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Language:
Português brasileiro
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Published:
2023-01-02
Completed:
2023-08-12
Words:
5,826
Chapters:
2/2
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37

crisântemos brancos como as nuvens do céu

Summary:

Para cada paixão na Terra existiria um crisântemo branco no céu

Notes:

para a maira

Chapter Text

tudo começou no céu acima das estrelas.

 

 

 

seria deus quem fez aquela pequena gotícula de átomo tomar tais quais proporções, com um rosto tão angelical e asas finas tão claras quanto o brilho da luz. atendia por Renjun, mas, ao final do dia, era, digamos de passagem, apenas um anjo.

 

um anjo que representava o amor. na verdade, ele o cultivava.

 

diferente da idéia do cúpido, o que, para Renjun, era uma história extremamente fascinante, as atividades do anjo eram apenas ver crescer, regar, e cortar os caules apodrecidos naquele vasto campo de crisântemos tão brancos quanto as supostas nuvens que rodeavam o local.

 

fora Renjun quem regou aquele crisântemo tímido que crescia, enquanto Adão se apaixonava por Lilith. regou com tanto carinho, para vê-lo apodrecer na vastidão do preto, e ser substituído por um que seria prometidamente tão forte, que duraria pela vida do humano. obviamente, também teria um crisântemo para os sentimentos de Eva, assim como sentia o vazio de pensar que Lilith não afloraria outro crisântemo.

 

Chenle. Renjun demorou um certo tempo para perceber a existência do outro anjo, mas, olhe só! a vida humana havia se desenvolvido. Chenle cuidava dos crisântemos amarelos, que representavam os gostos e paixões - ambições - dos humanos. Renjun soube que o primeiro crisântemo de Chenle fora a paixão pela vida de Lilith. Renjun se sentiu extremamente feliz.

 

dizer que anos se passaram não era suficiente para descrever o quão grande os jardins se tornaram. se antes Renjun via - consideravelmente - frequentemente Chenle, hoje nem mesmo encontrava o outro anjo que cuidava do outro lado dos jardim de crisântemos brancos. seja lá quem fosse, Renjun era grato por não ser o único.

 

 

 

 

tudo se condensou na extremidade dos átomos que compunham todas as coisas.

 

 

 

Renjun não sabia descrever. 

 

tinha medo. não! pavor. não! euforia! não! repreensão. não! leveza.

 

sentia todas as cataratas que fluíam em sua veias de luz correndo para aquele que sentia o centro, assim como se fosse feito tamanho carrossel dançante ou zoológico hiper lotado. 

 

Renjun sentia amor.

 

saber do anjo que também cuidava do jardim era um sentimento além de sua sabedoria, era como se fosse uma informação pré-suposta. no entanto encontrá-lo nunca daria a Renjun o espectro de o que poderia acontecer.

 

Renjun não sabia por quê sentia amor.

 

mas ele podia ver. podia ver como os cabelos azuis refletiam na vastidão de onde estavam. via como o nariz contornado, decorado com uma leve pinta em sua ponta, como o queixo desenhado contrastava com os olhos brilhantes. via como além da pinta do nariz, também conseguia enxergar uma em baixo à boca e outra, nitidamente, marcando o lado inferior do olho. via como o sorriso singelo se formava toda vez que surgia um novo crisântemo, os olhos se fechavam naturalmente em semi luas. Renjun via tanto, que se contorceu de susto quando sentiu crescer um crisântemo nas costas de sua mão direita.

 

se Renjun fosse um humano, ele certamente teria xingado.

 

 

 

 

 

tudo começou no céu que procede o desquerer de ir ao inferno.

 

 

 

Jeno. sabia que era novo, porém a amplitude do seu ser lhe permitia sentir como se existisse naquele céu desde seu começo. não tinha um exato interesse pelos humanos, e, na verdade achava estranho ele, como anjo, ter que se importar com algo além de sua função unânime.

 

não era aversão ou filosofia, mas de alguma forma Jeno se sentia revolto com a forma que os humanos não mantiam seus crisântemos firmes e vivos. seres com a oportunidade de sentirem o considerado sentimento mais importante de todo universo, que, até aquele ponto, anjos assim como ele se desfizeram de sua graça apenas para o sentir, e simplesmente matavam aquelas flores tão repentinamente. as queimavam deixando apenas cinzas, ou as apodreciam deixando apenas um caule morto. era como se tudo que soubesse sobre aquelas flores, era esperar sua morte.

