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Quando começou, tudo estava escuro, os sons vinham abafados, longe demais para reconhecê-los e rotulá-los com um nome. De repente, existia areia, existia pedra, existia o céu e existia o som do mar batendo contra as rochas, as ondas reinadas pela lua fazendo seu caminho de ida e de volta.
A cada piscar, algo novo aparecia, tinha sangue na areia, tinha um braço caído, jogado, tinha um corpo ensanguentado e nenhum rosto para reconhecer. Um quadro ao seu lado parecia chamar sua atenção, enquanto a luz esverdeada do lampião enchia seus olhos com uma cegueira, um pavor. O quadro parecia derreter com um líquido estranho, o desenho dele mesmo olhando para o quadro, em tempo real.
Quando olhou ao seu redor novamente, sua mão, sem a luva, derretia em uma visão fantasmagórica. E quando tentou pegar a luva que estava no chão, notou sua outra mão derretendo, Seu corpo estava se arrastando sozinho para dentro do quadro, que, como uma ilusão de ótica, o engoliu por inteiro.
De repente, estava nadando, o mar azul sem fim à sua frente, ao olhar ao redor, confuso, viu, na distância, a silhueta de alguém conhecido. Milo estava flutuando, seu banjo mais a frente, perdido pelas águas. E as bolhas tomavam conta do espaço enquanto nadava até o menino parado. Sua respiração fazia seu peito subir e descer em um movimento sutil mas apaixonante, aos olhos do menino que o via, tão pacífico, respirando organicamente dentro do oceano. Talvez fosse filho do oceano mesmo, porque parecia justamente no lugar certo, ali, a flutuar. Talvez tivesse prazer em dizer que o menino que ele gosta é filho de Poseidon.
Tinha uma margarida em suas mãos, flutuando perfeitamente para abrir suas pétalas brancas e o deixar observar o quão linda a flor era. Quando finalmente chegara ao encontro do amado, percebera a porta na distância, abrindo e deixando um líquido estranho se esvair na água, um marrom que não era tão bonito quanto as mechas do cabelo de Milo, no sol.
De repente a respiração destensa se prendeu na sua garganta e viu Milo desacordar, seu corpo começando a flutuar. Tentou nadar com ele até a superfície, fugindo do líquido que tomava a forma de uma figura maléfica, um monstro. Seus pés batiam contra a água desesperadamente, procurando impulso mas aquele mar imenso nunca acabava. Estava na beira da falta de ar completa, mas mesmo assim, nunca acabava de verdade. Uma agonia intensa, imensa, e infinita. Sua mão, que agarrava a do menino desacordado, tentava puxá-lo mas o seu corpo tomava um peso estranho, e logo era revelado, o cabelo marrom dele tomou um tom mais escuro e ele parecia derreter, suas mãos podiam até tentar botá-lo de volta em seu lugar, mas não era o suficiente. Tudo desabava.
Olivier acordou em sua cama, suado, ofegante e com um peso estranho no seu peito, algo faltava. A chuva batia na sua janela, e a lua tintava seu quarto com um azul calmo mas fraco. Seus dedos fizeram um caminho próprio até seu celular, e por instinto natural, discou o número do menino do sonho. Precisava saber se Milo estava bem:
- Alô? - um sussurro foi ouvido, a voz doce mas sonolenta de Milo ecoando pela sua mente enevoada - Tudo bem?
- Sonhei com você… - sua voz estava grossa, maltratada, provavelmente havia gritado durante o sonho, já que o som da água inibia a sua própria voz.
- Hm… Foi um sonho bom? - sua calma o levou a entender que já estava acordado a algum tempo.
- Não… - disse, passando suas mãos pelo seu rosto.
- Ah… Hm… São três da manhã, Oli… - Nem pensou em olhar pro relógio, acreditava na voz mais que tudo.
- Te acordei? - perguntou, com um tom doce que só Milo podia ouvir.
- Não, passei a noite escrevendo um negócio…
- Compondo? - desejava ouvir a voz bonita dele soando pelo quarto mais que tudo.
