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Português brasileiro
Stats:
Published:
2023-08-23
Words:
11,096
Chapters:
1/1
Comments:
2
Kudos:
7
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102

Mil e um detalhes sobre você

Summary:

Rio de Janeiro, Brasil, dezembro de 1988.

Jeno trabalha na Dance Zone aos fins de semana. Como todo adolescente ele tinha muitos sonhos, morar em Portugal e ser um escritor famoso era só um deles, pois em seu coração mantinha um outro sonho, bem peculiar: dançar com Jaemin, o colega de classe que lhe arrancava suspiros em suas noites na danceteria. 

Notes:

Esse trabalho foi feito especialmente para minha soulmate. Maira, eu te amo e amo todos os mil e um detalhes que você possui.

Work Text:

09 de Dezembro.

O sinal toca. 

Consigo ouvir os pensamentos de alívio de toda classe por hoje ser sexta-feira, sei que os professores estão aliviados também, alguns conseguem esconder bem a satisfação do fim de semana ter chego, outros nem tentam. 

Vejo papéis voando e o barulho dos tênis de sola gasta  correndo até a porta, mas não estou com pressa, essa sexta é como todas as outras, como todos os outros dias.

- Ah, você tá aí! - Donghyuck entra na sala às pressas. Sua  mochila está jogada no ombro direito de um jeito desengonçado  - Olhe só o que recebi hoje! - ele segura um papel em suas mãos, quase o enfiando em meu rosto. 

– É uma … – tento dizer, mas meu amigo me interrompe em completa festa. 

- Carta! E é dele, Jeno, dele! - ele agarra meu pescoço num abraço e beija sua carta, reviro os olhos, mas abro um sorrisinho. 

Donghyuck me solta e continua saltitando animado enquanto passamos pelos corredores. É bom vê-lo assim, já que na maioria do tempo ele está reclamando da saudade do namorado. 

Mark se mudou para São Paulo no começo do ano, ele foi estudar música em uma faculdade da cidade, e  claro, deixou um Donghyuck muito carente sob meus cuidados. Pelo menos ganhei um parceiro na Dance Zone já que ele quer se mudar para São Paulo também e precisa de grana.

-Vocês dois são pior que chiclete, me dá dor no estômago toda essa melação – faço uma cara feia esperando provocá-lo.

-Seu primo é minha paixão, ou será que você não sacou ainda, Jeno? - ele levanta uma sobrancelha e se encosta no armário ao lado do meu. 

-Uau, que chocante! Não sabia dessa - respondo, mas ele nem dá bola. 

Guardo meus livros no armário, tenho que lembrar de devolver para a biblioteca na semana que vem, e como de costume risco mais um dia no calendário que deixo guardado ali. 

-Falta bem pouco - suspiro, olhando os dias restantes do mês de dezembro. 

Em pouco tempo estarei livre da escola, sair do ensino médio e ir para Portugal, trocar os dias trabalhando no salão para os dias trabalhando nas minhas histórias, é animador! Mas não dá tempo de ficar viajando, a escola já está bem vazia, puxo meu amigo pela manga do seu uniforme e voltamos a caminhar pelo corredor. 

Ele parece estar andando nas nuvens, hiper concentrado em sua carta, sem ligar para onde metia os pés, e isso não é nada bom quando Renjun está por perto, muito menos quando se esbarra nele, menos ainda quando ele está te encarando com fúria nos olhos. 

O valentão parece ignorar totalmente minha existência, mas planta seu olhar assustador no meu amigo. 

-Vem cá pentelho, esses seus olhos aí? Servem para alguma coisa? - sua voz é alta e seu mau humor é bem visível  - Eu falei com você! - ele grita e sua voz ecoa pelo corredor vazio e a torna mais alta, mesmo assim, Donghyuck não responde, ele permanece calado. 

Estou entrando em nervos, não sei o que fazer!  Ninguém tinha coragem de enfrentar aquele garoto, os boatos sobre ele eram terríveis.

Renjun põe uma das mãos sobre o ombro do meu amigo, mas isso não parece atingi-lo e isso faz o valentão se irritar mais ainda. Consigo perceber que ele não vai desistir, e sigo seu olhar que desvia do rosto rígido de Hyuck até o papel em suas mãos. 

Ferrou! penso, com o coração a mil por hora. 

- Me dá isso - ele tenta agarrar a carta, mas Hyuck a esconde atrás de si. 

- É minha. - meu amigo ergue o olhar, até encontrar com os olhos furiosos do outro. 

Sei bem que Donghyuck é louco o suficiente para enfrentá-lo numa briga verbal, mas Renjun não parece estar afim de só discutir, vejo o vislumbre de um soco se formar nas mãos dele. 

-Para! Deixa ele em paz! - deixo escapar da minha boca e me arrependo no segundo seguinte.  

O moreno perde a paciência e agarra nós dois pela gola do uniforme.  

-Vou fazer vocês dois engolirem esse papel - ele diz enquanto abre um enorme sorriso cheio de dentes e nos joga contra os armários. 

Felizmente, o impacto é amortecido pela minha mochila, mas o cão parece não desistir e avança em nossa direção novamente. 

-Renjun! – uma quarta voz é ouvida, também alta e bem firme. 

Lá está Jaemin, parado com sua costumeira jaqueta jeans escura e calça jeans clara, uma mão ocupada segurando a porta de saída e a outra segurando um pirulito inconfundível de cereja. 

Agradeço mentalmente por vê-lo. 

-Acabo rápido com esses dois e te encontro lá fora - Renjun volta sua atenção para nós dois que continuávamos no chão.

-Esquece isso - ele diz - Anda logo ou te deixo ir andando – e sai, deixando nós três encarando o lugar que esteve de pé. 

Renjun parece ter entendido o recado, pois nos deixa em paz, não antes de chutar o armário ao lado de Donghyuck com força. 

O observo empurrar a porta com brutalidade e consigo visualizar perfeitamente a sombra de Jaemin enquanto ela não se fecha, sorrio involuntariamente em pensar que ele não foi embora de verdade, no fundo queria que ele estivesse esperando por mim. 

-Enfim, salvos pela sua paquera - Hyuck diz ao meu lado e finalmente me lembro de sua presença ali  – Você tá mesmo gamado nele! Olha só esse sorriso. 

Olho em sua direção com os olhos arregalados e ele está guardando a carta na mochila. 

- Ele não é minha paquera - digo, me levantando, esse é o tipo de assunto que ainda me sinto desconfortável  em discutir, mesmo que Donghyuck seja meu amigo. 

-Ah, deixa de ser careta! – ele me alcança – Eu consigo ver, você tá gamadinho nele.

