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Drogas, bebidas, estar louco a ponto de começar a alucinar e ver pessoas mortas.
Sim, Haruchiyo esperava tudo, menos estar dentro de um quarto com paredes brancas tendo apenas sua respiração e aparelhos como únicos sons presentes.
Com dificuldade, o rosado tentou inclinar-se para se sentar na cama, por alguma razão, seu rosto e corpo doíam mais do que o normal.
Agora, visualizando melhor o local, ele percebeu se tratar de um hospital.
Seu corpo frágil ligado a aparelhos que, por deus, aquele som o estava irritando.
Saber o motivo de estar ali? Ora, o rosado sequer sabia o que havia comido no almoço; Era inegável que provavelmente a razão seria devido ao enorme consumo de drogas.
Quem poderia culpa-lo, afinal? Sua mente e saúde mental com certeza não eram uma das melhores.
A começar pelo relacionamento abusivo que vivia ao lado dos irmãos, ou ao fato de aceitar Manjiro em sua vida.
Nenhum deles estava são, embora ambos tentassem manter esse "romance" conturbado.
Tendo que sempre rebobinar para o prazer do platinado, Haruchiyo estava preso um transe.
A constante mudança que fazia consigo mesmo o fez não se reconhecer mais. Draken, Baji, quem realmente ele queria ser?
Talvez aquele do qual Manjiro sentisse mais apreço, aquele que ele pediria um ombro para chorar em suas noites mais difíceis, aquele a quem ele pediria ajuda em suas indecisões.
Oh, certo, Haruchiyo desejava moldar os amigos de seu "rei" em si mesmo, se isso fizesse o platinado o dar o menor valor, olhar para si e somente para si, ele faria o que pudesse.
Mesmo que consequentemente enlouquecesse no processo.
Quando se olhava no espelho, Haruchiyo sentia pena de si mesmo.
Estando sempre ao lado de Mikey, não como ele em si, mas moldando seus amigos perdidos.
Por Baji, ele deixou o cabelo crescer.
Por Draken, ele deixou aquela única mecha solta.
Por Mikey... Ele matou friamente seu capitão.
Mutou Yasuhiro era um traidor, e traidores não ficavam em Bonten.
Quantas mais ele matou por Mikey, afinal? Quantas vidas mais ele tiraria por seu chefe para no fim do dia receber apenas um boquete do platinado.
Se ele queria mais? Sim, ele queria. Ele queria mais do que ser tratado com um objeto de desejo sempre que o mais velho estava insatisfeito com algo. Ele queria sorrisos e agradecimentos vindos do outro.
"Bom trabalho, Haru."
Há quanto tempo ele não ouvia isso? Desde o acidente que viveram na infância, Manjiro sequer chamava o nome do garoto.
Era sempre Baji e Mikey, Draken e Mikey, nunca Haru e Mikey. Ele sentia inveja disso, ele queria ser próximo do garoto, por deus, ele o defendia com unhas e dentes se isso significasse que Mikey receberia o que quisesse.
Mas, nunca foi assim. Cada vez mais o, antes loiro, se distanciava. Deus sabe por qual razão ele acabou em Toman. Embora se sentisse egoísta, Haruchiyo gostava de pensar que Baji insistiu ao mais velho para que ele entrasse, diminuía sua dor, embora odiasse admitir, as vezes, Haruchiyo odiava Mikey.
Como ele vivia sua "pacífica" vida mesmo após as cicatrizes que fizera no mais novo? Embora na adolescência tenha deixado de culpa-lo, Haru ainda não conseguia entende-lo.
Com o uso constante de medicamentos, ele acabou por se tornar um enorme viciado.
Quando não estava sob efeitos alucinógenos, estava tentando atrair a atenção de seu rei.
Provavelmente, ele era odiado por grande parte da gangue, porém, pouco se importava. Mikey olhara pra ele, e era Mikey, apenas Mikey.
Portanto, foi uma grande surpresa para si ao ver um dos irmãos Haitani na porta do quarto em que estava.
Ele possuía um olhar diferente do que estava acostumado, o sorriso que antes exibia no rosto já não estava presente.
