Chapter Text
Há não tanto tempo atrás, em um reino relativamente distante, existia um homem muito respeitado, de liderança invejável que conduzia seu povo como nenhum outro, seu nome era Satan.
Ninguém questionava seu direito de autoridade, por ter conquistado aquele lugar sozinho após seu pai, Deus, tê-lo banido do céu por querer mais poder. Na época, o homem achou aquilo injusto, mas gostou de ter seu próprio lugar para governar, e para construir a vida que sempre quis ter. Ele sabia que seu reino era um campo de punição para almas pecadoras, mas isso não o desanimava de jeito algum.
Pelas leis estabelecidas por Deus, todas as almas iriam para o Inferno, exceto se fossem mórmons, por estes estarem em um nível superior de bondade e seguiram todas as regras estabelecidas por “Ele” à risca.
Então, por muito tempo Satan recebeu cada alma mortal não mórmon, cujo o tempo de vida na Terra havia acabado.
Porém, após um período, Satan e seu conselho viram que eles estavam começando a ficar sem recursos para manter aquela quantidade absurda de almas, era claro que estavam passando por uma superlotação e por isso, resolveram convocar uma reunião com Deus, e neste encontro ficou estabelecido um acordo:
Eles começariam a usar o Limbo, um lugar localizado entre o Céu e o Inferno, para fazerem uma triagem e categorizar as almas em: Sacras, Maquiavélicas e Insignificantes.
As Sacras iriam para o Céu, sendo mórmons ou não; as Maquiavélicas iriam para o Inferno; e por fim as Insignificantes permaneceriam no Limbo.
Como o Limbo era pequeno, e eles sabiam que muitas almas iriam para aquele local, uma Comissão foi criada para votar em um excerto para essa lei especifica, e ficou estabelecido que as almas ali seriam convocadas para trabalhar, tanto no Céu quanto no Inferno, sob indicação de Deus.
Agora que tudo havia se resolvido, e os recursos voltaram a ser suficientes, Satan começou a pensar mais em si mesmo, e ainda que tivesse todo aquele lugar para si e de várias pessoas de sua confiança, ele começou a se sentir sozinho.
Satan queria ter uma família para chamar de sua, uma criança para ensinar o certo e o errado, para ver crescendo, para ensinar tudo que ele sabia, para lhe fazer companhia.
O Rei decidiu que convocaria algumas das súditas, que também eram amigas de longa data e participaram da Rebelião contra Deus, e escolheu entre elas uma anja alta, com cabelos cor de ébano e olhos castanhos.
Ela seria a mãe de seu filho.
A fertilização foi feita por meio da magia de ambos, que era a maneira que anjos se reproduziam, e durante os meses seguintes Satan cuidou muito bem da moça, para que ela e a criança ficassem saudáveis.
Ele conversou seriamente com ela sobre o direito ao trono que ela talvez viesse a ter, por ser a Rainha Mãe, porém, a anja rapidamente abdicou, por ter outros interesses em sua vida, e estar gerando a criança apenas para ajudar um velho amigo.
O bebê nasceu bem, com os cabelos ébanos da mãe e os olhos vermelhos do pai, e desde o berço já deu para notar que estava destinado a grandes coisas, como um verdadeiro Príncipe. Justamente por isso, Satan escolheu o nome Damien, que significava alguém forte e destinado a vencer.
Damien cresceu como toda a criança ligada a algum tipo de aristocracia: Passava muito tempo com os servos do castelo, brincavam juntos enquanto eles estavam em formas infantis, ou o Príncipe apenas tinha seus caprichos atendidos, além de receber lições de como ser um estadista no futuro, quando fosse o Rei.
— Pai, por que preciso aprender essas coisas? — Perguntou o moreno, em uma tarde particularmente pacífica, enquanto seu pai lhe dava uma lição sobre comunicação com mortais. — Você é imortal, nunca deixará de ser Rei.
Satan apenas tirou os óculos que usava para ler o livro que segurava, e deu um sorriso terno para seu filho.
— Nunca sabemos o que pode acontecer no futuro, meu filho. — Disse fazendo carinho nos cabelos do garoto.
