Chapter Text
Chanyeol não nasceu numa cidade normal. É claro que “normal” é uma palavra muito vaga, e que fica difícil entender o que exatamente está fora da curva. Deste modo, talvez seja de bom tom dizer que aquele lugarejo esquecido tinha sofrido com um... inusitado desastre:
A cidade de Chanyeol tinha sido invadida por duas colônias enfurecidas de fadas, que travavam entre si uma sangrenta batalha. Importante frisar: a existência de fadas, por si só, nunca foi uma particularidade no mundo de Chanyeol. Aquela era uma cidade normal como qualquer outra, que subitamente arregalou os olhos para se certificar de que o que estavam vendo era, de fato, criaturinhas diminutas com asas, indubitavelmente mágicas.
No horário de pico daquela sexta-feira agitada e ensolarada, milhares de sul coreanos se viram estancados nas ruas, sem saber o que poderiam fazer além de assistir fadas (fadas!!!) de cerca de quinze centímetros lançando encantamentos por onde sobrevoavam, na intenção de acabarem umas com as outras. As tentativas de comunicação com os seres estrangeiros foram inúteis. De todo modo, em menos de uma hora, as fadas de cabelo rosa ganharam a guerra e, enfezadas, bateram a poeira das mãos, recolheram seus feridos em batalha e seguiram seu rumo, sumindo outra vez para a inexistência.
Derrotadas, as fadas azuis remanescentes se juntaram em torno de uma mulher humana particularmente desesperada. De joelhos, a prefeita da cidade implorava à fada líder azul que pelo menos tirasse as orelhas de burro de seu filho mais novo, um gorduchinho do clube de Ferrets cujo nome, a critério de curiosidade, era Park Chanyeol.
Em misericórdia, a fada líder disponibilizou uma força tarefa que reverteu pelo menos metade dos efeitos colaterais antes de levar seu povo embora de uma vez por todas.
Quando a poeira baixou, perplexa com os rumores, a Coreia do Sul renomeou a cidade para Daebak. Dispensável dizer que a maioria esmagadora do mundo preferiu acreditar que o que aconteceu ali passou por algum exagero midiático e que na verdade algum cidadão desavisado devia ter pegado uma pedra radioativa de um aterro sanitário, causando uma gigantesca histeria coletiva, o que explicava os efeitos controversos da invasão das fadas. Pela mesma razão, ninguém de fora tinha coragem de botar os pés em Daebak, e isso pode-se chamar de sorte dos moradores locais, que foram deixados em paz para resolver seus infindos problemas.
Ninguém de fora jamais poderia entender a bizarrice contida em lidar com corpinhos falecidos de quinze centímetros que jaziam por suas ruas e quintais. Nunca ficou clara a razão pela qual as fadinhas se exterminaram daquela forma tão horrenda, mas aos humanos, restou a responsabilidade de enterrarem as pobres coitadas num memorial respeitoso e, hoje, quatorze anos depois, um parque de árvores azuis enfeitava o centro de Daebak.
Essa não foi a única repercussão daquele fatídico dia que jamais entraria para os livros de história. Ainda se via, por raras vezes, milagres e maldições se manifestarem. No centro da cidade havia um famoso café onde as cadeiras por vezes saíam voando por causa dos resíduos da magia. No distrito onde a guerra eclodiu, os cães por vezes cantavam e os pássaros cagavam colorido. A prefeita decretou logo que a partir daquele dia, seria proibido ingerir qualquer alimento não fiscalizado, principalmente aqueles que davam em árvores.
Park Chanyeol, que viveu os terrores de quase ter sido fadado a viver com orelhas de burro enfeitando a cabeça, devia saber muito bem que não se sai colocando coisas na boca na inusitada cidade de Daebak. Contudo, depois de quatorze anos acostumado à raridade de qualquer desastre envolvendo mágicas, lá estava ele, sentado nos bancos de reservas do time de futebol da universidade, ostentando uma tupperware cheia até a boca com cerejas vermelhinhas retiradas do pé.
— A primavera começou há uma semana, não é? — Minseok comentou distraidamente, enquanto olhava os jogadores em campo. Já Chanyeol, murmurou sem muita certeza. — O aniversário da tia Park está chegando. Já comprou para ela um presente?
— Eu perguntei o que ela queria — ele explicou —, mas sabe o que ela respondeu? “Se você conseguir dar um jeito na bagunça que é a sua vida, já vai ser um presente para mim.”
Os dois compartilharam uma risadinha desanimada, enquanto Chanyeol jogava as frutinhas na boca. Bem que queria estar inscrito num curso de renome, como medicina ou direito, ou ainda ao menos conseguir boas notas, como Minseok. Mas o que podia fazer se não era exatamente um gênio?
— Ah, a tia Park… Às vezes ela é mortalmente honesta — Minseok suspirou, esticando-se como um gato. No fim, torceu a boca de maneira compassiva. — Meus pêsames pela perda da sua autoestima. Conseguiu organizar sua grade curricular o suficiente para ser elegível a uma bolsa de estudos? Você disse que sua mãe estava reclamando de pagar o valor integral da faculdade.
— Ah, cansei dessa merda… Já perdi três anos tentando e falhando. Acho que eu tenho que aceitar que sou burro. Fora que perdi um pouco a perspectiva, depois que terminei meu relacionamento com o Junmyeon. Não ficamos juntos por muito tempo, mas eu estava correndo atrás para poder ficar à altura dele. Agora perdi a vontade, também.
— E é por isso que não se usa namoros de muleta para sustentar seus próprios sonhos — Minseok zombou, em tom preguiçoso.
— Eu estou justamente dizendo que estou passando por uma fase de reconfiguração das minhas expectativas e sonhos — Chanyeol silabou, sem se deixar ofender. Só ele sabia o tamanho da decepção que sentiu quando notou que Junmyeon não tinha nem metade daquela vontade de ficar juntinho e construir um namoro caseiro.
Junmyeon queria liberdade e espaço, e apesar de Chanyeol querer exatamente a mesma coisa, seu agora ex-namorado sentia que sairia perdendo daquela troca. Disse, com essas palavras, que Chanyeol até poderia ganhar sua tão aclamada paz se viesse morar consigo, mas ele mesmo a perderia completamente.
Kim Junmyeon gostava da solidão. Park Chanyeol teve que engolir a sua própria com farinha.
De cenhos franzidos, ele e Minseok observavam os jogadores correndo de um lado para outro. O tempo dos dois no gramado já havia terminado e suas testas suadas secavam aos últimos raios de sol da tarde. Entre um suspiro e outro, Chanyeol capturou do pote um cacho com três cerejas perfeitamente brilhantes, escuras e grandes, e depois de guardar o restante na mochila, as segurou na palma da mão para comer enquanto continuava a conversa.
— Não importa mais. Já superei quase completamente, para falar a verdade.
Conversar sobre seu ex sempre o deixava meio… humilhado. Ninguém parecia entender o que exatamente um homem tão certinho e inteligente feito Junmyeon foi ver num destrambelhado como Chanyeol, que não tinha nada para oferecer. Quando os dois terminaram, todo mundo ficou com cara de quem já esperava para ver até quando o Kim iria aguentá-lo. Sequer conseguia expor sua decepção sem sentir que tinha se iludido profundamente.
Mereceu dele, no máximo, uns beijinhos. Amor já era pedir demais.
— Acho que a pior parte é saber que vou enfrentar mais uns meses ruins solteiro, e daí vou arrumar outra pessoa. Vou me apaixonar perdidamente achando que dessa vez achei alguém que realmente me ama para no final descobrir que eu me enganei de novo. — De ombros caídos, Chanyeol sentiu os cantos da mandíbula doerem, pela força com que rangia seus dentes. — Será que eu sou assim tão patético? Ninguém consegue ver um lado bom em mim.
— Espera aí, Chanyeol… você está fazendo uma catástrofe da situação — Minseok pediu com um gesto para que parasse, embora soubesse que teria tanto efeito quanto uma placa de “não pise na grama”. — Talvez você realmente devesse parar de procurar tanto por um namorado e focar em você mesmo por um tempo.
— Não, eu não aguento mais viver só comigo mesmo — o Park reclamou, limpando com tranquilidade um pedacinho de casca de cereja que tinha ficado entre os dentes. — Eu queria uma pessoa para ficar do meu lado por anos, alguém que me fizesse esquecer da minha existência cheia de defeitos e problemas, sabe? Uma dessas pessoas que te encantam tanto que você esquece que o tempo está passando e que coisas ruins estão acontecendo…
— Lá vem você viajando de novo na maionese — Minseok negou com a cabeça. — Mas é, acho que sei. Sabe o que mais eu acho? Você deve ter o dedo podre, porque nunca te vi namorando com ninguém que combinasse minimamente com você.
— Que combinasse comigo? — ecoou o Park. — Como assim?
Outra vez, Minseok levantou os ombros, farejando o cheiro da carrocinha de cachorro quente na rua em frente ao campo.
— Alguém que não se importa em demonstrar carinho, eu acho. Você sempre escolhe os que são meio distantes, que não gostam de grude… — ele engrossou a voz.
— Mas eu não gosto de ficar de grude em público, mesmo.
— Mas talvez precisasse disso para se sentir seguro. E para que conseguisse internalizar a ideia de que a pessoa que está com você acha, sim, que você merece todo o amor dele, ou sei lá. Que o relacionamento não é uma grande mentira que o seu namorado está contando só para você. E como não tem como ter certeza se seu próximo namorado vai conseguir suprir essa necessidade sua, talvez você devesse começar a ir remendando suas pontas soltas sozinho.
Chanyeol silenciou-se, tocado demais com a maneira como Minseok tinha basicamente destrinchado sua personalidade inteira em um único comentário despretensioso. Seu amigo olhava com tranquilidade enorme para a rua enquanto alisava as próprias orelhas e suspirava sua preocupação.
— O que você vai fazer da vida, hein, Chanyeol? Para mim, não faz sentido continuar cursando TI quando você já basicamente largou de mão. Faz uns dois semestres que você não conclui nenhuma matéria com nota o suficiente — retomou Minseok, enquanto Chanyeol erguia suas sobrancelhas. Tinha sido preenchido em cada átomo pela mais boba onda de felicidade, depois que o gosto tremendamente perfeito da primeira cereja do cacho tomou sua boca.
— Nossa, essa ‘tava um show… — ele comemorou consigo mesmo. Ignorando o fato de que Chanyeol estava ignorando, Minseok continuou:
— Você vai continuar pegando dependência e recuperação em tudo até quando?
— É para eu ser sincero? — assim que perguntou, recebeu do Kim um aceno breve e verdadeiro com a cabeça. — Estou tirando um ano para deixar o mundo se explodir, apesar da minha mãe estar cansada de me sustentar. Tem muito o que eu quero fazer da minha vida, mas não é nada sobre a minha formação ou sobre o trabalho, sabe? Eu quero pintar o cabelo de vermelho por um tempo, ou sei lá. Também queria fazer uma tatuagem. E viajar por aí de carro. Arranjar outro cachorro. Nada disso me grita “faça tal curso”.
— Só se for curso de dondoca… Você tem sorte de ser herdeiro, Chanyeol.
— Herdeiro do quê? Do vistoso trono de Daebak? Minha mãe tá doida para sair da política e eu não tô doido para entrar.
Chanyeol tirou outra cereja suculenta do cacho em sua mão e gemeu outra vez com o sabor inacreditavelmente fresco da fruta. Não chegava a ser o bastante para mandar o calor embora, no entanto. Ele sentiu a testa orvalhada sob a franja cheia.
— Ah, eu queria um estoque de coquinha gelada, uma hora dessas… Ou um namorado para me abraçar e dizer “e aí, tá afim de ir naquela cachoeira…”.
— Chanyeol, isso na sua mão está meio familiar… — Minseok comentou, meio incomodado, enquanto olhava por cima. — Você não andou pegando essas cerejas do pé do vizinho, né?
— Como você soube?
Minseok se calou depois de um breve arfar indignado. Seus olhos arregalados brilhavam em ódio.
— Nesse caso, permita-me um miado para te lembrar das consequências de ignorar o decreto? Miau? Miau miau?
Minseok provavelmente faria passeatas e pagaria camisetas estampando “RESPEITE O DECRETO”, desde que voltou bêbado de uma festa com Chanyeol na adolescência e achou um pé de amoras numa praça. Naquele dia, estava se achando feio. Choramingava por nunca conseguir dar em cima de ninguém e acabou mandando o decreto à merda e roubando amorinhas da Floresta Azul do centro de Daebak.
Chanyeol presenciou sua transformação em primeira mão. Foi o primeiro a se sentir meio mexido com o quanto Minseok ficou gato depois de ingerir uma frutinha. Mas daí Minseok comeu uma segunda amora e ficou meio… gato demais. Orelhas e um rabo felpudo saltaram para fora de seu corpo, e ele não notou antes de enfiar a terceira amora na boca. Chanyeol avançou sobre ele aos gritos para tentar fazê-lo cuspir, mas já tinha dado efeito.
Agora Minseok virava um gatinho toda noite de lua minguante. E quando não estava completamente transformado, exibia por aí as orelhas e o rabo. Uma fofura, embora bizarro. Virou um segredo de estado, tal como qualquer coisa encantada em Daebak.
— Minseok, você comeu de uma área de risco. O meu bairro foi um dos menos afetados. — E foi exatamente por isso que a mãe de Chanyeol mudou-se correndo para lá. — E tá uma delícia! Quer uma?
— Não, Chanyeol! — vociferou seu amigo, com as orelhas de pé e as unhas agarradas na própria bermuda. — Isso, na verdade, me preocupa! Comida mágicas tem um gosto absurdamente mais doce. São chamativas. Estudos dizem que as comidas encantadas tinham o intuito de seduzir e envenenar fadas azuis, e deu certo! Mas um humano é muito maior, então é claro que o efeito é amenizado. Em vez de explodir em euforia, você recebe uma dose boa de satisfação.
Hm. Okay… Não. Chanyeol não tinha entrado em contato com essa informação ainda. Engolindo duro, ele sentiu a garganta coçando numa reação muito psicológica.
— Eu vou indo, Minseok. Já deve estar na hora de você ir para o seu grupo de estudos e o sol hoje tá de lascar…
Foi só uma desculpa, é claro, para Chanyeol passar os braços pela mochila e voltar correndo para casa. Pinicava em seu corpo uma urgência arrependida de averiguar se os olhares estranhos que alguns vizinhos lançavam para ele não eram um forte indicativo de que havia orelhas de burro brotando de novo da sua cabeça.
E, não, é claro que Chanyeol não teve coragem de apalpar os próprios cabelos para checar se havia algo ali. Mesmo assim, não foi de nenhum alívio quando parou em frente ao espelho na entrada de casa e olhou fixamente para sua cabeça — que aliás não continha orelhas de nenhum bicho.
No entanto, seu cabelo…
Seus lindíssimos cabelos que levaram dois anos para crescer depois que serviu ao exército…
Estavam na cor mais gritante de vermelho cereja.
Chanyeol botou as mãos na cintura e olhou para o seu reflexo tanto tempo quanto foi necessário para assimilar o que havia acontecido (algo entre um minuto e meia hora). Não dava para crer que aquilo tinha acontecido. Logo ali, naquele bairro seguro e intocado pelas magias deixadas para trás pela guerra? Tudo bem que o decreto servia para a cidade toda, mas…
Quer saber? Não era tão ruim.
Mirando-se nos olhos, decidiu que não era necessário entrar em pânico.
Veja só. Um cabelo vermelho era absolutamente mais aceitável do que um rabo de gato. Chanyeol talvez nem precisasse passar pelo vexame que seria se todo mundo ficasse comentando sobre como era burrice ingerir qualquer fruta que brotasse pela cidade.
Ele respirou fundo, várias vezes, e tocou os fios macios. Tudo bem, estava tudo bem. Quantas pessoas não gastariam muito dinheiro para ter um cabelo como aquele? Um vermelho tão perfeito, e pior, macio como seda. E se suas sobrancelhas não estavam vermelhas também, queria dizer que nem precisaria checar as cuecas, o que era uma notícia mais do que ótima.
Chanyeol tentou não matutar demais sobre como Minseok e sua mãe iriam reagir quando o vissem daquele jeito. Estava, aliás, quase conseguindo inventar uma desculpa plausível para contar. Tava tão sussa, se agradecendo por esse ter sido o único desfecho “desastroso” do assalto à cerejeira do vizinho, que abriu a geladeira de casa para escolher o que faria para o jantar.
