Work Text:
Nada pior para um artista do que um bloqueio criativo. Estar sem nenhuma inspiração, vontade ou alegria para pintar era como a morte para Dottore. Sua arte era sua vida, mas tê-la como sustento era uma tarefa mais do que complicada. Ele precisava aceitar trabalhos avulsos para pagar suas contas, isso o ajudava viver de forma decente, mas ainda sim o frustrava, o que contribuía para que não conseguisse produzir quase nada.
Ele procurava incessantemente por uma inspiração. Andava pela floresta, observava a natureza, o movimento do comércio, pessoas na rua vivendo suas vidas. E nada, absolutamente nada o fazia brilhar os olhos.
Até que um dia, ele a viu.
Era uma camponesa, vestida com roupas simples e até um pouco surradas, seus cabelos eram verdes como os das árvores, e seus olhos roxos como uma ametista. O mundo pareceu parar em volta de Dottore, pois seus olhos não conseguiam olhar para outra coisa.
Foi como ser atingido fatalmente por uma lança. Seu ar faltou. Ele nunca havia visto uma mulher tão bela, mesmo com evidências de trabalho braçal e algumas cicatrizes. Na verdade, isso deixava-a ainda mais perfeita.
Quando escutou sua voz, ao se dirigir a um vendedor na rua, foi mais um golpe certeiro no pintor. Reparou agora nos detalhes de seu rosto, queria a todo custo guardar o máximo que podia consigo. Teve de parar, após perceber que algumas pessoas estranharam seu comportamento.
Em casa, pintou o rosto dela, e sentiu sua inspiração voltar. Ele se encheu de alegria. Não parava de pensar naquela mulher, em como seus cabelos eram lindos, mesmo que maltratados pela precariedade de cuidados, em como seus olhos brilhavam, em como seu sorriso era radiante.
Por um tempo, Dottore havia conseguido pintar e vender alguns quadros, estava mais expressivo e inspirado. Mas não durou muito tempo. Pois quanto mais pensava na misteriosa mulher, menos sua imagem estava clara em sua mente. Ela estava indo embora, e isso o desesperou. Nem em seus sonhos ele conseguia vê-la com clareza.
Ele precisava dela, como se precisa de água para não morrer. Aquela mulher desconhecida havia se tornado sua força motriz, sua mais bela e única musa. Olhou para o primeiro quadro que fez dela, e se frustrou, pois por mais que tenha feito com a memória fresca daquele dia, sabia que não era um retrato exato dela.
Quase jogou tudo para longe quando tentava fazer novos quadros da mulher, sem sucesso. Algo o impedia, e ele sabia o que era.
Precisava encontrá-la novamente. Precisava tê-la como musa, observá-la com calma e paciência, para captar toda sua beleza como ela merecia. Mas onde encontrá-la?
E lembrou-se daquele vendedor.
Então, todos os dias, passava ali perto, naquele horário, esperando ela aparecer.
Não demorou para acontecer. Um sorriso se fez no rosto dele quando notou a moça chegando com uma cesta cheia de maçãs. Ela cumprimentou o vendedor, e depositou a cesta na mesa improvisada dele. Ela estava suada, cansada, mas sorrindo. Sempre sorrindo. Dottore ficou hipnotizado, mas dessa vez não ficaria só olhando.
Ele foi até o vendedor, com a desculpa de comprar alguma coisa ali, e deu bom dia para os dois. Ficou escolhendo o que levaria, enquanto atentamente ouvia a conversa deles.
“Essas estão ótimas, obrigado, Collei” o vendedor disse.
“Sempre que precisar, me chame! Agora preciso ir.” ela respondeu.
Então seu nome era Collei.
Dottore comprou uma das maçãs que Collei trouxe ao homem. Depois disso, discretamente seguiu pelo mesmo caminho que a mulher, até certo ponto para não levantar suspeitas.
Naquela noite, ele pensou em como descobrir mais sobre Collei enquanto encarava aquela bela maçã vermelha.
Não foi um trabalho tão difícil, e sorriu ao saber que havia um momento em que a mulher ficava sozinha. Não tardou a se planejar para o que queria fazer. Levou algumas semanas, mas conseguiu um bom dinheiro para comprar o que precisava. Estava pronto.
Como sabia da rotina de sua musa, foi até a floresta sem que ninguém percebesse. Quem diria que ser alguém que ninguém se importava fosse lhe dar alguma vantagem.
Esperou até que Collei aparecesse, e logo lá estava ela, com seus vestidos simples, andando e escolhendo algumas frutas para vender. O sol que atravessava as copas das árvores iluminavam sua imagem. Ela parecia um anjo, Dottore se segurou para não suspirar.
Ele aguardou até que ela estivesse perto o bastante de onde ele estava se escondendo, para que sua ação fosse rápida. Quando aconteceu, e ela estava de costas, ele agiu.
