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O estabelecimento Cup of Coffee era um cantinho escondido na cidade, um daqueles pontos que você encontra sem querer após ter virado a esquina errada e fica surpreso ao notar que exista uma cafeteria bem ali, em uma travessa pouquíssimo movimentada e sem nenhuma fachada aparente, a não ser que você veja a pequena placa com uma pequena xícara de café desenhada. Apenas isso.
A cafeteria também não possuía redes sociais e se você quisesse alguma informação sobre ele, bem, você deveria ir até lá, isso se soubesse como encontrá-lo. Mas apesar disso, era um local bem movimentado para um espaço que, teoricamente, não existia.
Assim como ninguém falava do Clube da Luta, ninguém ousava contar a respeito do Cup of Coffee. E talvez aqui eu esteja quebrando a regra principal ao narrar isso para vocês, mas é por uma boa causa.
Era fim de tarde, e a nova CEO da grife Honorável Lady acabara de entrar na cafeteria escondida. Como esperava, o ambiente estava cheio, mas ela não se importava, assim como buscou ignorar alguns olhares que caíram sobre ela assim que passou pela soleira da porta. O cheiro de pães e demais guloseimas recém assadas invadiu suas narinas, e o aroma do café moído era indescritível. A jovem mulher ouviu sua barriga reclamar pela falta de qualquer alimento, e imediatamente correu os olhos pelo espaço, verificando se existia algum lugar livre para se sentar.
Outro fato curioso sobre o Cup of Coffee era sua decoração. Quem quer que o tenha mobiliado, provavelmente percorreu todas as vendas de móveis usados e demais mercados de pulgas existentes no estado. Nada ali combinava. Mesas e cadeiras possuíam cores e tamanhos diferentes, e as louças utilizadas para servir os clientes eram claramente resquícios dos mais diversos conjuntos de jantar que foram garimpados por aí. O piso de taco original fazia par com as luzes quentes, e os únicos objetos mais modernos por ali eram os equipamentos utilizados para preparar e conservar os alimentos. Em suma, o local não possuía um pingo de glamour, e era justamente isso que o deixava aconchegante.
Ao notar que não encontraria uma mesa livre, a jovem se virou para o balcão para ser atendida e solicitar que seu pedido fosse preparado para viagem, quando ouviu seu nome.
— Khun Sam?
Sam reconheceu aquela voz e se virou em direção ao som. Não tinha notado a presença dela ali, mas como poderia? A outra jovem estava com o cabelo cortado um pouco acima dos ombros, e o provavelmente estava digitando algo, já que havia um notebook aberto a sua frente.
— Um momento. — Sam disse para o atendente e seguiu até a mesa que a garota ocupava. — Olá, Mon.
— Olá, Khun Sam. Quer sentar aqui? — Apontou para a cadeira vaga.
— Não quero atrapalhar, você deve estar ocupada. — Sam apontou para o notebook aberto.
— Não atrapalha, e outra, aqui não tem internet, então só dá para adiantar o trabalho até certo ponto. — Um leve sorriso se formou nos lábios de Mon. — Por favor... — ela apontou novamente para a cadeira livre.
Sam fez que sim com a cabeça e ocupou o assento, observando a outra guardar seu material de trabalho. Um silêncio ameaçava se instalar, mas não o fez já que o atendente se aproximou para anotar o pedido de Sam.
— Um café mocha e...
— Os brownies acabaram de sair do forno. — O atendente sugeriu.
— Aceito um.
— Certo, e a senhorita deseja mais alguma coisa? — Ele perguntou a Mon.
— Pode trazer mais um pouco de chá?
O rapaz assentiu e se afastou. Agora sim, o silêncio estava entre elas. Sam deixou sua bolsa de lado, e automaticamente buscou seu celular, no intuito de verificar seus e-mails, contudo, a lembrança da falta de recepção a fez bufar.
— Eles ainda continuam com o bloqueio de celular aqui? Inclusive do nosso próprio aparelho?
— Sim. — Mon riu. — Eles ainda mantêm a política “largue o celular e leia um livro”, ou fazem com que as pessoas simplesmente conversem umas com as outras.
— Isso não é proibido?
— Ler um livro ou conversar?
— Você me entendeu, Mon. — Sam rebateu, o que arrancou outro riso de Mon.
— E alguém vai querer fazer uma denúncia? Afinal, ninguém fala sobre esse café.
Sam balançou a cabeça e devolveu o celular para dentro de sua bolsa; nesse instante, outra moça que trabalhava no estabelecimento se aproximou e depositou o que ela pedira sobre a mesa, deixando ali também uma nova xicara de chá para Mon, recolhendo a antiga. Após agradecerem, as garotas outra vez ficaram quietas, cada uma bebendo seu liquido quente preferido.
O murmúrio de conversas podia ser ouvindo, mas nenhuma delas conseguiria distinguir ao certo sobre o que cada pessoa estava realmente falando, já que seus próprios pensamentos as estava deixando inquietas. Estavam olhando para todos os lados, exceto uma para a outra, e quem as observasse com mais atenção, poderia perceber em poucos minutos que havia algo ali, uma tensão quase palpável, uma história.
Uma história que ainda não havia sido de todo finalizada.
“Pelos céus, fale alguma coisa, Sam! ”, ela se repreendeu em pensamento, controlando ao máximo sua perna que já se balançava impaciente. “Nós conversamos muito da última vez...”
A jovem CEO bebeu mais um gole do seu café, e ao pegar o garfo para começar a comer seu brownie, reuniu um pouco de coragem e falou.
— Como você está?
O que ela não esperava era que Mon tivesse feito a mesma pergunta, ao mesmo tempo. Ambas deram um sorriso de lado, tomando cuidado para não cruzarem o olhar.
— Você primeiro... — disse Mon.
— Não, Mon. — Sam a encarou. — Você primeiro.
O motivo de ter pedido para que a outra falasse primeiro não foi apenas uma gentileza, mas sim porque Sam ainda não estava com a voz firme o suficiente para contar como realmente estava. É claro que ela poderia omitir suas preocupações e demais aflições, contudo, nunca seria capaz de esconder nada da jovem de olhos doces sentada a sua frente.
— Estou bem. — Respondeu Mon, fazendo um leve movimento com a cabeça e bebericando seu chá. Seus olhos se tornaram atentos, fato que Sam sabia que aconteceria assim que aceitou dividir a mesa com ela.
— E seus pais?
— Ambos estão bem e com saúde.
— E o Singha? — Algo que Sam aprendeu foi que, se a pessoa possuía um cão, sempre era educado perguntar dele também. Além de demonstrar que se importava, era um ótimo modo de quebrar possíveis gelos.
— Preguiçoso e comilão, como sempre.
As duas sorriram e beberam de suas xicaras simultaneamente. Sam não precisou fazer a próxima pergunta, já que Mon pareceu notar que a outra estava adiando o momento de falar sobre si.
— Eu consegui terminar a faculdade. — Contou com orgulho, seus olhos brilhando com o feito.
— Aposto que com todas as honras e louvores. — E ao ver que Mon fez que sim com a cabeça, Sam não pôde deixar de sentir orgulho também. — Fico feliz em saber disso, Mon. Você realmente merece.
— Obrigada. — Ela agradeceu, seu rosto adquirindo um delicado tom rosa.
— Você continua trabalhando no mesmo local? — Sam tentou permanecer séria, mas perdeu o fôlego assim que provou o brownie. — Pelos deuses, isso está divino! Quer um pedaço?
— Não, obrigada.
— Mesmo?
— Mesmo. — Sorriu. — E sim, ainda estou trabalhando na Diversity.
— Me diga que você foi promovida agora que possui diploma universitário. — Comentou enquanto empurrava um pedaço do brownie para a outra.
— Eu fui promovida. — Mon garantiu. — Sou Assistente Editorial.
— Ótimo, ou eu teria que trocar uma palavrinha ou outra com Nita. — As duas sorriram com suavidade. — Eu já queria fazer isso antes, você sabe.
— Eu sei, mas eu não queria avançar mais etapas do que me era permitido.
— Mas estava óbvio o seu potencial, desde o dia que nos conhecemos.
— Foi o que muitas pessoas me disseram, mas posso garantir que foi sim a entrevista intimista que consegui com a Honorável Lady — fez um gesto com as mãos em direção a Sam — que garantiu a minha permanência na revista.
Foi a vez de Sam corar. Ela não gostava de ser reconhecida dessa forma, mas as vezes não era possível escapar. Assim como não conseguiu reprimir as lembranças da noite em que conheceu Mon.
***
Após ser obrigada a comparecer a um jantar de negócios em plena sexta-feira com os maiores acionistas da Honorável Lady, Sam inventou uma desculpa para sua avó e conseguiu escapar dos drinks finais. Dizer que estava com cólicas menstruais em um recinto cheio de pessoas conservadoras sempre funcionava, e ela faria uso deste e de outros artifícios sempre que possível.
Chamou um táxi, mas ao invés de solicitar que a levasse para casa, pediu ao motorista que lhe deixasse no centro da cidade. O homem ao volante lhe lançou um olhar incerto através do espelho retrovisor com o pedido, todavia, Sam manteve os olhos impassíveis, o que deixou o outro sem ter o que argumentar. Minutos depois, a jovem desceu do veículo e começou a andar a esmo pelas ruas que estavam começando a se esvaziar conforme a hora avançava.
As pessoas que ainda circulavam eram aquelas que trabalhavam ou estudavam até tarde, além das que estavam indo e voltando de seus respectivos modos de diversão. Sam os invejava. Gostaria de ser como eles, sem preocupações. Bufou e fechou sua expressão, se deixando levar pelos seus pés que pareciam ter vida própria.
Não fazia ideia do que procurava, mas acabou encontrando um café em uma travessa deserta. Procurou uma placa, mas não havia nenhuma. Aquilo era definitivamente esquisito, Sam pensava, mas uma vez que estava sozinha na calada da noite, em uma rua desconhecida, um café não faria mal a ninguém.
“Mas e se for um lugar ruim? Um estabelecimento disfarçado, e quem entrar aqui for sequestrado e levado para o submundo para ter seus órgãos vendidos? ”
Sam riu sem emoção. Talvez estivesse assistindo a filmes de terror demais com suas amigas. Tirou tais ideias da cabeça e entrou, afinal, se não mandasse notícias para sua avó em até 48 horas, com certeza ela colocaria a guarda nacional a sua procura.
