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Capítulo único
𝑾𝒆𝒍𝒄𝒐𝒎𝒆 𝒕𝒐 𝒇𝒂𝒊𝒓𝒚 𝒈𝒂𝒓𝒅𝒆𝒏, 𝒑𝒍𝒆𝒂𝒔𝒆 𝒔𝒕𝒆𝒑 𝒄𝒂𝒓𝒆𝒇𝒖𝒍𝒍𝒚!
O sol estava especialmente forte no Reino das Fadas e Ninfas, rompendo as folhas das árvores da Floresta Encantada e iluminando o chão esverdeado da grama recém-molhada pelos feéricos elementares da água. Era uma manhã majestosa de primavera, a brisa trazia o cheiro de flores frescas e balançava a natureza em uma dança perfeita.
Onde as fadas repousavam debaixo da sombra agradável das mais belíssimas árvores, de raízes fortes e galhos vigorosos, os sussurros das pequenas ninfas escondidas por toda parte preenchiam a clareira em uma canção comum aos seus ouvidos sensíveis.
— Encontrei o que faltava, Chanyeol! – Baekhyun gritou sorridente, correndo em direção ao amigo. Suas grandes asas cor da neve estavam retraídas, arrastando as pontas no gramado. Sempre eram maiores que os próprios donos.
Ele balançava as margaridas na mão, orgulhoso por finalmente completar a tiara de flores que havia produzido para o maior. Chanyeol bufou irritado, mas em resposta, voltou-se para forçar um sorriso que acompanhasse a empolgação da fada que se aproximava como um pontinho de alegria.
— Paciência, esquentadinho.
Uma risada aguda de ninfa soou em cima dele, abusando do trocadilho com o elemental do fogo e seus fios vermelhos vibrantes.
Perigosamente Jongdae se locomovia entre os galhos através de cipós, havia aprendido essa proeza inspirada por Apolo no mundo dos humanos, no qual visitou apenas uma vez.
— O Baekkie te adora.
— Mas eu não adoro essas coisas que ele faz em mim. – contestou ao levantar o olhar para encarar seu amigo acrobata, segurando a tiara de galhos e folhas quando ousou cair da cabeça. — Estou ridículo!
Os pés descalços de Baekhyun se esconderam entre as próprias pernas cobertas pela calça cor de pêssego, ao sentar-se na posição borboleta de frente a Chanyeol, impedindo-os de prosseguir com a conversa anterior.
Jongdae encarou o bico chateado do maior com um riso contido e logo retornou sua atenção à árvore para desviar das possíveis perguntas da única fada, presente e animada, sobre a tiara que havia lhe presenteado semana passada.
Baekhyun era uma criatura muito sensível e… Um tanto dramática.
— Não se mexa!
Seu hálito cheirava a baunilha e as asas atrás de si agitaram-se em excitação ao juntar as últimas margaridas próximas aos ouvidos pontudos de Chanyeol e, também, ao notar que seu amigo estava lindo com a tiara pronta rodeando seus fios vermelhos.
— Sem ofensas Jongdae, mas é a mais bela que já fiz!
— Não ofende.
Baekhyun olhou para cima estreitando as orbes miúdas, desafiando a ninfa astuta ao dedilhar os ares com seus dedos finos, balançando os cipós em que se pendurava. O que era para ser um breve susto, acabou se tornando uma brincadeira divertida para Jongdae tentando se manter de pé na árvore.
Em meio às risadas, Baekhyun se esqueceu completamente da tiara que havia produzido, deitando-se na grama com os pés e as pernas esticados sob tronco espesso, em uma posição confortável para manusear o vento como bem entendia.
Tamanha graça expressada naquelas feições belas, em seus olhos líricos e nas gargalhadas melódicas entoadas como música, faziam a maior ninfa entre os dois crer fielmente que seu amigo era irmão de Hemeneu, filho de Afrodite e Apolo. Era a única explicação!
Baekhyun tinha brandura e fortuna em forma de índole, tão bonito quanto uma noite perfumada de cerejeira, transbordava de uma paixão ardente pela vida e pelos seus amigos, sempre os presenteava com seu talento através de objetos artesanais que produzia durante o tempo livre.
Chanyeol não podia quebrar aquele coração puro com sua implicância pela graciosidade que moldava Baekhyun por inteiro. Esse era seu encanto singular e ele o amava.
— Eu amei, Baekkie.
— O que? – os lábios finos sibilaram a pergunta confusa e seus olhos de jabuticaba ansiaram pela resposta encarando seu rosto, encostando a bochecha no gramado.
— A tiara. Ficou realmente linda.
Baekhyun sorriu doce, a euforia em seu peito o levaria às alturas com aquela singela constatação, sendo capaz de juntar-se às borboletas no céu e deitar sob as nuvens fofas.
De repente, um vento forte os engoliu como um devorador, remexendo a natureza ao redor e arrepiando as criaturas próximas. Não havia sido Baekhyun, nem por sua empolgação e nem pela brincadeira com a ninfa pelos cipós.
Encerrando apenas quando o feérico real descansou do ligeiro trajeto.
— Está morrendo! – Minseok anunciou em tom melancólico, pousando os sapatos perfeitamente brancos do seu uniforme no gramado que possuía a mesma cor das suas asas cintilantes, tonalizando de verde a linda paisagem através de seu material translúcido.
Uma tiara de flores azuis e brancas, enfeitavam os seus cabelos castanhos como café. Era o único do grupo de amigos que verdadeiramente apreciava o presente, até auxiliou Baekhyun no momento de construir e a utilizava o tempo inteiro. Com a permissão da Rainha, é claro.
Minseok era uma graciosa fada que servia à Eco, Rainha das Fadas e das Ninfas, na posição de mordomo dentro do adorável Palácio Real, que se localizava onde as lágrimas do sol nasciam e a magia da natureza prevalecia.
Por esse motivo, a ninfa Chanyeol e a fada Baekhyun o encararam alarmados em uma sincronia meticulosa. Algumas folhas do chão ficaram presas nos fios cor de espuma do elemental do ar e suas asas levantaram-se pelo susto.
— Minhas flores de cerejeira precisam de água! Onde está Jongdae?
Chanyeol revirou os olhos e relaxou os músculos, espelhando a fada, pela qual era secretamente apaixonado, ao deitar-se na grama. Aparentemente o drama percorria pela veia daquelas criaturas, Minseok e Baekhyun eram iguais em muitos aspectos.
A ninfa percebeu que o Olimpo estava repleto de elementais do ar se divertindo por toda extensão azul, formando através de seus poderes figuras e animais com as nuvens alvas.
Como uma criança prestes a fazer travessuras, Jongdae mordeu o lábio inferior para conter o sorriso sacana com uma ideia vagando pela sua cabeça. Pretendia enrolar-se num cipó e jogar-se na frente do mordomo para assustá-lo. Não demorou muito para seu nome ser chamado novamente, feito mel na boca de Minseok.