- É… Mas baixinho… O Adrian ainda não voltou pra casa e a Amorinha e a Bárbara estão dormindo.
- Ele trabalha até tarde assim? - Perguntava qualquer coisa, só para ouvir a voz dele respondendo-as com carinho, cuidado.
- Às vezes… Quando ele tem muitas entregas para fazer…
- …Você sente falta do mar?
- Sinto… Sinto saudades de Tipora…
- …Sinto muito.
- Tudo bem… - suspirou, calmo - Quer me contar sobre o seu sonho?
- Uhum… Tinha a praia… um corpo morto… um quadro e… depois tinha o mar, e tudo começava a derreter, e você estava lá… - respirou fundo.
- Tá tudo bem agora…
- Foi assustador, eu achei que você nunca mais ia voltar.
- Mas agora eu estou aqui.
- …Você pode tocar pra mim? - pediu, abraçando uma das almofadas que deixava jogado na sua cama. Quem queria abraçar realmente estava longe demais para o afeto.
- Posso… - deu um risinho tímido antes de tocar algum acorde no banjo, e a verdade é que não importava qual fosse, já que ele achava tudo muito lindo e encantador - Eu aprendi a tocar essa daqui… daquela banda que você gosta e- Mas eu não sei cantar direito…
- Tudo bem…
- Tá… - e começou a testar alguns acordes levemente familiares - “ Long ago… juss laike de herce iu dai to gérin aguein…”
Tocou uma versão lenta e calma, de Helena - My Chemical Romance . A pronúncia estava longe de ser perfeita, mas já era demais para o menino que ouvia. Sorriu feito bobo ouvindo ele cantar, tomando nota de cada sílaba que ele gaguejava e errava, os pequenos xingos que deixava escapar e os acordes errados. Tudo encantador.
- “ Uáts the worst dé I can séy?... Thinks are better if ai stey…” - riu, baixinho - “So lon, andi gudnight… So lon and gudnight.” Só sei até aí… Desculpa se foi muito ruim, eu não sei tocar esse tipo de música…
- Ficou lindo…
- Sério?
- Uhum… Eu achei perfeito.
- Mas eu nem sei inglês direito, falei tudo errado… - conseguiu ouvir o sorriso através da sua voz. A animação e ansiedade de sempre começavam a aparecer através da calmaria da madrugada e a persona relaxada.
- Tudo bem, eu não me importo. Ficou ótimo…
- Você acha?
- Definitivamente.
Era bom ouvir Milo mais calmo, sem aquela ansiedade do dia-a-dia. Passaram alguns segundos em silêncio antes de voltarem a falar:
- Eu tô com essa música na minha cabeça… - Milo disse, rindo entre as palavras.
- Qual o nome?
- Eu não lembro! É esse o problema…
- Tá, mas como era?
- Era tipo… nam-nan-naaan… nan-nannannan-nan-nan-nannan…
- Isso não ajuda muito…
- Eu não sei cantar em inglês…
- Mas você cantou Helena super bem… - Por mais que qualquer pessoa com o cérebro 100% funcional diria que aquilo não era o melhor exemplo de alguém cantando em inglês, para Olivier, estava perfeito.
- Nem você mesmo acredita nisso, Oli - riram - Eu acho que a música é dos “Glássi Animals”…
- Hmm… Heat Waves?
- Não… É aquela mais famosinha?
- É… The Other Side of Paradise?
- Como é essa?
- I miss him, don't you blame me… That boy went stone cold crazy, caught up in camera lust he's… Ah, cê sabe… Essa.
- Ah! Conheço, mas não é ela…
- Hm… é… Helium?
- “Hélio’, isso! Aquela do final gostoso de ouvir…
- Tô ligado… - riu, baixinho.
- Foi você que me mostrou essa banda…
- Quando você comprou o seu celular, eu lembro…
- A primeira coisa que você me fez baixar…
- Foi o Spotify - completou a frase dele, sem nem pensar - e eu ainda pago pelo seu plano premium.