Não digo nada, apenas empurro a porta e saímos finalmente do prédio, ainda conseguimos ver um carro saindo do estacionamento. Jaemin dirige um Ford Thunderbird vermelho, que está sempre cheio, várias garotas disputam para serem as sortudas a dar uma voltinha na bela máquina vermelha. 

-Fala sério, como você pode gostar dele? - o castanho ao meu lado ainda mantém Jaemin como assunto  – Ele é amigo do Renjun! Ele acabou de quase surrar a gente!

-Jaemin é diferente, nunca vi ele fazendo algo ruim,  devo te lembrar que ele nos salvou? - rebato pela primeira vez. 

Donghyuck ri e sei bem que ele vai começar com seus milhares de argumentos, mas não estou com saco para isso. 

- Eu não vi todas as pessoas que Renjun já surrou na vida, mas sei que foram muitas, e ele continua sendo amigo desse cara! Não seja baba ovo! 

Viramos a primeira esquina e o trânsito está agitado hoje, é horário de almoço. 

- Você poderia ficar grato por ele ter nos salvado pelo menos? - viro em sua direção, não é uma discussão, só mais um diálogo rotineiro em nossa amizade - Donghyuck, você sabe que se Renjun tivesse colocado as mãos naquela carta… você sabe, não sabe?

Evito falar porque sei que o assunto é delicado, mas o garoto  parece entender o que quero dizer sem muito esforço.

-Acho que eu levaria a maior surra da minha vida –  ele ri, cabisbaixo - Talvez eu nem estivesse aqui agora. 

Mark e Donghyuck sempre tiveram o maior cuidado em sua relação, já que ela tinha que ser secreta para o mundo, só algumas pessoas da minha família sabiam.

-Desculpe - digo, toquei em um assunto delicado e me arrependo agora

-Pelo que? - ele realmente parece não entender, mas para mim parece tão óbvio. 

-Por ter tocado no assunto - meus tênis azuis chutam uma pedrinha e a observo rolar pela calçada – Você estava tão feliz… 

– Tá tudo bem, idiota! – ele sorri e me dá um tapinha no ombro – Você sabe que não é o culpado por isso. 

Depois de um tempo estávamos rindo  juntos, relembrando do episódio anterior, agora parece inacreditável  e ridículo. Logo chegamos no pé de manga que fica na entrada da rua em que moro, nos despedimos sempre aqui, e Hyuck segue caminho por mais duas ruas, a casa dele não é longe. 

Ando pelos paralelepípedos da calçada com os braços abertos, como de costume,  Mark e eu gostávamos de apostar corrida sobre eles, e eu acabava ganhando, sempre fui bom em esportes na infância, hoje em dia sou só um corpo cansado vagando por aí. 

Atravesso a rua e limpo os pés no tapete antes de entrar na casa amarela, titia gosta de fazer faxina na parte da manhã quando eu e Jisung estamos na escola. 

- Cheguei! – digo, assim que entro, mas logo vejo a figura feminina no sofá da sala e beijo sua testa – Bença, titia. 

-Deus te abençoe, filho! Por que demorou tanto? A comida já esfriou - ela diz e desliga a televisão – Quer que esquente de novo? - ela faz menção de se levantar mas a impeço. 

-Tive uns probleminhas mas já resolvi, não se preocupe, também não estou com fome, vim comendo trakinas no caminho com Donghyuck - sento na poltrona marrom, ao lado do sofá e do telefone - Mark mandou uma carta para ele hoje.

Titia sorri ao ouvir o nome de seu filho mais velho, ela com certeza sente muitas saudades dele nessa casa, e eu também, crescer com Mark e depois não tê-lo por perto era maldade do destino. 

-Imagino que ele deve ter ficado super contente - ela se encosta no estofado, ainda sorrindo. 

Titia foi a primeira a descobrir sobre o namoro dos dois quando os flagrou dando uns amassos no quarto de Mark há uns três anos atrás. Titia é a mulher mais legal do mundo, é a mais nova de sete irmãos, cresceu no interior do Espírito Santo junto com todos eles, mas veio para o Rio com meu tio quando fez vinte anos, eles construíram uma padaria bem frequentada e tinham a melhor condição financeira de toda família. 

Ela me criou junto dos meus dois primos porque queria me dar uma vida melhor, e mesmo agora depois de ficar viúva ainda continua sendo a pessoa mais bacana e forte do mundo, é claro que ela tinha apoiado o relacionamento de Mark e Donghyuck. 

-Você nem imagina o quanto! - respondo, adoro esse momento do dia em que posso sentar e conversar com ela, é a mulher mais importante no mundo para mim.

-Ei, não faça essa carinha, você também recebeu uma carta, querido – ela diz, dando um gole no café da xícara amarela que estava sob a mesinha de centro.

-Sério? Ele mandou para a senhora também?  

-Deve ter dado um trabalhão escrever quatro cartas - ela diz, olhando para o retrato de nossa família que estava na parede - Ele deve nos amar mesmo. 

Conversamos por mais um tempo, mas preciso subir. 

-Tia, vou subir para descansar um pouco - pego minha mochila do chão e me levanto para subir as escadas, mas ouço sua voz me chamando e paro imediatamente no degrau que estou. 

-Jisung está com Chenle lá em cima, eles estão fazendo um trabalho, você pode ajudar eles, querido? Suas notas são ótimas  - ela pisca para mim e sei que hoje eu não vou conseguir descansar. 

Subo o resto das escadas, sem animação, e paro em frente a porta do quarto, considero bastante a ideia de invadir o antigo quarto de Mark e me trancar lá, mas titia me mataria. 

Ouço vozes, a de Jisung e a de Chenle, melhor amigo dele e também o único, nossa família realmente não é boa em fazer amizades. 

Abro a porta e encontro dois pirralhos no meio de uma pilha enorme de livros e mais livros. 

-Não! Não! Não! Já disse que não - Jisung está balançando sua cabeça em negativo e seus braços estão cruzados. 

-Oi - digo, mas sou totalmente ignorado, eles parecem estar concentrados em uma discussão intensa. 

-Como não? - Chenle parece estar ouvindo um grande absurdo.

Atravesso o mar de livros e cadernos e me jogo na minha cama, vasculho debaixo do meu travesseiro e encontro meus fones de ouvido, que são minha salvação para ignorar os dois pelo resto da tarde, acabo adormecendo ouvindo um álbum do Kid Abelha. 

 

 

Acordo com Jisung gritando no meu ouvido um tempo depois. 

- Que foi, criatura? - me sento na cama, notando pela iluminação da janela que o sol está quase indo embora - Caramba, que horas são?

-Quatro horas – ele diz e me entrega um prato com algumas rosquinhas fritas, titia manda muito bem na cozinha  - Mamãe pediu para te trazer, ela fez para mim e o Chenle mas como somos boas pessoas deixamos um pouco para você, bola de gude.

