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Rating:
Archive Warning:
Category:
Fandom:
Relationships:
Characters:
Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2022-10-29
Updated:
2026-03-12
Words:
32,390
Chapters:
10/?
Comments:
1
Kudos:
6
Hits:
118

Estrelas

Summary:

Estrelas eram coisas irreais para os monstros presos no subsolo, sendo apenas uma lembrança, uma pequena lenda urbana contada pelos mais velhos aos mais novos antes de irem para a cama.
Mesmo não conhecendo uma estrela, Fell sabia que Sans era uma.
Pois o mesmo sempre lhe fazia vê-las ao lhe beijar de maneira calorosa e sôfrega, de uma forma que apenas ele sabia fazer.

Chapter 1: Capítulo 1

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

As solas emborrachadas de seus tênis esmagavam pequenas pedras em seu caminho, seus passos ecoavam, refratados pelas paredes rochosas da caverna. Waterfall, mesmo sendo a de outro universo, era mística e bela assim como se lembrava, com enormes cachoeiras desaguando no nada e belíssimos minerais de inestimável valor brilhando com milhares de cores e formas incrustados nos paredões, que se estendiam por metros e metros sem fim. Mas ele não se lembrava de ser tão úmido. Sua camisa estava colada a seus ossos de uma maneira desconfortável, o esqueleto soltou um grunhido de insatisfação e puxou o tecido encharcado, o soltando de suas costelas com um som engraçado de sucção.

Ele parou para admirar uma enorme planície coberta por Flores Eco, que cantarolavam uma melodia suave, combinando perfeitamente com a atmosfera do lugar no qual se encontravam.

Mesmo que odiasse a sensação horrível que suas roupas lhe causavam devido a umidade excessiva do ar, o esqueleto se sentia em paz naquele pequeno pedaço do paraíso. Simplesmente esquecia todos os problemas que estavam infernizando sua vida, respirava fundo, e escutava atentamente o canto das flores azuladas, plantas características da flora de Waterfall.

Ele sempre apresentava uma carranca assustadora e irritada permanente em suas feições, mas no fundo, bem lá no âmago de seu ser, o esqueleto gostava de se sentar sobre a pedra molhada e contemplar o espetáculo de cores e sons que aquela região proporcionava, sem se importar se parecia muito incauto por estar admirando flores azuis em uma caverna escura.

De órbitas cerradas, ele se permitia sentir a música com sua alma, tendo a sensação de estar a fluir e dançar como as notas que preenchiam o ambiente. Sua cabeça se movia de acordo com o ritmo, e baixos sussurros escapavam de sua mandíbula, compondo músicas improvisadas sobre vários temas aleatórios que surgiam a mente. As plantas repetiam seus versos desarrozoados e os recitavam, mas com seu timbre se distorcendo para notas mais altas e agudas.

O esqueleto ficou subitamente em silêncio enquanto deleitava-se com o pequeno concerto que havia criado. Estava satisfeito. Sentia que toda a tensão havia deixado seu corpo.

Até que ouviu o som de algo se movendo a sua direita. Passos lentos e calculados que faziam a grama azulada sussurrar baixinho. O canto das Flores Eco continuava sem interrupção alguma, mas o esqueleto podia ouvir a respiração pesada, de quem quer que fosse, próximo a si.

Ele não se moveu, muito menos o recém-chegado. Após alguns minutos, as plantas se calaram, lançando o lugar no mais pesado silêncio, o estranho acalmou sua respiração ofegante, já o esqueleto se manteve imóvel na mesma pedra na qual se sentara ao chegar.

Um baixo cicio soou quando o recém-chegado deu um passo, a reação do esqueleto foi quase instantânea. Uma jaula de ossos rubros se ergueu ao redor do estranho, que soltou uma risada baixa de cinismo.

- Eu deveria estar te atacando. Não o contrário. – Comentou com um sorriso de escárnio. Ele cruzou os braços e olhou diretamente para o esqueleto. – Até porque, este AU é meu.

- Foda-se. Só porque você mora aqui, não quer dizer que é o dono. – Retrucou fitando seu oponente. Era um esqueleto igual a si, mas usava um casaco azul de capuz cinzento e espalhafatosas pantufas cor-de-rosa em seus pés.

- Wow. – Troçou o esqueleto de pantufas. – Que língua mais afiada. – O outro apenas deu de ombros indiferente ao julgamento do estranho, avaliando-o de cima a baixo.

- Acho que Papyrus adoraria um bichinho de estimação. – Murmurou, e percebeu uma expressão de surpresa passar rapidamente pelo semblante do oponente, mas logo desapareu, com o escárnio assumindo suas feições novamente.

- Só há um pequeno probleminha. – Disse calmamente andando na direção das “grades” para fitar melhor o esqueleto de roupas escuras. – Eu não sou bichinho de ninguém. – Então ele desapareceu, como se tivesse evaporado no ar.

“Ele também pode se teleportar?!”, se perguntou enquanto recuava um passo devido a surpresa.

Um farfalhar baixo, que soou atrás de si, foi o aviso antes do ataque ser executado, o esqueleto de roupas escuras aparou o golpe do adversário invocando um osso escarlate de 120 centímetros, afiado como uma navalha. O oponente havia optado por algo semelhante, mas sua arma não possuía pontas afiadas e era branca como papel.

O de pantufas recuou, ficando em posição de defesa, o osso em riste apontado para o esqueleto de roupas escuras, ele sorriu zombeteiro e fez um gesto instigando o adversário a continuar, pedindo por sua resposta ao ataque.

