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Com um cigarro queimado até a metade entre os dedos, Andrew observou gotas de chuva que começaram a pingar no parabrisa do seu carro. Ele abriu a janela apenas um pouco e soltou um monte de fumaça, vendo-a se espalhar pelo espaço pequeno do carro, e esticou as costas no banco do motorista.
Afinal, porque diabos Neil estava demorando tanto?
Ele deveria ir para casa caminhando assim como costuma fazer todas as vezes depois de terminar seu treino com Kevin, mas como estava chovendo, ligou para Andrew ir buscá-lo. Porém isso foi mais de meia hora atrás, e Andrew ainda estava esperando.
Andrew odeia esperar.
Seu cigarro queimou até o fim, então jogou-o pela janela meio aberta e esticou a mão para pegar o próximo. Duas batidas na janela da porta do carona e Andrew se virou para encarar os olhos azuis de Neil.
— Destrava.
Andrew destravou o carro e Neil sorriu quando se sentou no banco do carona, jogando sua bolsa e mochila molhadas no banco de trás. Em suas mãos, no entanto, ainda havia uma pequena caixa de sapatos que foi cuidadosamente coberta pela jaqueta de Neil, deixando apenas uma pequena parte à mostra.
— Eu demorei muito? – ele se aproximou devagar para deixar um beijo na bochecha de Andrew. Andrew cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha.
— E essa caixa?
Neil sorriu com os dentes.
— É uma caixa de sapatos.
— Não enche meu saco, viciado. O que tem na caixa?
Neil abriu a boca para responder, mas não foi preciso. A caixa balançou um pouco em seu colo e uma série de meados veio em seguida, deixando muito claro o que havia dentro daquela caixa de sapatos.
Andrew colocou uma mão na testa.
— Neil?
— Okay, certo. São gatos – ele descobriu a caixa, abrindo-a para que Andrew pudesse ver os dois gatos minúsculos encolhidos lá dentro como se fossem bolinhas de pelo colorido.
— Gatos – Andrew repetiu. – No plural.
— Eles foram deixados lá na porta do estádio e estava chovendo! Coitadinhos, Andrew. Eu não podia deixar eles pegando chuva.
Andrew suspirou, olhando de novo para os gatinhos na caixa de sapatos. Um deles era laranja e outro era preto, ambos com manchas brancas espalhadas em seu pêlo molhado. Eles estavam tremendo e se encolhendo um perto do outro no canto da caixa para ficarem mais quentes.
Andrew não queria gatos – sendo sincero, ele nunca foi muito fã de felinos e sempre preferiu cachorros, mesmo sendo alérgico –, mas ele tinha tempo livre e era realmente entediante ficar em casa sem fazer nada além de estudar para suas provas de admissão da faculdade, e Neil estava olhando para ele com aqueles olhinhos brilhantes de cachorrinho – no caso, gatinho abandonado. E aqueles dois eram tão pequenos… quase não ocupavam espaço.
De verdade, o que mais Andrew poderia fazer além de deixar que Neil adotasse aquelas duas bolinhas de pelo sujas e minúsculas?
— Pegá-los significa que eles são sua responsabilidade – disse. – Você vai cuidar deles?
O rosto de Neil se iluminou como se o sol nascesse em seus olhos azuis. Ele se aproximou novamente e deu outro beijo na bochecha de Andrew, um sorriso enorme tomando conta de suas bochechas bronzeadas enquanto ele falava com confiança:
— Eu vou cuidar deles!
*
Neil realmente se dedicou aos gatos como se sua vida dependesse disso. Ele comprou camas, almofadas, roupas ridículas de super-heróis e brinquedos em uma quantidade exagerada. Menos de uma semana depois, era como se os dois felinos sempre tivessem morado ali.
— Ei, – Neil chamou por ele, vindo da cozinha com o gato laranja no colo.
Andrew estava deitado no sofá, um braço cobrindo o rosto enquanto o gato preto estava deitado em cima da sua barriga, subindo e descendo conforme a respiração de Andrew.
— O que?
— Eles estão aqui há uma semana, e nós ainda não os nomeamos – disse, sentando-se sentou no chão e encostando as costas no sofá. O gato em seu colo pulou por seu ombro e se juntou ao irmão na barriga de Andrew.
— Podemos só chamá-los de Gato 1 e Gato 2.
— O que? Não!
— Então um deles é Idiota e o outro é Estúpido.
Neil riu alto, encostando a cabeça na barriga de Andrew.
— Você é péssimo nisso, Drew.
— Bom, inventar nomes é a sua especialidade.
— É diferente – revirou os olhos. – Eu só consigo inventar nomes para mim.
— Então vamos chamá-los de Neil e Andrew.
Neil deu-lhe uma cotovelada.
— Não!
Andrew sorriu. Os dois gatinhos pularam para fora de sua barriga e Neil muito alegremente ocupou o espaço livre, deitando-se com Andrew no sofá. Era um sofá pequeno, mas eles já estavam acostumados a se espremerem ali.
Andrew tirou o braço do rosto e o colocou debaixo do pescoço de Neil, que deitou-se e enfiou o rosto na dobra do pescoço de Andrew. Pernas entrelaçadas e Neil envolveu seus braços na cintura de Andrew, se prendendo a ele e garantindo que não cairia.
— Vamos pensar em alguma coisa – Andrew disse. – E, por enquanto, eles serão só Gato 1 e Gato 2.
Neil riu alto.