Bola de gude é meu apelido, Jisung diz que minha cabeça é pequena comparada a dele e a de Mark e não tem quem consiga tirar essa ideia dele.

-Onde está o Chenle? - pergunto, percebendo que o quarto está limpo e arrumado. 

-Já foi embora né, queria que ele morasse aqui? - ele se joga em sua cama, que fica do outro lado da parede, ao lado da minha. Ele me observa comer, parece querer dizer alguma coisa - Obrigado por não se meter nos meus assuntos hoje, sei que a mamãe pediu para você me ajudar, mas eu dou conta. 

-Mas nem que me pagassem eu ajudaria você pirralho, um cavalão desse tem que se virar sozinho – enfio uma rosquinha na boca, nem sabia que estava com tanta fome assim. 

–Sei nem porque eu te agradeço ainda, bola de gude – ele se aconchega na cama e pega uma história em quadrinhos para ler, provavelmente roubada do quarto de Mark – Você leu sua carta? Tava na sua cama, eu recebi uma também, o cabeça é fera! 

Me lembro da carta e salto da cama, lá está ela, toda amassada no meio dos lençóis. 

- Você amassou! - Jisung diz o óbvio quando vê o papel nas minhas mãos – Se eu fosse o cabeça nunca mais te escrevia, idiota. 

-Ainda bem que você não é o Mark seu piolhento – respondo, correndo para tentar abrir o envelope, mas só piorou, acabei sujando de açúcar – Que droga! 

– Hoje não é seu dia - Jisung ri enquanto salta da cama – Eu levo isso aqui, vou deixar você sozinho antes que teu azar passe para mim – ele pega o prato e sai do quarto. 

Agora sou só eu e a carta amassada, tento dar uma melhorada nela, desamassando um pouco e limpando os farelos, felizmente só o envelope sujou. 

Estou ansioso para ler, ansioso ainda mais pelo conteúdo dela, talvez lá esteja a resposta das minhas dúvidas. 

"São Paulo, 23 de novembro de 1988. 

Primo, quero começar já pedindo perdão! Fiquei tão concentrado com as coisas da faculdade, que não pude retorná-lo. Mas, estou aqui agora.

Já é quase dezembro! o tempo passou rápido, não é? Parece que foi ontem que te vi pela última vez antes de entrar naquele ônibus. 

Sei que em todas as minhas correspondências falamos sobre São Paulo, mas pelo que li em sua última carta, sinto que é hora de falarmos sobre o Rio de Janeiro. 

Hora de falarmos sobre você. Sei que conversávamos  bastante enquanto eu ainda morava por aí. E fiquei muito feliz quando vi que você ainda confia em mim para despejar suas aflições e dúvidas. 

Sua pergunta martelou em minha mente por muito tempo. E a resposta é tão simples: "não", viu só? Não existe uma fórmula para deixar de ter medo. Ele sempre vai estar com você, basta aprender a controlá-lo e não deixar que ele é quem te controle. 

E posso apostar que é isso que está acontecendo, não é? 

Você é extraordinário e forte. E merece toda felicidade do mundo, e sinto que ela está mais perto do que pode imaginar, você só tem que se abrir para ela, certo? 

A aceitação é a chave para se conhecer o caminho da felicidade.

Não deixe o medo tomar conta de você, se lembre que independente de tudo estarei aqui, e a nossa pequena família também. Sempre. Nós te amamos muito. Eu amo você! 

PS: poderia me contar como foi a reação do Hyuck quando recebeu minha carta? adoro quando você me conta, mas dessa vez é mais especial, acho que você me entendeu, haha. 

PS2: prometo não demorar para retorná-lo, estou curioso sobre o rumo da nossa conversa. 

Até breve, neno.

Mark, o cabeça " 

 

 

Fecho a porta de casa, o céu tem uma coloração bonita, uma pintura azul e roxa, poderia passar horas aqui observando se não tivesse que ir trampar. Pego minha bicicleta que já estava à minha espera e parto pela rua, pedalando devagar, já que a brisa está boa. 

Meu relógio aponta seis e quinze, estou com tempo de sobra e sem perceber já estou longe do pé de manga e da minha rua. As pessoas estão voltando para casa agora e logo estarão saindo novamente, indo para lugares como a Dance Zone, para gastar sua noite de sexta dançando e jogando conversa fora. 

Pelo menos é o que espero, minha grana depende das pessoas que querem ir balançar no salão, mas o que me deixa feliz é que Jaemin estará lá, com seu pirulito de cereja, atraindo todos os olhares por seu ritual, todos querem saber quem ele vai tirar para dançar dessa vez. 

Seria uma das garotas da escola ou uma desconhecida que o encantasse? Tenho o privilégio de nunca ter perdido uma dança da nossa celebridade, mas não sei se chamaria de privilégio, já que nunca fui eu quem estava nos braços dele. 

Sinto minhas bochechas corarem pelo pensamento anterior, ainda não sei lidar com todos esses  sentimentos que ele me proporciona. 

Desvio meu olhar por uns instantes para o paraíso ao meu lado, o mar está calmo, e o contraste dele com o céu é como ver uma obra de arte. 

A Dance Zone fica de frente para o mar, talvez seja esse mais um motivo para ser um lugar tão popular. Meu relógio aponta seis e meia, nós abrimos às sete, eu e Donghyuck chegamos alguns minutos antes de abrir só para ajeitar algumas coisas. 

-Boa noite, seu Silva - digo, cumprimentando meu chefe, ele geralmente chega às cinco e é um homem de meia idade bacana, pai de uma garota do colégio. 

- Boa noite, Jeno - ele me cumprimenta enquanto carrega algumas caixas - Passa um pano no vidro da frente, quando o Donghyuck chegar diga para varrer o chão, vou estar organizando umas coisas lá dentro. 

Faço o que ele diz, torço o pano e o esfrego no vidro, tomando todo o cuidado já que a vista é importante. 

Dou de cara com um Donghyuck afobado chegando em sua bicicleta, checo o relógio na parede e ele nem está tão atrasado assim. 

- Eu consegui! - ele grita assim que entra no local, sequer pensando no Silva  - Jeno, eu consegui! 

Deixo o pano de lado por um momento e caminho para perto dele. 

- O que? Que foi ? - estou rindo um pouco nervoso, dá para esperar qualquer bomba vindo daquele garoto. 

Ele coloca a antiga jukebox que temos para funcionar, ela é quase uma peça decorativa hoje em dia, o seu Silva conseguiu equipamentos muito mais potentes, mas a jukebox ainda tem um grande charme. 