Foi abraçada pelo cheiro de pães e café, e isso lhe causou uma sensação nova. O lugar simples e decorado de forma muito duvidosa contrastou de forma gritante com o vestido de gala e saltos altos que vestia por debaixo do sobretudo impecável. Antes que sequer pudesse se sentir deslocada, uma mulher atrás do balcão falou com ela.
— Primeira vez aqui?
— É tão obvio assim? — Sam cruzou os braços.
— Sim. — A mulher sorriu. — Bem-vinda ao Cup of Coffee. Abrimos todos os dias, e enquanto tivermos clientes na casa, não fechamos. Não temos sinal de celular e muito menos redes sociais. Ah, e ninguém fala da gente, essa é uma regra que agora você não vai poder quebrar.
A expressão confusa deve ter ficado mais perceptível do que Sam gostaria que fosse possível, o que arrancou mais um sorriso da mulher atrás do balcão. Por um momento, a jovem cogitou indagar de forma bem mal-educada o que era realmente engraçado, mas alguém chamando seu nome a fez olhar para o lado.
— Khun Sam?
— Tee? — “O que Tee está fazendo aqui? ” — O que está fazendo aqui?
— Vim verificar quanto custa a venda de um rim. — A ironia foi gritante, e observando que Sam revirou os olhos com impaciência, continuou. — Não é óbvio? — Mostrou o lugar com as mãos.
— E por que você nunca me falou desse café antes? — Sam apostou em uma pose ameaçadora, mas isso não funcionava mais com seu círculo íntimo de amizades.
— Ninguém fala sobre o Cup of Coffee.
— Por que não?
— Simplesmente não falamos. É a regra principal. E talvez seja exatamente isso que mantém esse lugar peculiar e agradável.
Sam ainda estava achando tudo aquilo muito estranho, mas o fato de ter encontrado um rosto conhecido por ali era a garantia de que não havia entrado em uma furada.
— Eu adoraria ficar e tomar outro café com você, mas preciso ir. Amanhã cedinho eu tenho uma reunião e já estou com o sono atrasado. — Tee falou rapidamente e deu um beijo estalado na bochecha de Sam sem permissão, o que fez a garota exibir uma careta. — Nos falamos depois, se cuida, fui.
Tee deixou o local antes que Sam pudesse dizer qualquer palavra. Ao voltar o olhar para a mulher do balcão, esta já estava com uma xicara em mãos e apontando despretensiosamente para Sam.
— O que gostaria de beber?
— Um café preto, por favor.
— Saindo em breve.
Sam assentiu e saiu em busca de um lugar para se sentar, encontrando uma pequena mesa vazia mais aos fundos do café. Assim que se sentou, a atendente colocou a xicara de café fumegante a sua frente, acompanhada de uma porção de bolinhos pequenos e redondos que ela não pedira.
— O primeiro pedido é por conta da casa, Honorável Lady. — E se afastou.
“Ótimo, ela me reconheceu. ”
Respirando fundo, Sam provou o café, e a sensação que tomou conta do seu ser foi a melhor que sentiu em dias: a quentura do liquido aqueceu toda a extensão da sua espinha, o que lhe fez arquear um pouco as costas, ao mesmo tempo em que até suas orelhas pareceram esquentar; por fim, a sensação quente se aninhou em seu estômago por um segundo fugaz demais. Não tinha recordações de ter provado algo tão gostoso, e sem delongas comeu um dos bolinhos, cuja combinação foi muito acertada para o seu paladar. Enquanto bebia mais um pouco, passou a observar discretamente as pessoas que estavam no estabelecimento. Por ser tarde da noite, o espaço estava preenchido por uma parcela curiosa de clientes, e agora ela estava começando a entender o motivo de ninguém falar sobre aquele singelo espaço.
“Tee possui sua própria empresa e também é influencer, eu sou uma modelo de uma marca famosa, e eu tenho quase certeza de que aquele cara escrevendo é o autor daqueles livros de suspense que a Jim ama. ”
Pessoas públicas a anônimas estavam convivendo, e ninguém estava nem aí para ninguém.
Um esboço de sorriso começou a se formar nos lábios de Sam, até que duas pessoas se levantaram da mesa ao lado da sua, e em seguida seus olhos foram capturados pela figura de uma garota sentada na última mesa do estabelecimento. Ela possuía cabelos longos e escuros, trajava uma blusa de moletom rosa e os olhos vermelhos e inchados entregavam que havia chorado há pouco tempo.
A cena intrigou Sam mais do que deveria. Ela sabia que deveria desviar o olhar, não era educado encarar as pessoas, mas algo naquela garota não a deixava virar o rosto. Os lábios dela estavam extremamente vermelhos, o rosto fino e delicado não combinava com aquela expressão chorosa, e mesmo assim, ela exalava uma beleza que era difícil colocar em palavras. A menina procurava afastar o cabelo dos olhos vez ou outra, e Sam teve quase a certeza de que ela estava fazendo um esforço descomunal para não chorar outra vez. Já passara por isso, então alguns sinais eram muito fáceis de serem reconhecidos.
Sam estava hipnotizada, e isso com certeza atraiu a atenção da menina, pois no segundo seguinte ela estava lhe encarando de volta. Abaixando os olhos rapidamente, Sam sentiu o rosto corar, e se xingou mentalmente por não ter sido mais discreta.
“Não foi assim que você foi ensinada a se comportar. ”
Entretanto, sua curiosidade estava aguçada demais para seu próprio bem, sendo assim, ela voltou a olhar para a desconhecida, que agora estava com um dos braços sobre a mesa e o rosto semioculto por ele. Levantou-se sem pensar e apanhando seu café e seus bolinhos, marchou até a mesa em que a garota estava sentada.
— Posso me sentar aqui?
“O que estou fazendo? ”
A menina levantou o rosto, confusa, e antes que pudesse responder, Sam se sentou na cadeira livre, ficando de frente para a jovem.
“Eu devo estar maluca”. Sam reconhecia que esse comportamento era totalmente fora da curva para os seus padrões, mas agora não era possível voltar atrás. Quanto a menina, ela estava lhe analisando por alguns segundos, até que os primeiros sinais de reconhecimento passaram por seus olhos.
— Você é mesmo a Honorável Lady Samanun? — Seu tom de voz era ao mesmo tempo duvidoso e respeitoso, com toques de admiração, Sam conseguiu perceber.
— Eu poderia mentir e dizer que suas lágrimas estão perturbando sua visão. — Não quis soar rude, mas as palavras saíram mais rápido do que previu. — Desculpe. — Se apressou a dizer. — Mas sim, sou eu... E você é...?
Era nítido que menina não estava acreditando que aquilo estava acontecendo, e Sam revirou os olhos discretamente. “Por que todo mundo se comporta dessa maneira comigo? ”
— Kornkamon, mas, hm, pode me chamar apenas de Mon. — ela se endireitou na cadeira, passou as mãos pelo cabelo e depois pelo canto dos olhos, um claro sinal de quem gostaria de recuperar a pouca dignidade que ainda lhe restava. — Peço desculpas pele meu estado, eu-
— Não peça desculpas pelo que você não fez. Ou você fez alguma coisa e agora está arrependida?
— Eu definitivamente não fiz nada, Lady Samanun. — Mon baixou os olhos.
— Então por qual motivo estava chorando? — Sam indagou sem reservas, bebendo seu café e sem desviar os olhos da outra.
— P- por nada...
— Ninguém chora por nada. — “Você realmente meteu essa, Sam? ”
Mon não respondeu, apenas levantou os olhos e encarou Sam de volta. Sam adoraria saber o que a menina pensava, o que se passava por trás daqueles olhos agora ligeiramente desafiadores, mas que ela poderia apostar que eram doces na maior parte do tempo.
“Pessoas que usam roupas rosa geralmente são meigas, não é? ”
— Quer mais um pouco de chá, Mon? — A atendente do café se aproximou, portando uma chaleira em uma das mãos.
— Sim, por favor. — Mon aproximou sua xicara para ser novamente preenchida. — Obrigada, Malee.
Malee sorriu e se dirigiu a Sam.
— Mais café?
— Sim! Pode trazer mais desses bolinhos também? São muito gostosinhos, como se chamam? Eu nunca os tinha visto por aqui, digo, aqui na cidade. — O riso quase imperceptível que ouviu vindo de Mon fez com que Sam se dessa conta que fora efusiva demais.
— É chamado de Bolinho de Chuva; é de origem portuguesa, e se popularizou bastante no Brasil. Temos um colaborador brasileiro conosco, ele que nos apresentou a receita e as vezes colocamos no cardápio do dia.
— Bolinho de Chuva? Mas, hm, nem está chovendo. — O comentário de Sam foi inocente.
— Tem certeza de que não está chovendo?
A voz de Malee foi enigmática e nos segundos que se seguiram enquanto a aguardavam trazer mais café e bolinhos, Sam e Mon ficaram a pensar sobre o que ela poderia estar se referindo. Novamente abastecidas, Sam tomou a palavra antes que Mon pudesse ter a chance.
— Quem te fez chorar?
— O que te faz pensar que foi uma pessoa? — Devolveu Mon, baixando os olhos outra vez para sua xícara de chá.
— Geralmente são pessoas que nos fazem chorar.
— Nem sempre. Às vezes podemos chorar assistindo um filme.
— Pessoas fazem filmes.
— Outras vezes é possível chorar sem nenhum motivo aparente, as lágrimas simplesmente saem!
“ Ela ficou impaciente ou é impressão minha? ”
— Você é uma pessoa. Você mesma se fez chorar, então.
Mon riu sem emoção, balançando a cabeça de forma negativa e se encostando na cadeira, cruzando os braços na defensiva. Enquanto isso, Sam crispava os lábios, fascinada pelos trejeitos da outra.
— O que você quer de mim, Lady Samanun?
— Eu só quero entender o motivo do seu choro.
— E se eu não quiser dizer o motivo?
— É um direito seu não me contar, mas algo me diz que você irá.
— Nós mal nos conhecemos.
— Essa é uma verdade.
— Então por quê?
— Talvez eu só esteja fazendo aquilo que gostaria que fizessem por mim.
Inúmeras reações passaram pelo rosto de Mon após Sam ter dito aquela frase simples, porém cheia de significados. De fato, é possível afirmar que a própria Sam ficara outra vez surpresa consigo mesma por ter externado tal pensamento. Não era de seu feitio agir da forma que estava agindo aquela noite, mas algo na atmosfera daquele lugar estava despertando nela atitudes que até então estavam muito bem escondidas.
— Você é... — Mon não completou o pensamento.
— Eu sou? Vamos, me diga, o que eu sou? — Encorajou, pois ficou interessada.