Para interromper a fada, ele se posicionou no galho e jogou-se de cabeça para baixo na altura dos seus olhos, que se esbugalharam pela aproximação repentina, expressando outro sorriso, mas dessa vez galanteador e divertido, arrancando risadas do grupo de amigos.
— Bom dia, meu príncipe da beleza e do amor. – o fitou com ternura.
— Desça daí, vai acabar se machucando! – tentou disfarçar, mas suas bochechas adquiriram o tom rosado das cerejeiras que tanto apreciava.
Minseok levantou as mãos e rapidamente a árvore soltou a ninfa que caiu em seus braços numa reprodução clássica, romântica e clichê do príncipe que resgata a donzela com seus músculos fortes e admiráveis.
Afinal, quem aquela fada queria enganar? Ele adorava quando os devaneios fantasiosos de Jongdae o conduziam a imaginar as mais agradáveis situações e incontáveis traquinagens, algo que rendia boas conversas acompanhadas de risadas, enquanto comiam os apetitosos pães açucarados que somente Chanyeol sabia fazer, logo ao pôr-do-sol.
Jongdae era uma figura inigualável. Era cor e alegria. Era um universo vasto de beleza e possibilidades que aceleravam o coração de Minseok.
A ninfa prontamente envolveu o pescoço do mordomo com os braços e ordenou em voz alta, constrangido ainda mais sua paixão:
— Leve-me consigo, oh minha cintilante estrela refulgente! – recitou. — Atravessarei mares infinitos, escalarei montanhas para realizar seu sublime desejo.
O recém-chegado rolou as orbes ao ouvi-lo terminar aquele improvisado poema e o dispensou, com cuidado, dos seus braços. A palavra tédio tornava-se desconhecida quando se conhecia aquela ninfa energética.
— Vamos, temos a Dove para salvar!
Então, um sorriso tímido dançou nos lábios de Minseok. Aquele havia sido o singelo nome que apelidou a querida flor de cerejeira que cresceu no quintal da sua casa. Jongdae sempre acolhia suas sensibilidades e afetos, ao contrário dos companheiros anteriores.
Mal sabia a fada que esses foram um dos motivos pelo qual a ninfa se entregou ao seu amor.
— Alcançamos vocês depois. – Baekhyun disse bem-humorado e abanou com a mão indicando para saírem de uma vez por todas do Floresta Encantada. Era óbvio que os pombinhos não queriam suas presenças.
— Então nos encontramos no Centro do Reino durante o anúncio da Rainha. – Minseok afirmou com seu usual timbre adocicado e ameno, sem esperar por protestos da parte dos dois, pois era compromisso de todas as criaturas altivas.
Mais cedo, os funcionários do Palácio Real anunciaram em um comunicado formal a importância da presença das fadas e ninfas a frente da ostentosa ornamentação do castelo de tons rosa suave e branco perolado, com o intuito de revelar algo de grande interesse dos habitantes do Reino, no fim da tarde. Todo esse suspense estava os apavorando.
— Sabe do que se trata? – a maior criatura entre eles, dos fios perfeitamente avermelhados que refletiam seu brilho sedoso e dono de uma voz áspera marcante, questionou como o grande curioso, para não dizer fofoqueiro, que era.
O mordomo deu os ombros em negação e se despediu rapidamente para alcançar os passos ligeiros do amado, que o conduziram para a planície no oeste, onde os dedos róseos do Olimpo arrastavam-se pela atmosfera, manchando-a com seu espetáculo para se preparar em dar início a escuridão.
— Que benção é ter o coração perfurado pelo cupido. – com os olhos brilhantes, Baekhyun devaneou quase num sussurro enquanto encarava os dois amigos se afastarem lado a lado, trocando implicâncias e sorrisos apaixonados.
O vento lhe fazia o favor de carregar suas palavras sussurradas e recheadas de sentimento para somente quem gostaria que as ouvisse, naquele caso, para Chanyeol.
— Queria saber a sensação.
— O que disse? – engasgou-se com a própria saliva.
— Amar. – ele suspirou. — Esse empenho, essa afinidade, essa estima… Não achas fascinante?
De repente, as palavras se perderam na mente de Chanyeol. Como poderia prosseguir com aquele assunto sem parecer estúpido?
Baekhyun soltou um riso da sua confusão e levantou-se estendendo a mão direita para a ninfa.
Maldito sorriso traiçoeiro! O coração de Chanyeol acelerou tão forte que seria capaz de cavar um buraco em seu peito.
— Venha, lhe dou uma carona pelos ares até o Centro.
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— Do que será que estão conversando? – com um bico adorável desenhado em seus lábios pela curiosidade, Jongdae questionou, olhando por todas as direções à procura de algum indício do assunto discutido pelos dois guardas no corredor dentro do Palácio.
Minseok murmurou “não sei” meio tristonho por estar alheio aos assuntos reais, repousando a cabeça em seu ombro, a atenção voltada para a mesma direção que a da ninfa. Estavam escondidos ao lado de uma das colossais janelas do Palácio, observando a Sala do Trono, sentados no telhado.
Por mais que a fada servisse a Vossa Majestade desde que se tornou um pequeno ponto de vida astuto, nunca se acostumou com a formosura infindável daquele castelo. O chão era de mármore creme e o teto alto decorado com diversos brilhantes lustres de cristal, as paredes nuas e opulentas presenteadas por detalhes prata, dourados e verde pastel. E é claro, a magia da natureza que proporcionava o toque singular naquela dobra existencial do universo.
Observaram por mais alguns minutos, até que um dos guardas bateu continência para o outro e se retirou do campo de visão do casal. Jongdae suspirou pesado, aceitando a derrota da missão de detetives feéricos que, anteriormente, soava muito eficaz em sua cabeça.
Entretanto, quando estava prestes a se levantar para encontrar Baekhyun e Chanyeol, Minseok ergueu-se de supetão, o encarando com seus olhos felinos aumentados de tamanho e seu lábio puxado em um sorriso de canto. A ninfa sabia que essa era sua expressão de “Eureka!”
Ele havia pensado em algo. Se uma lâmpada acesa fosse possível de surgir no topo da cabeça de Minseok, ela estaria flutuando ali sem dúvidas.
— Vamos entrar e descobrir! Está perto do horário, não irão mais guardar segredos.
A Estrela-Maior realmente comunicava seu último adeus do dia, dando espaço para o espetáculo da Rainha da Noite nas colinas ao leste. Os humanos não mentiram em seus contos de fadas quando afirmavam que qualquer detalhe da natureza se tornava grandiosamente belo ali.