Please Mr. Postman do Carpenters começa a tocar, é uma das preferidas de Donghyuck, conheço cada nota da canção! Até inventamos uma coreografia para ela no nosso tempo vago, mas no momento só estamos rodando no mesmo lugar de mãos dadas, enquanto ele canta eu imito o saxofone. 

"Deve haver alguma notícia hoje, do meu namorado que está tão distante. 

Por favor senhor carteiro, veja se tem uma carta para mim"

- Finalmente li a notícia que tanto esperei! - ele se apoia no balcão quando a música acaba, estávamos completamente tontos - E você teve a dança que sempre quis, hoje é dia de realizarmos sonhos! 

- A dança dos meus sonhos não aconteceu do jeito que eu planejei – desligo a jukebox e entrego a vassoura para ele, que me mostra a língua mas logo começa a varrer.

– Você se lembra do que Mark me disse quando estava se despedindo? "Estaremos juntos de novo em um ano" foi exatamente o que ele falou, e adivinha quem é que vai para São Paulo em janeiro? – ele ergueu os dois polegares e apontou para si mesmo. 

-Fala sério! Hyuck, isso é chocante! – corro para o abraçar e o tiro do chão por alguns segundos – Ele conseguiu resolver aquele probleminha? 

-Sim! Ele me escreveu dizendo que arrumou um lugar para morarmos juntos e eu já juntei dinheiro para passagem e algumas outras despesas - o castanho está de volta a vassoura, falando um pouco mais baixo agora para que não fosse ouvido por outros – Mas isso quer dizer que esse é o meu último fim de semana aqui na Dance Zone. 

- Eu vou sentir falta de você - deixo escapar, eu sempre soube que essa hora chegaria, não pretendia ser tão sentimental assim, ele fez um biquinho e correu para me abraçar de novo.

 - Olhe para o futuro, você vai estar em Portugal logo mais e eu com meu gatinho – ele diz, ainda me abraçando – Vamos ser super felizes, mas eu ainda preciso da grana de hoje então vamos trabalhar! 

 

 

Diferente de antes o mar estava escuro e a noite também, já são nove da noite e o lugar está cheio, repleto de jovens e adolescentes, alguns vieram dançar e outros para azarar, ou então só estão trabalhando. 

Donghyuck está super animado hoje, está atendendo e servindo à todos com um enorme sorriso, até mesmo pude ver algumas meninas passando seus números de telefone para ele nos guardanapos decorados com marca de batom. 

Alguém seria capaz de me ver atrás do balcão? 

Ele seria capaz?

A resposta provável é não. 

Jaemin está com sua turma, em uma mesa movimentada, a falação alta chama bastante atenção, algumas pessoas vem até o balcão para os observar descaradamente. 

Meus olhos estão sempre nele, mas os dele nunca parecem  me notar. 

- Dois milkshakes de morango - Donghyuck diz ao meu lado e os preparo na máquina, o entrego e ele volta a andar pelas mesas. 

Beat Acelerado do Metrô está tocando, tem algumas pessoas na pista de dança, mas nenhum sinal de Jaemin nela, seu rosto é cinza, e parece até deslocado olhando daqui, mas ele está onde sempre esteve, ao lado de quem sempre esteve. 

Ele lá e eu aqui, onde sempre estivemos. 

- Qual é a dele? - Donghyuck está de volta com a bandeja vazia - Ele não vai dançar hoje? Já ouvi vários cochichos perguntando o mesmo. 

- Talvez ninguém tenha o interessado hoje - dou de ombros fingindo não ligar, quando estou curioso também. 

- Se ele não dança, eu canto! - meu amigo larga o avental do uniforme e a bandeja sob o balcão -Precisamos de entretenimento! 

- Pirou? O seu Silva não deixa! - digo, tentando o parar, mas não adianta, ele está muito decidido.

- Então, terei que cometer uma última loucura antes do fim! - ele grita, já de longe, subindo no pequeno palco e pegando a guitarra que ficava ali junto de outros instrumentos. 

Observo a cena como todo mundo no local, sei que eles estão curiosos pois só temos shows ao vivo aos sábados, busco o olhar do meu chefe e ele também está na plateia de espectadores, aguardando para ver o que acontece. 

Ouço o som da guitarra começar e sorrio em saber exatamente o que ele vai tocar. 

- Essa vai para o meu amor! - ele diz no microfone, apontando para o lado de fora. 

Toda Forma de Amor do Lulu Santos fica realmente boa na voz angelical de meu amigo, as pessoas foram para a pista, com par ou não, atraídas pela melodia animada e toda alegria que Donghyuck transmitia naquele palco, vi até algumas pessoas arriscarem acompanhar ele na bateria e teclado. 

Meus dedos batucavam o balcão, e minha cabeça balançava um pouco, juro até ter visto o seu Silva mexer os pés. 

- Seu amigo canta bem, a namorada dele tem sorte – Jaemin diz perto do meu ouvido, e eu quase tenho uma parada cardíaca ouvindo sua voz tão de perto – Um milkshake, por favor. 

É a primeira vez que ele me dirige a palavra, e isso me causa um leve sentimento eufórico, preparo seu pedido com um cuidado especial e  coloco em sua frente. 

Ele encara o copo e abre um sorriso enorme, me fitando com uma feição curiosa logo em seguida, os olhos buscando por algo em mim. 

- Chocolate - ele diz, ainda mantendo seu sorriso doce - Obrigado, eu nem te disse o sabor que eu queria, mas você acertou. 

-É o seu preferido, eu imagino – digo, completamente perdido, com certeza essa vai entrar na "lista de coisas que não devem ser ditas a sua paquera em seu primeiro contato". 

–Como sabe disso? - seus olhos curiosos estão me fitando enquanto ele suga o canudo colorido – Por acaso é algum maníaco que anda me espiando? Serei sua próxima vítima?

Sinto que minha resposta não é tão impressionante quanto o que ele está esperando, e eu faria ou falaria qualquer besteira apenas para continuar falando com Jaemin, mas sinto que ele merece a verdade, ou parte dela pelo menos.

- Não, eu gosto de apreciar pequenos detalhes, ainda mais os seus –digo, tentando surpreendê-lo. 

O que é que eu estava pensando? 

- Que conquistador! Me cantando dessa forma  – sua resposta acende uma pequena e perigosa esperança dentro de mim – Vou acabar te dando o número do meu telefone. 

- Me desculpe - volto a mexer em qualquer coisa naquele balcão, tentando disfarçar que sua resposta teve um grande efeito dentro do meu peito, o que é que eu diria? Um grande e enorme: SIM, por favor me dê o número do seu telefone para que eu possa sofrer todas as noites pensando em te ligar mas desistindo sempre porque eu sou um banana!? 

Jaemin já está no fim do seu milkshake, estou ouvindo o barulho exageradamente alto do canudo no fundo do copo. 