— Inusitada.
— Que palavra bonita para dizer que eu sou estranha.
— Você é completamente diferente do que lemos nas revistas, ou assistimos nas entrevistas. — Mon continuou. — Então sim, você é uma estranha, Lady Samanun.
— Me chame de Sam.
— Não sei se devo...
— Por uma questão de respeito e blá blá blá? Não precisa, você me chamou de inusitada, logo, estou utilizando mais um pouco disso. Além do mais... — Sam balançou a cabeça, era a sua vez de não completar o pensamento.
— Além do mais? Vamos, me diga...
“Aquele era um tom risonho? ” Sam se perguntou, crispando os lábios rapidamente antes de responder.
— Não gosto que me chamem pelo nome todo. Quem faz isso é apenas a minha avó, e somente em situações em que ela está... — a jovem fechou os olhos e não terminou a frase. Não poderia falar mal da sua avó, e isso quase aconteceu.
— Entendo.
— Entende?
— Meus pais também me chamam pelo nome completo quando são severos comigo. — Mon comentou com a voz tristonha.
— Você parece ser muito certinha para que seus pais fiquem severos com você.
— Você está me elogiando ou me repreendendo?
— Qual dos dois você gosta mais?
Mon riu com certo sarcasmo, e esperou que a outra entendesse que não iria responder. Por outro lado, Sam voltou a se endireitar na cadeira, bebeu mais um gole do café que estava começando a esfriar e empurrou a porção de bolinhos para Mon.
— Coma um.
— Não, obrigada.
— Coma. — Insistiu, não se importando com o olhar que recebeu. — Foram seus pais que te fizeram chorar?
— Por que diz isso?
— Sua voz mudou quando falou deles.
A jovem Mon olhou para Sam, dessa vez impressionada.
— Eu posso ser uma ótima observadora, quando eu quero. — Um sorriso lateral imperceptível foi dado por Sam. — Coma um bolinho.
— Você não vai sossegar enquanto eu não pegar um, não é?
— Não.
Após comer não apenas um, mas dois dos bolinhos, e beber uma quantidade generosa do seu chá, Mon pareceu relaxar um pouco mais, e Sam ficou refletindo se a outra acabaria confirmando a sua teoria por estar um pouco mais a vontade do lado dela, ou se o faria apenas para que pudesse se livrar de sua presença.
“Não seria a primeira vez...”
— Você vai me achar uma boba... — Mon novamente baixou os olhos.
— Me conte, e aí eu digo se acho ou não você uma boba.
— Meus pais tiveram uma discussão, uma daquelas que a gente acha que não vai ter mais solução. Eu não sei o exato momento que a briga começou, eu estava chegando da faculdade, mas não tive coragem de entrar em casa e acabei parando aqui. — Confessou e seus olhos marejaram. — Eu n- eu não queria que eles estivessem brigando, pois eu já penso na possibilidade de eles não se reconciliarem e eu não quero que eles se separem... — Limpou os olhos, bufando em seguida. — E para ajudar, as coisas não estão indo muito bem no local em que faço estágio. Algo me diz que eu serei dispensada, e se isso acontecer, não vou poder mais ajudar em casa, e talvez eu tenha que trancar a faculdade faltando tão pouco para eu me formar e-
— Hey, você não é nem um pouco boba por causa disso. — Sam não a deixou terminar.
— Você realmente ouviu o que eu falei?
— Sim, e eu sabia que outras pessoas tinham feito você chorar. É dolorido saber que pessoas que amamos podem nos fazer chorar e vice-versa, mas isso acontece nas melhores e nas piores famílias. — Ao encarar Mon, observou que a outra estava atenta as suas palavras. — Não pense que minha família se encaixa no quesito de melhores.
— Não cabe a mim dizer nada a respeito da sua família, Khun Sam.
Sam pareceu gostar da forma que foi tratada, soltando um suspiro antes de prosseguir.
— Minha família é complicada. Antes de vir para cá, eu estava em um jantar de negócios com a minha avó. Ela me obriga a participar dessas reuniões insuportáveis, uma vez que sou a herdeira direta do império que ela possui, e se não fosse eu ter inventado uma cólica menstrual, eu provavelmente teria finalizado a noite com alguma proposta para me casar com algum filho daqueles caras. — Fez uma careta.
— Você é contra casamentos?
— Sou contra matrimônios forçados.
— Então você tem a intensão de se relacionar por amor, e não porque existem contratos envolvidos.
— Eu não pretendo me relacionar com ninguém, na verdade.
— Experiências ruins?
— Pelo contrário.
— Então... — Mon fez um gesto com a mão enquanto segurava outro bolinho, incentivando Sam a continuar.
— Minha avó nunca aprovaria.
— Hum... — assentiu Mon, enquanto mastigava. — Acho que entendi.
As duas se calaram, e outra vez Sam desejou poder saber o que se passava pela mente de Mon, cujos olhos agora estavam recuperando certo brilho e doçura, bem diferente de minutos atrás.
“Será que ela está pensando no que acabei de falar? Ela vai ser esperta o suficiente para entender que eu não gosto de me relacionar amorosamente com homens? Eu devo deixar isso claro? ”
— Só para deixar claro...
— Eu entendi, Khun Sam. — Mon se apressou a falar. — Se eu estivesse no seu lugar, eu também iria dizer que não quero me relacionar com ninguém, afinal, chegaria uma hora em que eu não conseguiria mais esconder quem realmente sou, e talvez a garota que estivesse ao meu lado não fosse querer mais esperar, além de não ser justo com ela.
Sam ergueu as sobrancelhas com o que acabara de ouvir.
— Então você, você também...
— Não. — As faces de Mon ficaram extremamente vermelhas. — A verdade é que eu nunca tive a oportunidade de conhecer meninas dessa forma.
— Como não?
— Apenas não tive. E após entrar na Universidade e começar a trabalhar, bem, pode-se dizer que apenas foquei em crescer a nível profissional.
— Compreendo, mas você conseguiria ficar com qualquer garota que quisesse, se quiser. — Sam disse com firmeza, os olhos se cravando em Mon.
— Quem iria querer ficar comigo? — Mon riu, achando aquilo divertido.
— Eu ficaria com você.
Mon gargalhou, o que chamou a atenção de dois clientes que ainda estavam no café; a jovem escondeu o rosto com as mãos, passando-as por seus fios castanhos em seguida, para afasta-los de seu rosto. Os trejeitos não passaram despercebidos por Sam, cuja atenção estava toda na garota, agora mais do que nunca.
— Inusitada e a cada minuto mais surpreendente. — Um sorriso de lado escapou de Mon e Sam retribuiu. — Vou considerar isso um elogio.
— Eu não costumo agir dessa forma.
— Bom saber.
— Mon...
— Sim?
— Os seus pais vão ficar bem, de uma forma ou de outra. Confie neles.
Mon assentiu, aparentemente mais tranquila, e Sam esperava que sua abordagem estranha, mas nas melhores das intenções, tivesse um pouco a ver com isso.
— Obrigada, de verdade.
— Tem algo que eu possa fazer por você?
— Como assim?
— Não sei... — Sam deu de ombros, torcendo a boca por ter se dado conta de que sua xícara de café havia chegado ao fim. — Você disse que está com medo de ser dispensada do trabalho, o que você faz?
— Eu sou estagiária de conteúdo na revista Diversity.
Foi a vez de Sam soltar uma risada um pouco mais alta.
— Então terei que ter uma conversa com a Nita.
— Oh, mas é claro que você conhece a minha chefe! — Mon apertou os olhos. — Peço que não faça isso, Khun Sam.
— Por que não? Posso pedir para ela não te demitir, simples assim.
— Não. — A voz de Mon foi firme. — Eu quero me manter na revista por mérito próprio, e não porque alguém falou com a minha chefe.
Sam apreciou da resiliência da outra. Fez um gesto positivo com a cabeça, formulando uma maneira de poder ajudar Mon e sua situação. Ela poderia simplesmente ter encerrado o assunto quando dissera que os pais dela ficariam bem, mas o interesse que estava sentindo por aquela garota cresceu a cada instante que permaneceu ali, com apenas uma mesa antiga as separando, e agora lutava para se manter na companhia dela até quando fosse possível.
— Já sei, e talvez você goste da solução.
— Sou toda ouvidos. — O tom usando por Mon poderia ser provocador, mas Sam não teve essa certeza.
— Produza um conteúdo meu. Uma entrevista exclusiva, para ser mais precisa.
— Uma exclusiva com você? — Agora a incredulidade se fazia presente nas faces de Mon.
— Sim.
— E qual seria o viés dessa entrevista? — As mãos da jovem pousaram na mesa, e agora ela soava mais profissional. — Você já estampou inúmeras capas e editoriais, já falou a respeito de mais assuntos que eu possa citar. Com todo respeito, Khun Sam, você ainda vende muito, mas para que eu consiga realmente manter o meu emprego, vou precisar de mais do que isso.
— E qual a garantia que você tem de que eu falei a verdade em todas as entrevistas que concedi?
Os olhos de Mon semicerraram, agora interessados em como ela poderia usar tudo aquilo em benefício próprio; Sam soube no mesmo instante que ela aceitaria a proposta, já que ela mesma o faria se estivesse na situação que a outra estava.
— Feito. Bem, nós podemos combinar um dia e horário para essa conversa, não? Está ficando tarde, eu preciso voltar para casa e acredito que você também. Pode me passar algum contato? Por que você está rindo?
— Desculpe. — Sam respirou fundo e voltou com sua expressão de seriedade, ou quase isso diante daquele momento. — Nós vamos fazer essa entrevista agora.
— Como é?
— É isso mesmo. É pegar ou lagar.
— Agora eu não posso, Khun Sam. Está tarde, e eu preciso ir para casa.
— É pegar ou largar. — Repetiu, desejando com todas forças que a outra aceitasse. Sabia que estava arriscando muita coisa ali, mas não queria deixá-la ir. Tudo bem que poderia ir atrás dela na Diversity, mas não queria arriscar.
“E se tudo isso for um sonho e essa garota for a manifestação do que eu desejaria que fosse um encontro descompromissado e-“
— Certo... Hm... — Mon a trouxe de volta.
— O que foi?
— Somos as últimas clientes, e se não formos embora, eles não irão nos expulsar.
As duas estavam sozinhas e ao olharem para um relógio pendurado na parede oposta, se deram conta que passava da meia-noite.
— E isso é algo ruim? — Sam franziu um pouco os olhos.
