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Suletta Mercury, a garota de Mercúrio que teve uma passagem marcante por Asticássia, desapareceu do espaço. Ninguém mais soube o que aconteceu com a jovem desde a derrota no último duelo realizado pelo instituto, embate no qual a garota acabou perdendo para Guel Jeturk, seu oponente, numa virada inacreditável.
A pedido de sua ex-noiva, Suletta aceitou duelar contra Guel, pensando que a vitória seria um belo presente de aniversário para Miorine, que logo completaria a idade legal para se casar. Todos os detalhes da união das duas garotas - os anéis, os vestidos, os convites, tudo o que é de praxe numa cerimônia de casamento - já estavam sendo pensados, porém ainda faltava algo: Miorine confirmar que aceitaria Suletta ao seu lado para sempre. Durante o embate, a garota de Mercúrio reforçou seu desejo de se casar com a princesa do Grupo Benerit, declarando em alto e bom som para que todos os alunos de Asticássia ouvissem.
Depois de uma série de vitórias, finalmente chegou o dia em que a então Holder veria seus desejos virarem pó em uma questão de minutos. O resultado do embate já havia sido combinado pelas suas costas pelas pessoas que ela prezava e admirava. Miorine e Guel, por razões que Suletta nem desconfiava, “feriram” a pobre garota de Mercúrio com suas decisões, pensando no bem dela.
Com a derrota, vieram as dolorosas consequências: Suletta teve arrancados Aerial, seu Mobile Suit; o título de Holder, que a garantia como “o noivo” de Miorine Rembran; e a presença da própria Miorine em sua vida. Quando o fundo do poço não parecia mais o suficiente, veio também o abandono por parte de sua mãe, Prospera Mercury.
“Se fugir, você ganha uma. Se avançar, ganha duas”. O lema que Suletta tanto amava não fazia mais sentido agora, quando tudo o que a fazia mover havia sido retirado dela. Nem a vontade de viver restava mais.
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Há cinco anos, desde que se casou com Guel Jeturk numa união de fachada, Miorine fez de tudo para esquecer o dia em que disse adeus para a garota de Mercúrio. Justo naquele dia maldito, preparado pela mente manipuladora de Prospera, a princesa do Grupo Benerit ouviu o que seria um pedido genuíno de casamento vindo de Suletta, uma promessa de que as duas viveriam felizes para sempre, uma ao lado da outra. Não haveria mais duelos sem sentido, Miorine e Suletta estariam livres para ir aonde quisessem, para a Terra, para Mercúrio ou qualquer outro canto em que adultos metidos em guerra não interferissem em seus futuros.
Diferente dos tantos pretendentes arrogantes, filhos de famílias abastadas que viam a filha de Delling Rembran como um troféu e como uma possibilidade de ganhar poder dentro do Grupo Benerit, Suletta era uma garota simples e sonhadora, sem ambição por dinheiro e fama. Miorine aos poucos se deixou encantar por aquela caipira vinda de outro planeta, e também deixou de ser a garota mimada que muitos estudantes de Asticássia enxergavam nela. Por causa de Suletta, a princesa teve seu coração amolecido por um calor que há tempos ela não sentia. Ela, que antes não demonstrava interesse por ninguém, agora mostrava que se importava, sim, com aqueles ao seu redor. Porém, conhecê-la demandava um pouco mais de paciência e empatia, coisas que muitos narizes empinados de Asticássia não conheciam.
Com o falecimento de Delling, a princesa assumiu os negócios do Grupo Benerit enquanto auxiliava os irmãos Jeturk a reerguer a empresa familiar. A entrada no mundo dos negócios envolvia reuniões a todo momento e viagens para firmar parcerias com laboratórios e centros de pesquisa, deixando Miorine praticamente sem tempo para lidar com assuntos de cunho pessoal. Ou melhor, a princesa mergulhava de cabeça no ambiente empresarial para não ter que pensar na decisão mais estúpida que fez na vida, quando decidiu fingir que não queria mais Suletta por perto.
Lilique, agora com o cargo de secretária de Miorine, sabia muito bem que o assunto mal-resolvido na vida de sua chefe causava uma série de empecilhos: noites sem dormir, reuniões desmarcadas em cima da hora, crises de ansiedade, a infelicidade estampada no rosto. Assim que descobriu que Miorine ainda nutria algo por Suletta, a secretária alertou ChuChu, diretora de tecnologia de pilotagem de mobile suits da empresa.
— ChuChu-senpai, por favor, acho que você é a única que pode ajudar a presidente Miorine nesse assunto!.
— Que assunto? Não vai me dizer que…
— Sim. Ela não esqueceu da Suletta-senpai, mesmo dizendo o contrário. Um dia desses, a presidente estava falando durante o sono, e o nome que ela dizia era apenas um: Suletta.
— Aaaaah, Miorine! Por todo esse tempo se fazendo de durona! Agora é meio tarde demais pra se arrepender! Ninguém nunca mais soube da Suletta.
— Mas, ChuChu-senpai, será que você não consegue alguma informação com os pilotos das empresas do Grupo Benerit?
