Chapter Text
Ophélie estava andando pelo campo, distraidamente.
Estava terminando de ler um livro que o tio-avô havia emprestado a ela, da própria biblioteca particular dele, o que significava muito, já que ele não emprestava livros para ninguém.
Era um compilado de contos antigos, preservados em uma encadernação de couro marrom. Estava um pouco gasto pelo tempo, mas ainda era uma bela edição.
Quando terminou de ler, voltou para casa.
Havia sido uma boa leitura, apesar de ter achado o começo um pouco enfadonho.
Conseguia ouvir Léonore tocando o pianoforte.
Atravessou um varal de roupas brancas e um gansaral até chegar à porta da frente.
Via da janela do alpendre a mãe e o tio-avô conversando na biblioteca.
Ele estava sentado, lendo o pasquim, e ela estava de pé, segurando com ansiedade um lenço.
— Não quer saber quem é o locatário? — Ela escutava a mãe perguntar para o tio-avô. Provavelmente estava falando sobre a casa de Netherfield Park, que estava para alugar. A mãe só sabia falar disso nas últimas semanas, estava empolgada para saber quem a alugaria, e pelo jeito, já sabia quem tinha alugado.
A primeira coisa que viu quando entrou em casa foi Domitille e Béatrice escutando por de trás da porta da biblioteca.
— Tille, Béa, o que eu já disse a vocês sobre escutar por trás da porta? — Ela puxou as saias de Domitille, rindo. As duas irmãs tinham a mania de sempre escutar atrás da porta, mesmo que Ophélie as repreendesse.
— Não faz mal. Estão falando sobre um tal de Sr. Renold. — Cochichou Domitille a ela.
— Um jovem respeitável.
— E rico. 5 mil libras por ano.
Essa última parte chamou a atenção de Ophélie.
— É mesmo? — Ela logo se juntou a elas para escutar também.
— E ele é solteiro. — Disse a mãe delas ao tio-avô, que pouco parecia se importar.
— Ele é solteiro! — Disseram Domitille e Béatrice, em uníssono, alto demais.
— Quem é solteiro? — Agathe apareceu atrás dela, segurando vários fitilhos coloridos numa mão e um bordado na outra.
— Um tal de Sr. Renold, aparentemente. Pare Tille. — Ela pediu para que a irmã mais nova parasse de rir, por mais que também estivesse rindo.
Da onde Ophélie estava, conseguia ver o tio-avô se levantar e dizer:
— E o que as meninas têm a ver com isso? — Ele perguntou, andando até uma das estantes
A mãe o seguiu.
— Como o senhor é leso, tio! Não entendeu que quero casá-lo com uma delas.
— Então é por isso que ele vem morar aqui. Para se casar com alguma das minhas sobrinhas-netas. — Ele disse, com evidente ironia. Estava segurando um vaso de orquídeas em uma mão.
— E é por isso que o senhor vai visitá-lo quando ele chegar. — A mãe as via agora, e não só ela como o tio também, que abriu a porta e deu de cara com aquele grupo tão feminino.
— Meninas. — Ele as cumprimentou, ainda segurando o vaso.
Passou por elas, com a mãe correndo atrás dele, para ir até a antessala
— Não podemos visitá-lo se o senhor não for. — A mãe corria atrás dele, segurando as saias.
— Está escutando, titio. O senhor nunca escuta. — Domitille, que era a favorita da mãe, ia correndo ao lado da dela. /> — Precisa ir vê-lo. Logo. — Disse Béatrice.
Léonore estava deixando o pianoforte para ir atrás delas também.
O tio-avô parou na porta da antessala, ainda com o vaso na mão, e olhou para elas.
— Não é necessário, pois eu já o fiz. — Disse, para surpresa de todas.
— Já? Quando?— Perguntou a mãe, confusa.
Ophélie rodeou as irmãs mais novas e sentou-se no sofá. Agathe se sentou atrás dela, num banquinho.
O tio colocou o vaso sobre o aparador da lareira e sentou-se em uma cadeira, que dava uma visão para todas as pessoas da sala.
— Como pode esconder essa novidade de nós, tio? Não tem compaixão pelos meus nervos? — A mãe perguntou, torcendo o pano nas mãos.
— Tenho muito respeito por eles desde que seu marido morreu e eu vim morar com vocês. Eles têm sido uma companhia muito recente nesses últimos anos. — Ele respondeu, cruzando as mãos sob a barriga. Ophélie riu.
Fez-se uma pausa, mas sua mãe perguntou, segundos depois:
— Ele é amável?
— Ele é bonito? — Perguntou Béatrice.
— Quem? — Léonore apareceu, parada na porta da antessala.
Domitille, que estava pulando de alegria pela sala, passou saltitante pela mãe.