Jongdae levantou-se na mesma empolgação que seu amado, com um aceno de cabeça em concordância. Estaria adentrando o Palácio como convidado do mordomo, nada poderia dar errado.
Ao empurrarem aquela janela e mergulharem no tom rosa das cortinas semitransparentes, perfumadas como a flor, testificaram uma infeliz verdade de que era possível algo dar muito errado no Reino de paz e harmonia majoritária.
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O Centro nunca esteve tão povoado como naquela noite.
Geralmente, as fadas e as ninfas costumavam repousar para o dia seguinte e as que não sentiam sono, se aventuravam entre os bosques e os lagos para se divertirem e terem suas energias, enfim, esgotadas. Mas naquela noite, reunidos conforme a instrução real os orientou, tudo parecia diferente.
A agitação dessas criaturas era sentida e compartilhada numa intensidade instantânea, estavam nervosas e ansiosas. Por sorte, os feéricos eram ágeis e inteligentes, obtendo a brilhante ideia de preencherem o ambiente com danças animadas acompanhadas dos violinos e flautas tocados pelos abençoados de Apolo.
Tudo ocorria bem com o resgate da alegria enraizada que servia apenas como distração para o pesadelo que viria brevemente…
Baekhyun e Chanyeol vagavam pelas ruas de pedrinhas brilhantes lado a lado, em direção ao Palácio que se localizava no final delas. As luzes acesas dos prédios lhes proporcionavam a iluminação que sentiam falta do sol.
"Vamos dançar!", a fada tinha exclamado entre a música alta, puxando a ninfa para se juntar aos demais, mas ele não havia compreendido.
Os músculos de Chanyeol travaram quando se enxergou na multidão em meio às cantorias e palmas, seus dedos entrelaçados com os de Baekhyun, o rodopiando pela pista, não ajudavam em nada para sua calmaria.
Chanyeol o achava sublime demais para segurá-lo em seus braços e chamá-lo de meu.
Já Baekhyun, acreditava que Chanyeol era seu universo lírico banhado por incontáveis maravilhas poéticas, alguém que trouxe para sua vida cores que antes eram irreais para si. Aquela pose durona que o maior tentava sustentar não passava de um disfarce para esconder sua sensibilidade dos assuntos mais bobos possíveis.
Elementais do fogo costumam ser dessa maneira, mas ele era o oposto dos seus semelhantes, tão gracioso quanto aquele que o próprio admirava, por isso chamava tanto a atenção da curiosa fada.
Houve um momento em que pararam de dançar, ambos os olhares se cruzaram compartilhando do mesmo brilho ofuscante que o abraço acolhedor das estrelas no céu, seus corações arderam em um sentimento mútuo acompanhados de sorrisos singelos e envergonhados.
Chanyeol separou os lábios para quebrar o silêncio estranhamente confortável, Baekhyun ameaçou fazer o mesmo, mas foram interrompidos por duas cornetas mágicas ressoando o anúncio da reunião prestes a começar.
A reação foi instantânea novamente. Todas as criaturas correram de forma desengonçada até a distância mais próxima da sacada do palácio, com a intenção de ouvirem o conselheiro real. As que possuíam asas sobrevoaram sobre a multidão e perceberam antes dos demais o pergaminho enorme com escrituras.
A ansiedade pela notícia era tanta que alguns esbarraram em Chanyeol durante o percurso, quase ocasionando a queda mais vergonhosa da sua vida. Aquela de ser segurado pela sua paixão secreta.
— Vamos ficar por aqui, lá na frente está um caos. - Baekhyun sugeriu expressando um sorriso reconfortante para as bochechas ruborizadas feito morangos do amigo.
Por céus, Chanyeol acreditou fielmente que podia desmaiar de vergonha a qualquer instante e não tardou em concordar de permanecer a poucos passos de distância da multidão.
O Conselheiro Real pediu silêncio e todos obedeceram, curvando-se em uma breve referência para demonstrar respeito a Eco, o assunto da reunião. Quando ele limpou a garganta e estendeu o pergaminho em mãos, que pela extensão bateu até o muro da sacada, encarou a multidão de feéricos pela última vez antes de abaixar o olhar para ler o comunicado.
A hesitação era notória, assim como a postura incomum dos dois mordomos ao seu lado, um deles sendo Minseok com o rosto inchado e nariz franzido.
Algo não estava certo, Chanyeol sentiu o estômago revirar-se por inteiro quando o Conselheiro utilizou o vento como mecanismo para carregar suas palavras com cuidado e chegarem ao ouvido de cada criatura, instalando o sentimento inédito e angustiante nos corações.
Ele era relativo de Eco, sua pele tão dourada como ouro e olhos completamente brancos perolados, e mesmo assim, carregados de sentimentos visíveis, se assemelhavam muito à formosura da Rainha, ambos controlavam a magia de todos os planos de existência.
Foi informado que Eco estava muito doente e não iria demorar para todas criaturas se sentirem fracas e perderem os seus poderes pouco a pouco, pois todas as criaturas do Reino eram ligadas a ela.
Eco era a razão da existência e sem ela, a razão da extinção dos guardiões da natureza. Haviam tentado de tudo para curá-la, utilizando feitiços, poções curativas, mas nada adiantou, naquele ponto da história, era quase inevitável manter segredo sobre o seu quadro agravante.
O reino estava completamente desolado. Nenhuma criatura viva escapou de sentir aquele sofrimento sufocante.
De repente, o tronco de Chanyeol foi enlaçado pelos braços de uma silhueta conhecida. Uma que costumava considerar o seu lar.
Baekhyun enfiou o rosto no seu peito em um aperto forte, movido pelo pensamento bobo de que seu porto seguro escaparia como areia de seus dedos e então, desabou em lágrimas de tristeza.
A primeira reação da ninfa, após o delay em sentir o calor feérico, foi rodeá-lo correspondendo seu abraço. Sem jeito pela aproximação e ainda em choque pela notícia, Chanyeol decidiu acariciar as costas da fada com um leve carinho de amparo, deslizando a mão pela sua coluna, subindo e descendo.
Até arriscou sibilar algumas palavras de consolo, mas essa tarefa tornou-se fatigante e árdua quando também se encontrava desolado. Elas haviam perdido o sentido.
Enquanto sentia o perfume de morango dos fios sedosos de Baekhyun, Chanyeol também chorou.
🧚
A terceira garrafa de rum era esvaziada enquanto a quarta vinha a caminho, reunidas na mesa redonda da pequena casa de madeira do Minseok.
Jongdae já dormia, a angústia de saber que seus dias de vida estavam contados o fez se embebedar até perder a energia. E o anfitrião se ocupava em cultivar manualmente as suas incontáveis plantas, ainda meio tonto sob efeito da bebida, sendo guiado pela iluminação das velas acesas espalhadas por todos os cantos da sua aconchegante residência.
