Chapter Text
Eterna... E o que mais?
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Para aqueles que atravessavam todos os perigos do percurso dentro do Pedestal, encontravam uma esculpida ponte feita de pedra. Seu piso era liso como se tivesse sido perfeitamente lixado, de modo que refletia o teto nitidamente. Aqueles que tinham uma boa pisada não corriam perigo de cair no buraco abaixo.
No limiar da ponte havia uma área semicircular que se distanciava da parede, tornando-a uma área suspensa. Em sua borda rente a ponte, havia uma espécie de pedestal quadrangular. Em seu centro, em uma forma modular esférica se acumulava gostas que eram afunilados por um disco translucido muito acima do Pedestal. Quando amadurecido, a esfera detinha a mais profunda tonalidade avermelhada. Essa era a recompensa para aqueles que ali chegavam.
No ápice do dia, aquele semicírculo era iluminado pela luz vinda da abertura no teto, permitindo também que toda aquele local fosse visível sem subterfúgios para lumiar. De imediato, era notório que não era uma formação natural. O local por si só era perfeitamente esférico e a textura da parede escamado em perfeitos quadrados.
A ponte servia para os que andavam. No entanto, aqueles que detinham o poder de evadir o solo podiam seguir para o disco residente, de onde se originavam as gotas vermelhas. Lá, encontraria o seu morador.
Uma entidade feminina que não vivia no Pedestal aproximou-se do disco residente, tomando a frente daquela que residia no local. Sua aparência era igualmente semelhante. Se distinguiam pelos seus nomes e na tonalidade da pele suavemente azulada.
— Não me alegra ainda vê-la neste pedestal. — Disse a visitante. Sua pele era levemente mais escura que a moradora. Voltou seu olhar em direção ao pedestal logo abaixo. As gotas ainda não se acumularam o suficiente. — Conte-me, o que tem acontecido por aqui?
— Os humanos vem e vão continuamente em busca do Cerne...
Respondeu a residente antes de ser interrompida.
— Você se comunicou com o ultimo humano que veio se aproveitar do seu...?
— Não tenho motivos para me comunicar com eles. Eles cumprem com travessia. Obtém sua recompensa e logo vão embora. Se trata de apenas isso. — Os olhos da mais clara fitaram a da escura com leve aversão. — Estou cansada de repetir a mesma coisa todas as vezes que você vem aqui.
— Essa é a quarta. E ultima vez. — Disse a outra. Ver sua irmã com a maior expressão de desgosto que já viu em seu rosto lhe tirou um sorriso. — Tenho outra novidade! Lembra que eu te disse que os humanos fundaram o país de Tésia na região elevada? Eles criaram uma “padaria”. Criam alimentos a base de minerais e compostos. E o chamam de Doces. Não é bom para o meu paladar,mas combinando as receitas com meu conhecimento, até mesmo nós podemos desfrutar...
— Já chega, Nekze.
— Shh. Por que está me chamando pelo nome? Alguém pode estar escutando...
— Não há ninguém capaz de nos escutar, mesmo que estejamos usando vocalização. Não há nenhuma alma no Pedestal.
— Não fique tão séria, Ladinha...
— Use meu nome. Sempre use meu nome! Não invente apelidos...
— Os humanos me deram um apelido. Quer saber qual é?
— Não.
— O mundo que criamos é grande. Alguém pode estar nos escutando além dos limites. Outros podem até mesmo nos mudar. Você vai mudar. Eu sei que vai. Já está usando os seus ouvidos a trezentos anos.
Ladirsiful tentou se comunicar mentalmente com Nekze mas não recebeu uma resposta. Ela tinha deixado claro que havia abandonado aquele método de comunicação.
Por que ela era tão diferente?
Ela vinha continuamente ao seu encontro sem nenhuma necessidade. Apenas lhe trazia peças simples que se quebravam com o menor descuido. E comentava sobre humanos. Em especial aqueles que traziam alguma mudança significativa no mundo. Nenhum humano viveria tempo o suficiente. Por que se importar?
— Te trouxe...
— Não quero.
— Um livro! — Livros humanos eram tão grandes quanto as duas. — É algo novo e popular entre eles. Eles escrevem seus devaneios, pensamentos, e até mesmo o irreal. Eles são criadores, assim como nós. Em menores proporções. E aqui tem um dicionário feito por mim. É para que você aprenda de uma vez por todas a língua principal dos humanos.
Na segunda visita, Nekze tinha lhe falado sobre os desenhos interpretativos dos humanos. Símbolos que podiam ser lidos e gerados efeitos sonoros. Eles tiraram significado deles e agiram conforme sua interpretação. Era algo similar ao meio de comunicação que ela preferia ao invés de telepatia.
— Eu nunca toquei nos seus outros presentes. — A sua voz soou ríspida. — Por que agora seria diferente?
— É a primeira vez que eu te trago sabor “intelectual”. A tecnologia deles melhorou se quer saber. Já são capazes de formarem ornamentos pequenos com técnicas bem criativas. Alguns também tem manejado as Grandes Proporções e dominado suas características anti naturais. Suas guerras também estão em maiores proporções.
Ladirsiful puxou o livro com a mente, começando a enviar junto aos outros presentes esquecidos. Nekze observou que a única coisa que mantinha a forma era uma pequena estátua cristalina verde, que tinha presenteado em sua ultima visita. Antes que o livro aproximasse o suficiente daquela estatueta, Nekze o puxou mentalmente para si mesma.
— Isso é um “Título”. E está escrito “Laços”. Você tem tempo de sobra, então faça uso dele.
Nekze também lhe havia explicado sobre o conceito de Tempo. Não era como se o envelhecimento não existisse entre as duas. Ele é apenas visto de uma maneira diferente. E acontecia de raça em raça. Ladirsiful o sentia de forma diferente. Décadas se pareciam como horas. Milênios como dias.
Por isso, não entendia por que deveria apreciar as criações dos humanos. Eles desaparecem em “poucas horas”. Envelheciam, perdiam a cor e a vitalidade.
Diferente do livro, o dicionário feito por Nekze era perfeito. As palavras reluziam como se pertencesse a um tipo de matéria inexistente entre os humanos. Cada pagina reluzia com tamanha preciosidade que classificou como um presente adequado. Por fim, Ladirsiful sabia que perduraria por milenios. No entanto, o livro Laços tinha outro fim. Aquelas páginas desbotariam em um século e inevitavelmente se tornariam como cinzas desfalecidas.
E o que mais a incomodava era que deveria se livrar daquela sujeira. O Pedestal era um lugar limpo. E além dos humanos que iam e vinham no Pedestal, Nekze trazia essas tralhas em que o tempo agia. Limpar não lhe tomava nem um sentido de esforço. Mas a ação de se importar com algo tão trivial lhe trazia aversão.
— Ladirsinha.... Na próxima vez pode me anunciar o motivo da sua existência?
Ladirsiful observou sua irmã Nekze partir depois de receber um toquinho na cabeça. Diferente das outras vezes, ela parecia preocupada. Cada vez mais se parecia com os humanos. Mutáveis, reocupados com o tempo e fúteis.
Motivo? O eterno precisa de motivos? Quando encontrasse novamente sua irmã em quatrocentos anos, diria a única frase que apreciava dizer no fim de suas visitas.
— Não importa.