- Muito obrigado - Ele riu, e já sonhava com os olhos bonitos dele se fechando com o sorriso largo dele - Você sabe que eu tô sempre ouvindo música.
- Aham… - Sorriu - Você ouve a playlist que eu fiz pra você?
- Sim. Às vezes… Foi assim que eu comecei a procurar maneiras de tocar aquela música… Foi uma das que mais gostei… Mesmo que eu prefira mais as calmas.
- E a Bárbara? Que tipo de músicas ela gosta?
- Eu mostrei Pagode pra ela, no começo do ano, e as vezes ouço ela ouvindo no quarto dela.
- Achei que ela escutaria mais pop, pensando na influência da Amelie…
- E escuta pop, também. Ela bota algumas quando a gente vai limpar a casa - riu - Eu descobri que ela segue contas de fofoca no instagram só pra ter assunto com ela.
- Amelie comprou um livro sobre flores pra estudar mais e conseguir conversar com a Bárbara sobre… Até hoje não leu. Acho que agora tá guardando pra dar pra ela, de aniversário.
- Será que só as duas não percebem que se gostam? - riram novamente.
- Hm… provavelmente… - Olhou ao redor, só para seus olhos caírem no seu computador desligado - Você quer jogar alguma coisa, um dia?
- No celular? Aham, claro.
- Não, não, no computador… Jogo de verdade.
- Eu não tenho…
- Eu compro pra você - disse, sorrindo.
- Mas pra quê?
- Pra você jogar comigo… Eu te dou de… presente do dia das crianças…
- Pfft… Eu não sou tão mais novo que você, só uns meses…
- Vários meses.
- Shh… Tá, por agora eu jogo no celular… - disse, rindo - não gosto que você gaste tanto dinheiro comigo…
Olivier não podia negar que sua linguagem de amor mais forte era a de dar presentes. Se preciso, comprava qualquer coisa para o garoto.
- Tá bom. Vou comprar só minecraft pra você.
- Que isso?
- É um jogo. Dá pra pescar e… fazer um monte de coisas. No celular e computador.
- Dá pra nós quatro jogarmos?
- Aham - disse, mas pensava em jogarem sozinhos. Pensava em o presentear com flores para ele decorar a casinha que, com certeza, ele faria. Iria na caverna minerar e matar muitos bichos apenas para voltar para a casinha deles e as caminhas deles. E acharia um jeito de deixá-las juntas, não importa o que acontecesse.
- Hm… Você vai voltar a dormir? - soltou um daqueles risinhos tímidos tão lindos dele.
- Acho que não consigo… - respirou fundo, olhando novamente para a janela - É sobre o que?... A sua música…
- Sobre muitas coisas… - riu, meio nervoso - é sobre o mar… se sentir perdido… meio isolado. É uma música de amor, também.
- Parece meio triste… - colocou sua mão coberta em seu peito, olhando para o teto.
- Ah… eu não sei… - ouviu apenas o doce silêncio e a respiração compassada dele, até voltar a falar - Você já se sentiu como se ninguém sentisse as mesmas coisas que você? Mesmo sabendo que tem um monte de gente que passa por coisa parecida…?
Olhou para a mesma mão enluvada de sempre, pensando silenciosamente, mas não hesitando realmente, sabia qual era sua resposta, só não sabia como dizê-la.
- Sim - sentiu que estava prendendo a respiração, e assim que soltou, pensou melhor na sua resposta - Nem tanto, mais… Você- Bem… Vocês… É bom ter apoio.
- Uhum… Eu entendo - um acorde soou - Até um tempo atrás… tinha uma questão grande da minha vida que eu não sabia como abordar… Sabe? Eu tô tentando lidar com a… morte do meu pai e… tudo mais… Mas… isso era algo que eu sabia que tinha que encarar eventualmente, e agora eu vejo isso cada vez mais perto…
- Hm… - assentiu, pedindo silenciosamente para que voltasse a falar.
- É como um pesadelo. Sabe? Porque eu vejo todo mundo bem resolvido com isso, e eu não tive a mesma aceitação… ou… sei lá… eu nunca fui atrás. Eu não tinha recursos. E agora parece que um mundo inteiro se abriu pra mim…
- Eu estou bem resolvido com esse negócio?
