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Céu azul de nuvens alvas.
Manhã ensolarada de clima agradável.
Por entre as vielas, gatos preguiçosos caminham por detrás dos postes, outros cochilam sobre a murada das casas, mas a maioria se aquece nos filetes de sol matutino. Libélulas vertiginosamente movem-se até o lago mais próximo, e abelhas polinizadoras assentam-se ao redor das flores.
Por ali, anda um homem trajado com um belo kimono florido que cobre seu haori branco e o shihakusho –, uniformes rigorosamente exigidos para seu posto. Despreocupadamente caminha seguindo sua intuição e a boa memória. A cidade não havia passado por mudanças significativas, e ele sempre poderia encontrá-la rapidamente graças a sua pressão espiritual.
O capitão da 8ª divisão estava sentindo falta de sua paixão e resolveu buscá-la para levá-la de volta com ele para casa.
Viu-a em seus afazeres por trás dos vidros da floricultura. Era um local majestoso, simples e aconchegante, com parte de sua estrutura semelhante a de uma estufa. Clarabóias abertas e borboletas atraídas para a vasta quantidade de rosas.
[Nome] servia biscoitos amanteigados aos companheiros de trabalho. Seu rosto estava alegre, gentil e de expressões bem-intencionadas. Sorria e acenava com a cabeça quando com ela falavam.
Satisfeito com a vista, Shunsui aproveitou para assistir por mais algum tempo.
Em um momento de distração, sua amada ficou sozinha e Shunsui aproveitou para adentrar a loja, empurrando a porta para soar o sino. Ela se virou para cumprimentá-lo – um cliente! –, mas não havia nada lá.
Nenhuma presença detectada.
O sino chacoalhou por alguns segundos enquanto [Nome] franzia as sobrancelhas, perguntando-se se o vento seria capaz.
O sino parou.
Um par de braços sutilmente deslizou por cima de seu trapézio, cobrindo seus ombros enquanto desciam para envolvê-la pela cintura. Seu corpo congelou temeroso por um instante, um sentimento confuso e desconhecido invadindo-a como acontece quando o desconhecido se mostra presente.
Em seu pescoço, uma respiração aproximou-se vagarosamente. Os lábios de um homem beijaram-no com diligência, as cócegas de sua barba trouxeram-na de volta à realidade.
“Shunsui!” [Nome] virou-se para ele, abraçando-o tão apertado que poderia tê-lo ferido se fosse um homem comum. Seu chapéu de juncos caiu com o impacto e Shunsui arfou com a compressão, esbanjando um sorriso com a recepção calorosa. “Você veio me ver?”
[Nome] afundou o rosto em seu peito, segurando-o pelas costas. Em seguida, na ponta dos pés, pendurou-se nele com os braços ao redor de seu pescoço para que Shunsui se inclinasse sobre ela. Shunsui segurou-a nos braços, olhando diretamente em seus olhos, seus narizes prestes a se tocarem.
Ele piscou, admirando cada um dos detalhes dela que mais amava. Um fascínio tomou-se em seu interior, as írises cintilaram e com ternura ele inspirou para então respondê-la. [Nome] não esperou e, atônita, segurou desajeitadamente pelas laterais de seu rosto, puxando-o para ela.
Shunsui recebeu um beijo arrebatador que chegou a surpreendê-lo. [Nome] sentiu as mãos dele repousarem em sua cintura, determinadas a sentirem-na depois de algum tempo sem contato.
Ao redor, o som dos pássaros calou-se como se houvessem concentrado-se em assistir. As borboletas pousaram nas folhas e os gatos bocejaram em conjunto.
Quando [Nome] o soltou, Shunsui ergueu-se outra vez, recuperando toda sua circunferência, cobrindo-a com sua sombra. Ele ergueu a mão, acariciando divertidamente com o polegar seu maxilar. [Nome] deu a ele um sorriso iluminado. Uma aura parecia irradiar de sua silhueta, a aura que Shunsui sempre enxergou, mas parecia visível a todos desta vez.
“Oh...” Um murmúrio escapou de terceiros.
