fossem o mais rápido possível.
Ouviram barulhos de correria atrás deles, mas não olharam e seguiram até conseguir atravessar a sala de fisioterapia e chegar na escada.
Yok e Gram correram na frente, abrindo as portas e avisando pros motoristas engatarem a primeira. Assim que os feridos foram acomodados nos bancos de carona, todos os outros correram pra entrar e fechar as portas conforme Kan e Wat cantavam pneu pra fugir dali o mais rápido possível.
Akk sentia uma veia pulsar na sua cabeça conforme tentava engolir o nó na sua garganta. Só conseguiu respirar aliviado quando Ayan colocou a mão pra trás entre os bancos e tocou no seu joelho. Só de estarem se tocando e na segurança do carro de Kan, Akk já se sentia aliviado.
Os dois carros dirigiram até um lugar extremamente movimentado e só então foi que perceberam que estavam no meio de uma manifestação.
A onda que foi arrastada pelos seus feitos e alertas causou aquilo e, agora, tinham a atenção dos repórteres no caminhão de drogas que estava bem na porta da sede da empresa de Tawi, cercada de manifestantes.
Ambos os carros foram parados por não conseguir seguir adiante e todos, com exceção dos feridos e seus pares, saíram pra participar.
Akk e Ayan ficaram dentro do carro sorrindo e observando conforme o seu plano dava certo, afinal.
- Mais um motim realizado com sucesso - Ayan disse e ergueu o punho.
Akk riu e bateu seu punho no dele antes de se inclinar e deixar um beijo no ombro descoberto pelo pijama de hospital.
- Eu fiquei com tanto medo de te perder - admitiu baixinho e sentiu a mão de Ayan no seu cabelo em um cafuné relaxante.
- Você nunca vai me perder - garantiu - Mesmo se eu morrer, vou virar o seu anjo da guarda.
- Não fala isso… você tá proibido de morrer.
- Que amizades tóxicas são essas que nos proíbem das coisas?
- Agora eu sou seu amigo, é?
- Uma hora a gente cansa de levar fora.
- Hum… não era eu que tava delirando falando de copo de café só porque eu toquei em você.
- Não era eu que tava falando que eu roubei seu coração.
- Eu sabia que você tava ouvindo! - ergueu a cabeça indignado - Você é um merdinha! Espera só essa ferida ficar boa pra você ver se eu não vou te encher de porrada!
- E eu vou te encher de beijo, porque você sabe que a regra é essa - Ayan virou o rosto na direção de Akk e sorriu.
- E eu vou cobrar com juros - sussurrou antes de segurar no queixo dele e tocar seus lábios delicadamente, apreciando a maciez antes de abrirem a boca e suas línguas, finalmente, se tocarem. Nenhum dos seus beijos havia chegado a esse ponto e Akk sentiu o ar faltar quando Ayan sugou sua língua. Como troco, mordeu o lábio inferior dele com força, mas só conseguiu um gemido em resposta - Oferecido - resmungou com os lábios ainda roçando nos dele.
- Eu já disse que sou inteiro seu… e você agora é só meu - Ayan se virou mais no banco mesmo com dor e tocou o rosto de Akk, olhando em seus olhos - Diz que me ama - pediu baixinho.
Akk sentiu seu peito doer de amor por ele, então sorriu.
- Eu–
A porta do carro foi aberta, assustando os dois, e Kan enfiou a cara pra dentro da parte de trás.
- Tão falando pra botar vocês no teto do carro! Querem homenagear a gente!
- Acha uma boa ideia? - Akk questionou, se virando pra Ayan.
- Eu ainda tô meio anestesiado, então a hora seria agora.
Akk assentiu, mesmo relutante, e saiu do carro.
Kan, Akk e Thua ajudaram Ayan a sair e o colocaram sentado no teto. Akk subiu depois, sendo seguido por Kan, Thua e Gram. No carro de trás estavam Wat, Yok, Kumpha, Sean e White.
Akk não deixou de perceber a mão de Yok discretamente passando por trás de Wat e estreitou os olhos, negando com a cabeça.