-Você está vermelhinho como um morango - ele me devolve o copo, e eu ainda não tive coragem de olhá-lo novamente - Eu não gosto de morango, mas não posso dizer o mesmo sobre você. 

-Que conquistador! Me cantando dessa forma – repito sua frase e nós dois rimos um pouco  alto. 

- Eu não vou pedir desculpas - ele responde, apoiando seu queixo nas duas mãos e tombando a cabeça para o lado – Ainda não é crime azarar um brotinho. 

Solto uma risada ao ouvir aquela palavra saindo de seus lábios, ainda mais se referindo a mim. 

- Você não vai dançar hoje? - não consigo pensar em outra coisa, eu só queria que ele me tirasse para dançar. 

-Você notou isso também – ele ergue as sobrancelhas, mas seus olhos estão observando o canudo do copo enquanto seus dedos o controlam. 

-Eu não fui o único, já ouvi muita gente cochichar sobre a falta do seu show.

- Show? Então é assim que vocês chamam – ele me encara, parece ter sido pego de surpresa – Hoje não, e talvez nunca mais, neno. 

–Meu primo costumava me chamar assim – digo, tentando quebrar aquele clima tenso que veio com a resposta dele. 

-Neno não é o seu nome? – outra surpresa. 

–Meu nome é Jeno.

–Sou um pouco desatento aos detalhes, Jeno – ele ri de si mesmo, e para o olhar em algum ponto do meu rosto, meus lábios estão na mira dele  – Talvez você deva me ensinar mais sobre os seus detalhes. 

Não tenho tempo para pensar no que responder, a atenção de Jaemin foi totalmente tomada por um garoto de cabelos pretos. Renjun passou pela porta abraçado com duas garotas, e o garoto na minha frente parecia não aprovar aquilo, a mesa que ocupavam estava vazia, os rapazes de antes não estavam mais lá. 

Os olhos de Jaemin estão tomados de uma coisa, algo bem diferente de raiva, algo que eu ainda não sei decifrar. Ele salta do banco e pega sua carteira com certa pressa, não sei o quanto eles gastaram ou consumiram, já que isso é trabalho de Donghyuck, mas ele parece bem ocupado em cima daquele palco agora.

Jaemin coloca várias notas em cima do balcão e desaparece da mesma forma que apareceu ali, o vejo uma última vez, correndo na calçada do lado de fora, e finalmente sei que seus olhos estavam abarrotados de medo.

 

12 de Dezembro 

Abro meus olhos e meu corpo grita por descanso, é  assim em toda segunda feira, os domingos na Dance Zone são os mais agitados, as pessoas não querem aceitar que o fim de semana chegou ao fim. Mas é com o reconfortante pensamento de que essa é a minha última segunda feira no colégio que me levanto. 

A cama de Jisung está arrumada, ele provavelmente já está terminando seu café da manhã, meu primo sempre sai mais cedo, isso não quer dizer que ele chega cedo na escola, na verdade ele e Chenle gostam de dar voltas e mais voltas de bicicleta por aí e titia não precisa saber disso. 

Arrumo meu canto também, e deixo tudo em seu devido lugar, visto o uniforme azul e branco e me pego vidrado no espelho, nunca liguei muito para a  minha aparência, mas saber que Na Jaemin sabe da minha existência muda o jogo. 

- Bom dia, meu amor, dormiu bem? - titia ainda está na cozinha, colocando algumas formas de bolo no forno, provavelmente encomendas. 

-Bom dia, titia! - beijo sua testa e me sento ao seu lado, e escolho um pedaço de bolo de fubá com goiabada bem quentinho - Estou um pouco cansado por ontem, tivemos que fechar mais tarde pelo movimento. 

Ela me olha preocupada, minha tia sempre foi contra a idéia de me deixar trabalhar na Dance Zone, na verdade em qualquer lugar, ela gostava de me lembrar que tinha condições suficientes para nos dar uma boa vida, e eu sempre soube disso, mas não podia usar da bondade dela a vida toda. 

-Estou bem, titia – mordo meu bolo e está uma delícia, não é atoa que mesmo depois que titia resolveu fechar a padaria ela ainda tem muitos clientes fiéis  – De qualquer forma, é minha última semana de aula. 

-Eu sei, meu bem, espero que seu dia seja bom – ela me faz um cafuné – Hoje meu dia vai ser cheio, vou passar no centro para levar essas encomendas e pegar o aluguel da Dona Maria, talvez eu não esteja aqui na hora do almoço mas é só esquentar a comida do fogão, e não deixe Jisung fazer isso, preciso dessa cozinha funcionando. 

Termino meu café e subo as escadas para escovar os dentes, olho no relógio e provavelmente Donghyuck já deve estar me esperando impaciente na nossa árvore. Me apresso, correndo pela calçada até chegar no começo da rua, mas para minha surpresa meu amigo ainda não tinha chegado. 

E leva mais alguns minutos para a figura de cabelos castanhos dar as caras. 

- Última semana de aula e você ainda consegue se atrasar! - começo a andar assim que ele se aproxima, parece ter virado a noite. 

- Certas coisas nunca mudam, meu querido - ele diz entre um bocejo – Estou acabado, você não? 

- Já me acostumei, anos de rotina - dou de ombros. 

- Ontem foi meu último dia lá e hoje é a nossa última segunda feira no colégio! - ele parece se animar com esse pensamento, o vejo consertar a postura. 

Diferente de antes, algumas pessoas do colégio parecem nos notar e até mesmo acenar em nossa direção, a fama de Donghyuck após seus três dias de show na Dance Zone parece ter chegado no colégio. 

- Eu juro que te mato por não ter virado cantor antes, poderíamos ter sido populares, idiota – sussuro no ouvido da nova estrela do colégio. 

- E correr o risco de perder meu trampo? Nem morto, preciso ver meu cabeçudo - ele também responde num sussurro.

Vou para minha sala também e meus olhos são guiados imediatamente até a cadeira de Jaemin, mas não há nada e nem ninguém ali. 

Não vejo Jaemin desde sexta feira a noite, ele realmente não estava brincando quando disse que nunca mais iria dançar, já que não voltou lá nos outros dois dias, coisa que ele sempre fazia. É claro que senti falta dele, do seu jeans branco e de seu cabelo castanho quase loiro. 

Nossa última noite me deixou com esperanças e mais perguntas, e se tudo fosse diferente no próximo dia? Eu o esperei no sábado, da mesma forma que o esperei no domingo e espero hoje, olhando sempre para as portas em busca do nosso próximo dia. 

Mas minhas esperanças são esmagadas por quem as regou, Jaemin estava ali, em sua cadeira de sempre, com as companhias de sempre, ignorando totalmente o nosso próximo dia, me dizendo sem palavras que nossa conversa não tinha significado para ele.

