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Language:
Português brasileiro
Collections:
EXO Barbie Fest 🎀 2022
Stats:
Published:
2023-01-11
Words:
7,131
Chapters:
1/1
Comments:
6
Kudos:
10
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1
Hits:
127

Na ponta do pé, na palma da mão

Summary:

Kim Jongin é um bailarino ambicioso, que sempre teve certeza de seu grande talento. Talento esse muito maior do que o estranho vilarejo em que vive cercado por seres mitológicos — algumas belas fraudes, segundo seu ceticismo. Jongin agoniza noite e dia, porque não sente que cabe naquele lugar. Anseia ir além. Porém, quando as oportunidades de sair dali surgem, ele sente dificuldade em deixar tudo para trás. Mesmo inconformado com a vida que leva, a ideia de partir dói. Desnorteado, o bailarino então resolve seguir um conselho que recebeu de Park Chanyeol, o mais misterioso entre os adolescentes misteriosos, e aquele que carrega a fama de ser de uma família de bruxos poderosos. O conselho é simples: para se sentir melhor com a partida iminente, Kim Jongin deve fazer um ritual de adeus.

É assim que Jongin decide se aventurar na famosa Floresta Encantada que cerca o vilarejo. Pela primeira e última vez, ele se dá uma chance de desvendar o paraíso verde. Ele dança entre as árvores, acreditanto estar sozinho. Porém, logo avista Park Chanyeol admirando-o. E o que se inicia como uma surpresa ruim, logo se transforma na experiência mais mágica que já viveu.

Notes:

Oi, tudo bem? :)
Essa Oneshot ChanKai é o que se tornou o plot #039 do EXO Barbie Fest, cuja inspiração é o filme Barbie e o Lago dos Cisnes (vulgo MEU FILME DA BARBIE PREFERIDO!).

É um imenso prazer fazer parte de um fest tão lindo como esse. Estive sumida do ficdom nos últimos meses e dá um quentinho no coração retornar logo com essa oneshot. Gostaria de agradecer à organização do fest, que teve muitíssima paciência comigo. Eu jamais conseguiria postar sem a ajuda e compreensão de vocês!

Bem-vindes ao meu mundinho mágico com um Kim Jongin bailarino (passo mal, é o meu fraco!) e um Park Chanyeol bruxo. Espero, do fundo do meu coração ansioso, que vocês gostem. Particularmente, essa história significa muito para mim. Poderia ser maior, poderia ser menor, poderia ter isso ou aquilo... mas juro que eu gosto dela desse jeitinho também. E, se alguém mais também gostar, será uma lindeza saber <3

Ah, espero que a pessoa que doou o plot não me odeie, apesar das alterações que fiz. Escrevi isso aqui com muito carinho. Me desculpa qualquer coisa, tá?

Sem mais delongas,
BOA LEITURA!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

 

Na ponta do pé, na palma da mão

🩰

Capítulo Único

Em passes de mágica

 

— Eu odeio esse lugar — Kim Jongin ralhou e estalou a língua. Esta frase saía da sua boca pelo menos três vezes ao dia. Era como um mantra. Ele repetia as palavras diligentemente, feito uma senhorinha ditando orações fervorosas. 

Estava sentado no chão da minúscula sala de dança da escola, mais antipático do que o de costume, enquanto encarava seu novo par de sapatilhas, que tinha chegado com um mês de atraso. Reclamações à parte, ele entendia perfeitamente o porquê dos entregadores não quererem esticar as pernas até o Fim de Mundo. Agora, Jongin não tinha mais tempo de amaciar o novo calçado, e esse era o principal motivo da sua chateação. Teria que fazer a apresentação no evento de encerramento do ano letivo com as mesmas velhas e surradas sapatilhas que o acompanharam nos últimos meses.  

— O que você não odeia, afinal? — Lee Yujin, sua melhor e única amiga, refutou-o. Era  quem tinha liberdade para bater de frente com Jongin, qualquer que fosse o humor dele.  

— Eu não odeio a ideia de sumir daqui, por exemplo — respondeu rápido. 

A maioria dos moradores amava a vida pitoresca oferecida pelo vilarejo montanhoso, mas era de conhecimento público que Kim Jongin, o filho mais velho dos diretores da única escola da região, tinha opiniões adversas. Ele não via a menor graça em viver lá; em sobreviver, como dizia. Sonhava todos os dias com a rotina de uma cidade grande. Ser enlatado em um metrô, esbarrar com pessoas mal educadas em calçadas lotadas, pegar filas para tudo… qualquer uma destas situações chatas parecia ser melhor do que continuar em um local onde o entretenimento dos jovens era confraternizar ao redor de uma fogueira nas sextas-feiras. Queria ir ao cinema, ao teatro, em festas. E queria, mais do que tudo, realizar o sonho de fazer parte de uma companhia de dança. Não havia coisas assim por ali.

— Inclusive, os resultados das faculdades e das companhias em que eu me inscrevi saem todos hoje à tarde — ele lembrou a Yujin, como se fosse possível ela se esquecer de algo tão importante. — É um complô desses comitês de avaliação para me deixar ansioso, só pode ser — lamentou falsamente. Preferia que fosse assim, receber as notícias todas de uma vez. — Você vai esperar para ver comigo, não é?

— É claro que sim. — Apesar de ter confirmado de imediato, a feição da Lee se tornou pensativa. Ela agarrou as próprias pernas e apoiou o rosto fino nos joelhos, com os olhos fixos nos arranhões do chão de madeira. Dessa forma, seus cabelos longos e pretos serviam como uma espécie sobre seus ombros e braços. 

Quando ela franziu os cantos da boca, Jongin entendeu tudo. 

A verdade é que a garota tinha se esforçado para esquecer de que estava tão perto de dizer adeus, mesmo que não para sempre, para seu melhor amigo. Era quase óbvio que Jongin seria aprovado em alguma escola de balé ou companhia de dança. Isso significava que, em poucas semanas, precisariam se despedir. Logo, era impossível não pensar: o que Lee Yujin faria sem ter Jongin por perto? Será que, sem ele para preencher seus dias, ela passaria a odiar aquele lugar também?