 

um vasto campo de morte. morte continua, onde nenhuma flor realmente teria seu resplandecer eterno. e, de algumas Jeno não conseguiria sentir repulsa. humanos são mortais, nenhum crisântemo terá nascido para ser eterno.

 

 

 

 

 

tudo mudou quando uma flor nasceu em um lugar inesperado.

 

 

 

 

os cabelos escuros contrastavam com o horizonte, os lábios avermelhados eram boquiabertos, enquanto os olhos brilhantes e esperançosos refletiam o arco-íris do universo. seu nariz lhe encaixava a beleza, o rosto assustado e com nuances rosadas nas bochechas. um crisântemo na mão não aparentava colhido ou puxado, mas sim criado em meio ao corpo do outro anjo que estava em sua frente.

 

Jeno não entendia. a magia de deus não falhava, e muito menos aceitaria ser outro daqueles que conceberam o pó da terra humana.

 

pretenderia que todas as coisas no mundo, são apenas um reflexo de tudo que se pensa.

 

 

 

 

 

naquele dia, após muitos anos de trabalho solitário, dois anjos interagiram entre si.

 

 

 

 

 

 

Jeno teve uma boa ideia de levar Renjun até uma certa fonte, onde teria o crisântemo repartido de sua mão. não deu muito certo, tirando o fato que, após longas tentativas de arrancar a planta, Renjun se deitou descontente na grama celestial fofa, a flor migrando gentilmente para a superfície plana. comemoraram o progresso, voltando sem mais delongas para o jardim, onde voltariam a trabalhar como em toda a eternidade.

 

ai da 'erva daninha' que crescia ao pé do crisântemo de Renjun.

 

 

 

atos de gentileza eram comuns entre anjos. na verdade, as entidades não eram como amigos de interagirem divertidamente, mas apenas ajudas que auxiliavam para o bem de suas funções. mas desde de o dia do crisântemo indesejado, Renjun e Jeno têm se encontrado mais. muitas vezes, nem por querer. os anjos apenas se esbarravam, diziam olá e continuavam seu trabalho, lado a lado.

 

teve tais dias em que Jeno puxara assunto com o colega, começando uma estranha tradição de contarem sobre os crisântemos que cuidavam e aqueles que torciam para continuar fortes.

 

enquanto Jeno contava sobre como um crisântemo até muito grande era seu favorito, Renjun questionava sobre a paixão do dono do crisântemo ter uma outra flor intencionada a outra pessoa. ambos resmungavam tristes com as vidas terrestres.

 

"ser um humano deve ser tão difícil"

 

Jeno concordou baixo. "eu diria que o amor é como uma maldição"

 

"não diga isso!" repreendeu o outro, Jeno sorrindo com a cara de bravo que Renjun fazia. "o amor é o sentimento mais puro que existe. cuidar destes crisântemos é cuidar de pequenos mundos que existem dentro de cada um desses humanos…" se agachou, acariciando as pétalas de uma das flores, logo tendo todos os sentidos sobre aquela paixão vinda de um namorado apaixonado em um relacionamento muito feliz "...algumas pessoas apenas não têm a sorte de vivenciar o amor correto"

 

"seria engraçado se descobrissem que realmente existem equivalentes perfeitos para eles que talvez nunca vão encontrar mas poderiam ser extremamente felizes juntos, isso tudo pra sempre"

 

"JENO!"

 

"mas é verdade!” as risadas davam vida ao silêncio que normalmente contemplava o lugar. "alguns deles têm tanta sorte de conseguirem se encontrar"

 

"você acha que anjos também têm almas-gêmeas?"

 

 

 

 

 

 

 

um crisântemo tão forte crescia enrolado em um outro, ambos sem cuidado algum. cresciam como flores selvagens, no distante daquele jardim.

 

 

 

 

 

 

 

 

"você… acha que eu… molhei demais este aqui?" Jeno fazia uma careta pro hall de flores que contiam uma particularmente grande.

 

"você rega elas todo dia?"

 

"sim, chefe"

 

"então como pôde questionar algo tão bobo?" riu enquanto rolava os olhos para o outro anjo, as conversas avulsas já faziam parte do dia a dia de ambos.

 

desde que começaram a andar juntos, mais anjos de crisântemos brancos surgiram. os primeiros estranharam quando esbarraram em Donghyuck, mas o último sempre sorria em deixar os anjos em seu canto.

 

era inevitável para qualquer anjo no jardim perceber a relação entre Jeno e Renjun.