— As pessoas precisam descansar.
— Certo. Vamos para a minha casa, então. — Decidiu Sam, se levantando e indo até o balcão. — Com licença, pode fechar a conta de nós duas?
— Sua casa? Como assim? — Mon levantou em seguida, e Sam pela primeira vez pôde reparar na garota por inteiro. Ela estava de jeans e tênis, e era um pouco mais baixa que Sam. A menina apanhou uma mochila com tons rosados e a imagem fez Sam sorrir internamente.
— Sim, na minha casa, ou você quer ir para outro lugar? Você conhece outro lugar onde possamos conversar tranquilamente? — Sam viu o valor da conta que Malee lhe mostrou e fez o pagamento com seu cartão, que foi retirado de um bolso interno do sobretudo. — Engraçado, vocês têm acesso a internet para realizar pagamentos, mas não disponibilizam para os clientes. — Comentou em seguida.
— Regras da casa. E outra, se houvesse sinal, você teria se conectado ao seu celular ou a ela? — Malee um gesto de cabeça para Mon, que observava a interação das duas.
— Touché. — Sam se deu por vencida.
— A Honorável Lady pagou para você, querida. — Malee informou a Mon. — Espero que o fim de noite de vocês seja agradável e cuidem-se.
Assim que saíram do estabelecimento, as duas puderam ouvir a porta sendo trancada e as luzes imediatamente apagadas.
— Para quem não expulsa os clientes, Malee estava com muita pressa de fechar. — Sam disse de forma até divertida.
— Você não precisava ter pago a minha parte. — Mon falou abruptamente.
— Mas eu quis.
— Mas não era necessário.
— Mas eu quis. Não posso fazer uma gentileza?
— Você está fazendo muitas gentilezas para mim essa noite.
Era verdade. Sam sempre fora educada com desconhecidos, mas seu lado gentil vivia escondido.
— Não dizem por aí que todos podem ter seu dia de sorte? Considere que esta é sua noite de sorte.
— Inusitada, surpreendente, e agora vejo que é prepotente. — Mon colocou uma alça da mochila nos ombros e começou a caminhar para fora da travessa, em direção à avenida cujos carros tinham acesso. Percebeu que Sam estava lhe seguindo.
— Mon, espere... — apertou o passo para se colocar ao lado dela. — É, talvez eu seja prepotente. Eu também sou muitas coisas, a maioria delas ruins.
Mon a encarou, mas Sam continuou olhando para frente.
— Eu estou trabalhando para melhorar.
– Está? — O questionamento descrente de Mon fez com que Sam mexesse os ombros incomodada.
— Sim, mas você deve saber que certas mudanças não ocorrem da noite para o dia.
— Você ter falado comigo faz parte dessa sua mudança de comportamento?
— Totalmente.
Mon continuou caminhando, dessa vez se manteve sem silêncio, ao passo que Sam estava começando a ficar mais ansiosa para saber tudo o que a outra poderia estar pensando a seu respeito.
“Desde quando você se importa com que os outros realmente pensam de você? ”
— Mon... — Chamou e recebeu um olhar terno, o que a pegou desprevenida. — Tudo bem, hm, nós podemos agendar para outro di-
— Não, agora eu quero te entrevistar. Vou ligar para os meus pais e mandarei uma mensagem para Yuki, somos amigas de infância e estudamos juntas desde então, ela vai me dar cobertura.
Sam apenas fez que sim com a cabeça, talvez com um pouco mais de entusiasmo do que deveria demonstrar, e se afastou um pouco para dar privacidade a outra. Enquanto isso, chamou um táxi para elas. Poucos minutos depois, ambas estavam no banco traseiro de um automóvel, sem trocar palavras, e antes que a quietude se tornasse desconfortável demais, chegaram ao destino.
Ao desembarcarem, Sam percebeu uma breve expressão de espanto passar pelo rosto de Mon, e ficou se perguntando o que ela esperava encontrar. A jovem herdeira se aproximou do portão e digitou um código de acesso, liberando a entrada e dando espaço para a outra acessar sua propriedade.
— Você vive aqui sozinha? — Indagou Mon enquanto caminhavam até a porta de entrada, seus olhos percorrendo toda a área externa e parando por alguns segundos no espaço da piscina.
— Sim. Conquistei esse direito quando minha avó passou a confiar em mim e nas minhas escolhas.
Ao entrarem na casa, Sam bateu palmas e as luzes do ambiente foram acionadas. Ela se virou para Mon, que estava visivelmente deslocada.
— Eu vou tirar esse vestido e colocar algo mais leve, fique à vontade. — E subiu as escadas em direção ao seu quarto.
****
Sozinha, Mon soltou o ar que nem sabia estar presos em seus pulmões.
“Eu não acredito que estou na casa dela”.
A garota passou novamente as mãos pelo rosto, respirou fundo e tentou focar sua atenção para o que tinha que fazer nos próximos minutos, ou horas, ela não sabia ao certo quanto tempo mais tudo aquilo poderia durar.
“Eu devo estar sonhando”.
Mas nem em seus sonhos mais malucos, que eram muitos, diga-se de passagem, o subconsciente de Mon poderia arquitetar algo tão vivido como aquele. Era real até demais, e isso foi comprovado quando seu celular vibrou em seu bolso. Verificou a mensagem de Yuki, dizendo que mentiria por ela caso seus pais perguntassem algo sobre essa noite, mas não antes de colocar um adendo, dizendo que não a deixaria em paz se depois não lhe contasse o motivo daquele pedido de ajuda.
Mon não contara para sua amiga sobre Sam, inventando a desculpa de que estava com uma outra garota do local em que estagiava, uma que ela não conhecia. Dependendo de como tudo se desenrolasse, ela contaria a verdade para Yuki, não conseguiria manter aquilo em sigilo por muito tempo, principalmente dela, que era sua companheira no quesito fofocar e surtar por pessoas famosas.
A Honorável Lady estava sempre em pauta entre elas, mas nunca cogitaram ter a chance de conhecê-la pessoalmente.
“E agora eu estou na casa dela! É, talvez ela esteja certa e essa seja a minha noite de sorte. ”
Ao caminhar até uma sala que continha um sofá e uma televisão, Mon reparava na casa que Sam vivia e nos móveis e decoração minimalista e de cores frias. Era bonito, não negaria caso lhe perguntassem, mas ela colocaria um pouco mais de cor aqui ou ali. Alguns painéis e quadros com cores quentes, quem sabe, além de flores. Flores sempre deixam qualquer espaço mais alegre.
Ela se sentou na ponta do sofá, pousando sua mochila ao lado; retirou de dentro dela uma agenda para fazer anotações, caneta, um pequeno gravador e os colocou em cima da mesa de centro, também deixando ali seu celular.
Pousou as mãos nos joelhos e buscou se concentrar, fazendo uma busca mental de todas as entrevistas que já havia assistido e lido de Sam, tentando recordar pontos que poderiam ser importantes de serem retomados e outros nem tanto. Mon estava sentindo a responsabilidade pesar em seus ombros, afinal, uma coisa era ter tomado um café com ela, cuja conversa, apesar de peculiar, poderia ter simplesmente acabado ali; outra coisa era estar na residência de uma modelo internacional e futura herdeira de uma grife renomada.
“Se controle, Mon. Você consegue, se você fizer tudo certinho, essa vai ser a chance da sua vida. ”
— Está com dor de cabeça?
A voz de Sam tomou o ambiente. Mon, que havia fechado os olhos sem perceber, os abriu viu a figura da outra se aproximando, agora trajando um conjunto de calça e blusa na cor cinza, cujo tecido Mon poderia jurar ser de seda. Esquadrinhando o rosto da recém-chegada, notou que ela havia retirado a maquiagem. Não imaginava que ela fosse voltar, literalmente, de rosto lavado, mas esse detalhe fez com que Mon ficasse ligeiramente mais confortável, sem mencionar o fato de que a achou ainda mais bonita.
— Dor de cabeça? — Mon conseguiu comentar.
— Você estava de olhos fechados e fazendo uma cara esquisita.
— Estava me observando há quanto tempo?
— Poucos segundos.
— Ah, hm, não, não estou com dores de cabeça, estava apenas pensando.
— Já te falaram que você fica com uma ruguinha na testa enquanto está pensando? — Sam se aproximava e sentou-se na outra ponta do sofá.
As bochechas de Mon coraram ao ouvir aquilo, contudo, ela buscou disfarçar e optou por não responder. Reparou que os olhos de Sam foram até os objetos que colocara por sobre a mesa e não demorou para outro questionamento surgir.
— Você anda com um gravador na mochila?
— Eu gravo as aulas que são importantes.
— E vai gravar a nossa conversa?
— Se você me permitir, eu irei.
Sam parecia ponderar a proposta, maneando a cabeça e crispando os lábios.
— Não sei se me sentirei a vontade com você gravando essa conversa.
— Por que não?
— Você terá muito o que usar contra mim.
Mon soltou uma risada seca.
— Você confiou em mim o suficiente para me trazer aqui, e não vai confiar em eu fazer uso de um gravador?
— Não.
— Uau... Inusitada, surpreendente, prepotente, e agora contraditória. O seu perfil vai ficar realmente interessante, Khun Sam.
— É exatamente isso que eu quero. — Sam rebateu. — Mas sem gravação.
— E como eu irei provar que estive com você? Nita não vai acreditar em mim quando eu aparecer com esse material para ela. — Mon buscava argumentar, seria tão mais simples se pudesse apenas gravar.
— Não seja por isso, vou ligar para ela. — Apanhou o celular do bolso da sua calça.
— Espera, você vai ligar agora? — Incrédula, Mon tinha os olhos arregalados e até ameaçou avançar para mais perto, no intuito de impedir aquela ligação.
— Sim, algum problema? — Sam franziu a testa.
— Sim! Nita não pode saber que estou na sua casa! — Mon soou quase desesperada.
— Confie em mim.
Ressabiada, Mon manteve os olhos atentos na outra, sentindo seu coração disparar a cada movimento que Sam fazia com seu celular. A modelo colocou o aparelho no viva voz e fez o sinal universal do silêncio para Mon conforme a ligação era completada.
— Alô? Sam? — A voz de Nita preencheu a sala e Mon prendeu a respiração.
— Boa noite, Nita.
— Boa noite? Você me ligando a essa hora? Justo você?
— Tão surpresa assim?
— Estou sim, para falar bem a verdade. Pessoas do seu porte apenas me ligam com interesses bem específicos, ainda mais a essa hora, sorte sua que estou longe de dormir. — Puderam ouvir uma risada e vozes ao fundo.
