Chapter Text
Assim que Ichigo findou seu caminho na porta da mansão Kuchiki, a primeira dose que tomou — dificultosamente, como um nó impedindo a passagem na garganta — não foi de água, de suco, tampouco de álcool, mas sim daquilo que naquela noite mais o faltava. Coragem.
Soltando o ar que nem sequer tinha se dado conta de estar restringindo, se esforçou ao máximo para varrer as preocupações de sua mente e deixá-las bem ali, na entrada daquela vasta morada. O garoto obteve tanto sucesso na tarefa quanto obtinha em segurar a sua própria teimosia, mas isso não vinha ao caso.
Quando adentrou o belo, florido e verdejante jardim, a vista captada por seus olhos não abria brecha para dúvidas. Era aniversário da sua melhor amiga.
O ambiente estava minuciosamente decorado e colorido, tão organizado que não pôde evitar ficar ligeiramente espantado. Fazia um bom tempo que não frequentava uma festa daquele porte, até mesmo se sentia um pouco deslocado.
Suas pupilas esquadrinharam o local, analisando as mesas calculadamente dispostas ao redor do jardim, rodeadas por flores bem cuidadas. Em cima delas haviam bebidas e comida à vontade, tal como um bolo espaçoso, pelúcias e o que pareciam ser lembrancinhas bem na do centro. Shinigamis de várias divisões — principalmente do Sexto e Décimo Terceiro Esquadrão — estavam ali, e praticamente todos os rostos lhe eram familiares, sorrindo e proferindo frases ininteligíveis, abafadas pela música animada que pairava no ambiente, do mesmo modo que o bailar ondulatório das folhas no ar.
Muitas feições amigáveis o cumprimentavam, entretanto, nenhum sinal daquele alguém que mais desejava ver.
Ichigo coibiu um resmungar choroso e ranzinza ao ter seu estômago se revirando em nervosismo outra vez, seus dedos brincando disfarçadamente com o tecido do shihakusho, extravasando sua inquietude. Foi quando suas orbes castanhas reconheceram duas silhuetas de alturas exacerbadamente discrepantes vindo em sua direção, fazendo o coração trepidar e pulsar com tamanha agressividade no peito ao ponto de sentir o latejar em seus ouvidos.
— Ichigo! — ambas as vozes exclamaram em uníssono.
— Yo, Renji, Rukia.
A aniversariante e o namorado dela não eram o motivo do seu nervosismo, e ainda assim, estava à beira de uma síncope. Ele sentia vontade de rir, para não chorar.
— Vamos, pode ir passando o dinheiro, bonitão. — a tenente do Décimo Terceiro Esquadrão estendeu a mão para Renji, sorrindo vitoriosa.
— Tsc. Toma. — Abarai entregou algumas notas na mão alheia, a contragosto — Eu devia ter ficado na minha, não sei porque ainda tento apostar com você.
— É só colocar uma coisinha na cabeça. — ela o mirou atravessado, um sorriso travesso desenhado nos lábios — Eu sempre estou certa.
— Hã… aposta? — Kurosaki murmurou, chamando a atenção do casal — Que aposta?
— Nós apostamos se você viria ou não ao meu aniversário. Eu disse que tinha certeza de que você viria, e aí está o resultado. — Rukia elucidou, exibindo uma aura de pura satisfação e confiança.
Ichigo moldou a personificação da "cara de tacho" em sua expressão, reformulando seus pensamentos antes de proferir:
— Eu não sei se fico mais abismado com vocês apostando minha presença, ou com o Renji dizendo que eu não viria. — uma veia se mostrou saliente em sua testa, descrente com a audácia — Com amigos como vocês, eu não preciso de inimigos.
— Era o mais provável. — o homem de fios escarlates deu de ombros — Considerando a sua situação e conhecendo a peça, eu tinha certeza que você seria um bunda mole.