Damien não entendeu naquele momento. Como um imortal como seu pai poderia deixar de ser Rei, se um Rei só se desligava do seu trono se fosse morto? Era impossível para o moreno chegar a alguma conclusão.
Porém, quando o Príncipe cresceu e presenciou diversas situações incomuns para o seu cotidiano, algumas chegavam a ser perigosas.
A primeira vez que Damien sentiu que algo poderia acontecer de diferente foi quando tinha dez anos e seu pai chegou em casa com um homem mal-encarado, com um bigode que cobria quase toda sua boca.
O moreno não costumava sentir medo de nada nem de ninguém, mas esse homem lhe inspirou essa sensação de desconforto.
— Damien, esse é Saddam. — Disse Satan, apontando para aquele homem que parecia ameaçador. — Eu e ele vamos nos casar.
— Casar? — Perguntou o Príncipe, parecendo confuso.
— É isso aí, garoto, eu e seu pai vamos casar e vou vir morar aqui. — Disse Saddam, de forma debochada.
— Saddam, não fale assim com ele, é meu filho. — Disse Satan, de forma amena.
— Você tem que educar esse menino, Satan. — Disse Saddam, piscando graciosamente para o Rei. — Cuidarei dele eu mesmo, quando foi oficialmente seu pai.
A última palavra fora dita em um tom mais baixo, enquanto o homem de bigode olhava fixamente para Damien.
Só de conhecê-lo, Damien já estava desprezando esse homem. Ele havia desrespeitado tanto o Rei quanto o Príncipe daquele País, e estava passando impune!
Por que seu pai não fazia nada, e agia de forma tão dócil com tamanho desrespeito?
Aquele homem que o moreno desprezara logo da primeira vez que vira eventualmente se tornou marido de seu pai. Damien não poderia estar mais contrariado naquele momento, enquanto via seu pai sorrir ternamente para um homem que Damien considerava horrível, e vestia nele uma coroa preta com joias vermelhas. Era um ornamento menor que a de Satan e de Damien, mas ainda assim, o Príncipe sentia que coroar aquele homem era uma péssima ideia.
E Damien estava certo.
Ao longo dos anos e conforme foi crescendo, o Príncipe notou que havia uma tentativa bastante clara de Saddam em diminuir o papel de Damien no reino. O homem sempre falava coisas como “por que dar tanta importância pra esse garoto?” e “por que uma criança precisa aprender como governar algo?”.
Ele tentava distrair Satan para que o Rei parasse de dar as lições para Damien, ou para que até parasse de ficar com seu filho, e sempre que tinha sucesso, falava para o Príncipe que o menino não era importante aos olhos de seu pai.
Damien sabia muito bem que tais coisas eram mentiras e tentativas para coagi-lo, das quais o moreno não sabia exatamente o propósito. E isso ficou ainda mais óbvio quando Saddam começou a usar violência física contra o Príncipe.
A primeira vez foi quando Damien tinha doze anos.
Saddam estava mandando o garoto limpar o chão do castelo, alegando que isso o tornaria um garoto mais disciplinado. Obviamente, o moreno nem deu atenção, respondendo que isso não era seu serviço, e devido a sua resposta, Saddam levantou a mão para ele, tentando lhe bater.
Damien, invocou ventos no mesmo momento, usando sua magia para expulsar seu padrasto de seu quarto, e foi no mesmo momento delatar o que aconteceu para seu pai, exigindo que Satan expulsasse Saddam do castelo.
Apesar do Rei acreditar em suas palavras, disse que iria conversar com Saddam e aquilo jamais se repetiria.
Claramente Damien não acreditava em tal coisa, e estava certo.
Os abusos de Saddam com o moreno continuaram ao longo dos anos, e já havia passado de todo e qualquer limite, de forma de que o Conselho começou a se reunir para falar apenas sobre isso.
— Ele está usando violência contra o Príncipe, Majestade. — Disse um o conselheiro responsável pelo tesouro, objetivamente. — Ele não pode continuar aqui.
— Mas... ele devia estar só estressado! — Argumentou o Rei, desesperado. — Ele não faria mal real para o Damien.