No entanto, com uma mão apoiada na porta e o pescoço esticado para olhar as prateleiras, Chanyeol se deparou com uma segunda inesperada imensidão vermelha.
Sua geladeira estava absolutamente soterrada por latinhas de coca-cola tão geladas que havia uma camada de suor ao redor de cada uma delas. Ele diria que haviam dezenas, mas, talvez, a considerar o fato de que não havia espaços entre uma lata e outra… Talvez fossem centenas.
Havia centenas de cocas geladas em sua geladeira.
Chanyeol deu com a mão na própria cara, as peças se unindo finalmente para criar um sentido.
Ele enfiou a mão no bolso e retirou de lá a última cerejinha cheirosa e perfeita, aquela que não comeu depois que Minseok iniciou o assunto sobre serem perigosas. Sua boca salivou, porém, finalmente havia entendido que não daria para comer sem antes pensar muito bem.
As cerejas concediam desejos, não é?
Só podia ser isso! Chanyeol disse que queria cabelos vermelhos assim que comeu a primeira cereja, e ali estavam seus cabelos, devidamente vermelhos, no tom exato que imaginou. E então, depois que comeu a segunda cereja, disse que queria uma dispensa cheia de coca-cola gelada e era coca-cola gelada que ele tinha à rodo.
Mas e quanto às outras coisas que disse que queria? Se não estava enganado, tinha dito que tinha vontade de fazer uma tatuagem, de viajar… Por segurança, arrancou toda a roupa do corpo e checou no espelho do banheiro, aos contorcionismos, se não tinha realmente nada desenhado no seu corpo.
Se a pimentinha que imaginou momentaneamente — e, pff, claro que jamais tatuaria algo assim — não estava posicionada na banda esquerda da sua bunda, só queria dizer que a lógica da cereja era simples: uma cereja, um desejo.
Vestindo-se depressa, Chanyeol se lançou porta à fora e caminhou duramente até a árvore da vizinha, tenso com a possibilidade de alguém mais ter percebido que as cerejas eram mágicas e da árvore estar pelada, uma hora dessas. No entanto, a cerejeira que enfeitava o lado de fora do muro dos Byun permanecia linda e frondosa, coberta de perfeitas bolinhas vermelhas.
Chanyeol arrancou qualquer uma e a enfiou na boca, um “crec” macio ecoando entre seus ouvidos. Por mais azeda que estivesse, ele pensou rapidamente no que poderia pedir e uniu as mãos em frente ao corpo enquanto criava as mais irrevogáveis esperanças.
— Por favor — ele implorou, apertando os olhos fechados. — Eu quero saber qual curso seria perfeito para eu me formar e ter muito sucesso na vida.
Ele abriu um olho, depois o outro, encarando suas mãos juntas e cada centímetro dos seus arredores. Nada aconteceu. Não tinha dado certo? Será que iria demorar? Aparentemente, tinha demorado um pouco para os seus cabelos ficarem da cor pedida…
Mas talvez aquela não fosse a cereja certa, e isso pareceu mais provável a partir do momento em que lembrou do que Minseok havia dito. As mágicas eram doces, então dessa vez ele selecionou melhor antes de arrancar uma redondinha escura e de aroma adocicado e mastigar com mais calma. Talvez também precisasse de mais foco.
— Vamos lá, de novo. Eu quero um emprego maravilhoso em que eu ganhe muito dinheiro, tenha férias todo ano e adore o que eu faço.
Outra vez, nada absoluto. O vento soprou contra seus cabelos vermelhos, sussurrando que estava sendo idiota. Talvez não desse certo com coisas tão complexas e que afetassem mais pessoas além de Chanyeol? Pelo sim e pelo não, ele arrancou outra cereja, uma mais próxima do galho de onde se lembrava de ter pegado as frutas que realmente serviram de alguma coisa. E enfiou na boca, salivando para o sabor doce impecável.
— Hm… por favor, senhora gostosa, eu quero uma Lamborghini Aventador.
Se tivesse uma Lamborghini, poderia vender a Lamborghini e alugar uma casa, arranjar um carro, pagar o restante da graduação (e seus repetecos), quem sabe até viver de boa por algum tempo até que conseguisse trabalho. Contudo, quando abriu os olhos não havia Lamborghini nenhuma. Caminhou para cá e para lá pela calçada, aguardando a chegada misteriosa do seu carro, mas nenhum apareceu estacionado em sua vaga. Nem Lamborghini Aventador, nem Huracan, nem Murciélago, nem sequer uma fuleira que fosse. Chanyeol se permitiu um grunhido chateado, sem acreditar que simplesmente tinha gastado seus pedidos com coisas tão idiotas quanto um cabelo vermelho e uma centena de coca-colas!
— Vai tomar no meu cu — ele rosnou socando os galhos para longe. A árvore o atacou de volta com uma cereja verde no cocuruto, não deixando-se ofender. Apesar de sentir o sangue talhado nas veias em completa frustração, Chanyeol tentou se acalmar, sentando-se no meio fio e relembrando a si mesmo que nem tudo estava perdido.
Ele ainda tinha a última cereja do trio. As duas irmãs tinham garantido seus desejos, então, dentre todas as cerejas daquela árvore, a que estava em seu bolso tinha a maior probabilidade de fazer o mesmo. Teria que usá-la com muita ponderação, considerando algo que realmente quisesse. E o que é que queria tanto, mais do que um emprego, uma faculdade, uma Lamborghini, coca-cola e um cabelo impecável?
Bem, a resposta acaba vindo muito facilmente em sua cabeça, tilintando em seu estômago e deixando-o meio tímido. Chanyeol… queria muito alguém. Pensou em Junmyeon e finalmente conseguiu entender que ele nunca o levou a sério. Ninguém levava, e disso estava exausto.
Tinha seus defeitos, uma baita pilha de defeitos, para ser honesto. No entanto, reconhecia que sempre foi uma pessoa positiva e forte emocionalmente. Não só solitário, como também um tanto carente, Chanyeol desejava com todas as suas forças alguém para amar profundamente, alguém com quem tivesse uma conexão verdadeira e indubitável, alguém que tivesse vontade de ficar na sua companhia e que tivesse por ele um amor recíproco.
— Eu quero uma forma de saber quem é a minha alma gêmea — ele finalmente suplicou, ao enfiar a última cereja mágica na boca.
E quando abriu os olhos, dessa vez com um sorriso repleto de expectativa, Chanyeol piscou confusamente, se deparando com o mundo ao redor cromatizado em vermelho. Prestes a se desesperar, pensando que tinha feito merda e comido uma cereja amaldiçoada que deixava sua visão monocromática, sentiu uma pressão muito leve na ponta do nariz. Tocou o rosto, notando que estava usando óculos.
A cereja havia dado a Chanyeol um par de óculos bem estilosos com lentes e armação vermelhas. Colocando de novo o acessório, ele estudou os arredores. Pressupunha que o pedido havia sido concedido, dessa vez…
Mas como saberia quando esbarrasse com sua alma gêmea?
Retirando os óculos para analisar, Chanyeol pulou de pé quando algo frio tocou sua nuca. Percebeu no instante seguinte que era apenas o Corgi dos vizinhos o cumprimentando. O narigudinho balançava a bundinha com animação e também tinha um sorriso amigável no focinho.
— Oi, bonitinho. Está dando uma voltinha pelo bairro? — cumprimentou-o de volta, abaixando-se e dando sua mão para que cheirasse. Mongryeong não era muito tímido. Deu logo a barriga para que fizesse carinho. — Cadê seu dono, hein?
Um par de tênis brancos se aproximou, vindo dos portões brancos com a guia da coleira pendendo das mãos preguiçosas. O olhar de Chanyeol subiu lentamente pelas pernocas vestidas em jeans e pausou um instante na blusa surrada que o rapaz vestia sob a jaqueta, marca registrada dele.
— E aí, Baekhyun? — cumprimentou Chanyeol, botando os óculos vermelhos na gola da camiseta para deixar as duas mãos livres para o carinho que Mongryeong exigia. O sorriso permaneceu quando encontrou o rosto do vizinho.
— E aí? — soprou o Byun de volta. Qualquer ideia de conversa entre os dois, que na verdade quase nunca achavam assunto um com o outro, foi pelos ares quando um barulhinho de notificação apitou do relógio digital no pulso do Byun. Com uma olhadela, o vizinho levou a mão à nuca. Devia estar com pressa.
— Preciso ir. Vamos, Mongryongie — chamou ele, trocando um olhar constrangido com o próprio cachorro. O Corgi tinha a língua para fora e a patinha chutava o ar quando o Park coçava seu lugar favorito do pescoço, então… não parecia querer ir a lugar nenhum.
Olhando Baekhyun nos olhos, Chanyeol sentiu um comichão inesperado ao notar suas bochechas tingindo-se lentamente de vermelho. Pôs-se de pé de uma vez por todas, talvez para diminuir a dose de constrangimento.
— Tô indo. ‘Bora Mongryeong — Baekhyun acenou frouxamente, apressando-se na direção contrária, de modo que o cachorro foi impelido a segui-lo numa corridinha.
Foi um encontro tão desengonçado que quase o fez esquecer completamente do seu pedido às cerejas. Mas quando colocou o acessório no rosto e sondou a rua vazia no caminho de volta para casa, notou que de todo modo não encontraria a pessoa que almejava assim, tão debaixo do seu nariz.
Teria que esperar até a manhã seguinte, quando estivesse na universidade outra vez. Aquela noite certamente demoraria uma eternidade para passar.
O dia amanheceu com ares de tamanha normalidade que Chanyeol sequer lembrou a primeiro momento que completamente tudo em sua vida havia mudado depois que comeu as cerejas mágicas. Tomou um susto extra quando se viu no espelho — o tom de vermelho nos seus cabelos era estranhamente hipnótico e agradável, mas também parecia um alarme lembrando-o de que teria muito a explicar para sua mãe e para Minseok.
Mais tarde, depois de calçar os sapatos na saída de casa, parou em frente ao espelho do aparador e acoplou orgulhosamente o par de óculos estilosos no rosto, arrumando-o na ponte do nariz com um gesto pomposo. Hoje o acessório finalmente encontraria utilidade. Não deixaria nenhum rostinho passar por seu analisador-de-compatibilidade-amorosa sem ser devidamente considerado. E foi o aconteceu.
Desde o instante em que subiu no transporte público até descer num pulinho com os dois pés em frente a universidade (por não ter conseguido raciocinar rápido qual era o pé direito), escaneou rostos dos mais variados, os que faziam e os que não faziam seu tipo, procurando por pistas de que tinha encontrado sua alma gêmea.
Nenhum sucesso, nenhuma mudança, só um mar vermelho monocromático de pessoas transitando pelo campus em busca de seus diplomas. Procurou em cada olhar que recebeu (e foram muitos, talvez por causa dos óculos diferentões), porém, sentiu que estava procurando por alguém que provavelmente não existia e acabou, como sempre, constrangido consigo mesmo por ter tentado.
Às vezes sentia que o amor estava fazendo hora com sua cara. Talvez devesse levar na esportiva, mas a tendência era sempre se sentir meio ofendido.
— Vermelho cereja, hm? — Foi o que Minseok disse, em zombaria, quando, como de costume, encontrou com ele na saída do prédio de veterinária. Já esperava que ele fosse sacar logo de cara. Não só tinha memória invejável como também olfato de gato, portanto, perceberia a falta do cheiro de descolorante no Park. — Seu cabelo tá uma marmota.
— Estava tentando tirar um pouco dos olhares constantes sobre o seu rabo. Não podia deixar meu amigo na mão — Chanyeol importunou-o de volta. — Espera só para ver como está minha geladeira.
— Eu te disse que não era para comer nada que você achasse por aí — ele ralhou. — Você poderia ter usado a sua péssima mania de tuiteiro para dizer alguma bobagem como “queria star morto” e…
As orelhinhas de gato do Kim se remexeram em agonia.
— Aaah — Chanyeol fingiu um bocejo. — Eu não vim até aqui para você me dar esporro.
— É, eu teria mais cuidado com o que desejo… — brincou Minseok, numa piadinha indecente. Chanyeol o ignorou para continuar o que estava dizendo antes.
— Na verdade, Seok, eu estava realmente planejando mentir sobre tudo e dizer que pintei o cabelo, mas aconteceu algo mais importante e eu tenho que te contar.
O Park fez uma pausa dramática, puxando Minseok para sair do caminho do fluxo de alunos que deixava o prédio.
— Eu pedi para conhecer minha alma gêmea e as cerejas me deram esses óculos mágicos.
Minseok piscava atordoadamente para o acessório que até então tinha ignorado completamente, pendurado na gola da blusa de Chanyeol.
— Você…!?
— Eu não encontrei a pessoa ainda — Chanyeol o interrompeu usando um gesto impaciente. No instante seguinte, recolocando o acessório no rosto apesar dos olhos já cansados de enxergar tudo em vermelho, ele completou: — Está sendo mais difícil do que eu esperava. Eu ainda não entendi como exatamente funciona…
Chanyeol escorregou os óculos para a ponte do nariz, tentando comparar. Curioso e alvoroçado, Minseok estendeu a mão em súplica para que emprestasse.
— Deixa eu tentar? Só uma vez? Quem sabe eu descubro como funciona?
A princípio, o Park hesitou, estendendo seus óculos mágicos para longe. Se Minseok quebrasse ou se o encanto deixasse de funcionar por ter emprestado, provavelmente entraria em pane…
Mas antes que tivesse tomado sua decisão, o objeto escapou por entre seus dedos. Coração batendo a mil, Chanyeol apalpou o ar, achando que ele tinha caído, quando na verdade, tinha sido furtado enquanto estava desatento. E agora enfeitava o rosto pequeno e de feições simples de Byun Baekhyun.
Emudecido em choque, Chanyeol se permitiu um suspiro de alívio.
— Fiquei bem? — perguntou Baekhyun, com um sorriso cheio de dentes. Tanto Chanyeol quanto Minseok olhavam para ele com surpresa, afinal, era raro que o Byun conversasse com os dois.
— Acho que sim — o Park balbuciou, tentando conectar os traços de Baekhyun aos óculos e falhando miseravelmente. Seu olhar estava embaralhado e tímido no rosto bonito, de modo que só pôde concluir que as armações eram um pouco grandes demais. — Ficou meio desengonçado.
Baekhyun não tomou como ofensa, mas riu em vez disso. Um riso no qual prendia a pontinha da língua entre os dentes, não que Chanyeol tivesse olhado para a boca dele. Satisfeito, Baekhyun tirou o acessório do rosto e encaixou-o nos cabelos.
— Só estava tentando te seduzir a assinar meu protesto. — O coração de Chanyeol bateu tão forte contra as orelhas quando ele falou em “seduzir” que demorou um instante constrangedor para notar que Baekhyun estava oferecendo uma prancheta com a folha do abaixo assinado. Tinha uma explicação breve sobre o que se tratava, mas Chanyeol apenas assinou logo depois de Minseok.
Agora que com seu objetivo cumprido, Baekhyun tomou a liberdade de levar os óculos com tranquilidade ímpar até o rosto do Park, ali encaixando-os meio tortos (e meio enfiados na sua orelha esquerda, o que os dedos finos do Byun logo trataram de consertar com uma delicadeza que mexeu com absolutamente tudo dentro de seu corpo).
E então, vermelho nas bochechas, encolhido em timidez e à mercê do atrevimento adorável do carinha que até hoje nunca tinha trocado mais do que duas palavras consigo, Chanyeol subiu os olhos por seu corpo outra vez. Pelos jeans de lavagem escura, a blusa muito velha sob a jaqueta, os cabelos castanhos em tom doce.
E surpreendeu-se com o fato de que ele, por sua vez, não estava nada vermelho, mesmo através das lentes. Byun Baekhyun, seu vizinho, era a única pessoa que seus óculos estilosos enxergavam em cores vívidas contra o fundo vermelho monocromático.
— Combina mais com você, mesmo. Ficou legal com seu cabelo combinando.
Baekhyun reluzia…
Chanyeol não sabia dizer se era alguma função das lentes ou um delírio, mas coraçõezinhos saltitavam ao redor de sua imagem, emoldurando-o enquanto uma harpa romântica tocava no fundo de sua cabeça. Estremeceu de uma maneira que qualquer coisa que tivesse tentado dizer, saiu só num “a-ah-ah-e-eh-hm” risonho. Quando ajeitou a postura e tentou olhar para o seu rosto, Baekhyun sorriu de forma muito genuína.