O capitão virou sua cabeça para trás, encontrando os funcionários assistindo a cena com todo o tipo de expressão engraçada e envergonhada. Ele ergueu as sobrancelhas, sorrindo sem jeito enquanto esfregava a nuca.
“[Nome]-chan, querida, acho que temos companhia...” Ele sussurrou para ela, mas todos puderam ouvi-lo.
Eles podem vê-lo, [Nome] pensou.
É um gigai, Shunsui lançou um olhar cúmplice para sua amada.
Ela reparou então que suas vestes na verdade eram fielmente litorâneas; camisa de botões com estampas floridas, bermuda e chinelos. Além disso, seu longo cabelo estava preso em uma trança.
Era a primeira vez que ela o via nestas vestes, como um homem descontraído do Mundo dos Vivos.
Lembrando-se de seus colegas, [Nome] esgueirou-se da sombra de Shunsui para vê-los. O homem aproveitou para abaixar-se para recolher seu chapéu, e sua paixão o segurou pela mão, alinhando-se com ele lado a lado para passar uma boa imagem.
“Oh, pessoal, este é meu esposo Shunsui. Eu sempre falo dele, então agora podem finalmente conhecê-lo pessoalmente.”
“Yo.” Shunsui cumprimentou.
Os olhares seguiram-no de cima a baixo, dos pés à cabeça. Lisonjeado, Shunsui colocou seu chapéu, escondendo a parte superior de seu rosto momentaneamente. [Nome] determinadamente o apresentou para os demais, irradiando uma energia contagiosa.
Ela também o serviu com chá e biscoitos. Em sua pausa o levou até o jardim, onde conversaram.
Desde sua estadia na cidade, os ataques de hollows foram completamente erradicados e nenhum incidente precisou ser reportado. A melhor maneira que encontrou para passar tanto tempo com os humanos, foi disfarçando-se deles, agindo como eles e criando rotinas pacatas, como por exemplo funcionária de uma floricultura. Com este álibi, nunca a descobriram, sequer alguém poderia desconfiar, e graças a sua força, capacidade e desempenho, suas patrulhas sempre foram seguras e invulneráveis.
De boca cheia, Shunsui observou pelo canto dos olhos um dos funcionários camuflado atrás de alguns vasos de plantas. Ele mantinha os olhos semi-cerrados em Shunsui, como se desconfiasse de sua integridade, mas talvez fosse por sua conduta, ou pelas vestes distintas.
Enquanto [Nome] falava, Shunsui acenou para o homem, deixando-o ciente de sua percepção. O rapaz assustou-se e desapareceu no interior da floricultura, zangado com alguma coisa que Shunsui se deu conta apenas alguns segundos depois.
O rapaz não olhava para ele, mas para [Nome].
“Eu vou voltar, mas preciso que você coloque alguém capacitado no meu lugar. O capitão da 11ª divisão não pode ceder alguns de seus homens? Não faz mal se houver uma escala, assim ele pode enviar um pequeno grupo que se reveza.”
“Querida, acho que você está se preocupando demais.” Shunsui alertou colocando sua mão sobre a dela. Sua paixão suspirou, entrelaçando seus dedos enquanto seu superior mastigava os biscoitos amanteigados. “Nós temos outros shinigamis que podem ficar no seu lugar, não se preocupe com isso. É claro que não garanto tanto tempo sem comunicados sobre incidentes, como foi com você aqui. Mas já é tempo de voltar, você também precisa de descanso, não estou certo?”
“Sim, capitão. É claro que está.” [Nome] esfregou o polegar na palma da mão de seu esposo. Ela podia senti-lo emanar uma quentura reconfortante e otimista, algo que a fazia não querer desprender-se dele.
“Há algo que tenha feito você querer ficar...? Além de seus deveres, é claro.”
Shunsui deu um gole em sua xícara de chá.
Secretamente, ele compreendeu que sua esposa havia formado laços com os humanos. Eles eram realmente intrigantes, a maioria dos shinigami que visitavam o Mundo dos Vivos já havia despertado uma certa curiosidade a respeito deles.