- Olha que galinha - resmungou pra Kan, mostrando a cena pra ele, que riu.
- Já tava na hora dele aceitar que é bi.
- E quem é você pra julgar alguém, Kan? - Thua se meteu e Akk e Ayan riram.
- Ah, amor, eu nem demorei tanto assim, vai… é que eu precisava encontrar você - fez bico e Thua sorriu e negou com a cabeça.
- Nem a cota hetero do grupo a gente tem mais - Ayan disse e os cinco riram.
- Espera - Gram se sobressaltou - Eu sou a cota hetero do meu grupo?!
- Pra isso você precisa ser hetero, né? - Akk disse.
- Mas eu sou!
- Aham - os quatro falaram em uníssono, afundando Gram em uma crise existencial no meio de um protesto a favor de minorias e contra bilionários.
Grande noite.

 

Conforme as ruas foram esvaziando, eles voltaram pra dentro dos respectivos carros e dirigiram em direção à oficina. Conseguiram ouvir no rádio que as notícias sendo divulgadas era que houve um tiroteio sem feridos na fábrica de Tawi e alguém aproveitou a distração pra encher um caminhão com drogas pra tentar incriminá-lo. Parece que o time de marketing dele já tinha tudo sob controle. Isso quase desanimou parte do grupo, mas, de certa forma, era bom que não haveria acusações pra cima deles e ninguém mais questionaria sobre os feridos. E, mesmo com a passada de pano da imprensa, a onda de indignação já havia tomado boa parte do país. A internet não parava com vídeos da manifestação e hashtags apoiando o ROL. Mediante a tudo, a missão tinha sido sim um sucesso.
Ao chegarem na oficina, ambos os grupos entraram e Kumpha surgiu com um isopor cheio de cerveja, fazendo todos comemorarem conforme se aconchegaram pelo sofá, tapete e almofadas pelo chão.
White estava sentado com as pernas sobre a coxa boa de Sean no sofá e, ao lado deles, Ayan estava de lado no colo de Akk, se recostando no peito dele conforme sentia a anestesia o abandonando e o cansaço e dor da ferida vencendo. O mesmo acontecia com Sean.
White e Akk trocaram sorrisos antes de aconchegarem a cabeça de seus respectivos namorados em seus ombros e observaram o grupo caótico que jogava verdade ou desafio sentados no chão.
Kan obrigava Gram com o olhar a fazer ele beijar Thua pela milésima vez quando, finalmente, a garrafa caiu pra Yok desafiar Wat.
- Verdade ou desafio? - Yok questionou com um olhar faminto.
- Verdade - Wat disse, tímido.
- É verdade que você quer me beijar?
- Desafio.
- Te desafio a me beijar.
Os outros começaram a gritar e aloprar e, enquanto tentava não rir alto, Akk protegia o ouvido de Ayan com a mão.
- Beija! Beija! Beija! Beija!
Yok, como o exibido que era, fez questão de se levantar e estendeu a mão pra Wat. Akk já contorcia o rosto em desgosto e o escondeu contra a cabeça de Ayan quando Yok puxou Wat pela cintura e o beijou como nem ele e Ayan haviam feito ainda.
- Meu deus, que saudade da minha Eugene - Gram choramingou, fazendo todos rirem.
- Cara, nem eu beijo o Ayan assim, vocês são nojentos, oferecidos! - Akk reclamou e Yok apenas ergueu o dedo do meio enquanto Wat se encolhia sentando ao lado de Kan novamente.
- A culpa não é minha se você é um frouxo - Yok deu de ombros e foi a vez de Akk lhe mandar o dedo.
Aos poucos, a energia deles foi se esgotando também e todos foram caindo deitados uns por cima dos outros.
Akk sorriu ao ver Gram esparramado no chão com Yok virado de frente pra ele e uma das pernas sobre a sua conforme Wat, inconscientemente, segurava na barra da blusa dele. Kan e Thua dormiam juntos em um colchão de solteiro e só de ver o quanto eles pareciam confortáveis os olhos de Akk pesaram com sono. Kumpha não estava em lugar nenhum desde o começo da brincadeira de verdade ou desafio e, agora, Sean parecia estar acordando.