Um outro conselheiro, parecendo ainda mais impaciente que o primeiro, pediu a palavra, a qual o Rei concedeu.
— Mi ’lorde, peço perdão, mas devo dizer que esse homem quer sim machucar o Príncipe. — Disse ele. — Em vários momentos ele tenta invalidar e subjugar a importância do Príncipe aqui.
Satan apenas acenou com a cabeça, esgotado.
Mesmo que ele amasse muito aquele homem com quem ele casara, ele amava mais ainda seu filho, então assim que a reunião chegou ao fim, ele foi até Saddam pedir o divórcio.
— Saddam, precisamos conversar. — Disse Satan, tentando parecer duro.
Saddam, que estava sentado na cama dos dois, parecendo bastante relaxado, virou a cabeça para observar seu marido chegando.
— Olá, querido! — Disse ele, com uma expressão de divertida nos lábios. — O que te traz ao quarto tão cedo? Sentiu minha falta?
Saddam deu um sorriso lascivo para Satan, que no mesmo momento virou o rosto.
— Vim pedir o divórcio. — Disse o Rei, friamente. — Quero que saia do castelo pela manhã.
O sorriso dos lábios de Saddam desapareceu, e Satan já sabia o que viria pela frente.
Ele com certeza não iria embora de forma pacífica, o Rei seria obrigado a enviá-lo para um exílio.
— Como pode fazer isso comigo, Satan? Você me ama! — O agora ex-marido do Rei chegou mais perto para encará-lo.
— A segurança de meu filho é muito mais importante. — Disse ele, afastando Saddam com as duas mãos.
— O moleque é uma criança malcriada, e precisa ser educada, benzinho. — Disse o outro, frisando a última palavra, como se afirmasse daquela forma que não aceitaria o divórcio. — Estava apenas fazendo o trabalho que você não faz, o serviço sujo.
O Rei sentiu seu sangue ferver.
Ele geralmente não se irritava com Saddam, mas se havia uma coisa que ele odiava que lhe dissessem, é que lhe dissessem que ele não educa seu filho de maneira correta.
Saddam realmente havia passado de todos os limites.
— JÁ CHEGA! — Gritou o Rei, com uma raiva nunca presenciada por Saddam.
Haviam chamas dentro de seus olhos, coisa que apenas acontecia quando ficava furioso, e seu corpo estava se erguendo do chão, com ajuda de duas asas negras que irromperam em suas costas. Porém, isso não estava assustando o outro homem, que deu outro sorriso debochado para Satan.
— Não vou ficar com medinho dessa sua forma, não adianta. — Disse Saddam, mais uma vez desrespeitoso. — Precisaria de muito mais do que isso, maridinho.
Não havia outro jeito, Satan teria que exilá-lo naquele exato instante, por mais que ainda o amasse. Teria que envia-lo para longe do Reino.
O Rei, que estava em sua forma mais poderosa, apenas estendeu a mão na direção de Saddam, e um brilho vermelho sangue reluziu na palma, como se estivesse carregando.
— Vai me atacar agora, é? — Disse Saddam com deboche. — Sabe que se eu morrer, só voltarei para cá.
Satan ignorou, e continuou concentrando sua magia, o brilho vermelho reluzindo mais e mais, cada vez mais potente, para que acertasse Saddam e o levasse para o lugar mais longe possível, onde seria mantido por meio de sua magia.
E em menos de alguns segundos, a luz vermelha brilhou, Satan apreciou o poder escorregando de sua mão para todos os lados no quarto, e a magia se concretizou.
Saddam não estava mais no quarto, no seu lugar havia apenas um bilhete, informando o local para onde fora enviado, pela magia de Satan.
E assim, acabou o que Damien julgou como os quatro piores anos de sua vida, tudo voltou ao normal. O moreno ficou muito aliviado em não ter mais Saddam em seu castelo, assim também foi para o conselho de Satan, que temia pelo reino.
Após a saída de Saddam do castelo, as coisas começaram a voltar ao normal, e Satan se voltou novamente para o seu trabalho, como sempre fizera antes, e pôde dar mais atenção a Damien.