Demorou uns segundos para Chanyeol perceber que ele estava era fazendo graça dos seus óculos e que o sorriso em seu rosto era porque provavelmente estava achando-o ridículo, mas não tinha problema. Quando o relógio do Byun apitou e ele saiu dando um tchauzinho charmoso, Chanyeol desceu desajeitadamente os óculos até a ponta do nariz para comparar. Sem as lentes, Baekhyun estava normal — embora definitivamente lindo —, mas com as lentes havia um efeito romântico incontestável. Flores brotando de seus pés, estrelinhas em seu cabelo, o som grave do seu coração retumbando no peito…
Era ele. Sua alma gêmea… Era mesmo Byun Baekhyun.
— Ele é meu vizinho, Minseok. Eu trombei com ele ontem à noite logo depois de ganhar os óculos, isso teria sido tão óbvio — Chanyeol vacilou, sem conseguir acreditar no que tinha acabado de acontecer. — Byun Baekhyun. Você já viu o quanto ele é lindo?
Minseok deu de ombros. Estudava com ele há alguns anos, é claro que tinha visto.
— Eu, particularmente, sempre evitei olhar muito para ele porque, sabe como é, eu não tinha intenção nenhuma de me apaixonar à toa para ser rejeitado dolorosamente… — confessou Chanyeol, sentindo-se trêmulo da cabeça aos pés.
Enquanto ponderava, Minseok tirou o rabo felpudo do caminho para se sentar na arquibancada ao seu lado. O Park tinha sido arrebatado para os céus naqueles últimos trinta minutos, estava dando um daqueles sorrisos que mostrava dentes até demais.
— Eu vou precisar da sua ajuda para conquistar ele. Não sei como fazer, não faço ideia de como começar.
Chanyeol uniu as mãos em frente ao peito com olhos pidões. Minseok emudeceu por alguns segundos, cruzando os braços com uma expressão de seriedade que acabou o preocupando. Seus ombros caíram.
— O que foi? O que tem de errado?
— É que o fato de que o Baekhyun é sua alma gêmea não é uma boa notícia, Chanyeol… Tomara que seus óculos estejam com defeito. O Byun é meu colega desde muito antes de entrar no curso de veterinária e ele simplesmente rejeita todo e qualquer homem que caminhe sobre a terra. Bonitos, feitos, altos, baixos, quebrados e endinheirados. Muitos já tentaram sair com ele, mas ele simplesmente nunca aceitou o pedido de ninguém.
Chanyeol descobriu que era possível murchar ainda mais. Seu rosto foi preenchido pela decepção.
— Não brinca…
Torcendo os lábios de forma empática, Minseok se calou para que ele pudesse absorver a triste novidade. Sua alma gêmea seria justamente a pessoa mais difícil do mundo de conquistar. De nada adiantava saber que era Baekhyun?
Chanyeol retirou os óculos do rosto e piscou em incômodo por alguns segundos, brincando com as perninhas do acessório enquanto ponderava.
— Será que ele não gosta de homens?
— Será, Chanyeol? Eu me pergunto — Minseok zombou, e num tom muito convincente. — Por mais que eu saiba que isso que vou dizer agora só vai ajudar a te dar falsas esperanças, eu vou dizer assim mesmo: Baekhyun me disse no ensino médio que era bissexual. Se ele quebrou a carteirinha e jogou no lixo em algum momento desses últimos anos, eu não saberia dizer.
— Ele nunca nem ao menos namorou com um homem? — tentou o Park.
— Bem, sim… Mas durou exatamente três dias antes dele dar com o pé fortemente na bunda do cara — Minseok respondeu, penteando a própria cauda com os dedos. — E olha que era o Jongin. Se o Jongin não conseguiu prender o Baekhyun, qual macho da nossa espécie seria mais apto para tentar? — Chanyeol pensou, pomposamente: eu-eu-eu! — O cara é estudante de direito, um dos mais inteligentes, tem cheiro de homem bonito, jeito de gostoso, se veste como um modelo, é carismático, tranquilo, romântico, gosta de gatos e cachorrinhos, ri com facilidade…
Chanyeol tentou contar nos dedos os critérios que cumpria, mas parou, enervado, ao ponderar se tinha pelo menos “jeito de gostoso” e se dar conta de que não.
— Você realmente não está me ajudando. Eu preciso de alguma informação que facilite a coisa toda de me aproximar dele, qualquer coisinha, Minseok, por favor? Você não consegue pensar em nada para eu contornar essa situação e ao menos conhecer ele e entender o que exatamente ele não gosta nos homens?
— Hm… — Minseok passava a pontinha do próprio rabo no queixo, pensando com um biquinho. De repente, seus olhos brilharam com uma ideia, as orelhas apontando avidamente para cima. Ele estendeu a mão para Chanyeol, que idiotamente bateu nela em cumprimento. — Não, seu trouxa! Eu quero fazer uma troca. Você me empresta esses seus óculos legais por uma semaninha e eu te dou uma ideia.
— Uma semana?! Para que você precisa dele por uma semana? — Abismado, Chanyeol segurou o acessório mágico bem longe do alcance de Minseok. — Você ao menos tem uma ideia?
— Eu tenho contatos! E é óbvio o porquê de eu precisar de tempo: você teve muita sorte da sua alma gêmea ser seu vizinho. Já eu, provavelmente vou ter que rodar Daebak inteira e talvez nem encontre. No tempo livre, eu poderia muito bem lucrar um pouquinho com esses óculos…
— Muito engraçado! Primeiro que é contra o decreto usar qualquer coisa mágica para lucro pessoal, depois que a gente nem sabe se ele funciona em outras pessoas, Minseok.
O Kim insistiu com a mão que pedia os óculos, dessa vez para que pudesse testar. Depois de um suspiro desacreditado, Chanyeol o entregou, esperando enquanto colocava o acessório no rosto. E, olha, Baekhyun estava certo… O bagulho era feio.
— Hm — Minseok soltou um breve muxoxo. — Eu não estou vendo nada diferente. Acho que não funciona.
— Está tudo vermelho?
— Mais ou menos.
— Se você vê alguma cor, é porque não funcionou, então.
Minseok devolveu os óculos, resignando-se ao fato de que não poderia colocar seu plano esplêndido em prática. Tampouco ajudar Chanyeol com qualquer ideia de como se aproximar de Baekhyun, o anti-homens.
E por isso o Park decidiu, desesperado, que a única maneira seria o método romântico clássico. Iria na cara e na coragem chamá-lo para sair.
Quando Chanyeol saiu mais tarde com Zzar, por volta das 18h do dia seguinte, sentiu um tremor leve pelo corpo inteiro. Nervosismo. Percebeu que de Baekhyun conhecia muito pouco ou quase nada, fora uma listinha de fatos aleatórios que contou nos dedos:
- Ele era bonito, mas parecia que se vestia no escuro.
- Ele não usava perfume, tinha cheiro de pasta de dente de hortelã em vez disso.
- Ele tinha uma rotina de estudos, era muito disciplinado e por isso tirava boas médias no curso de veterinária.
- Ele tinha vinte e quatro anos. Filho único de pais separados, morando apenas com o dr. Byun, um médico bem conceituado em Daebak.
E era só.
Era muito pouco. Não saberia sobre o que conversar com ele quando se esbarrassem, e no final, mesmo depois de ensaiar muito mentalmente, não conseguiu sequer dar “oi” direito. Assim que o encontrou passeando com Mongryeong no parque, encarou-o com uma expectativa tão grande que, no segundo em que Baekhyun ergueu os olhos para si, tudo o que conseguiu fazer foi dar um sorriso pateta com a boca fechada e um aceno trêmulo.
E lá se foi sua chance de abordá-lo e chamá-lo para sair.
Tentou se convencer de que não foi um fracasso completo, no entanto, o cenário apontava para o contrário. Baekhyun permaneceu a uma distância segura, como era de costume. Ele se sentou num dos bancos do parque e deixou que Chanyeol brincasse de jogar bolas e gravetos para Mongryeong e Zzar, parecendo focado em não trocar mais um daqueles olhares desajeitados.
Se fosse para ser honesto, Chanyeol sentiu-se um completo banana. Quando se atirou na cama mais tarde, depois de um banho, ficou questionando todas as suas certezas: talvez os óculos não funcionassem, talvez estivesse sendo ingênuo por acreditar que almas gêmeas sequer existiam, ou talvez a ingenuidade fosse crer que havia uma alma gêmea para si.
Será que Baekhyun sequer combinava consigo de alguma maneira? Porque não conseguia pensar sobre nada em que fossem similares. Confiava em Minseok e no que ele havia dito sobre talvez precisar de alguém mais parecido consigo, em vez de sair correndo sempre atrás de homens frios. Baekhyun parecia muito mais com um padrão se repetindo… Chanyeol não estava lutando pelo amor de alguém que não era capaz de amá-lo?
No outro dia, levou os óculos para a faculdade outra vez e matou algumas aulas analisando os rostos pelo campus. Fez uso da sua melhor cara de pau e bateu em algumas salas de aula, procurando uma tal de Song Hyekyo para entregar seu telefone perdido. Mentira deslavada, só queria experimentar olhar para mais um tanto de pessoas e ter certeza de que nenhum deles tinha o mesmo efeito sob seu analisador-de-alma-gêmea. Spoiler: não aconteceu. Não até abrir a sala 202 do prédio de veterinária e, enquanto chamava por Minseok, dar uma olhadela para o Byun.
Baekhyun tinha um olhar curioso, o rosto deitado numa das mãos longas. Um dos seus pés estava puxado para cima da cadeira e seu peito deitava contra o apoio do joelho. Sua letra, um garrancho.
Os cabelos castanhos tinham aquele tom de doce de leite que parecia combinar perfeitamente com a cor quente dos olhos. A simplicidade do rosto dele fazia a palavra “fofo” sussurrar mil vezes dentro da cabeça bagunçada de Chanyeol. Seus olhos tinham grudado nos dele, viciados nas cores agradáveis que via depois de tanto enxergar tudo naquele vermelho monocromático.
Era ele, não era?
— …Alô?
Chanyeol assustou, deparando-se com um Minseok mais do que confuso parado à sua frente. Aparentemente, ele esperava ouvir o “recado urgente” que usou de desculpa para arrancá-lo da sala no meio de uma explicação importante.
— Não vai dizer o que era? — questionou Minseok, confuso. E indignado, também. Ainda não tinha percebido que era mentira, por isso sua cauda estava arrepiada. Vish!
— Desculpa! Não, eu só queria ver o Baekhyun por um segundo — envergonhado, Chanyeol explicou depressa, poupando-o de qualquer piadinha. Minseok teve boas razões para bater nervosamente os braços do lado do corpo. Quase tinha sofrido um infarto!
— Eu achei que tinha acontecido alguma coisa! Nunca mais faça isso — ele alertou, apontando para o amigo em uma bronca amigável. E então virou-se para entrar, já que não tinha razão em ficar ali com cara de idiota. — Agora eu vou ter que mentir…
Minseok adentrou outra vez a sala. Pela porta semi-aberta, Baekhyun saiu com certa timidez. Chanyeol deu um passo atrás, embora não estivesse exatamente obstruindo o caminho. É que a presença dele fazia ele se sentir sufocado de vergonha.
Ainda não tinha se acostumado com a ideia de que… talvez Byun Baekhyun fosse seu verdadeiro amor. Talvez um dia fossem namorar, sair andando pelo campus de mãos dadas. Essa imagem passava pela sua cabeça como um trailer irritante da Netflix que dava play por conta própria e Chanyeol que arcasse com suas orelhas vermelhas e quentes.
Era, sim, uma ideia para lá de fofa. Despertava no Park um desejo tão grande que não conseguia parar de pensar que talvez fosse ali, agora, o melhor momento para tomar coragem e fazer alguma coisa. Não precisava exatamente chamá-lo para sair, bastaria até uma cantadinha. Mas no final, recuou até sentir a parte de trás dos tênis bater no rodapé do corredor, e Baekhyun passou por ele com um aceno pequeno e um sorrisinho, seu relógio de pulso apitando da mesma maneira de sempre.
Não deu certo de novo…
— Não é que não deu certo, né, Chanyeol… Você deveria ter tentado falar com ele — aconselhou Minseok, quando se encontraram no campinho para jogar. O Park rolou a bola sob o pé, esperando que os demais terminassem de trocar a roupa para dar início à partida.
— Eu pensei tanto em alguma coisa para falar que deve ter até fedido queimado — reclamou. — Você estuda com ele. Já descobriu alguma coisa que eu possa usar para puxar assunto? O que ele gosta de assistir?
— Ele não gosta de filmes.
— Não? — o Park se surpreendeu, erguendo as sobrancelhas. Nunca tinha ouvido falar de alguém que não gostasse de assistir um filminho de vez em quando. Quer dizer, isso fazia parecer que Baekhyun era uma pessoa muito… chata. — Não que você saiba, né?
— Ele dorme toda vez — Minseok justificou, sem deixar margem em seu tom para que pensasse que estava brincando. Não estava. — Ele gosta de pipoca, apesar disso.
— Mas aí não importa.
— Ele gosta da pipoca com manteiga do fliperama — o Kim se lembrou, olhando para o amigo com animação não correspondida.
— Eu vou chamar ele para comer pipoca no fliperama comigo? — questionou. — Isso é específico demais, ele ia saber que eu te perguntei. O que não tem problema, mas o plano era não chamar ele para sair, assim de cara. Queria que ele me conhecesse primeiro antes.
— Então, não sei…
Minseok roubou a bola debaixo do seu pé, posicionando-a no meio do campo agora que os jogadores saíam do vestiário para vir jogar. Por fim, talvez tivesse uma ideia frouxa para oferecer:
— Mas comida é, com certeza, um assunto. Sempre é. Pode ser sua cartada.
Comida é um assunto.
Apesar de soar idiota, aquilo grudou na cabeça de Chanyeol de uma maneira que não conseguiu pensar em outra coisa pelo resto do dia. Era verdade que podia abordar Baekhyun com alguma coisa para oferecer.
Às 18:40 em ponto, horário em que Baekhyun saía com Mongryeong para o parque, Chanyeol se recostou ao batente do portão de sua casa e esperou. Às 18:43, o Byun rodou a chave e quase saltou de dentro do próprio corpo em susto quando percebeu-o ali.
— Oi! — cumprimentou Chanyeol, dando um passinho para trás enquanto Mongryeong latia em protesto pelo sobressalto. Baekhyun olhou-o em alerta por um par de segundos até se recompor.
— Ahm…
Ele não estava sabendo o que dizer, notou Chanyeol, sentindo-se idiota. Baekhyun se ocupou de fechar o portão e passar a guia na coleira do cachorro, e enquanto isso, o Park usou o silêncio para desembolar o embaraço entre os dois. E sorrisos. O sorrisinho ameno em seu rosto acabou por fazer Baekhyun relaxar e finalmente perceber que não tinha sido um esbarrão inesperado.
Chanyeol estendia para ele uma latinha de coca-cola.
— É para mim? — perguntou o Byun, só para confirmar. Não tinha mais ninguém para Chanyeol estar dando a lata, no entanto, era um gesto tão repentino que não teve como não desconfiar.
— É — confirmou, entre um dar de ombros que entregava seu nervosismo. Nem ele mesmo sabia explicar o que estava fazendo, hm? — Pensei em te encontrar antes de ir para o parque, já que moramos um do lado do outro…
Chanyeol percebeu o relógio no pulso do Byun apitando pela milésima vez, desde o instante em que ele finalmente aceitou a lata de coca-cola. Sem querer ser enxerido, mas não conseguindo se controlar, notou no pulso do Byun um emoji pixelado de um homenzinho correndo. “Hora de correr!” , dizia a mensagem de ponta cabeça.
— Okay… — murmurou Baekhyun. — E cadê a Zzar?
— Nossa…!
Chanyeol tinha esquecido completamente de Zzar. Voltou correndo para casa para deixar a cachorrinha que esperava no portão sair e vir atrás dos dois. Encontrou Baekhyun no caminho, muito divertido pela sua idiotice e com a latinha de coca-cola já aberta. Chanyeol abriu a própria lata também, e desviou o olhar envergonhado para os cachorros brincando à caminho do parque, logo à frente.
— Não vai correr hoje? — o Park perguntou, quando o silêncio pediu que dissesse alguma coisa. Afinal, não dava para chamar Baekhyun para uma voltinha e deixar o assunto morrer tão cedo.
— Ah… está falando disso? — Ele remexeu o relógio de tiras vermelhas em seu pulso. Ainda apitava sem parar. — Está meio desregulado, eu acho. Não tá na hora de correr ainda.
