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Here, there and everywhere

Summary:

Quando Jongin escuta um garoto cantarolando Eleanor Rigby no banheiro do colégio, de alguma forma ele sabe que Kyungsoo é o membro que faltava para a sua banda fazer sucesso. Ao som dos Beatles e em cima da bicicleta, Jongin e Kyungsoo descobrem a magia dos eternos anos oitenta numa cidade pequena, com alguns amigos para contar, um parque de diversão abandonado e todos os beijos infinitos que nem mesmo John Lennon ou Paul McCartney saberiam como descrever.

Notes:

oi oi :)
depois de muito tempo sumida decidi dar uma chance a voltar a postar fanfics.
essa história tem todo meu coração por diferentes motivos e espero que toque o coração de vocês de alguma forma também.

Chapter 1: O garoto cantando no banheiro

Chapter Text

                                                                                                  Here-there-and-everywhere

 

 

 

Na primavera de 86, Jongin sabe que alguma coisa está errada assim que cruza a garagem pálida de Kim Jongdae. Ele sabe porque naquela hora era para Jongdae estar atrás da bateria e Baekhyun com a guitarra na mão, o xingando por se atrasar, mesmo sabendo que não foi por mal.

Mas ao invés disso, Baekhyun sopra a fumaça do cigarro barato para cima, encarando o teto com uma profundidade de quem pensava na vida e Jongdae, sentado ao seu lado, rola as baquetas nas mãos.

— O que foi que aconteceu? Eu só me atrasei porque precisei colocar umas merdas do meu irmão na caixa pra mãe mandar — diz ao se aproximar. Jongin puxa o cigarro ainda aceso das mãos de Baekhyun e o joga no chão, pisando em cima. Byun o mostra o dedo do meio, as unhas pintadas de preto dão um ar rebelde às mãos delicadas. Jongin nunca gostou do cheiro do cigarro. Olha ao redor — E nem fiquem me olhando com essas caras de cu, o Junmyeon também não chegou. E ele nem veio na quinta.

— Você é burro pra caralho, pirralho — Baekhyun ri ladino ao levantar e, apesar das palavras amargas, tem um tom carinhoso em sua voz. 

Jongin franze o cenho virando-se para o amigo que segue até os instrumentos. Baekhyun deve ter no máximo 1.70 de altura, e se Jongin for otimista, uns 1.73. Os 19 anos ainda o beneficiam com um rosto bonitinho que faz questão de estragar todos os dias com aquela maquiagem que passa ao redor dos olhos e o mullet numa mistura de vermelho e preto. Todos sabiam que ele estava mirando no David Bowie no albúm de Ziggy Stardust, mas havia acabado totalmente diferente. De qualquer jeito, Baekhyun, mesmo com o mullet de duas cores, a pouca altura, a maquiagem nos olhos e as unhas pintadas, tem uma imagem desafiadora que Jongin acredita que só ele é capaz de se mostrar contra.

— Do que cê tá falando? — pergunta por fim ao decidir deixar o comentário “pirralho” passar. 

— Odeio concordar com o Baekhyun, mas ele tá certo. Você tá sendo burro, Jongin — Jongdae suspira no sofá ao levar as mãos para trás da cabeça. Jongin encara o semblante do rapaz tentando ler suas expressões, mas já deveria saber que Jongdae já viveu o suficiente com a própria família para saber esconder todas elas — O Junmyeon furou, se mudou semana passada. 

— O filho da puta não teve coragem de falar nada — Baekhyun murmura com a palheta presa entre os lábios. 

Olhando de um amigo para o outro, Kim Jongin, de 17 anos, quer muito dizer que está surpreso, mas essa não é a palavra certa. Não está surpreso porque ninguém jovem fica por muito tempo na pequena cidade de B. , na primeira oportunidade as pessoas se mandam porque não há muito para viver ali, numa cidade que quando você acaba de ler a placa de bem vindo, " já acabou" , como brinca Jongdae. Mas está magoado. 

E se o permite dizer, magoado para um caralho. E um tanto desesperado também, mas não quer mostrar isso aos mais velhos para não se sentir uma criança mais uma vez. A questão toda é que Jongin tem quase um ano na Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club, bandinha de garagem em homenagem aos Beatles criada há dois ou três anos, e pela primeira vez a banda havia sido chamada para tocar num evento remunerado. Junmyeon era o vocalista principal. Jongin não consegue acreditar que o cara furou assim, sem nem dar uma explicação, faltando um mês para tocarem.

