Chapter Text
Namo tinha certeza que estava infartando.
Não tinha outra explicação.
Um turbilhão de emoções voltaram a atingi-lo. Seu passado sentado bem na sua frente - deliciosamente, como uma provocação do destino.
De repente sua respiração estava acelerada, o coração batia tão forte contra suas costelas que ele tinha certeza estar escutando-o mesmo que o som do bar abafasse as vozes de seus amigos gritando enquanto cumprimentavam o grupo que já estava sentado na mesa a sua frente.
Ele precisava de um tempo. Ele não tinha a menor condição de sentar com todas aquelas pessoas e fingir que nada estava acontecendo.
Namo queria desaparecer.
Wat o encarou de volta. Seus olhos se encontraram e o tempo pareceu congelar. Com os lábios entreabertos e as sobrancelhas erguidas, a surpresa e confusão estampada no rosto de Wat.
Nenhum dos dois ousou de mover.
Namo sentiu quando seu sangue foi totalmente direcionado ao seu pescoço, rosto e orelhas.
E então ele fugiu sem nem mesmo olhar pra trás.
De novo.
Namo sentou-se em um ponto de ônibus qualquer, apoiou as mãos nos joelhos e encarou seus pés para tentar recuperar o controle sobre si mesmo. Ele queria poder se questionar quando é que isso começou e fingir ignorância sobre essa coisa de fugir, mas ele sabia exatamente quando e como tinha começado.
Durante a maior parte do ensino médio ele esteve perseguindo Akk, o Prefeito Monitor da escola. Namo o admirava e tudo o que ele queria era ser visto por Akk. Ele fez testes para o grupo de prefeitos, melhorou com excelência suas notas, passou a respeitar todas as regras… Mas porra, quanto mais Namo fazia, menos ele era visto. E não só por Akk, mas por todos.
Passando tempo demais sozinho consigo mesmo Namo aprendeu a observar e absorver, não havia nada naquela escola que ele não soubesse. Ser invisível deu a ele o poder de estar próximo de tudo e todos, e sutilmente Namo passou a usar isso em seu favor.
Nos dias que se seguiram, Namo percebeu muitas coisas. A primeira delas foi que Khan, um dos melhores amigos de Akk, estava apaixonado por Thua, o presidente de classe que fora arrancado do armário não muito tempo atrás; a segunda coisa foi que Akk estava em apuros e ele precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa para ajudar Akk a não sair tão prejudicado dessa história.
A terceira coisa demorou um pouco mais para vir pra ele, mas foi a mais surpreendente e a mais inesperada. Namo descobriu que não estava verdadeiramente apaixonado por Akk. Ele ainda tinha aquele sentimento de admiração dentro dele e ele ainda queria fazer parte, mas ver Akk com Ayan não o fazia sentir nada além de felicidade. Akk sorria mais, Akk parecia mais leve e Akk estava realmente mudando. O único problema nisso tudo é que Namo já tinha se sacrificado por Akk e não sabia mais como voltar atrás, não depois daquelas “pegadinhas”, um tanto perigosas, que ele tinha aprontado com seus colegas no lugar de Akk.
Namo passou dias em pura aflição, uma sensação bizarra de estar sendo observado causava uma coceira embaixo da pele de sua nuca. Até que ele descobriu o que estava errado.
Wat o tinha visto.
Wat estava olhando pra ele.
Na primeira vez que ele percebeu, foi muito sem querer, ele abaixou pra pegar algo no chão e jogar fora, quando ergueu os olhos, Wat estava parado do outro lado da rua, encostado no muro como quem não quer nada. Wat estava olhando pra ele com tanta intensidade que Namo sentiu os pelos do seu braço eriçarem. Namo teve que desviar os olhos quando Wat se recusou a fazê-lo.
Foi assim que as coisas começaram a mudar na vida de Namo. Se antes ele era apenas um cara sozinho e invisível, agora ele sentia que não tinha mais pra onde correr. De alguma forma, que Namo nunca entendeu, ele acabou inserido no grupo de amigos de Akk, e veja bem, ele não estava reclamando, ele só não sabia como lidar com isso. Então ele simplesmente tentava fugir sempre que achava não ter ninguém prestando atenção.
Só que tinha.
Wat estava sempre pronto para trazê-lo de volta.
Namo estava realmente assustado naquele momento.
