Chapter Text
Kageyama fechou os olhos enquanto ouvia os gritos e por instinto, puxou sua irmãzinha o mais perto que conseguia, quase soltando o cinto de segurança de sua cadeirinha. Frustrado por uma fração de segundo tomou a decisão mais idiota possível, se soltou de seu cinto e se curvou sobre a garotinha assustada, na tentativa de protegê-la do carro que agora girava várias vezes sem controle algum.
O que pareceu horas de agonia provavelmente durou cerca de 2 minutos, e tudo o que passava na mente de Tobio era "proteger Aiko proteger Aiko Aiko Aiko" - esse foi seu primeiro pensamento ao segurar a garotinha em seu primeiro dia de vida e provavelmente também será a última coisa passando pela sua cabeça, seu último pensamento dedicado ao ser que pertence a ele.
Os primeiros meses de Aiko foram estáveis, quase bons o suficiente para Tobio acreditar que algo tinha estalado na mente de seus pais e que com um segundo filho eles iriam rever as atitudes que tomaram no passado. No entanto, logo descobriu que possivelmente nada iria mudar sua situação.
Foi no primeiro aniversário de Aiko, quando seus pais viajaram 3 dias antes prometendo voltar com balões e doces que a última gota de esperança se esvaiu de seu ser.
Ele contou - treze dias - até seus pais voltarem.
Treze dias nos quais Tobio teve zero contato com os pais, sua única prova de vida eram as fotos na praia postadas em uma rede social, a qual Kageyama tentou enviar mensagens mas nenhuma foi sequer aberta.
Treze dias em que o jovem Tobio de 12 anos teve que aprender a como cuidar de um bebê de 1 ano.
Treze dias sem os responsáveis por ele, e ninguém notou. Não que ele fosse pedir ajuda, ele faria tudo sozinho e tudo seria perfeito.
Quando notou que seus pais poderiam nunca mais voltar, se apressou para fazer um bolo para Aiko, colocou a menina para dormir depois de muito choro, pois não tinha entendido totalmente como alimentar um bebê de um ano e tudo o que ela precisava. Com muita pesquisa descobriu que o açúcar só atrapalhava o organismo dos bebês, então se comprometeu a não dar nada com açúcar a ela.
O bolo foi feito com aveia, e adoçado com tâmaras e mel. Kageyama acha que se saiu muito bem, colocou uma velinha em cima e encheu alguns balões que achou no sótão.
Quando a garotinha acordou, eles cantaram juntos e ele se sentiu no direito de pedir algo para ela, já que a única coisa que ela podia pensar nessa idade era morder as coisas.
Assoprando a vela, com os olhos fechados ele disse suavemente abraçando sua garotinha "que possamos pertencer a uma familia."
Os próximos aniversários foram semelhantes, seus pais viajavam por semanas e toda vez Kageyama não sabia se iriam voltar, a partir do 4 aniversário ele desejou que não voltassem.
Aiko tinha 6 anos agora, seu próximo aniversário era em alguns meses e Tobio tinha decidido com a garota em comemorar na praia.
A indiferença de seus pais quanto a Kageyama nunca o incomodou tanto assim, ele sempre foi independente e achava que todas as famílias fossem semelhantes. Quando começou a ir para a escola e ouvir histórias de outras crianças ele soube que era diferente. Mas esse sentimento só se transformou em ódio quando sua irmã nasceu. Ele aceitaria qualquer punição, qualquer golpe ou humilhação jogada nele, mas se um olhar feio fosse disparado em direção a garota ele iria até o inferno para protegê-la.
Felizmente foram raros os incidentes com a irmã, o que antes eram dias de punição e dor se tornou dias sem ninguém em casa, restrições com comida, produtos de higiene e coisas básicas, mas nunca encostaram um dedo na garota, seja para um beijo ou um tapa.
Nesse momento muito da sua vida passa por sua mente, a infância marcada por agressões e dor, a falta de amor e apoio, a solidão... A luz entrando em sua vida com o nascimento de Aiko e a esperança se esvaindo, a adolescência sendo roubada aos poucos, a maturidade se moldando a partir de uma tarefa que não era sua, a responsabilidade de criar um ser humano pesava nas mãos, mas cada pequena ação valia a pena no final do dia, quando Aiko o olhava com aqueles grandes olhos azuis, dizendo que o amava.