O substituto cerrou os punhos, esbravejando:
— Bunda mole é o cara–
— É óbvio que Ichigo viria, ele não é nem doido! — Rukia interrompeu — Eu o traria à força e arrastado pelos cabelos, se fosse preciso. — mirou Kurosaki de soslaio com um brilho sinistro nos olhos, fazendo o garoto recuar um passo — Enfim, apostas à parte, estou feliz que você realmente veio, Ichigo.
A Kuchiki esboçou um sorriso complacente, fazendo a expressão de Ichigo suavizar. Ele deixou o presente escondido em uma de suas mangas escorregar pelo braço, entregando nas mãos dela.
— É a sua festa. Mesmo ele estando aqui, eu acabaria vindo de qualquer jeito. — os dedos livres coçaram a nuca, meio sem jeito — Feliz aniversário, Rukia.
Ichigo recebeu um olhar suave e grato no lugar de palavras, típico dela. A tenente desfez a embalagem do presente com calmaria, um contraste com a afobação estampada em seu rosto. Ao passo que enfim desembrulhou o papel enfeitado, a face de Rukia se iluminou, os olhos naturalmente grandes praticamente dobrando de tamanho. Era um bichinho de pelúcia do Chappy, o coelho que ela era nada menos que fissurada.
— Ichigo! — a Kuchiki por pouco não gritou escandalosamente, mal conseguindo controlar a sua felicidade — Obrigada! Obrigada! Obrigada!
Ela repetiu o agradecimento outra vez, outra e mais outra, agarrada ao braço do garoto como um carrapato. Kurosaki travou, tentando se desvencilhar:
— Oe, nanica! Eu sei que você gostou, mas já 'tá bom. Desencosta! — sacudiu brevemente o braço, mas a Kuchiki ainda permanecia grudada como cola — Renji, me socorre aqui!
A longa e audível gargalhada de Abarai chegou aos seus ouvidos, todavia, efêmera como uma brisa. No segundo seguinte, o silêncio mais tumular dominou sua cabeça, abafando todo o resto, lhe deixando estagnado de novo. Porém, dessa vez, por outro motivo.
Nada e ninguém mais, ninguém menos do que a fonte da sua ansiedade naquela noite.
Seu olhar congelou na figura que surgia ao longe, Kuchiki Byakuya. Nem sequer ousou pestanejar, seguindo cada passo do Capitão, até que ele finalizasse seu trajeto em uma das mesas dispostas no jardim, a mais afastada possível da multidão. Ele estava absolutamente gracioso sob o luar, como se flutuasse ao invés de caminhar, rodeado pelo véu sedoso que eram os seus cabelos umbrosos.
Ichigo sentiu como se a pouca coragem que conseguira reunir nos últimos dias e minutos fosse lentamente drenada de suas veias junto do seu suspiro exaurido, evaporando como água em ebulição. Ainda assim, se viu incapaz de desviar os olhos, analisando o homem estoico com afinco.
Quase parecendo perceber a intensidade de sua mirada sobre ele, as órbitas cinza-ardósia vagaram pelos arredores, se encontrando com as suas. Inconscientemente engoliu em seco, apertando os lábios, porém, não desviou o contato visual. Longos segundos se estenderam, um tanto desconcertantes; contudo, o nobre não parecia irritado, desdenhoso ou tampouco curioso. Somente emitia um brilho pacífico, como quem o cumprimentava… ou talvez fosse apenas a iluminação e sua cabeça iludida estivesse lhe pregando peças.
De qualquer forma, ele não consegue evitar se sentir atrapalhado e ruborizar como um idiota mediante a breve interação, esquivando o olhar.
Para a sua infelicidade, seus amigos leram através de sua timidez repentina, expressão catatônica e mirada fixa o tempo inteiro. Pela feição maliciosa de ambos, que se entreolhavam, entoando risadinhas provocativas, estava óbvio que o momento que acabara de acontecer estava longe de ter passado despercebido.
— Vocês nem ousem abrir um pio. — ralhou — Já vi esses rostos muitas outras vezes e sei que isso não me cheira à coisa boa.