— Vem comigo — ele pediu, soltando outra frase que repetia bastante. Todas as divagações que tinha com uma vida melhor e fora do vilarejo  incluíam Yujin ao seu lado. Queria descobrir o mundo junto a ela. — Eu arranjo um espacinho pra você na minha mala, não vai ser muito difícil — brincou, tentando amenizar o clima.

A Lee riu soprado e levou o olhar concentrado até o amigo. Analisou-o depressa. O cabelo bem penteado, com alguns cachinhos pendurados de uma forma fofa, o rosto afilado e os lábios cheios. Jongin tinha o ar de quem estampa capas de revista, o ar de quem é admirado por milhares de pessoas. E ele sabia muito bem disso.

Yujin achava engraçada a maneira como ele se comportava. Sempre fazia tudo parecer possível, fosse pela firmeza com que dizia as coisas, pela prepotência quase enjoativa ou pelo fato de frequentemente exalar um ar de superioridade — o que muitos odiavam, mas que ela tirava de letra. Algo no incrível bailarino era inspirador. Mágica na ponta dos pés. Mágica na ponta das mãos. 

— Você sabe que eu não posso. — Não foi um lamento da garota. Apesar da voz baixa, ela soltou isso mais racional do que emocionalmente. — Não agora. Quem sabe depois… 

“Depois de quê?”, Jongin quis continuar, já sendo capaz de listar várias coisas que ainda prendiam Lee Yujim sob o manto do pai superprotetor. Porém, não achou que fosse o momento de tocar no assunto. Dali a pouco, ambos precisariam prestar atenção em horas e mais horas de aula, para poderem tirar boas notas e, então, tornarem o boletim perfeito em uma passagem só de ida para qualquer outro canto do planeta. 

— É, eu sei — ele confirmou, puxando-a lateralmente para um abraço. — Só espero que você não demore muito para ir me encontrar. 

— Você deveria estar ensaiando — Yujin mudou bruscamente o rumo da conversa, advertindo-o. Em seguida, ela deu tapinhas nos ombros do Kim.  

— Como se eu precisasse  — Jongin brincou. A piada tinha um fundo de verdade. A coreografia que apresentaria em dois dias era simples demais para o seu nível, ele já sabia cada passo e sutil detalhe de cor e salteado. Depois que superasse a frustração por ter que usar o velho par de sapatilhas, repassaria mais algumas vezes apenas para buscar a perfeição. 

— Adoro a sua humildade, Jongs.  

— É o meu jeitinho. — Ele deu uma piscadela.

Como o Kim não criou coragem para voltar a ensaiar, eles se encostaram, lado a lado, e um silencioso descanso se iniciou. 

Não importavam as bobagens que pensavam ou as preocupações que os afligiam, não quando podiam, literalmente, apoiar-se um no outro. Por isso, aproveitaram o momento para recarregar a bateria social, ou sei lá o quê. 

Ficaram em paz por um tempo — mais precisamente, até que uma terceira pessoa surgiu na sala feito uma verdadeira assombração. 

Sorrateiro, um cara que beirava os dois metros de altura fez as bandas da leve porta de madeira partirem ao meio e os encarou. O seu gritante par de olhos delineados com lápis preto era realmente… assustador (e fora de moda, dependendo da temporada, mas o Fim do Mundo não ligava para isso).  

— Que susto, porra — Yujin gritou, com a mão sobre o coração.   

— O que ele quer aqui? — o Kim perguntou para a amiga, alto o suficiente para o outro escutar, extremamente indignado com a presença do recém-chegado. 

Ele, no caso, era o bruxo Chanyeol. 

Ou feiticeiro Park. 

Ou Park Chanyeol, apenas. O dono de muitos apelidos, os quais Jongin achava ridículos. 

Chanyeol era um garoto da mesma idade que Lee Yujin e Kim Jongin, e os três eram da mesma turma desde que começaram a frequentar a escola. Apesar disso, tudo que a dupla dinâmica sabia sobre ele eram os boatos difundidos por aí: o tal aprendiz de feiticeiro fazia parte da família mais tradicional do vilarejo, uma das primeiras a povoar o local e metida com magia. 

É… magia. Você não leu errado. O Fim do Mundo — ops, o vilarejo Encantado — era um lugar mágico. Teoricamente, os vizinhos de Jongin eram lobisomens, Yujin vinha de uma linhagem de fadas e outras coisas mais. Porém, de muito o que ouviam falar, nada nunca se comprovou verdade. Não na frente dele Kim Jongin, um garoto desacreditado.

Deixando todas as suposições de lado para avaliar Park Chanyeol ceticamente, como o Kim gostava de fazer, ele não passava de um cara esquisito, com roupas esquisitas, jeito esquisito e hábitos esquisitos. Mas aqui cabe um parênteses importante: a definição de esquitice não é necessariamente ruim. Talvez fosse mais adequado dizer só que ele era diferente, ou que destoava dos outros adolescentes, pelo menos. 

Park Chanyeol tinha os cabelos com mechas platinadas na parte da frente (onde ele tinha arranjado um descolorante tão bom por ali?), e poderia ser confundido com um emo 2009 ou com um adolescente cult bacaninha formado pelos digital influencers de estilo do TikTok, caso estes conceitos modernos fossem difundidos no Fim do Mundo. O comodismo da população tentava o resumi-lo a algo mais… sobrenatural. Um bruxo rebelde inconsequente, cujos atos rebeldes e inconsequentes ninguém nunca ouviu falar.

Jongin até entendia a situação, sabe? A má fama do cara tinha sim precedentes. Como podia alguém normal — lê-se não-mágico — em uma jaqueta de couro quando o clima estava tão insuportavelmente abafado? Precisava de um truque para suportar o calor. Toda a mágica dele se justificava nesse ponto.     

— Foi mal interromper o casal. — Chanyeol não pediu desculpas pela invasão. Ah, a dupla considerou aquilo uma invasão porque todos sabiam que, embora fosse de uso livre para todos os alunos, a sala de dança era como uma propriedade particular de Kim Jongin; este costume era mais regra do que muitas outras regras impostas na escola. — Continuem o que estavam fazendo. Não vou contar a ninguém — ele completou em tom sugestivo. 