Foi possível ouvir Baekhyun suspirar antes de virar mais um copo goela abaixo, em seguida levantar o olhar cansado para encarar Chanyeol a sua frente, compartilhando da mesma expressão apática. O canto superior dos seus lábios avermelhados estavam melados com a espuma da bebida, um bigode cor-de-nuvem adorável demais para o coração amolecido da fada.
— Devemos comunicar a Zeus?
Finalmente, Chanyeol quebrou o silêncio que parecia eterno, inclinando os cotovelos sobre a mesa de madeira que range em resposta, esperando por qualquer resposta positiva das duas criaturas acordadas.
Deveria haver alguma forma de se salvarem, não era justo o Reino das Fadas e das Ninfas se esvair tão de repente.
Baekhyun deu os ombros, disperso, contornando a beira do copo vazio com o indicador. Por fim, Chanyeol fitou Jongdae no sofá atrás de si, empacotado no lençol rosa e macio, a boca aberta ecoou um ronco avisando para não contarem com ele nessa discussão.
O ambiente aconchegante era coberto pelas cores quentes providas pela luz das velas, tanto as porcelanas brancas quanto as paredes e o chão de tábua escuras, se harmonizavam com o clima melancólico. Nenhuma ventania sussurrava sua canção, como se a natureza também lamentasse sua lástima, contribuindo para quentura da madrugada.
— Destino não é trabalho deles do Olimpo. – Minseok interferiu com um tom cansado.
Ele depositou o regador azul, decorado com as pinturas de flores desenhadas por Baekhyun, na prateleira próxima a lareira apagada e se juntou aos demais na mesa redonda, em uma postura preguiçosa.
— Não há nada que possam fazer. – desesperançoso, bagunçou os cabelos.
A fada artesã entortou a boca ao ver seu melhor amigo naquele estado deplorável e a ideia inicial de beberem até ficarem extasiados da notícia saltou novamente em sua cabeça zonza. Perderam o foco quando Jongdae capotou de sono, mas Baekhyun estava lá para lembrá-los. Inclinou-se sobre a mesa e encheu, com dificuldade, o copo da fada com mais uma rodada de rum.
Minseok fez uma careta segundos após a bebida sair rasgando sua garganta.
— Essa cena poderia ser qualquer coisa, menos a forma que havia imaginado nosso fim. – Chanyeol riu de si mesmo, analisando o estado em que se encontravam, entregues ao temido destino da morte.
Baekhyun estava tão distante da realidade que não reagiu ao comentário, ao contrário dos olhos de Minseok que se encheram de lágrimas.
— Eu queria tanto visitar o mundo dos humanos. – lamentou o pouco tempo restante, escondendo a face com as mãos.
— Bobagem! Nós devemos guiar o nosso destino. – de repente, Baekhyun exclamou espalmando a mesa. Seu raciocínio lento ainda processava o tópico da conversa anterior. As asas de Minseok agitaram-se pelo susto dos objetos pulando brevemente do móvel.
Seu volume do tom de voz e o barulho da mesa foram altos o suficiente para acordar Jongdae e obrigá-lo a sentar-se no sofá para entender a baderna que acontecia na sala do seu namorado. Com o rosto amassado de sono, a boca se abrindo em um breve bocejo e o lençol rosa envolvendo seus ombros, ele observou Baekhyun cambalear até seu encontro, parecendo empolgado em anunciar algo para a ninfa.
— Tive uma ideia. – disse após prender os lábios entre os dentes e levantar o copo que segurava para o teto. Jongdae não estava entendendo bulhufas, a figura da fada ainda era turva para a mente grogue de sono pelo qual ela escolheu conversar.
De repente, Baekhyun cantarolou os primeiros versos de uma canção, resgatando na memória empoeirada dos demais aquilo que costumavam ouvir pelas ruas das pedras brilhantes. Os versos que seus ancestrais repassaram e que seriam passados para seus sucessores.
Seus dedos finos repousaram no ombro coberto da ninfa mais próxima, o coagindo a entrar em seu devaneio. E é óbvio que ele aceitaria.
Baekhyun sabia a fórmula perfeita para o sono ir embora e trazer o clima agradável de volta ao grupo de amigos. Jongdae levantou-se de supetão do sofá, acompanhando a fada completamente afetada pelo álcool, cantando o próximo verso, em seguida, harmonizando uma alta cantoria.
Quando os violinistas tocarem as notas de cristal concedidas por Apolo,
Você poderá ouvir o som mágico das vozes das fadas borbulhando ao entoarem essa canção
Nas profundezas do Bosque da Melancolia está a solução, uma nobre jornada a se desvendar
Pela poeira lírica e doce ao sul, pensamentos hão de se embaralhar
Em busca da Aurora, uma nobre jornada a se desvendar.
Eles dançaram ao redor da mesa redonda, contagiando Chanyeol e Minseok com a melodia conhecida. Pulavam, utilizavam as garrafas vazias de rum como instrumento improvisado e cantaram a plenos pulmões. Jongdae segurou a mão do mordomo e o girou uma, duas, três vezes até perderem o equilíbrio e, juntos, caírem no sofá.
Minseok expressou uma gargalhada apolínea enquanto o apertava em um abraço apaixonado, depositando um beijo na bochecha alheia.
Há um bom tempo não ouviam essa música.
— Precisamos encontrar esse Bosque! – Baekhyun exclamou com um sorriso de orelha a orelha. Não sabia distinguir se a felicidade era causada pela brilhante ideia ou pelo álcool em seu corpo. — É o único jeito de salvarmos o Reino!
A sugestão boba soou como música aos ouvidos de Chanyeol, não por concordar, mas por achar sua voz a mais bonita que conheceu. Minseok gargalhou novamente, dessa vez da áurea alegre e repentina do melhor amigo, esquecendo-se que minutos atrás estava chorando.
Simplesmente o perfeito equilíbrio.
— Nossa última esperança. – Jongdae completou confiante. Ambos eram parceiros de aventura, como metades de uma laranja, suas ideias se completavam e sempre estavam dispostos a embarcar nas mais insanas possíveis.
O elemental do fogo triplicou o tamanho dos seus olhos grandes e começou a andar por toda a sala, gesticulando exageradamente enquanto contestava aquela ideia maluca.
— A lenda é clara, esse Bosque é muito perigoso. Vocês bateram a cabeça? – suas mãos suavam somente em pensar nessa possibilidade. — Ninguém, nunca, voltou vivo de lá. – enfatizou.
— Isso é o que dizem… – Minseok ponderou alto, formando um bico pensativo nos lábios e o dedo indicador no queixo. Na verdade ainda estava em cima do muro diante da proposta. — Não conhecemos de perto nenhuma alma que foi corajosa para enfrentar.