— Mentindo para não ter que me dispensar? — Chanyeol cantou, querendo se bater a partir do instante em que olhou para o rosto de Baekhyun e encontrou suas orelhas vermelhas. Segurando o riso entre os lábios, ele negou teatralmente com a cabeça.
— Eu não deixaria você saber nem se fosse o caso.
Minseok estava certo, comida era um assunto, e a conversa que tiveram naquela tarde, depois que Chanyeol pagou um crepe para Baekhyun e sentou ao lado dele para ver os cães brincarem soltos no parque, foi a mais longa que tiveram até então.
Baekhyun adorava crepe, ao que parecia. E ele tagarelou pelo menos dez minutos sobre todos os sabores que já provou e o porquê de não ter provado os que ainda não provou. E fazia todo sentido, Chanyeol também não tinha vontade nenhuma de comer crepe de macarrão com queijo.
Mas no fim, foi tudo o que conseguiram conversar. Parecia que seria melhor, por enquanto, se mantivessem um coleguismo baseado em duas cocas geladas e um lanche de pracinha. Foi legal jogar gravetos para Mongryeong e deixar Baekhyun rir de sua cara quando o cachorro simplesmente se recusava a devolver. Então, quando chegou em casa, suado e quente (e não por causa da temperatura de Daebak), não sentiu que tinha as mesmas dúvidas de ontem.
Estava convencido de uma coisa, ao menos: se os óculos apontavam que Baekhyun era sua alma gêmea, então ele tinha, sim, uma chance com ele. Se não, seria ilógico, não é?
Seu coração estava a mil e Chanyeol não conseguia parar de perceber isso. Não conseguiu parar de sentir ele batendo na garganta, deixando-o estupidamente sem palavras e fadado a não fazer nada além de sorrir para o Byun feito um idiota. Agora, enterrando a cara no travesseiro, admitia para si mesmo que, além de tudo, ele o deixava meio bobinho.
Não queria se apaixonar tão rápido… por isso, se certificou de puxar o ar bem forte e olhar para si mesmo no espelho com o dedo em riste. Nada de ser trouxa de novo! Nada de se apaixonar por alguém só porque essa pessoa foi gentil e também nada de entregar o coração facilmente. Principalmente para Baekhyun, que não gostava nem tinha intenções de gostar de homens.
Ou…
Espera aí, quem é que havia dito isso?
Minseok podia ser confiável, mas podia estar enganado. Talvez Baekhyun se atraísse, sim, por homens, mas não tinha acontecido de conhecer alguém que desse vontade de sair até então. Chanyeol não se achava lá o cara mais charmoso do universo, mas se o Byun tivesse péssimo gosto, então tinha uma chance.
Talvez fosse hora de procurar saber um pouquinho mais dele. Quem sabe assim, conseguisse entender o que diabos significava todo o drama misândrico pelo qual Baekhyun era conhecido. E se, talvez… procurasse informações da fonte?
Kim Jongin, o gostoso, estudava logo no prédio ao lado de onde Chanyeol tomava as suas aulas, e por isso quase sempre o via no restaurante durante o almoço. Agora que tinha aceitado que as cores vívidas em Baekhyun e a harpa romântica tocando no fundo da sua cabeça realmente eram um sinal de que os dois eram compatíveis, procurar pelo único homem que teve sucesso em chamar Baekhyun para sair pareceu uma boa forma de entender as questões que ficaram matutando em sua cabeça desde a noite passada.
Chanyeol se aproximou de fininho, fingindo que se sentava e colocava a bandeja de almoço do lado do Kim de forma totalmente despretensiosa. Jongin tinha um dos braços pousados no tampo e o outro ao redor da cintura de Oh Sehun, um garoto cismado com cara de poucos amigos. Jongin comia uma maçã de maneira tão bonita e carismática que sentiu-se um pouco patético. Mas também não se permitiu recuar.
— Ah, que droga, morreu de novo esse celular péssimo — Chanyeol reclamou audivelmente, momentos depois de desligar o próprio smartphone. Testou o botão rudemente para adicionar ao teatro, quando percebeu que Jongin estava curioso e tinha caído no seu papo.
— Quer o meu emprestado? — ele perguntou, reticente. Chanyeol dispensou a generosidade.
— Obrigado por oferecer, mas eu precisava de um número para fazer uma ligação… A menos que você conheça o Baekhyun? Acho que vocês se conheceram, sim. Byun Baekhyun. Você não teria o telefone dele aí, não é?
— Claro que não — uma voz do além interveio em tom mortalmente sério, logo ao lado de Jongin. Chanyeol se deparou com um olhar seco fuzilando-o. O rapaz de sobrancelhas sérias e olhar frio não parecia concordar com a tranquilidade com que Jongin aceitou aquele estranho na mesa. — Por que o Jongin teria o número dele?
— Calma, calma… — Jongin sussurrou, aparentemente numa tentativa de amansar o rapaz conhecidamente ciumento ao seu lado. Depois que ele cedeu um nível no grau de indignação que sentia, o Kim dirigiu-se mais uma vez para o Park. — Desculpa, mas ele já deve ter trocado de número nesses três anos que não conversamos.
— Três anos? Passou muito rápido. Achei que tinham namorado há pouco tempo… — cutucou Chanyeol, embora sentisse que o garoto agarrado ao braço de Jongin estava ficando farto da conversa. — Vocês tiveram algo, mesmo?
— Hm, mais ou menos… — Desincomodado, Jongin ergueu os ombros, abraçando o rapaz possessivo de volta. — Ele não quis continuar.
— Por que não?
— Por que você é tão intrometido? — Sehun perguntou, abismado.
— Só não sei a história toda…
Depois que Chanyeol deu de ombros, um silêncio tenso se apossou do ambiente. Não achou que seria uma ideia tão ruim abordar Jongin… Se bem que teria sido uma conversa tranquila, se ele não tivesse um namorado tão grudento.
Como é que Minseok poderia querer algo assim para seu melhor amigo? Chanyeol negou com a cabeça para si mesmo. Não desejaria Sehun para seu pior rival, embora Jongin realmente parecesse gostar daquela criatura invocada.
— Ele deu atrás. — Talvez por ter perdido a paciência com o papo estranho, Jongin se ergueu, chamando o outro para acompanhá-lo. — Demorou exatamente dois dias para ele começar a dizer que não estava tão certo sobre assumir que gostava de mim. Mas se vocês são amigos, é melhor perguntar sobre isso diretamente para ele, não?
Chanyeol engoliu em seco, concordando debilmente agora que tinha sido pego mentindo deslavadamente. Não tinha nem considerado por aquele lado. De todo modo, sentiu alívio quando pegou-se sozinho no refeitório. Estava com vergonha de cada palavra que trocou com o Kim, mas não conseguia deixar de pensar que havia, finalmente, encontrado o x da questão.
Baekhyun não tinha se aceitado ainda.
Se ele teve medo de assumir Jongin, talvez fosse porque tinha medo de se assumir. E até que Chanyeol entendia o quanto isso podia ser difícil numa cidade como Daebak, isolada e soterrada por idosos conservadores.
Onde tudo era possível e tudo de incomum acontecia por causa de pó de fada residual, nunca sobrou tempo para começarem a discutir o fato de que sexualidades diversas eram normais. Chanyeol ouviu muitos “mas e o problema das cadeiras voando naquele café no centro? A prefeitura não quer cuidar disso, mas quer fazer alarde com seus discursos libertinos.”
Bem que queria que as fadinhas tivessem tornado esses problemas obsoletos.
— Chanyeol, isso que eu estou vendo é…
— É, sim, sra. Park. Coca-cola.
Sra. Park olhou da geladeira para o filho e de volta para a geladeira com olhos gigantes. Estava em choque.
— O que foi que deu na sua cabeça?! — ela se indignou, afinando a voz sem querer. Acontecia sempre que não sabia o que pensar. — É só eu sair de casa por três dias que você arranja problemas, meu filho… É muito cansativo ser sua mãe, eu vou morrer cedo. Para onde foi o quilo de asinhas de frango que eu temperei para o churrasco!?
— Ninguém sabe ao certo, mãe… Mas a questão não é essa — Chanyeol batucou pensativamente a bancada da cozinha. — O que você acha do sr. Byun?
— Não vai me explicar o porquê da nossa geladeira estar abarrotada de refrigerante?! — ralhou ela, batendo a porta em total descrença. Chanyeol deu de ombros, tentando lembrar qual era a desculpa que tinha pensado, duas noites atrás, quando ter cabelos vermelhos, coca-colas e almas gêmeas ainda era uma novidade.
— Trabalho da universidade — lembrou-se, sem conseguir enganar a sra. Park. Não que realmente quisesse. Se ela perguntasse qual era a verdade, contaria sem pensar duas vezes, mesmo sabendo que tomaria uma bronca.
— E o cabelo vermelho também foi para uma peça na universidade? Nunca vi você tão aplicado! — ironizou ela, com as mãos na cintura. Mas no fim preferiu deixar o assunto morrer. — O que você quer saber do sr. Byun?
— O que pensa dele como pessoa?
— Pff… Ele já foi meu rival na política, você sabia? — ela contou, por fim cedendo e pegando um refrigerante para beber. Era a única coisa disponível na geladeira, dado ao fato de que Chanyeol ainda não tinha conseguido abrir espaço para mais nada.
— Eu me lembrei disso, por isso quis perguntar para você.
— Então, Chanyeol… É um cara de cabeça fechada. Você uma vez reclamou comigo que ele te olhava torto, depois que notou que você era doido pelos menininhos da sua idade… — Carinhosamente, a sra. Park apertou as bochechas do filho numa das mãos. Estava se lembrando do que ele costumava ser fofo, no início da adolescência. — Você não lembra?
Chanyeol fez que não. Costumava apagar essas memórias ruins. Se não fizesse isso, sentiria tanta raiva de Daebak que tentaria herdar o trono só para fazer o povo daquela cidade cair um por um.
— Quando o sr. Byun competiu contra mim, é claro que foi a favor de umas ideologias mais conservadoras. O plano dele era reprimir os jovens no geral e proibir conversas “indecentes” nas escolas, deixar que só os médicos, como ele, pudessem discutir isso com as crianças. Para mim, é absurdo. Tentar monopolizar o sexo como assunto da classe médica… — sra. Park saiu rindo da cozinha. — Que homenzinho careta!
— Mas é que eu meio que estou meio a fim do filho dele — confessou Chanyeol, colocando a cabeça na sala pelo batente da cozinha. A sra. Park fez o mesmo, descendo de volta do primeiro degrau das escadas para o segundo andar.
— Ah, não, Chanyeol! Aquele menino chato, não! — reclamou ela, batendo o pé. — Eu já te falei de tantos homens ótimos nesse bairro, e você quer logo o enjoado do Baekhyun?!
— Mas ele é fofo, mãe! — protestou Chanyeol, sentindo as orelhas queimarem. Estava mesmo deixando todo mundo saber que estava atraído por Baekhyun… Agora não tinha volta, não é?
— Fofo onde? Ele é igualzinho o pai, fica enfurnado no quarto o dia inteiro, o mundo gira em torno do umbigo dele e ai de quem contrariar.
— Quem te disse?! — ele desafiou, de olhos arregalados.
— Nossa vizinha, sra. Kang.
— O que é que a sra. Kang sabe?
— O que é que ela não sabe?! A bisneta dela namorou o sr. Príncipe Byun e quase endoidou de nervoso porque ele é mimado demais. Faz bico para qualquer coisa. Estou avisando, hein, Chanyeol? — Sra. Park deu as costas para subir as escadas. Quando chegava cansada de uma viagem a trabalho, só queria dormir dois dias inteiros. — Depois não diga que eu não avisei!
Chanyeol não achava que já tinha pensado tanto em sua vida quanto nas noites daquela semana agitada. Outra vez, dormiu só depois de muito aguentar as dúvidas martelando em sua cabeça. Pensava na decepção que sentiu quando terminou com Junmyeon e no fato de que agora tinha certeza de que ainda queria acreditar que era possível encontrar amor recíproco. Amor de alguém que combinasse de verdade consigo.
Baekhyun era, até agora, o contrário de tudo o que parecia ser ideal. Como ele, logo ele, poderia ser sua alma gêmea? Ele, logo ele, o garoto que não gostava de garotos. Ele, logo ele, o filho de um velhote conservador típico de Daebak. Ele, logo ele, o vizinho com quem nunca mal conversou. Ele, logo ele, com quem custava a conversar.
Baekhyun não parecia o tipo que o assumiria aos quatro ventos, nem parecia que iria amá-lo profundamente, nem que seria o amor carinhoso e arrebatador (e grudento) que Chanyeol estava procurando. Quando tentava alinhar essas duas expectativas, de conquistar o amor verdadeiro e conquistar Baekhyun, seu possível-verdadeiro-amor, parecia, sinceramente, impossível. Ou era cara, ou era coroa. Como é que uniria os opostos e faria dar certo?
— Calma, Chanyeol… deixa as coisas acontecerem! — Minseok aconselhou, na manhã seguinte, quando se encontraram antes das aulas. Estava assustado com as olheiras sob os olhos do Park, mas a forma como ele estava se mordendo de ansiedade chegava a ser aflitiva. — Eu disse para você não comer as cerejas… É por isso que o ser humano não pode ter tudo o que quer. Agora que sabe quem é sua alma gêmea, você está perdendo a cabeça completamente. Já parou para pensar que se você se tornar uma pessoa diferente demais, pode ser que o Baekhyun deixe de combinar com você?
Ah, meu Deus. Era verdade.
— E se isso acontecer? Nós dois vamos ficar sozinhos pelo resto da eternidade? Ele vai perder a alma gêmea também? Minseok, eu não quero que ele sofra por causa dos meus erros!
— Chanyeol, eu não quis deixar você mais neurado… — Como sempre fazia quando se admirava com a capacidade de catastrofizar absolutamente luto, Minseok pediu que ele parasse com um gesto. — Eu só quero que você pise no freio e vá com mais calma.
— O que exatamente seria isso? — o Park indignou-se. Estava cansado de ouvir que não estava fazendo nada do jeito certo. Na verdade, as críticas à sua maneira desesperada de viver não eram de hoje. Sempre ouviu de todo mundo que precisava abordar os problemas aos poucos, em vez de se jogar com a testa nos obstáculos, mas ninguém conseguia dizer o que exatamente queria dizer “ir com calma” . Chanyeol estava calmo!
— Primeiro, você pode tentar parar de encontrar o número do Baekhyun no meu celular, que você usou deliberadamente o meu dedo para desbloquear… — Minseok tomou seu telefone de volta, enfiando-o no bolso de trás da calça. — Depois, você já está indo muito bem! Se quer saber, hoje ouvi o Baekhyun comentando sobre você com a amiga dele.
— Por que não me disse antes? — choramingou o Park.
— Antes quando? Antes de você me pegar pelo rabo e me contar que o Sehun está me olhando torto desde que você colocou o Jongin num interrogatório? Ou antes de você roubar meu celular de dentro da minha mochila e usar o meu dedo para desbloquear e procurar o número do Baekhyun? Ou antes de você me dizer que não vai jogar com a gente hoje porque vai tentar chamar o Baekhyun para sair? Ou antes de você desligar o telefone na minha cara quando te liguei para te contar a fofoca, sendo que você dominou a chamada para me contar que sonhou com o Baekhyun aceitando seu pedido de casamento? Chanyeol, eu vou surtar!
— Tá bom, desculpa… Eu realmente só consigo pensar nele ultimamente.
Chanyeol fez cara de cachorro que caiu da mudança, puxando de levinho a blusa de Minseok para que ele o perdoasse. Relaxando as orelhinhas e saindo da pose de bravinho, com direito a mãos na cintura e tudo o mais, Minseok acariciou a própria cauda, ajeitando a pelagem eriçada.
— Ele comentou com a Moonbyul que o cachorro dele gosta de você e que ele sabe disso porque o Mongryeong só fica tirando com a cara de quem ele gosta.
Chanyeol fez seu melhor para conter o sorriso que queria se espalhar por seu rosto, mas isso acabou deixando um tanto óbvio o quanto ficava feliz só de saber que Baekhyun sequer lembrava dele, quando não estavam perto um do outro. Além de que era uma honra que Mongryong gostasse dele. Adorava aquele narigudinho fofinho.
— Depois ele mudou de assunto e começou a conversar sobre o pai dele ser muito chato. Queria ter ouvido a conversa toda — Minseok frustrou-se, fechando as mãos em punho. — Mas já serviu para você entender que ele tem facilidade de gostar de você, não já?
E Chanyeol assentiu obedientemente com a cabeça.
