Chapter Text
Em um canto da biblioteca, atrás da tela do pequeno notebook verde, nosso protagonista Reiji Kotobuki digitava como um hacker, os dedos ágeis no teclado e os óculos de grau fazem parecer que é bastante inteligente e profissional em seja lá o que ele estiver fazendo.
Muito concentrado no trabalho, não tirava os olhos da tela, acompanhado de sua xícara de chá de lavanda.
"Blog Do Colégio Shining"
"Categoria: Alunos"
"Título: Mais um sucesso do cupido Rei-chan, veja fotos do novo casal!"
Na verdade, Reiji atualizava seu blog de cupido e conselhos amorosos, ele conseguiu um encontro para os dois alunos mais tímidos de toda a escola, que aparentemente se gostavam mas não tinham coragem nem de se encarar.
Sem entrar em muitos detalhes, contava sobre os desafios para juntar eles, as estratégias, e deu dicas para os leitores solteiros. Finalizou dizendo que estava muito feliz em poder ajudar os pombinhos.
Prestes a clicar em enter para realizar a postagem, alguém bateu a mão com força na mesa em que estava; o óculos, que já escorregava de seu rosto devido a oleosidade, caiu e seu dedo encontrou a tecla delete, simplesmente apagando todo o texto que demorou duas horas para escrever.
— Puta que pariu! — ele gritou, recuperando o óculos que, por ser mais caro, era mais importante que a postagem. — Qual é a porra do seu probl-
Parou quando seu olhar se encontrou com o do autor do crime. Ranmaru Kurosaki. O cara mais perigoso e temido do colégio.
Nunca conversou com ele, apesar de Reiji ser o tipo "borboleta social", todos os rumores e alguns vídeos que circulavam pela rede o deixavam assustado, até preferia passar longe do corredor da sala dele, com medo de cometer uma gafe que custasse sua vida.
— D-desculpa, Kurosaki-kun, eu não quis xingar você! — desviou os olhos e os fechou com força, esperando levar um soco ou algo assim, mas nada veio. Devagar, ele abriu um olho e depois o outro, suavizando a expressão e virou para encarar o delinquente. — Eu posso ajudar..?
— Você é o Reiji? — ele perguntou, fazendo com que a alma do citado saísse de seu corpo por breves segundos.
Quem te falou isso!? Pensou em perguntar, mas ele era popular pelo colégio por ser cupido, e não seria bom enfrentar o mal humorado desse jeito.
— S-sou, mas eu juro que nunca fofoquei sobre você, pode me dizer se já viu seu nome em algum canto do blog, eu apago, te dou meu dinheiro do lanche e-
— Eu preciso do seu serviço.
— Eu não faço programa! — respondeu de imediato, e com muito drama, abraçou o próprio corpo.
Para a surpresa de Reiji, as bochechas de Ranmaru mostraram um tom rosado e sua primeira expressão, diferente de assustadora, foi envergonhada. Muito fofo.
— Não assim! — Ranmaru pareceu se atrapalhar, mexendo os braços em negação. — Eu não quero seu corpo, quero que me ajude a arrumar um namoro.
E assim, a desventura do cupido começou.
Reiji ainda estava pálido quando Ranmaru veio arrastando uma cadeira silenciosamente após levar bronca da tia bibliotecária.
Sentados frente a frente, o cupido tomou um grande gole de chá, pegou seu bloquinho de notas e ao tentar escrever, começou a tremer. A tinta não saía.
Fuçou rapidamente o estojo em busca de outra, rabiscando com força na folha para testar.
— Vai ter que ser a rosa com glitter.
"Nome: Ranmaru Kurosaki
Idade: 17, está no último ano
Sexualidade: ?
Tipo ideal: ?"
— Bem, para começar. — Reiji usou o dedo do meio para consertar a armação dos óculos no nariz. — Isso é um pouco pessoal, mas para te ajudar eu preciso saber, você gosta de quê?
— Eu sou gay. — Ranmaru respondeu com seriedade, não se importando de sair do armário para alguém que acabou de conhecer.
— Tão direto... — colocou a mão no peito, impressionado. — Você está de olho em alguém?
— Não, eu nunca me apaixonei e nem nada dessas coisas. — deu de ombros.
— E como você sabe que é gay?
— Ninguém pergunta a um hétero como ele sabe que é hétero, ele só é.
— True... Perdão pela minha insensibilidade. — Reiji deu tapinhas no próprio rosto.
— As pessoas não costumam gostar muito de mim. — ele disse com a voz triste.
— Você bate nelas. — comentou sem querer. — D-desculpa!
— Só às vezes, eu nunca bati em alguém sem um bom motivo! Mas de algum jeito isso se espalhou, como se eu fosse um monstro… Eu não quero mais essa imagem, eu não sou assim.