— A gente vai cancelar a apresentação? — pergunta ao sentar no sofá. 

Jongdae e Baekhyun se entreolham. Ambos têm 19 anos e, às vezes, só pela maior idade, acreditam fielmente que são estupidamente mais maduros que qualquer um ali. E por qualquer um ali, eles querem dizer Jongin. Os mais velhos se conheceram ainda crianças, época que Jongdae ficava sentado no balcão da locadora de filmes que os pais ainda têm e Baekhyun arrastava o patinete caindo aos pedaços até lá toda semana tentando descobrir filmes ruins para passar a noite. Jongin veio depois. Bem depois. Baekhyun andava com os irmãos mais velhos do Kim. Chegaram a tocar juntos algumas vezes quando tinham uns 12 ou 13, uma bandinha de garagem péssima e sem futuro nenhum. Jongin ficava de canto porque aos 10 chorava para os irmãos mais velhos o levarem para os lugares. Baekhyun o odiava nessa época e Jongdae fingia que o moleque não existia.

Mas Jongin, de alguma forma, conseguiu conquistar os dois. Apesar de nem o Kim, e muito menos o Byun, terem vontade de admitir isso em voz alta. A quantidade de tempo passado juntos os aproximou. Jongin quando tinha 13 se mostrou melhor no baixo que qualquer um dos dois irmãos mais velhos, mas Baekhyun dizia que ele era muito pirralho para tocar com eles.

E assim, Jongin ficava de fora quando os garotos tocavam. Mas às vezes Jongdae até perguntava se ele não queria ir tomar um sorvete com eles e, para uma criança como Kim Jongin naquela época, o convite era a melhor coisa que poderia lhe acontecer. 

A Stg. Pepper surgiu há pouco mais de um ano. Naquele ano, ninguém levava aquilo muito à sério, nem Jongdae, ou Baekhyun, ou Jungah — irmão mais velho de Jongin — e muito menos Junmyeon, um dos amigos do Kim que havia se oferecido para cantar. Era só diversão até Jongin começar a tocar e eles perceberem que tinham chances de serem bons.

Jungah foi o primeiro a sair. Teve uma despedida numa lojinha de conveniência num posto à beira de estrada que costumavam ir. Junmyeon nem mesmo nesse dia falou sobre ir embora. Mas foi.

Então, enquanto Jongdae observa Jongin o encarar, lembra do quanto melhoraram desde que o moleque entrou e como agora faziam alguma diferença no cenário musical da pequena cidade de B. 

— Não, a gente não vai cancelar — dá de ombros. Baekhyun o encara, os olhos pintados de preto flamejando por baixo da franja — A gente consegue arrumar um John Lennon em um mês, não?

Baekhyun bufa.

— Você colocou duas coisas impossíveis numa frase só. Encontrar um John Lennon e em um mês — Ajusta a afinação da guitarra e Jongdae ri. — Se a gente encontrasse um Lennon nem aqui estaríamos mais.

Jongin ri.

Baekhyun está certo.

📼

Jongin odeia o colégio.

Acha que apenas gostou no começo do Ensino Médio quando entrou. Baekhyun, Jongdae e Junmyeon ainda estudavam lá, assim como seu irmão mais velho. Eles não andavam exatamente com o rapaz, mas também não o deixavam sozinho. 

Jongin não admitiria em voz alta, mas sente falta disso.

Está muito bem sem amigos na escola. Jura que está, afinal, que tempo tem para dar atenção a essas coisas? Jongin vai ser um nome grande na história do rock. Ele não precisa se preocupar em ter com quem sentar no intervalo, por isso se acostumou a comer nas arquibancadas onde os amigos costumavam lanchar juntos antes e agora é o seu lugar. E de um bando de casais que ficam embaixo da estrutura de madeira enfiando a língua na boca um do outro.

Jongin só não tem tempo pra essas coisas.

Os outros tem.

Junmyeon, antes de ser um filho da puta e ir embora sem dar uma explicação, costumava namorar uma garota do colégio. Eles iam para encontros no cinema drive-in e o cara se gabava da vez que a levou para colina. Jongin e Jongdae reviraram os olhos. Já Baekhyun dizia que quem come quieto come duas vezes, então era melhor para Junmyeon parar de ser um idiota. 

Jongdae também tem tempo. Não que ele namore ou algo assim, mas Jongin já pegou algumas garotas saindo da casa dele antes do ensaio. Todas com os lábios inchados. Mas Jongin não acredita que sejam tantas. Acha que é mais coisa de momento, para se distrair daquela vida de merda que o cara tem.