Collei calmamente arrumava a cesta até que sentiu alguém segurando sua boca, junto de um tecido. Sentiu um cheiro nauseante dali e logo sua visão ficou turva, fazendo-a cair para trás. A última coisa que se lembra é ter ouvido alguém dizendo “finalmente”.
Acordou completamente desnorteada, em cima de uma cama, num lugar que não conhecia. Quando recobrou totalmente a consciência, deu um salto, e seu coração acelerou. Notou que era um local bagunçado, com alguns quadros e um cheiro de tinta.
Ouviu a porta do aposento se abrir, e dali sair um homem alto, com cabelos azuis, e usando uma máscara.
“Dormiu bem, minha querida?” ele perguntou, como se não estivesse nada de errado ali.
“O que estou fazendo aqui!? Quem é você!?” ela levantou a voz, com medo.
“Oh, perdão por não me apresentar adequadamente. Me chamo Dottore, e como pode ver, sou um pintor. É tão bom poder conversar com você, Collei.”
“C-como sabe meu nome!?”
“Eu sei tudo sobre você, minha musa.”
Ele percebeu seu olhar incrédulo, e também viu medo ali.
“Imagino que esteja muito confusa, não é? Deve estar se perguntando o que faz aqui. Em resumo, minha querida, você é minha maior inspiração. Eu preciso de você.”
Isso a deixou ainda mais apavorada.
“Me deixe ir…”
“Oh querida, eu sinto muito, mas não posso fazer isso. Depois de tanto trabalho para trazê-la. Prometo que jamais vou machucá-la, eu nunca machucaria minha amada musa.”
Nesse momento, ele se aproximou, e Collei tremeu. O som pesado de suas botas fez com que ficasse ainda mais ameaçador. Dottore tocou gentilmente o rosto dela, e o acariciou. Não demorou para que Collei se afastasse.
Dottore então suspirou, pegou uma caixa e levou até ela. Quando Collei abriu, viu um vestido ali, um que ela sequer pensava que um dia chegaria perto algum dia.
“Olhe o que eu comprei para você usar enquanto faço um quadro seu. Combina com seus olhos, não acha?” ele sorriu docemente para sua musa. “Me diga, você gostou?”
Collei estava em choque, sentou-se na cama e não respondeu.
Dottore suspirou mais uma vez.
“Eu entendo que tudo possa estar confuso, mas não sou tão paciente como aparento. Disse que não machucaria você, mas não posso dizer a mesma coisa a respeito dos seus amigos e família.”
Isso a fez olhar alarmada para ele, imediatamente. Ia dizer algo, mas ele a interrompeu.
“Portanto, quero que tudo corra bem para nós. Se você for obediente e posar para mim, não vai reclamar de um único dia estando aqui. Você será como minha rainha. Então, vou perguntar novamente: você gostou do vestido?”
Collei não teve saída a não ser fazer sim com a cabeça. Isso fez o homem sorrir.
“Perfeito. E que tal prová-lo?” perguntou ele. “Mas antes, preparei um banho para você. A banheira está em outro cômodo, te darei toda privacidade.”
Ela levantou-se, e foi até o local, mas antes Dottore a avisou:
“Não pense que pode escapar daqui, as janelas estão bem protegidas.” e isso fez com que Collei notasse as grades.
Dottore havia de fato preparado cada detalhe.
A mulher tomou seu banho. A água estava quente e muito confortável, mas era impossível relaxar, devido a situação. Quando acabou de se banhar e secar, provou o vestido. Se encaixou perfeitamente em seu corpo, e isso foi assustador.
Quando saiu do aposento, ouviu Dottore chamando-a para sua sala. Ao chegar na porta, viu que o homem havia preparado um quadro em branco, tinta, e dois bancos. Um para ela, e outro para ele.
Dottore, ao vê-la, perdeu o ar. Ela estava deslumbrante, maravilhosa. Era a coisa mais linda que ele já havia visto. O homem até caiu de joelhos, e quase chorou.
“Perfeita, você é perfeita.”
A mulher quase vomitou nesse momento, mas se segurou ao máximo.
“Por favor, sente-se ali…” disse ele, levando-a até o banco.
Ele arrumou Collei para que ela ficasse na pose que ele queria. Ela sentiu repulsa de cada contato físico com ele, mas fingiu indiferença.
Quando ele sentou na frente do quadro, pediu para que ela sorrisse.
“Por favor, você tem um sorriso maravilhoso.”
Ela quase respondeu que antes ela tinha motivos para sorrir, mas tentou fazer o que ele pediu. Não foi um sorriso perfeito, mas por enquanto Dottore não iria cobrar isso dela. Por enquanto.
O homem finalmente estava realizado, ali com sua musa disponível o tempo inteiro. Ele não queria sequer sair mais de casa. Tudo que ele precisava estava ali bem na sua frente.
Sua eterna musa.