Seguindo o que Minseok considerava como “pisar no freio”, ou “ir devagar”, ou “ir com calma”, Chanyeol desistiu de chamar Baekhyun para um encontro, mas armou-se de coca-cola e esperou do lado de fora da casa dele outra vez, às 18:40. Dessa vez, ficou numa posição bem visível desde o início e o Byun não se assustou quando saiu de casa com Mongryeong e se deparou com ele ali.
Baekhyun aceitou o refrigerante logo que fechou o portão às suas costas, e isso serviu de cumprimento muito melhor do que qualquer “oi, como vai?”. Usava o famoso jeans de corte reto e uma blusa tão surrada quanto qualquer outra. Má sorte dos outros que não fossem bonitos o suficiente para pegar qualquer coisa no armário e ainda assim tirar o fôlego de algum Park Chanyeol.
Não precisaram se esforçar para conversar. Com as bocas ocupadas de refrigerante, observavam Zzar e Mongryeong caminhando à frente, animados, e no fim se sentaram no mesmo banco de sempre, olhando os dois correrem por aí para cumprimentar todos os outros cachorros que encontrassem soltos pelo parque.
— Tenho que confessar uma coisa — foi Chanyeol quem iniciou a conversa, embora estivesse tonto de tanto nervosismo. Estava com medo de Baekhyun não aprovar nada o que iria dizer. E repensou. Será que devia? No fim, sem conseguir decidir, disse o que já ia dizer. Não conseguia pensar direito perto dele. — Perguntei sobre você para o Jongin.
Baekhyun fez a cara mais surpresa do universo. Muitas hipóteses deviam ter aparecido na cabeça dele quando Chanyeol falou em confessar, mas o Park notou que aquela não era uma delas. O Byun acabou rindo em desconcerto.
— E o que ele disse?
— Que eu devia perguntar o que queria saber para você — respondeu, sentindo as orelhas queimarem. Olhar para o rosto de Baekhyun agora parecia a tarefa mais difícil do mundo e, ao mesmo tempo, uma necessidade urgente.
— Hm, acho que ele tem razão! O que fez você ir perguntar sobre mim logo para ele? — o Byun inquiriu, mais curioso do que espantado, o que era bom. Achou que ele ficaria nervoso, afinal, Chanyeol tinha se arrependido e se sentido estúpido de ter feito aquilo.
Baekhyun parecia disposto a levar na esportiva, mas Chanyeol percebeu que não podia abusar da sorte dele ter ficado okay dessa vez.
— Eu queria seu número — admitiu, sem conseguir fazer rodeios. Uma imagem mental de Minseok gritando desesperadamente que pisasse no freio se instalou no fundo de sua mente enquanto Baekhyun unia suas sobrancelhas. Seu relógio de pulso apitava irritantemente, por mais que o Byun apertasse os botões para fazê-lo parar.
— Era só ter me pedido… Toma.
Chanyeol deu de ombros, aliviado quando o som agudo finalmente parou de soar contra seus ouvidos e o celular de Baekhyun passou para suas mãos. Digitou seu número com tanta rapidez que nem checou se estava certo.
— Tem mais coisa. Eu soube que namoraram. Você e Jongin…
— Eu não namorei com ele… — discordou Baekhyun. Seu rosto estava engraçado. Suas sobrancelhas estavam erguidas em troça, mas estava claro que era um assunto sério. Talvez era um assunto um tanto inacabado. — Espera, você está me dizendo que estava checando meus precedentes?
Sentados lado a lado, os dois não conseguiam mais se olhar. Estavam tão vermelhos quanto as latinhas em suas mãos.
— Sim, porque eu queria saber se você gostava de… homens. Queria uma chance com você. Ainda quero! — Chanyeol acabou confessando, pousando o queixo nas mãos. Seus dedos estavam frios como gelo, talvez porque seu sangue tinha ido todo parar nas orelhas. Baekhyun copiou sua posição, encostando os cotovelos nos joelhos e dando um gole longo no refrigerante quente.
— Isso é você me chamando para sair? — arriscou ele. Já não tinha muita dúvida, mas não tinha como apenas ignorar e seguir como se a conversa nunca tivesse acontecido. Chanyeol tocou no assunto por uma razão, e, por mais que estivesse sendo o diálogo mais impossivelmente embaraçoso que se dispôs a ter, não achava certo deixá-lo sem uma resposta.
E no fim, Chanyeol também já tinha caído de bunda naquele tobogã de sinceridade irrefreável. Não tinha como subir ao topo outra vez, onde era seguro.
— Hmhm. É. — Ele tocou a própria nuca com as mãos suadas, arriscando olhadelas rápidas para o rosto simples, cujos olhos castanhos fingiam mirar os cachorrinhos agitados ao longe. — Quer sair comigo, Baekhyun?
— Por que isso tão de repente, Chanyeol?
O Park vacilou, sem saber interpretar o rosto do Byun agora.
Merda… Minseok tinha tentado alertar, mas nem mesmo Chanyeol achou que seria tão idiota a ponto de colocar tudo a perder tão rápido. Não tinha a intenção de colocar Baekhyun contra a parede, mas sim de começar a preparar o terreno. Agora já estava plantando bananeiras, é lógico que ele ficaria assustado. Onde tinha colocado o “vou com calma para ele não ficar assustado”?
— Talvez é porque eu gosto de você? — Chanyeol riu nervosamente, procurando mentalmente alguma rota para recuar. Baekhyun negava com a cabeça.
— Não gosta, Chanyeol — ele falou com tanta certeza quando era possível, deixando o Park abobalhado. Como não? Esticando as pernas, Baekhyun deixou-o notar que realmente não se sentia confortável naquela conversa. — Não se engane, você não sabe quase nada sobre mim. Basicamente, nem tem o que gostar.
— E o fato de você ser super bonito e gente boa? — Chanyeol pensou, mas não disse, com medo de ultrapassar os limites que o Byun tentava impor. Em vez disso, suspirou, tentando ventilar a própria cabeça e assimilar sua derrota. Se tivesse orelhas de burro agora, pelo menos poderia esconder sua cara de tacho atrás delas.
— Você sabe qual é, pelo menos, sei lá, minha fruta favorita? — continuou Baekhyun, numa tentativa amigável de recuperar o nível de facilidade com que conversavam antes daquele assunto vir à tona. Chanyeol desesperou-se. Não queria que se tornassem estranhos completos de novo… Estava estragando tudo!
Rápido, uma fruta.
— Cereja? — chutou. E se não era, então nem mesmo Baekhyun sabia dos milagres que a cerejeira de sua casa concediam de vez em quando.
— Não chegou nem perto… — Baekhyun torceu o nariz. — Acho que você está confundindo as coisas, Chanyeol. Nós nos damos bem, isso não quer dizer que precisamos nos envolver desse jeito. Eu adoraria ser seu amigo. — O dar de ombros dele foi sincero, mas Chanyeol não conseguiu conter a decepção de tomar seu olhar.
Não, amigos não…
Baekhyun olhou para seu rosto, também profundamente decepcionado com alguma coisa.
— Não quer ser só amigo? — ele perguntou, suavemente, ao que Chanyeol se pegou, com muito frio na barriga, negando lenta e terminantemente, com uma honestidade brutal. Não queria.
Os dois estavam nervosos, as mãos apertavam o assento do banco e as próprias roupas. E aquela merda de relógio apitando que era “Hora de Correr!”.
— Desculpa, nem sei porque ainda uso essa bosta! — Baekhyun esmurrou os botões antes de arrancar o relógio do braço e enfiá-lo no bolso. De todo modo, os ânimos de ambos estavam agitados demais e foi ali que notaram que não tinha mais o que fazer.
Se levantaram, dentre suspiros resignados. Talvez tenham acenado discretamente antes de chamarem os cachorros para ir embora.
Uma amizade…
Quando chegou em casa, Chanyeol se encolheu no sofá e deixou Zzar cochilar contra seu peito, dentro de seu moletom, enquanto tentava imaginar como seria uma amizade com Baekhyun, sua pseudo alma gêmea.
Será que seria como era com Minseok? Teriam piadas internas. Ririam facilmente perto um do outro. Saberiam podres o suficiente para destruírem a vida social um do outro, mas jamais sequer considerariam permitir que o outro passasse por maus bocados. Os conselhos sempre seriam dados e nunca seriam ouvidos.
A questão é que não sabia se queria outro Minseok em sua vida. Um só estava muito bom! A coisa de Baekhyun se tornar seu amigo seria um problema, porque Chanyeol queria um namorado.
Sentiu-se idiota. Tentou se convencer a não se deixar cair de amores por Baekhyun sem antes entender o nó dele com os homens, mas para Chanyeol sempre foi difícil ignorar seus instintos. Quando foi que agiu racionalmente, em vez de flutuar com suas emoções para onde quer que elas o levassem?
Será que Baekhyun não era para ser sua alma gêmea, mas sim o caminho até seu verdadeiro amor?
Sra. Park passou os olhos por um Chanyeol cheio de beicinhos e muxoxos, naquela noite, e perguntou insistentemente até ele contar como foi com Baekhyun. E disse, orgulhosamente, no fim do jantar: eu avisei!
E pior que avisou, mesmo. Mas isso não o consolou de maneira alguma.
Ainda bem que tinha feito a cagada de se confessar para Baekhyun numa sexta, Chanyeol pensou. Pelo menos teria o sábado e o domingo para mastigar sua rejeição. E sempre que notava que seu cérebro estava à mil, era sempre relacionado a como reagiria a Baekhyun da próxima vez que se vissem.
Era incrível como, na semana anterior, os dois eram estranhos completos, tão estranhos que poucas vezes se lembravam da existência um do outro. De vez em quando, na adolescência, enquanto Chanyeol estava ajudando a lavar o carro da mãe ou brincando com Zzar no quintal, Baekhyun passava do outro lado da rua, meio desarrumadinho, e Chanyeol sentia o coração pular uma batida quando trocavam um sorrisinho. Daí se lembrava que nunca iria rolar nada entre os dois e seguia sua vida sem grandes danos.
Nunca imaginou que conversar com Baekhyun seria tão desastroso. Sua vontade era de descer o pé naqueles óculos de merda, ou então vendê-los para um traficante entusiasta da magia de Daebak e sair dirigindo catarticamente o seu único e verdadeiro desejo: uma Lamborghini Aventador. Se tivesse uma Lamborghini, um emprego e uma tatuagem na bunda, não estaria triste desse jeito. Estaria absolutamente alegre!
Mas seu coração continuava pulando batidas a cada vez que se lembrava do rosto dele. Não porque ele era lindo nem porque tinha um charme inexplicável ou ainda por causa da forma como ele era carismático com uma facilidade avassaladora, mas sim porque morria de vergonha só de lembrar da forma burra como tentou se expressar e como estragou tudo. Se envergonhou terrivelmente! Que desonra!
Queria cancelar sua matrícula na faculdade e não sair de casa até que arranjasse um lugar bem longe daquele bairro para morar. Ou então, que tal se simplesmente se mudasse de Daebak? Se morasse numa cidade normal, onde tudo era impossível, Chanyeol não teria encontrado nenhuma cereja mágica nem teria um cabelo vermelho como comprovante de burrice. E aquela droga de cabelo ainda o fazia parecer um enorme ponto de exclamação passeando por aí e chamando atenção desnecessária, apostava que era por isso que Baekhyun tinha começado a notar nele.
No domingo, quando abriu o aplicativo de mensagens para reclamar com Minseok pela milésima vez sobre o fiasco da sexta-feira, encontrou uma mensagem que mudaria totalmente o rumo das várias decisões absolutas que tomou naquele fim de semana de ruminações. Tinha dito a si mesmo que o melhor era evitar Baekhyun a todo custo, não frequentar mais o prédio onde os alunos de veterinária estudavam e também trocar o horário em que passeava com Zzar, e no entanto…
Ele havia enviado uma mensagem, o que fez Chanyeol mais uma vez sentir uma inquietação dúbia. Então, Baekhyun também tinha usado suas preciosas horas de estudo diligente para ruminar o que havia acontecido entre os dois na sexta-feira passada?
Oi, Chanyeol.
Você está magoado pela forma que eu falei com você da última vez? Provavelmente está, não é? Você tem razão para estar, eu sei que sou indelicado às vezes.
Eu acabei ficando nervoso e minha cabeça entrou em pane.
Me desculpa?
Estava pensando… Eu realmente estava gostando de passar o tempo com você. Será que podemos pegar o ônibus juntos amanhã e conversar um pouco?
Até parece que iria aceitar um absurdo desses, não é mesmo?
Não, não é mesmo. Na segunda-feira, se pegou pateticamente parado feito um poste em frente ao ponto de ônibus, nervoso com as minhocas em sua cabeça que zombavam de sua ingenuidade. E se Baekhyun não aparecesse? E se ele aparecesse e descobrisse que Chanyeol estava ali, completamente cadelizado, esperando por ele como pediu? De que forma estava defendendo sua honra, estando ali no horário combinado?
Mas quando o par de tênis de corrida pretos apareceram em sua visão periférica, toda a teoria caiu por terra. Seus olhos subiram para a blusa estampa de pandas, já transparente de tão usada. Dava para ver a cor da pele por baixo. Os pulsos, enfeitados com uma coleção de pulseirinhas e acessórios, se ergueu em um cumprimento ao passo que Baekhyun descia o rosto para ver seus olhos escondidos pelo capuz, o que Chanyeol particularmente achou muito fofo.
A questão é que não conversaram. Sentaram lado a lado e ficaram em silêncio, dividindo a tensão por todo o caminho até o campus.
— Eu realmente não tive a intenção de te magoar — no fim Baekhyun disse, um ponto antes de descerem. Chanyeol devia estar pegando suas tralhas, mas só conseguiu soltar um suspiro chateado. — Acho que não tinha jeito de te rejeitar sem te deixar meio decepcionado, né? Desculpa não ter sido como você queria.
Chanyeol teve que balançar a cabeça com força.
— Você não precisava mentir para me agradar. Se é assim que você se sente… tudo bem.
— Eu queria ser seu amigo. — Chanyeol quis pular pela janela do ônibus quando o Byun olhou nos seus olhos. — Pensa com carinho?
Mesmo quando se despediram e se separaram para ir para seus respectivos prédios, não conseguiu entender o porquê de Baekhyun querer se aproximar. O que ele via de interessante para não considerar o fiasco da sexta-feira suficiente para que seguissem caminhos separados?
Bem, não sabia. Mas como tinha ficado martelando sobre aquilo o dia todo, no fim da tarde decidiu testar o terreno com ele mais um pouco. Pegou a guia de Zzar depois de trocar a roupa para um moletom confortável de corrida e encontrou a cachorrinha na sala, deitada no balaio que as pernas cruzadas da sra. Park faziam.
— Me ajuda com isso aqui, Chanyeol? Cansei da bagunça nessa estante.
Sua mãe estava cercada por pilhas de coisas velhas, tudo o que tirou para jogar fora ou reorganizar. Coisas da época em que CD’s e DVD’s eram úteis. Quando foi que tudo aquilo virou lixo? E olha que Daebak nem tinha a melhor das conexões de internet…
— Pode deixar aí que eu faço quando voltar. Estou indo dar um passeio com a Zzar.
— Mas você não costumava ir mais cedo? — ela estranhou, erguendo uma sobrancelha para o filho. Parecia que tinha notado aquela nota de acanhamento na voz grossa, que geralmente indicava que ele estava indo ser humilhado emocionalmente por algum um garoto. E ultimamente, era do Baekhyun-chato que ele estava gostando. — Não estou querendo implicar, mas…
— Ele já me rejeitou, não precisa ficar preocupada — silabou Chanyeol, com as mãos na cintura e a voz carregada de sarcasmo inofensivo. Sra. Park uniu as mãos em agradecimento aos céus. — Mas eu vou atrás dele mesmo assim, porque acho ele uma pessoa legal, apesar de você jurar que não é.
— Então tá… — ela afinou a voz, de maneira a parecer um desafio. — Quando vocês virarem amigos você chama ele aqui para eu conhecer.
— Pode deixar que vou mesmo!
— E leva coca-cola que eu estou com ânsia de vômito de só enxergar vermelho toda vez que abro a geladeira — ralhou sra. Park, só para ter a palavra final.
Depois de obedecer pacientemente, sabendo que sua mãe no mínimo não merecia ter que ficar ajudando ele a lidar com os problemas que arranjava, Chanyeol seguiu para o parque com Zzar em seu encalço. Pelo horário, imaginou que Baekhyun provavelmente já teria saído de casa, e estava certo. Encontrou com ele na esquina da rua em que moravam.