— Olha quem fala! — Rukia zombou, falhando em refrear a risada por detrás das mãos — Você estava praticamente devorando o meu irmão com os olhos há cinco segundos.
— Eu só 'tava olhando 'pra ele, 'tá bom? — cruzou os braços e desconversou, tentando parecer casual, mas o bico emburrado e a vermelhidão em suas bochechas o delatavam — Não tem nada de mais nisso.
— Aham, Cláudia, senta lá. — Abarai soltou uma risada nasal, debochando de suas palavras.
— Me erra, Renji. — estalou a língua.
Ele contou até dez mentalmente, se empenhando com tudo que tinha para não "acidentalmente" desferir um belo de um murro no rosto do tenente.
— Okay, vocês dois, agora vamos tratar de assuntos sérios. — a Kuchiki mais nova mudou da água para o vinho, endurecendo o seu tom de voz — Ichigo, vá contar para Nii-sama tudo o que você precisa falar.
O timbre de Kurosaki morreu na garganta, murchando como uma flor. Suor escorreu pela sua têmpora, e nem mesmo estava com calor.
— Hã… eu… m-mas já? — hesitou, se embolando nas palavras.
— Sim, já! Ele está sozinho, é a oportunidade perfeita!
O substituto precisou recapitular mentalmente os acontecimentos até aquele instante, onde se encontrava em um dos momentos mais decisivos e inseguros de sua vida. Há algumas semanas enfim havia se dado conta de algo que estava bem embaixo de seu nariz: seus sentimentos por Byakuya estavam além de somente admiração e respeito.
Não era capaz de se lembrar como aconteceu, o momento exato, e nem o porquê de seu coração estúpido ter escolhido justamente aquele que não tinha chance alguma. O Kuchiki era um Shinigami, um nobre, no mínimo 200 anos nas costas e, bem, nem sequer sabia se havia alguma possibilidade dele gostar de homens. Mas o pior de tudo era o fato de existir um abismo entre eles, pouca ou quase nula intimidade, eram raras as conversas, mais faziam trocar olhares do que palavras. Soava tão absurdo que Ichigo sentia vontade de rir, de nervoso.
Apesar da imprevisibilidade de sua dura situação, foi impossível evitá-la, e até mesmo disfarçar o quanto ela virou seu mundo de cabeça para baixo. Não era novidade a sua natureza naturalmente distraída e desajeitada, o mundo já estava careca de saber, porém, esta começou a aparecer além da conta, lhe fazendo cometer erros grotescos que normalmente não cometeria, ter uma dificuldade absurda de se concentrar e se perder na própria mente sem que se desse conta. Mas, o pior de tudo era a maneira que passou a se comportar perto de Byakuya, sem dúvidas.
A estranheza que transparecia na presença do nobre tornou-se ainda mais evidente, ficando desengonçado e tropeçando nas próprias palavras, ora ou outra precisando se controlar para não enrubescer como um morango perto dele. Sua boca secava só de ouvir o nome alheio ser pronunciado, se motivava ao saber que estaria no mesmo ambiente que ele, reagia de modo nada sutil quando se tratava de qualquer assunto relacionado ao Kuchiki, entre tantas outras coisas.
Como Rukia e Renji não eram nada burros — embora às vezes duvidasse seriamente dessa afirmação —, levou pouquíssimo tempo para notarem suas mudanças, analisar suas reações, encontrar a causa e ligar os pontos. Em certo dia em que os três estavam sozinhos, como quem não queria nada, simplesmente jogaram a bomba e questionaram na cara dura a sua paixão por Byakuya. Teimoso como era, não quis dar o braço a torcer e negou até ficar sem saliva, mesmo que suas expressões e fala defensiva lhe dedurassem. No final do interrogatório, já irado e sem forças, confessou tudo e se lamuriou até sua sétima geração pelo seu amor unilateral.
Vendo o estado deplorável em que se encontrava, com metade dos neurônios fritando para funcionar normalmente, seus amigos lhe aconselharam a fazer algo que parecia um tanto quanto clichê, no entanto, também aliviaria a sua alma: se confessar.