Ran Haitani sempre foi aquele da Bonten do qual estivera em constante discussão, seja por deixar pílulas espalhadas pela enorme mansão ou apenas o Haitani implicando com sua constante perseguição a Mikey.
Portanto, era fácil dizer que, entre ele e o mais novo, ele certamente preferia Rindou.
- Melhor?
Ran disse, se aproximando da cama em que o rosado estava. Em mãos uma pequena rosa junto a um bilhete. A quem pertencia? Haruchiyo não tinha ideia.
Ele observou enquanto o garoto sentava na ponta da cama, deixando o que trouxera ao lado do corpo do rosado.
- Sabe o que aconteceu?
- Porquê estou aqui?
Ran suspirou.
Olhando para qualquer canto que não fosse os olhos do garoto na cama, ele tentou, ele realmente tentou não começar uma outra briga.
Ao invés disso, ele apontou para o pequeno bilhete que trouxera.
- Leia.
- Não quero.
- Leia, Haruchiyo. Por favor.
Curioso e, um tanto preocupado, o rosado pegou o bilhete em mãos, começando a lê-lo.
Terça-feira, 20 de outubro de 2019
De: Manjiro Sano.
Haruchiyo, eu sinto muito.
Honestamente, é estranho escrever pra você após tanto tempo.
Não me lembro uma única vez em que tenha feito isso pra te agradecer por continuar ao meu lado durante todos esses anos.
Mesmo em suas mudanças pra me agradar, mesmo mudando a si mesmo e estando tão quebrado quanto eu, você sempre esteve lá por mim. Quando Kenzinho se foi, você me deu apoio, um ombro pra chorar. Você me deu uma noite de prazer que, por deus, eu sinto muito te lembrar disso, mas foi horrível pra mim também.
Haru, eu não queria te machucar. Quando eu me afastei após aquele acidente, tudo foi pra te proteger. Você é meu amigo, não pense que não me arrependo do que fiz. Eu o faço.
Sei que fiz você sofrer, sei que fiz todos a minha volta infelizes mas, Haru, você não precisa se preocupar.
Está tudo bem agora, realmente está.
Você deve estar acordado agora, e certamente está com um dos irmãos Haitani. Sei que não é quem queria ver agora, sei que precisa se recuperar bem e acredite, eu também preciso e você sabe o quanto.
Então, Haru, não volte para a Bonten.
Não é lugar pra você, não é lugar pra nenhum de nós. Nossos amigos não gostariam disso.
Nossa família não gostaria de nos ver cair cada vez mais no abismo. E eu sinto muito ter te arrastado junto.
Sei que deve estar confuso com essa carta agora, sem saber o porquê de estar em um hospital. A verdade é que você desmaiou após ingerir uma garrafa inteira de vinho com antidepressivos. Pedi que te levassem de volta para a mansão mas, você simplesmente não parava de chorar, tive que fazer algo.
Haru, estou descansando ok? Descanse também, apropriadamente.
Oh, e Haru. Não venha tão cedo.
Shin ficará infeliz.
Sentindo a garganta fechar, Haruchiyo leu mais uma vez a última parte.
Ele olhou para o Haitani mais velho esperando aquela típica frase que o garoto sempre dizia, esperando que mostrasse aquele sorrisinho de merda que só ele tinha.
Ao invés disso, seu olhar estava apático, vazio comparado a dias anteriores quando em meio a piadas em duplo sentido, o Haitani o convidara para uma "noite nos céus".
- Sinto muito.
Ran disse. Tomando a carta do mais novo, ele aproximou-se, envolvendo-o em um abraço.
O queixo apoiado no topo da cabeça, inalando o perfume doce que sempre sentira vindo do outro.
Desajeitadamente, ele tentava transmitir conforto para o mesmo, embora, devesse admitir, ele mesmo não estava bem o suficiente para tal.
Haruchiyo não esboçava reação. Era mentira, certo?
Ele estava drogado, por isso estava tendo essa alucinação, aquela carta era um mentira, certo? Mikey estava esperando por ele do lado de fora agora, Rindou estava escondido pronto para brigar com o irmão por fazer piadas insensíveis.
