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Não se aguentavam em pé. Literalmente. Ian havia prometido para TJ que, caso se encontrassem no topo do prédio no final da rua, a noite seria boa. E foi, porque TJ apareceu — e Ian já tinha consigo duas garrafas de cachaça que havia furtado do mercadinho mais próximo. Uma para cada um e nenhum acompanhamento senão suas companhias. Em três horas de conversas intermináveis sobre o garoto da casa cinco que havia tomado uma surra dos marginais da treze, a vizinha do bloco dois que estava vendendo drogas pelo correio e seus planos para o futuro, a garrafa de Ian já tinha acabado. A de TJ estava no final, mas parecia impossível beber o resto que faltava quando estava difícil levantar a própria mão para levá-la à boca.
Quando escolheram um lugar para sentar no concreto imundo do prédio abandonado ocupado pelos usuários de heroína da região, a caixa d'água inativada que ocupava metade do terraço minúsculo pareceu desnecessária. Agora, era o que os sustentavam sentados como coitados, mas com um mínimo de dignidade.
O céu estava nublado, a noite, fria. Choveria a qualquer momento. Não havia vista senão o prédio do outro lado da rua, onde a janela da frente, se apertassem um pouco os olhos, permitia assistirem a transmissão do canal pornográfico pago na TV. Era, também, um tipo de diversão para dois filhos de imigrantes de 16 anos. Principalmente por saberem que o proprietário do apartamento era um velho de 70 anos que sofria de disfunção erétil — a prostituta do ponto da esquina havia espalhado o boato.
Ignorando tudo, era engraçado viver ali.
— Sério?! Não vai beber até o final? — provocou Ian. — Eu bebi!
TJ não respondeu. Fitava o chão, encolheu os ombros largos para a idade como se quisesse esconder-se em si, e Ian soube que não era só pela bebida.
Deu duas cotoveladas leves nas costelas dele.
— Ei, tudo bem. Eu bebo. — Ian pegou a garrafa da mão de TJ e bebeu uma boa golada. A cachaça desceu amarga e ainda restou na garrafa que parecia sem fim. A conversa não se estendeu.
Nunca pareceria o melhor momento para perguntar sobre aquilo que Ian vinha se coçando para saber, mas já não tinha o mesmo filtro por conta do álcool nas veias.
Por ser fechado, era raro TJ estar a sós com alguém que não fosse ele. Chamava pouca atenção e fazia poucos amigos — o que Ian entendia, já que já esteve do outro lado de achar TJ meio estranho, introspectivo. Um tipo de cara que ninguém sabia como tinha ido parar em um gueto pela boa educação e maneiras.
— Vi você conversando com a menina do bloco dois na praça semana passada. Vocês estão ficando?
Ian estava verdadeiramente interessado. Não havia encontrado momento melhor para perguntar, já que TJ não havia comentado mesmo passando-se dias, então entendeu que ele, talvez, não quisesse partilhar. Apesar de serem amigos há pelo menos um ano, TJ era recluso, discreto, e Ian sabia que tinha sido o único do bairro a conhecê-lo um pouco mais a fundo por tê-lo ajudado quando teve um ataque de pânico ao acidentar-se de moto. Naquele momento, um tipo de laço havia sido criado e, depois dali, Ian entendeu o que levou TJ até aquele subúrbio de quinta categoria.
Antes, sabia que havia sido responsável por insistir para que TJ dirigisse aquela moto e revivesse traumas dolorosos, então não negou a tentativa comedida dele de aproximar-se de si, ainda que sem jeito. Hoje, sabia que era importante tomar cuidados para que não fosse invasivo ou inconveniente. Para que não o assustasse com determinados assuntos. Conteúdos assim não eram comuns entre eles, já que causavam um estranho desconforto quando abordados. Era como se, no fundo, não quisessem saber.
— Não. — respondeu TJ, sem olhá-lo.
— Por que não? Ela parece gostar de você. — insistiu Ian, com um meio sorriso implicante nos lábios. Estava concentrado em TJ ao seu lado, tentando ler um mínimo detalhe. Quando conseguiu, o sorriso sumiu. — Não me diz que você nunca beijou! Já, né?!
Então TJ olhou para ele. Ian viu o vislumbre de um sorriso no rosto dele e soube que TJ estava bêbado. Também estava.
— Já.
Porque ele sorria, o sorriso de Ian aumentou.