— Serei breve. Hoje eu encontrei uma das suas funcionárias, acho que o nome dela é Korn-Ka, enfim, Mon alguma coisa. — Errou o nome de Mon de propósito.
— Mon? Ela é uma das estagiárias. Ela aprontou alguma coisa?
— Oh, não, ela não aprontou nada. — Sam segurou uma risada. — Eu que fui falar com ela, na verdade.
— Como é? Você conversou com ela?
— Sim, a encontrei numa cafeteria hoje à tarde — mentiu o horário — e-
— Espera, você esteve em um café nesta tarde e conversou com minha estagiária? Você está conversando com pessoas que não conhece agora?
— Existem pessoas que conversam com desconhecidos a todo momento na internet. — A voz de Sam foi de uma simplicidade impar ao dizer isso.
— Mas você NUNCA fala com ninguém.
O fato de Nita ter enfatizado a palavra nunca fez com que Mon sentisse um arrepio percorrer sua nuca. “O que Khun Sam viu de especial em mim? ”
— Sempre existe uma primeira vez. — Sam fingiu que não ouviu. — De qualquer forma, eu gostei do jeito dela, e me ofereci para dar uma entrevista. Vamos conversar nos próximos dias, sendo assim, quando ela aparecer para lhe mostrar o material, saiba que é verdadeiro.
— Sam, espere um momen-
— Minha avó está me chamando, preciso desligar. — E desligou antes que Nita falasse algo mais. — Ela vai te ligar ou mandar mensagem.
Dito e feito. O celular de Mon tocou no mesmo instante. A garota olhou para Sam, que a deixou decidir se atendia a ligação ou não. Mon sabia que se não atendesse, Nita não lhe daria sossego. Sendo assim, aceitou a chamada e colocou no viva voz.
— Al-Alô? — Mon fingiu fazer uma voz confusa.
— Mon? Estava dormindo? Eu te acordei?
— Senhorita Nita? — Mon fingiu um bocejo, esperando que a outra escutasse. Sam prendeu um riso. — Sim, eu estava. Aconteceu algo?
— Você encontrou Sam hoje?
— Que Sam? — Se fez de desentendida.
— Sam! A modelo! A Honorável!
— Ah sim... Sim, nos vimos hoje à tarde em um café. Ela me ofereceu uma entrevista, o que achei bem esquisito da parte dela, mas aceitei...
— Ela acabou de me ligar e me contou isso, afirmando que tudo o que ela disser a você será verdade. Ela já te adiantou alguma coisa?
— Nadinha. — As duas se encararam. — Vamos ver se ela vai mesmo entrar em contato para marcarmos essa entrevista...
— Pois é, a Sam é imprevisível em alguns momentos. Enfim, volte a dormir, nos falamos depois. — E desligou.
Mon balançou a cabeça e reparou que Sam olhava com curiosidade a foto do cachorro que estava como papel de parede do seu celular.
— O nome dele é Singha. — Contou com uma voz amorosa.
— Ele é fofo. Eu gosto de cães, uma pena que nunca pude ter um. Enfim... — voltou os olhos para Mon. — Acho que está tudo resolvido quanto a Nita. — Sam pareceu satisfeita.
— Pelo menos por enquanto.
— Me empresta o seu gravador?
Ela se aproximou um pouco e estendeu a mão, e não havia nada que Mon pudesse fazer a não ser entregar o pequeno objeto para a outra, que conferiu se ele estava mesmo desligado e o colocou debaixo de algumas almofadas.
— A moda antiga, então... — Mon apanhou agenda e caneta, se acomodando da melhor forma no sofá e usando outra almofada como apoio.
Na outra ponta, era nítido que Sam também tentava se ajeitar, e Mon poderia ficar horas lhe observando, mas não queria que a outra percebesse que estava olhando em demasia.
— No que está pensando. — Sam perguntou, aparentemente mais confortável.
— A pergunta inicial sempre é a mais difícil.
— Pergunte qualquer coisa.
— Okay... — inúmeras perguntas pipocavam na mente de Mon, e se havia algo que ela não queria, era que Sam ficasse desconfortável. Tudo bem que fora a própria Sam que criara aquela situação, dizendo estar disposta a falar sobre qualquer assunto. Todavia, Mon desejava que aquele espaço fosse um ambiente seguro e sem julgamentos para ambas as partes, uma vez que ela mesma poderia compartilhar algo que comumente não diria para outras pessoas. — Você deu a entender que não disse a verdade em algumas entrevistas anteriores, por que decidiu fazer isso agora?
— Talvez eu esteja cansada de me comportar de uma certa maneira, sendo que sou totalmente o oposto.
— Pode citar um exemplo? — Intercalando seus olhos entre Sam e sua agenda, Mon começou a realizar suas anotações.
— Hm... Todos dizem que estou no alto de um pedestal, local em que poucos conseguem me alcançar... — fez uma pausa e crispou os lábios. — A verdade é que eu fui colocada lá, eu não subi necessariamente com os meus próprios pés.
— Onde você estaria se estivesse andando com seus próprios pés?
— Provavelmente nos primeiros degraus, tendo tropeçado logo no primeiro. — Sam riu. — Eu sou muito desastrada, não sei como consigo me equilibrar nos saltos que me pedem para usar.
— Seu anjo da guarda deve fazer hora extra — as duas riram levemente. — Você não gosta dos saltos que usa?
— Eu gosto de alguns, mas muitos esperam que eu os esteja usando a todo momento, e é exatamente isso que me cansa.
— Então você está cansada da carreia de modelo. — A afirmação em tom de pergunta foi arriscado, mas Mon a proferiu mesmo assim.
— Sim. Sempre me perguntam isso, mas essa é a primeira vez que eu respondo com sinceridade.
— E por que não abandonou a carreira antes? Você ainda não o fez por achar que tem alguma espécie de dívida com sua avó, por ela ter acolhido você e suas irmãs após o falecimento dos seus pais?
Os olhos de Sam faiscaram, mas não era segredo nenhum o que ocorrera com a família dela; Mon apenas repetiu o que os jornais divulgaram na época.
— Eu nunca pensei nisso como uma espécie de dívida. — Sam escolhia as palavras com cuidado. — Mas as coisas foram acontecendo, e quando me dei conta, eu estava envolvida demais nos negócios que minha avó propôs para mim. Eu, hm, eu fui colocada no pedestal, como eu disse, mas também deixei que o fizessem.
— Você teve a chance de negar as propostas?
— Em partes sim, se eu tivesse feito isso desde o começo, mas uma parte de mim também gostou da atenção recebida. Eu era bem jovem, queria ser vista, admirada e amada. Não serei hipócrita e negar que não aproveitei certas regalias.
— Mas agora você está cansada.
— Sim.
— Você comentou que “coisas foram acontecendo”... O que realmente aconteceu?
A caneta que Mon segurava deslizada pelo papel, e os olhos de Sam iam do objeto para o rosto da garota, que estava concentrado a ponto de ela ter até receio de fazer alguma brincadeira e deixá-la brava por isso; mas só de pensar possibilidade, Sam riu internamente, cogitando ou não se deveria fazê-lo.
— Minha avó sempre foi uma pessoa rígida. Ela é de outra época, isso está intrincado dentro dela de uma maneira que ninguém consegue fazê-la mudar de opinião. Sua palavra é lei e desafiá-la pode levar a consequências muito graves.
— Você é a neta perfeita?
— Estou longe de ser perfeita, mas na frente dela eu sempre procurei ser.
— Até agora. — Comentou Mon.
Sam sorriu e continuou.
— As responsabilidades caíram em peso nos meus ombros quando as minhas irmãs mais velhas foram embora. — Seu tom ficara melancólico, e Mon apenas conseguiu perceber isso pois estava atenta a cada mínimo detalhe da outra, desde as expressões faciais, até a linguagem corporal.
— Se sente à vontade de contar o motivo de terem ido embora? Você parece chateada ao se lembrar delas.
Sam umedeceu os lábios e confirmou com a cabeça.
— Neung é minha irmã mais velha. De início, ela que sucederia os negócios da família, seus estudos estavam voltados para isso, mas Neung... — suspirou — Ela queria viver da arte. Literalmente. Ela fugiu de casa e sinceramente, eu não faço ideia de onde ela está. Ela trocou de telefone celular, deletou redes sociais e nunca mais nos vimos.
— Você sente raiva dela? Por ter conseguido conquistar essa liberdade mesmo que de forma brusca? — Mon estava séria e imparcial nas suas colocações, procurando não demonstrar sentimentos enquanto trabalhava.
— A partir do momento que eu consegui enxergar e compreender os motivos dela, eu parei de julgá-la. — Admitiu Sam. — Ela gostava de pintar, ainda tenho alguns quadros dela guardados em meu sótão, os poucos que consegui salvar do expurgo da minha avó.
— E por que não os pendura? Você tem muitas paredes livres. Um pouco de cor não faria mal a ninguém.
Sam arqueou uma das sobrancelhas, surpresa com a audácia de Mon em dar palpites sobre a maneira como sua residência estava decorada.
— Por que acha que as obras da minha irmã possuem cores?
— É só um palpite. Eu posso vê-las? — Mon foi atrevida, mas não custava tentar, uma vez que ficou curiosa a respeito.
— Vou pensar no seu caso. — Sam fingiu fechar a cara.
— Pense com carinho... Hum, e quanto a sua outra irmã?
Uma sombra se instalou nos olhos de Sam, que marejaram no instante que Mon fez tal menção.
“Eu estou indo longe demais, é melhor eu parar pode aqui...”, apesar do pensamento, Mon não proferiu as palavras em voz alta, já que Sam voltou a falar.
— Song partiu cedo demais.
— Partiu no sentindo... — a ambiguidade da outra deixou Mon brevemente confusa.
— Ela sofreu um acidente de carro e não sobreviveu.
Os olhos de Mon se arregalaram, assim como pôde sentir seu coração se apertar de um jeito horrível. Sendo filha única, não imaginava como era perder uma irmã pouco tempo depois de ter perdido os pais. A compaixão lhe invadiu, e aos poucos começou a compreender os motivos pelos quais Sam era o que era. Não deveria ser fácil, ainda mais em um ambiente nada acolhedor, como vinha observando.
— Eu sinto muito, Khun Sam.
Sam esboçou um sorriso tão ínfimo que nem poderia ser chamado de sorriso.
— Mas, hm... — Mon dosava suas palavras — Desculpe o comentário, mas eu não me recordo de algo do gênero ter saído nos jornais, como ocorreu com seus pais...