Era uma ideia estúpida, inconsequente e com 99,99% de chance de dar errado? Com certeza! Assim como praticamente tudo que Ichigo havia feito até agora em sua vida. O que era um peido para quem já estava cagado desde o princípio?
Foi o suficiente para convencê-lo. Byakuya poderia olhar para si com desprezo pelo resto da vida se assim quisesse, mas estava disposto a deixar as palavras transbordarem de seus lábios, se isso significasse trazer sossego para sua mente ocupada quase que unicamente pelo nobre.
Isso era o que pensava, até de fato estar ali, no aniversário de Rukia, a poucos metros de distância do homem que levantou morada em seus pensamentos.
Tinha ciência de se abrir a respeito de seus sentimentos ser difícil, mas não pensou ser uma tarefa tão árdua. As palmas das suas mãos estavam tão suadas ao ponto de parecerem estar debaixo de uma torneira, suas extremidades frias como uma pedra de gelo. Além disso, uma taquicardia. Mais um pouco e estaria por um fio de amarelar.
— …Eu não sei se devo! — afrouxou o colarinho da roupa, que de repente parecia apertado demais — Tenho certeza que não vai dar em nada, então 'pra quê?
— Nem começa! — a Kuchiki enrugou a testa, uma veia se mostrando saliente — Você é um Shinigami ou um vidente,'pra ter certeza do futuro?
— E é uma mentira? Byakuya nem sequer gosta de mim, nem mesmo como um amigo. — fechou a postura, intercalando entre cruzar e descruzar os braços para enrolar os dedos em torno dos fios ruivos — Até posso imaginar o olhar de desgosto, e olha que ele já vive com aquela cara de cu azedo. E se ele nunca mais quiser olhar na minha cara? Como que vou ter culhão 'pra olhar 'pra ele?
A tenente deliberadamente ignorou o insulto ao seu irmão mais velho, bem como a vontade de dar um sacode no Kurosaki ou rir do desespero do pobre coitado. Era cômico, não se podia negar, mas ele estava tão atordoado e visivelmente precisando de um bom conselho que permitiu sua racionalidade agir.
— Ichigo, não custa nada tentar. Você já enfrentou situações piores na sua vida, se declarar para Byakuya Nii-sama é tarefa de criança se for colocar na balança. O máximo que você pode receber é um não.
— Ou uma zanpakutou me estilhaçando ao meio, na melhor das hipóteses. — argumentou. Naquele ponto, restavam apenas as cinzas da sua bravura.
Rukia o puxou pela manga do shihakusho, obrigando-o a encará-la.
— No dia em que nos contou estar apaixonado por ele, você estava decidido a se declarar, e agora quer voltar atrás? — as irises violeta se estreitaram, tão afiadas quanto as de Byakuya em certos momentos — Você é um homem de palavra, Ichigo, então cumpra sua promessa!
As sentenças dela foram tão certeiras que Ichigo emudeceu, sem réplica. O choque foi tamanho que a sensação era de ter tomado um tapa. Uma quietude ensurdecedora se estabeleceu no ambiente, e para quebrar o gelo, Renji se manifestou:
— Bom… se você for rejeitado, nós estamos aqui pra te consolar, e tem bebida pra te ajudar a curar o coração partido. — não era lá o melhor acalento, mas ele tentou — Se bem que eu duvido um pouco que isso aconteça, considerando certas coisas que aconteceram nos últimos meses no Sexto Esquadrão… — murmurou sozinho a última parte, deixando a ambiguidade no ar.
— Que coisas? — Kurosaki arqueou as sobrancelhas, intrigado.
— Nada, não importa! — mudou de assunto — Cara, se declara logo 'pro Taichou e acaba com isso de uma vez, porque ninguém aguenta mais. Você fica mais idiota do que o normal quando está perto dele, até ele mesmo já deve ter notado. Agora anda logo!