— Há um motivo pelo qual esse lugar é tão intocável. Sabe-se lá como é a força da sua magia. – rebateu. — Ela brinca com a sanidade de qualquer criatura. É loucura ir atrás dela!
— Nós estaremos tentando juntos, Chanyeol. Nada pode dar errado… – Jongdae argumentou completando ao afirmar que cada um seria o alicerce do outro nessa jornada perigosa.
Se a melancolia batesse na cabeça de alguém, outro a expulsaria, mas o elemental do fogo e da terra tinham certeza que a realidade era mais árdua que isso e ficaram em silêncio.
Até que Baekhyun se pronunciou com os olhos encharcados de lágrimas.
— É uma loucura ainda maior ficarmos sentados assistindo o nosso fim. – aumentou algumas notas na voz embargada, que certamente que se arrependeria quando estivesse sóbrio. Foi inevitável, as palavras saíam como se estivessem sufocando sua garganta por muito tempo. — Precisamos fazer alguma coisa pelo o que amamos. Não podemos perder nosso Reino, eu não posso perder você também.
Ele arregalou os olhos quando percebeu seu sentimento quase revelado e balançou a cabeça, gesticulando exageradamente para perderem o foco do que havia falado antes.
— Quer dizer, vocês… Todos vocês são as coisas mais importantes para mim.
— Se Aurora realmente existir, é a flor curativa mais poderosa do universo, ela resolveria qualquer problema. – o de cabelos azuis vibrantes como água, cor simbólica do seu poder, argumentou de novo. — E a doença da Eco é um problemão.
— Desculpa, pessoal… Dessa vez, eu estou fora. – sua voz soava baixa, quase entristecida por admitir, e então retirou-se da sala. Minseok o acompanhou após dar os ombros como resposta e dizer:
— Vamos resolver isso quando estivermos todos no nosso melhor estado, sem bebida.
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Eles acordaram junto aos raios de sol rosa-claro atravessando as janelas da pequena casa de madeira. Um cheiro forte de frutas frescas se espalhava pelo ar entre as flores e plantas da decoração rústica, aguçando a curiosidade deles que se entreolharam desconfiados ao perceberem os travesseiros vazios, sem a presença de uma ninfa de cabelos avermelhados, e decidiram juntos seguir o aroma convidativo até a cozinha para desvendar esse mistério.
Uma voz grave e áspera cantarolava a canção de Aurora em tom baixinho para não acordar os amigos, essa voz se encaixando perfeitamente a figura alta, das costas largas sem nenhum risco de asas feéricas, conforme os três iam adentrando o cômodo e reconhecendo.
Chanyeol lavava as mãos na pia, sem a menor desconfiança de estar sendo observado, diante a uma janela de vista para a campina esverdeada e na árvore ao lado da casa, um casal de andorinhas espiava no galho mais próximo. Em seguida, ele abaixou-se para conferir algo no forno a lenha, intensificando o fogo com sua própria magia, antes de virar-se para trás e pular de susto.
— O que faz desperto tão cedo assim? – Minseok perguntou encostado na parede do cômodo, com uma das sobrancelhas erguidas e braços cruzados, segurando o riso quando notou sua bochecha melada de farinha branca e a mão no coração.
— Não consegui dormir direito pensando na nossa conversa de ontem, acordei ainda com a Lua. – seu tom de voz era aconchegante e doce, como um chocolate quente para aquela manhã fria. Ele falava para todos, mas seu olhar permanecia direcionado a Baekhyun. — Cheguei a conclusão que não deve ser tão difícil assim… – pausou, desviando a atenção para o casal. — Vamos tentar! – sorriu.
Dentre todos os seres naquele reino, Minseok era o pontinho de paz mais exuberante. Tinha nascido de uma flor cor de espuma, com aroma de baunilha, ao pôr do sol, agraciado pela harmonia e brandura de qualquer espaço que seus pequenos pés pisassem. Poucas coisas nessa vida o aborreciam, e todos os seus pensamentos sempre procuravam a plenitude de um bem maior.
Ele não se importava de escalar montanhas ou nadar em lagoas proibidas, desde que estivessem em paz, por isso deu os ombros murmurando um "se vocês querem, eu topo".
Ao ouvir a ninfa disposta a embarcar em sua aventura, Baekhyun chegou a conclusão que o amava muito, sentia que seu peito fosse explodir a qualquer momento!
Chanyeol recebeu o mesmo brilho encantador da noite da dança, transbordando dos olhos do menor antes de correr ao seu encontro para receber mais um dos seus abraços apertados favoritos. A fada agradeceu em um sussurro e uma risada melodiosa foi sua resposta.
— Que cheiro é esse? - Jongdae indagou, levantando o queixo, aspirando todo o ar da cozinha e sentindo aquele cheiro de mel cada vez mais forte.
— Como nossa caminhada vai ser longa, preparei algumas coisas… Nada demais. – respondeu como se não houvesse passado todo o tempo da sua manhã se dedicando em preparar a comida favorita deles com muito cuidado e atenção até nos mínimos detalhes.
Ainda com o tronco enlaçado por Baekhyun, ele apontou com o braço sobre o ombro do menor para as três mochilas enfileiradas na mesa.
— Minhas panquecas favoritas! - Minseok não conteve a empolgação ao encontrar alguns potes com blueberries, bananas e mel engarrafado para completar a refeição, dentro da sua mochila de cor marrom pastel. Ao vasculhar mais um pouco, se surpreendeu ao perceber que tudo o que precisaria para a viagem já estava arrumado. Mapas, bússolas, garrafas d'água…
Chanyeol planejou preparar tudo antes de acordarem, mas haviam acordado cedo demais!
— Aqui tem pães de mel! - Jongdae exclamou tão alegre que devorou um da sua mochila azul e ainda nem começaram a caminhada. — Você é o melhor, Chanyeol. Muito obrigado. – disse de boca cheia, estendendo um joinha com o dedão. A ninfa sorriu tímida em resposta.
E quando Baekhyun se desfez do abraço para vasculhar a mochila branca, a última que faltava, se deparou com um vazio dentro.
— Fiz tortinhas de morango para você. – se apressou em explicar antes que o elemental do ar se entristecesse, até embolando algumas palavras no caminho. — Mas ainda não estão prontas… – apontou para o fogo que acendia mais cedo.
— Nossa, as do Baek foram as mais bonitas e as mais frescas. – Minseok comentou meio-enciumado-meio-indignado ao se aproximar do fornor e enxergar as tortas trançadas com carinho, tão lindas quanto o autor delas. Chanyeol era um artista.
Jongdae soltou uma risada alta e então rapidamente colocou a mão na boca, alarmado como se tivesse contado um segredo. Era óbvio que sabia sobre os sentimentos do seu melhor amigo. Quando as fadas ocuparam sua atenção para outra coisa, Jongdae simulou uns beijinhos no ar para estressar seu amigo o chamando de bobo apaixonado e Chanyeol revirou os olhos.