— Muito?! — provocou.
— Sim. — TJ soltou uma risada. Era raro, mas bonito. — E você?
— Muuuuuito. — A cabeça de Ian rolou pela caixa d'água, incapaz de controlá-la o peso pela embriaguez.
A nova risada de TJ foi alegre, mas breve. Antes que Ian pudesse descer a mão de mais um gole de cachaça, o silêncio havia estendido-se. Quando voltou-se para TJ, não havia mais diversão no olhar distante dele como se um interruptor houvesse sido desligado em algum lugar.
— Imagino que aproveite… — TJ quebrou o silêncio. — Sua namorada é muito bonita. — concluiu em um murmúrio, mexendo em uma pequena pedra solta do concreto do chão.
Ian sentiu a melancolia daquelas palavras acertá-lo como um soco. Não muito diferente de outras vezes que comentaram vagamente sobre ficadas, transas ou relacionamentos, TJ escureceu, pondo os sentimentos de Ian em uma linha tênue entre receio e alívio. A novidade estava no quão menos implícita pareceu a reação de TJ, já que, dentro de Ian, algo disse-lhe como se não houvesse mais dúvidas que TJ não o via só como amigo; um frio no estômago entregou-lhe que, do seu lado, era recíproco.
Estava longe de ser o que sentia quando estava com sua namorada. Não se tratava, também, do que sentia no dia-a-dia com TJ, uma vez que estar na presença dele era quando podia respirar, sendo a si mesmo, sem disfarces ou eufemismos. Era um sentimento angustiante pela dúvida, agoniante pelo desespero do que viria e arrebatador pela necessidade de saná-lo, havendo, somente, uma única maneira de fazê-lo. Era ruim, e bom, de um jeito que o fazia sentir-se vivo.
Sem ter obtido uma resposta, TJ ergueu o olhar para Ian, e pegou-o já atento em si. Aos seus olhos, inelegível.
Depois de ter-se dado um tempo, Ian perguntou: — E eu? Sou bonito? — E não havia um pingo de humor embutido naquelas palavras.
TJ foi pego de surpresa pela seriedade; mais pego de surpresa, ainda, pela pergunta. Um rubor subiu pelo seu pescoço, esquentando-o até os fios de cabelo. Quis enfiar-se em um buraco e Ian percebeu, de repente arrancando de Ian um riso à toa que rompeu a tensão que havia tomado o ar.
Achava graça de TJ simplesmente porque tudo parecia mais engraçado depois de uma garrafa e umas goladas a mais de cachaça, mas também porque comentou algo sobre sempre ter achado que TJ só gostava de garotas e TJ conseguiu ficar ainda mais vermelho como parecia impossível.
Nisso, TJ notou o quanto a risada de Ian era espontânea, as covinhas que ficavam à mostra fundas nas bochechas… O quanto verdadeiramente estava afim dele, mesmo que Ian fosse um cara. Não conseguiu não rir o mínimo, já que ele contagiava-o, mas seu rosto queimava de vergonha por ter sido descoberto — e por todas as outras besteiras que passavam por sua cabeça.
Com um meio sorriso singelo que restou da risada anterior no rosto, TJ diz timidamente, olhando-o de baixo: — Você é o garoto mais bonito que já conheci.
Não houve um instante em que Ian desprendeu os olhos dos de TJ. TJ foi o primeiro a falhar, mais uma vez desejando que o chão o engolisse. Ian notou a vermelhidão das orelhas, das bochechas… Dos lábios. Não era a primeira nem a segunda vez que o elogiavam pela beleza, mas foi, sim, uma das primeiras vezes pela qual sentiu-se verdadeiramente lisonjeado, fazendo com que se enchesse por dentro como um balão de gás. Não conteve sorrir como um garoto, e decidido a pôr tudo a perder, pôs a mão à bochecha dele, direcionando-o a olhá-lo nos olhos depois de tê-lo fugido.
Então TJ pôde ver quando a atenção de Ian caiu para seus lábios. Pôde ver quando o sorriso de Ian aumentou, lascivo, e quando o rosto bonito dele aproximou-se do seu. Não moveu sequer um músculo. Nem teria tempo caso quisesse. Em um estalar de dedos, a boca de Ian estava na sua e seu coração na garganta, a ponto de pular para fora.