Com Saddam por perto, o Rei sequer havia notado vários problemas que estava tendo com burocracias e papéis escritos que estavam começando a se perder por sua sala, e a pilha de acontecimentos que precisava documentar pela escrita.
Satan sempre fizera todos os relatórios, desde reuniões até memorandos, pois era algo que sempre gostara, e poderia ter mais controle sobre o que era dito, porém, com o aumento da burocracia (por motivos positivos, claro), ele se viu sem tempo para preencher e redigir todos os documentos, e ainda gerir seu reino.
Satan odiava admitir, mas precisava de um escrivão.
Como, segundo as novas leis, ele podia pedir funcionários para Deus sempre que precisasse, Satan resolveu mandar uma carta para seu pai, requisitando um escrivão. A resposta fora rápida, e em menos de uma semana chegaria até o castelo um jovem que havia sido escolhido por Deus.
Como Satan fora avisado da chegada daquele jovem, e não poderia estar ali devido a uma triagem de almas, ele preparara uma espécie de comitiva para recebê-lo, apresentar-lhe o castelo e indicá-lo o que precisava ser feito. Parte das pessoas que iriam recebe-lo seria o próprio Príncipe, substituindo seu pai como líder da comitiva.
Damien e outros conselheiros o esperaram nos portões do castelo, sem saber o que esperar daquele mortal. O Príncipe não conseguia esperar grandes coisas, óbvio, pois além dele ser um mero mortal, era uma alma pertencente a categoria Insignificante. Porém, o moreno torcia para que pelo menos fosse eficiente, e fizesse um bom trabalho para seu pai.
Enquanto esperavam nos portões do castelo, em pouco tempo um vento morno como uma brisa de verão passou pelo rosto dos presentes e junto dele uma figura levemente translúcida, parecida com um fantasma apareceu com um sorriso educado no rosto.
— Seja bem-vindo, mortal. Sua Majestade, meu pai, não pôde comparecer, então ficarei no lugar dele, e lhe explicarei sobre seu cargo. — Disse Damien, em sua pose altiva. — Posso saber seu nome antes de começarmos?
— Me chamo Phillip Pirrip. — Informou o mortal, ainda com o sorriso polido.
No primeiro momento Damien não prestara atenção no jovem a sua frente, mas após dar uma olhada, reparou nos longos cabelos loiros que Phillip tinha, muito bonitos e cobertos parcialmente por uma boina cinzenta. Suas roupas eram compostas de uma camisa social branca, uma bermuda que ficava rente aos seus joelhos e suspensórios presos a ela. Damien nunca havia visto ninguém vestido daquela maneira, mas não pôde deixar de apreciar o senso de estilo do recém-chegado.
— Vou mostrar seus aposentos e explicar as atribuições do seu cargo no caminho. — Disse o Príncipe, apontando para dentro do castelo.
Damien começou a mostrar cada local do castelo, sob a curiosidade cortês de Phillip o Príncipe também explicava a história por trás das armaduras na parede (muitas utilizadas na pequena batalha que tiveram com Deus), ele mostrou os aposentos do Rei e do Príncipe, dos conselheiros, apresentou a cozinha, entre setores mais importantes do castelo, para que Phillip pudesse se locomover sem se perder.
Durante o caminho, o Príncipe explicou para Phillip sobre suas futuras atividades, e lhe deu algumas diretrizes.
— Você sabe a importância do trabalho que vai exercer aqui? — Perguntou Damien, enquanto andava à frente do novo escrivão, que o ouvia atentamente cada palavra. — Sua Majestade sempre o fez sozinho para ter melhor controle dos dados que vão para o papel.
Phillip apenas acenou com a cabeça. Ele se lembrou de quando foi escolhido, e Deus lhe disse que o escolhera para esse trabalho por ele ser bastante confiável, apesar do loiro nunca ter ouvido algo assim em vida.
— Farei o meu melhor, lhe garanto, Vossa Alteza. — Disse Phillip, se curvando para o Príncipe.
Uma expressão de dúvida apareceu no rosto de Damien. Ele não reconhecia aquele cumprimento.
