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Cingido por um céu esverdeado tempestuoso, se ergue o Abismo dos sonhos, o domínio pertencente ao príncipe feérico.
No interior de seu castelo, Malleus manipula o amontado de blot à sua frente, moldando-o na forma de sua criança dos olhos de aurora. Por fim, ele estende a mão para sua criação em um gesto elegante, convidando-o para uma dança.
‘’Silver'' aceita a mão estendida, e permite que seu senhor o leve até o centro do salão. Draconia enlaça a cintura fina, conduzindo os passos dele para sincronizarem com os seus. Uma melodia suave é entoada pelos seus lábios, príncipe e cavaleiro valsando em uma lentidão afeiçoada.
Mas tão logo o som de passos e o ranger de uma armadura alcançam os ouvidos do feérico, lhe trazendo um sorriso malicioso junto de uma lembrança.
Sebek, Yuu e Grim.
A promessa de um sono ainda mais profundo os levou de volta, e uma peça após a outra, o cenário que formava o sonho de Zigvolt foi aniquilado.
Na escuridão imensurável só restou o mestre enlouquecido e o servo que ousou desafiá-lo.
— Não contente em rejeitar a minha bênção, você vaga de sonho em sonho acordando esses heróis. Arruinando a felicidade que eu tão gentilmente concedi a eles.
O rancor escorreu pelas palavras de Malleus. Ele apertou os lábios, confuso.
Antes da festa no dormitório, Silver derramou lágrimas de impotência e amargura na sua frente, uma visão suficiente para entristecer o coração do feérico.
Com sua magia, Malleus deu ao rapaz uma vida pacífica ao lado de Lilia. O velho soldado não tem mais que morrer, Silver pode continuar lhe compensando por todos os anos em que ele cuidou de si, e os anos maravilhosos que ainda virão. O príncipe estava certo de que esse era o desejo dele.
O que eu fiz de errado? Silver deveria ser a pessoa mais feliz com a minha bênção. O pensamento ecoou em sua mente, tentando se convencer de que suas ações não foram por si mesmo, mas por aqueles que lhe são importantes.
Sem compreender os verdadeiros sentimentos do rapaz, a dúvida se degradou em raiva.
— Sua ingratidão não conhece limites, Silver.
O jovem cavaleiro, contudo, deu um passo à frente. Mesmo que seu príncipe o considere um traidor, ele não se permitiu abalar.
— Bênção ou maldição… Já nem sei dizer o que você lançou sobre todos nós, mas não importa agora — ele colocou a mão em seu peito. — Malleus-sama, eu imploro ao meu senhor que volte a si. Ainda há tempo, ainda podemos consertar tudo.
O rapaz estendeu a mão para o peitoral de Draconia, desejando que sua honestidade pudesse alcançar e abraçar o coração dele.
— Eu, meu pai, Sebek e os seus amigos no colégio também, se você se abrir conosco e compartilhar o que está sentindo, nós vamos te ajudar. Vamos superar isso juntos. Apenas pare, por favor. Essa loucura já foi longe demais.
Olhos de aurora suplicantes encontraram o verde animalesco nos olhos de Malleus. Um breve silêncio se instaurou, o bastante para que Silver percebesse que o feérico estava além de qualquer razão em seu estado de overblot.
— Mas se mesmo assim o meu senhor insistir em nos aprisionar… — ele se afastou um passo, empunhando sua caneta mágica em um gesto determinado. Sua expressão, antes suave, se tornou obstinada. — Então eu também farei com que você acorde dos seus próprios sonhos, Malleus-sama.
Silver se recordou de quando expressou suas preocupações no Halloween, se um dia ele seria capaz de brandir sua lâmina contra o seu príncipe e até mesmo seu pai. E sendo confrontado por esse temível momento, o rapaz se convenceu de que encontrou a resposta correta.
Ele estava convicto de que há vezes em que um cavaleiro deve salvar o seu mestre de si próprio.
