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Depois de tudo

Summary:

Ponyboy Curtis é o mais novo de três irmãos órfãos que tiveram sua adolescência marcada pela violência. Forçados a amadurecer mais cedo do que o normal, seus irmãos mais velhos e alguns de seus amigos desenvolvem um instinto protetor em relação a ele. Ao mesmo tempo que tenta não preocupar aqueles que querem vê-lo bem, Ponyboy, por ser dotado de uma sensibilidade ímpar, não deixa de ser forçado a lidar com certos conflitos envolvendo seus próprios sentimentos, não só no que diz respeito a sua vida pessoal, mas também a inúmeras marcas do passado. Dentre elas a morte de seu melhor amigo, a sobrecarga de responsabilidades sobre seu irmão Darry, a pressão para se dar bem na escola, dificuldades de socialização e uma paixão que literalmente lhe tira o sono.

Notes:

Beta Reader: Isabella Fernandes

Work Text:

P.O.V.: Ponyboy

Mais de um ano depois da morte do Johnny, Darry não tirava da cabeça aquela neura que ele sempre teve de salvar o resto da minha infância. Não era lá muito fácil preservar o resto da minha inocência depois de ter que depor num tribunal a favor de um falecido amigo. Ele havia sido absolvido da acusação de homicídio, já que agira em legítima defesa, especificamente em minha defesa. 

Randy, um amigo da vítima, foi – por mais estranho que pareça – uma das pessoas que mais me motivou a me manter longe desse tipo de violência, que parece perseguir a mim e aos outros garotos do meu bairro desde que me entendo por gente. Ele mesmo tinha deixado essa vida para trás, e eu até tinha conseguido me aproximar dele. No entanto, isso não me fez conseguir a simpatia dos antigos amigos dele. Podia dizer a mesma coisa dos pais de Cherry, que ainda torciam o nariz quando me viam.

– Cê tem que parar de engolir mosca, Pony! – Randy me alertou com um sorriso de escárnio, logo depois de marcar o último ponto e vencer a partida.

– Dá uma folga! – Retruquei, ainda sentindo uma pontada de frustração por não ter alcançado a bola. – Você joga desde que saiu das fraldas!

Ele só girou a raquete na  mão como quem esperava ser ovacionado por uma platéia imaginária. Ele havia passado as últimas tardes tentando me ensinar a jogar tênis.Eu não tava muito animado para isso, mas meu irmão achava que era importante me envolver em todo tipo de atividade que me mantivesse longe de qualquer tipo de violência.

Me lembro de quando Metido disse que tinha medo que eu ficasse como eles: bruto, apático. Me lembrei também de Johnny me dizendo para continuar dourado, para preservar minha inocência. Acho que ele ficaria feliz com a vida que eu tenho me esforçado a ter… Ele provavelmente gostaria de ter vivido assim também. Nunca fui capaz de esquecer quem ele foi. Todos os moleques da nossa turma conseguiam ver a criança da qual ele gradualmente precisou se afastar  durante seu curto período de vida: por causa das surras do pai, das ameaças dos socs, do que ele teve que fazer para salvar minha vida naquele dia...

Eu soltei a raquete e fui buscar a bola, dando as costas para que Randy não visse as lágrimas caindo do meu rosto. Quando me abaixei para pegá-la, sequei o rosto torcendo para que parecesse que estava só limpando o suor. Randy não caiu na fita.

– Qual é, Pony! –  Ele disse, colocando a mão no meu ombro e me guiando de volta pro canto da quadra. – Foi só um Jogo. Não encana com isso...

Eu sabia que ele sabia que não era por causa do jogo. E  ele sabia que eu sabia que ele sabia . Acho que meu irmão Darry tinha razão: ele e Cherry me faziam bem, apesar dos episódios conturbados que a gente tinha presenciado. Eles quase me faziam esquecer que eu não tinha sido o único a perder um amigo naquele ano, na real, eu chegava a achar estranho como eles lidavam com isso bem melhor que eu.