— Minha avó gastou uma pequena fortuna escondendo esse episódio, e não foi nem pelo acidente em si, mas sim pelo ocorrido no hospital. — As dúvidas que pairaram ao redor de Mon foram visíveis, e Sam prosseguiu. — Minha irmã amava uma mulher.
— Oh...
— Ice, a namorada da minha irmã, foi a primeira a chegar ao hospital; isso ocorreu pois Song colocou o número dela como contato de emergência. Nossos pais nos ensinaram a andar com um papel com alguns telefones anotados junto aos nossos documentos, caso algo acontecesse. Ice era a primeira da lista, Song a colocou como primeira.
Sam sorriu, quase saudosa ao lembrar deste pequeno detalhe, mas logo sua expressão mudou mais uma vez.
— Mas isso não quer dizer nada quando é necessário tomar decisões.
— O hospital não deixou Ice autorizar nada.
— Não. Cinco minutos e minha irmã poderia ter sido salva. — Sam limpou o canto dos olhos rapidamente. — Obviamente minha avó fez um escarcéu, não pelo fato do hospital não ter autorizado Ice a fazer algo, mas sim porque ela acusou Ice por tudo o que estava acontecendo.
— Céus! Eu nem consigo imaginar como Khun Ice deve ter ficado...
— Ela ficou destruída, Mon. Eu chamei Tee, Jim e Kade para ajudá-la a ir para casa. Eu mesmo teria feito, mas minha avó, ela... eu não consegui no momento. — Sam balançou a cabeça negativamente. — Demorei semanas para conseguir conversar com Ice, e foi bem dolorido ver tudo de maravilhoso que minha irmã poderia ter vivido ao lado dela.
— Vocês ainda têm algum contato?
— Pouco, mas eu sei que ela está bem e que está se permitindo amar novamente.
Os pensamentos de Mon estavam a mil, assim como a caneta em suas mãos, que anotava aqueles fatos da melhor forma que conseguia. Eram muitas as informações que estavam lhe sendo passadas, fatos que não imaginaria obter, e este ponto envolvendo Khun Song e sua morte poderia mudar completamente a visão que muitos tinham a respeito das Honoráveis Ladies.
— Khun Sam, eu sei que você disse querer contar tudo, mas-
— Não ouse omitir essa parte! — A voz de Sam foi ríspida, mas ela logo se desculpou com um gesto com a mão. — As pessoas precisam saber, e quem sabe assim, outros não se mobilizem e lutem para que nossos direitos sejam reconhecidos.
— Mas e sua avó?
— Já passou da hora de saberem que ela é uma pessoa preconceituosa, arrogante e que é capaz de passar por cima de tudo e de todos para que tudo saia do jeito que ela quer.
A dureza nas palavras de Sam fez com que Mon sentisse receio a respeito do que estava fazendo, o teor e peso daquela entrevista estava crescendo exponencialmente, e a responsabilidade seria toda dela, mesmo que a Diversity lhe dessa toda assistência.
— Nossos direitos, você disse? — Mon prosseguiu.
— Sim. Mais cedo você comentou que poderia chegar o momento em que não seria mais possível esconder quem sou, ou algo assim. Não estou cansada apenas dessa vida de passarela, mas também de não poder ser eu. O meu eu de verdade.
Mon abriu um sorriso.
— Você tem noção de que se essa matéria for aprovada, esse será o seu coming out?
— A matéria será aprovada. — Sam possuía uma certeza inabalável. — Nita não vê a hora de me expor, sempre comenta que passou da hora.
— Pelos céus, não vai me dizer que você e minha chefe já... — Mon fechou os olhos e colou a mão na testa, jogando o rosto para trás.
— Ela tentou. — Sam ria do modo que a outra ficou. — Eu que nunca lhe dei esta liberdade. Nita não faz meu tipo.
— Qual o seu tipo de mulher, então?
Mon se arrependeu no mesmo instante de ter perguntado aquilo. Seu rosto pegou fogo quando Sam cravou os olhos em sua face, e o jeito com o qual suas mãos tremeram não foram normais. Ainda bem que estava sentada, pensou debilmente enquanto fingia escrever e tentava esconder um pouco do rosto com seus fios compridos.
— Nita e eu somos muito similares. O sexo poderia até ser bom, se eu dissesse que aceitaria, mas não seriamos compatíveis em outros pontos de uma possível relação. — O tom de Sam foi divertido ao responder.
— Certo, hm, essa parte eu vou omitir. — Mon tentou fazer com que sua voz não falhasse, mas não teve tanta certeza se dera certo. — E o que você busca em uma relação?
Sam mudou de posição no sofá, esticando as pernas e as apoiando em sua mesa de centro; Mon soube que a outra estava refletindo sobre o que responder, por isso aguardou pacientemente.
— Sinceramente? Eu não sei o que busco em uma relação.
— Como não sabe? — Inquiriu Mon, sua atenção se redobrando.
— Minhas relações sempre foram rasas demais para eu saber o que realmente queria, e isso também vale para a época que saia com alguns garotos.
— E por qual motivo elas permaneceram rasas? Você colocava limites pois tinha receio de aprofundar sentimentos? E levando em consideração que você ainda não se assumiu publicamente, você tem medo de não conseguir suprir possíveis expectativas da pessoa que estaria ao seu lado, e como foi comentado, ser injusta com ela?
— Uau. — Impressionada, Sam mirou a garota sentada na outra ponta do sofá, e se antes ela demorou alguns momentos para responder pois estava escolhendo a melhor forma de fazê-lo, agora as palavras haviam sumido de verdade.
— Você tem medo de se relacionar.
— E você não? — Sam devolveu.
— Talvez a minha forma de receio seja diferente da sua.
— E existe tal coisa?
— Acredito que seja normal sentir certo receio em se relacionar com alguém... — Mon baixou a caneta, colocando a almofada que apoiava seu caderno de lado. — Se realmente queremos estar com alguém, é preciso baixar a guarda, se permitir, e uma vez fazendo isso ficamos vulneráveis a qualquer coisa. — Fez uma pausa breve. — Acho que a grande diferença é você ter esse receio, mas ter coragem o suficiente para assumir e não deixar que nenhuma insegurança atrapalhe a relação, e a outra é o medo paralisante, aquele que só vai minguar qualquer possível oportunidade de felicidade.
Ambos os olhares se cruzaram, à medida que Mon buscava entender o motivo do descompasso em seus batimentos cardíacos.
“Que diabos eu acabei de falar? ”
Ela queria baixar os olhos, e se já havia um certo grau de magnetismo que sempre a fazia olhar Khun Sam, agora isso já estava atravessando os níveis considerados naturais. Por quanto tempo era possível encarar alguém sem que isso se tornasse esquisito? Ela não sabia a resposta para a própria pergunta, assim como não tinha noção do que fazer em seguida, ela só não conseguia mais parar de olhar para a outra.
— Eu estou trabalhando nisso... — Sam disse baixinho.
— No que?
— No medo paralisante. Eu busquei ajuda profissional poucos meses depois que Song... — sua voz falhou ligeiramente. — Eu estou, hm, um processo lento, sabe? E você é a primeira pessoa a saber que estou fazendo terapia.
Mon não contava com aquela declaração, mas depois de feita, a jovem conseguiu vislumbrar a vulnerabilidade de Sam através de seus olhos castanhos, que pela primeira vez desde que se encontraram no café, estavam doces e bem mais convidativos do que estavam anteriormente.
— O fato de você ter buscado ajuda é um dos maiores atos de coragem que você poderia ter feito por si mesma, Khun Sam.
O carinho contido na sentença de Mon fez com que Sam se levantasse do sofá de maneira abrupta e marchasse para fora dali. A menina coçou a nuca e crispou os lábios, ciente de que talvez fora longe demais, apesar de ter dito apenas a verdade, baseado em tudo que ouviu.
Apanhou novamente sua agenda e fez mais algumas anotações, e ao perceber que não estava mais sozinha, levantou os olhos e viu que Sam retornara e agora lhe entregava um copo de água. Mon aceitou e bebeu, tentando identificar as expressões de Sam, cujos olhos aparentavam estar um pouco vermelhos, mas que fora esse detalhe, voltaram a seriedade habitual.
— Eu acho que podemos encerrar. — Falou de maneira vaga, evitando olhar para Mon. Ela pegou o gravador que escondeu atrás da almofada e o desligou. — Aqui, está tudo documentado. — Entregou o objeto para a garota.
— Você gravou... — estranhamente, não ficou surpresa.
Sam deu de ombros.
— Se eu conheço Nita, ela também vai querer uma sessão de fotos para estampar a capa da revista e todo o resto...
— Eu acharia estranho se ela não solicitasse. — Comentou Mon.
— Diga a ela que eu concordo, mas não quero nada glamoroso. E quanto menos pessoas souberem desse editorial, melhor. Sua chefe vai gostar do elemento surpresa.
— Considere feito.
— E eu sei que também está tarde, então vou preparar o quarto de hóspedes para você descansar.
— Certo, mas eu posso fazer mais uma pergunta? Para finalizar... — Mon mal deu atenção ao que Sam dissera.
Sam fez um gesto afirmativo com a cabeça, sentando-se no braço do sofá.
— O que você espera do seu futuro?
Aquela era uma pergunta que Sam já havia respondido antes, mas agora Mon esperava conseguir uma resposta completamente diferente após tudo que fora compartilhado.
— Eu espero... quero... Eu quero tentar reencontrar a minha irmã, e me desculpar. — Sam conseguiu dizer, seus olhos estavam fitando as próprias mãos. — Também gostaria que minha avó me entendesse, ou pelo menos me enxergasse um pouco, não sei. Eu realmente não sei, Mon.
— Eu posso florear um pouco essa parte, se você permitir.
— Tudo bem. — Sam parecia exausta.
— Mais uma pergunta... — após anotar o que precisava, Mon fechou a agenda e a colocou na mesa de centro.
— Você disse que a anterior era a última.
— Eu menti.
— Diga.
— Você ficaria comigo?
A resposta não veio através de palavras. Sam desviou os olhos de suas mãos e os focou em Mon, que tentava manter a expressão a mais neutra possível, contudo, era possível testemunhar o quanto estava nervosa. A modelo se aproximou lentamente, invadindo o espaço pessoal de Mon pela primeira vez; retirou a almofada que estava no colo da garota e com a mão direita, fez caminho pelo braço esquerdo de Mon, subindo por seu ombro e pousando na parte de trás do pescoço, usando seus dedos para acariciar a nuca da outra.