E, assim como chegou, metido a misterioso, Chanyeol saiu, a jaqueta preta sendo a última coisa que os amigos prestaram atenção antes que a porta se fechasse novamente.

“Idiota”, Jongin pensou.

— Não é legal xingar os outros pelas costas — surpreendentemente, o Park gritou do meio corredor. Sua voz foi alta o suficiente para que ele tivesse certeza de que o Kim lhe ouviu. 

— Ele lê mentes agora, por um acaso? — O coração de Jongin até acelerou com a indiscreta quebra de sua privacidade mental (mesmo que, lá no fundo, não considerasse isso possível).  

— Dizem que sempre leu. — Yujin não levou a reclamação de Jongin a sério, porque tinha a sua própria: — Mas que baboseira é essa de casal?! — Ela se desvencilhou completamente de Jongin. — Tsc! — E levantou-se. — Tá vendo? É assim que você acaba com meus esquemas — declarou enquanto esticava as pernas.

— E você tá interessada no Harry Potter de delineado??? — O garoto indignou-se como se isso fosse um crime passível de prisão perpétua.

Shiu! Ele está mais para Draco Malfoy de delineado — a Lee corrigiu Jongin. — E não, não estou interessada nele, só tô dizendo que a fama de sua namorada não me ajuda em nada! E. Eu. Quero. Beijar. Na. Boca!

— Tudo bem, Lee Yujin. Pois, a partir de amanhã, eu vou espalhar por aí que terminei com você. Beleza? — Jongin concluiu. Foi a melhor solução que imaginou. 

Yujin balançou a cabeça negativamente.

— Babaca — xingou-o. — Eu que terminei com você! — exclamou, como se não falassem de um relacionamento falso. 

— Boboca. — Jongin riu. Amava discutir até por situações hipotéticas. Depois, ele reuniu suas tralhas na mochila e implorou: — Uma ajudinha para alguém que precisa poupar os joelhos…   

— Vem, vamos logo. — Era hora de se recompor. Ela esticou a mão para o bailarino e o ajudou a ficar em pé. — Não quero me atrasar. 

Assim que ela fechou a boca, o sinal tocou. 

— Tarde demais, Yu. Já estamos na mira da professora de novo. 

A Lee murchou os ombros e foi a sua vez se soar convencida:

— Bem, eu sou a melhor da classe, levando bronca ou não. 

— A melhor da classe? Depois de mim, não é? — Jongin era um expert em zerar a paciência da garota.

Lee Yujin bufou. E, trocando as mesmas farpas de sempre, eles seguiram para uma manhã inteira de aulas, a qual se encerrou com um almoço entediante e pouco saboroso no refeitório.  

🩰

O começo da tarde lhes trouxe uma tarefa árdua: enfrentar a mistura traiçoeira de tédio com ansiedade. Por mais de uma hora, restou a Jongin e a Yujin sentar e aguardar os e-mails que, supostamente, mudariam a vida do bailarino dali em diante, enquanto tentavam se distrair até com o pouso das moscas nas mesas da minúscula biblioteca da escola.

— É estranho te ver nervoso — a Lee comentou. Jongin tamborilava os dedos sobre a capa de um livro qualquer e mordiscava o lábio inferior. — Vai dar certo. Você sabe que é capaz. — As palavras, embora não muito diferentes das que ela lhe dissera minutos atrás, ajudaram-o mais uma vez. 

— Eu sei — o outro confirmou e ela sorriu. Apesar de tudo, Jongin sequer tremulou a voz. Bem, ele realmente tinha noção da sua enorme capacidade, do seu talento e do quanto havia se esforçado. — Mas é ruim esperar para saber se outras pessoas também acham que eu sou capaz. Às vezes, como agora, o que eu acho de mim mesmo não basta. Eu preciso que as pessoas me enxerguem. 

A melancolia expressa na última frase do Kim fez com que um silêncio incômodo perdurasse. Porém, rapidamente Yujin tentou seu melhor para animá-lo:

— E as pessoas vão — garantiu. 

O bailarino franziu os lábios. “Será mesmo?”, quase perguntou, mas não quis perturbar ainda mais o juízo de sua amiga. Também sequer teve tempo de permanecer duvidoso, porque primeiro e-mail chegou, seguido de outra leva de notificações que ele não conseguiu ler. Seus olhos simplesmente não focavam nas letras estampadas na tela do celular.

— LEE YUJIN! — Ele estendeu o celular à altura do rosto da melhor amiga, que tremeu de nervosismo. — Eu vou morrer! — exclamou, dramático, e jogou o celular na mesa para que ela pagasse. — Lê pra mim, por favor! 

Jongin abaixou a cabeça, esperando Yujin se recompor para conseguir fazer o que tinha que fazer. 

— Você… — Ela apertou o aparelho nas mãos e estreitou os olhos. Passava muito longe de ser poliglota e havia uma série de idiomas ali que ela julgava impossíveis interpretar. Russo, japonês, tailandês… — Para quantos lugares do mundo você aplicou? Como você fez todas essas inscrições? Não tô entendo nada;

Jongin soltou ar pela boca e, querendo acabar com o assunto paralelo, declarou em velocidade recorde:

— Contatei uma agência, enviei meu material e eles me inscreveram no que eu escolhi. Eles até coletaram todos os resultados. E fui eu que pedi para me enviarem tudo no mesmo dia e horário, quando o último resultado saísse…. Mas por que eu tô tendo que te explicar isso a-g-o-r-a? Por favor, eu vou morrer! — repetiu o drama. 

 — Okay, okay. — Ela voltou a prestar atenção nas mensagens na caixa de entrada do e-mail do Kim. — Primeiro as notícias ruins — anunciou, fazendo Jongin prender a respiração involuntariamente. — Sobre as escolas de dança… hm, você não vai para a Tailândia, nem para a Bélgica… — Yujin alternava entre ler e verificar a expressão do bailarino, que entristecia mais a cada segundo. — E a Austrália te deu um talvez. Lá você pegou o primeiro lugar da lista de espera. 