Nada mudou, não para ele.  

O sinal bateu alguns minutos mais cedo hoje por conta dos resultados finais que foram postos nos murais,  uma massa de alunos corre direto para lá, mas eu permaneço na minha carteira, observando todos saírem, inclusive Jaemin. 

Solto um longo e alto suspiro quando não resta ninguém além de mim ali. Me sinto um idiota, a ficha só caiu agora que um dia de aula inteiro se passou e eu continuo parecendo não existir para ele. 

- O que você tá fazendo, idiota? - Donghyuck está me encarando da porta, sem uma carta em suas mãos dessa vez, mas com um folheto. 

Pego o resto das minhas coisas e vou até meu amigo, ele me entrega o folheto assim que chego perto, é sobre a festa de formatura que vai acontecer nesta sexta feira. 

Aquilo não interessa a nenhum de nós dois, então amasso o papel e o jogo na cesta de lixo ao meu lado. 

- Você não vai mesmo? - ele ainda parece duvidar da minha palavra - É você quem diz que gostaria de dançar! Parece o local perfeito para uma dança romântica. 

-Eu trabalho, Hyuck - respondo, saindo da sala - E já disse que o meu sonho é diferente, não é com qualquer um que eu quero dançar.

Ele parece titubear por uns momentos, mas volta ao mesmo assunto: 

-Você queria ir com ele, não é? Eu te entendo, juro! - ele olha pros lados, com medo de alguém o ouvir - Também não faz sentido para mim ir nessa festa sem o Mark. 

Donghyuck está tentando ser gentil comigo e o agradeço por isso, mas não quero pensar sobre Jaemin novamente, estou me sentindo um completo idiota. Mas foi Hyuck quem comemorou comigo na sexta e me ouviu contar todos os detalhes da minha conversa com aquele garoto, e me sinto mais idiota ainda por tentar afastá-lo dos meus sentimentos. 

-É melhor esquecer isso - viramos no corredor e damos de cara com a multidão de alunos no mural, eu só queria ir para casa, deitar e dormir o resto do dia – Vamos esperar mais um pouco, logo eles saem. 

- Ele não falou com você, não é? - o castanho voltou ao assunto, estou prestes a cortá-lo novamente, mas eu só estaria fazendo o que sempre fiz. 

Donghyuck estava lá na hora da comemoração e está aqui também disposto a conversar comigo e me ouvir, eu preciso aprender a não guardar tudo para mim, preciso fazer as palavras de Mark valerem a pena. 

-Eu pensei que seria diferente - começo, ainda é um pouco vergonhoso falar sobre meus sentimentos para alguém que não seja meu primo mais velho, mas vale a pena tentar - Mas ele nem me olhou, eu acho que entendi tudo errado. 

Mas não o deixo responder, vejo a multidão se dispersar um pouco e o puxo para aproveitar nossa deixa, pedimos licença e logo estamos de frente para várias e várias listas. 

-Essas são do primeiro ano, Jeno - o castanho fala ao meu lado, mas mesmo assim parece estar procurando alguma coisa – Jisung e Chenle foram aprovados. 

Voltamos para a caça da listagem do terceiro ano, Donghyuck na procura de sua turma e eu da minha, mas nossa busca é interrompida por um mal educado que sai empurrando a todos. 

- Sai da frente! - ele vai gritando e empurrando todos que ainda permanecem ali, quando chega de frente pros papéis exibe um sorriso convencido e sai. 

-Eu juro, se tiver Renjun após a morte eu vou ficar muito…  - Donghyuck está com os punhos cerrados de raiva, sei o quanto ele odeia aquele garoto. 

-Desculpe por isso – nós congelamos assim que ouvimos aquela voz atrás de nós dois, a multidão já tinha ido embora, só restava nós três ali. 

Me viro devagar para encontrar Jaemin nos olhando, com ternura e um leve sorriso, sem pirulito de cereja dessa vez, mas com algumas olheiras que não interferiam em nada na sua beleza. Esperei para ouvir sua voz a manhã toda, senti falta dela e desejei falar com ele mais que tudo nesses dias, mas agora, não consigo dizer nada. 

–Desculpe, Jaemin, eu não quis dizer aquilo –  Donghyuck se apressa em mentir, ele tem uma visão diferente dele, para meu amigo, Jaemin e Renjun não são diferentes, mas eu sei que ele está errado. 

–Eu é quem peço desculpa por isso, Renjun passa dos limites às vezes, você tem todo direito de ficar com raiva – o castanho mais claro tranquiliza meu amigo, e logo sua atenção se volta para mim – Eu te devo desculpas também, Jeno. 

-Eu!?- minha voz soa um pouco mais alta do que é e vejo Donghyuck conter uma risada. 

-Nem me despedi de você na sexta feira, saí sem te deixar falar e nem sei se o dinheiro estava mesmo certo – ele pega uma das minhas mãos e se apoia no mural –  Me senti culpado o fim de semana inteiro, não consegui voltar lá para te dizer isso, estive um pouco ocupado, me desculpe. 

Minha mão está envolta das mãos dele e sinto que meu rosto vai pegar fogo a qualquer momento! Meu cérebro vai dar pau!

-Tá tudo bem, Jeno? - ele chega mais perto de mim, em uma tentativa falha de medir minha temperatura com sua mão, mas meu corpo reage e salta para trás, arrancando minha mão da sua. 

-Tá sim! - estou suando e vermelho, totalmente envergonhado por ter dado aquele show – Não  precisa pedir desculpas, o dinheiro estava certo sim, na verdade você me deu até mais do que precisava, pode passar lá pra pegar seu troco, eu aviso o Seu Silva. 

-Não precisa se incomodar com isso, eu só queria saber se você não tinha se chateado comigo, foi difícil achar o momento certo de te falar isso hoje, neno – ele sorri e pega no meu ombro, ficamos nos encarando em silêncio por um tempo até que ele retoma a consciência – Bem, mas … eu preciso ir agora, neno, até mais, Donghyuck. 

Solto todo o ar que estava prendendo, e meus olhos pousam em Donghyuck que me encarava com uma gargalhada presa na garganta. 

- Caramba, você é tão gay! 

 

 

 

 

- A professora chegou em mim e no Lê e falou que nosso trabalho ficou show, melhor da turma - Jisung está contando sobre o seu dia enquanto nos ajuda a secar e guardar a louça.

-Disso eu não tinha dúvida, meu amor, você e o Chenle sempre se esforçaram bastante – titia está radiante com os resultados do caçula – Você já escreveu para o seu irmão sobre isso? Ele vai adorar saber. 

–Fiquei com preguiça mas vou contar pro cabeça sim, mãe – ele guarda um prato no armário e aumenta um pouco do rádio, estamos ouvindo um álbum do Roupa Nova, titia ama. 

