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Correios Elegantes. - Ineffable Husbands

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Dia 23 de Junho.

O dia era 23 de Junho e Crowley comumente vêm ao Brasil durante essa época do ano, entretanto, dessa vez ele está trazendo Aziraphale. O anjo foi relutante com a ideia no começo, mas o demônio era esperto e usou a sua cartada que faria o anjo não conseguir recusar a proposta.

"–Mas olha só, você vai estar saindo dessa sua livraria empoeirada que você fica o dia todo e vai passear! Sem contar que o Brasil tem uma tradição culinária incrível nessa época do ano, e eu tenho certeza que você nunca comeu nada brasileiro."

Aziraphale no primeiro momento se sentiu ofendido pelo insulto a livraria, ele olhou ao redor e realmente viu que parecia mais empoeirada que o normal. Ele tinha quase certeza que havia limpado de manhã. Mas uma coisa era fato:ele nunca havia provado a culinária brasileira e isso despertou um certo interesse e curiosidade.
E aqui estão eles, Brasil, mais especificamente no nordeste onde a tradição dessa festa colorida é mais forte e mais presente. Crowley fez prontidão de comprar roupas novas para o anjo e para si mesmo, e por via das dúvidas ele comprou um chapéu.

Os dois andavam pelas ruas e Aziraphale parecia fascinado com os balões de papel e as bandeirinhas, seus olhos olhavam para todas as barraquinhas e as pessoas rindo; Por um momento ele sentiu que Londres era praticamente cinza perto do lugar que ele estava agora. Quando se virou para o lado para falar com Crowley o demônio havia sumido, o anjo quase se desesperou quando viu o demônio abaixado conversando com algumas crianças que praticamente brilhavam ao ver Crowley. O anjo se aproximou cautelosamente, não muito para não assustar as crianças e não muito para assustar o próprio demônio.

-Tio Crowley, Tio Crowley! Você nem acredita! Hoje minha mãe me deixou na casa da vó e ela me deu um montão de dinheiro pra comprar paçoca!- Disse uma menina que estava de vestido colorido e suspensórios, seus cabelos eram curtos porém cheios de cachos e ela tinha maquiagem preta em um dos dentes, o anjo ficou encantado em como as crianças se vestiam e mais encantado ainda em como as crianças se comportavam perto de Crowley.

-Sai daqui Helena, eu também quero falar com o tio Crowley!- O menino que estava do lado da garotinha disse num tom quase agressivo, sua camisa xadrez era igual a de Crowley e ele tinha um bigode feito de caneta no rosto. -- Tio! Hoje eles vão acender a fogueira, né? Então, meu pai falou que quando acenderem a fogueira eu deveria mandar o correio elegante pra garota que eu gosto!

-Tio, você trouxe seu namorado? você disse que ia trazer el..- A garotinha foi interrompida por Crowley que colocou a mão na boca dela em um movimento brusco, quase caindo, ele deu um sorriso nervoso e lentamente tirou a mão da boca dela.

-Dá pra 'cê falar mais baixo, Helena fofa do tio? Eu trouxe ele e ele deve estar aqui em algum lugar, mas tecnicamente..- O demônio fez uma careta, reajustando a sua posta e levantando, pegando a garota no colo- O que que 'cê acha da gente ir atrás dele?

-Eba!

-Tio Crowley…aquele ali não é–

-Depois Henrique, eu não consigo carregar vocês dois.- O demônio se virou e se deparou com o anjo olhando eles com um sorriso, o tipo de sorriso tão puro e angelical que enjoava Crowley.- Anjo… o que que você tá fazendo aqui?

-Você que me trouxe aqui, querido.

-Ah é, tá certo. Você tá ai a quanto tempo?

-O suficiente pra saber que você é secretamente babá.

-Ha-Ha, engraçadão. Você vai me ajudar cuidando do Henrique, então vambora.

O garoto olhou para Aziraphale, um olhar curioso a princípio mas ele em seguida sorriu, agarrando a mão do anjo e seguindo Crowley. O dia pareceu mais longo do que em Londres e Aziraphale não detestava isso nem um pouco, na verdade, ele adorava que demorava tanto para passar.
Conforme eles saíram do local onde estavam Crowley ele levou eles primeiro na barraca de milho, Aziraphale era familiar com o milho mas não do jeito que foi feito aqui:Ele era cozido e então colocavam manteiga em cima; O anjo se surpreendeu que algo tão simples poderia ser tão bom mas então Crowley levou eles para a barraquinha de paçoca, algo tão pequeno e tão fácil de quebrar mas muito gostoso e doce. Henrique e Helena se frustraram um par de vezes todas as vezes que a paçoca quebrava nos dedos de criança deles, e toda vez que isso acontecia Crowley comprava mais paçoca para eles.

O dia seguiu com Aziraphale indo de barraca em barraca com o demônio e as crianças, em cada barraca o anjo ficava mais e mais encantado com as comidas. Quando ele julgou que sua favorita era o cachorro-quente extremamente recheado, ele provou o bolo de milho e passou a tarde indeciso sobre qual era melhor. De tarde também houve uma peça para as crianças contando sobre a tradição da festa de São João, no começo o anjo foi hesitou em ir mas quando viu que também havia muitos adultos em volta ele decidiu se juntar a Helena e Henrique.

Em torno das 20:45 acenderam uma fogueira redonda, que de acordo com a história representava São João. Poucos minutos depois que a fogueira foi acesa, as crianças cochicharam algo com Crowley e saíram sorrindo acenando, o demônio comprou um quentão e saiu da multidão junto com um anjo, se sentando em um banquinho.

