Chapter Text
Redenção: Significa libertação, reabilitação, reparo, salvação.
AMAR É A RESPOSTA para este quebra-cabeça. Boston estava feliz. Depois de tudo o que houve; das atitudes insensíveis ou das palavras carregadas de veneno que ousou dar rudemente às pessoas que tanto amava e que quebrou a confiança. Nem mesmo o próprio sabe como Mew perdoou seus erros, ainda que grato pela misericórdia de seus melhores amigos, não tinha certeza se merecia ser perdoado tão facilmente.
Top e ele sequer falavam mais do que saudações rápidas e sinceramente, preferia assim. As coisas se ajustam aos poucos. Ele pode se adaptar ao novo funcionamento do grupo, pode se acostumar com San, o namorado de Ray, ainda que este parecesse não confiar em si. Pode se acostumar com o romance em reconstrução de seu ex e de Mew e o novo rumo que o hotel está tomando estando finalmente pronto e inaugurado.
Porém ainda não é o suficiente. A carência de algo – ou alguém – que vêm sentindo é a prova disso.
Era contente por suas conquistas, mas ao mesmo tempo, vazio.
Entrar em seu próprio apartamento após um dia longo ou uma agitada madrugada repleta de álcool e música alta. Acordar no dia seguinte com uma enorme dor de cabeça e vontade de ficar em casa pelo resto do dia; tudo isso como uma rotina, um círculo viciante que ainda sim, não parecia ser o bastante. No dia seguinte, não havia ninguém para tratar no dia seguinte, ninguém além de Mew e Ray que agora pareciam ter alguém para fazer.
Queria ter essa atenção carinhosa para ele mesmo, talvez esse seja seu maior desejo egoísta por saber com precisão quem era esse alguém tão especial. Pessoa essa que costumava fazê-lo sem que nem mesmo fosse solicitado.
Podia muito bem culpá-lo por estar mal acostumado, porém o próprio Boston gostava de poder correr pra alguém toda vez que assistia de ego ferido Top escolher Mew, gostava de poder descontar suas frustrações no corpo dele do jeito que quisesse, na hora que quisesse. E odiava agora como foi tão cego e insensível com os sentimentos alheios, egoísta.
Nick. O garoto de sorriso caloroso que conheceu através das redes sociais e não hesitou em fazer um pedido ousado – que foi muito bem recebido – e que costumava manter a postura confiante, alguém realmente encantador, aquele com o qual descobriu tarde de mais estar apaixonado.
Também aquele que o amou intensamente independente de quantas vezes fora rejeitado, talvez tenha sido a única pessoa que o amou fielmente depois e durante, todo o caos.
Ao fechar os olhos podia reviver.
Boston tem certeza que podia visualizar o sorriso acolhedor e seduzente característico de Nick; sentir os toques das mãos gélidas que aprovava ter em seu corpo pegando fogo durante noites mais quentes, o contraste perfeito entre água e fogo, quente e o frio; ouvir seus sussurros todas as vezes que seus corpos se fundiam em um, assim como as palavras ditas em tom meigo que Boston costumava não dar atenção.
E chegava a ser irônico como somente se deu conta que perdeu alguém tão bom quanto Nick, ao ter sido rejeitado pela pessoa que jurava amar, porém uma relação que não se tratava nada mais do que orgulho e seu ego auto sabotando-o.
Tudo parece superficial.
Boston tinha inveja de Mew por motivos desconhecidos.
Toda moeda tem seu lado e definitivamente, nem sempre a um vilão real.
Boston foi tão insano quanto qualquer um de seu grupo e estava disposto a arcar com as conseqüências.
Amar e estar fixamente com alguém parecia ser o certo agora. E estava curioso quanto a isso.
Ray lhe disse que era algo insano, contínuo, difícil e que é similar a uma montanha-russa de sentimentos. Ray lhe falou de cuidado, de carinho, gestos românticos e outras baboseiras que duvidava acontecer entre ele e San.
Ainda sim, mesmo que seu nome não saísse de sua boca, qualquer um podia dizer conforme o brilho em seu olhar crescia, mesmo que eles parecessem em uma saia justa.
Este foi um dos poucos discursos que Boston esteve disposto em ouvir de um bêbado.
E sinceramente, sentiu-se surpreso por ser tão semelhante à maneira que Nick era consigo.
Nick.
Desejou poder compartilhar esses sentimentos com ele, engolindo seco sabendo o quão profundo era.
Sem superficialidade.
Amava.
Amava como, mesmo quando o conjunto aparentava ser incerto, confuso. Nick estava lá, parado na frente de sua casa com uma sacola com comida e cerveja barata, ignorando as lamentações e pedidos raivosos para sair, como se adivinhasse que Boston havia tido um tempo difícil. Mesmo quando, depois de algum tempo bebendo em silencio no quarto, Nick permitia-se ser usado fisicamente pelo Boston bêbado e frustrado.