— Ei, espera! O que é que você 'tá fazen–
Repentinamente, sem nenhum aviso prévio ou oportunidade para digerir as suas palavras, o tenente do estoico Capitão girou o seu corpo e desferiu um tapinha — haja eufemismo! — encorajador em suas costas, lhe transportando uns bons passos para a frente… bastante perto de Byakuya, por sinal.
Ah, aquele cabeça de abacaxi! Renji lhe pagaria por isso quando aquela festa acabasse. Sua sorte era que o Kuchiki não o presenciou tropeçando nos próprios pés, ou lhe acharia mais ridículo do que já aparentava.
Vendo-o a poucos metros de distância, compenetrado nos próprios pensamentos, engoliu em seco e se endireitou. Tomando uma boa dose de coragem, caminhou até a mesa onde Byakuya sentava. Ao chegar mais perto, ele pareceu notar sua aproximação, as órbitas cinzentas recaindo sobre si de novo. Apertou o passo, puxando uma cadeira ao lado do homem de cabelos negros, praticamente se convidando.
— Byakuya. — entrelaçou as mãos na frente do rosto ao se sentar, disfarçando o tremor na voz com um cumprimento educado — Oi.
O Capitão o analisa por alguns instantes com sua habitual expressão — ou a falta dela —, e Ichigo pode observar uma centelha de curiosidade e algo indecifrável pairando na mirada afiada. Esperava ser completamente ignorado, contudo, se surpreendeu ao ser respondido.
— Oi.
Estranhamente, a tensão que pesava sobre os seus ombros se esvaiu quando a voz suave e contida acariciou os seus ouvidos. Se sentiu mais à vontade e deliberadamente puxou assunto:
— E então, está se divertindo?
Era uma pergunta idiota. Quando se tratava de Byakuya, a conclusão se tornava tão clara quanto a luz do dia. Em todas as festas da Soul Society que frequentou, praticamente arrastado pelos seus amigos, o desgosto estampado na face do nobre era evidente. Ele era um homem consideravelmente jovem para os padrões dos Shinigami, mas, quando o assunto era a personalidade, tinha a alma de um senhor carrancudo e ignorante. No mínimo levaria uma patada, foi o que pensou; no entanto, aquela noite cada vez se mostrava cheia de surpresas.
Kurosaki acompanhou o olhar do mais velho estudando o ambiente, pousando sobre Rukia. A jovem tenente praticamente saltitava com a pelúcia que a deu de presente, agarrada ao braço de Renji, as pálpebras estreitadas em uma feição relaxada e afetuosa, esboçando um sorriso tão genuíno e frouxo que quase rasgava os cantos de suas bochechas. O rosto de Byakuya suavizou com a felicidade da irmã, e embora nenhum sentimento alterasse sua inexpressividade, ele transparecia uma ternura incomparável. Ao retornar ao rosto do substituto, proferiu:
— Sim.
Aquilo verdadeiramente deixou Ichigo estático. E não é que aquele homem supostamente insensível a tudo e todos também tinha sentimentos?
— Oh, okay. Isso me pegou desprevenido. — murmurou, ainda em choque.
— Perdão? — Kuchiki arqueou uma sobrancelha, confuso com suas palavras — Não compreendo o que quer dizer com isso.
— N-Nada! Esqueça o que eu disse. — gesticulou nervosamente, sorrindo amarelo — Só estava pensando alto.
O Capitão lhe encarou profundamente, quase como se enxergasse sua alma com aqueles olhos julgadores. Por fim, apenas declarou em uma voz gélida:
— Se você diz. É um homem muito estranho, Kurosaki Ichigo.
Ichigo sentiu vontade de rir, meio ultrajado. Era um tanto irônico escutar aquelas palavras vindo justamente dele.
— Semelhantes reconhecem facilmente uns aos outros, não é mesmo? — replicou, como quem não queria nada.
Byakuya o fuzila de canto de olho, estreitando as pálpebras com certa acidez.
— O que quer aqui? — inquiriu com indubitável rispidez.
— Te fazer companhia. — disparou, sem mais nem menos — Posso?