Baekhyun é outra história.

Ele tem tempo. Até demais. E pra gente demais. Jongin ainda lembra da primeira vez que pegou Byun com um cara no maior amasso dentro do carro. Baekhyun já estava sem roupa e desfivelando o cinto. O cara só de cueca. Eles não falaram sobre aquilo por semanas e o clima na banda havia ficado estranho. Todos estavam acostumados a Baekhyun ser aquele cara que pega todo mundo. Depois de cada apresentação ele saía com uma, duas, três garotas. Sim, juntos. Mas Jongin não sabia sobre os caras.

Foi Baekhyun quem o chamou para conversar na garagem do Jongdae. Chamou a banda toda. Ele disse algo como "Eu chupo pica mesmo, e daí? Vocês não vão achar um guitarrista melhor que eu em nenhum lugar nessa droga. Ou vocês aceitam que eu como mais mulher que vocês e já comi metade dos seus amiguinhos héteros ou vão ter que acabar com essa merda de banda. E não, eu não quero chupar os pintinhos minúsculos de vocês." E depois do choque de dois segundos, eles riram. Baekhyun contou dos caras que tinha saído. Eles foram até a loja de conveniência caindo aos pedaços e pediram as raspadinhas mais aguadas de todo o país, mas com muito xarope, e sentaram na calçada porque lá dentro não tinha cadeiras. Baekhyun não sentia que precisava ser acolhido, mas foi.

Jongin não. Ele ficou com uma ou duas pessoas. Chegou a levar a garota para o baile de formatura da Middle School , mas ela se incomodou que ele não parava de falar sobre a playlist da festa e o deixou sozinho. Ele está bem com isso. O romance vem depois. Jongin só precisa da banda. Só precisa homenagear a porra dos Beatles do jeito certo. Depois começar a compor, tocar suas próprias músicas e aparecer na TV junto com os amigos, falando como os garotos de B. saíram de uma garagem para o mundo.

Ainda têm alguns minutos antes da próxima aula, e deixando a arquibancada, o garoto vai até o banheiro.

Jongin ainda não sabe, mas sua vida está prestes a mudar.

📼

Do Kyungsoo odeia ser o aluno novo.

Mas ele sempre é, então depois de anos mudando de cidade em cidade e entrando na escola no meio do ano letivo, ele já se acostumou com os olhares curiosos nos corredores e de aproximações um tanto indesejadas na hora do almoço ou no estacionamento do colégio.

Ele não tem problema em ser o centro das atenções por uma semana e até gosta de imaginar o que os novos colegas estão pensando sobre ele. Ou melhor, o que vão pensar quando ele desaparecer mais uma vez, depois de quatro ou cinco meses. Soube, por meio de uma carta, que numa das escolas que estudou em T. o boato era que tinha morrido num trágico acidente de carro junto com toda família, mas ainda tinha aqueles que acreditavam que ele teve uma overdose e os pais se mudaram para não enfrentar a vergonha de ter um filho drogado.foi o único lugar que fez um amigo. Porque ele sabe que vai se mudar de qualquer jeito, então prefere não se apegar. Mas Sehun era seu vizinho e um grude. Insistiu naquela amizade por semanas até que Kyungsoo aceitou o ensinar a tocar violão. Já morou em quase uma dezena de cidades depois de T. e ainda sente falta dos olhos meia-lua de Sehun e de como ele falava com a língua levemente presa quando estava muito empolgado. Dizer tchau não era o seu forte. Nunca se imaginou chorando enquanto os pais esperavam no carro, mas desabou nos braços do amigo, do primeiro amigo. 

Ainda trocam cartas às vezes. Sehun lhe conta sobre seu dia. E pede para que ele pare de ser um pé no saco e tente fazer amigos. Que mesmo por cinco meses ficar sozinho não é legal, que ele não saberia socializar quando se visse livre dos pais e fosse para faculdade. Sehun dizia que Kyungsoo acabaria como um velho rabugento numa casa grande com uma vitrola com o mesmo disco dos The Beatles tocando o dia inteiro e que nunca iria o visitar.

Mas Kyungsoo não está pronto para outra despedida. E ele sabe que o pai está pouco se fodendo se está estragando com o que deveriam ser os melhores anos de sua vida como aqueles filmes idiotas dizem. Ele sabe que a porra do exército pergunta quem se voluntaria para a mudança de base e ele sabe que seu pai sempre é o primeiro a levantar a mão. Talvez ele ache que mudar de cidade constantemente seja começar uma vida nova, e assim, consiga salvar o casamento. Kyungsoo sabe que o casamento não tem salvação. Ele só quer que a mãe perceba isso também.