- Eu não sei… E aí que tá… eu não sei como abordar…
- Pode perguntar… - seu coração palpitava com curiosidade.
- Você gosta do quê? - o silêncio podia cortar, com uma tensão quase que tangível - Tipo… é-... ahem-... de pessoas…
- Oh.
Sentia seu coração bater mais forte enquanto lembrava de noites em claro, quando era pequeno, onde pesquisava as coisas mais variadas no celular de sua mãe: “meninos se beijando”, “menino pode gostar de menino?”, “o que tem no inferno”, “meninos bonitos”, “meninas bonitas”, “eu vou pro inferno ou pro céu?”, e outras pesquisas mais a fundo no assunto. Lembrou-se de chorar, quando menor, por não ter nascido como os outros meninos. Lembrou-se do seu pai o olhando com uma pitada de desprezo quando pegou o celular, apagou o histórico e falou para ele que não contaria para sua mãe se não ficasse pesquisando ou falando dessas coisas estranhas perto dos outros. Lembrou-se de observar os meninos e as meninas do colégio avidamente. Das conversas bobas no meio da madrugada com sua irmã, confessando sua atração pelo Gabriel, da sua sala, e também da Luísa, enquanto ela tagarelava sobre todas as pessoas que ela achava bonita, e sobre como achava o gosto do irmão péssimo. Da Amelie saindo do armário durante uma viagem da família. Como Angelina sorriu e a abraçou, e Montel o lançou um olhar que mostrava intolerância em sua forma mais pura. Ser transgênero era uma coisa, tomou bloqueadores de hormônio e se tornou confortável em seu próprio corpo, graças a sua mãe e sua irmã, mas não ser hétero era outra coisa. Não era algo que podia ser reconfortado, e por um bom tempo, se sentia uma fraude, afinal de contas, como podia gostar de homens e querer ser um homem? Não sentiu necessidade de afirmar em voz alta que era bissexual até ouvir ele tocar no assunto.
- Eu sou bissexual - afirmou, e percebeu novamente o ar que estava preso na sua garganta - É uma das primeiras vezes que eu falo isso em voz alta… E você já sabe que eu sou trans…
- Aham…Como você descobriu?
- Sei lá… foi meio natural… A internet só estava lá pra me ajudar a solucionar as minhas dúvidas…
- Isso é recente?
- Não… Já faz muito tempo que eu sei. Só não… gosto de falar sobre… sei lá… - Confessou - também não exerço isso, então…
Sussurrou a última parte, para que não ouvisse as lamentações de um adolescente carente que nunca sequer beijou na boca. Botaria a culpa na timidez, se não fosse pelo fato da sua insegurança em relação a sua identidade.
- Eu nem sei o que fazer mais… porque só esse ano eu estou falando com mais pessoas, e mesmo assim, ainda é tudo tão confuso… eu- talvez eu seja gay, mas… eu não sei se eu deveria ter descoberto isso antes ou ter, tipo- sinais disso antes! E é horrível, porque até meu irmão sabe que ele gosta de todo tipo de gente, e sabia a muito tempo. Mas eu não. Eu nunca tive sinais de nada. Nunca nem pensei nisso.
- De certa forma, talvez tenha sido melhor. Muita gente da nossa geração descobriu e foi exposto a esse tipo de coisa cedo demais. Só… tenta focar no seu tempo. E se lembra que você não tá sozinho - Nem sabia de onde essas palavras vinham, só sabia que queria o ajudar(e saber dessas coisas já tirava um grande peso das suas costas).
- Obrigado, Oli… Mas é sobre isso a música. Uma carta de amor pro mar. Substantivo masculino - riram - Só não conta pra ninguém ainda. Eu não acho que isso é da conta de todo mundo.
- E não é… relaxa. Eu acho que a música vai ficar perfeita.
- …Qual é o seu maior sonho? - perguntou, subitamente.
Ele o pegou desprevenido, sem esperar a pergunta. Nem sabia como responder.