— Você já está fazendo. — o homem o respondeu com simplismo.
— É, eu sei… mas mesmo assim, resolvi perguntar. — deu de ombros — Vai que você não quisesse e me mandasse embora.
— Se eu pedisse, você ao menos me escutaria?
Kurosaki curvou os lábios para cima em um sorriso travesso.
— Tsc. — estalou a língua — Não mesmo.
— Bom. — deu uma breve pausa — Aí está a sua resposta.
O garoto emitiu uma risada breve e divertida, se ajeitando na cadeira a fim de estar confortável para perturbar Byakuya. E assim ele prosseguiu, disparando qualquer besteira que viesse à cabeça somente para ter o que conversar com o outro, recebendo murmúrios e frases curtas como resposta, e ora ou outra alguma patada e implicância. O Kuchiki em momento algum deixava de se mostrar quieto, no entanto, estava pacífico, engajando no diálogo, ainda que de maneira breve e monótona. Não tê-lo lhe expulsando da mesa já era uma vitória e tanto.
Após cerca de meia hora daquilo, o nobre não conseguiu mais segurar a sua língua e sondou:
— Kurosaki Ichigo, seus amigos estão presentes, estou certo?
— Hã… sim? — devolveu, mais soando como outra pergunta do que uma resposta.
— Não prefere estar na companhia deles? Não há necessidade de ficar aqui, conversando comigo, quando poderia aproveitar a festa.
— Eu estou gostando da nossa conversa, se quer saber. — coçou a nuca, o olhar distante — Além disso, você ficaria sozinho aqui no canto o resto da noite. Parece bem deprimente 'pra mim.
— E? Não me importo em ficar sozinho.
— Eu ficar aqui 'tá te incomodando, por acaso? — praticamente cuspiu, resmungando.
O Capitão baixou os olhos, fitando as próprias mãos. Como se admitir aquilo fosse um suplício e lhe doesse o orgulho, sanou a dúvida em uma voz baixa:
— …Não.
— Então pronto! — esbravejou — Às vezes você consegue ser tão complicado, sério. Mesmo que eu aja com tagarelice, também sou um introvertido como você, e só venho 'pras festas porque sua irmã ameaça me arrastar pelos cabelos.
— Ainda assim, penso que seria mais vantajoso estar junto dos seus amigos.
Kurosaki precisou reunir todas as suas forças, dobrar e morder a língua para não dizer em voz alta um "como que fui me apaixonar por um cabeça dura como você?". Em vez disso, ele olhou para o mais velho com seriedade, o encarando no fundo da alma, dizendo:
— Talvez seja, mas eu prefiro ficar aqui, com você. Se importa?
As orbes cinza-ardósia o fitaram mais um pouco, vacilando. Elas cortaram o contato visual, desconcertadas demais para mantê-lo. Pôde jurar ter visto as orelhas do Kuchiki enrubescerem, contudo, deixou para lá. Devia ser apenas o reflexo da luz.
— Está bem. — outra vez, seu timbre era baixo e reprimido, lutando para articular, como se não quisesse admitir que suportava a sua presença — Como queira.
Nem mais uma palavra foi dita. Um silêncio absoluto reinou entre eles, embora o clima não chegasse nem perto de pesado ou perturbador.
Byakuya desviou a atenção para a mesa, lábios sutilmente crispados e olhos apertados em formato de meia-lua, como se ainda se recuperasse de ter o orgulho ferido. Foi uma deixa perfeita para Ichigo admirar os seus detalhes sem que parecesse estranho. O substituto analisou o rosto calmo e sereno, apreciando como a iluminação favorecia o mais velho, o deixando ainda mais deslumbrante.
Os fios escuros soltos bailando junto à brisa, emoldurando a mandíbula bonita, combinavam de maneira impecável com os traços suaves e afiados. Seus dedos formigavam pelo ímpeto de tocá-lo para atestar se a pele pálida era tão macia quanto pensava, e os lábios dele… pareciam esculpidos a mão, tentadores, lhe fazendo suspirar e necessitar de autocontrole para não beijá-lo. Ele era tão bonito que chegava a doer e extinguir o ar de seus pulmões.