— O que está fazendo? — Perguntou Damien, parecendo confuso.
— Uma reverência, Vossa Alteza, essa prática não é feita aqui? — Disse Phillip, parecendo ainda mais confuso que Damien.
— Não, não é nossa maneira de cumprimentar o Rei. — Respondeu o moreno. — Aqui nós apenas inclinamos a cabeça.
— Me desculpe, vossa alteza! De onde vim, era essa nossa prática para saudar a Realeza. — Falou Phillip, fazendo a saudação correta. — Isso não irá se repetir!
— Você veio de outro reino? — Perguntou Damien. Ninguém havia lhe informado que aquele Insignificante fizera parte de outro reino.
— Sim, um lugar chamado Reino Unido! — Respondeu Phillip. — Fui um fiel súdito do Rei Jorge V, mas agora servirei a este reino com lealdade.
Damien franziu as sobrancelhas. O jeito daquele homem era diferente de tudo que ele havia visto, ele era tão... estranho? O moreno não sabia dizer exatamente, mas era a primeira pessoa assim que ele via no Inferno.
Os dois continuaram seguindo em frente e logo chegaram ao quarto que seria onde Phillip dormiria a partir daquele dia.
Era um quarto simples, nada como os aposentos reais, mas ainda era muito melhor do que os quartos que o loiro já tivera ao longo da vida.
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Satan só pôde vir receber o novo escrivão durante a noite, e pareceu bastante feliz em vê-lo, lhe dando uma saudação calorosa.
— Seja bem-vindo, Phillip. Ouvi grandes coisas sobre você, tenho certeza que cumprirá bem seu trabalho. — Disse o Rei, apertando a mão do loiro.
— Farei meu melhor, Vossa Majestade! — Prometeu Phillip, fazendo dessa vez a saudação correta.
Satan ficou levemente surpreso em ver que o novo escrivão já estava se habituando aos costumes, e rapidamente imaginou que havia sido Damien quem lhe ensinara e direcionou um sorriso para seu filho que confuso, desviou o olhar.
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Com o tempo, Phillip realmente provou que era sim confiável e eficiente.
Ele escreveu todos os relatórios com bastante esforço, cometendo poucos erros a princípio, além de sua eficiência, a presença de Phillip no castelo era algo bem diferente, o seu jeito animado fazia um bom contraste com o resto das pessoas do palácio, que no geral eram mais sérias e sisudas.
Damien o achava diferente de tudo o que havia visto, acostumado que era com os anjos caídos que lhe cercavam.
O moreno sempre ficava curioso com a maneira do escrivão agir, se mover e fazer as tarefas, assim como seu jeito de falar, sua voz cordial que fluía quase como um canto.
Por isso muitas vezes o Príncipe do Inferno simplesmente ficava assistindo Phillip trabalhar pela janela do castelo, e algumas vezes até mesmo dava algo a mais para o loiro fazer, tarefas provenientes do departamento que Damien estava começando a gerir, o Departamento de Armas.
Era impressionante para ele que Phillip sempre trabalhasse com um sorriso nos lábios, sempre aceitando as tarefas com animação, como se fosse algo prazeroso de se fazer.
E para o loiro, realmente era.
Phillip se sentia muito importante sempre que um trabalho chegava as suas mãos, e ficava feliz ao receber o agradecimento pelo seu trabalho. Durante sua vida na Terra, o loiro sempre quisera reconhecimento, mas nunca recebera.
E além do mais, o escrivão adorava quando o Príncipe lhe dava um trabalho, era sempre bom revê-lo, já que havia sido Damien quem introduzira Phillip no castelo.
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Aos dezessete anos, Damien já era Chefe da área de Armas do Conselho de seu pai, sendo o melhor dos conselheiros que Satan já tivera nessa área. Porém, o Príncipe não sentia que seu trabalho era o suficiente, por uma razão específica:
Não havia quase nada para fazer!
O Reino era bastante pacífico, não haviam conflitos externos (desde que o Reino do Céu, o “inimigo”, era diplomaticamente bem resolvido com o Inferno), e pouquíssimos conflitos internos (volta e meia, as almas Maquiavélicas tentavam se voltar contra os guardas, sempre sendo contidas em instantes).