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Fazia frio naquela primeira manhã de outono. As folhas alaranjadas e amarelas caídas sobre o esverdeado na clareira e do sol tímido lhe sinalizavam aquele adeus da primavera, mesmo que os guardiões da natureza fossem sensitivos quanto à mudança de estações.
As duas fadas esperavam as ninfas terminarem de organizar suas mochilas enquanto jogavam conversa fora no jardim, apreciando a vista e cumprimentando alguns feéricos vizinhos que acenavam sorridentes em sua direção, apesar da janela de suas almas não mentirem ao transparecerem a apreensão pelo Reino.
Baekhyun cobriu seus fios esbranquiçados com um gorro da cor verde e Minseok escolheu deixar os seus cabelos cor de café expostos, mas utilizando uma luva macia e aconchegante nas mãos para se proteger do frio. Ambos os pares de asas translúcidas que estavam retraídas e magicamente encolhidas dentro da casinha de madeira, se alongaram de forma espontânea na clareira.
Um vento gelado e poderoso os encontrou, balançando os grandes dentes-de-leão em uma canção singular.
— E então? - quebrou o silêncio e Baekhyun levantou as sobrancelhas para que prosseguisse.
Um algodão pousou em cima do nariz do Minseok que ficou vesgo ao tentar enxergá-lo e franziu o nariz espirrando em seguida.
— Você e o Chanyeol? – completou após se recuperar.
Baekhyun soltou um riso sem graça e suas bochechas adquiriram um tom levemente rosado.
— Ah… Acho que ele não me vê dessa forma. – lembrou-se da reação do elemental do fogo sobre sua indireta na Floresta Encantada, quando estavam deitados na grama, e seus ombros encolheram com medo da rejeição.
— Duvido! – o melhor amigo gritou como se o que tivesse acabado de ouvir fosse uma ofensa terrível. — Jongdae me contou que toda vez que ele bebe só fala do quanto você é lindo… Eles moram perto… Deve ser insuportável! – gargalhou, colocando a mão no ombro da fada para encoraja-lo. — Atitude, Baek.
Quando a fada ia responder, sua atenção foi voltada para dentro da casa, mais especificamente para os dois melhores amigos que tentavam espiar a conversa de fora escondidos atrás do sofá. Chanyeol arregalou os olhos grandes e Jongdae atirou-se no chão para se esconder, arrancando boas gargalhadas de Baekhyun e Minseok.
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— Será que eles nos viram? – o elemental do fogo indagou com a mão no coração que disparava prestes a cavar um buraco em seu peito.
— Claro que sim. – Jongdae bateu na cabeça dele, havia sido ideia do mais alto. — Aposto que estão conversando sobre como você é tapado!
A ninfa menor levantou-se do chão sem se importar, indo em direção a cozinha para buscar os pertences.
Chanyeol fez um bico nos lábios em resposta e o amigo suspirou para explicar assim que a notou.
— Depois que fez as tortinhas de morango, seus sentimentos ficaram muito óbvios. E eu tenho certeza que Baekhyun sente o mesmo, aquela carinha emocionada não me engana!
— Você acha?
— Vamos descobrir. - estendeu a mão desocupada para o amigo levantar-se, lhe devolvendo um olhar sólido de cumplicidade. Era óbvio que estaria disposto a ajudá-lo a conquistar sua paixão.
A outra mão carregava a mochila vermelha da ninfa que foi arremessada contra o peito do maior sem nenhum resquícios de delicadeza. Jongdae e Chanyeol tinham um relacionamento completamente distinto de Baekhyun e Minseok que transformava tudo no mais perfeito equilíbrio. Feito Yin e Yang.
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Caminharam por longas e exaustivas horas em direção ao percurso indicado na canção, seguindo o mapa até a área escura do Reino das Ninfas e Fadas. Felizmente, a chegada da noite não fora um empecilho para essas criaturas quando se tinham um elemental do fogo acendendo a fogueira para descansarem em volta dela.
Essa jornada durou três dias de outono e a dúvida de que tudo não passava de uma lenda inventada estava cada vez mais real. Uma desesperança assolou o coração deles quando Jongdae não conseguiu afastar a água de um pequeno rio para atravessarem e quando Baekhyun, um elemental do ar, perdeu o fôlego de seus pulmões ao tossir de repente e descontroladamente.
A magia e suas forças estavam se esfraquencendo. Eco estava prestes a dar o seu último decreto. Tick, tack. O relógio não parava de andar.
Mas os quatro pararam diante a uma parte preta do Reino, destacada entre a paleta viva de cores das outras partes que conheceram e que moravam.
— O mapa diz que é aqui. – mesmo incerto, Jongdae resolveu anunciar para o restante, revirando o papel de ponta cabeça para tentar enxergar algo que, talvez, tenha passado despercebido. Sem sucesso, ele o devolve para a mochila.
De repente, Chanyeol exclamou uma espécie de grito apavorado misturado com temor do que tinha em mãos, o ponteiro da bússola se movimentava de forma tão desorientada quanto as criaturas em pânico.
Realmente haviam encontrado o Bosque da Melancolia, nunca um feérico foi destemido o bastante para atravessa-lo e lá estavam os quatro, conversando através da troca de olhares se deveriam desistir como os ancestrais…
Não! Eles eram maiores que os próprios medos, que suas próprias limitações. Aquilo era por Eco, pelo Reino das Ninfas e Fadas e seus amigos deixados para trás.
Baekhyun bateu as asas esbranquiçadas para voar em direção às árvores negras e Minseok o acompanhou. Uma sensação pesarosa os invadiu instantemente, conforme o cheiro pútrido de carvalho forte os abraçava, cipós e fungos cobriam as árvores como veias em sua extensão. A luz do sol penetrava pelas folhas em múltiplos e finos raios e cogumelos pretos decoravam a terra escura, similar a textura da lama.
Não foram tão longe, mas o suficiente para notarem nada de peculiar no chão onde seus amigos iriam pisar, após a análise, retornaram e fizeram um sinal para prosseguirem, Chanyeol agarrou-se no braço de Jongdae, completamente medroso.
As instruções que receberam foram claras, nas profundezas do Bosque da Melancolia estava a luz da esperança, ser corajosos era a única chave para a salvação, mas em contradição tudo era muito sinistro e sem vida lá dentro.
De repente, Baekhyun sentiu uma pedra atingindo sua cabeça, ocasionando a sua queda do voo, estava a poucos metros de distância do chão então, mesmo distraído, conseguiu fazer um pouso tranquilo. Ele virou-se expressando uma careta com a mão massageando o local atingido, mas todos pareciam ocupados demais analisando o Bosque, exceto Jongdae que acenou sorrindo, com os olhos formando uma única linha, quando percebeu o peso da encarada.