 

em primeiro tempo, eram apenas as conversas que (não) atrapalhavam o decorrer de seu trabalho. mas logo começaram as danças divertidas, as canções improvisadas e as brincadeiras escandalosas. deixar Jeno e Renjun no mundo que criaram era apenas um ato de gentileza de cada anjo que chegava a cruzar com ambos.

 

 

 

 

 

 

"Renjun, quer ver uma coisa?"

 

a mão entregue em sua semelhante foi a resposta muda que tornou em ambos anjos voando sobre todo o jardim, ultrapassando a visão das construções cristalinas que rodeavam a área. Renjun evitava temer o que poderia ver, seu coração escolhendo confiar no anjo que o guiava até as nuvens finas que cobriam o fim da vastidão. o céu do universo.

 

o fim do paraíso.

 

se sentaram em algum canto - não tão fofo como poderia - sob as nuvens, o preto puro em contraste com o colorido das galáxias e universos refletiam numa visão distorcida ate aquilo que se via o planeta Terra. como se fosse uma ponte da terra dos anjos para a dos humanos.

 

"por que me trouxe aqui?" 

 

"sonhei que te trazia aqui." Renjun franziu com a afirmação. sabia que anjos não dormiam ou sonhavam. "algo-, me contou sobre aqui. eu pensei que você gostaria da vista"

 

sorriram um para o outro.

 

continuaram em silêncio, cada um em um canto daquela nuvem fina. de certa forma ainda sentiam a sensação de calor mesmo não tendo sentidos térmicos.

 

 

 

 

 

 

dois crisântemos brancos cresciam vividamente como flores selvagens. não eram regadas ou cuidadas por ninguém. apenas se mantiam fortes e sobreviviam, enrolados um no outro.

 

 

 

 

 

 

 

"Jeno e Renjun?" perguntou Mark vendo os anjos sobrevoarem o jardim novamente. Donghyuck acenou que sim. "eles são mesmo anjos?"

 

"bem, eles são. e mais velhos do que nós. eles certamente sabem de coisas que não sabemos"

 

 

 

 

 

 

naquele dia Jeno e Renjun se sentavam mais próximos um do outro na nuvem final. desde a primeira vez que foram até o local, era quase inevitável não se juntarem ligeiramente para voltar até lá. apenas trocaram o local de suas conversas diárias.

 

"Ryunjin finalmente se declarou para Karina"

 

"isso… explica muito sobre como a flor da Karina está mais saudável" Jeno sorriu, Renjun repetindo a ação ao ver o rosto do outro "sabe, desde que você me disse que o amor é o sentimento mais puro que existe, eu andei analisando alguns crisântemos. mesmo que possuam uma alma-gêmea, eles sempre dão um jeito de encontrarem alguém para amar, não é?"

 

"é sim…" Renjun de alguma forma se sentia derreter. "é tão fácil deixar um crisântemo florescer…"

 

ficaram em silêncio enquanto as mãos timidamente se encostavam. o toque era novo e arriscado, um sentido de impedimento corria pelos nervos de ambos.

 

quando os dedos se enlaçaram minimamente sabiam que as coisas seriam diferentes a partir dali.

 

"Jeno, você acredita no paraíso?".

 

"é claro, Renjun. você mesmo já visitou lá, eu também. essa pergunta não faz sentido nenhum".

 

Renjun sorriu. os pés balançavam na imensidão do infinito que cairia abaixo das nuvens. suas asas se esticaram.

 

"você… não tem curiosidade de saber como é ter um lugar perfeito para acreditar?" Jeno franziu o rosto.

 

"bem… já vivemos em um lugar perfeito. uma realidade perfeita" nem mesmo Jeno dava confiança para sua resposta.

 

"é… humano eu me questionar por quê existimos?".

 

"talvez". Jeno recolheu um pedaço de nuvem nas mãos. logo cada plumagem brilhando em gotas que voaram com o vento que passava. Renjun encarou o outro, apertando o toque entre as mão enlaçadas. seu coração se aquecia. queria viver naquele momento. 

 

"podemos ficar aqui parados por toda a eternidade?".

 

"eu gostaria".

 

os olhos de ambos estavam fechados. o vento batia nos fios dos cabelos sedosos, temando desajeitá-los.

 

"Jeno".

 

"Renjun".

 

silêncio.

 

 

 

 

 

já não havia mais pena nas asas de Jeno que não se arrepiassem com os toques de Renjun.

 

já não existia luz que saísse do esplendor de Renjun ao sentir a euforia de estar com Jeno.

 

nenhum dos dois conseguiria dizer em voz alta.