Até porque, qual é?! Por que, de repente, Wat simplesmente ficava seguindo-o com os olhos e não o deixava em paz? Eles mal tinham trocado uma ou outra palavra durante anos na mesma escola. Então qual era o sentido disso?
Foi muito fácil deixar todos esses questionamentos para trás quando eles dois começaram a realmente se aproximar. Namo nem tinha percebido quando deu abertura, mas Wat tornou-se quase o porto seguro dele. Wat era carinhoso e atencioso. Namo sentia coisas que mal podia explicar, principalmente nos momentos em que Wat esquecia o que era espaço pessoal e invadia o dele, segurava sua mão, acariciava sua cintura, brincava com seu cabelo. O coração de Namo parecia que ia sair pela boca a qualquer momento. Ele tinha certeza que Wat sabia como o fazia sentir, e apesar de Namo ter chegado à conclusão de que ele gostava mais de Wat do que poderia admitir, eles nunca ultrapassaram os limites.
Namo estava feliz. Ele tinha amigos, estava indo muito bem na escola e tinha certeza que seria aceito no corpo de Prefeitos. E mais, Namo tinha o Wat.
Até que não tinha mais.
Tudo mudou no dia da premiação do Prefeito Exemplo.
Akk foi exposto.
Akk e Ayan foram expostos.
Chaddok foi exposto.
Thua se expôs.
Namo não sabia se sentia alívio por nunca ter chegado a vez dele, ou se era melhor ele recolher suas coisas e fugir para bem longe dali.
Foi apenas mais tarde, quando os meninos estavam todos conversando - brigando - entre si, que Namo sentiu aquele mesmo olhar sobre ele de novo. Ele ergueu os olhos e os de Wat o encararam de volta.
Ali ele teve certeza. Wat sabia.
Wat sabia.
E então Namo entendeu. Ele entendeu tudo.
Wat sabia.
Naquele dia Namo se expôs. Ele confessou o que tinha feito por Akk. Tudo para ajudar Akk. Ele pediu perdão e se manteve ao lado dos meninos ajudando-os com o filme de Wat. Também era dever dele consertar toda aquela bagunça.
Mas a relação de Namo e Wat nunca mais foi a mesma. Namo nunca mais deixou o Wat se aproximar, não que Wat parecesse disposto a tal.
Quando tudo estava terminado, foi a primeira vez que namo fugiu.
Ele passou apenas mais uma noite ao lado dos seus amigos, virou as coisas e nunca mais voltou. Ele se arrependia amargamente de ter saído de seu estado invisível, de ter feito amigos e de ter deixado Wat entrar. Ele se arrependia ainda mais de ter se permitido amar Wat.
Ele foi estúpido.
Diversas vezes chorou sozinho trancado no banheiro.
Mas que porra ele tinha na cabeça por achar que Wat realmente gostava dele? Assim de repente? Como era burro.
Namo fugiu e se reconstruiu. Ele esqueceu quem foi e começou uma nova vida. Apesar de ninguém conhecer o Namo de verdade, agora ele tinha amigos, um lar para voltar, pessoas para amar…
Então, porra, o que Wat estava fazendo ali?
— Namo? - Uma voz soou ao mesmo tempo que uma mão, quente e macia, segurou o ombro de Namo por trás.
Ele se virou bruscamente. Os olhos arregalados e o rosto banhado em lágrimas contrastavam com o sorriso largo que rasgava o rosto de Wat.
— Eu tinha certeza que era você! - Wat riu divertido. Namo engoliu em seco. — Eu senti sua falta. Por que você nunca ligou?
Namo tinha certeza absoluta. Ele estava infartando.
[...]
Ao chegar em casa Namo estava psicologicamente exausto. Ele nem ao menos teve a chance de continuar surtando durante a volta, Wat o acompanhou por todo o caminho até os alojamentos da faculdade, sem parar de falar por nenhum momento. Pelo jeito tinha sido apenas por muita sorte - ou azar - que eles nunca tivessem se encontrado antes, Wat não só estudava Cinema no mesmo campus que Namo, como era parceiro de jogos de seus amigos próximos.
Wat o seguiu até o quinto andar do prédio e Namo teve alguns minutos de silêncio no elevador antes de se dar conta do que estava acontecendo. Ele se perguntava quanto tempo teria com seus próprios pensamentos, mas Wat não apertou seu próprio andar depois que eles entraram.