Essa foi a única coisa que aconteceu em vinte minutos de caminhada. A sola dos pés já doíam em sentir o próprio peso e suas asas também cansaram de bater, além de uma sede castigante secar suas gargantas, enquanto procuravam por qualquer resquício de seres vivos no meio de toda aquela escuridão.
— Viu pessoal? – Jongdae quebrou o silêncio antes preenchido pelas bugigangas dentro das mochilas de cada um. — É só uma lenda estúpida.
O elemental da água aumentou alguns tons quando pronunciou a afirmação, girando o corpo em trezentos e sessenta com os braços abertos e um sorriso astuto. A ninfa era muito destemida e poucas coisas o assustavam nessa vida. Os demais riram do seu devaneio, exceto Baekhyun.
Jongdae estreitou os olhos ao notar uma árvore antiga no meio da trilha de lama que seguiam, atrapalhando o percurso, e correu até pular e chutar-lá, cedendo aos impulsos da sua mente agitada. A planta balançou pelo impacto e algumas folhas secas caíram sobre si como chuva. Ele procurou por Minseok, que negou com a cabeça, desenhando um sorriso descrente no rosto, observando a beleza do amado mesmo com dificuldade pela escuridão do Bosque.
Amar tornava-se fácil demais quando a paixão levava ao nome dele. Tudo sempre era mágico. A ninfa não precisou dizer nada para a fada o acompanhar na bagunça.
— Tem razão. – disse utilizando seus poderes para fazer brotar uma linda margarida próxima a árvore onde Jongdae estava encostado. — Nem é tão difícil assim, aposto que chegaremos rapidinho do outro lado.
Como uma provocação, aquela margarida era o único ponto colorido e com vida que enxergaram desde que adentraram naquele Bosque.
Baekhyun revirou os olhos e contornou a árvore pelos ares, sem dar atenção às brincadeiras dos amigos, sua expressão carrancuda não era corriqueira e começaram a se questionar o que havia acontecido com a fada. Chanyeol até pensou que poderia ter feito algo de errado, mas a verdade era que tudo naquele Bosque soava errado.
Tudo o que conheciam se tornou nada em questão de segundos.
— Pare com isso, Jongdae! – de repente, a fada artesã ordenou revoltado ao sentir a segunda pedra ser jogada ao seu encontro. De cenho franzido, Jongdae balbuciou palavras em negação e continuou caminhando de mãos dadas com Minseok.
Subitamente, a realidade congelou por um efêmero momento e quando retornou, o mundo ao redor desabou em câmera rápida.
Os pés de Chanyeol foram engolidos por uma tinta escura da terra, e caminhava subindo por sua perna em uma sensação de formigamento, iria devorá-lo. Tentou chamar pelos amigos, mas não conseguia. Tentou gritar, mas não conseguia. Era tarde demais para escapar, provocaram a magia do Bosque.
Quando a terceira pedra foi arremessada, Baekhyun bufou o encarando, quase com fumaça saindo das orelhas de tão enfurecido.
— Eu disse para parar! – gritou voando em direção a Jongdae até agarrar a gola da sua camisa azul escuro e rolarem pela lama.
Enquanto isso, Chanyeol tentava a todo custo atiçar fogo para enxergar e se livrar do pânico, pois sua visão era limitada pela escuridão que o cercava.
Aquele lugar os tornou vulneráveis de uma forma extremamente inédita e súbita. Tudo acontecia rápido demais.
— Não fiz nada! – Jongdae inverteu as posições, totalmente sujo de terra preta, enroscando as pernas e afundando suas grandes asas para ele não escapar. — Está inventando isso para me afastar do Minseok, sei que me detestava quando me conheceu, ainda acredita que sou tolo, Baekhyun?
Minseok tampou os ouvidos e seus joelhos foram de encontro ao chão. Tudo o que restou dentro da sua mente foram incontáveis vozes faladas ao mesmo tempo, confundindo-o sobre o que era certo e errado.
Duvidando da sua própria natureza pacífica, a fada tentava a todo custo manter sua sanidade enquanto buscava pelo ar em seus pulmões de forma descompassada.
A melancolia foi implicada tão rapidamente que sequer perceberam sua chegada.
Chanyeol estava aos prantos, Minseok estava em pânico, Baekhyun e Jongdae começaram a se socar sem nenhum motivo aparente.
Enquanto as vozes embaralhavam sua mente, o elemental da terra encontrou a própria.
— Esperem, parem! – de repente, Minseok soltou um grito que ecoou por todos os cantos daquele enevoado. — Pessoal, é o Bosque! Ele está fazendo isso com nossas cabeças.
Corram!
Minseok sugeriu e todos obedeceram à voz enevoada, desviando das árvores e galhos que se moviam os puxando para permanecerem nas profundezas do Bosque. Eles correram como se suas vidas dependessem daquilo, e de fato dependiam, caso contrário seriam engolidos pela melancolia eterna e jamais veriam a luz do sol novamente.
A lenda era tão real quanto os relatos, anteriormente, fantasiosos.
Os braços de Jongdae foram presos por um galho coberto de espinhos que o impedia de avançar e machucavam sua pele. Chanyeol deu meia volta rapidamente, esforçando-se em encontrar sua força interior e invocar sua magia morta, mas não a sentia.
— Ajude-me, Baekhyun. – disse em desespero. — O Bosque irá matá-lo.
A fada gaguejou em resposta, procurando por Minseok em todas as direções da bússola. Seu melhor amigo havia sumido e para completar enxergou Jongdae ser engolido pelo montinho do tamanho da sua altura, formado por galhos espessos e pretos do Bosque.
Precisariam de um plano rápido e para isso, a calmaria era a chave.
— Tente queimar os espinhos.
— Eu posso machucá-lo com isso. – hesitou enquanto gesticulava suas mãos trêmulas. Sentia-se inseguro com essa ideia.
— Vou tirá-lo a tempo. – tentou confortar confiante, mas recebeu o olhar indescritível da ninfa, uma mistura de pavor e descrença do que ouvia. — Confia em mim.
— Não sinto mais minha magia a muito tempo. – contestou novamente.
Então, um grito de dor do amigo encurralado pelos espinhos ecoou no Bosque. Chanyeol tampou os ouvidos e seus olhos encheram-se de lágrimas.
— Concentre-se, meu bem. Você consegue.
A ninfa nunca saberia distinguir exatamente o que sentiu ao ouvir aquilo, seu coração falhou algumas batidas e não foram somente pela adrenalina. Ele piscou seis vezes seguidas para processar seu significado e uma rápida retrospectiva das ações discretas do amigo voltaram à tona.
Talvez Baekhyun pudesse mesmo corresponder a seus sentimentos.