— Merda! Eu queria tanto ir pra Sidney… — Jongin estava tão decepcionado que ficou sem reação audível. Quieto, ele repuxou o canto dos lábios e criou uma ruga no meio das sobrancelhas. Pôde até jurar sentir as pálpebras tremularem, tamanho era o estresse acumulado em seu peito. Aquela escola de dança da Austrália era uma das suas primeiras opções. 

Yujin o olhava com um sentimento que ele não soube decifrar. Não era pena, jamais seria. Nem profunda tristeza. Talvez fosse compaixão, empatia e uma pitada de “se você chorar, eu choro também”. 

— Continua — ele demorou a pedir. Nesse momento, falar lhe exigiu um grande esforço.

— Calma, Jongs. — A Lee colocou a mão sobre a perna dele e deixou um aperto, buscando confortá-lo. — As notícias boas vão te animar, eu tenho certeza — após anunciar, ela limpou a garganta. — “Senhor Kim, é com enorme prazer que informamos as suas aprovações. Na Rússia, o senhor foi aceito…” — ela pausou por alguns segundos. — “Nas duas escolas de dança e na companhia em que se inscreveu.”

Kim Jongin ficou em choque, os olhos esbugalhados quase saindo das orbes. Ouviu o próprio coração bater alto, em pleno êxtase. Estudar na Rússia era o sonho de qualquer bailarino.  

— “Na Itália, o senhor aparece entre os dez primeiros alunos selecionados para a melhor escola de balé do país. Na França e nos Estados Unidos há companhias de dança interessadas em contratá-lo e, ainda, financiar os seus estudos.” — Yujin terminou e levou um tempo para recuperar o fôlego. — Jongs, isso aqui é muito confuso de entender. Tá tudo misturado. É melhor você parar pra ler com cuidado, tem mais coisa e… — Ela estava tão focada na leitura, em fazer aquilo apropriadamente, que se esqueceu, por uns segundos, do que se tratava o conteúdo que saía de sua boca. A ficha só caiu quando encarou Jongin. 

Ele ostentava o maior sorriso que Yujin já havia visto na vida, mesclado com uma feição de contentamento contagiante. E, antes que ela pudesse dizer algo mais, Jongin a puxou para um abraço apertado. 

Aquele momento não foi como eles dois imaginaram nos dias anteriores. Não se pareceu nenhum pouco com qualquer cenário que Jongin montou em uma noite mal dormida: não houve histeria, muita gritaria, pulos e explosões de confetes. Muito pelo contrário, houve certa calma. Uma confortável calma.

— Eu nem acredito que consegui... — Era mentira de Kim Jongin, ele acreditava. Ainda assim, parecia mágica. O seu maior sonho havia se realizado. — Eu consegui! — exclamou baixinho, a voz abafada entre o vão do pescoço de Lee Yujin. 

Jongin fez muito esforço para não chorar, mas lágrimas teimosas escorreram de seus olhos. 

— Parabéns, Jongs. Eu nunca duvidei de você! — Yujin exprimiu e apertou mais ainda o abraço. A voz embargada denunciava que ela chorava também. — Eu quero te ver brilhar cada vez mais. Você nasceu para estar em cima de um palco, sabia?

O Kim murmurou algo não entendível. Sentia-se no céu, flutuando entre as nuvens, leve feito o próprio ar. Um peso enorme havia sumido das suas costas.

— Ansioso para dar a notícia aos seus pais? — Mas essa pergunta arruinou tudo.

Podia parecer bobagem, mas até o momento em que Yujin lhe questionou isso, Jongin comemova seu feito sem entender realmente o que ele significava. Ir embora. Dizer adeus. Em algumas semanas, precisaria estar desembarcando no país que escolhesse estudar, rumo à uma cidade onde tudo seria novo para ele. Novas pessoas, novos problemas. Nova rotina.

O bailarino soltou ar pela boca e declarou:

— Preciso ir ao banheiro. — Foi a única coisa que ele raciocinou. Após o choque de realidade, precisava tomar um ar. — Essa coisa toda me deu dor de barriga — ele acrescentou apenas para não preocupar a Lee, que já lhe olhava com desconfiança.

Então, Jongin saiu desfilando devagar pelos corredores vazios, com as mãos enfiadas nos bolsos frontais da calça jeans. Pelo horário, quase todos os alunos já tinham ido embora e, na sua opinião, isso deixava o ambiente um pouco mais digerível. 

Olhou ao redor. Era difícil voltar ao seu estado zen. Foi muito mais fácil se afundar na melancolia. Ele se permitiu pensar em dar adeus às paredes mal pintadas, aos armários velhos e ao chão de azulejos encardidos. A tudo que preenchia sua visão quando passeava os olhos pelos cantos com certo desdém. A amargura que lhe preenchia, porém, não demorou a dar lugar a uma saudade prospecta; saudade que, outrora, viria lhe cumprimentar longe dali. 

Jongin sabia que, por mais que negasse, pertencia àquele lugar, de corpo e alma, ou pertenceu algum dia. A magia que nunca lhe acometeu — ele jurava. Conviver com as pessoas de sempre. As curtíssimas caminhadas para casa. A paisagem bonita, mas sempre igual. Seus pais e familiares antiquados. Sentiria falta de tudo isso. Era impossível não sentir. Faltariam-lhe todas as coisas sobre as quais passava horas falando mal com Yujin. 

E se essa falta o sufocasse?

Era confuso. Como poderia querer deixar tudo para trás e, também, querer fincar raízes no pequeno vilarejo? Por que sair dali parecia tão inseguro? Quando pensar em dizer adeus passou a ser algo que ele desejava para ser a tarefa mais difícil que tinha para cumprir?

— Você pensa muito… e muito alto.

Kim Jongin tinha chegado ao banheiro. Estava há mais de um minuto encarando o próprio reflexo no espelho, enquanto sua mente trovejava silenciosamente. Bem, a parte do “silenciosamente” era o que ele supunha. Park Chanyeol não concordava. 

Jongin não sabia quando o aprendiz de feiticeiro tinha entrado ali. De repente, Chanyeol lavava as mãos na pia ao seu lado e o olhava profundamente, como se enxergasse todos os seus pecados e vontades. 

Mesmo excluindo a possibilidade do Park ser um fofoqueiro com audição extranatural, ainda não era fácil estar na mira daqueles olhos marcantes. Culpa do lápis de olho preto mal passado, talvez?