Mongryeong correu de volta para cumprimentar Zzar, e Chanyeol correu para cumprimentar Baekhyun antes que o sinal abrisse para os pedestres. Como sempre, o “oi” foi trocado por um sorriso e uma coca-cola.
— Desculpa, você já deve estar até enjoado.
— Jamais.
Baekhyun negava com a cabeça. Parecia muito feliz que tivesse aparecido.
Gostava de fazer homens de trouxa, é? Bom para ele, porque com Chanyeol isso era surpreendentemente fácil.
Sorrindo brevemente, o Park sentiu aquela tensão frente a iminência de um silêncio estranho se instalar. Talvez fosse um ato de desespero o que estava pensando em fazer em seguida, mas era melhor do que a estranheza, então:
— Como foi seu dia hoje? — ele perguntou, fingindo que nada tinha acontecido, e depois analisou as feições simples. Baekhyun sorriu de maneira relaxada, mas também como se estivesse surpreso que Chanyeol estivesse se esforçando tanto. Pareceu, por um instante, que ele estava pensando: será que esse cara gosta mesmo tanto assim de mim?
— Estudei o dia todo, como sempre. — Ele guiou Chanyeol para o centro do parque. As árvores farfalhavam com a ventania forte. — Hoje o assunto era muito chato, então não deu para focar, sabe? Fiquei moscando a maior parte, e aí usei o Mongryeong de desculpa para escapar. Ele estava pedindo para sair, mesmo.
— No caso, a desculpa foi para convencer a si mesmo? — inquiriu Chanyeol, com uma sobrancelha erguida. Baekhyun engasgou ao perceber que sim, ele estava certo.
— Majoritariamente — confirmou, sem graça, deixando-o rir da sua cara. — Eu fico mal se não paro para estudar um pouco. Parece que minhas notas vão explodir na minha cara e eu vou reprovar em tudo se não mantiver o controle.
— Que preguiça — bocejou Chanyeol, sem realmente ofendê-lo. Não conseguia se identificar, até porque a força para sentar a bunda em uma cadeira e se concentrar em qualquer coisa por horas parecia tão fantasiosa para ele quanto o poder de levitar cadeiras.
E até que Baekhyun concordava um pouco. Deu de ombros, porque era verdade que de vez em quando isso enchia o saco.
— Também é por que meu pai me estressa se me ver fazendo outra coisa quando eu deveria estar estudando.
— Hmm… — a interjeição deixou bem claro que Chanyeol acreditava mais naquilo do que nas outras desculpas. Talvez tivesse um olhar bastante enviesado, mas estar perto de Baekhyun era desconcertante demais para conseguir controlar facilmente suas reações ou ponderar profundamente sobre qualquer coisa.
Estava tentando, mas quando dizia que ele mexia consigo, era de verdade. Seu corpo inteiro tinha desaprendido a se portar, seus olhares não tinham a costumeira facilidade de encontrar algo interessante onde se fixar (fora o Byun) e mesmo a sua voz não obedecia. Quando pensou em qualquer coisa para alimentar a conversa que pausou num sorrisinho frustrado de Baekhyun, o tom de Chanyeol escapou bem menos confiante do que esperava.
— Como é? Sua relação com ele.
— Meu pai?
— Hmhm.
Baekhyun olhou para o matinho curto que cutucava com as pontas dos tênis, pensando um instante em como deveria descrever algo tão complexo. Não era uma relação boa, mas também não era ruim?
— Não posso reclamar. Ele tenta cuidar de mim, pelo menos. Mas me fala sobre outra coisa… — Parecia que ele iria mudar completamente o assunto, mas não imaginou que seria da água para o vinho até que ouvisse ele perguntar. — Quando você me chamou para sair, daquela vez… para onde pretendia me levar?
Chanyeol se engasgou tanto com a pergunta que a risada que tentou dar para suavizar o clima ficou parecendo uma tosse. Procurou o rosto do Byun para entender o que diabos ele estava pensando, mas como Baek o olhava no rosto sem timidez, foi o Park quem se acanhou.
— Não sei, ia conversar isso com você, se aceitasse — mentiu ele, na cara de pau.
— Sei… não tinha nem um lugar em mente?
— Okay, eu ia te levar para o fliperama para comer pipoca — Chanyeol confessou depressa, morto de vergonha. Seu coração batucava idiotamente e só piorava cada vez que ouvia a gargalhada de Baekhyun. Eita, menino exagerado. Era para tanto? Era uma ideia tão tosca assim, para ele estar se dobrando?
— Quem foi que te contou que eu gosto de ir lá?!
— Não delato minhas fontes — afirmou Chanyeol, com um bico decidido que só fez a risada de Baekhyun prolongar.
Nem acreditava que estava conversando com ele tão tranquilamente… O Byun se abaixou para chamar Mongryeong, mas foi Zzar quem se apressou com seus passinhos desengonçados e leves para receber carinhos.
— Eu não sei por que o Baekhyun faz isso comigo, Minseok — ele reclamou, olhando de muito perto para a textura da mesa fria de pedra do refeitório. Fria e de pedra como o coração da sua suposta alma gêmea. Nem tinha conseguido escolher alguma coisa para comer. Seu estômago roncava, mas Chanyeol sentia ânsia de vômito. Amar era horrível. — Você estava certo, é muita pressão saber quem é sua alma gêmea.
Quando ergueu a cabeça, Minseok tinha um torcer de lábios empático.
— Eu sabia exatamente o que eu queria — afirmou o Park. — E eu corri atrás. Mas eu acho que fiz alguma coisa de errado… Talvez eu tenha me precipitado e assustado o Baekhyun? Eu fico magoado por minha alma gêmea não sentir nada por mim, mas vou me sentir pior se me afastar dele. Às vezes, tipo agora, eu acho que eu preferia que o Baekhyun me rejeitasse e me deixasse sofrer do que me pedir para ser só um amigo.
Minseok olhou-o fixamente por alguns segundos enquanto pensava.
— Tem certeza?
— Lógico.
— Mas e se a amizade for um caminho para vocês se aproximarem e se tornarem mais do que amigos? — ponderou o Kim, falando palavra por palavra enquanto a ideia se formava em sua cabeça. Ideia péssima!
— Se tivesse sido assim desde o começo e eu não soubesse que ele é minha alma gêmea, seria perfeito. Mas agora o intuito foi corrompido.
— Uau. Que aula de filosofia — Minseok riu e bateu palminhas, lhe agradando com um cafuné.
— Foi a aula de quando você entrou para a minha escola e eu tive que me concentrar para te explicar a matéria e não entregar logo de cara que eu era burro.
— “Era” não, “sou”! — corrigiu Minseok, aceitando o tapinha ardido no braço. — Mas você está certo, Chanyeol… De certa forma, o Baekhyun te colocou num mato sem cachorro. Eu nunca te vi tão para baixo, e olha que você já passou por muitos términos...
— É que eu não consigo parar de pensar — ele gemeu enquanto bagunçava os cabelos em todas as direções. — Se o Baekhyun não me quiser, eu vou ter que superar e agir como se ele fosse só mais um. E se eu encontrar alguém que eu realmente goste, ainda vou ficar com esse peso de saber que minha alma gêmea é outra pessoa. Vou ficar me questionando se deveria ter insistido mais ou se isso seria feio da minha parte. Se teria dado certo se eu não tivesse desistido muito cedo e se estaríamos os dois felizes…
Minseok ergueu as sobrancelhas, admirado de como o rapazote estava até falando bonito.
— Talvez ele seja a pessoa certa, mas não é a hora certa, Chanyeol. Sabe, você devia ter pensado melhor antes de fazer o pedido às cerejas, porque se tivesse sido mais específico, teria conseguido óculos que apontassem quando você e sua alma gêmea estivessem prontos para se unir. Da próxima vez, me chama antes, para eu te ajudar a pensar?
Chanyeol não precisou caçoar verbalmente de Minseok. Bastou agarrar seu rabo felpudo e colocá-lo no seu campo de visão. Minseok tinha literalmente chorado às amoras para ficar gatinho, e agora queria dar sermão sobre “pensar direito”?
— Ele me rejeitou — Chanyeol lembrou, batendo a testa uma única vez na mesa, para chorar ali toda a frustração. Achou que seu pedido às cerejas seria o caminho para nunca mais passar pela humilhação de não ser bom o suficiente, e no entanto…
E no entanto, ele era o contrário perfeito de quem Baekhyun queria namorar. Era exatamente o que Baekhyun não queria para si.
Minseok fez carinho em suas costas com um muxoxo, triste em vê-lo daquele jeito. Ele era bom em consolar, com aquele rabinho que se enrolava e abraçava Chanyeol sem ele próprio ficar sabendo. Mas Chanyeol estava inconsolável.
Nem todo fracasso doía, mas esse… puta que pariu.
— Eu não tenho nenhum conselho dessa vez, Chanyeol… — o Kim murmurou, pesarosamente. E o Park apenas pôde negar com a cabeça, sabendo que ele já tinha ajudado muito mais do que podia.
Chanyeol assaltou a cerejeira dos Byun outra vez. Encheu uma nova tupperware até a borda e, toda vez que partia uma cereja com a boca, pedia para não saber mais que Baekhyun era sua alma gêmea.
Estava arrotando cereja adoidado, e o fato de saber exatamente o que estava fazendo ali e de estar se empanturrando apesar da vontade de nunca mais ver uma fruta na vida, delatava que não estava dando certo.
Baekhyun saiu às 18:40 para passear com Mongryeong, que aproximou-se com o focinho grande para cumprimentá-lo.
— Não vai ao parque hoje, sr. Park? — Baekhyun tentou brincar. Chanyeol sentiu-se vingativo e fez que não com a cabeça, dramaticamente. — Ahm, eu não estava preparado para não beber uma coca hoje.
Chanyeol quase riu junto, mas segurou a tempo, fingindo um pigarro. Quando Baekhyun desistiu de mexer consigo, não houve satisfação nenhuma. Só uma sensação péssima de que estava perdendo pequenas coisas que o teriam deixado alegre, caso não soubesse que o Byun era seu amor eterno.
Será que sequer teriam essas piadas internas?
Só sabia que tinha sido muito burro de fazer aquele pedido. E por isso continuou na jornada em busca da cereja mágica até não sobrar nenhuma no pé.
Chanyeol estava matutando se o que havia estragado tudo não teria sido o seu desejo de descobrir quem é sua alma gêmea — tal como a impaciência em aguardar que as coisas acontecessem naturalmente se alguém assim sequer existisse, para começo de conversa.
As coisas que Minseok dizia, ele levava para o coração. Não restava dúvidas de que sua pequena interferência havia mudado a ordem dos fatores, mas e o resultado?
Naquela tarde, o capitão do time cansou da sua cara de deprê e mandou Chanyeol para casa antes que ele desanimasse o resto do time, que já não estava jogando bola muito bem. Desse modo, ficou suspirando na cama, sozinho, com a bochecha afundada nos cobertores bagunçados e os olhos fixos num ponto: no objeto vermelho como um demoniozinho dobrado em cima da cômoda. Seu terceiro troféu de estupidez, vindo logo depois do cosplay de Ronald McDonald e… enfim. Não queria pensar mais no que fazer com as latas, cansou.
Levantou-se. Alcançou preguiçosamente o par de óculos estilosos como se não tivesse nenhum plano em especial para eles, ou como se seu coração não falhasse uma batida só de pensar no significado que tinham. Quando se aproximou da janela do seu quarto, teve medo do que encontraria caso colocasse aquilo na cara.
Imaginou que uma catástrofe das piores teria acontecido, e o mundo estaria em preto e branco, marcando a morte da sua vida amorosa. No entanto, através das lentes havia o habitual monocromático vermelho. Chanyeol olhou para o quintal da casa vizinha e ali encontrou Baekhyun, sentado na varanda, olhando longamente para o balanço da cerejeira ao vento.
Sua imagem ainda estava em cores vívidas, harpas e coraçõezinhos. O que ele devia estar pensando? Sua cabeça também estava uma bagunça, assim como a de Chanyeol?
Baekhyun ergueu mais o rosto e flagrou-o na janela, bisbilhotando. O Park ainda estava pensando em voltar para dentro, àquela altura, puto com o fato de que nada havia mudado, mas não criou coragem a tempo. Coragem de tirar os olhos dele.
Com um suspiro, sustentou o olhar no rostinho de feições leves e simples. Enquanto, do outro lado, o pobre do Baekhyun ficou fadado a ver aqueles óculos de pós-festa feíssimos, ainda mais se combinados ao ninho de passarinho amassado que deviam ser os cabelos de Chanyeol.
Nada tinha mudado.
Baekhyun ainda era, muito provavelmente, a sua alma gêmea. E o relógio dele continuava apitando que era Hora de Correr.
Meia hora depois, Chanyeol desceu as escadas de pernas bambas, dizendo para si mesmo que não era possível que fosse Byun Baekhyun tocando sua campainha. E no entanto, era. Para a surpresa do seu look ferrado de ficar em casa na cama na bad esperando o amor passar.
— Byun? — perguntou, para o caso dos seus olhos deslumbrados estarem com vontade tamanha de ver Baekhyun que estavam se enganando.
Baekhyun deu um sorrisinho de lado. Chanyeol estava mesmo perdidinho, né?
— Deixa. Já te reconheci pelo pijama que você tá vestindo por baixo da jaqueta — o Park zombou, deixando-o entrar.
— Como se alguém trocasse de blusa para dormir…
— Todo mundo troca — afirmou o Park, com cara de quem esperava que fosse brincadeira, principalmente porque Baekhyun parecia convencido da bobagem que tinha acabado de dizer. Ele até uniu levemente as sobrancelhas. — Todo mundo troca de roupa antes de dormir — repetiu, rezando aos céus que dessa vez ele dissesse que 'tava brincando.
— Não, Yeol. Ninguém tem paciência para ficar trocando…
Enquanto o seguia a passos tensos até a sala de estar, Chanyeol ponderou quais as chances da guerra das fadas terem atingido Baekhyun quando criança e feito ele virar um porquinho.
— Se importa se eu sentar? — Baekhyun perguntou, apontando para o sofá. — Quer dizer… você está ocupado?
— Não exatamente…
Só se chorar ranhento e sofrido fosse ocupação. Caso fosse, Chanyeol até já merecia uma promoção de cargo. Mas sentou-se no tapete em frente ao sofá, dando espaço para que o Byun afundasse confortavelmente no assento. Sua sala era grande e arejada, bem iluminada. Tinha mesmo ares de "casa da prefeita".
— Você parou de caminhar comigo e Mongryeong. — A voz de Baekhyun era baixa. Ele sempre teve um tom de bom filho, de quem não dava trabalho (baita mentira), mas dessa vez, estava ainda mais profundo, de modo que, mexido, Chanyeol custou a levantar os ombros em resposta. — Está fazendo falta. Estava gostando de sair com você e Zzar. Não tinha o costume de ficar fora de casa, tomando ar e descansando a cabeça, sabe? Aprendi com você.
Chanyeol não fazia ideia. Seus dedos estavam frios enquanto brincavam com o tapete, mas isso não chegava a espantar seu nervosismo — que medo, vai que quebrava a cara de novo por acreditar que ele estava dizendo aquilo de maneira romântica?
— Por que parou de ir?
Como não respondeu nada, nem tinha voz para tentar, foi Baekhyun quem falou de novo. Estava determinado, hein? No entanto, seu tom baixava cada vez mais.
— Achei que, depois da última vez, você já tinha superado...
— Superado? — Chanyeol ergueu uma sobrancelha, depois de alguns segundos. — Ousadia sua achar que é assim tão insignificante.
Baekhyun que ergueu os ombros dessa vez, tendo certeza de que era, sim, meio meh.
— Eu ainda gosto de você — afirmou o Park, para caso de ainda restar dúvidas. Mas era só falar nisso, que o Byun ficava desconfortável. Talvez seu relógio fosse ativado por batimentos cardíacos, porque brilhou. Ao menos tinha diminuído o som daquilo.
— Tá. Por quê? — ele soprou, desacreditado. Chanyeol tinha travado. Tinha muitas razões. Tantas passando pela sua cabeça que não só era difícil enumerar quanto era revoltante que Baekhyun estivesse duvidando que existissem.
— Ué! — Chanyeol fez, estupidamente. Sua boca simplesmente não lhe faz o favor de pronunciar nada de útil, Baekhyun acabou revirando os olhos em constrangimento.