Cherry, que até então esperava sentada a sua vez de jogar, pegou do chão a raquete que eu tinha acabado de usar e, com a mão livre, tocou de leve meu queixo, erguendo minha cabeça.

– Vamos ver se eu te animo um pouco apagando aquele sorriso presunçoso da cara dele... – Eu esbocei um pequeno sorriso, apesar de não ter muito interesse em torcer pela derrota de Randy. Muito mais do que prestar atenção nas jogadas, toda vez que batia os olhos na Cherry eu só conseguia lembrar de como, há um ano e meio, parecíamos pertencer a mundos completamente diferentes, a ponto dela cogitar fingir que não me conhecia ao trombarmos na escola. Esse era o problema com a família e muitos dos amigos dela da época: viviam de aparências, tinham um complexo de superioridade sem igual.

Pra minha sorte, ela não parecia pensar como eles e volta e meia mostrava ter coragem de agir diferente. Eu ficava bem feliz de não ser mais capaz de enxergar ou sentir aquele abismo que um dia houve entre nós, e também de perceber que eram cada vez mais raros os pores-do-sol que observamos de lados opostos da cidade.

Mesmo sem prestar tanta atenção no jogo, fui capaz de deduzir que Cherry tinha levado a melhor, já que o sorriso de Randy, apesar de não desaparecer, nem de longe parecia tão radiante. O dela, por outro lado, parecia o de uma criança que foi ao circo pela primeira vez. 

– Não precisa esconder essa felicidade… – Randy disse em tom jocoso, ainda girando a raquete na mão – eu aguento.

– Eu? – Perguntei, sem tentar disfarçar muito a vontade de rir da sua piada – Longe de mim me divertir com a sua dor!

– Eu podia te entreter por mais tempo, Pony – Começou Cherry – mas acho que tá na hora de ir. E seu irmão talvez fique feliz de descobrir que você consegue chegar em casa cedo de vez em quando.

Não precisava mais que isso para me convencer, Darry era mesmo meio encanado comigo. Vivia no meu pé para que eu estudasse o suficiente. Principalmente nos últimos anos, já que faltava pouco para eu me formar. Não era difícil adivinhar que ele queria que eu aproveitasse cada oportunidade de um dia ter a vida que ele não teve. Alguém na família tinha que ter. 

Seguindo um costume recente, Cherry me deu carona até o bairro onde eu moro. Dally e os outros garotos diziam que ela estava tentando criar oportunidades para eu tentar “roubar” um beijo. Seria desonesto da minha parte dizer que não gostava da ideia de beijá-la, mas pedir permissão parecia bem mais fácil, envolvia menos riscos à nossa amizade e, sem dúvida, eu já teria feito se tivesse tido coragem. Além disso, eu também ficava com um pé atrás por causa da memória do último namorado dela, que eu tivera o desprazer de conhecer há um ano e meio. 

Quando digo desprazer, não é exagero nenhum. Não foi nada bonito ver ele morrer na minha frente. Mesmo tendo quase me tornado uma de suas vítimas. 

- Olha só, Ponyboy! – Ela exclamou, apontando pro céu depois de estacionar o carro perto da minha casa. – O sol tá se pondo…

Encostei minha cabeça no apoio do banco e suspirei satisfeito.  Era mais um pôr do sol sem o abismo que um dia se impusera sobre nós.  Meu coração pareceu se aquecer um pouco com aquilo e, sabe-se lá por que razão, a boca do meu estômago também. Olhei para ela e vi que ela jazia imóvel, ainda com o olhar fixo no pôr-do-sol. 

- Você tinha razão, Pony. Dá para ver muito bem daqui…

Eu permaneci calado, e acho que ela não sentiu falta de uma resposta. 