Antes, não parecia real como se fosse um sonho, mas os lábios macios dele começaram a acariciar os seus, enfeitiçando-o, e TJ teve certeza de que acontecia. Em pânico, agarrou-o pelos ombros e afastou-o, dessa vez como se vivesse um pesadelo. Deveria ter um sinal de brincadeira nos trejeitos dele, no olhar… Um sinal de zombaria que fosse. Não tinha. Como se olhasse-se em um espelho, Ian refletia a sua própria vontade de afogar-se nele. Devorava-lhe a boca. Transfigurava a luxúria de quem finalmente tinha em mãos aquilo que por tanto tempo almejou.
No dia seguinte, TJ botaria a culpa na bebida se precisasse. Já tinha decidido-se — se é que o fato de estar absurdamente seduzido a beijá-lo contasse como decisão.
Ian que o beijou primeiro. Não estava tão bêbado a ponto de confundir-se sobre quem deu o primeiro passo. Nesse caso, por mais estranho que parecesse, ele quis. Ian quis beijá-lo apesar de já ter alguém. Apesar de poder ter qualquer um. Apesar de TJ não acreditar que tinha um pingo de chance por não chegar nem aos pés dele em todos os sentidos. Desde a beleza até o carisma. Ian havia beijado-o, estava na cara dele o quanto queria mais, então, no futuro, TJ preocuparia-se com os arrependimentos e negações. Por agora, enfiou as mãos nos cabelos dele e, puxando-o para si com mais brutalidade do que pretendia, beijou-o. Diferente de Ian, não teve o mesmo charme ou jeito. Invadiu-o a boca, provou-o o gosto por dentro, e tragou um gemido de Ian que o entorpeceu mais do que a cachaça. Os lábios encaixaram-se, as línguas degustavam-se sem pudor ou enojo, e, depois de tê-lo saboreado o suficiente, Ian agarrou-se aos pulsos de TJ, falhando em acompanhá-lo o ritmo sedento enquanto já podia sentir saliva escorre-lo pelo canto da boca.
— TJ… — cochichou Ian, em busca de ar no entre de mais um beijo. Sem controle, suspirou de prazer ao vento quando TJ desceu para o seu pescoço, venerando-o como se fosse um deus. Lambeu seu pomo de Adão, mordeu seu ombro por cima da blusa, e as palmas passeavam pelas suas costas enquanto os braços envolviam-o como um pai. Ian estremeceu sob os movimentos surpreendentemente precisos de TJ e, diante do quão gradualmente quente vinha sentindo-se já agarrado à blusa dele, soltou uma risada, afastando-o com delicadeza. — Calma… Se for para continuarmos assim, é melhor irmos para minha casa. — disse em tom de brincadeira, admirando-o cara-a-cara. A feição estava séria. Os lábios, entreabertos e úmidos. Os olhos, pesados. O corpo estava completamente voltado e inclinado para o seu como se atraísse-o como imã.
Até aqui, Ian não podia imaginar que por trás da timidez havia um universo tão interessante de possibilidades. Um homem, passível de tê-lo feito esquentar a ponto de cogitar permitir-se ser dele no telhado imundo de um prédio caindo aos pedaços. Havia adorado o que conheceu, tanto que o aperto em suas calças alertou-o de que deveria controlar-se caso não quisesse que sua inconsequência tomasse a frente. Enfim experimentou de um beijo que pôde adocicar sua realidade amarga, fazendo-o sentir-se merecedor de tamanha devoção como não se sentia merecedor de nada. Havia desarmado-se?
Nunca foi de questionar-se, mas se perguntava se TJ havia gostado tanto quanto gostou. No garoto ao seu lado, aquele que, escorado na caixa d'água, tinha o olhar furtivo e puxava a blusa para baixo para cobri-lo o que Ian, por si só, não fez questão de esconder, tudo indicava que sim.
Incapaz de conter-se, Ian riu mais uma vez, solto e feliz. Abriu um pouco mais as pernas largadas para adequar-se melhor, tateou o bolso da calça e sacou um maço de cigarros. Bateu na caixa e pinçou um com os lábios curvados em um meio sorriso similar aqueles que costumava receber das meninas que ficavam consigo, encantadas. Voltou à busca do isqueiro.
— Você nunca teria dado o primeiro passo, teria? — disse Ian como pôde, equilibrando o cigarro no canto da boca.
Não tinha o intuito de que a conversa ou a noite findassem-se por ali. Era o começo.