— Viu…
— Baekhyun…
— Eu estava certo. Por que eu iria cair de cabeça numa relação, sendo que você nem sabe dizer uma única coisa que te atrai em mim!?
— Porque eu quero conhecer você melhor! Eu quero uma chance com você! — Isso era uma justificativa plausível, não era? Ou devia ter ido em outra direção e dito alguma coisa boa sobre ele? — Espera… você quer pular de cabeça em mim?
Baekhyun arfou, calando-se no mesmo instante. Tinha se entregado.
— Você gosta de mim? — Chanyeol ousou perguntar, mesmo que suas cordas vocais estivessem trêmulas. — Nem que seja um pouquinho?
Baekhyun não disse nada, só balançava os pés obsessivamente.
— Agora sou eu quem estou perguntando, qual o problema comigo? Por que não me deixa te conhecer melhor? — Chanyeol continuou a interrogar.
— Ãh, talvez eu só não acredite no amor? — O fato de Baekhyun ter ironizado tirou qualquer credibilidade da sua desculpinha fajuta. Chanyeol levantou e colocou as mãos na cintura, começando a ficar farto. — Estou falando sério!
— Okay, então explica melhor — deixou o tom ser permeado da mais condescendente permissividade.
— Não vou te explicar nada. — Baekhyun tinha ficado intimidado com a altura dele. Não ia ficar olhando para cima para discutir, então se levantou, e foi humilhado pelo fato de que isso não adiantou nada. — Você se precipitou, então por que não pede desculpas e nós ficamos bem de novo?
— EU PEDIR DESCULPAS? — Chanyeol ofegou, soltando um sopro de riso para o fato de Baekhyun não estava olhando para seu rosto. Isso mesmo, tinha que ter vergonha de falar uma bobagem dessas! — Eu não fiz nada de errado, Baekhyun. Se você odeia homens, que culpa eu tenho nisso? E é bom eu não descobrir que você odeia gays, ou eu vou contar para a minha mãe!
— Eu não odeio ninguém! Tem uma enorme diferença entre não gostar de todos os homens gays da terra e não gostar especialmente de você.
— Ah, mas… — Chanyeol levou uma das mãos à ponte de nariz, sem acreditar no que estava ouvindo. Meio segundo atrás ele tinha deixado quase explícito que tinha uma queda por si, quem é que ele estava tentando enganar? — Sabe o que eu acho, Baekhyun? Que você precisa parar de negar certas coisas para si mesmo. O Jongin disse que você não quis assumir ele, e eu acho que é exatamente o que está acontecendo aqui. Legal da sua parte não querer me envolver nas suas questões. Mesmo que tenha me machucado a sua rejeição, eu entendo. É melhor não querer assumir que gosta de mim do que não querer assumir que tem uma vida comigo.
— Você está se precipitando de novo, Chanyeol… Talvez devesse começar não bisbilhotando a vida dos outros — ele cuspiu, cruzando os braços. A pior parte, provavelmente, era notar a esse ponto que ele estava na defensiva, soltando qualquer frase ácida para afastá-lo da verdade. — Se você quer saber o que eu não gosto em você, é isso.
— Você mente muito mal. Mas já que não está mais disposto a conversar, que tal sair da minha casa? Vamos. Eu te convido a sair.
Chanyeol apontou para a porta com um floreio. Não ia mais ficar escutando aquela baboseira ressentida. Baekhyun plantou um bico marrentinho na boca e saiu marchando com sua jaqueta jeans e calças de pijama. Chanyeol abriu a porta, e ele avançou para fora.
Tentou avançar, na verdade. E bateu com a testa no ar, voltando com tudo para dentro. Zonzo e de olhos tão arregalados quanto os de Chanyeol, Baekhyun apertou o próprio nariz. Que porra foi essa?
O Park passou o braço pela porta, checando se não tinham feito a palhaçada de colocar fita adesiva transparente no vão para tirar sarro dos dois. Mas, não… Sua mão flutuou à frente, encontrando nada além de ar. Assim, mesmo sem entender, Baekhyun tentou de novo, dessa vez tateando à sua frente, e para ele, tinha de fato alguma coisa. Era como se fosse um campo de força irredutível quanto a não deixar ele sair.
— Que diabos você fez, Chanyeol?! — Baekhyun ralhou consigo. É claro que ralhou! Tudo era culpa sua agora… E provavelmente era mesmo, mas naquele pequeno espaço de tempo em que tentou pensar em algum pedido que fez às cerejas, nenhum envolvia o sequestro de Byun Baekhyun. Então negou, como último recurso. E aí, de repente, as expressões do Byun caíram. Ele tinha entendido tudo. — Ah, não…
Baekhyun forçou o campo de força com a mão, socando-o inutilmente quando não fez efeito algum. Estava preso ali!
— Vai me dizer o que aconteceu?! — o Park solicitou, um tantinho confuso.
— Eu comi frutas mágicas, tá bom?! — confessou Baekhyun, tão frustrado que estava até rouco e suado. A vermelhidão no seu rosto era linda, não que Chanyeol quisesse estar reparando em nada disso. — Minha família sabe que toda estação surge com algumas cerejas mágicas e nós colhemos e usamos uma vez na vida de cada membro dos Byun. Na minha vez, eu pedi por isso.
Ele estendeu o pulso com o relógio vermelho amaldiçoado que ficava apitando na orelha de Chanyeol desde que tinham se conhecido.
— E o que exatamente isso faz?
— Isso não permite que nenhum cara me chame para sair.
Demorou pelo menos dez segundos para Chanyeol começar a rir, e dez minutos para que ele parasse. Nesse meio tempo, Baekhyun já tinha se sentido bem-vindo outra vez na casa dos Park, assaltara uma coca da geladeira e agora estava deitado com a cabeça na bancada, arrependendo-se de cada decisão que tomou até esse dia.
— Mas… espera aí, espera aí — Chanyeol aproximou-se ainda gargalhando, depois de dar uma escapada para o banheiro, para se certificar de que não mijaria nas calças. Ele ficava feio rindo desse tanto, para o próprio azar. Mas para a própria sorte, não importava! Porque Baekhyun tinha feito esforços mais do que reais para jamais namorar consigo. — Você está preso aqui até agora porque eu te convidei a sair? Foi isso mesmo? Ele interpretou desse jeito?
— Sim, esse relógio burro interpretou como perigo extremo. — Baekhyun não estava mais com clima para entrar na brincadeira. Simplesmente ergueu o pulso e deixou que Chanyeol visse a tela vermelha e dramática. Dizia PERIGO IMINENTE. Liberação da porta de entrada em: 11:47:42.
— Você vai ter que passar a noite aqui?
— Pelo visto, sim…
— Ele te tranca em casa toda vez que algum homem te chama para sair?
— Sei lá, Chanyeol — ele gemeu, tentando refrescar a testa na pedra fria. — Eu nunca dei tanta trela assim para homens, para acontecer uma situação como essa. Até hoje… nunca tinha acontecido.
O Park respirou fundo e se recuperou da crise, antes de sentar no banquinho ao lado, abismado.
— Ele apita toda vez que sente que alguém dá em cima de você? — pressupôs. Baekhyun fez que sim.
— Basicamente… Mas se eu me atrair por um homem, ele também me enche o saco. Psicologia da tortura. Eu tenho embrulho no estômago toda vez que essa bosta apita.
Nem conseguia imaginar como era. Devia mesmo ser um inferno, porque no fim, o relógio havia se tornado uma acusação, marcando decisivamente toda vez que acontecia o que Baekhyun menos queria que acontecesse: a atração por outro homem.
Chanyeol ia encher o saco dele. Pensou: doze horas preso comigo, vou virar a cabeça dele. Mas no fim, olhando para o rosto entristecido em busca de ideias maléficas, notou que talvez tivesse sobrado empatia em seu coração humilhado.
— Quer pipoca?
— Hm?
— Pipoca — sorriu Chanyeol, mostrando os dentes. — Para fazer esse tempo aí passar.
Ele apontou com o queixo para a sentença de prisão no pulso do Byun, que, com um suspiro, endireitou a coluna e fez que sim. Um sim daqueles bem desanimados. É… ele devia estar com a cabeça cheia.
Baldes de pipoca, refrigerantes extra grandes, cobertores, travesseiros e cortinas fechadas. Chanyeol e Baekhyun se encolheram assim na sala e foram maratonar uma série, querendo que o silêncio fosse preenchido por uma terceira força neutra — que, no caso, não estivesse em defesa nem de um nem de outro.
Agradecendo ao fato de que a sra. Park não voltaria tão cedo para casa, Chanyeol foi bobo e deixou que a cabeça de Baekhyun tombasse do encosto do sofá e viesse deitar em seu ombro. Ele realmente não gostava muito de filmes... mas isso não era exatamente chato. Seu coração estava adorando o fato dele estar encolhido pertinho, de modo que seu cérebro até estava se abstendo. Alguns minutos se passaram, e sem conseguir parar de relembrar a briga, acabou retomando. Até que tinha esperanças de não discutirem tão feio, dessa vez.
— Desculpa ter perguntado de você para outras pessoas. Estava desesperado para te conhecer.
— Por que isso, Chanyeol? Foi tão de repente. Eu aposto que teve a ver com a minha cerejeira.
— Sim, eu comi as cerejas mágicas.
— E pediu aquele par de óculos feios?
— Precisamente.
Baekhyun riu, mas estava um pouco sonolento a esse ponto.
— E para que servem os seus estilosíssimos óculos vermelhos?
Chanyeol hesitou. Queria que aquele mesmo peso de fazer tudo dar certo migrasse e contaminasse Baekhyun? Claro que não, né? Achava melhor assim, construindo as coisas pouco a pouco, na conversa, enquanto criavam intimidade…
Não seria fácil, nem rápido. E por experiência própria, podia dizer que também não era assegurado. Mas a graça de conquistar Baekhyun talvez fosse exatamente essa, e Chanyeol não queria perder nem um segundo disso.
— Eu conto se você contar o porquê de ter desejado o seu relógio — o Park blefou. Um minuto de silêncio se fez enquanto Baekhyun decidia se já era hora de se abrir assim para um estranho que conheceu há pouco tempo.
— Você primeiro — ele demandou, como uma criancinha mimada. Bem que sra. Kang chamava aquele menino de Príncipe Byun. Ai, Chanyeol ia ficar doido!
— Okay… Os óculos me disseram que… você seria uma pessoa importante para mim.
Esperou que a mentira colasse. Por outro par de minutos, enquanto se encolhiam ainda mais quentinhos um contra o outro, Baekhyun ponderou e assimilou aquela ideia.
— Chuta — por fim o Byun pediu, mansinho, retraído demais para contar a história palavra por palavra. Talvez ele fosse assim mesmo. Tinha dificuldade de se expressar e quando se expressava, falava tudo às avessas. Até que Chanyeol entendia, porque também quase nunca conseguia dizer o que realmente queria dizer, e, em especial, na hora certa. Sempre se atropelou e se atrapalhou e isso nem sempre era ruim.
Às vezes chegava em lugares interessantes sendo assim, meio destrambelhado.
— Baek, eu acho que você fez isso por causa do seu pai. — Se arriscou e olhou para o rosto dele. Péssima ideia, porque ele estava perto demais para não sentir sua respiração. Ele mordiscava os dedos, tapando um pouco o rosto, que, aliás, parecia relaxado o suficiente. — É isso?
Baekhyun fez que sim, e Chanyeol perguntou outra vez:
— O sr. Byun te pressiona a se reprimir?
Ele suspirou.
— Ele nunca me disse que eu não podia ser, mas nunca precisou. Sempre ouvi ele falando dessas coisas com nojo. Se eu tivesse alguém para ficar do meu lado, Chanyeol, eu acho que não teria tanto medo. Mas só de estar aqui, desse jeito, eu sinto que ele vai saber e se decepcionar comigo. Vai me botar para fora de casa, e eu vou ficar tão sozinho quanto fiquei quando a minha mãe foi embora.
Chanyeol não ousou abrir a boca antes que ele terminasse, mesmo que demorasse até que ele encontrasse as palavras.
— Ele não supriu a falta dela. Nunca entendi o porquê da minha mãe ter levado só um dos filhos embora, mas sempre achei que era porque eu tinha potencial para dar errado. Acho que por isso eu sempre quis fazer tudo o mais certo possível, o certo segundo o meu pai. Fora que, quando me apaixonei pelo Jongin, entrei em pânico, pensando: vale o preço? A expulsão de casa? Perder tudo que eu tenho? Mas agora isso está me cansando. Não me levou a lugar nenhum, nem me garantiu o amor dele, pelo contrário, tenho medo constante, e antipatia.
— Você se sacrificou bastante…
— É… — Baekhyun sorriu pequeno, tocando Chanyeol na bochecha. Não iriam dar nenhum passo que fosse maior do que as pernocas de Baekhyun agora, mas a aura de confiança era boa. — A esse ponto, já notei que sempre vou sentir, no meu coração, que estou perdendo alguma coisa. Seja minha mãe, meu pai, ou a mim mesmo… Quando você parou de aparecer, eu fiquei… com medo de perder você.
Como se para testar alguma coisa, Baekhyun roubou os óculos do bolso de Chanyeol e colocou-os no próximo rosto, deitando-se contra as pilhas de travesseiros para observá-lo de longe. Depois sorriu, colocando as pernas no colo dele, vendo-o em cores vibrantes contra o fundo monocromático.
— Como eu imaginei…
— Então você ganhou as cerejas no seu aniversário de 15 anos? Não é cedo demais para dar uma coisa tão poderosa para alguém?
Chanyeol tentou pensar no que ele mesmo teria pedido com essa idade e ergueu as sobrancelhas.
— Eu teria pedido para namorar com o Bill Kaulitz do Tokio Hotel. Ele era muito meu estilo. Ou com o Jacob de Crepúsculo.
Baekhyun pareceu gostar das suas opções de crush adolescente. Tinha um sorrisinho por trás da mordida na fatia de pizza, Chanyeol estava vendo. Legal. Pelo menos tinham conseguido passar pelo momento de tensão, porque não teria sabido o que fazer, caso ele chorasse. Sentia um nó no peito só de tentar imaginar.
— Eu pedi coisas estúpidas — o Byun afirmou, para caso Chanyeol estivesse pensando que tinha feito melhor.
— Poxa, Baekkie, achei que você era um menino inteligente.
— Eu tento, mas… — Baekhyun simplesmente negou com a cabeça. Tudo bem, Chanyeol não ficaria decepcionado. Deu uns tapinhas amistosos no ombro dele para saber que tinha um amigo nessa de ser desinteligente de vez em quando. — Pedi um computador que nunca estaria obsoleto.
— Porra. — Chanyeol tirou a mão e limpou na blusa. Se soubesse que estava tocando num nerd, jamais teria oferecido sua simpatia.
Baekhyun riu, um perfeito "he-he-he".
— Pelo menos meu The Sims roda no ultra.
— Okay, perdoado. E os outros pedidos?
— Que minha mãe soubesse que eu sinto a falta dela. E que meu dinheiro rendesse no banco quando eu aplicasse. — Pela forma que Baekhyun disparou um desejo após o outro, Chanyeol notou que não queria tocar no assunto de família outra vez. E de todo modo, já estava oferecendo a mão para ele apertar.
— Chanyeol, prazer — apresentou-se, galante. Tinha ouvido que ele tinha uma conta rendendo no banco? — Posso dar para você, qualquer hora dessas?
Baekhyun apertou sua mão com vontade, que nem macho de verdade.
— Quando quiser. Ainda pago o jantar.
Ele estava brincando, infelizmente, apesar do tom sério de machão. Talvez as misturebas de coca-cola com rum tivessem aberto as comportas para o humor sacana dele, porque era a primeira vez que Chanyeol via aquele Baekkie tão certinho fazer uma piada dessa, confortavelmente, como se fosse seu território.
O que era triste. Ele ficava um gostoso falando bobagem com aquele cabelo bagunçado, cara corada e braços à mostra. Chanyeol gostava dele de jaqueta, mas tinha um apelo diferente quando ele tirava. Tava com calor, apesar das janelas estarem abertas e dele estar jogado no tapete, dessa vez.
Do sofá, onde bicava sua coquinha com rum, Chanyeol tossiu, percebendo um furo naquela história.
— Peraí, foram quatro desejos?! Você mente que nem sente, onde já se viu!
Sua voz estava meio rouca pelo engasgo, mas ele 'tava falando sério! Se Baekhyun tinha pedido aquilo tudo e o relógio anti-homens, ele teve quatro pedidos.
— E está certo, foram quatro.
— Ué, mas eu só tive três pedidos.