Depois que o sol se pôs, nos despedimos e, quando entrei em casa, ainda podia ouvir Cherry dobrando a esquina no seu Corvette vermelho. Como eu havia imaginado, Darry não chegara em casa, devia estar fazendo hora extra. Tirei os sapatos, me joguei no sofá e liguei a TV. Geralmente, as novelas que passavam naquele horário me entretiam, mas parecia que naquele dia minha mente não se mantía focada na trama de forma alguma, principalmente porque aquela sensação estranha no estômago não passava. Imaginei ser fome, e logo me lembrei do bolo de chocolate que Darry havia feito na noite anterior e eu ainda não havia comido. Peguei um prato na cozinha e me servi de duas fatias assustadoramente grandes, começando com garfadas frequentes e talvez até engolindo um pouco rápido demais.  

Quando estava quase terminando de comer, pude perceber que o desconforto no estômago continuava, e que claramente não era fome. Mesmo assim, dei uma última garfada, que engoli sem mastigar direito. Logo me arrependi da minha pressa, porque acabei me engasgando com a última garfada. Comecei a tossir e corri pro banheiro. Para minha surpresa, o que acabei tossindo foi mais do que só um pedaço de bolo: Boiando na água da privada, consegui distinguir do pedaço de bolo que eu cuspira uma pétala amarela. 

“Credo, Darry!” Pensei comigo mesmo. “Você inventa cada uma na cozinha!”

Mas logo voltei a focar no meu mal estar, dei a descarga, enxaguei a boca e fui caminhando lenta e morbidamente para minha cama. Me deitei de lado, em posição fetal, como que para proteger meu estômago, ou para anestesiar seja lá o que estivesse causando aquele desconforto.

 

[...]

 

Não me lembro de mais nada daquela noite, então acredito ter caído no sono quase que de imediato. Também tenho quase certeza que dormi por mais de 10 horas, já que quando acordei, podia ver o sol nascendo. Meu primeiro instinto foi tentar levantar da cama, não queria me atrasar pra escola. No entanto, assim que me mexi, ouvi uma voz dizer:

– Você não vai pra aula hoje. – Era meu irmão, cuja presença eu não notara no quarto até então. Ele estava imóvel, sentado numa cadeira ao lado da porta, já vestido para ir ao trabalho – Você está com febre.

Me sentindo meio indisposto, eu nem me dei ao trabalho de responder. Só deixei minha cabeça cair novamente sobre o travesseiro.

– Keith vem esquentar seu almoço. – É estranho ouvir ele chamando Metido pelo nome. Na verdade, muita coisa sobre o Darry adulto é estranha para mim.  Ele precisou envelhecer muito rápido para garantir que eu não o fizésse. Depois da morte dos nossos pais, ele teve que desistir da faculdade para poder sustentar a mim e ao nosso outro irmão. Sodapop, nosso irmão do meio, era pouco mais de dois anos mais velho que eu e, há alguns meses, decidira entrar no exército e passara a dar bem menos dor de cabeça para ele. Já eu, ainda dependendo dele e vivendo num local tão violento, tentava causar o mínimo de preocupação possível. Não queria ver meu irmão grisalho aos 23 anos. 

Keith Mathews, ou Metido Mathews, é um dos caras mais velhos da nossa turma. Ocasionalmente fazia a mãe se descabelar com as confusões que ele arrumava na rua, mas ultimamente também pisou  no freio. Com alguns de nós mortos, e outros trabalhando feito burros, não sobra muita gente para comprar o barulho caso ele faça besteira. Então, acho que no fim o esforço de Darry de preservar minha inocência também é o que mantém Metido longe da cadeia.

– Hmm… – Fiz, concordando. Eu até queria negar a ajuda dele. Não queria dar trabalho, mas parte de mim já sabia que eu não conseguiria sozinho.

Ele buscou um copo de água na cozinha, colocou uma aspirina na minha boca e me fez engolir, murmurando algo do tipo: “Se eu souber que você morreu, te encho de tapa”. Então, se despediu e foi trabalhar.