A sua paixão tomando conta dos sentidos trouxe à tona o desejo de vomitar os seus sentimentos, de permiti-los jorrarem de uma vez para que o Kuchiki ficasse ciente do quão maluco ele estava lhe deixando… mas a insegurança veio junto, tapando sua boca e entalando-lhe a garganta tal qual uma fita potente. Dúvidas e preocupações rondavam o seu juízo, coisa que não lhe era típica, porém, foi inevitável.
Sua perturbação era tamanha que até mesmo afetou os arredores. Se fechou na própria mente sem nem ao menos perceber, absorto por inteiro, e quando se deu conta, o olhar do Capitão recaía sobre si, como se aguardasse algo que acabara de perder.
— Desculpe. Você falou comigo?
— Perguntei se há algo errado. Suas feições se tornaram estranhas de repente.
Sorriu provocativo, disfarçando:
— Está preocupado comigo, Byakuya?
— Não seja ridículo. — semicerrou os olhos, desdenhoso — Se bem que seria pedir muito de você.
— Não precisa ter vergonha de admitir. Está, não é? — o sorriso se alargou, atrevido.
— Não. — negou imediatamente — Essa sua expressão esmorecida só me irrita profundamente.
— Esmo– O que diabos você acabou de falar? Ah, esquece! — como Byakuya ainda tentava usar aquele linguajar de grã-fino consigo, um mero mortal, era um mistério — Ei, Byakuya… posso te fazer uma pergunta?
— Acabou de fazer, idiota. — implicou.
— Nem vem, você entendeu!
Byakuya pareceu estar se divertindo às custas de sua irritação, mas omitiu isso ao abandonar um ruído presunçoso por entre a boca.
— Diga.
Kurosaki mordeu os lábios, hesitando várias e várias vezes até formular um pensamento coerente. Onde estava com a cabeça?! Não devia estar pedindo conselhos justo a ele, mas agora estava feito, não podia simplesmente dizê-lo para esquecer e fingir que nada aconteceu.
— Se você estivesse apaixonado por alguém… — se sentiu um pateta, ficando envergonhado, todavia, perdurou — …e não tivesse chance alguma de ser correspondido, nem em um milhão de anos, você ainda contaria como se sente?
Há uma quietude demorada no rosto do Kuchiki, além de curiosidade latente. Quase ouviu o tom rouco lhe indagar "quem é esse alguém em seus pensamentos, se me permite perguntar?". Apesar de tudo, ele ignorou esse fato e priorizou a discrição, algo que o mais novo agradeceu-o internamente:
— Nessa situação, me manteria calado a respeito de meus sentimentos. Eventualmente eu os superaria. — suas pupilas se voltaram ao Shinigami de madeixas espetadas, o fitando intensamente — Entretanto, falo somente por mim. Não há a certeza da unilateralidade até que esta seja dita, certas coisas são imprevisíveis. Caso seja alguém que se ame muito, pode valer a pena a tentativa.
Pela incontável vez na última hora, Kurosaki estava embasbacado pelas atitudes inesperadas do irmão mais velho de sua amiga. Teve dificuldade em encontrar palavras, todas chegavam embaralhadas aos lábios, sufocadas na garganta. Entaramelado na própria cabeça tempestuosa, murmurou:
— Entendo. É um bom ponto de vista. — sua boca estava seca, tamanho o nervosismo. Ergueu as irises, exprimindo em um quase sussurro — Obrigado.
Byakuya acenou brevemente com a cabeça, sem dizer mais nada. Ele se pôs de pé com lentidão, elegante, dando de costas para o homem mais novo.
— Byakuya? Aonde você vai? — Ichigo sondou, inquieto, querendo que ele ficasse.
— Retornar aos meus aposentos. — sua voz era calma, porém, exibia um quê de cansada — Já fiquei tempo o suficiente. Até um outro dia, Kurosaki Ichigo.