A brisa da manhã sacudiu as folhagens, um doce som pacífico cantou quando o mensageiro dos ventos chacoalhou. [Nome] inspirou, ela estava satisfeita com o trabalho que havia feito e olhou nos olhos de seu parceiro antes de responder.
“Me trataram muito bem nesta cidade, acho que... acho que eles gostaram de mim.”
Com alguns segundos de silêncio, Shunsui riu, surpreendendo-a.
“O que foi...?”
Ele lembrou-se do rapaz enciumado, os olhares pasmados dos outros funcionários e de como ele mesmo se sentia quando a conheceu.
Shunsui sempre teve muito apreço pelas mulheres, desde sua juventude acreditou que viveria por elas, nunca, no entanto, previu que bastasse um único olhar solidário de [Nome] para fazê-lo perceber que haviam singularidades em seu coração que diferiam de seus ideais. A rotina deixou de ser sobre as mulheres, para tornar-se sobre a mulher . Foi quando percebeu que pela primeira vez estava verdadeiramente apaixonado, como um pobre homem perdido no paraíso, buscou por sua bênção, pela deusa que o levara até lá como se ele fosse merecedor.
Sentia-se revigorado todas as vezes que se encontravam, sentia-se em paz com o delicioso sentimento borbulhante que o complementava quando estava com sua amada.
Em meio a tantas perdas, ele sabia que também haviam ganhos.
E para Shunsui, [Nome] foi mais que tudo o que ele poderia desejar.
“É claro que gostaram, querida. Você é a poesia que falta neste mundo, o refúgio que os frágeis buscam e a euforia que a gentileza cria.”
Seus olhares se uniram, ao redor da pequena mesa redonda, feita para duas pessoas, [Nome] agitou-se ao ouvi-lo. Seus pés bateram apressadamente nas pedras do chão, um sinal de ansiedade muito presente nos mais novos.
Antes de saltar para ele como tinha o costume de fazer quando estavam a sós na Sociedade das Almas, pigarreou e sacudiu a cabeça. Shunsui tinha seu mais puro olhar apaixonado direcionado a ela, e [Nome] sentia-se grata e sortuda por ter ao seu lado alguém tão tranquilo. Um homem que nunca deixava de lembrá-la sobre o quanto apreciava sua companhia, o mais romântico do Mundo Espiritual, quiçá mais compreensivo e cúmplice.
Ela amava esconder seu rosto envergonhado no peito dele, abraçando-o e ficando lá até que escurecesse. Soltando-o apenas quando era necessário separar-se.
Mas algumas vezes ela o maravilhava com algumas piadocas ou um doce sarcasmo.
“Isso é muito cortês, capitão. Mas você não pode flertar comigo no meu horário de trabalho. Minha chefe não ficará nada feliz.” Ela deu língua a ele.
“Ah, mas... você está em horário de almoço.”
“Acabou faz cinco minutos.” [Nome] sorriu ao conferir o relógio em seu pulso. "Eu vou terminar meu trabalho de hoje e me despedir. Me espera?”
“É claro. Estarei debaixo da sombra das árvores da entrada.”
“Tudo bem. Eu não vou demorar.” Levantou-se apressada, beijando Shunsui na testa, deixando-o apreciar o que havia sobrado de seu chá.
De volta a loja, ele a viu subir para o segundo andar, desaparecendo no fim das escadas.
Este lugar era mesmo pacífico, em outra oportunidade ele também gostaria de ficar um pouco mais.
Não se passaram muitos minutos, mas o suficiente para que o capitão já tivesse deixado a floricultura. De volta a seu corpo feito de reishi, brincou com alguns dos gatos da vizinhança, afagando suas barriguinhas macias e sacudindo a ponta de um galho seco de árvore no chão para que eles pegassem.
[Nome] retornou uniformizada com seu shihakusho, tabi e waraji. Zanpakutou embainhada e um novo semblante.
Shunsui ergueu-se, estendendo a mão para ela.
"Pronta?"
Seu rosto assentiu alegremente, e segurando em sua mão com um aperto firme e cuidadoso, ela partiu com ele de volta para casa.
Seja onde quer que se vá, não há lugar como o lar.