- Me sentir satisfeito com a minha vida.
- Você não se sente satisfeito?
- Não… Isso é estranho?
- Não, eu também não me sinto satisfeito… - ouviu ele bocejar, e já se sentia imitando-o inconscientemente - Mas você sabe quando vai se sentir satisfeito?
- Não. Só estou esperando… E você?
- Também… - Sorriam - Mas talvez eu esteja perto.
- Hm… O que seria uma realidade perfeita pra você?
- Eu queria que todo mundo fosse feliz - admitiu.
- Hm… Isso é ganancioso.
- É. Sei lá, às vezes eu acho que deveria ter um objetivo mais… não sei… individual.
- É bom. Mas isso é melhor do que ser egoísta igual a… - pensou por um segundo - Mim.
- Você não é egoísta, Oli…
- Eu sou, Milo, nem adianta…
- Quê? Mas isso nem faz sentido, você é… tipo- uma das pessoas mais legais e gentis que eu conheço… tipo… o tanto de coisa que você faz por mim! Isso não é ser egoísta.
- Não, você não entende… Eu faço tudo isso por que eu tenho medo de perder vocês, porque você, a minha irmã, a minha mãe e a Bárbara são as únicas pessoas que se importam de verdade comigo. E sem vocês… - Ficou quieto por um segundo - Sem vocês, eu provavelmente… nem estaria vivo.
Ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder;
- Você não é tão egoísta quanto cê’ pensa.
- Cê não tem certeza disso.
- E o que que tem? A gente não tem certeza de um monte de coisa, Oli.
Lembrou-se de algo que ouviu sua irmã o dizer, a tantos anos atrás. Naquele dia onde ficaram juntos sozinhos em casa:
- …As crianças são más, entende? Elas acham estranho… - O pequeno Olivier dizia, mão enfaixada e olhos marejados.
- Mas você não é estranho, você é normal que nem eu! A gente tem medo de um monte de coisa! - A irmã mais velha dizia, mão na dele, fazendo carinho.
Os dois se abraçaram. Olivier sorri com o pensamento.
- Medo e a Incerteza caminham juntos pra mim… Eu acho.
- Hm? O que isso quer dizer?
- No sonho… eu tive medo porque eu não tinha certeza de nada que estava acontecendo… - Tirou a luva por um segundo, olhando para aquele reflexo quebrado de um eu que queria tanto esquecer. Mas por mais que lamentasse, não ia embora - Eu não podia perguntar se você estava bem, você não falava nada, só parecia estranho… E então, tinha uma espécie de monstro, nadando pela água e tentando te pegar. E você desmaiou, e eu estava desesperado. Eu não sabia onde ficava o fim daquele mar, e o sentimento de estar afogando era constante. Como se estivesse constantemente preso na mais pura agonia que o mar pode trazer. Eu estava com pavor.
- E agora? O que você sente? - Mais um acorde do banjo.
- Que tá tudo bem. Eu sei que você tá bem, e que foi tudo um sonho… Essas pequenas certezas já ajudam.
- Se serve de consolo, a música é só uma parte do porquê de estar acordado ainda… - disse, e podia imaginar os olhos claros dele ficando brilhantes sob a luz fraca da lamparina que deixava em seu quarto, mesmo que não a precisasse mais, e as expressões dele se tornando mais suaves - Eu sonhei que tinha um monstro no mar, também. Um polvo gigante. E ele… matou…
Milo ficou em silêncio depois disso, e Olivier não soube dizer se realmente ouvia um barulho baixo de um fungar triste.
- E o que você sente agora? - perguntou, esperançoso por uma resposta positiva.
- Me sinto melhor… Um pouco - Sorriu ouvindo a confirmação que precisava - Você ter me ligado foi minha salvação. As vezes minha cabeça não é um lugar muito bom de estar, então… ficar sozinho com meus pensamentos depois de… cê’ sabe… - riu, nervoso.
- Você sente falta do mar, né?
- …Sim - ouviu o sorriso dele na voz cansada - Muito.