Ichigo sentiu um nó na boca do estômago, como uma angústia ácida lhe corroendo por dentro. Teve tantas oportunidades para revelar o que verdadeiramente sentia pelo Kuchiki, entretanto, as desperdiçou, e agora ele estava de pé, bem diante de si, prestes a ir embora. Se não contasse naquele exato instante, não tinha ideia de quando teria outra oportunidade daquelas… e muito menos a coragem.
— Ei! — exclamou — E-Espera!
Seus dedos roçaram o pulso de Byakuya, tomando-o com certa ânsia, o puxando para perto. Órbitas cinza-ardósia espreitaram por cima dos ombros, intrigadas, aguardando o que tinha para falar. As sentenças rebobinaram como engrenagens no cérebro, elaborando, maquinando, todavia, sem sucesso. Nada era soprado por entre os lábios, além do mais puro silêncio.
— Tem algo a dizer, Kurosaki?
O modo que seu sobrenome fora pronunciado pela voz grave do Capitão lhe enviou arrepios através da espinha, o deixando derretido como manteiga numa frigideira.
— Byakuya, eu– — iniciou, contudo, não conseguiu dar continuidade, se amaldiçoando por isso — Eu te… — inconscientemente apertou o pulso do homem, tal como seus lábios. Chiou pela dificuldade que era admitir o que sentia, irritado pela própria covardia — …te acho um ótimo conselheiro.
"Idiota! Idiota, idiota, idiota! Um idiota, é isso que você é, Ichigo!" Kurosaki pensou consigo mesmo, querendo se estapear.
Ele estava tão retraído por não confessá-lo que não se sentiu digno de olhá-lo nos olhos. Se assim tivesse feito, teria captado o arquear confuso de sobrancelhas, tal qual a nuance de tristeza e frustração no rosto costumeiramente impassível do nobre. No entanto, experimentou o leve pressionar da mão dele ao redor da sua, o que estranhamente soou como um ato de… afeição?
Não. Devia ser coisa da sua cabeça! Tinha que ser!
— Espero que minha orientação o ajude com esse alguém que você ama. — Byakuya murmurou baixinho, praticamente num sussurro, antes de apertar seus dedos de novo em um toque mais demorado e afrouxá-lo, enfim lhe dando as costas e partindo mansão adentro.
No ínterim que o resvalar da palma do Kuchiki se foi, e somente nesse ínterim, foi quando Ichigo se permitiu erguer o queixo e observá-lo silenciosamente deixar a festa, sumindo por entre a multidão, sobrecarregado demais pela quantidade de pessoas e pelo barulho. Ali, não somente o homem que estava apaixonado se esvaiu de sua vista, mas também a sua coragem, como areia escorrendo por entre os dedos.
Ele suspirou profundamente, exaurido, enterrando o rosto nas mãos. O esforço necessário para ignorar o nó em sua traquéia e a vontade de chorar foi quase sobrehumano.
Massageando as têmporas, resolveu tomar uma decisão, a qual nunca pensou que faria por vontade própria: pedir uma bebida alcoólica.
Tinha ciência de que ficaria bitolado por horas e não conseguiria pensar em mais nada caso estivesse em seu juízo perfeito, então estava prestes a agir como um adolescente irresponsável e encher a cara para esquecer dos problemas.
Esperou a dose ser servida em sua mesa, entornando o líquido forte de uma só vez, fazendo careta quando desceu queimando como brasa pela garganta. Era horrível. Não entendia como tinham pessoas que gostavam daquilo, entretanto, não se fez de rogado. Bebeu outro sem dó alguma, já sentindo a vista borrar e a cabeça girar.
Se lhe ajudasse a entorpecer aquela sensação aguda e cortante instalada em seu peito, era mais que bem-vindo.
Como Renji havia lhe dito mais cedo: havia álcool para curar um coração partido. E com certeza também havia para compensar aquilo que naquela noite mais o faltava:
Coragem.