Sem ninguém lá em casa, eu não tinha muito o que fazer, então decidi pegar um caderno e uma caneta na cabeceira da cama para escrever qualquer coisa: desde o último ano letivo tenho escrito  mensalmente crônicas e contos pro jornal da escola, e ainda não havia pensado em nada para esse mês. Sem muita ideia do que colocar no papel, decidi começar uma espécie de diário: comecei a escrever sobre os últimos acontecimentos para ver onde isso me levaria.  Durante três horas nas quais me alternava  entre escrever e descansar, senti um enjôo que aumentava gradativamente. No fim dessas três horas, larguei o caderno e caminhei, tão morbidamente como na noite anterior, até o banheiro.

Estava tão incomodado com o enjôo que pensei em me forçar a vomitar, mas não foi necessário. Ao perceber o empenho repentino do meu estômago em expulsar o que quer que tivesse dentro de si, me inclinei sobre a privada, só para ter uma surpresa parecida com a do dia anterior: eu havia acabado de vomitar não uma, mas cerca de quinze pétalas de cor idêntica àquela do dia anterior. 

Me espantei. Não era possível que Darry tivesse enfiado tantas pétalas em dois pedaços de bolo. Em parte movido pela curiosidade, em parte pela fome, decidi  “examinar” o bolo. Coloquei mais duas fatias num prato e destrocei uma de cada vez com um garfo, sem deixar de mandar tudo para dentro depois de me certificar da ausência de corpos estranhos nelas. Não posso negar que a investigação foi prazerosa, apesar de confusa.

Decidi procurar um balde para colocar do lado da minha cama e, logo quando encontrei, ouvi alguém bater à porta. Fiquei imaginando quem seria. Metido provavelmente só chegaria dali há umas duas horas

Fui atender e me deparei com Randy, com aquele mesmo sorriso da tarde anterior. 

– Tá fazendo o quê em casa? – Ele perguntou, quando deixei ele entrar – Logo você decidiu matar aula?

– Que nada! Tô me sentindo estranho desde ontem a noite… – Respondi enquanto carregava o balde pro meu quarto. Imaginei que não seria muito convincente dizer que estava tossindo pétalas. – E você? O que tá fazendo fora da escola?

– Bom, eu tava matando aula mesmo. – Disse ele, sem a menor vergonha – Fiquei matando tempo na frente da escola. Acabei descobrindo que você tinha faltado e vim ver qual era a sua. – ele completou, sentando-se na cadeira enquanto eu, de volta à cama, me cobria.

Depois disso Randy passou um tempo Contando sobre sua própria vida: os relacionamentos que tivera, as aspirações da sua família para seu futuro e muito mais. Eu anotava tudo naquele mesmo caderno. Podia sair dali algo que valesse a pena escrever, e eu não podia me dar ao luxo de perder essa chance. De tempos em tempos, eu vomitava no balde do lado da cama: tenho certeza que Randy viu as pétalas de flor logo nas primeiras vezes. No entanto, apesar do espanto com o estado da minha saúde, ele pareceu relevar com certa facilidade o  fato. 

Perguntei a ele sobre Cherry. Quis saber como ela e Bob haviam se apaixonado no passado, e é claro que ele sacou a minha.

– Ele não era má pessoa quando tava sóbrio, saca? Acho que já te disse isso… – Sim, ele já tinha. Acontece que, bêbado, o cara era tão problemático que tirava toda a credibilidade de quem conhecia seu lado bom, porém isso não vinha muito ao caso. – Mas você e ele são pessoas diferentes, sabe? Não tem como só simular uma paixão antiga. Então, se tiver querendo se aproximar dela, não encana muito sobre o Bob…

Mesmo que fizesse mais de um ano, eu ainda tinha dúvidas se ela tinha desencanado. No entanto, sem mais nem menos, minhas indagações foram interrompidas: tive uma crise de tosse sinistra e uma dor absurda na garganta. Me inclinei sobre o balde enquanto sentia meu corpo querendo expulsar mais alguma coisa. 