— Pfft! Desde que saiu do colégio, a Suletta nunca mais entrou em contato comigo. Mesmo a Nika-nee trabalhando com nossos pesquisadores não foi capaz de achar um rastro dela que fosse.
Duas semanas depois do contato com Lilique, ChuChu foi até a base do Grupo Benerit para se encontrar com Miorine. Pensando ser mais uma reunião em que falariam sobre novos projetos ou liberação de verbas para pesquisas, Miorine encaixou em sua agenda um horário com a colega.
— ChuChu, achei estranho você marcar uma reunião nesta semana. Pensei que tivéssemos encerrado a questão sobre a pesquisa para o cockpit dos novos modelos de Mobile Suit.
— Ahn, err… Na verdade, eu não vim aqui para falar sobre negócios.
— Ah, é? E sobre o que você precisa falar, para ter marcado um horário pela Lilique? Se for sobre algo fora do trabalho, eu já disse…
ChuChu interrompe Miorine, colocando suas duas mãos sobre os ombros da presidente.
— É o seguinte… Eu sei que você decidiu se afundar no trabalho desde AQUELE dia. Mesmo que você diga que usou a Suletta como um escudo para se defender de seu pai, isso ainda não me convence. Você e aquele maldito Jeturk tiveram algo a ver com a derrota do Aerial, não é mesmo?
Miorine desvia os olhos, confirmando o que ChuChu já havia desconfiado.
— Nós dois fomos forçados a fazer péssimas escolhas. Mas foi tudo pelo bem da Suletta.
— Pelo bem da Suletta? - ChuChu levanta o tom de voz, demonstrando raiva. - Miorine, que benefícios a coitada teve ao ver Aerial indo embora para o hangar dos Jeturk? Ela estava decidida a se casar contigo, e não era pelo seu status, mas sim por amor! Vocês perguntaram pra Suletta se ela ficaria bem vendo você e o Guel se casarem? Aquela garota foi humilhada por você na frente de toda Asticássia!
— Me arrependo muito, ChuChu, eu juro. Sei que é tarde demais, mas achei que a Suletta fosse ficar livre das mãos da Prospera, aquela cobra!
ChuChu segura o rosto de Miorine e seca algumas de suas lágrimas.
— Miorine, talvez ainda não seja tão tarde assim. A Suletta pode ter ido embora de Asticássia porque o ambiente de lá só a faria lembrar do dia em que você a abandonou. Ela é uma piloto excelente, duvido que alguém teria coragem de não chamá-la para guiar um Mobile Suit.
— Mas sinto que ela não vai querer mais falar comigo, ChuChu!
— Espera aí, que estou aqui para te ajudar. Foi por isso que eu marquei esse horário. Para dizer que vou te ajudar a localizar a Suletta. Quanto a resolver o problema entre vocês duas, infelizmente não vou poder te ajudar, isso depende mais dela do que de mim.
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— Miorine… Eu acho que encontrei a Suletta.
— Hã?! O quê?? Me diz onde que ela tá, Chuchu!
— E-eu não tenho como te explicar!
— Como assim, você achou ela e não sabe me dizer onde a Suletta está?
— É que… eu preciso que você venha. Pessoalmente.
— Mas como a Suletta está? Está bem? Será que pode me falar mais sobre como ela se encontra?
— Desculpa, Miorine. É que você precisa ver. Com seus próprios olhos.
A presidente do Grupo Benerit desmarcou todos os seus compromissos naquele exato momento, e ordenou aos seus funcionários que preparassem uma nave imediatamente, para que pudesse se encontrar com ChuChu em Mercúrio. Ainda que os técnicos mais experientes tentassem convencê-la de que as condições naquele planeta eram extremos e que só prejudicaria sua saúde, Miorine não recuou em sua decisão.
Suletta Mercury… O que aconteceu com você durante todos esses anos em que ficamos longe uma da outra?
Alguns dias de viagem, e a presidente Rembran finalmente chega ao planeta inóspito. Não há muitas instalações no local indicado por ChuChu, as pessoas são poucas nessa região, e praticamente não há crianças.
Com muita apreensão, Miorine se encontra com sua diretora, porém não vê sinal de Suletta em lugar algum.
— ChuChu, a Suletta não veio?
Sem olhar para a jovem executiva, ChuChu toma a frente e pede para que Miorine a siga. Durante o caminho, a garota dos pom-poms rosa não emite uma palavra, o que só aumenta a ansiedade da presidente.
As duas passam por um caminho acidentado e chegaram a um grande lote, onde não havia nada construído. O que se vê são vários totens de mesmo formato e tamanho, que chamam a atenção de Miorine. Tudo parecia normal, até que em um determinado momento ChuChu pára e olha para o chão.
— O que aconteceu? - Miorine pegunta.
— Você queria saber do paradeiro da Suletta, não? - A garota de pom-poms rosa faz um movimento com a cabeça, instruindo a presidente a olhar para o chão. Respira fundo antes de prosseguir, com uma voz entrecortada.- Ela está bem aqui.
Ao olhar para a placa no pé do totem, Miorine lê o nome daquela garota que tanto queria encontrar: Suletta Mercury, falecida aos 17 anos. Ao lado, dois chaveiros, um vermelho e outro azul, dispostos dentro de um item no formato de cristal.