Enquanto isso não acontece é ele quem tem que lidar com novos colegas, transferências e mudanças constantes. É ele que tem que sentir falta do melhor amigo, que está há 6.400km de distância.

Ele está no banheiro. Lavando as mãos daquela porcaria que chamam de pizza, mas era só uma massa gordurosa com queijo de qualidade duvidosa requentado. Pensa no que Sehun lhe disse na última carta. Da vitrola dos Beatles. E cantarola.

All the lonely people, where do they all come from? 

All the lonely people, where do they all belong?

Está sozinho. Não tem problema se empolgar um pouco cantarolando a poesia cantada de Eleanor Rigby. E é o que faz, enquanto olha o reflexo no espelho fechando a torneira. Mas com as mãos ainda molhadas tentando alcançar os papéis reciclados para as enxugar, a porta de uma das cabines atrás de si abre brutalmente.

É um garoto — óbvio que é, Kyungsoo pensa depois — e ele está com a boca aberta. O zíper do jeans ainda aberto e os olhos arregalados. Kyungsoo não sabe o que esperar. Mas também não é curioso o suficiente para continuar ali e saber o resto da história. A aula já vai começar de qualquer jeito, ele não vai chegar atrasado na primeira aula de História só porque tem um cara estranho no banheiro o encarando como se ele fosse o próprio Messias. 

Kyungsoo dá as costas, não está assustado. Só evitando gente estranha, é o que repete para si mesmo.

Mas ao sair do banheiro seu pulso é segurado com força, e ele o puxa de volta, virando irritado. O garoto ainda está boquiaberto, meio ansioso. 

— Você estava cantando Eleanor Rigby? 

📼

Jongin sabe o momento exato em que ouviu a torneira ligar. Ele escuta o que seria o início de uma cantoria. E então percebe a música que é, e como a voz do rapaz era bonita. Jongin não sabe o que passou na sua cabeça nos segundos seguintes, com os versos cantarolados há alguns metros de distância de si, mas ele sabe, ah, ele sabe de todo o coração que aquele é o sinal. 

Não que acredite em destino, mas naquele segundo jura que é a única explicação possível. Ele dá descarga e tenta se ajeitar da maneira mais rápida possível, mas provavelmente deixa algo passar. Abre a porta num empurrão mais violento do que pretende, mas está ansioso para conhecer quem seria o novo membro da Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. 

É um moleque. E ele abre a boca surpreso ao ver o cara mirradinho com o cabelo castanho claro e boca grossa. Parece mais um daqueles nerds do clube do audiovisual com aquele moletom surrado jogado por cima de jeans gastos. Mas Jongin não se deixa abalar pela aparência nada promissora do rapaz, podia cuidar daquilo depois, o emprestar uns jeans melhores e tirar aquele moletom. Ele precisava da voz.

Está pronto para abrir a boca e se apresentar, falar sobre a banda e o ver aceitando de primeira.

Mas o garoto dá as costas e deixa o banheiro. 

— Merda — murmurra correndo até a pia para lavar as mãos.

Nem as seca antes de disparar para fora do banheiro e alcançar o moleque. Segura seu pulso, mas ele o puxa de volta e vira. As sobrancelhas grossas estão juntas, e Jongin percebe que o irritou. Mas está eufórico demais para se importar. Aquela era a chance que tinha.

— Você estava cantando Eleanor Rigby? — pergunta num fôlego só, ajeitando a postura.

Kyungsoo o analisa de cima para baixo de novo. A braguilha ainda está aberta.

— Qual o problema? — pergunta e cruza os braços abaixo do peito, arqueando uma das sobrancelhas.

— Não, não tem problema nenhum, merda — diz, impaciente, e se arrepende no segundo seguinte porque o garoto parece incomodado com suas palavras — Digo, foi incrível.

Kyungsoo parece confuso. Passa o peso de um pé pro outro. E lembra que não quer amizades ali.

— Tá certo, obrigado — diz por fim, e dá as costas novamente.

Jongin fica parado no corredor. O sinal toca. Ele acompanha o garoto sumir no meio da multidão de estudantes e esquece da própria aula. 

📼

Kyungsoo está mentindo para si mesmo. 

As aulas passam e ele é, como o esperado, o centro das atenções. Como não ser? B. é a cidade mais pequena que já estudou. Acha que o número de estudantes daquele colégio inteiro deveria ser a mesma quantidade de estudantes do seu ano em T. Ele é a novidade, é normal que as pessoas comentem. 