O esqueleto empunhando o osso rubro sorriu. Excitado, ele executou uma balestra*, se aproximando rapidamente, a ponta de seu “sabre” teria acertado em cheio o peito do adversário, se este não tivesse recuado após um bloqueio*.

- Você é bom. – Comentou o esqueleto de azul. O outro o encarou, movendo seu pé para a frente, preparando um ataque. – Mas não o suficiente! – O esqueleto de pantufas reagiu, saindo de sua posição de defesa, fazendo rápidos movimentos com sua arma, o de roupas escuras aparou todos os ataques, um sorriso de contentamento deixou seu dente de ouro à mostra.

- Você também é bom. Na verdade, acho que nunca encontrei outro adversário que durasse mais do que cinco segundos. – O comentário arrancou algumas risadas cínicas do oponente.

- Deixe-me, então, prová-lo do contrário! – A finta* foi seguida de uma estocada*, as quais, o esqueleto com o osso rubro rebateu em uma resposta* desajeitada.

Seu oponente era forte, astuto e rápido, mas já apresentava alguns sinais de cansaço, como a respiração ofegante e movimentos mais defensivos do que ofensivos, o esqueleto de roupas escuras não estava muito longe da exaustão também, mas, com certeza, apresentava um físico bem mais melhor do que o de seu adversário, se lhe era permitido o abuso de pleonasmos.

O de pantufas recuou planejando um ataque, mas não percebeu o pequeno declive que tinha atrás de si, ele perdeu o equilíbrio por um momento, mas foi tempo suficiente para seu atacante se aproveitar de sua guarda baixa. O “sabre” pálido voou de sua mão quando o esqueleto de roupas escuras chocou suas armas para, logo em seguida, executar uma flecha*. A ponta de seu osso rubro penetrou o ombro do oponente, que soltou um grito de dor. A força do ataque desestabilizou ainda mais o adversário, que caiu para trás, rolando declive abaixo.

O esqueleto estufou seu peito e sorriu, vitorioso.

O de pantufas se ergueu, trêmulo, sobre os braços, a dor lhe ferroou o ombro devido o esforço e ele se encolheu, soltando um gemido reprimido de sofrimento.

Um par de tênis surgiu em seu campo de visão, ele ergueu olhar e a ponta do “sabre” vermelho do outro se precipitou na direção de seu rosto, o que o fez recuar, segurando o ombro ferido.

- Heh. Parece que eu venci. – Disse, irônico, observando o adversário desarmado e ferido no chão, o sangue começava a manchar o casaco azul do esqueleto de pantufas. O “sabre” do de roupas escuras havia perfurado seu ombro de um lado a outro. Deveria estar doendo muito, mesmo que o oponente tentasse disfarçar isso com uma expressão de mau humor.

- Eu percebi. – Rosnou, entredentes.

O esqueleto vencedor ergueu seu “sabre” para dar o golpe final, o adversário derrotado abaixou a cabeça esperando a Morte, mas seu oponente hesitou, ele encarava o adversário pensativo, então soltou um suspiro irritado, sua arma desapareceu após a sacudir em um floreio. Ele deu as costas e se afastou, com as mãos afundadas nos bolsos da bermuda.

- Não vai terminar o que começou? – Questionou, se colocando de pé, com dificuldade.

- Eu te venci. Já é o bastante. – Resmungou, antes de desaparecer após seu teleporte.

Um pequeno sorriso surgiu no rosto do esqueleto remanescente.

~X~

Ele tombou contra a porta de sua casa, sentia-se levemente tonto, quase todo seu torso estava manchado com sangue escarlate. Seu ombro estava amortecido, mas toda a área ao redor estava dolorida e pulsava de maneira pungente.

Sua mão ensanguentada pousou sobre a maçaneta e ele entrou, cambaleante. Podia ouvir os sons de algumas panelas batendo na cozinha, provavelmente Papyrus estava cozinhando.

O esqueleto tropeçou até a escada que levava ao andar de cima, onde ficavam os quartos e o banheiro, tudo no mais completo silêncio. Se Papy o visse daquela maneira, ferido e ensanguentado, ficaria muitíssimo preocupado, e faria muitas perguntas para saber o que aconteceu.

Ele subiu os degraus de forma lenta, sua visão turva o atrapalhando.

- Sans? – O chamado fez com que o esqueleto congelasse. – Você está aí em cima?

- Sim, Papy. – Respondeu após alguns segundos. – Estou.

- Você sabe que horas são? – Questionou, impassível, do andar de baixo, provavelmente na sala. – Onde você estava?

Sans hesitou em responder, tentando arquitetar uma mentira, mas um pequeno sorriso estranho surgiu em seu rosto quando um pensamento lhe cruzou a mente. Ele apertou com força o ferimento para não desmaiar.

- Estava em Waterfall. – Respondeu.

- Fazendo o quê? – Retorquiu Papyrus.

- Me divertindo com um novo amigo.

Notes:

As palavras destacadas com um asterisco são movimentos de Esgrima:

Finta - Um falso ataque, em que o esgrimista finge que irá fazer um determinado ataque, mas faz outro. Muito conhecido por ser um movimento de blefe.
Balestra - Salto curto em direção ao adversário, finalizando na posição afundo.
Estocada - Golpe com a ponta da arma.
Flecha - Corrida curta e rápida sobre o adversário, a partir da posição de guarda. O movimento dos pés é curto e a posição corporal praticamente não se modifica durante a aproximação.
Resposta - Ofensiva após um bloqueio de ataque do adversário.