–Que tal contar para o Mark que você anda roubando os quadrinhos do homem aranha dele? – dou uma espiada e Jisung está me fitando com cara de quem vai me sufocar com o travesseiro durante a noite. 

–Não vejo a hora de você ir para Portugal logo – ele diz, me passando um prato seco que guardo no armário enquanto ainda gargalho da cara dele. 

–Ele diz isso mas vai sentir falta quando você for, Jeno – titia diz, também rindo do nosso magricela de cabelos castanhos e nariz pontudo. 

–Nunca! Mal posso esperar para ter um quarto só para mim e não ter que olhar para essa sua cara de tatu bola – ele me dá língua, aproveitando que titia está ocupada cantando Linda Demais, seu sucesso preferido do Roupa Nova. 

–Vou querer uma carta sua todo mês ouviu, JiJi – guardo o pano de prato dos smilinguidos na pia e aproveito para subir enquanto titia ainda não nos fez de vocalistas do seu show. 

Me jogo para debaixo das cobertas imediatamente, o tempo mudou e está um pouco frio agora, acho que provavelmente irá começar a chover logo.

Olho para o teto, essa é a hora em que paro para pôr as coisas no lugar, tenho que responder a carta de Mark, ainda não sei o que falar para ele, quando Mark estava somente à uma porta de distância era bem mais fácil, mas agora, só o tenho no papel e mesmo assim, meu primo é ocupado agora, não quero desperdiçar o tempo dele com besteiras, sinto muita falta dele. 

-Ligação pra você – Jisung está na porta do nosso quarto, ele parece estar um pouco sem fôlego. 

–Eu? – me sento e meu olhar vai direto para o relógio de nossa escrivaninha, já é bem tarde - Se for o Donghyuck diga que –

-Não é, não é ninguém que eu conheça, mas disse que queria falar com você – ele ainda está lá de pé na porta, esperando que eu me levante, mas estou repensando muito se quero levantar nesse momento – Você não me ouviu? Anda! É urgente, vai, rápido! 

-Tá bom! Tudo bem, eu desço! - ergo as mãos em trégua e escuto a porta do quarto fechar assim que saio de lá. 

As luzes de baixo estão apagadas, sinal de que titia já subiu para dormir, mas o abajur da sala ainda está ligado, iluminando a poltrona marrom e a mesinha onde fica o telefone, me jogo no estofado e pego o fone que estava a minha espera. 

- Alô? - digo, e espero a voz do outro lado dar algum sinal, só estou torcendo para não ser uma vingança boba de Jisung. 

- Eu pensei muito se deveria te ligar, mas depois de ouvir sua voz vejo que valeu a pena arriscar – Jaemin responde, sua voz parecia ansiosa, ele falava depressa. 

Agradeço imensamente por ele não poder me ver naquele momento, pois estou completamente sem reação, parado com o olhar em lugar nenhum e em todo lugar, segurando o telefone às dez da noite de queixo caído, com pés gelados e mãos suando. 

– Jeno? Você tá aí? – sua voz me traz de volta. 

– Jaemin? Como você tem o meu número? – é a única coisa que consigo responder, mas parece ter sido grosseiro então me engasgo tentando consertar o que disse – Quero dizer…  é uma surpresa te ouvir, uma surpresa boa… mas ainda uma surpresa. 

Ele solta uma risada gostosa e quase consigo visualizar a curva dos seus lábios formando aquele sorriso encantador, tudo isso de mim, tudo isso para mim. 

–Tenho uma lista telefônica aqui em casa, mas não sei o nome dos seus pais – ele faz uma pequena pausa, sua ansiedade parece ter passado – É, a lista não ajudou muito – ele ri – Mas meu vizinho sim, você conhece o Chenle? 

Toda a agitação anterior  de Jisung faz sentido agora.

– Você é vizinho do Chenle? - estou enrolando o fio do telefone no meu dedo, tentando controlar o que digo e o que sinto. 

– Ele é tão gentil, nossas famílias são amigas, e eu sei bem que ele é amigo do seu irmãozinho, então pedi o número da sua casa para o Chenle hoje. 

– Jisung não é meu irmão – solto o fio do telefone, minha mão cobre minha boca, estou sorrindo – Ele é meu primo, eu moro com minha tia e ele. Mas, por quê você quis meu número? 

Jaemin ainda está na linha, ouço sua respiração leve, quase consigo ouvir seus pensamentos, mas eles não me dizem nada, sua boca faz isso. 

- Eu preciso ser mais atento aos detalhes como você  – ele retorna, terno e calmo – Mas um deles eu peguei, sei que você fica nervoso comigo, suas mãos estavam suando hoje e certamente seu rosto é transparente. Mas eu queria falar com você, queria poder ter uma conversa normal sem que eu tenha que ir embora quando gostaria de ficar, e eu não queria te deixar constrangido… então pensei em te ligar. 

Estou com os olhos fechados, absorvendo todos os minuciosos detalhes daquele diálogo, todas as notas que saem da boca dele, especialmente quando são sobre mim. 

– Você é um quebra cabeça, Jaemin, é como se as peças do seu jogo nunca tivessem fim e eu te desmonto e monto com mais dedicação cada vez que isso acontece, mil e uma peças, mil e uma vezes. 

– Você fala bonito, é um poeta nas horas vagas? – gosto de imaginar como seu rosto se parece quando está curioso sobre mim – Posso te dar todas as peças do meu quebra cabeça, mas talvez a imagem do fim não seja tão bonita, já alerto. 

– Eu não me importo, quero todas elas – digo, sentindo minhas orelhas queimarem de vergonha, dizer coisas em voz alta ainda era um trabalho difícil. 

– O que quer saber? Estou disposto a te dar todas as minhas mil e uma peças – ele responde rápido. 

Vagueio pela minha mente, buscando todas as dúvidas e curiosidades que Jaemin já havia me causado um dia, mas havia uma lista enorme delas. 

 "Você gosta da chuva?"

 "Qual sua cor preferida?" 

 "Por que jeans claro?" 

"Cereja é sua fruta preferida?" 

– Por que você não quer mais dançar? – digo.

Jaemin solta uma risada bem fraca, se eu pudesse ver seus olhos agora, poderia dizer que foi pego de surpresa. 

- Bem, eu realmente amo romances, Jeno – ele respira fundo, como quem precisa de uma dose de coragem – Amo cada parte deles, desde o primeiro olhar até o último, e você pode estar pensando que estou mudando de assunto, mas prometo, não estou – ele ri de si mesmo – Eu queria ter o meu próprio romance, e eu saía em busca disso nos fins de semana, dançava com todas, eu tinha certeza que saberia quando achasse a pessoa certa. 