No balde caíram duas camélias amarelas. Bem vivas, com caule e tudo . Teria proferido meia dúzia de palavrões ou, no mínimo, levantado os olhos, preocupado em ver a reação de Randy, mas uma tontura repentina me incapacitou.

Quando me dei conta, estava em um leito de hospital. Olhando pela janela, eu conseguia ver que já era noite. “Mais umas 10 horas desacordado”, pensei. 

Ainda confuso, chamei por Randy, bem baixinho. 

– Ele foi pra casa – Tomei um susto ao perceber Darry bem do lado da minha maca. Eu devia ter algum ponto cego no olho esquerdo – Só estão aceitando visita de parentes.

– Que susto, Darry!

– O pobre do Mathews é que quase morreu de susto – disse ele, quase rindo – Quando entrou lá, encontrou você desmaiado e seu amigo se debulhando em lágrimas… Com certeza deve ter achado que você tava morto.

Achei engraçado. Não o fato de ter assustado meus amigos, mas sim o bom humor do meu irmão logo que me viu acordado. Infelizmente, pouco depois daquilo o horário de visitas terminou, e Darry teve que ir para casa. 

Do lado direito do leito, notei que tinha uma mesa de cabeceira. Alguém tinha se lembrado de trazer meu diário e caneta. Havia também ali um balde. Algo me dizia que esses seriam meus melhores amigos durante a internação. Depois de quase 20 horas de sono no espaço de um dia, eu tava mais acordado do que nunca,  Tinha certeza que o balde, a caneta, o diário e eu passaríamos a noite em claro juntos.

 

[...]

 

P.O.V.: Sodapop

Sodapop não parava de se preocupar com a volta de seu irmão à escola naquele ano. Seu melhor amigo, Johnny falecera há pouco mais de três meses e, mesmo após sua morte, tivera de ser julgado pelo assassinato de outro aluno daquela mesma escola. Ironicamente, Cherry Valance, uma das únicas pessoas de quem Ponyboy conseguia se aproximar, era namorada da vítima. Os outros amigos do falecido aluno no máximo evitavam entrar em conflito com ele. Ponyboy nunca fora uma pessoa muito extrovertida, mas agora estava cada vez mais recluso.  

Uma das poucas coisas que pareciam animá-lo em ir à escola eram as atividades de produção textual propostas pelo seu professor de inglês.

– Você precisa comer mais que isso se não quiser ir parar num hospital… – Sodapop disse, olhando para o prato que o irmão havia deixado na cabeceira da cama: os ovos e as torradas estavam intocados no prato. Só as duas fatias de bolo não estavam mais lá.

– Eu só consegui comer isso… – Respondeu Ponyboy. Insistir não adiantaria muito. Só irritaria mais ele. Decidiu então mudar de assunto e perguntar sobre o que ele vinha escrevendo.

– O professor ainda tá trabalhando a narração em primeira pessoa – Respondeu ele, transferindo pro irmão o olhar que até então se mantivera fixo no teto. Soda chegou até a ver certo brilho nos olhos do irmão 

– Você parece um pouco mais animado com isso do que de costume – o irmão mais velho ressaltou.

– É que dessa vez tem alguém além do professor que eu tô torcendo para que leia esse conto – disse o mais novo.

– Alguem, né? Não imagino quem seja... – havia na sua voz um claro tom de provocação – Passa o caderno para cá. Eu quero ler.

– Pera, deixa que eu leio para você – ele pegou o caderno na cabeceira da cama, abriu e começou:

 

“Mais de um ano depois da morte do Johnny, Darry não tirava da cabeça aquela neura que ele sempre teve de salvar o resto da minha infância...”

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