- Não, eu sei… Eu nasci aqui, nessa selva de concreto, e mesmo assim, não poderia me sentir mais desapegado… Já morei em um monte de lugares, sabe? Em Porto… Na frança, por menos de um ano, na verdade… No Rio, por pouco tempo, também… Sei lá…
- Você já foi pra frança?!
- É. O sotaque da minha irmã é falso mas a nossa descendência não, aparentemente.
- Por que ela só não para? - perguntou, voz doce como caramelo.
- Hábito antigo, tudo pra agradar o nosso pai… E agora que ele não tá mais aqui… Ela se perdeu um pouco. Tem medo de parar com o sotaque e as pessoas pararem de achar ela divertida, ou… sei lá.
- Pessoas são complicadas - riram, e Olivier concordou com um simples “Uhm”.
- …Posso te contar um segredo?
- Pode. Já passou da meia noite - riram como duas criancinhas. Bobas e inocentes.
- Eu estava pensando em fazer uma loucura.
- Que loucura?
- Sabia que eu sei dirigir? - perguntou, e Milo fez um barulho de espanto.
- Que? Duvido!! - Sussurrou.
- Meu pai me ensinou o básico, uns tempos atrás. Foi uma das únicas vezes que ele se importou minimamente comigo… e… Sabia que eu podia roubar o carro da minha mãe e te levar pro litoral?
- Sério??
- É… Mas teria que ser segredo.
- Mas você não pegaria muito trânsito? E você sabe dirigir em São Paulo? E a pista?
- Hm… Não deve ser tão difícil - disse, mas não fazia a mínima ideia de quais seriam os passos precisos desse plano mirabolante.
- Hmmm… Eu podia levar comida e o meu banjo. Pra tocar pra você. E a gente iria ouvir música no caminho, com as janelas abertas - disse, e o Florence se pegou sorridente, ouvindo os planos dele - A gente poderia chamar a Bárbara e a Amelie?
- Claro, mas - Ele queria ficar sozinho com Milo - quanto menos gente souber, mais secreto vai ser.
- Você tem razão. Nesse caso, a gente iria nadar junto.
Olhou para sua mão, já enluvada novamente.
- Junto?
- É… Eu nunca nadei muito na ilha porque o mar de lá não era muito pra isso… Então eu não conseguiria entrar sozinho.
- Ah. Tudo bem então, eu iria com você. É só que… normalmente, eu não entro na água, só fico na areia.
- Hm… A gente não iria muito fundo, relaxa - bocejou - Oh, a gente poderia catar conchinhas!
- Você deveria ir dormir… - bocejou de volta.
- Você também, então - disse, e soltou um grunhido que pegou o amigo desprevenido - Tô com medo de ter outro pesadelo,..
- E se… formos dormir mas ainda com a chamada ligada? Assim, a gente ia ouvir se algo acontecesse. Você conseguiria me acordar e eu conseguiria te acordar… - propôs, sua mão passando pelo seu cabelo bagunçado.
- Ótima ideia, na verdade… Sabia que é assim que cavalos dormem?
- Que? Em ligação?
- Não! Tipo… meio acordados! Eles dormem em pé. Ou de quatro, no caso.
- Deve ser desconfortável.
- Muito.
Ouviu o barulho de coisas se mexendo e um corpo ligeiramente pesado se ajeitando no colchão. Sonhava em deitar ao seu lado, então só fechava os olhos, imaginando que ele podia ser o travesseiro que já abraçava.
- Boa noite, Milo… - gemeu.
- Boa noite, Oli - respondeu, em um sussurro bonito e calmo, como o mar antes da tempestade.
- Te amo - Olivier murmurou, alguns minutos depois.
- Hmm… também, Oli… - Um Milo bêbado de sono respondeu, sem nem pensar.
Olivier tomou nota das palavras desprotegidas, mesmo que estivesse com tanto sono quanto o menino das palavras borradas e da voz melodiosa. Ele não imaginava, mas acabaria esquecendo desse acontecimento, uma hora ou outra, assim como o menino pelo qual desenvolvera uma queda.