— Acordar…? Acordar… Despertar…
Malleus repetiu as palavras, pensativo. Uma súbita compreensão fez seus lábios tremerem ligeiramente, um riso escapando por eles, até eclodir em uma gargalhada delirante.
— Ora, eu não tinha percebido que Lilia criou uma criança tão mimada — o feérico jogou sua franja para trás, sua voz soando debochada. — Se a minha bênção não era o que você queria, bastava ter expressado o seu verdadeiro desejo em vez de se rebelar contra mim. Muito simples, não acha?
Draconia ergueu sua mão, e o blot ao redor dele se agitou de forma repentina. Silver estreitou o olhar, assumindo uma postura defensiva.
— Durante a sua vida inteira você esteve lutando contra a sua sonolência. Nunca quer dormir, nunca quer sonhar…
O blot se inquietou ainda mais.
— E embora você tenha agido com tanta insolência, um rei não pode governar com mãos de ferro. É preciso ser misericordioso às vezes, mesmo com os traidores — seu olhar se voltou para o blot aos seus pés por um instante, seus lábios pouco a pouco formando um sorriso malicioso.
— Portanto, lhe darei a chance de se redimir. Não desperdice a minha compaixão, Silver. Esta é sua última chance.
E com um simples aceno, o blot sob o comando do príncipe foi disparado em direção a Silver. O rapaz tentou conjurar sua magia para se proteger, porém os respingos enegrecidos alcançaram sua luva, corroendo o tecido até tocarem em seus dedos, sua pele, sua carne.
Um gemido agudo escapou do jovem cavaleiro, sentindo como se ácido tivesse sido derramado em sua mão. Ele soltou a caneta, segurando seu pulso ao tentar suportar a dor alucinante.
— M-Malleus-sama… O que signi-
O rapaz interrompeu a si próprio, olhos arregalados entre a descrença e o desespero enquanto mais blot foi despejado em seu corpo.
Com uma alegria caótica, Malleus o pincelou de novo e de novo, pintando seu subordinado com a exata cor de sua escuridão.
— Agora, minha criança, vamos ficar acordados juntos! — Draconia proferiu entre risos eufóricos. — Somente eu e você, zelando pelos sonhos eternos e magníficos desses heróis!
A tinta negra impregnou Silver por inteiro. Manchando, remodelando, corrompendo sua essência.
Essa espada, que estilhaça a fantasia com a verdade, já não tem mais serventia para o príncipe. Ele, no entanto, pensa que precisa de algo tão afiado quanto sua lâmina, porém que seja capaz de trazer um sono pacífico…
Como o fuso de uma roca.
— Eu, o Governante do Abismo, o nomeio…
— Meu Cavaleiro dos Sonhos — Malleus mostra um sorriso de boas-vindas, o blot que antes dançava consigo se dissolve em líquido. — Voltou mais depressa do que o esperado, acredito que tenha cumprido minhas ordens com diligência.
O jovem cavaleiro caminha até seu mestre, e o olhar do feérico admira cada detalhe de sua nova forma.
A armadura negra, a capa levitada por adoráveis pássaros de blot, mas acima disso estão aqueles olhos de aurora. Apesar de emoldurados por chamas esverdeadas, a mesma chama de Draconia, a inocência deles permanece intocável.
O rapaz se curva diante do príncipe.
— Malleus-sama, eu verifiquei sonho por sonho — a voz se mantém calma como sempre. — Aqueles que estavam acordados foram colocados de volta em sono profundo, eu mesmo me certifiquei de que eles não devem perturbar a paz novamente. Exceto…
Silver cerra os punhos, um tanto envergonhado de suas próximas palavras.
— Exceto por Lilia, meu senhor — ele faz uma pausa antes de continuar, tentando manter a firmeza em seu tom. — Usei o máximo de minhas habilidades, mas a diferença entre nós só demonstrou o quanto ainda sou fraco. Malleus-sama, eu aceitarei qualquer punição que o meu senhor-
— Levante-se, Silver — Malleus o interrompe, sua voz autoritária.