 

fugiam para seu lugar favorito, onde dançavam a melodias mudas, onde trocavam carícias e se abraçavam olhando para o cenário já tão familiar. não se importavam mais com os crisântemos ou as histórias que viam ao tocar as flores, apenas contavam cada segundo que ficavam distantes para voltarem para o calor que sentiam um do outro.

 

e ainda assim não conseguiriam dizer em voz alta.

 

Renjun se tornou ainda mais fascinado pelos humanos. liberdade, era uma palavra que lhe recorria a mente constantemente. sua liberdade só existiria com Jeno.

 

Jeno odiava como sentia aquilo com tanta intensidade, mais do que aqueles que nasceram para sentí-la. como odiava aqueles seres que deixavam seus crisântemos morrerem com tanta facilidade, enquanto toda vez que Renjun sorrisse com o rosto deitado em sua palma da mão lhe faria tomar todas as piores ideias para um anjo realizar. 

 

 

 

 

como tinham inveja dos humanos.

 

 

sabiam bem que a distorção de tempo fazia suas rotinas serem recorrentes a séculos, assim como as flores selvagens tinham raízes grandes demais para serem até mesmo rancadas a força.

 

se fossem humanos, suas flores já teriam se evaporado da existência à até mesmo milênios, mas lá estavam elas, fortes e vivas, assim como o casal de anjos, que se apertavam outra vez contra o corpo do outro. Jeno tinha a asa envolta de Renjun, que deitou a cabeça no ombro alheio.

 

"eu queria poder te dizer o que eu sinto. assim como os humanos."

 

 

 

 

 

 

 

 

 

tudo começou no ponto de vista de uma plateia para um louco.

 

 

Jeno bufava alto enquanto refletia sobre a recém morte daquele crisântemo. seria um humano, tão apaixonado, capaz de sacrificar a própria vida por seu amado? ah… Jeno tinha tantos questionamentos. ficou indignado quando viu a flor equivalente daquele que era o amado pelo outro, agora mais forte e viva, seus dedos levemente tocando o caule que revelou o ponto de vista daquele que levaria seu amor consigo a vida inteira.

 

sacrifícios.

 

 

"Renjun, você desistiria dessa eternidade por mim?"

 

 

 

 

olhavam novamente para o breu do preto profundo do universo. Renjun respirou fundo, como se buscasse uma coragem fictícia.

 

 

"eu desistiria do paraíso dos anjos. buscaria o paraíso dos humanos por você"

 

 

Jeno sentia Renjun chorar. chorar silenciosamente o bastante para gritar. como se rasgasse suas costas e inundasse seus arredores.

 

sacrifícios.

 

"se nos jogarmos no abismo, podemos nunca mais nos encontrar. não lembraremos um do outro e viveremos em aflição, pra sempre," Jeno repensava toda a agonia que sentia.

 

 

"pra sempre" repetiu as palavras, os dedos das mãos enrolando nos do outro. Renjun repensava toda a paixão que teria. se era suficiente para o sempre. "se pularmos, poderemos viver juntos?"

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

decidiram pular juntos.

 

queriam ter uma chance, uma única chance, de se encontrarem em um lugar onde viveriam seu amor um pelo outro, onde conseguiriam ao menos dizer as palavras que se entalavam em suas bocas.

 

 

o abraço que davam os acomodavam a alma, um último toque que se alongou pela queda de ambas entidades naquele vazio tão familiar e tão desconhecido. não demorou para a escuridão os engolir, ambas asas começando a se incinerar. os anjos gritavam de dor, como se oitocentas facas estivessem sendo cravadas mutuamente em suas costas. sua luz celestial lhes cortavam a pele, queimando a fisiologia tão bem esculpida. mal lhe restavam as mãos unidas, quando se sentiram ser puxados um do outro. como se não pudessem cair juntos, não pudessem continuar unidos. eram separados pela existência.

 

nenhum grito de dor chegaria aos pés dos gritos que davam, como se sua vida estivesse sendo dilacerada de seus corações.

 

"EU VOU TE ACHAR" Jeno tentava promessas enquanto perdia a força na mão que o mantia conectado à Renjun.

 

"EU TAMBÉM," chorava lágrimas inexistentes. "EU TE-"

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"uau" Renjun concordava sem fé com a história que sua vó lhe contava sobre anjos que desistiram de seu esplendor para viverem um romance ou o que lá fosse. os anjos já viviam juntos, por quê iriam largar disso sabendo que cairiam no mundo sem saber quem são e nunca mais se verem? mas nunca contestaria a história da senhorinha. correu para abrir a janela assim que um dos gatos resolveu arranhá-la. "já já é o meu horário, então vou ir me arrumar. dia cheio no campo" anunciou antes de correr para seu quarto.