Mikey estava vivo, certo?
- Sinto muito.
Ele repetiu. Conhecia o garoto há tempo o suficiente para saber que o mesmo achava que estava brincando. Por Deus, não tinha como. Mesmo sendo um filho da puta, ele sequer seria capaz de brincar com isso. Não com Haruchiyo, não com quem gostava.
O aperto ao redor de si foi o suficiente.
Após isso, lágrimas. A voz quebrada incessantemente dizendo "Não.".
O gosto amargo que subia devido a imensa vontade de vomitar. Ele estava lá, ele viu tudo.
Ele não conseguiu impedir.
Naquela noite, ele havia notado o estranho modo que seu comandante agia. A começar pela pequena reunião em que o mesmo declarou o fim da Bonten. A princípio, ele não entendeu. Seu chefe, sempre sério e pensando cada passo que daria ao anunciar algo, não parecia estar brincando.
Algo dizia mais. Era como se ele estivesse morto. Como se seu corpo agisse em um impulso e ele apenas seguisse sem vontade de contrariar.
Então, enquanto Ran passara pela porta do quarto de seu chefe, ele ouviu. Talvez devesse ter se afastado para evitar ser morto pelo "cachorro louco" quando o notasse espionando.
Porém, sua curiosidade o atingiu com mais força.
Olhando pela pequena frecha da porta ele viu Mikey e Sanzu. Ambos pareciam discutir algo, quando o último, tomado pela infame quantidade de drogas ingeridas, avançou e beijou seu chefe.
Ele sabia que deveria sair, céus, ele sabia mas, quanto mais ele presenciava, mais difícil era de se distanciar. Preso com um ímã, ele ficou e assistiu tudo.
Ele viu todas as vezes que os dois brigavam e se entregavam ao prazer carnal. Ele viu todas as vezes que Haruchiyo se deixava ser usado pelo platinado e, na manhã seguinte, quando via os dois agindo como o usual, ele tentava ignorar as manchas no pescoço de ambos.
Com o passar dos meses, a relação de brigas e sexo parecia ter tido uma pausa. Pouco ele ouvia seu chefe perto de seu "cão leal", porém, em uma noite, Mikey mencionou seu antigo parceiro, Draken.
Isso foi o suficiente para uma discussão, essa, saindo do controle.
Haruchiyo, pela primeira vez desde que o conhecera, estava sóbrio.
Ele ouvia cada palavra que do platinado, cada maldita frase cheia de amargura dirigidas ao rosado.
Palavras como "Kenzinho faria melhor.", "Seja um bom cão e me obedeça.". Honestamente, relembrar tudo doía.
Mesmo que tenham sido direcionadas a alguém que ele próprio detestava.
Ver Haruchiyo chorar em seu quarto o deixava ansioso, preocupado. Ver Mikey mais vazio e com olheiras por falta de sono o deixou incerto sobre o futuro daquela gangue.
Tentou não se envolver e continuar as escondidas, tentou ignorar o sentimento ruim que se apossava de si. E, com um piscar de olhos, Mikey havia desistido.
Ele viu seu chefe tentar se jogar de um prédio com Haruchiyo ao seu lado tentando a todo custo o manter vivo.
Ele viu o rosado puxar seu chefe com toda força que possuía apenas para ser nocauteado em seguida.
Ele também tentou. Deus, ele tentou.
Ele não queria a destruição do que ele chamava de família. Certo, a relação de todos ali parecia incerta e amarga mas, os bons momentos existiam.
Bonten era conhecida, mas seus atos eram totalmente sem rastros. Sim, por nome, todos tremiam diante da tão infame Bonten mas, seus rostos eram desconhecidos.
Ele queria sair. Ele sabia que seu chefe, lá no fundo, queria todos bem e longe de toda a bagunça que haviam se tornado.
Naquela noite, ele foi deixado para cuidar de Haruchiyo quando acordasse, ele foi deixado para desfazer o erro que Bonten havia se tornado.
Honestamente, ele não sabia como faria tal coisa, embora, talvez, devesse começar por uma forte terapia.