Frente a frente com o feérico, o rosto de Silver é envolvido por ambas as mãos de Malleus. O toque dele é tão frio contra a pele do cavaleiro, e ainda tão gentil conforme ele desliza seus dedos, como se tentasse abrandá-lo das incertezas.
— Ah, minha doce criança. Me dói quando você usa esses lábios tão bonitos para menosprezar a si mesmo — Draconia sussurra em tom acolhedor, acarinhando o rosto do subordinado. — Nós dois sabíamos que você nunca seria capaz de derrotar o seu querido pai, mas mesmo ciente de tal fato você não hesitou em marchar para a batalha para dar o melhor de si até o fim.
O príncipe está perto, perto demais. Silver pode sentir a respiração dele contra a sua própria, suas bochechas coram ligeiramente.
— O seu fracasso, Silver, na verdade provou a sua lealdade. Você conquistou o meu perdão, e agora irei abençoá-lo por ser tão devoto a mim...
E com esses dizeres, os lábios de Malleus encontram os de Silver em um toque delicado.
Olhos de aurora se arregalam, feições ainda mais ruborizadas. O jovem cavaleiro não pode acreditar que Malleus está beijando alguém como ele, nada além de uma ferramenta para o seu mestre
Draconia percebe a tensão se espalhando pelo corpo do rapaz, não há recusa mas também não há retribuição à sua carícia. Determinado a fazê-lo ceder, uma de suas mãos desliza para a cintura dele, apertando-a de leve.
Surpreso com o novo toque, Silver entreabre os lábios, ofegando baixo.
O feérico usa a oportunidade para aprofundar o beijo. Sua língua se esgueirando pela cavidade quente, para descobrir e explorar cada detalhe, provocando o subordinado a correspondê-lo.
Sentindo-se cada vez mais persuadido, Silver pouco a pouco abandona a hesitação, e aceita a bênção que seu príncipe lhe oferece. Sua resposta, porém, é um tanto tímida. Malleus está reivindicando o seu primeiro beijo, o rapaz faz o possível para imitar os movimentos dele.
E as mãos de Silver, antes paradas ao lado de seu corpo, agora repousam no peitoral de Draconia. Embora o rapaz queira enlaçar o pescoço de seu mestre, ele ainda mantém um toque respeitoso. Não ousando cruzar a linha mais do que já foi ultrapassada.
Satisfeito com a entrega de seu servo, o feérico rouba todo o fôlego de Silver, assim como os pensamentos dele. Para que reste apenas um desejo incontrolável de se render, para que perceba o quão merecedor é de provar de suas carícias.
Entre suspiros de deleite e arrepios percorrendo o corpo de Silver, a magia calorosa de Malleus flui através dele, compartilhando parte do seu poder. O rapaz se agarra fracamente ao príncipe, ambos ternura e blot sendo derramados em sua boca.
E por fim, Malleus aparta o beijo. Um filete enegrecido une seus lábios.
O feérico admira o olhar submisso do rapaz, contemplando sua obra com um sorriso entre o orgulho e a malícia. Silver verdadeiramente se tornou o seu cavaleiro ideal, aquele que irá ajudá-lo a manter a ordem no Abismo dos sonhos.
— Quero que este beijo lhe dê ainda mais força, coragem e determinação para me trazer a vitória — Malleus se pronuncia com uma voz gentil, acariciando as feições coradas à sua frente. — Vá, meu Cavaleiro dos Sonhos. Faça com que seu amado pai tenha um sonho digno de um conto de fadas.
Silver, ainda ofegante, desliza a língua rosada pelos lábios, capturando os resquícios de blot. Enquanto carregar a bênção de seu estimado rei, ele está convicto de que sempre lhe trará o triunfo.
— Tudo o que o meu senhor quiser… Malleus-sama.