 

a senhorinha franziu o cenho. era difícil demais explicar sobre o sonho que tivera com o neto, este manifestado como um belo anjo, vivendo feliz junto daquele que amava. Renjun acreditava que era apenas um conto mal resolvido.

 

"com licença" Jeno diz baixo abrindo a porta que corria, seu mandarim ainda meio travado. encontrou a senhorinha, um tanto simpática. "eu sou… Jeno. minha mãe mandou eu… vir aqui… ainda estamos nos acostumando".

 

"é claro que estão" sorriu a senhora, sentindo sua existência fazendo sentido por fim. levantou lerdo da cadeira curvada, a atenção de ambos sendo roubada pelo gato que miou alto ao lado de Jeno na porta.

 

"eu já vou-" saiu Renjun apressado do quarto, atropelando o próprio pé ao ver a figura desconhecida do garoto de postura questionável e óculos tampados pelos fios de cabelo escuros sob a testa. "oi? ainda estamos fechados, só abrimos as-".

 

"shhhhhhhh" a senhora deu um tapa no braço do neto. "ele não é cliente" informou estressada, porém nem tanto. logo teve uma ideia. "Jeno? pode acompanhar meu neto no campo. uhum, vocês vão se dar bem, têm a mesma idade".

 

 

Renjun pode ter feito uma careta de desaprovação, mas não comentou nada enquanto catava os cestos, deixando um nas mãos do estrangeiro antes de seguir para fora da casa de campo sendo seguido pelo outro um tanto perdido.

 

 

 

 

 

num dia tanto ensolarado quanto aquele, com o azul mais brilhante tomando o céu com nuvens brancas, Jeno se pegou encarando Renjun. sentia como se já tivesse vivido aquilo, vendo o outro regando aquelas flores diversas. mas foi quando o chinês colheu um crisântemo branco que seu coração contou os segundos para bater novamente, onde o vento o fez voar para longe, para uma realidade que nunca tinha vivido, para um passado que apenas os séculos da infinidade traçariam suas raízes.

 

 

raízes essas que se fortaleceram novamente onde elas haviam sido plantadas pela primeira vez.

 

 

Renjun parecia um anjo. os cabelos escuros contrastavam com o horizonte, os lábios avermelhados eram boquiabertos, enquanto os olhos brilhantes e esperançosos refletiam o arco-íris que estampava o céu. seu nariz lhe encaixava a beleza do rosto de expressão monótona.

 

Jeno não entendia. 

 

 

"tá olhando o quê?".

 

"uh?" Jeno tombou a cabeça pro lado, o choque lhe trazendo de volta ao agora.

 

"coreanos…" Renjun sussurrou para si mesmo, antes de largar o cesto com flores no chão "por que…" sinalizou para Jeno "...você…" apontou para si "...tá me olhando?".

 

"eu… apenas achei que você é… muito bonito" Jeno respondeu ainda zonzo com a brisa.

 

"hum? você é até bom em mandarim, achei que não soubes- O QUE?" o olhar que havia sido direcionado para as flores voltava para Jeno, as bochechas coradas, assim como as do outro. diferente do comum, aquele elogio fez seu coração palpitar como em outra vida.

 

de repente parou para analisar o nariz contornado, decorado com uma leve pinta em sua ponta, como o queixo desenhado contrastava com os olhos brilhantes. via como além da pinta do nariz, também conseguia enxergar uma em baixo à boca e outra, nitidamente, marcando o lado inferior do olho. 

 

encarou a marca de nascença em sua mão.

 

 

 

 

 

 

"ei Jeno"

 

"hum?"

 

"a gente… já se conheceu antes?"

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"eu não sabia que eles estavam na terra" Mark comentava avoado, Donghyuck concordou sutilmente.

 

"agora faz sentido eles terem sumido de repente" completou.

 

 

 

os anjos haviam encontrado os crisântemos selvagens. crisântemos que refletiam todos os "eu te amo" que agora tanto Jeno quanto Renjun poderiam dizer um ao outro. toda a alegria que tinham ao compartilhar aquela vida, imortalmente mortal. Mark riu enquanto Donghyuck cutucava os caules fortes, que não cediam nem por muita força. o amor de Jeno e Renjun era mais forte do que uma rotina para cultivo de amor. mas era suficiente para dividirem a vida juntos, uma última vez.