Mon sentia todo seu corpo arrepiar com os toques de Sam e engoliu em seco conforme observava o rosto dela se aproximar do seu lentamente; parecia que o mundo estava girando em câmera lenta, e a garota focalizava cada pedacinho do rosto de Sam, querendo gravar o que poderia em sua mente, que processava muitas informações e novas sensações simultâneas para que fosse capaz de agir com coerência.
A jovem estagiária conseguia sentir a respiração de Sam, seu coração parecia que iria sair por sua boca, e ao passar seus dedos pelo rosto dela e descer por seu pescoço, poderia jurar que sentiu a frequência cardíaca da Honorável Lady mais descompassada que a sua. Inexplicavelmente isso a fez sorrir, e sem conseguir esperar o resultado de quem sairia perdedor daquela provocação velada, que seria claramente ela, Mon beijou Sam, que retribuiu no mesmo instante.
Seus corpos se aproximaram de tal forma que seria possível discutir com veemência se dois corpos poderiam ou não ocupar o mesmo espaço. O aperto que Sam desferiu na nuca de Mon ganhava mais força, e esta, ao mesmo tempo em que sentia crescer a necessidade de mais contato, não queria transparecer o quanto estava desejando a mulher que beijava.
A primeira mulher que beijava.
Sam percebia que seus pulmões estavam começando a clamar por um pouco de ar, mas ela não queria se afastar dos lábios de Mon, que assim como seus olhos, eram adocicados e ela estava mais do que ciente de que era um gosto ao qual poderia se viciar facilmente. Os braços de Mon lhe abraçaram pelo pescoço, e ela aproveitou a deixa para inclinar seu corpo, no intuito de fazer com que Mon se deitasse em seu sofá.
— Khun Sam...
As mãos de Mon escorregaram pelos ombros de Sam e lhe afastaram ligeiramente; estavam ofegantes, e Sam deslizou as pontas de seus dedos pela face a jovem, tocando delicadamente os lábios dela, que deixaram um terno beijo nas digitais. Sam sentiu seu corpo arrepiar de maneira diferenciada, e numa voz rouca, indagou:
— Você quer continuar? — A possibilidade de Mon dizer que não existia, afinal, Sam tinha conhecimento que a garota nunca havia beijado outra mulher antes.
Mon deu consentimento na forma de um beijo, que se tornou mais urgente conforme as mãos de ambas as mulheres começaram a apertar cintura e quadril uma da outra. Sam não demorou a pedir passagem para sua língua, cujo toque retribuído por Mon foi exatamente o que ela ansiava para dar o próximo passo.
— Vamos para o meu quarto. — Sam falou um tanto ofegante.
Por sua vez, Mon apenas se deixou ser conduzida para aquele que seria um final de madrugada que não iria esquecer tão cedo.
****
— É loucura pensar que seis meses se passaram desde aquela noite, não?
— Desculpe, o que disse? — Sam balançou a cabeça, voltando a se situar no tempo presente.
— Onde você estava? — Um sorriso lateral se formou nos lábios de Mon, cujos olhos observavam a outra enquanto ela bebia mais chá.
— Voltei seis meses atrás por alguns segundos. — As bochechas de Sam esquentaram um pouco. — Mas eu concordo, é loucura pensar em tudo que aconteceu depois que eu lhe concedi a entrevista.
— Até hoje eu me pergunto o porquê eu.
— Estávamos no lugar certo e na hora certa, apenas isso.
— E a minha cara de choro amoleceu o seu coração de pedra, pode admitir, Khun Sam.
— Não tenha a menor dúvida quanto a isso. — Sam não desviou os olhos de Mon, e ao notar que a garota ficara acanhada com a intensidade do olhar que recebeu, abordou outra estratégia, mas não fugindo do assunto. — Eu nunca soube ao certo o que realmente aconteceu quando você apresentou a pauta para Nita.
Mon soltou uma pequena gargalhada com as recordações que voltaram a sua mente.
— Foi um inferno! — Seu tom era engraçado. — Mesmo você tendo ligado para ela e dito que tudo seria verdade, ela estava duvidando de mim.
— Isso não me surpreende. — Sam virou os olhos. — Confesso que também desconfiaria, afinal, eu falei sobre assuntos que nunca havia conversado com ninguém antes, exceto a minha terapeuta.
— Nita só acreditou quando ouviu a gravação. Fico agradecida por você ter ligado o aparelho sem eu ter notado.
— Eu não deixaria você enfrentar a Nita sem provas concretas, eu apenas não ia me sentir à vontade com o gravador bem no centro da mesa; deixar ele escondido foi a solução.
— Tenho que admitir que foi uma boa estratégia, talvez eu não tivesse conseguindo elaborar boas perguntas se soubesse que estava sendo gravada.
— Eu tenho ótimas estratégias quando o assunto não é a empresa que acabei de assumir.
O rosto de Sam se fechou e CEO apoiou um dos cotovelos na mesa, deixando o rosto apoiado na própria mão. Seus olhos focaram em algum ponto longe, e Mon, observando a cena, soube que do mesmo modo que acontecera com ela, pessoas estavam fazendo Sam chorar, mesmo que esta não demonstrasse. A outra mão de Sam estava pousada na mesa, e Mon deslizou a sua por sobre a dela, num gesto singelo de carinho e empatia.
— Eu sinto muito sobre sua avó.
Outra vez se olharam, uma agradecendo silenciosamente, enquanto a outra buscava, assim como anteriormente, tornar aquele um espaço seguro e sem julgamentos, além de acolhedor.
A avó de Sam falecera há três meses, devido a uma complicação cardíaca. Foram dias e mais dias em que a imprensa de todo o mundo comentava a respeito do ocorrido, algumas recordando e elogiando o trabalho da fundadora da Honorável Lady, enquanto outras remoíam situações desagradáveis, mas todas elas finalizando com a mesma questão: estaria a herdeira Samanun Anuntrakul a altura de gerenciar o legado que lhe foi deixado?
Além disso, o fato da entrevista de Sam para a revista Diversity ter sido revelada poucas semanas antes do óbito, só estimulou toda a publicidade, boa e ruim, que poderia vir a surgir a respeito da família.
— Como você está? — Mon perguntou, e agora Sam não poderia fugir de lhe dar uma resposta, a não ser que deixasse a cafeteria.
— Agora estou bem. — Disse com a voz um pouco mais contida — O baque maior já passou, mas ainda é difícil.
— Eu só posso imaginar a avalanche que caiu nas suas costas. — Suas mãos continuavam juntas.
— Foi algo que eu nunca havia realmente reparado, mas durante todos esses anos, minha avó estava me preparando para esse momento, e só agora, após ela ter ido embora, que eu estou me dando conta disso. — Admitiu a contragosto — No fundo eu sabia que isso iria acontecer, mas...
— Mas você só queria aproveitar por mais algum tempo os prazeres que a vida e sua posição poderia oferecer.
— Exato, ou pelo menos sem preocupações de alto calibre. Digo, num dia eu sou apenas a modelo principal da marca, estampando todos os editoriais de moda e principais lançamentos da estação; no outro, me torno responsável por gerenciar uma empresa bilionária, com escritórios em pelo menos dez países, cujo faturamento altíssimo gera emprego e renda para um número de pessoas que ainda não consigo mensurar. Ainda é muito para assimilar...
— Mas eu aposto que sua avó deve estar orgulhosa de você, Khun Sam.
— Eu não tenho tanta certeza disso.
— Pois eu sim. — E antes que a outra pudesse argumentar algo, prosseguiu. — Uma vez que eu fui a responsável por aquela entrevista, comecei a acompanhar um pouco mais o seu trabalho, principalmente após o falecimento da sua avó e quando você assumiu a companhia. Através das leis de acesso à informação, li os relatórios financeiros da empresa que são disponibilizados, assim como mais alguns documentos públicos, e pelo meu entendimento, posso dizer que a Honorável Lady vai bem no mercado. Não houve quedas drásticas no faturamento, um padrão foi mantido apesar de algumas ações terem caído, mas acredito que isso era esperado após a transição. E o mais importante: não houve demissões.
— Neung e eu não deixamos isso acontecer. — Revelou Sam. — Fomos muito pressionadas quanto a isso, mas não seria o certo a se fazer.
— Neung? Sua irmã?
— Sim.
— Ela voltou?
— Eu a chamei de volta. — Sem perceber, Sam começou a acariciar o dedo polegar de Mon com o seu. — Ela entrou em contato comigo depois que a revista saiu, disse que estava orgulhosa de mim. Nos encontramos e conversamos, eu pedi para ela ficar e ela aceitou. — Sorriu para si. — Nossa avó não deixou nada para ela no testamento, estava literalmente tudo em meu nome, mas não era justo, sabe? Parte da herança também é da nossa mãe, ela iria querer que Neung recebesse sua parte, assim como Song, se ela ainda estivesse por aqui.
— Você passará alguns bens para ela, então.
— Sim, minha advogada já está cuidando disso. Enquanto isso, ela está trabalha comigo na empresa como consultora. Ofereci um cargo maior, mas ela não quer que sejamos acusadas de nepotismo, ou algo assim, logo de cara. — As duas riram. — Neung tem as mesmas qualificações em Administração e Negócios que eu, ela apenas não fazia uso.
— Ela pode utilizar os dotes artísticos que possui a favor da companhia. — O comentário de Mon fez Sam sorrir.
— Ela disse exatamente isso, sabia?
— Eu sei de tudo. — Mon fez uma voz convencida de brincadeira — Fico na torcida para que esta parceria continue seguindo muito bem, e que renda ótimos frutos em um futuro próximo. — Foi sincera, apertando a mão da outra suavemente.
— Obrigada, Mon.
— Não precisa agradecer.
Trocaram um sorriso, ambos os olhares agora pousados em suas mãos ainda unidas, e aparentemente não estavam dispostas a afastá-las. Mon notou que a outra mordeu o canto da boca, mas o gesto foi de alguém que estava pensando a respeito de algo, e ela desconfiava do que poderia ser.
— Por que você foi embora? — Sam cravou os olhos na outra; eles não estavam magoados, apenas no aguardo da resposta.
— Algo que diz que você sabe o motivo.
— Mas eu quero que você me fale.
A mão de Mon se afastou e ela cruzou os braços por sobre a mesa, como se quisesse se resguardar a respeito de algo.
— Primeiro porque eu precisava ir para casa, e depois porque eu tive a sensação de que não seria bom se eu ficasse, nenhuma de nós estava pronta para o que poderia vir depois.