E ele jura que até daria atenção a algumas delas. Não sabe ao certo até que ponto, mas sustentaria uma conversa de três minutos antes do professor chegar "sim, é um saco chegar no meio do semestre", "ah, não é muito diferente da escola que eu estudava", qualquer coisa para entreter aquele bocado de gente que não parava de olhar pra ele como se fosse um alienígena. 

Mas ele não o faz.

Que diabos, não para de pensar no garoto do banheiro. Deveria ter o avisado da braguilha aberta. Mas é melhor deixar pra lá, o cara é estranho de qualquer jeito. Coloca o caderno em cima da mesa e se decepciona ao perceber que o assunto do dia foi algo que já estudou na cidade anterior. Respira fundo e escorrega o corpo na cadeira. Espera que as aulas terminem logo, assim pode andar por B. e procurar algum fliperama para passar o tempo sem precisar voltar para casa. Tinha que dar uma olhada na biblioteca da cidade também, mas não tem esperanças que tenham um estoque vasto.

As aulas do dia acabam e Kyungsoo ajeita a mochila nas costas passando pelo portão principal do colégio. Ainda não gravou muito bem o caminho até em casa. Sabe que deve ir para direita e depois andar alguns blocos até finalmente virar a esquerda, ou direita de novo. Mas prefere ir para a esquerda. 

E ali está o garoto do banheiro, parado com as costas apoiadas na parede de tijolos vermelhos e o cabelo bagunçado. Kyungsoo não havia notado antes, mas ele é bonito. Um tipo de beleza que você não vê fora das revistas. Ele tem olhos sorridentes, mesmo quando a boca carnuda está fechada. Kyungsoo para por um segundo com as mãos segurando as alças da mochila quando seus olhos se encontram.

O garoto se afasta da parede e caminha até ele. Kyungsoo diria, para Sehun, em alguma carta, caso não tivesse muitas outras coisas para falar e aquele garoto fosse o único assunto minimamente interessante sobre B., que ele parecia um filhote de golden retriever, mas tentava se comportar como um pitbull forte com as mãos nos bolsos da calça e tentando deixar o olhar menos amigável. Parece que ele quer ser legal , não legal no sentido de ser educado, legal no sentido das crianças populares que tornam tudo um inferno.

— Eu sou Kim Jongin — Jongin se aproxima, Kyungsoo espera que ele estenda a mão, mas ele não o faz. Kyungsoo também se questiona em que momento perguntou o nome do rapaz, mas não quer ser grosso — Você é o aluno novo.

— Demorou muito para perceber? — pergunta, soltando um suspiro.

— Do Kyungsoo — Jongin murmura, Kyungsoo franze o cenho e Jongin deixa um sorriso escapar no canto dos lábios — Você é o assunto do momento, seu nome está nos corredores.

— Claro — respira fundo, não entende o ponto daquela conversa.

— Você é novo aqui.

— E você já disse isso antes.

Jongin rola os olhos.

— Se você me deixar terminar — bufa — Já que é novo aqui, não sabe nada sobre a cidade. Tem uma banda muito boa. Eu faço parte.

Kyungsoo segura a respiração. Ele quer uma tiete? Se autopromover? 

— É um cover dos The Beatles, sabe? Somos o Stg. Pepper's Lonely Heart Club Band. E você estava cantando Eleanor Rigby. 

— E?

Jongin já está impaciente. Mas Kyungsoo também. E ele começa a andar, como se os dois não estivessem conversando. Jongin bufa e o segue.

— Você deve gostar deles, não é?

— Tem alguém que não goste? — pergunta.

— Eu ouvi você cantando. A gente precisa de um John Lennon e você seria o Lennon perfeito pra banda.

Kyungsoo para por um segundo. Franze o cenho sem entender muito bem. O garoto deve ser louco. Nem o conhece e já está o chamando para participar de sua bandinha. Isso tudo por um verso cantado no banheiro do colégio.

— Quem canta Eleanor Rigby é o Paul — responde por fim, continuando a andar.

— E você acha que eu não sei? Merda, nanico. A gente precisa de um Lennon e você canta bem.

Kyungsoo para novamente. Nanico. Empurra Jongin na parede de supetão e o rapaz tem os olhos arregalados, totalmente surpreso.

— Vai encher o saco de outro também. E se me chamar de nanico mais uma vez eu vou quebrar sua cara.