— Eu disse que você pensa muito — o Park repetiu, querendo ter certeza de que havia despertado Jongin dos devaneios. — E muito alto.

Os poucos centímetros de diferença entre eles, nesta distância tão curta, até pareciam grande coisa. Coisa o suficiente para fazer o Kim precisar levantar o queixo para ver Chanyeol melhor. 

Por alguns segundos, o Kim não soube separar o medo que sentia da suposta habilidade de Chanyeol da vontade imensa de desdenhar do comentário alheio. 

— Use fones de ouvido — murmurou, debochando do bruxo, sem saber se isso era uma boa ideia —, ou arranje algo melhor para fazer do que me bisbilhotar.

O Park riu um pouco alto. Ouvir a sua risada foi estranho. Muitíssimo estranho. Jongin nunca, nunquinha mesmo, havia escutado tal som de contentamento, cômico e quase esganiçado, ser externado pelo bruxo. Não sabia nem que as cordas vocais do Park haviam sido feitas para rir também. Aquilo era real?

— Essa foi a coisa mais assustadora que você fez em anos — Jongin declarou e deu alguns passos para longe de Chanyeol. — Não ria de novo. Não perto de mim. 

Em seguida, ele fez menção a sair do banheiro, mas Chanyeol segurou o seu braço esquerdo. 

— Você vai conseguir, não se preocupe — o Park disse as palavras com clareza, a voz banhada em uma certeza absoluta. Assim, ele parecia ter vindo colar gentilmente um curativo sobre a ferida aberta nos pensamentos de Jongin, ao invés de jogar sal. — Você só precisa de um rito de adeus.

Um rito de adeus?

— Você… — Jongin iniciou o que viria a ser uma sequência de xingamentos, mas logo desistiu de continuar. De alguma forma, o suposto bruxo rompeu a sua preciosa camada de proteção, repleta de sarcasmo e arrogância, fazendo com que lhe restasse apenas seguir o seu instinto. 

Instinto número um: vingança. Queria dizer coisas para afetá-lo também. Dizer que Chanyeol deveria largá-lo antes que fizesse um escândalo e que o seu toque o enojava. Dizer que Chanyeol fosse balbuciar coisas sem sentido para outra pessoa e parasse de encher a sua paciência. E dizer, da boca para fora, que Chanyeol era um completo estranho, por isso ninguém se aproximava dele. Nada era totalmente verdade. Muito menos era algo que Kim Jongin realmente gostaria de externar. 

Calou-se. 

— Encontre uma maneira apropriada de se despedir desse lugar — o Park explicou —, garanto que vai se sentir melhor depois. Faça algo à altura do vilarejo, algo… mágico!

Ridículo. Jongin pôde sentir seus neurônios morrerem com as baboseiras de Chanyeol (por pura birra, consideraria baboseira tudo que saísse da boca do bruxo).  

— Não tem nada melhor para fazer? Lustrar uma varinha, ariar um caldeirão, coletar pata de aranha ou sei lá? — Jongin vociferou, mas não deu tempo para que o Park reagisse aos seus insultos. Rápido, tirou-se do aperto dos dedos do bruxo e saiu do banheiro. 

Instinto número dois: fugir.  

  🩰

CUIDADO! 

Era o que dizia a última mensagem que Lee Yujin enviou a Kim Jongin na noite anterior, um aviso curto e preciso de que ele, possivelmente, estava enlouquecendo. Cuidado. Ponto de exclamação. Era bom manter isso em mente.

Nem o próprio Jongin acreditava no que estava prestes a fazer. “Um rito de adeus.” À medida que enfiava as coisas dentro da mochila, as palavras de Park Chanyeol voltavam para lhe atazanar. Encontre uma maneira apropriada de se despedir desse lugar.” Era como se escutasse o aprendiz de feiticeiro sussurrar em seu ouvido. “Garanto que vai se sentir melhor depois.” Era bom que isso fosse verdade. Caso contrário, Jongin se arrependeria amargamente. 

O sol mal tinha nascido quando ele pôs os pés para fora de casa; não antes de ser interrogado por seus pais, é claro. Era sábado, não tinha aula, então os adultos quiseram saber para onde o filho iria tão cedo. O bailarino disse que iria ensaiar — sobre isso ele não mentiu, só ocultou o seu destino — e que estaria na companhia de Yujin. A segunda parte foi o que os convenceu. A garota, teoricamente comportada e inegavelmente de boa família nos padrões antiquados, era alguém que os Kim julgavam ser uma amizade apropriada. 

Mas a verdade é que Jongin saiu sozinho. Mochila nas costas, roupas confortáveis no corpo e fones nos ouvidos. Saiu em passos largos, como se não tivesse um pingo de dúvida sobre o caminho que traçaria. Por dentro, rumo à mata que cercava o vilarejo, suas mãos congelavam em nervosismo.

O medo não foi suficiente para fazê-lo desistir. Pretendia realizar o tal rito de adeus mais simbólico de todos os tempos — aquele que consumiu a madrugada toda para imaginar. 

Floresta Encantada” , ele balbucia o nome do lugar com certo desdém, assim que chega no começo de uma trilha que leva até o único lago do vilarejo. Nunca gostou de verdade daquela floresta. Podia ser por causa das lendas sobrenaturais ou das histórias que sabia serem reais (ele morria de medo de cobras!). Ele podia fazer uma lista de motivos plausíveis para ninguém pisar ali. E começou a pensar nos itens desta lista, Ironicamente, assim que foi mata adentro. 

Puft. Jongin mal tinha propriedade para afirmar que não gostava da Floresta Encantada. Quando criança, fez questão de fingir estar doente nas datas de quase todas as aulas de campo até lá, e, já adolescente, nunca sentiu vontade de comparecer a nenhuma Fogueira das Sextas-feiras. Como agora jurava que ir lá era uma boa ideia? A resposta para esta pergunta é um mistério inclusive para ele.