Ele pôde pensar no seu time - seus amigos - e como ele não os agradeceu por trazer nada mais que alegria pra vida dos dois. Eles sempre foram muito carinhosos com Aiko.
Ele conseguiu tirar um tempo no caos para pensar em Hinata, seu melhor amigo. Pensou em como foi incrível passar a noite em sua casa, mesmo que fossem só os dois e as crianças lá, era possível sentir o calor e o carinho no ambiente. Hinata disse que sua mãe tinha ido visitar a familia de seu padrasto e que eles voltariam no outro dia, e que poderia chamar alguém se quisesse companhia e já que Natsu iria ficar, tinha sido uma boa ideia chamar os irmãos Kageyama. Tobio não sabe como Shoyo ficou tão seguro de sua mãe realmente voltar no outro dia, não entendeu na hora o motivo de Hinata não estar arrombando os cadeados dos armários para pegar alguma comida para os próximos dias, mas não questionou nada. Com o tempo, as garotas dormiram e eles foram para a sala ver TV. Hinata ofereceu algum lanche mas ele recusou, era possível que a mãe de seu amigo não voltasse, ele precisa da comida então porque está oferecendo assim? Hinata insistiu e os dois resolveram fazer pipoca, ao entrar na cozinha, Tobio ficou surpreso - os armários não tinham trancas - pobre Shoyo, não ter algo fisicamente te parando deve ser mais agonizante ainda quando se está com fome.
Hinata abriu o temido armário e puxou alguns pacotes de bolacha e um de pipoca e começou a cantarolar pela cozinha, arrumando tudo. Foi onde Kageyama não conseguiu ficar quieto. Ele era idiota? Claramente vão notar essas coisas faltando, ele tem que pegar do fundo se quiser comer algo.
Esse foi o pensamento mais claro que ele teve no meio do caos, pois ele foi descuidado e então se obrigou a falar um pouco de sua situação em casa. Ele lembra, o filme tinha sido esquecido e Hinata o escutava atentamente, com um vestígio de lágrima, a qual ele não deixou cair. Kageyama porém não conseguiu fazer o mesmo, aquilo tinha sido o bastante, anos sendo forte acabaram no segundo em que sentiu o abraço quente do menino mais baixo. Ele fez Hinata prometer que não contaria nada a ninguém, e os próximos dias foram cheios de surpresas a Aiko com frutas e doces, os quais Kageyama gentilmente aceitou, tendo conseguido 3 anos e meio sem açúcar para a garotinha, dos quais ele se orgulhava muito. Hinata começou a chamá-lo para dormir em casa com mais frequência também, sua família se mostrando muito doce e o conforto no ar fazendo sentido.
Ele sentiria falta disso, da família de Shoyo.
No entanto, seus pensamentos foram cortados quando finalmente o mundo parou de girar, suas costelas doíam pois ao tirar o cinto foi jogado em diversas direções na tentativa de ficar em cima de Aiko, que chorava sem entender nada.
Assim que o movimento parou, rapidamente a soltou da cadeirinha e tirou forças que nem sabia que tinha para abrir a porta e tirar os dois de lá. Nessa hora não se importou com seus pais, e ele quase se sentiu mal por isso.
Ele correu.
E então um barulho ensurdecedor e um clarão surgiu e logo estava muito quente, Aiko ainda gritava em seus braços mas ele não podia parar agora, ao olhar para trás pode ver as chamas altas, que consumiam aos poucos tudo o que ele podia chamar de família. Ele não se atreveu a chorar.
Quando subiu para a pista, colocou a garotinha assustada no chão a procura de ferimentos, satisfeito quando não encontrou nenhum que fosse alarmante, abraçou ela mais forte do que provavelmente deveria, ela estava bem.
E então ela começou a chorar em pânico de novo, e ele não entendeu o que estava errado até ver vermelho em sua camiseta que antes era branca. Droga, ele nem podia sentir o que quer que esteja o fazendo sangrar assim.