O Byun deu de ombros com gosto, tirando uma folhinha de manjericão dos dentes com a língua (sensualmente).
— Má sorte sua.
Não podia ser. De cenho franzido, Chanyeol matutou um pouco mais, tentando lembrar se mais houvera mais algum efeito que passara despercebido, porém, não sabia dizer.
— Quase sempre são quatro cerejas no cacho premiado — Baekhyun explicou, dentre sua mania de mexer os pés rapidinho. — Assim que a gente sabe quais são as certas.
— Então pode ser que ainda tenha uma?
— Pode, mas você comeu a árvore toda, né, Chanyeol.
— Comi mesmo.
— Posso saber por quê? — Baekhyun se sentou direito, cruzando as pernas. Seus ombros pareciam largos e bonitos na blusa branca surrada do Tio Patinhas. — Quer dizer… o que você queria tanto pedir dessa vez?
As mãos do Byun o levaram a uma hipnose, por um instante, bonitas demais para não se sentir arrepiado. Não sabia se queria dizer sobre aquilo, mas, por outro lado, já tinham se reunido ali para brigar e tirar tudo à limpo, então…
— Honestamente, queria parar de gostar de um cafajeste aí — fingiu uma coçadinha no queixo, tirando com a cara dele. Já notou que o Byun não ligava, na verdade, o sorriso dele era lindo, leve, do tipo que tornava tão difícil não ter uma queda…
— Desculpa, Chanyeol…
Esperou.
— Desculpa por ter te machucado tentando não me machucar. Eu fui egoísta.
— Eu também poderia ser chamado de egoísta se não pudesse compreender o porquê de você não conseguir mudar sua mentalidade da noite para o dia — Chanyeol interrompeu para defender o lado dele, mas, no fim, desviou o olhar por saber que, no fundo, queria muito que ele tivesse mudado de ideia. Queria ouvir que Baekhyun o desejava de volta. Queria tanto que até dava um buraco no peito (era seu coração cavando a própria cova).
Mas o Byun suspirou pesadamente, fechou a caixa vazia de pizza e juntou os copos para levar à cozinha. Quando retornou para dormir, dado que Chanyeol já tinha arrumado tudo para a noite do pijama dos dois ali na sala, ainda tinha algo entalado para confessar.
A última verdade da noite.
— Sabe o que é péssimo, Chanyeol? — murmurou, dentre o breu, enquanto se enfiavam sob os cobertores. — Não tem volta, nem se eu quiser.
Depois de perceber que tudo estava quieto, e olhar por cima da cabeça, encontrando os olhos brilhantes de um Chanyeol terrivelmente esperançoso, completou o que estava dizendo:
— Meu relógio me impede de ser chamado para sair por você. Me enche o saco noite e dia para eu não admitir o que sinto. E volta para o meu pulso magicamente se eu tirar. Mesmo que eu quebre, pisoteie e passe com o carro por cima, ele nunca vai me deixar namorar com um homem.
— Que bosta, Baekkie… você literalmente arranjou um pai para usar no pulso.
— Foi…
Chanyeol suspirou também.
— Tudo bem… Não vamos insistir se não tem jeito.
No dia seguinte, o sr. Byun teve a cada de pau de aparecer no portão, e bem cedo. Antes até de Baekkie acordar. Chanyeol andou até lá, em vez de abrir, e pousou pomposamente as mãos na cintura.
Sr. Byun deixava meio na cara seu desprezo. O nariz batatudo franzia um bocado. Se Chanyeol tivesse uma cereja mágica, pediria aos céus que ele tivesse um colo masculino onde sentar, quem sabe assim fosse menos amargurado. Se soubesse o quanto era gostoso… E ele era um cinquentão até jeitoso!
— Posso ajudar?
— Meu filho passou a noite aí?
Ele perguntou com uma cautela, sabe? Como se tivesse medo do que seu tom deixava a entender. Não queria dizer passar a noite daquele outro jeito… Conservadores sempre tinham um cuidado extra com os duplos sentidos.
Chanyeol coçou a nuca, com medo de arranjar problema para o Byun.
— Que que tem?
Sr. Byun recuou um passo, indignado com a ideia de não se importar. Ora, veja bem, seu filho homem dormindo na mesma casa de um gayzinho nada criterioso…
— Você entra lá e avisa ele que estou saindo e não admito que ele chegue atrasado para a aula? Se o Baekhyun não lembra, ele tem uma rotina de estudos por uma razão. Se perder a bolsa, eu não vou tirar do meu bolso para pagar nem um mês que seja.
Chanyeol levou o dedo a boca e fez um "shh" suave.
— Ele tá dormindo.
Sr. Byun engasgou no quanto aquilo tinha sido inesperado. Antes sequer de deixar aquilo virar uma argumentação, Chanyeol encostou o rosto no portão e chamou o véio mais pertinho.
— Olha aqui, minha mãe é prefeita de Daebak. Se eu ver que o Baek tá triste por causa de você, saiba que vou cortar pela raiz esse seu hábito de ter tudo como você quer. — E apontou com a cabeça para a cerejeira na casa ao lado. — Se eu contar para ela que a árvore tem propriedades mágicas, acabou sua farra.
O sr. Byun não diria nada nem se soubesse o que dizer agora. Sua expressão era de quem tinha sido encurralado. Talvez até concordasse com a bronca que estava levando. Talvez estivesse surpreso que alguém mais se importasse com Baekhyun a ponto de ir tão longe.
— Você acha que sabe o que é melhor para o meu filho, não é? — ele murmurou entredentes. Seu tom não era tão ameaçador, o que era bom, porque Chanyeol choraria se ele gritasse. Não era bom com brigas, pois era apenas um pobre macho beta.
Ao menos veio algo em mente para responder, fora o breve dar de ombros:
— Eu gosto do Baekkie. E pro seu infortúnio, isso basta.
— Nooossa, você usou a palavra infortúnio!? — Minseok arfou, naquela tarde, quando contou para ele. Estava absolutamente boquiaberto, olhos brilhando, enquanto Chanyeol contava o bafo.
— Sim, ué! Eu precisava que ele soubesse que, para a sorte dele, eu gostava do Baek o suficiente para querer cuidar dele.
Minseok puxou as próprias orelhas contra o rosto em autoflagelo.
— Chanyeol, nãoooo…!
— O que foi!?
— Infortúnio quer dizer FALTA DE SORTE!
— Tanto faz! — Chanyeol não deixou a própria cara queimar. Espirrou água no rosto, aproveitando a desculpa de que estava em campo. Homens com camisa de futebol tinham carta branca para esquecer a civilidade. Depois, com sede, roubou a garrafa de Minseok do banco de reservas, notando que o sol se punha no horizonte. Calculou que devia ir logo para casa. — Eu sei que você disse que não tinha mais conselhos para dar, mas…
— Pode pedir. — Minseok se aprumou, erguendo as orelhinhas. — Já estou recarregado e pronto para o próximo dilema.
Chanyeol soltou o ar, como o belo paquerador em crise que era. Tocou a própria nuca, fazendo charme, para o infortúnio da impaciência de Minseok.
— Fliperama… ou… minigolfe?
— Eihn?!
— Levo o Baek no fliperama, que eu sei que ele gosta, ou no minigolfe, que é bonito para tirar fotos de casal?
— Espera aí… ele não é fisicamente incapaz de sair com um homem? — Minseok uniu as sobrancelhas. — Não foi por isso que vocês dois tiveram aquela noite romântica na sua sala de estar?
— Eu não chamei ele. Eu disse que diria onde eu estaria hoje às 19:40 — Chanyeol apontou para si mesmo, tentando entender o próprio raciocínio —, e que seria legal se a gente se esbarrasse por lá.
— Vai ser assim? Você vai ficar mandando verdes?
— Sim. Bem discretos. Se ele tiver dúvida quanto a eu estar chamando mesmo ou não, o relógio vai só encher o saco.
— Chanyeol, Chanyeol… — Minseok sorriu, dando uma miadinha. — Você não é tão burro assim…
— Eu literalmente tive que lamber cogumelo do chão da Floresta Azul para ter essa ideia.
— Perdoado! Eu voto pelo minigolfe!
E não é que deu certo?
Deu certo pelo menos umas duas vezes.
Ele deixou Baekhyun saber que estaria num lugar público e, confuso, o Byun aparecia por lá. Dava um sorriso lindo. Disfarçava. Depois saía de fininho de perto dos próprios amigos e curtia alguns minutos com Chanyeol.
Durante o desencontro no minigolfe, ele e Baekkie jogaram toda a trilha de buracos juntos, e riram um tanto sob as luzes coloridas. Até tiraram algumas fotos juntos perto do lago, fazendo poses descoladas. O relógio anti-homens apitou até que ficassem sem jeito, mas ele parecia mais alegre do que nunca.
Uma semana depois, Chanyeol postou no Instagram que estava tomando um sundae perto do píer. Baekhyun demorou tanto que, quando chegou, Chanyeol estava tomando de canudinho. Pediu um para ele também e beberam enquanto andavam pela praia. Depois fizeram desenhos na areia. Chanyeol foi flagrado desenhando um pirocão e Baekhyun o derrubou de cara nele, sem querer. E para seu infortúnio (agora tinha aprendido o que era), foi o único lugar onde encostou a boca naquela noite.
Da terceira vez, foi Chanyeol que arriscou ir até Baekhyun, quando soube que ele tinha ido com o pai a um jantar de família e que estava chato demais. Roubou ele do sr. Byun e o levou no McDonalds logo ao lado. A questão é que, a esse ponto, já não conseguia fingir o significado dos seus olhares, ou sorrisos. E Baekhyun tascou a mão na sua cara quando tentou beijá-lo.
Disse que foi o relógio, mas o tom de voz deixou claro que ele simplesmente não estava nada preparado para as mudanças bruscas — nem para a simples hipótese de seu pai surgir do restaurante ao lado e pegá-lo enroscado no vizinho.
Ou seja, deu certo, um par de vezes. Mas não mais, depois que Baekhyun passou a ter certeza mais do que absoluta dos seus sentimentos. E como uma maldição, o relógio passou a prendê-lo em casa se ousasse tentar se encontrar com o Park com intenções "impuras".
(Se bem que era a palavra dele contra a do relógio.)
Sexta-feira. Quatro da tarde. Minseok fazia carinho no próprio rabo, o que queria dizer que estava incomodado.
Talvez fosse o fato de que à sua esquerda no banco estava Byun Baekhyun e à sua direita, Park Chanyeol.
— Eu acho que um dos meus amigos está com raiva de mim — Baekhyun disse, em tom teatralmente alto. — Será que você sabe de alguma coisa assim, Minseok?
— Não…
— Eu estou decepcionado, sabe, Minseok — O Park também disse, na mesma altura. — Às vezes, penso que já tive paciência demais. Tem gente que acha que pode simplesmente ficar confuso para sempre e deixar os outros lidarem sozinhos com os próprios sentimentos. Eu sequer posso chamar isso de amigo?
Chanyeol não ousou olhar para a esquerda. E Minseok miou:
— Não…
— Não, Minseok, olha só… — Baekhyun deu uma risadinha sarcástica. — Faz sentido alguém te dizer que te entende e gosta de você do jeito que você é — ele fez uma vozinha irritante —, e no final das contas querer te largar por causa dos problemas que você tem e que não estão no seu controle?
— Não, mas…
— É, Min, exatamente como eu te disse — Chanyeol exaltou. — A gente estende a mão e é compreensivo, move montanhas pela pessoa, mas a pessoa simplesmente quer morar para sempre numa canoa furada! Pode isso?!
— Não, gente…!
— Às vezes eu acho que ele deve ter a solução mágica e não está me contando! — ironizou o Byun, aos berros.
— Eu acho que se estivéssemos pensando juntos, seria mais fácil! Mas você nem parece que quer resolver o problema! Deve estar muito confortável sentando em cima dele e fingindo que não existe!
— SENTANDO? Foi você que me fez o favor de assaltar a minha árvore e me deixar sem opções! Você COMEU E CAGOU a minha solução! Se não usou da forma mais estúpida possível.
— EU, ESTÚPIDO? — arfou Chanyeol.
— As orelhas de burro combinavam perfeitamente com você! — Baekhyun apontou, cutucando-o no peito.
— Aaah, mas bom saber, Baekhyun! Saiba que o relógio é só um acessório, porque o verdadeiro espanta-pau são as suas atitudes!
(Desnecessário apontar que Minseok havia se levantado e saído sem sequer ser notado muito antes do início daquela baixaria.)
Chanyeol soube que Baekhyun ainda era sua alma gêmea quando, na noite seguinte àquele rasga-calcinha no campinho de futebol, pegou-se sentado ao lado do Byun na calçada em frente à casa. Sr. Byun viu e decidiu ignorar. Sra. Park também percebeu e se absteve.
Os dois tinham tido a mesma ideia. Chanyeol tirou as cerejas murchas da tupperware de semanas atrás e fez um suco. Baekhyun catou as últimas frutas da estação. Cada vez que tomavam um gole ou mordiam outra fruta, agora amarga tal como seus coraçõezinhos desprovidos de esperanças, olhavam para o céu estrelado e pediam a mesma coisa, silenciosamente:
Que Baekhyun fosse livrado da maldição de não conseguir se sentir livre para amar um homem.
Chanyeol tapava o nariz e bebia aquele bagulho grosso. Baekhyun fazia vômito e tremelicava antes de morder a próxima cereja com os lábios esticados. E então, quando findaram os recursos, Baekhyun não conseguiu dizer nada. Tremia um pouco, por dentro. No coração. Tombou contra o ombro de Chanyeol em busca de conforto, deixando o relógio fazer alarde.
— Acho que não tinha quarta cereja, Chanyeol…
— É Baekkie. Esse ano, nós estávamos sem sorte.
Chanyeol encostou a cabeça na dele de volta. Depois de um tempinho, quando Baekhyun se afastou, notou que ele tentou pronunciar algumas palavras.
— Mas… mas… e… eu… — Baekhyun nunca foi de gaguejar. No fim, o "a" que custava para sair virou um ofego de cansaço, e ele fechou os olhos. Desistiu. No entanto, Chanyeol entendeu.
Tentou dar um beijinho nele, mas tomou outro tapa. Dessa vez, Baekhyun nem precisou mirar, foi um "plaft!" limpo antes mesmo que seus olhos voltassem a se abrir.
— DESCULPA! — ele implorou, com as mãos flutuando ao redor do rosto do Park. Notou que ele o tocaria, se pudesse, então tratou de dar seu sorrisinho menos triste.
Que bosta, malditas as cebolas que cortou duas horas atrás… Como poderiam ainda estar fazendo efeito??
— Não chora Chanyeol… eu…
— Eu te amo, né?
— Que nada! Tá doido?
Chanyeol ergueu o olhar, encarando Baekhyun e dentro daqueles olhos não havia intenção nenhuma de dizer aquela negativa. Ah, deus… Onde foi que se meteram? Ao menos, deu pra rir um pouco.
— Você nunca vai se satisfazer com isso, né? — Baekhyun suspirou, apontando para si mesmo. Bem que ele queria levar na esportiva, mas parecia chateado com o fato de que jamais poderia dizer exatamente o que queria. Nunca poderia demonstrar carinho de volta. Nem mesmo quando queria tanto. — É como uma barreira intransponível, Chanyeol…
— Não, nós vamos "transpor" ela. — Nem tinha certeza de que a palavra existia. Qualquer coisa diria que tinha criado. — Se não for agora, vai ser quando essa bosta dessa árvore dar fruta de novo.
Sem deixar-se ofender, a cerejeira acertou-o com um fruto verde certeiro no cocoruto.
— Ela é sentimental — sussurrou Baekhyun.
— Pois eu também sou! E se ano que vem ela não der pelo menos uma cereja doce, saiba que eu vou passar o serrote!
Entre risadinhas, ficou marcada uma promessa. Estariam ali daqui um ano, para tentar outra vez. Um teste de paciência para Chanyeol, que simplesmente nunca soube esperar.
Um ano como amigos, ou algo assim.
Um ano, incertos se conseguiriam mesmo realizar aquele desejo e acabar com a maldição.
No entanto, o amor sempre foi sobre sentir, e Chanyeol sentia que Baekhyun o amava o bastante para fazer os mais enormes esforços da sua vida e deixá-lo feliz. Tanto acreditava em sua intuição que, num ato de fé, doou seus óculos aos mais necessitados (Minseok), e nunca mais quis saber se Baekhyun ainda era sua alma gêmea. Nem contou a ele a verdade.
Deixou que descobrissem juntos numa das próximas estações.