‐É certo deixar eles saírem por aí?- O anjo disse se sentando ao lado do demônio, olhando as crianças sumirem na multidão.

-Sim, eles tão de boa, foram só comprar correio elegante e depois vão dançar a quadrilha.

-Correio..elegante?

-É, é tipo uma cartinha anônima geralmente romântica, é comum os namorados mandarem uns pros outros.- Crowley deu um gole no quentão fazendo careta percebendo que estava realmente quente, ele havia esquecido que era realmente quente.

-Eles não são muito novos para mandar esse tipo de coisa?

-Crianças são inocentes, anjo. Eles provavelmente vão mandar algo bobo, eu suponho.

-Você não vai mandar pra ninguém?- O anjo perguntou sincero, uma faísca de esperança acendendo nele enquanto ele olhava para todas as bandeiras e balões iluminados e olhava de volta pro demônio.

-Claro que não, pra quem eu mandaria?

Aziraphale engoliu em seco, a pequena faísca de esperança dele sumiu por um breve momento, ele dissipou seus pensamentos assim que viu o demônio oferecendo a bebida para ele. Ele deu um pequeno gole, era quente mas doce, era quase parecido com vinho e então ele deu outro gole um pouco maior dessa vez.

-Você..quer mandar um correio elegante pra alguém?

-Oh, eu..não, eu suponho.

-Certo. Bem, eu vou atrás dos pivetes, se você quiser qualquer coisa liga pra mim.

-Sim, certo.

Aziraphale entregou o copo de volta para o demônio e olhou para os pés vendo o demônio sair, ele suspirou fundo e olhou para todas as cores de bandeirinhas e balões, olhou também para a fogueira e sorriu. Seria bobo se ele mandasse um correio elegante? Mesmo com Crowley não mandando para ele de volta, ainda assim era a chance de Aziraphale tomar uma atitude, certo?
Ele colocou as mãos no rosto, se sentindo bobo por realmente ter esperado algo. Seu coração quase parou quando sentiu uma mão tocando no seu ombro, um adolescente em torno dos 15 anos de idade carregando uma cestinha cheia de papéis.

-Você é o…Aziraphale?- O adolescente disse com um pouco de dificuldade, um sorriso nervoso no rosto enquanto entregava um papel pequeno cheio de corações desenhados na borda.- Acho que isso é pra você.

-oh, muito obrigado.

O adolescente olhou um tanto preocupado por ter visto o anjo obviamente indisposto antes, mas não querendo se intrometer muito saiu sorrindo indo entregar seu próximo correio elegante. Aziraphale olhou cautelosamente o papel, não havia assinatura nenhuma nem nada, no verso do papel apenas seu nome dizendo que esse bilhete deveria chegar a ele. O anjo engoliu em seco e começou a ler a pequena mensagem que tinha.

"Para os olhos azuis pálidos, para o amante de livros com um amor incondicionalmente estranho por xadrez. Lembre-se que somos eu e você. :)"

A mensagem era curta mas clara, a caligrafia tão familiar que ele reconheceria em qualquer lugar e em qualquer idioma, até nos inexistentes e incompreensíveis. Aziraphale olhou o bilhete mais uns minutos e sorriu bobo, dessa vez cobriu o rosto com as mãos para esconder o sorriso apaixonado no rosto e quase sem perceber balançou os pés em alegria. Em pouco menos de meia hora depois Crowley voltou, seguido das crianças, Helena estava dormindo no colo do demônio e Henrique estava prestes a dormir também.

-Acho que não vai dar tempo deles dançarem a quadrilha, começa às 21:45 e eles tão mortos de cansados.

-Oh, certo, certo.- O anjo cuidadosamente guardou o bilhete em seu bolso e pegou o garotinho no colo, olhando para o demônio.- Vai deixar eles em casa?

-Claro né, que pergunta idiota, não vou deixar eles sozinhos aqui.- O demônio disse sarcástico dando de ombros, lentamente andando em direção ao Bentley.

Aziraphale deu risada e seguiu Crowley até o carro, levava não menos do que 10 minutos até a casa da avó das crianças que agradeceu de forma cortês e entrou com as crianças para dentro de casa.
Ambos aproveitaram a noite e Aziraphale teve até tempo de aprender a dançar quadrilha, e conseguiu provar mais algumas das comidas que ele não havia comido ainda. Eles passaram a noite em um hotel, quartos separados, e no outro dia de manhã foram se despedir de Helena e Henrique.

Uma semana depois em Londres, Aziraphale tinha prendido seu correio elegante em seu quadro de "Coisas que deve lembrar" e ponderou muito sobre o que fazer. Ele pegou um uma folha de papel e fez seu melhor para fazer um bilhete minimamente parecido com o que havia recebido.

Crowley teve uma surpresa enquanto estava no seu apartamento, ele não estava fazendo particularmente nada importante quando bateram na porta, o carteiro entregou um bilhetinho para Crowley e saiu. O demônio olhou curioso, uma mensagem relativamente curta e no verso o nome dele indicando que era para ele.

"Para a serpente velha e esperta, que tem um amor estranho por seu carro antigo que sempre toca as mesmas músicas. Sempre seremos eu e você.♡_"

O demônio não pode evitar mas sorrir de forma boba, girou em torno de seu apartamento por alguns minutos enquanto olhava o bilhete e conferiu novamente, ele reconhecia a caligrafia exagerada em qualquer canto do mundo(Até porque, pararam de usar essa caligrafia em torno de 1880) e Crowley se sentou em sua cadeira exageradamente adornada.

-Aziraphale, seu ridículo. Pelo menos você entendeu o conceito de um correio elegante.