- A gente não tem como subir por causa da perna dele - White disse - Vocês se importam de ficar com a nossa cama e a gente dormir aqui no sofá?
- Imagina! - Akk assentiu e, delicadamente, começou a acordar Ayan, que resmungava como um bebezão - Vocês querem que eu bote algum colchão aqui? - questinou conforme Ayan levantava.
- Não precisa - White sorriu - É bom que ele fica com a perna pro alto apoiada no encosto ou no braço do sofá. Só ia pedir se você consegue me ajudar a puxar o assento com ele em cima porque acho que não consigo sozinho.
- Claro!
Akk sentou Ayan no banco antes de ajudar White a puxar o assento do sofá, permitindo que Sean e ele tivessem mais espaço.
- Obrigado. Podem ficar à vontade. É naquela porta de correr logo no segundo andar - White apontou e Akk assentiu.
Com esforço, Ayan conseguiu subir a escada. Por sorte seu tiro havia sido de raspão, apesar de ter rasgado fundo a pele, então ele só precisou levar alguns pontos. Diferente de Sean que ficou com a bala alojada na coxa.
Quando finalmente deitaram na cama, Akk afundou o rosto no pescoço de Ayan e deixou um beijo ali.
- É tão bom tá assim com você… - resmungou, achando que ele já estava dormindo de novo.
- Eu tava disposto a ficar assim com você desde que te vi pela primeira vez - Ayan disse e Akk sentiu seu coração acelerar.
- Por que você continuava me tendo como seu porto seguro mesmo eu sendo a maior representação do que você desprezava naquela escola?
- Eu já te falei, Akk… você me conquistou desde a primeira vez que eu te vi. Por mais que nossas opiniões fossem diferentes, eu valorizava muito sua determinação e quanto mais você resistia à mim, mais eu me sentia atraído por você.
- Masoquista.
- Acho que eu sou um pouco…
Os dois riram e Akk deslizou a perna até ficar por cima das de Ayan, e ele repousou a mão sobre sua coxa, a alisando - Akk havia tirado a calça dos dois e ambos estavam apenas de camisa e cueca, então o contato das peles fez ele se arrepiar.
- Sem contar que eu percebia o quanto você queria ajudar todo mundo menos você mesmo - Ayan disse de repente e Akk abriu os olhos, olhando pro perfil dele que encarava o teto.
- Eu tinha um dever a cumprir. Sempre acreditei que minhas obrigações eram prioridade máxima.
- Essa eu devo admitir que era uma coisa que eu odiava em você. Porque te afastava de mim sempre que eu sentia que tava conseguindo me aproximar.
Akk assentiu e passou o braço sobre o peito dele, tocando seu ombro em um abraço de lado.
- Obrigado por me esperar e por nunca desistir de mim.
Ayan pegou a mão de Akk que estava no seu ombro e a trouxe pro seu peito, repousando a sua sobre ela.
- Você foi a minha melhor escolha, eu não teria feito nada diferente, ainda mais tendo a certeza de que teria você comigo no final.
- Aye…
- Hum?
- Eu te amo.
E aquilo era tudo que Ayan precisava ouvir pra se sentir plenamente feliz e com missão cumprida. Ele fechou os olhos com um sorriso no rosto e Akk viu quando uma lágrima escorreu do seu olho, então a capturou com os seus lábios e aproveitou pra deixar um beijo na têmpora dele.
- Você foi minha melhor escolha - Akk sussurrou antes de, também, se render ao sono.
Aquele grupo ainda tinha muitas lutas pra enfrentar e a manhã seguinte seria ainda mais caótica, mas, naquele momento, tudo que importava era que tinham dado um golpe quase fatal em um dos homens mais poderosos do país e haviam sobrevivido.
E, finalmente, estavam juntos de verdade.

Notes:

E aí? Eu amo ler e responder comentários e, se quiserem me conhecer ou até sugerir novos plots ou algum extra pra essa história, meu arroba no twitter é firsthkao <3
Kudos são mais que bem vindo!