Nick deu tudo de si para sentir-se amado por Boston. Ele lutou e foi-se assim que vencido pelo cansaço.
O problema é que deixasse uma inestimável sensação de saudade.
Boston não sabe quando permitiu que as coisas fossem tão longe com ele, mesmo que este conseguisse a maioria das coisas pela base da insistência.
Como quando Nick insistiu durante duas semanas para receber uma cópia das chaves de seu apartamento com a desculpa de esquecer com frequência suas roupas ou seu notebook em cima da mesa. Sequer lembrava-se de quando seus encontros evoluíram para seu apartamento cujo nunca tinha levado nenhum de seus parceiros, nem mesmo Top.
Soava insano até para si mesmo como foi mudando, moldando-se aos cuidados e caprichos dele apenas para tê-lo por completo em uma noite intensa.
Pergunta a si mesmo quando exatamente sua presença se tornou tão essencial. A prova disso? Seu estado deplorável atual.
Tinham latinhas daquela mesma marca ruim que o dinheiro do estudante de TI era capaz de comprar por todo canto de seu quarto. Intocadas.
Como em uma homenagem em adoração ao homem que costumava viver mais lá do que em qualquer outro lugar – não é como se o próprio Boston ficasse muito tempo em casa de qualquer forma.
As sobras da comida de rua barata ainda estavam intactas dentro de sua geladeira.
Os bilhetes pendurados nos lugares aleatórios da casa; Alguns destes que lembravam-no de coisas fúteis, como não o de não pular o jantar ou de lembrar-se de esquentar a comida deixada em cima da bancada.
No início costumava jogar fora todas essas, cruel. Entretanto foi incapaz de fazer isso agora. Deixando tudo intacto, cada lembrança de que ele esteve lá.
E no fim do dia todo o ciclo rotinal repetia-se. Só. Não havia mais vestígios recentes. Nada. Nick foi embora.
Não podia. Boston não ousaria culpá-lo.
Cansado e pouco fora de si, sua mente divagou por longos minutos, seus olhos bem abertos encarando o teto e costas descansando confortáveis no colchão macio, incapaz de adormecer enquanto ouvia os próprios batimentos cardíacos.
Triste.
Inapto de fazer algo a não ser sentir pena de si mesmo.
Vagueando sob memórias nítidas. Talvez o álcool e a metafetamina estejam surtindo efeito, fazendo-o sentir cada vez mais confiante, uma felicidade momentânea atingindo-o rapidamente.
Seus batimentos cardíacos gradativamente ficando acelerados. Logo rindo de si mesmo e do quão desesperado parecia pela atenção de alguém – que felizmente – não é Top.
Sua versão mais despreocupada de dois meses trás discordaria consigo. Ou melhor, daria risada do quão estúpido parecia.
Solitário, não era assim que deveria ser, ele pensa.
E então.
“Ele parece sentir sua falta, você deveria ir.” As palavras de Mew ecoavam em sua mente, pouco a pouco se tornando mais vívida. “Não pense que digo isso por causa de Top”, continuou inquieto, como se estivesse hesitante quanto a opinar, ponderando se deveria intrometer-se nesse assunto, Boston preferia que não, mas mantém-se calado fingindo estar distraído com os corpos dançantes na pista de dança, sem realmente estar interessado. Os dois estavam sozinhos agora, ainda parecia levemente embaraçoso.
“Mas ele realmente parece amá-lo, quero dizer, Nick.”
Mew sempre foi honesto, sincero. Estas são uma das várias características que Boston invejava. Ele meio que estava odiando isso agora.
“Pelo que chequei, ele realmente parece bem.” Ignorando como as duras palavras saíram de sua boca, de como declarar aquilo em voz alta para alguém estaria destroçando por dentro. Um nó se formou em sua garganta e um aperto em seu coração incapaz de evitar ser dolorido.
“Você realmente deveria checar, pessoalmente. Abra o jogo.”
A conversa de mais cedo surgiu em sua mente, caindo como uma luva. Entre os conflitos e questionamentos internos, esta foi a conversa mais sincera que teve com alguém em um tempo, com Mew.
Boston sempre foi do tipo orgulhoso, não costuma dar ouvido às pessoas, propício a fazer o que bem desejasse, sem geralmente temer as consequências, mas não desta vez.
Não, de novo.
E pode-se culpar o álcool, a droga, mesmo as noites mal dormidas ou as sensações que tudo isso se transformou.
Uma determinação ocorreu por suas veias, coragem. Um combustível que talvez fosse necessário.
Um primeiro passo. Um sussurro vago. Um incentivo repentino.
Não importava se fosse repreendido mais tarde, seja por seu eu sóbrio ou por alguém chateado.
Estava determinado a encerrar as dúvidas crescentes em seus devaneios sem saída.
Poderia culpar o seu eu individualista mais tarde.