Dessa forma, tudo o que Príncipe fazia era fornecer mais soldados para determinadas alas, e treinar os mesmos para combates que acreditava que não aconteceriam.
Claro que o futuro provou que suas concepções estavam erradas.
Em um dia comum, Damien estava em seu quarto, preparando sua armadura para o treinamento daquele manhã quando ouviu uma agitação no salão do castelo.
— As portas do Inferno estão sendo empurradas! — Gritava alguém que o moreno conseguira reconhecer como um de seus soldados. — Tem uma criatura tentando entrar!
Damien no mesmo momento saiu correndo de seus aposentos. Como alguém poderia entrar no Inferno sem ser por meio da triagem de mortais ou do caminho que Deus usa para descer? Era impossível!
Quando o moreno chegou até o salão, pode ouvir a voz de seu pai em alto e bom som.
— Se acalme, soldado! — Mandou Satan, mesmo com um tom apreensivo, sua voz ainda possuía a potência de um Rei. — Conte-me exatamente o que você viu.
— Sim, Mi’lorde. — O soldado fez uma continência e continuou, respirando fundo. — Há uma criatura parecida com um ser humano forçando nossas portas. Parece forte.
Damien franziu as sobrancelhas. Não estava conseguindo compreender aquele acontecimento e aquela criatura, parecia muito fora da realidade.
— Isso é muito estranho...— Murmurou o Rei. — Nada é capaz de entrar aqui sem ser convidado.
Antes que Damien pudesse se pronunciar, a porta do castelo bateu fazendo um som estrondoso e mais dois soldados entraram por lá. Ambos ensanguentados de forma que nenhum soldado do exército real jamais ficara em todos esses anos.
— Rápido, chamem curandeiros! — Disse Satan assim que viu os soldados entraram pela porta. — O que aconteceu com vocês dois, soldados?
O que parecia em melhor estado olhou fundo nos olhos de seu Rei.
— Vossa Majestade... é algo... que nunca vimos. — Disse ele, entre várias tosses. — É forte... parece com um ser humano...
— E com urso... e também... parece com um porco...— Disse o outro soldado, em pior estado, enquanto era colocado em uma maca.
O estômago de Damien embrulhou no mesmo momento.
Aquilo que anteriormente pareceu uma mentira ilusionaria, havia feito vítimas que ficaram fatalmente feridas.
— Ele está quase entrando, Mi’lorde... — Informou o primeiro, com muita dificuldade. — Não sabemos o que é... mas precisa ser abatido.
O Príncipe se aproximou, colocando-se ao lado de seu pai. Olhando de perto, os ferimentos pareciam bastante fundo, e a julgar pelo estado das armaduras, havia sido uma árdua batalha.
— Pai, irei mandar meus homens. — Disse Damien, em sua pose mais firme. — Em grande número, conseguiremos vencer essa criatura.
Satan olhou novamente para os ferimentos de seus homens, com uma expressão apreensiva.
— Temo que isso não será suficiente, meu filho. — Disse o Rei, colocando a mão no ombro de seu filho. — Eu terei que ir.
— Você não pode! — Protestou Damien, trêmulo. — Você é o Rei, precisa ficar seguro!
— Um Rei precisa proteger seu povo, Damien. — Disse Satan, balançando a cabeça. — Você sabe disso.
Era verdade.
Uma das primeiras lições que Satan havia lhe dado, era de que o primeiro trabalho de um Rei era proteger seu Reino e seus súditos, não importando qual fosse a circunstância. Porém, vendo o estado daqueles homens, Damien não queria que seu pai cumprisse seu dever, não queria que seu pai fosse para a batalha.
Não queria que seu pai morresse.
— Servos, tragam minha armadura! — Mandou Satan. — Eu mesmo lidarei com a criatura.
Os servos e todo os presentes estranharam aquele pedido, pois desde a formação do Inferno, o Rei jamais entrara em combate.
— Pai, me deixe ir no seu lugar! — Pediu Damien. — Sou o responsável pelas Armas, saberei o que fazer.