O pequeno sorriso de Reiji foi sumindo, lembrou de um passado não tão distante que arruinou sua vida e o obrigou a mudar de escola escondido dos pais: informações falsas descontroladas.
Apesar do triste episódio, continuou gostando de fofocar; gostava de contar o que estava acontecendo pelo colégio sem ferir os direitos humanos, e tinha liberdade ali, além de que os outros alunos eram livres para ir até ele e pedir para apagar caso fosse ofensivo de alguma forma. Todos naquele novo lugar gostavam de ler suas postagens pois era um fofoqueiro aberto ao diálogo.
Não sabia se iria conseguir tudo isso, mas apertou seu coração ver o rostinho triste de Ranmaru, então daria seu melhor para tentar.
— Entendo. Eu vou te ajudar, não se preocupe! — Reiji se levantou da cadeira, apontando a caneta para o alto como se fosse uma espada. — Os seus dias de delinquente malvado e encalhado terminam hoje!
— Você é estranho. — Ranmaru soltou uma risada, não parecendo mais tão assustador.
— Não é a primeira e nem será a última vez que dizem isso para mim, babe! — sorriu de volta, virando-se para o computador e abrindo o Instagram. — Vem, vou te mostrar uns solteirões.
Depois de muitas perguntas, pesquisa e matar aula, Reiji refez sua publicação anterior e decidiu, junto com Ranmaru, o primeiro alvo de um encontro.
Natsuki Shinomiya.
Cerca das cinco e meia da tarde, depois da aula, Reiji estava parado em frente à porta da casa de Ranmaru, que relutante passou o endereço para alguém que conhecera a menos de 24 horas.
De qualquer forma, não havia outro jeito, foi ele quem pediu ajuda em primeiro lugar e precisava de uma roupa decente para conhecer o tal pretendente, o seu conhecimento sobre moda era como um grão de areia.
Após insistir por um copo de água, o cupido foi levado até o quarto simples com alguns posters de bandas de rock e um baixo, e notou também, na escrivaninha, alguns chaveiros de pelúcia de animaizinhos. Eram usados na decoração do quarto, já que Ranmaru não tinha coragem de colocá-los na mochila.
— Na internet o Natsun posta essas fotos todo bonitão, mas tem o estilo do meu avô na vida real, então não se assuste! — dizia ele enquanto colocava parte do corpo dentro do pequeno guarda-roupa.
— Ele parece muito inteligente e legal. — Ranmaru continuou olhando as redes sociais de Natsuki; tinha toda uma estética de contrastes entre marrom e amarelo, as fotos eram revezadas em concertos de ópera, viagens internacionais e pelúcias de Piyo-chan.
— E é! Ele me pediu ajuda faz um tempo, mas é um caso difícil o dele. Espero que vocês se dêem bem, e mesmo se não dar, vocês ainda podem ser amigos e partir para a próxima.
Reiji saiu jogando várias roupas no chão até se formar um monte, e quase caiu quando seu pé se enrolou em um cinto, porém, o garoto de bons reflexos a sua frente foi rápido em segurá-lo.
— Uau! — Reiji acabou com o rosto sobre o peitoral do outro, encantado com a superfície definida e macia, mas resolveu deixar o comentário apenas na própria mente. — Um cinto assassino!
— Ele é inanimado e você é um tapado. — Ranmaru catou o acessório do chão e o jogou na cama para não derrubar mais ninguém.
— Kurosaki-kun, você já pode entrar para o clube de poesias, rimando desse jeito.
— Isso não combina comigo… — fez uma careta ao se imaginar todo sério e bem vestido, apresentando nos festivais de fim de ano da escola. Um show de horrores.
— E o que combina?
— Eu não sei.
— Existem tantas coisas, hobbies, clubes, vou te mandar uma lista depois e você tenta fazer alguma coisa, tenho certeza que algo encaixa para você! Além de que isso vai desassociar sua imagem ruim e, em vez de medo, as pessoas terão os corações roubados por este badboy gostosão!
Reiji ficou um tempo parado, mostrando o polegar enquanto sorria largo para o outro, até Ranmaru desistir de encarar aquele ser estranho e começar a rir.
— Obrigado.
Os dois foram separando algumas peças enquanto conversavam um pouco mais. Ranmaru mostrou para Reiji uma calça jeans com os joelhos rasgados, deixando o cupido com cara de decepção, havia outras cinco calças iguais.
No fim, não havia muito o que fazer, ele apenas se vestiu como sempre.
— Agora rápido! Rápido! Não pode deixar um futuro amor esperando, ainda mais no primeiro encontro!