Com os braços trêmulos levantou cuidadosamente a camisa, estremecendo quando o frio do ar passou pelo corte em seu peito. Ele avaliou, e decidiu que iria sobreviver, então tirou a camiseta de manga longa e a amarrou forte, na esperança de parar o sangramento.
Avaliando suas opções, decidiu ir para o caminho oposto do qual estavam indo. Tobio sabia que não estavam muito longe de sua cidade, não lembrava ao certo para onde estavam indo mas sabe que seus pais nunca viajaram longe com os filhos.
Então, quando se sentiu forte o bastante para levantar e seguir, tomou Aiko em seus braços e andou.
Diferente de antes, sua mente agora estava vazia, nenhum pensamento específico passava por sua cabeça, ele não sabia nem o que iria fazer agora. Seu celular estava em casa pois seus pais não gostavam que ele trouxesse quando saiam e ele estava assustado.
Depois de andar pelo que pareceu pouco mais de uma hora, ele chega a um posto de gasolina, e vê uma cabine de telefone. Totalmente sem dinheiro, liga para o único lugar onde sabe que vai ser acolhido, sua mente nem processa a ligação, e Tobio não sabe o porquê discou logo esse número, quase que inconscientemente.
Quem atende não é Shoyo.
"Olá boa noite..." uma voz doce fala do outro lado da linha e Kageyama quase chora ao ouvir.
"Oi tia, é o Tobio" ele consegue falar, apesar da voz trêmula
"Tobio meu querido, onde você está? Está tão tarde, você está bem?"
"Tia eu preciso de alguém pra buscar a gente, eu não sei onde estamos" Kageyama tropeçou nas palavras, tentando deixar claro o problema mas falhando com as palavras cortadas.
"Ei, calma amor, me diz primeiro onde você está, o que consegue ver ao redor?" a voz doce se mantinha estável mas era possível sentir uma urgência, e ao fundo barulho de chaves e passos altos correndo"
"Eu não sei, estamos em um posto de gasolina... Aiko vai ver o nome por favor"
Assim que Aiko sai da cabine, um pouco relutante em deixar o irmão mas decidida a ajudar, Tobio sente seu mundo cair.
"Tia eu..." - e ele quebra - "eu tô tão assustado, de repente o carro saiu da estrada e depois tudo o que eu sabia era como estava quente e o fogo era tão alto eu só queria sair de lá com a Aiko" ele tenta explicar o melhor que pode com o choro cortando suas palavras.
"Aguente firme querido, nós estamos indo okay, seja forte, vai ficar tudo bem" a voz dela era equilibrada, mas agora era explícito sua preocupação.
"Bi, Bi" chega Aiko falando "tem um S e um H e duas letras E e um L mas eu não sei ainda que som faz o S e o H junto"
"A gente tá no posto Shell" ele consegue transmitir
"Não saiam daí okay? Se mantenham seguros, nós estamos indo, vocês estão machucados?"
"A Aiko tá bem, tá só arranhada e-" a ligação cai. Mas tudo bem, alguém está vindo por eles.
"Bi o que tá acontecendo cadê a mamãe e o papai" Aiko fala pela primeira vez em muito tempo
"Mamãe e o Papai não vão voltar agora Aiko, é só eu e você... A tia Mayumi vai vir levar a gente pra casa ta"
"Eles voltaram da última vez..." Aiko fala cabisbaixa
"Mas dessa vez é pra sempre Aiko" Kageyama encerra a conversa e senta o mais confortável que pode, estremecendo ao fazer mais pressão ao corte no peito.
Aiko começa a chorar baixinho de novo e Kageyama não diz nada, só aponta para sentar ao seu lado e segura sua cabeça junto ao lado do peito que não estava escorrendo sangue e deixa algumas lágrimas caírem.
"Somos so eu e você Aiko, nossa pequena família"
Uns 20 minutos depois ele consegue ver um carro chegando em direção a eles, a luz o irrita então ele fecha os olhos, Aiko caiu no sono em algum momento e ele aproveita os últimos segundos de paz. E então ele ouve passos rápidos na direção dos dois, e ao longe sirenes.