— Com certeza é bonito.
— Com tantas libras anuais, não tem importância se ele tiver verrugas. — Ophélie disse, fazendo Agathe rir.
— Quem tem verrugas? — Perguntou Léonore.
— Darei meu consentimento a ele, para o casamento, com qualquer uma que ele escolher.
Domitille se sentou de frente para o tio.
— Então ele vai ao baile amanhã? — Perguntou ela.
Ele ficou em silêncio, para fazer suspense, mas logo respondeu.
— Vai.
Isso fez a mãe, Domitille e Béatrice gritarem de alegria.
Béatrice soltou a mão da irmã e foi até Agathe para implorar. Queria que ela emprestasse um vestido estampado, e em troca, ela emprestaria um par de sapatos verdes a Agathe. Domitille também foi até ela para pedir emprestado um chapéu, e jurou fazer tudo o que ela quisesse por um mês.
Ophélie assistia à cena, rindo e achando graça.
— Se todos os homens do salão não terminarem a noite apaixonados por vocês, então não sei julgar a beleza.
Ophélie estava sentada com Agathe e Gaelle. Gaelle era sua melhor amiga, filha de um cavalheiro, e era a moça mais bonita do condado, ficando apenas atrás de sua irmã Agathe.
— Os homens. — Agathe Ironizou.
— São tão fáceis de serem julgados. — Ophélie riu.
Estavam sentadas, esperando a dança acabar. Era a segunda vez que Ophélie tomava um chá de cadeira. A quantidade de homens era limitada, o que significava que algumas moças ficariam sem par.
Conseguia ver sua mãe, o tio-avô e Léonore de onde estava.
Domitille e Béatrice eram as únicas que não tinham tomado chá de cadeira. Todos os jovens, ou não tão jovens, da festa queriam dançar com elas.
— Eles não são tão ruins. — Gaelle disse, rindo.
— Todos têm humor, na minha experiência limitada.
— Você ainda vai conhecer alguém impressionante, aí vai ter que aprender a controlar a sua língua. — Agathe retrucou, rindo também.
A música e a dança parou subitamente.
De onde estavam não conseguiam ver quem eram os novos convidados que tinham acabado de chegar, mas elas sabiam quem eram. Mesmo assim, as três ficaram nas pontas dos pés para verem melhor os ilustres convidados.
Ophélie conseguia ver dois homens. Um era ruivo e sorridente. O outro era loiro e carrancudo.
— Qual daqueles engomadinhos é o nosso querido Sr. Renold? — Ela murmurou para Gaelle. Não só era a moça mais bonita do condado, como também era a mais informada. Sabia sobre tudo e sobre todos.
— É o da direita. Os da esquerda são seus conhecidos: Sr. Thorn e sua prima, a Srta. Patience. O irmão desta última está perto de ser deserdado pela família, por mais que seja o único herdeiro. É um libertino, e gastou uma parte da fortuna da família em Londres com jogos de azar.
— Ambos parecem pobres almas infelizes condenadas ao inferno. — Ela disse, rindo. O tal Sr. Thorn tinha um olhar tão desprezível que parecia querer correr da festa. Ou melhor, parecia que ele nem queria estar ali.
— Podem até ser infelizes, mas certamente não são pobres.
— Jura?
— Só o Sr. Thorn tem uma renda de 10 mil libras. É proprietário de boa parte de Derbyshire.
— Meio infeliz então. — Disse Agathe, fazendo as duas rirem.
O grupo passou por elas, e como mandava a boa educação, elas fizeram uma pequena reverência.
Por algum motivo, o Sr. Thorn olhou diretamente para Ophélie. Mas ela pouco se importou, porque olhou agora Gaelle de novo e voltou a rir.
O grupo continuou andando, até chegarem à frente da lareira. O único que não parecia julgar os outros convidados era o Sr. Renold, que sorria.
A música recomeçou e todos voltaram a dançar.
O Sr. Renold era um homem de feições agradáveis e cavalheirescas, que logo conquistou a popularidade de todos no baile.
Seu conhecido, Sr. Thorn, também chamou a atenção do salão, pela figura alta, elegante e aristocrática. A notícia sobre sua renda anual logo se espalhou. Os homens o admiravam pela altivez e as mulheres o achavam nobre. Sua maré de popularidade logo virou quando perceberam que ele era orgulhoso. Não falava com mais ninguém além das pessoas de seu próprio grupo, e não dançou com ninguém, além de se achar superior. Nem sua enorme renda e amplas propriedades o fizeram digno.
As três observavam o grupo.
— Sorria, Agathe, sorria para o Sr. Renold. — Ophélie disse para sua irmã, mas ela balançou a cabeça, com desgosto.