— Meu filho — começou Satan, enquanto ia pegar sua armadura que os servos haviam acabado de lhe trazer —, você é o herdeiro e deve ficar aqui com o resto do Conselho. Seguro, esperando meu retorno.
— Mas e se o senhor não voltar? — Perguntou o Príncipe, impaciente. — Sem mim o reino pode continuar.
Satan balançou com a cabeça.
— Não, não pode. — Disse o Rei, colocando novamente a mão no ombro do Príncipe . — Estou ordenando que você fique no castelo, não como seu pai, e sim como seu Rei.
Damien bufou.
Muitas vezes ele esquecia que seu cargo era de “primeiro cidadão” antes de tudo, e que ele precisava obedecer a seu pai não apenas como pai, e sim como o Rei.
— Acatarei a ordem, Vossa Majestade. — Disse Damien, curvando a cabeça contrariado. — Leve quantos homens puder.
Satan acenou com a cabeça.
— Ficarei bem, meu filho. — Falou ele, lançando mais um sorriso para seu filho, antes de ir se preparar para a batalha. — E se não ficar, você sabe o que fazer.
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Satan e vários soldados do reino (o máximo que conseguiram juntar naquele momento) seguiram rapidamente, em marcha, até as portas do Inferno, já sabendo o que os esperava, deixando Damien, os Conselheiros e diversas pessoas que moravam no castelo sozinhas, esperando o que poderia acontecer.
Logo após a saída do Batalhão, Damien viu uma figura levemente translúcida chegando até o salão, com uma expressão confusa.
— Onde você estava? — Perguntou Damien, confuso quando viu o loiro chegando ao salão.
O Príncipe havia sentido a falta de Phillip antes, pois todo o castelo estava ali, e sua presença com certeza fazia diferença, principalmente no meio daquele caos.
— Fazendo relatórios, Vossa Alteza. — Respondeu Phillip, simplesmente. Em seguida, ele deu mais uma olhada para o salão. — Que bagunça! O que aconteceu aqui?
Damien franziu as sobrancelhas.
Como alguém conseguira não ouvir a barulheira que ocorrera no palácio a alguns minutos atrás? Porém, sabia que Phillip se concentrava demais em seu trabalho, e explicou tudo que havia visto.
— Parece com um ser humano, um porco e um urso? Coisas assim não existem! — Exclamou o loiro, assim que Damien terminara.
— Também não consigo acreditar. — Disse o Príncipe, balançando a cabeça para que sua preocupação fosse embora. — Quero que você relate isso em documentos oficiais.
Phillip percebera que Damien estava apreensivo. Havia algo na maneira que ele colocava as palavras e em seu tom de voz que deixavam claro.
Ele estava com medo de perder seu pai.
— Como desejar, Vossa Alteza. — Disse Phillip, curvando a cabeça para Damien, e seguindo até sua sala. Antes de sair, voltou-se para o Príncipe e murmurou em seu ouvido: — Sua Majestade ficará bem, ele é um homem forte.
Damien não respondeu nada ao escrivão, mas apenas torcia para que estivesse certo.
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Algumas horas se passaram, e quando Damien começou a pensar em desobedecer seu pai, reunindo o que sobrou de homens e seguindo em direção à Batalha travada no Portão, soldados da Frente enviada para lidar com o ser abriram a porta do castelo, os soldados que voltavam eram um número muito inferior aos que deixaram o castelo.
E a primeira coisa que o Príncipe notara é que Satan não estava entre eles.
— A Criatura foi derrotada. — Disse um deles, em um tom triste que destoava do fato noticiado.
Um coro de comemoração foi ouvido, vindo da corte e do conselho. Porém, Damien ficara em silêncio, não compartilhando a alegria.
— Aonde está o Rei? — Perguntou o moreno com urgência.
Os soldados se entreolharam e tiraram os elmos da cabeça, os colocando junto ao peito.
— Sua Majestade lutou bravamente, e matou a criatura. — Contou um deles. — Mas infelizmente, sua vida foi retirada no processo.
O Príncipe sentiu seus olhos pesarem, e seu corpo quase cedeu.
Aquilo não podia ser verdade.