*
As Raposas foram visitar na semana seguinte. Quando Neil voltou de sua corrida matinal, encontrou todas reunidas na sala espalhadas pelo chão, sofá e poltronas.
— Neil! – Matt correu para recebê-lo com um abraço. – Viemos ver como vocês estavam!
— Que bom que vieram – sorriu.
Andrew estava fazendo café na cozinha. Ele não gosta de café. Tem gosto de lama e poeira, mas Neil gosta e Andrew tem muito tempo livre. Por alguma razão, a meta de aprender a fazer um bom café ocupou espaço em sua mente e acabou virando parte da sua rotina.
Sempre que Neil chegava de suas corridas, Andrew o recebia com uma caneca de café, e hoje não foi diferente. Neil caminhou até ele e Andrew colocou no balcão sua caneca laranja cheia de líquido fumegante.
Neil sorriu.
— Vou tomar um banho primeiro – e desapareceu no corredor que levava para o quarto.
Andrew encheu sua própria caneca com chocolate quente e deixou que as Raposas se servissem como quisessem, sentando-se no sofá. Quando Neil voltou do banho, duas bolinhas de pelo vieram com ele, correndo entre suas pernas e prendendo as garras em sua calça de dormir.
Nicky deu um pulo no sofá.
— Um gatinho!
— Um não – disse Alisson, abaixando-se para pegar o gato laranja no colo. – Dois gatinhos.
— Ah, meu Deus! – Nicky exclamou. – Não acredito que vocês adotaram gatinhos. Isso é tipo ter filhos.
— Não – Aaron disse. – É tipo ter gatos.
— Para os lgbts é como ter filhos – Nicky revirou os olhos.
Neil sentou-se na poltrona à frente do sofá, de frente para Andrew, queixo apoiado em uma mão enquanto a outra segurava sua caneca cheia até a boca de café fumegante. O gatinho preto pulou em seu colo, ronronando e se esfregando nele. Andrew o observou pelo canto do olho, registrando cada mínimo movimento: sua respiração calma, seus ombros relaxados, seus dedos ao redor da caneca e os lábios bonitos formando um 'O' enquanto ele assoprava o líquido quente para, finalmente, dar um gole e sorrir com o gatinho fazendo manha em seu colo.
Como se pudesse sentir seus olhos sobre ele, – e talvez realmente pudesse, Andrew não duvidava das habilidades sensoriais dele – Neil parou de soprar seu café e levantou o rosto, bochechas bronzeadas esticadas para cima enquanto um sorriso bonito se formava em seu rosto.
Renee esticou-se para perto de Neil, fazendo carinho no gato em seu colo.
— Qual o nome deles, Neil?
— Anh… Gato 1 e Gato 2.
Dan franziu as sobrancelhas.
— Tá de brincadeira, né?
— Ainda estamos pensando nisso – deu de ombros.
— Ou, ou, ou! – Nicky sorriu, pulando de um lado para o outro. – Podemos ajudar a escolher os nomes? Eu sempre quis ter um gatinho chamado Sinbad!
Kevin riu debochado.
— Coitado do seu futuro gato.
— Eu gosto de Estrela – Renee deu de ombros.
Nicky descartou a ideia rapidamente.
— Estrela não é nome de gato – ele disse. – Além de que tem de ser algo que combina com Neil e Andrew. Você acha mesmo que Neil e Andrew vão chamar um gatinho de Estrela?
— Que tal Estúpido? – Aaron sugeriu. – Ou Idota. Andrew com certeza os chamaria assim.
Neil segurou o riso e se virou para Andrew, que revirou os olhos em um 'cala a boca' silencioso.
— Estamos competindo para decidir quem escolhe o pior nome? – Nicky perguntou. – Eu gosto de Sir Meower the Ruthlesse e The Great Mouseketeer.
— Com licença, – Alisson ergueu a mão como se estivesse pedindo permissão para falar em uma sala de aula – alguém pode, por favor, fazer o Nicky calar a boca?
— Na verdade, eu estava pensando em algo como King Fluffkins – disse Neil.
— Esse é o pior nome que eu já ouvi – Kevin balançou a cabeça negativamente, e Aaron concordou.
— Andrew, me diz que você tem uma ideia melhor que King Fluffkins.
Então todas as Raposas se viraram para encarar Andrew com expectativa, e Andrew cruzou os braços.
— Sir Fat Cat McCaterson – disse.
Aaron deu um tapa na própria testa.
— Meu Deus.
Neil sorriu, realmente gostando do nome estranho, e aceitando sem questionar.
Naquela noite, depois que as Raposas foram embora e Neil e Andrew se deitaram juntos em sua cama, os dois gatinhos correram para debaixo das cobertas, com King se acomodando entre as pernas de Neil e Sir ocupando seu lugar de costume em cima da barriga de Andrew.
— Vocês tem a cama de vocês, King e Sir – Neil murmurou, e Sir miou em resposta. – Entendi, entendi. Você quem manda.
Sem escolhas, os dois fizeram o possível para deitar-se com os gatos ocupando o espaço que queriam. Andrew abraçou Neil de maneira desengonçada, não querendo incomodar o gatinho em sua barriga, colocando o braço por baixo de seu pescoço. Neil não podia mexer suas pernas para entrelaçar com as de Andrew, então contentou-se em abraçá-lo pela cintura e esconder o rosto em seu pescoço. Andrew esticou uma mão e afundou os dedos no cabelo de Neil, desmanchando seus cachinhos em um cafune.
Não era o mesmo de sempre, mas eles dormiram com a mesma tranquilidade de sempre.