Correção necessária: a resposta talvez fosse que Park Chanyeol era um bruxo, com certeza. E, com suas palavras mágicas, plantou uma semente na mente de Jongin, que germinou em tempo recorde, fazendo o bailarino achar que um rito de adeus era sua salvação. Sob efeito da magia de Chanyeol, tudo que Jongin queria era se livrar da angústia que planejar sua partida lhe trazia, e acreditava precisar fazer isso antes de tomar qualquer decisão sobre seu futuro. 

O Kim andou muito até encontrar o lugar que queria, por causa 1) da distância, que era muito mais longa que o caminho que ele costumava percorrer para a escola diariamente e 2) do seu péssimo senso de localização, que o fez andar em círculos uma quantidade vergonhosa de vezes. Ficou tão apreensivo — já preocupado até com o trajeto da volta — que não se permitiu aproveitar a bela vista da natureza que acolhia seus passos barulhentos. Nada foi suficientemente digno de sua atenção, nenhum detalhe. Os pássaros pareceram odiar isso, pois cantavam cada vez mais alto. As árvores amostravem-se, balançando vistosas e derrubando folhas secas sobre os cabelos cacheados de Jongin. Os animais, os poucos que resolveram se amostrar, alguns coelhos selvagens e famílias de macacos, foram os únicos que não demonstraram se importar com a presença do garoto. 

Ao finalmente retomar a trilha mal demarcada e se firmar na direção correta, Jongin levou somente uns minutos para chegar aonde queria. A beira do lago que partia a floresta ao meio estava rodeada de uma vegetação alta. Era primavera, havia muitas flores e outras plantas crescidas enfeitando o ambiente, atraindo alguns insetos. De relance, viu abelhas, borboletas e… pequenos seres alados com orelhas pontiagudas que ele resolveu não nomear porque, bem, talvez tivesse visto errado.  

Kim Jongin sorriu sozinho e respirou fundo, deixando o cheiro de terra lhe invadir. Logo, ele deixou a mochila escorregar até o chão, fofo pela altura da grama, e relaxou os ombros. Todo o medo que sentia foi embora naquele momento. E já não se sentia sozinho. Fechou os olhos por um tempo e os abriu cheio de animação: queria gravar aquela cena na memória para sempre, junto a todas as sensações arrebatadoras. O lago, as flores, a brisa balançando seus cabelos e acariciando suas bochechas. Embasbacado com tamanha beleza, sentiu uma pontinha de arrependimento cutucar sua consciência. Devia ter ido ali mais vezes. 

Não importava mais o passado. Ainda podia mudar o futuro. Então, prometeu para si mesmo que, sempre que visitasse seus pais, voltaria ali.

O rito de adeus já havia valido a pena, antes sequer dele fazer o que de fato planejou. De alguma forma muito íntima, Jongin prestigiar a Floresta Encantada serviu para abrir seus horizontes. Para chegar até o lago, tinha enfrentado sentimentos que negou a vida inteira e, agora que conhecia mais do lugar, era como se tivesse marcado o seu território. O seu marco zero no mundo. Seja lá o que ele se tornasse, o quão famoso ficasse, era dali que tinha saído. Era fruto de um pequeno vilarejo, do Fim do Mundo, onde tropeçar com a magia não é tão impossível assim.  

O Kim sorriu novamente. Avistou um casal de cisnes e seus filhotes flutuando sobre a água. Só podia ser um sinal. Empolgado, ele tirou o casaco que vestia, ficando apenas com a calça frouxa que geralmente usava para ensaiar e com o collant da cor de sua pele. Pegou as sapatilhas surradas e as calçou — não pôde se dar ao luxo de machucar os preciosos pés dançando sem proteção, embora essa fosse sua maior vontade.

— Olha, eu amo ter plateia — ele começou a conversar com os cisnes. Primeiramente, os animais se alertaram com o som da voz do garoto. Porém, não demoraram a seguir com o que faziam: os cisnes adultos bicavam carinhosamente seus filhotes. Jongin não se importou e continuou agindo como se fosse o centro das atenções. — E hoje a minha plateia é muito especial. — Jongin deu uma volta ao redor enquanto falava, sendo mais abrangente. Tudo e todos ao redor mereciam ouvir seu discurso inicial. Fazia parte do fora fazer ali. Deveria seguir seu plano. — Eu estou prestes a deixar esse lugar por muito tempo. Para falar a verdade, nem sei de voltarei para cá. Planejo visitar os meus pais, é claro, mas nunca mais passarei tanto tempo aqui quanto já passei. Ou seja, é chegada a minha hora de dar adeus. 

O Kim pausou a fala para catar o celular. Precisava de música para a próxima parte.  

— Eu sou bailarino. E, pelo que me contam, danço desde que aprendi a ficar em pé. Por isso, o que eu tenho a oferecer hoje é a coisa que eu faço melhor na vida: dançar. — Ágil, ele digitou o título da música no aparelho e logo as primeiras notas foram espalhadas no ar. — Senhores cisnes, eu juro que pensei nisso antes de saber que teria a honra de tê-los por aqui. Não é bajulação — brincou e riu da própria bobagem. — O Lago do Cisnes é o meu balé preferido. Foi essa coreografia que despertou em mim a vontade de dançar profissionalmente. Por isso, aqui vão alguns atos. 

Jongin calou-se, jogou o celular sobre a mochila e iniciou os movimentos bem ensaiados. Ele movia o corpo com propriedade, cada passo milimetricamente calculado em incansáveis horas de ensaio. Era nítido que seus músculos e ossos lembraram de tudo, sabiam exatamente o que fazer e como aguentar. Ele não deixava, no entanto, de ser suave. Havia leveza em cada simples gesto, ao ponto que, na posição de seu público, era impossível imaginar o quanto ele se esforçava para executar cada parte da coreografia. O Kim fazia parecer fácil girar e saltar, e transparecia uma naturalidade sem igual em suas expressões. O seu corpo, todo o seu corpo, contava uma única história. E era impossível não compreendê-lo.     

Dançou como nunca antes. Os braços se moviam entre o voo das borboletas, as pernas entre os saltos dos sapos. A mente, a alma, flutuava liberta de toda técnica, das contagens dos passos e das barreiras da autocrítica. Ele executava os passos da maneira como lembrava, dando o máximo que conseguia. A grama, por muitas vezes, impossibilitou-o de ir além. Por isso, improvisou muitos minutos, mesclando o Lago dos Cisnes original com a versão adaptada para ser dançava à beira do lago da Floresta Encantada, no Fim do Mundo. Uma versão especial.

