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Era final de tarde, o céu se encontrava cinzento e a chuva caia cada vez mais forte, escorrendo por seu capuz. Um clarão raio cortou o céu, de início silencioso, apenas um grande clarão iluminando tudo mas logo se pôde ouvir o trovejar, alto e agressivo. Arya já estava viajando a quase um dia inteiro, sem descanso, mas seu corpo cobrava o preço. Ela se sentia exausta, faminta e começava a mostrar sinais de uma febre que insistia em lhe causar arrepios. O caminho não era fácil, decidiu não seguir pela estrada do rei, seria muito óbvio e precisava se proteger o máximo possível desde que fugiu da casa do preto e do branco em Braavos. A terra estava molhada e era fofa, a pata de seu cavalo se afundava e a lama a sugava como se fosse uma espécie de areia movediça, isso dificultava em muito o ritmo da viagem. Precisava logo parar para descansar e comer algo para reerguer as forças, se continuasse a febre poderia piorar e nessa situação isso poderia significar a morte.
Em mais algumas horas de viagem pôde avistar uma humilde pousada. Estou salva, pensou. Deu leves toques em seu cavalo com os pés e se colocou a galope, pretendia chegar até lá o mais rápido possível. A essa altura a chuva já estava mais forte e foi uma sorte imensa ter encontrado um lugar em que poderia se abrigar, sabia que as coisas ficariam complicadas se decidisse seguir. Chegou ao estabulos do estabelecimento e finalmente pôde desmontar, suas pernas doíam pelas horas de cavalgada então se sentiu aliviada de pelo menos saber que teria algumas horas de descanso. O capuz de sua capa era grande, caia sobre o seu rosto e escondia sua feição de estranhos mas ainda concedia a ela um bom campo de visão, e além disso, a protegia das chuvas e dos raios solares. Arya puxou o cavalo pelas rédeas e o colocou em uma das Baias.
Percebeu um homem forte se aproximando, devia ser um dos funcionários, ele era forte mas não conseguia ver o rosto dele muito bem, permanecia de cabeça baixa, tinha medo de alguém a reconhecer. Não que ela fosse minimamente parecida com a menina de nove anos que deixou winterfell a anos atrás, agora tinha quinze, era mais alta e seu corpo haviam ganhado curvas de mulher, não podia mais fingir ser um menino para se proteger.
"Um quarto, por favor" Arya disse ao homem. "Uma peça de prata pelo quarto e uma de bronze pelo cavalo", a voz dele era profunda e até soava estranhamente familiar. Arya passou a mão pelo pequeno saco de moedas que ficava agarrado em sua cintura para que pudesse pegar o suficiente para pagar pela acomodação. Não tinha muito dinheiro, era verdade, mas acreditava que era o suficiente para chegar até winterfell, se conseguisse poupar. Ela estendeu a mão para pagar o homem e levantou a cabeça apenas o suficiente para que pudesse ter um pequeno deslumbre do rosto dele. E foi naquele momento que ela sentiu seu corpo todo parar, suas mãos começaram a tremer e sentia as pernas bambas. Era um rapaz jovem, forte e com espessos cabelos negros como carvão, mas aqueles olhos, aqueles olhos azuis como o mar... Ela podia reconhecer eles em qualquer lugar. Era Gendry, o mesmo Gendry que segurava sempre seu elmo de touro na estrada junto com Yoren e os outros, o mesmo que a protegeu na estrada até harrenhal, o mesmo Gendry que foi capturado com ela pela irmandade sem bandeira e o mesmo que resolveu a abandonar. Ele quer me abandonar também, ela se lembrou. Seus olhos começaram a arder e ela podia sentir que queria chorar, mas não podia, isso demonstrava fraqueza e ela não poderia ser fraca. "Uma peça de prata e uma de bronze" ele repetiu, como se ela não tivesse escutado da primeira vez e limpou a garganta como para conseguir chamar sua atenção. Percebeu que sua mão ainda tremia muito, será que ele notava isso? Queria tirar o capuz mas não sabia se ele iria a reconhecer, não sabia se ele tinha raiva dela, tinha medo de qual seria a reação dele. Mas como que em um surto de coragem, ela puxou o capuz bruscamente e levantou o rosto o encarando diretamente nos olhos. Notou primeiro uma reação de dúvida passando pelo rosto dele, franzindo e juntando as sobrancelhas e logo depois viu seus olhos se arregalarem um pouco, aqueles olhos azuis profundos que só ele tinha. Sua expressão rapidamente mudou e dúvida para surpresa e ali ela soube, ele a tinha reconhecido.