— Não. Ele parece muito bobo.
Ela se virou para a amiga.
— Então sorria você, Gaelle. Pareceu gostar mais dele do que minha irmã.
Gaelle não respondeu, mas corou com o que ela disse.
A mãe atravessou o salão, passou pela multidão e chegou até elas.
Pegou Agathe pela mão e a levou até os convidados de honra. Gaelle e Ophélie as seguiram até lá.
Seu tio e sua irmã Léonore se juntaram a elas.
— Sr. Renold, essa é minha filha. Esses são meus vizinhos. O Sr. Richard, sua sobrinha, a Sra. Sophie e suas sobrinhas-netas, a Srta. Léonore, Srta. Agathe e a Srta. Ophélie. — O pai de Gaelle os apresentou aos convidados.
— É uma honra conhecê-lo. Eu tenho mais duas filhas, que não estão aqui porque estão dançando. — Disse a mãe. Ela estava empolgadíssima para empurrar uma das duas filhas mais velhas ao Sr. Renold.
— Estou encantado em conhecê-las. — Ele respondeu, gentilmente.
— Deixe-me apresentá-los ao Sr. Thorn de Pemberley e Derbyshire, e sua prima, a Srta. Patience. — O pai de Gaelle também apresentou esses ao grupo, e diferentemente do Sr. Renold, esses não disseram nada. Absolutamente nada.
Feitas as apresentações, o grupo se dissipou. Agathe conseguiu um par e foi dançar. Ela e Gaelle ficaram conversando com o Sr. Renold, que era muito alegre, não só de aparência.
O Sr. Thorn e sua prima se limitaram a falar um com o outro, mas nada além disso.
— Está gostando de Hertfordshire, Sr. Renold? — Gaelle perguntou a ele.
— Muitíssimo, obrigado.
— Dizem que a biblioteca de Netherfield é uma das melhores do país. — Disse Ophélie. Na verdade, ela não tinha tanta certeza da informação, mas como foi o tio-avô que contou então era bem provável que fosse verdade.
— Me envergonho de dizer isso, mas não sou muito voltado à leitura. Prefiro fazer coisas ao ar livre.
— Eu gostaria de ler mais, mas sempre há tantas coisas para se fazer.
— Eu penso o mesmo.
A conversa entre os três durou pouco, porque o Sr. Renold tirou Gaelle para dançar.
Sua irmã e sua amiga estavam dançando, e como não tinha com quem conversar, alguém que fizesse parte do círculo íntimo dela, precisou conversar com a única pessoa que não queria conversar.
— Costuma dançar, Sr. Thorn?
— Não se puder evitar. — Ele respondeu, de maneira muito rude.
Ele era o único que não tinha dançado ainda, e Ophélie esperava que ele a tirasse para dançar, mas pelo visto, isso não iria acontecer.
Ophélie tomou outro chá de cadeira.
Encontrou sua irmã do outro lado do salão e foi se sentar com ela.
Viu o Sr. Renold e o Sr. Thorn passando perto delas. O primeiro se sentou em uma cadeira, para descansar. Estava até agora dançando com Gaelle.
— Eu nunca vi moças tão lindas. — Disse ele, sorridente.
— Está dançando com a única menina linda do salão. — Sr. Thorn andava ao lado dele, verificando um relógio de ouro.
— Ela é a criatura mais linda que já vi. Mas a amiga dela, Ophélie, é muito agradável.
— Tolerável, mas não bonita o suficiente para mim. — Ele guardou o relógio no bolso — Melhor voltar para sua parceira de dança e aproveitar os sorrisos dela. Está perdendo seu tempo comigo.
O Sr. Renold obedeceu e voltou para dançar. O Sr. Thorn se afastou, e os sentimentos de Ophélie para com ele não foram nada cordiais depois de sua fala em relação à aparência dela.
— Dê graças a Deus, Ophie. Se ele gostasse de você, teria que falar com ele. — Agathe pegou a mão dela, mas Ophélie não estava triste, na verdade, achava graça.
— Exatamente. E eu não dançaria com ele nem por toda Derbyshire. — Isso fez as duas rirem.
O baile seguiu alegremente até o fim. Ophélie conseguiu dançar com o Sr. Renold e com mais três pares.
A mãe ficou furiosa quando descobriu que Ophélie foi desdenhada pelo Sr. Thorn. Já não tinha ido muito com a índole dele, depois dessa desfeita, então, ela o detestava.
Gaelle passou o resto da festa dançando com o Sr. Renold, para o desgosto da mãe de Ophélie, que esperava que a filha mais velha, Agathe, o conquistasse.
No fim, a festa foi agradabilíssima. E todos voltaram contentes para casa.