Quando o cansado o atingiu pela primeira vez, ele ignorou. Não queria parar. Se pudesse, faria o espetáculo completo, sem figurino, sem o corpo do balé e sem um palco apropriado. O seu espetáculo completo. Contudo, com o passar dos atos, seu corpo foi falhando. 

— Uma pausa para beber água — Jongin anunciou à plateia. Os cisnes até o olharam. 

Enquanto entornava a garrafa de água que trouxera consigo, ofegante como se tivesse fugido de um leão, ele escutou aplausos. Sim, aplausos. Do tamanho susto, Jongin se engasgou se engasgou com o líquido. Arrepiou-se por inteiro. 

— Quem está aí? — gritou, transparecendo uma coragem que não tinha. Estava alucinando? Era o calor, a fome ou a sede o responsável por fazê-lo ouvir coisas? — Isso não é engraçado. Quem está aí? 

Jongin se irritou. Quem ousava estragar o seu ritual de adeus perfeito? Aquele era o seu momento de brilhar! 

— Vamos, apareça! — ele ordenou, pronto para xingar quem quer que fosse (ou correr, dependendo do que encontrasse). 

Foi então que alguém pulou de uma das árvores ali perto. Alguém com uma generosa camada delineador nos olhos. 

— Park Chanyeol, seu…! — Jongin vociferou, partindo para cima do bruxo. — O que você tá fazendo aqui? — perguntou, em alto e bom som. 

Chanyeol deu um sorriso fino enquanto desamarrotar as próprias roupas. Ele vestia um casaco  e calças jeans, acompanhado de um sapato quase tão surrado quanto as sapatilhas do bailarino. 

— Privatizar a sala de dança da escola é uma coisa, privatizar a floresta é outra coisa totalmente diferente — argumentou o Park, encarando Jongin de cima a baixo. — E sou eu quem deveria perguntar: o que você está fazendo aqui? — Ele deu um passo à frente, fazendo Jongin recuar. — No meu lugar preferido? — Outro passo. — Conversando com os meus amigos cisnes? — Mais outro. — Pisando na grama que eu assisto crescer? — Até que Jongin colou as costas no tronco de uma árvore. 

— E-eu… Eu vim… — o bailarino tentou responder, mas estava intimidado demais para raciocinar. 

— Já sei! — Chanyeol estalou a língua e cruzou os braços. — Esse é o seu rito de adeus, não é? Quem diria que você seguiria meu conselho… — soltou melodiosamente e aproximou o rosto de Jongin.   

— Claro que não — o outro mentiu. 

— Claro que sim — o Park refutou. — Não adianta tentar me enganar, eu posso ler a sua mente. 

— Mentiroso! 

— Quer testar? — Eles continuavam próximos demais. A voz de Park Chanyeol soava quase rente ao ouvido de Jongin, que, apesar de tudo, não conseguia simplesmente se afastar. Era como se o bruxo fosse magnético, como se ele quisesse seu corpo por perto. Isso não fazia sentido algum! Era feitiçaria! — Vamos lá, pense no que sente por mim. 

“Eu odeio você”, foi a primeira coisa que passou pela cabeça de Jongin. Quase um reflexo natural. “Você é cheiroso”, acrescenteu depois, involuntariamente. Era fato. Chanyeol emava um gostoso aroma amadeirado, não muito forte, mas marcante o suficiente para Jongin imaginar como seria se pendurar no seu pescoço. Vamos lá: o Kim rezou para que o suposto dom do Park não capturasse essa divagação.  

— Muito obrigado. — Quando Chanyeol agradeceu, Jongin quis morrer. Do que, especificamente, ele estava falando? — Ódio… esse é um sentimento muito forte, estou lisonjeado por você direcioná-lo a mim — explicou e, imediatamente, o bailarino revirou os olhos (mais em alívio do que em desdém). — E sabe o que eu gosto sobre o sentimento de ódio? — O Kim franziu o cenho ao ouvir o questionamento. Interessado no que viria a seguir, até ergueu o queixo, o que aproximou seus rostos ainda mais. — Geralmente, pode se tornar amor — Chanyeol concluiu e olhou profundamente para Jongin. Aliás, todos os seus olhares eram assim, profundos e inebriantes. — E vice-versa. 

Jongin nada disse. Engoliu seco, um pouco nervoso com a situação. 

— Você acredita agora?

— Não… não totalmente. — O Kim jamais daria o braço a torcer tão fácil. — Talvez eu acredite um por cento.

— Um por cento… — Chanyeol repetiu, balançando afirmativamente a cabeça. — Já está de bom tamanho. Se um por cento de magia florescer em você, Jongin, eu terei cumprido cem por cento do meu dever.

Se parasse para pensar, tudo era muito estranho. A aparição de Chanyeol, o comportamento de Chanyeol, a suposta habilidade de ler mentes de Chanyeol. Nada fazia muito sentido. Muito menos o fato de, lá no fundo, Jongin não estar realmente tão incomodado com a presença do bruxo. Afinal, ouvir o conselho dele foi realmente bom. Talvez o bailarino até lhe devesse um “obrigado”.

— Foi um prazer te ver dançar. — O Park não parecia ter a mínima intenção de se afastar. — Os seus passos… são passes de mágica, sabia? — indagou, atrevendo-se a tocar a ponta do queixo de Jongin, que, novamente, nada fez. O bailarino estava encantado pelo bruxo, fosse isso extranatural ou não. — É em passes de mágica que você se engrandece, que o seu talento transcende. É bonito de ver. Muito bonito. 

— O mágico aqui não sou eu. — Jongin não queria que isso tivesse soado tanto como um elogio. Mas até que o Park merecia. Visto assim, tão de perto, ele era mais lindo do que esquisito. 

— Ora, você é mágico também, Jongin — assegurou.   

— Sou? — Jongin ajeitou as pernas para apoiar-se melhor na árvore. Chanyeol entendeu bem o gesto e se encaixou, ainda com um palmo de distância, no espaço que o bailarino deixou livre. 