Mas não houve tempo.
— Agora! – a fada ordenou para colocarem o plano em ação.
Chanyeol respirou fundo, voltando aos sentidos. Aquele agonizando diante de si, era o seu melhor amigo, o melhor momento dos seus dias. Ele lembrou-se de Jongdae com carinho e esse sentimento não iria permitir que um Bosque qualquer o tirasse de si.
Motivado pela melancolia que se apossara do seu coração caso não conseguisse, Chanyeol lançou vários feixes de fogo ardente em sua direção. Os galhos vivos reagiram se afastando instantaneamente, foi possível até mesmo ouvir o clamor doloroso do Bosque em chamas.
Era a vez de Baekhyun lutar contra seu interior descrente, invocando os ventos mais poderosos que um dia já fora capaz de invocar, impulsionando Jongdae para fora do montinho e retirá-lo pelos ares, aproveitando a mão livre para puxar Chanyeol pela barra da camisa e zarparem para longe.
Quando finalmente conseguiram enxergar a luz branca do dia se tornar mais forte conforme Baekhyun batia suas asas em direção, enxergaram Minseok do outro lado gritando seus nomes desesperadamente.
Foi quando sentiram a grama comum e esverdeada, o cheiro de chuva e o peso da melancolia se esvaindo de suas mentes que perceberam que havia cruzado o Bosque.
Exausto, Baekhyun jogou-se no chão junto dos amigos, mas a aterrissagem dos três foi protegida pela cama de algodões invocada por Minseok das raízes da terra.
— Eu não consegui encontrar vocês lá dentro, talvez a magia do Bosque não me permitia, mas por algum motivo sentia que estavam vivos! – verbalizou em tom cansado, correndo para abraçar Chanyeol, a criatura mais próxima. — Graças aos céus!
O elemental do fogo não costumava ser um amante de qualquer contato físico existente, mas naquele momento, se permitiu encontrar paz nos braços da fada de cabelos cor de café.
— Pensei que eu fosse morrer, aquilo foi desesperador. – comentou enxugando o suor que pareciam lágrimas em seu rosto.
Após tanto sofrimento, era um milagre estarem vivos para contar história, até mesmo descansando em uma junção macia de algodão.
Baekhyun aproveitou o momento para buscar sua última garrafa d'água da mochila branca, mas arremessou para Jongdae ao invés de beber.
— Perdão pelo o que aconteceu lá dentro do Bosque, eu não quis mesmo bater em você, mas não conseguia parar.
— Está tudo bem. – devolveu mais rápido do que a fada esperava, desfazendo do olhar confuso e bebendo o líquido gelado.
Em seguida fez uma careta pela dor dos ferimentos. — A magia do Bosque causou isso, não temos culpa. Eu também te soquei pra valer… – comentou ao perceber o olho roxo da fada. Ambos riram da situação.
— Mas você é o mais ferido, como pôde ser tão desatento? – Minseok repreendeu preocupado, segurando o rosto e os braços do namorado para averiguar cada machucado exposto com mais detalhes.
— Acho que o Bosque sabia que sempre procuro uma boa aventura. - brincou e exclamou "aí!" logo em seguida quando a fada, sem querer, encostou no ferimento da bochecha.
— Precisamos encontrar rapidamente essa flor para te curar e curar Eco. – informou Chanyeol com as energias renovadas, levantando-se de supetão para se alongar.
— O abismo! – Baekhyun exclamou apontando à frente, onde havia uma extensa rachadura escura e profunda no gramado. Todos estreitaram os olhos para visualizá-la, utilizando as mãos para projetar uma sombra acima das sobrancelhas e observar que, apesar de estar próxima, não parecia ter início ou final. — Só pode ser ali, vamos.
A fada disparou em direção sem esperar os amigos, tropeçando nos próprios pés até estar com os sapatinhos verdes e sujos de terra preta diante da fenda. Não demorou um segundo sequer para Chanyeol pular da cama de algodões para alcançar o menor em uma velocidade absurda, acompanhado do coração palpitando de preocupação, enquanto Minseok escolheu ficar para ajudar Jongdae a se locomover com cautela.
— Está vendo algo brilhante? – Baekhyun indagou esperançoso, um sorriso pequeno se formou em seus lábios enquanto puxava Chanyeol para perto, próximo a sua altura.
A ninfa confusa balbuciou algumas palavras, mas o brilho da flor era tão forte que rapidamente ofuscou sua visão.
— Sim… Como chegaremos até lá? – questionou pausadamente, tentando recuperar o fôlego da corrida e até pousando seu cotovelo no ombro do menor.
De repente, Minseok surgiu por trás os assustando, carregando seu namorado nos braços como o manhoso que era.
— Eu e Baekkie temos asas e conseguimos nos deslocar com facilidade… Esperem aqui!
Baekhyun limpou a garganta se recompondo para concordar. Era o mais sensato a se fazer no momento.
— Tenham cuidado, por favor. – as ninfas se despediram apreensivas.
Essa cautela foi necessária quando se depararam com um coelho de pelo branco e olhos rosados, vestindo em seu corpo um colete velho e rasgado junto a uma gravata, lendo um livro qualquer pela ajuda do brilho amarelo de Aurora, plantada nas profundezas do assustador abismo. Aquele animal solitário era o guardião da flor curativa e recitava todas as frases em rimas e charadas.
Para possuí-la em mãos, era necessário ter a mais nobre intenção e ser dono de um coração heróico, puro e liberto de malícia, por isso Aurora sempre existiu somente em contos e canções, ninguém nunca conseguiu merecê-la, nem mesmo as fadas quando tentaram individualmente. Foi então que Minseok cantou a engenhosa ideia dos quatro tentarem juntos, erguendo suas mãos uma em cima da outra sobre o caule macio e finalmente Aurora deixou de ser lenda.
O coelho guardião sorriu, lhes dando a permissão mágica necessária para voltarem diretamente ao Reino das Fadas e Ninfas com segurança, sem cruzarem o Bosque novamente.
Durante a nuvem cinza que assombrava todas as criaturas do Reino, os quatro amigos salvaram Eco e restituíram a magia da natureza, inclusive os ferimentos de Jongdae que foram curados instantaneamente pelo chá feito da flor.
A rainha decretou festa naquele lugar por sete dias e os honrou como membros reais do castelo.
No terceiro dia de festa, Chanyeol reuniu coragem para confessar que não amava mais Baekhyun como amigo a muito tempo e desde então, os dois apaixonados se tornaram inseparáveis.
No quinto dia de festa, Jongdae e Minseok casaram-se ao pôr do sol e passaram a lua de mel no mundo dos humanos.
Todos viveram felizes para sempre e os quatro destemidos amigos seriam lembrados como heróis por gerações e gerações.