Sam apenas anuiu com a cabeça, pois no fundo ela concordava com Mon. Aquela foi uma noite totalmente fora da sua curva comportamental, mesmo que já estivesse trabalhando a respeito de suas atitudes e emoções nas sessões de terapia.
— Foi o que eu pensei. Realmente, não teria feito bem a nenhuma de nós se tivéssemos passado mais algumas horas juntas, principalmente porque eu provavelmente ficaria sem te contatar por dias, ou até semanas. — Sam admitiu.
— E eu precisava refletir sobre tudo o que você me contou, somado ao que eu estava sentindo depois que nós... — ela fez um gesto com engraçado com a cabeça.
— Depois que nós transamos.
— Shiu! Estamos em um lugar público! — Ela apontou para as pessoas ao redor delas no café.
A CEO deu de ombros.
— Mas você poderia ter deixado pelo menos o seu telefone comigo... — comentou.
— E ter ficado na expectativa de uma possível ligação sua? — Mon foi irônica, mas havia algo a mais nas entrelinhas e Sam conseguiu capitar.
— Tenho a impressão de que tem algo a mais por aí...
— Você vai me achar boba...
— Me conte, e aí eu digo se acho ou não você uma boba.
O déjà vu as fez sorrir. Mon tomou um breve fôlego antes de falar.
— Minha intuição também me disse que eu não deveria dar meu telefone a você, e assim deixar as coisas acontecerem naturalmente, pois do mesmo modo que você me encontrou naquela noite, isso poderia acontecer novamente.
— Essa foi uma aposta muito arriscada.
— Foi mesmo. — Mon concordou. — E você sempre soube onde ficava o meu local de trabalho e não foi me procurar.
— Você estava me-
— Eu não estava te esperando, Khun Sam, se é isso que quer saber. — Não foi intenção de Mon ser dura, mas foi o que pareceu.
— Que bom, pois eu não estava pronta... — Sam teria se sentido culpada se a resposta fosse outra.
— E agora você está?
— Você só vai saber se aceitar sair comigo qualquer dia.
As bochechas de Mon ficaram coradas, mas ela apanhou o celular que estava dentro da bolsa, o desbloqueou e o entregou para Sam.
— Anote o seu telefone e me empreste o seu celular para eu fazer o mesmo — Sam obedeceu e segundos depois destrocaram os aparelhos — Quando voltarmos a ter conexão, mandamos mensagem e combinamos algo.
— Não vai confiar no universo dessa vez? — Provocou Sam, verificando o número que estava ali gravado.
— Vou me precaver.
— Eu também faria isso. — Sam conferiu o horário em seu celular e bufou. — Eu preciso ir. — Anunciou e fitou Mon com olhar de desculpas. — Eu ligo para você, prometo. — Se levantou apressada, buscando o cartão em sua bolsa.
— Tudo bem, e pode deixar que dessa vez eu pago a sua parte. — Mon preferiu ignorar a parte da promessa.
Sam fez uma expressão de quem iria retrucar, mas foi interrompida com um dedo acusador.
— Direitos iguais. — Foram as palavras finais de Mon.
A CEO apenas assentiu, se aproximou e deixou um beijo carinhoso entre os cabelos de Mon antes de deixar a cafeteria, ato que deixou a outra curiosamente satisfeita. Ao se ver sozinha, Mon aguardou mais alguns minutos antes de se levantar e acertar a conta. Deixou o Cup of Coffee, e assim que virou a esquina, sentiu seu celular vibrar; o apanhou e sorriu com aquela que seria uma das inúmeras mensagens que trocaria com Sam.
“Quer ir para a minha casa mais tarde? ”
*****
Os primeiros raios da manhã invadiram o quarto de Sam enquanto ela se levantava de súbito; a mulher vestiu o roupão de seda o mais rápido que conseguiu e disparou em direção ao escritório, que ficava no andar térreo de sua residência. Sua mente borbulhava, mas ela necessitava anotar o que sonhara.
Nunca foi de acreditar em significados de sonhos, mas aquele foi diferente. E foi diferente porque foi a voz de Mon que lhe guiou. Mon...
A jovem estava deitada de bruços em sua cama, seminua, e por um milésimo de segundo Sam quase optou por ficar com ela, abraçada, despejando incontáveis beijos em suas costas e deixar o sonho para lá. Contudo, não poderia simplesmente ignorar, a ânsia do que estava sentindo era forte demais.
Apanhando o primeiro pedaço de papel e caneta que encontrou em sua mesa de trabalho, a CEO começou a escrever avidamente; quando deu por si, havia preenchido frente e verso do papel. Um sorriso orgulhoso se formou em seus lábios, do mesmo modo que uma faísca de esperança começava a crescer em seu peito.
Poderia ser um tiro no escuro, é verdade, mas talvez aquilo fosse exatamente o que a empresa precisasse. Continuou escrevendo, ficando tão absorta no trabalho, que só notou que estava acompanhada quando sentiu um perfume floral misturado ao cheiro de café recém preparado que inebriou completamente seus sentidos.
Seus olhos encontraram Mon se aproximando, vestido uma de suas camisas e segurando duas xícaras, cuja fumaça que emanava delas indicava que estavam com líquidos quentes. Sam tentou não cobiçar demais as pernas desnudas de Mon, que lhe entregou uma das xícaras e deixou um beijo suave nos lábios dela.
— Bom dia.
— Bom dia... — O sorriso de Sam era bobo, não apenas por aquela cena, mas sim pelo fato da garota ter adivinhado que estava precisando de uma dose de cafeína — O seu também é café?
— É sim. — Elas beberam, os olhos de Mon agora caminhando até a mesa de trabalho da outra. — Posso saber o motivo de você estar trabalhando a essa hora? É sábado.
— Eu tive um sonho... — pousou a xícara em sua mesa.
— Um sonho? — Mon tomou a liberdade de se aproximar e se sentar em uma das coxas de Sam.
— Sim, um sonho, e eu vou fingir que não percebi o seu tom de riso. — Em outra situação, ela estaria rindo também, mas agora estava embasbacada demais com a mulher sentada em suas pernas.
— Você vai me contar sobre esse sonho ou... — deixando a frase no ar, a mulher bebeu seu café, com uma serenidade ímpar.
— Então, hm, vamos desenvolver uma nova fragrância. — Contou, apontando para suas anotações. — Quer dizer, a Honorável Lady vai.
— Prossiga. — Mon agora tentava ler um pouco do que estava escrito.
— A Honorável Lady precisa de um novo perfume, ou dois, mas que de alguma forma se completem. Antes do falecimento da minha avó, a equipe de Pesquisa e Desenvolvimento tentou apresentar algo novo por diversas vezes, mas ela estava mais focada nas linhas de vestuário, então se formos mesmo falar a respeito de datas, a empresa não cria uma nova essência há quase três anos. — Explicou e passou a apontar para Mon o que escrevera. — Eu estava fazendo anotações gerais e traçando os primeiros esboços de uma estratégia de marketing.
— É um movimento ousado, a margem 50/50 é clara.
— Se não houver algum novo lançamento, deixaremos de ser competitivos no mercado, Mon. Eu sei que muitos não gostam de mim como CEO da companhia e me comparam a minha avó, principalmente pelo fato de ainda não ter apresentado soluções diferenciadas para nos reerguer no mercado, mas eu nunca havia feito isso antes e pelos deuses, eu não iria apostar em um empreendimento a não ser que tivesse certeza disso!
— E foi um sonho que te mostrou o caminho? Você sempre pareceu tão cética sobre esses assuntos...
— Você estava no sonho.
— Você poderia ter começado por esse ponto. — Riram em uníssono. — Me conte.
Sam sentiu seu coração acelerar, o que era esquisito, já que iria apenas compartilhar um sonho, mas ele fora tão vívido e com sensações tão reais, que poderia até duvidar se realmente se tratava apenas do seu subconsciente trabalhando.
— Estávamos aqui em casa, mas era a sua casa também, você estava em todos os locais. — Ela sorriu de lado e baixou um pouco os olhos, mas não demorou para que Mon puxasse seu queixo com delicadeza, para que voltassem a se olhar. — Você me abraçou forte e quando se afastou, me olhou com uma ternura que eu nunca vi, mas que me deu uma vontade de chorar e...
— E?
— E você me perguntou o que fazia meu coração aquecer.
O sorriso que Sam testemunhou Mon exibir continha a mesma ternura daquele que viu enquanto sonhava. Inevitavelmente, um nó quis se formar em sua garganta e toda sua alma adquiriu uma quentura gostosa, reconfortante.
— O que faz o seu coração aquecer, Khun Sam? — Trazendo a pergunta para a realidade, Mon acariciou o rosto da outra.
— Você.
Era ela, sempre foi, desde o primeiro momento que a conheceu.
— Você me trouxe isso naquela noite, mesmo que tenha sido um encontro um pouco incomum, mas está fazendo novamente — Sam prosseguiu. — A sensação de lar e aconchego, eu nunca senti isso com ninguém. Só de imaginar que eu posso voltar para cá e sentir esse seu cheiro me deixa feliz. Nisso, eu quero te abraçar e beijar, e depois que você me oferecer uma xícara de café, enquanto bebe o seu chá, eu quero ouvir tudo o que tenha a me dizer sobre o seu dia, ouviria tudo o que você quisesse compartilhar comigo.
Olhos atentos analisavam o que fora dito, e após mais um beijo, Mon comentou baixinho próximo aos lábios de Sam.
— Eu entendi o que pretende.
— Mesmo?
— Sim, é aquela paz que faz a alma respirar tranquilamente, como se tudo de ruim pudesse sumir da fase da terra naqueles breves segundos em que o coração é aquecido por um aroma que me remetesse a um lugar, ou a alguém.
— É isso...
Sem conseguir elaborar algo coerente para dizer, Sam apenas puxou Mon para seus braços, encaixando seu rosto na dobra do pescoço dela e se deixando levar pela sensação de lar que esta emanava. Deixou beijos na pele, sentindo que a outra estava começando a se arrepiar.
— Eu não estou maluca, não é? — Sua voz saiu abafada. — Podemos trabalhar com isso?
Mon fez com que se olhassem novamente, deixando sua testa encostada na da outra.
— Sim, nós definitivamente podemos trabalhar com isso.
As palavras de Mon continham mais significados do que Sam imaginou ser possível, e pela primeira vez em muito tempo, o sorriso de Sam foi verdadeiramente condizente com a felicidade que ela estava sentindo. Sentia-se completa.