A única coisa que sentiu em seguida foi um solavanco e se sentiu sendo puxada para frente de forma brusca e rápida e segundos depois podia sentir os braços dele em volta dela. O rosto de Arya se acomodou em seu peito forte e ali ela se sentiu relaxar e circular seus braços em volta dele, retribuindo o abraço. Depois de alguns segundos ali parados ele se desvencilhou do abraço e olhou profundamente nos olhos dela, Arya tentava ler o que se passava com ele mas sua expressão e seu olhar pareciam um mistério pra ela. Ele sempre foi, pensou. Arya o sentiu se aproximar e lentamente ele encostou os lábios no dela, de início foi uma surpresa e ele não se moveu, apenas manteve ali um leve toque casto e calmo. Ela ficou surpresa, parada por um momento, não sabia muito bem como reagir. O único beijo que tinha dado foi antes de matar Raff durante o período em que se passou por Mercy em Braavos e naquele beijo ela só sentiu ódio e nojo. Mas aquilo era diferente, com Gendry foi delicado e aos poucos ela sentiu um sentimento subir pelo seu peito, algo que ela poderia considerar como um calor. Momentos depois ela aprofundou o beijo, abriu os lábios para dar passagem mas ele não usou a língua, em vez disso se moveu cautelosamente apenas apertando a pressão um pouco mais, de maneira delicada e com cuidado, como se ela fosse a coisa mais frágil do mundo. Arya colou as palmas de suas mãos em volta do rosto de Gendry e pôde sentir algo quente e molhado escorrendo pelas bochechas do rapaz. Ela se separou dele, ainda mantendo seu rosto entre suas mãos e ali constatou o que temia, ele estava chorando. Um choro silencioso e sem nenhum ruído, apenas lágrimas. "Me desculpe... Me desculpe por te deixar..." Ele disse em uma voz baixa e ela conseguia perceber dor nas palavras dele "Eu achei que você tinha morrido naquele dia, achei que tinha te perdido por que fui estúpido e te deixei. Eu nunca consegui parar de me culpar, pensar no destino horrível que você teve." agora ele soluçava um pouco entre as lágrimas e naquele momento Arya sentiu uma pontada em seu peito, como se uma faca a estivesse rasgando e um nó subindo pela sua garganta. "Por favor... Me deixe ficar ao seu lado, eu juro que nunca mais vou te abandonar... Arya, por favor" e aquilo foi o suficiente para arrancar as lágrimas que ela vinha segurando a muito tempo, as lágrimas não choradas por anos e que ela guardava fundo em seu coração. Ela deu um sorriso, seu olhos ainda embaçados "Touro estúpido..." E se aproximou novamente em mais um beijo, ainda como um roçar leve de lábios, e dessa vez podia sentir o gosto salgado da lágrima dos dois se misturando. Ela se afastou dele e mais uma vez sorriu "Eu sei que você não vai mais fazer isso, você é minha matilha, sempre foi..." E assim ela se sentiu ser puxada mais uma vez, para um outro abraço, e em anos ela nunca se sentiu tão segura como se sentia ali, aninhada com ele. Ela notou a pressão dos lábios dele em seus cabelos, e percebeu que ele depositou um beijo em sua cabeça e inalou o cheiro dos seus cabelos em um suspiro profundo em que ela pode sentir seu peito se mover pra cima e pra baixo lentamente. Eles teriam mais tempo para mais abraços e mais beijos depois, para poder conversar e passar o tempo juntos, muito tempo afinal... Mas ela queria que aquele momento pudesse durar infinitamente, ali entre os braços dele, ela finalmente sentiu que estava de fato voltando pra casa. Ela era Arya Stark de winterfell. O lobo solitário morre mas a matilha sobrevive.
