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Tempos Dourados
Rosa, verde, azul, roxo e amarelo são as cores irritantemente vibrantes que Enid insiste em usar.
Eu realmente não sei o motivo de sua energia ou de sua abundante felicidade. Não sei por qual razão seus olhos se fecham com tanta força quando ela ri, ou porque seus cabelos horrivelmente dourados balançam quando ela caminha saltitante pelos corredores. A visão de suas lamentáveis unhas coloridas quando ela tenta me tocar.
É tudo uma perda de tempo.
Eu realmente não a entendo. Não entendo porque ela ainda tenta – de maneira falha – conquistar minha amizade.
Esse conceito de afeto me enoja, mas por um motivo desconhecido, a face triste de Enid não me proporciona o prazer que deveria. Prefiro vê-la repuxar os lábios avermelhados em um enorme sorriso seguido de uma gargalhada estridente – mesmo que isso machuque meus ouvidos –, prefiro ver as ridículas cores que ela tanto ama torturando meus nervos ópticos, prefiro ver suas madeixas douradas balançado como açoites enquanto corre ou dança.
Permitirei que invada meu espaço e seja minha amiga. Qualquer coisa para manter acesa aquela luz dourada que ilumina toda a minha escuridão.
É madrugada. Não sei há quanto tempo estou a observando, talvez três ou quatro horas. Seu peito que sobe e desce com os movimentos de inspiração e expiração, a forma como suas pálpebras estremecem com os acontecimentos dos seus sonhos, os fios dourados que compunham seus cílios eram finos mas abundantes. É assustador o quão vermelhos são seus lábios, a forma em que eles se entreabrem como se esperassem por algo.
O fino lençol que a cobria escorrega com a brisa fresca que entra pela fresta da janela. Posso observar seu corpo se contorcer com a falta de calor, como uma lagarta prestes a se tornar uma linda borboleta. Eu apostaria meus braços que ela seria uma das borboletas mais belas.
Levanto-me da cadeira e caminho até o lado do quarto enjoativamente colorido. Aproximo-me da beira da cama e inclino-me esticando a mão para ajeitar o lençol em seu corpo. Pronta para me afastar noto duas lindas orbes azuis me encarando. Seus olhos eram como o oceano, apesar de cristalino escondem segredos. Quanto mais você adentra, mais esclarecedor é.
Azul...
Olhos azuis como água-marinha.
Suas íris me causavam calafrios, esses que com toda certeza não eram de medo.
— Ainda está cedo, Enid, vá dormir. Tenha terríveis pesadelos. – Desvio o olhar, viro as costas e volto para o meu lado sem esperar nenhuma resposta.
Era um tipo de luau, ou pelo menos foi o que Enid me disse, adolescentes meio bêbados na beira de um lago. Eu sinceramente não sei como o diretor permite algo assim. Como pude deixar que Enid me convencesse a participar desta palhaçada vil?
Encontro-me encostada em uma das árvores à beira do lago. A lua não está presente nesta noite, talvez até ela ache tudo isso uma perda de tempo, talvez ela saiba que isto não vale a presença de seu brilho obscuro, mas não é como se realmente precisasse de alguma luz esta noite. Enid estava brilhando.
Sua pele cintilava com algo que eu não sabia definir. Ela estava particularmente mais sorridente esta noite. Ela sorria tanto que eu podia vislumbrar várias vezes uma de suas presas, e não era necessária nenhuma luz para enxergá-la pois ela já possuía em si todo o brilho do sol.
Como eu queria ser o motivo de seu sorriso. Como eu queria que este pequeno feixe erroneamente radiante me olhasse com esses olhos azuis gloriosos.
— Mãozinha, vamos. Já é o suficiente por hoje. – Digo e caminho para me retirar. No entanto, um puxão em meu suéter me impede.
— Quê? – Me viro para ver Mãozinha fazendo alguns sinais enquanto aponta para uma Enid distraída.
— Não, eu não gosto dela, a desprezo totalmente. Não insista, se não quiser vir o problema é seu, pode ficar. – Sem esperar me retiro.
Logo em seguida o Feixe de luz vasculha a festa com seus olhos azuis a procura de alguém. Quando não a encontra, seu brilho se apaga levemente.
Não entendo. Ela contaminou meu cérebro com suas unhas coloridas, seus olhos de água-marinha, seu cabelo dourado – mesmo com as mechas coloridas, ainda continua horrivelmente belo –, seus lábios vermelhos como o sangue que jorra de um corte na carótida.
Ela está me enlouquecendo e não de uma forma boa.
Pego meu grande violoncelo e sigo para a varanda. Desta vez dispenso a ajuda de Mãozinha.
Observo a penumbra da noite. A brisa fria se choca com minha pele naturalmente fria e observo a luz vibrante da lua. Uma pena que não se compara ao brilho que Enid emite.
_Droga!_ A irritante garota está novamente assombrando meus pensamentos.
Sento-me e, antes mesmo que eu perceba, as notas de Golden Hour invadem meus ouvidos. A ouvi cantarolar isto a pouco tempo e foi mortal para mim.
Tudo me lembra a ela.
Chego no refrão e já posso sentir meus ombros arderam em pura tensão. Acelero os movimentos.
Ela está nas minhas veias.
Estou infectada com sua luz e não tenho um álibi para negar esta obscura e terrível paixão.
Como pude me permitir apaixonar? Agora tenho esses pensamentos patéticos e pesadelos adoráveis com ela.
Toco a última nota.
Posso sentir suaves gotas de suor em minha testa.
Observo novamente a vasta escuridão do céu e, ao virar-me, econtro aqueles azuis arregalados em espanto.
Estou perdida.
Não há o que fazer.
Vou mergulhar e me afundar nesta terrível maré e espero ser morta antes mesmo deste mar secar.
É a sua hora dourada.
Você desacelera o tempo.
Na sua hora dourada.