— Sim, mas a nossa magia é diferente — Chanyeol contou e, sem conseguir se segurar, pegou um dos cachinhos no topo da cabeça de Jongin. Esticou o cacho, com cuidado, e o soltou, assistindo-o retomar a curvatura natual. 

— Diferente como? — perguntou.

Jongin se sentiu morno. Havia um pouco de vergonha na cena, com certeza. Mas grande parte daquilo que fazia seu corpo aquecer era atração por Park Chanyeol. Sempre gostou do bruxo assim? Como foi se enfiar nessa situação? O que estava acontecendo fazia sentido? Muitas perguntas. Os neurônios do bailarino logo o abandonaram à própria sorte. 

— A minha mágica está aqui. — Ele apontou para a própria cabeça. — A sua mágica está na ponta dos pés, na palma das mãos. — Chanyeol afirmou. Falando assim, ele parecia muito mais maduro do que quando causando rumores nos corredores da escola.

O bailarino gostou muito de ouvir aquilo, porque ele próprio já tinha sentido que, de alguma forma, sua dança emanava magia. Ao executar perfeitamente uma coreografia, com o corpo e com o coração, sentia-se a criatura mais poderosa do mundo.

— Eu quero beijar você, Kim Jongin.

Park Chanyeol nunca foi muito de fazer cerimônias. Sempre surgia como um fantasma, sempre soltava suas frases de efeito de uma hora para outra e nunca se deixava passar despercebido. Kim Jongin podia jurar que, depois de tantos anos convivendo com o bruxo, mesmo de longe, já tinha se acostumado com isso. Mas não. 

Ao ouvir aquilo, o bailarino soube que Chanyeol sempre arranjaria uma forma de surpreendê-lo. 

— Tão de repente assim? 

— De repente? Para você, só se for. — O Park, agora, levou o polegar até o meio das sobrancelhas de Jongin e desfez a expressa ruga de dúvida. — Garanto que todos os anos que eu passei gostando de você tornam esse momento tudo, menos repentino.

Seria o sabor da boca de Park Chanyeol tão mágico quanto suas ações? Jongin quis saber.

— Vá em frente — o bailarino autorizou em um fio de voz. Por sorte, o bruxo o ouviu bem. 

Antes de mais nada, Chanyeol deu um sorriso ladino, sedutor feito vilão de filme adolescente. Jongin quase derreteu assistindo (e participando) aquela cena. Com calma, o bruxo encerrou a distância entre eles, colando os quadris e cinturas. Depois, segurou o rosto do Kim com ambas as mãos; os dedos longos também o permitiram acariciar a nuca do bailarino, prendendo alguns fios de cabelo.

Os lábios logo se tocaram e Jongin pôde jurar que sentiu seus pés desgrudarem do chão. Com a boca rente à boca de Chanyeol, a gravidade não existia. Seu estômago revirou em um prazer estranho. Ele já tinha beijado outros garotos antes, mas não lembrava de ser tão bom. 

O que começou calmo, continuou com energia. Buscavam um pelo outro avidamente, dois jovens à flor de pele. Em certo momento, Chanyeol sentiu a necessidade de descer uma mão para a cintura de Jongin. Apertou a região, descontando o tamanho desejo que sentia; para ele, era como viver um sonho. 

— O próximo passo é você matar a vontade de cheirar o meu cangote — Chanyeol mal esperou que se desgrudassem para debochar do dançarino. Ele realmente podia ler mentes ou Jongin só era muito óbvio?

Bem, não importava.

A estranheza após o primeiro beijo foi extinta quando deram o segundo. No terceiro, foi como se a vergonha inicial nunca tivesse existido. Os cisnes, sapos, borboletas, coelhos, árvores, lago, grama… muitas coisas e muitos seres foram testemunha daquele romance. 

Em certo momento, Jongin até voltou a dançar, seus movimentos fazendo os olhos de Chanyeol moverem de um lado para o outro, sem querer perder nenhum detalhe. Depois que o bailarino se deu por cansado, os dois passaram o restante da manhã e a tarde inteira deitados por ali, acolhidos pela grama. 

Somente pouco antes do sol se pôr, ou seja, da trilha para o vilarejo se tornar mais perigosa, eles resolveram que era hora de voltar. Jongin voltou com o coração cheio e de mãos dadas com Park Chanyeol, o bruxo, o feiteceiro, o dono de muitos apelidos que talvez não fossem tão ridículos assim. O bailarino, embora pudesse se ludibriar com o novo romance, trilhou todo o caminho com a mente vazia, prestando atenção em cada simples detalhe da natureza que lhe servia de cenário para aquele momento tão importante. Não pensava em nada além da cor das flores, da copa das árvores e do som dos pássaros. Encantou-se com a Floresta. Finalmente. 

A sensação que emanava do seu ser era, inegavelmente, felicidade. A mais pura felicidade. Em seu peito crescia — além de uma vontade enorme de interrogar Chanyeol e fazê-lo explicar tim-tim por tim-tim daquela história toda de “todos os anos que eu passei gostando de você” — a vontade de conhecer o mundo. Depois, voltaria ali com a certeza de que a sua casa, seu lar, era o lugar mais bonito de todos.

🩰

Enfeitados por mágica ou não, os últimos momentos de Kim Jongin como morador daquele vilarejo certamente foram inesquecíveis, bem como o seu romance com Park Chanyeol, tecido ao longos de anos de encontros e desencontros, e de sua amizade com Lee Yujin. 

Há muito mais sobre esses três para ser contado. De onde veio essa história, viriam dezenas, milhares. Por hora, basta saber de uma coisa: eles não viveram felizes para sempre. Mas viveram. E foram felizes.



Notes:

Tem alguma coisa em imaginar Kim Jongin dançando balé no meio das árvores e Park Chanyeol escorado em uma árvore o assistindo que me tira o fôlego. Seria... hm... mágica?! hehe Ai, como eu amo ChanKai!

Espero que não tenham passado muitos errinhos ortográficos...
Depois dos reveals, eu vou lançar um capítulo extra que mostrará a visão do Chanyeol aaa

Obrigada por lerem até o final <3
E aí, o que acharam? Por favor, me deixem saber.
Espero que nos encontremos logo.
Até mais!