— Para qual andar você vai? - Namo perguntou, o dedo pairando sobre os botões do elevador.
— O quinto. - Wat disse com as sobrancelhas erguidas. — Oh! Por um momento achei que você tinha apenas adivinhado, mas esse também é o seu, não é?
Namo queria poder fugir de novo. Era impossível Wat morar no mesmo andar que ele, isso com toda certeza era uma pegadinha do destino.
— Como nós nunca nos encontramos antes? - Wat fez uma careta e Namo teve que se repreender por achá-la fofa. — Eu fiquei meses me perguntando como poderia te encontrar e você esteve praticamente do meu lado esse tempo todo. - Wat balançou a cabeça em negativa.
— Espera, você estava me procurando? - As portas do elevador abriram, nenhum dos dois se moveu do espaço apertado.
— Claro que sim! Você sumiu de repente, como eu poderia não o fazer? - As palmas das mãos de Namo estavam suando como loucas.
O choro continuava entalado em sua garganta.
— Me pergunto o real motivo pra você fazer isso. - Ele sussurrou pra si mesmo e deu o primeiro passo para fora do elevador, indo em direção ao seu quarto.
— Namo? - Wat o chamou, mas Namo não conseguia encará-lo. Ele não queria.
Ele não conseguia nem pensar em se permitir ter dúvidas do motivo para Wat procurá-lo. Namo não podia reviver todas as suas inseguranças. Ele simplesmente não podia baixar sua guarda de novo ou ter esperança. Não por Wat.
Wat continuou parado no elevador, a mão espalmada na porta segurando-a no lugar, apenas encarando as costas de Namo enquanto o rapaz caminhava apressado até o dormitório.
Namo não sabia como sobreviveria aquilo, mas Wat estava ainda mais confuso sobre tudo o que estava acontecendo.
Desde o dia em que Namo sumiu, Wat sabia que tinha sido um erro se afastar e ter dado espaço a Namo depois que ele resolveu confessar seus erros, mas ele nunca esperou que o rapaz seria tão averso a uma tentativa de aproximação dele.
Wat suspirou sentindo como se tivesse sido derrotado logo na sua primeira tentativa. Ele tinha saído para conhecer pessoas novas e se divertir, mas no final tudo tinha dado errado. Depois de tanto tempo distante de Akk e Khan, Wat só queria recomeçar. Ele nunca tinha imaginado que encontraria Namo nessas circunstâncias. Não depois de procurar tanto por ele. Não depois de se sentir tão miserável por ter deixado ele escapar com tanta facilidade por entre seus dedos.
Wat não podia cometer o mesmo erro novamente.
Ele não podia deixar Namo sair da vida dele de novo, não importa o quanto Namo quisesse isso.
Wat nunca seria capaz de esquecer o tempo que passou com Namo.
Inicialmente o intuito de Wat era descobrir o motivo de Namo estar fingindo ser a maldição, ele não tinha ideia de que Akk fora quem iniciou tudo isso ou que Namo tinha uma queda enorme por seu melhor amigo.
Demorou dias até que ele percebesse o menor interesse, mas apesar de estar "agindo nas sombras" Wat não tirava mais o rapaz da cabeça.
Ele pensava nas menores coisas sobre Namo, em como o menino sorria quando pensava que ninguém mais estava olhando, como ele se esforçava verdadeiramente para fazer parte do grupo de prefeitos ou como alguns dias ele parecia realmente cansado. Wat tentou, por muito tempo, se convencer de que tudo era só curiosidade, até que ele não conseguiu se conter e se revelou para Namo.
Até hoje ele se pergunta se aquilo foi um erro ou um acerto, mas nunca realmente se arrependeu. Wat sente no seu íntimo que os dias que passou ao lado de Namo, foram os mais felizes de sua vida. Foi graças a esses dias que ele passou a se questionar sobre sua sexualidade, sendo mais específico, foi graças a esses dias que ele passou a se interessar por Namo.
Wat sempre se arrependeu por ter deixado Namo ir, por nunca ter percebido suas reais intenções quando viu o rapaz se afastar consideravelmente de todos ao seu redor. Mas Wat não permitiria que isso voltasse a acontecer. Ele não abriria mão de novo da única pessoa que o fez sentir-se vivo.