Meu coração dá uma leve apertada com o rumo da conversa, forço meus lábios a não me chamarem de idiota, consegui machucar a mim mesmo com aquela pergunta. 

– Por que procurar na Dance Zone? – não era o que eu queria dizer, mas também gostaria de saber.

– Eu não sei… eu só, sentia que estaria ali, um aviso do coração, você entende? 

– E você encontrou? Encontrou sua alma gêmea? 

O movimento dos meus dedos sobre o fio do telefone é caótico, estou ansioso, e Jaemin parece gostar desse jogo de espera. 

- Sim – ele diz – Eu só estava olhando pros detalhes errados, Jeno. Se eu tivesse tido um pouco mais de atenção, já teria notado que minha alma gêmea estava bem ali, todos os dias, esperando por mim também – o imagino com o maior dos sorrisos, o mais brilhante deles, surgindo apenas por falar de sua pessoa amada. 

E não sou eu. 

Realmente não tenho nenhum controle sobre meu corpo quando o assunto é ele, nem consigo me conter de desligar o telefone, e só percebo o quão idiota fui quando já é tarde.

Espero mais uns minutos do lado do telefone caso ele retorne, imaginando e memorizando todos os milhares de pedidos de desculpas existentes na Terra, mas já é tarde, não tem mais ninguém do outro lado da linha.

 

 

16 de Dezembro 

É sexta-feira de novo, é também o último dia de aula.

Mas não para mim, já que não vou para a aula hoje, meu último dia de aula foi na quinta feira, ontem, com meu melhor amigo, nós andamos pelos corredores e demos adeus aos nossos armários, salas de aula, refeitório e biblioteca, estacionamento e qualquer outro canto que exista naquele prédio.

Mas esses são pensamentos de um Jeno que está acordado às sete da matina de uma sexta-feira! Estou assistindo Jisung trocar de jaqueta pela quinta vez nos últimos três minutos. 

–Bola de gude, e se eu deixar meu cabelo pra trás? Vai ficar maneiro? – ele já me fez essa pergunta um milhão de vezes. 

–Gel de cabelo não faz milagre, piolhento – me viro para a parede a fim de tentar dormir de novo.

–Tô me sentindo careta – ele provavelmente está me dando o dedo do meio agora, mas não me importo, quero contar carneirinhos e dormir – Mas pelo menos não vou deixar de ir na aula de despedida e nem no baile que nem você, idiota. 

Escuto a porta fechar e finalmente posso dormir em paz em toda minha caretice. 

 

A noite cai depressa, deve ser porque estive ocupado durante toda tarde, Donghyuck veio buscar algumas coisas de Mark que ainda restaram aqui, a viagem dele será depois do natal, pelo menos ainda nos veríamos durante uns dias até que eu visse a mesma fita, vê-lo entrar em um ônibus e partir. 

Meus dias seriam chatos e monótonos por mais uns dias até minha mudança para Portugal, em fevereiro. 

–Bem, como esperado … – seu Silva aparece no balcão, ele está bem vestido e radiante, apesar do fato de ser uma sexta sem movimento – Hoje poucos clientes virão, o baile de formatura já deve estar lotado, tenho que levar minha filha, pode fechar um pouco mais cedo se não aparecer ninguém. 

–Certo, aproveite a festa, seu Silva! – eu digo.

–Ótimo, confio em você, Jeno – ele dá um tapinha no meu ombro e sai, e eu volto a ser o único aqui, meu passatempo é tentar enxergar o mar pelo vidro, mas só consigo ver borrões. 

Se Donghyuck estivesse aqui seria divertido, teríamos ligado a velha jukebox, a gente ia dançar até suar e perder o ar do pulmão, mas ele está ocupado com as coisas da mudança. Mesmo assim, ligo a jukebox e escolho Chuva de Prata do Roupa Nova, sei a letra completa, graças a titia e seu fanatismo pela banda. 

–‘’Cola seu rosto no meu, vem dançar, pinga seu nome no breu para ficar, enquanto se esquece de mim, lembra da canção’’  – cantando,  vou até o quartinho que fica atrás do balcão e pego uma vassoura – Bem que Jisung diz que você é careta, Jeno! Sexta à noite, todos no rock e você aí sofrendo por um cara que nem te dá bola! 

– Gosto muito dessa música – Jaemin está sentado em um dos bancos do balcão, dessa vez sem um pirulito nos lábios, somente uma expressão de quem estava me fitando a mais tempo do que deveria. 

–Há quanto tempo você tá aí? – digo, já sentindo as pernas bambearem de nervoso. 

–Que cara está te fazendo sofrer? – ele cruza os braços e conserta a coluna, mantendo uma postura firme de quem está se preparando para uma disputa  – Acho que estou com inveja dele. 

Controlo minha respiração e limpo minhas mãos no avental do uniforme, acabei nem pegando a vassoura pelo susto, Jaemin me segue com os olhos em cada mínimo passo. 

– Está com inveja porque ele me faz sofrer? – quebro o silêncio, apoiando minhas mãos no balcão, fingindo estar completamente normal com a presença dele.

–Você pensa nele mais do que em mim? – ele apoia os cotovelos na estrutura que nos separa – Se a resposta for sim, então eu o invejo. 

–O que te faz achar que eu penso em você? – o respondo, mas acho que usei toda minha coragem e não sobrou mais nada, já estou sentindo o ar ir embora com a visão dele chegando tão perto de mim.

–Um detalhe seu que me deixa fraco: você é um péssimo mentiroso – como ele pode abrir um sorriso tão descarado assim tão perto de mim? Maldito!

–Por que está falando isso? Pensei que tivesse correndo atrás da sua alma gêmea – desvio dos seus encantos porque ainda tenho um pouco de dignidade lá no fundo – Deveria estar no baile, aposto que ela está lá. 

–Gracinha, larguei tudo para vir até você – sua voz é totalmente calma, assim como seus gestos, ele toca meu queixo com a mão direita e trás meu rosto pra perto do dele. 

Depois desvia dos meus olhos e fita minha boca. 

–Me diga de uma vez o que quer comigo – digo num fio de voz, estávamos tão perto que qualquer coisa além de um sussurro sairia feito um grito. 

–Você, eu quero você – ele desenha pequenos círculos no meu queixo com seu polegar, e seus olhos estão concentrados nos meus lábios – E agora quero te beijar.

–Acha que eu vou te beijar só porque chegou aqui e me disse um monte de recortes da revista da capricho? – tiro sua mão do meu rosto e vou para o outro lado do balcão. 

–Eu tentei te dizer o que estava sentindo naquela noite, mas você desligou na minha cara! 

–Eu fiquei nervoso! Não queria te ouvir dizer que gostava de outra pessoa – confessei, ainda sem coragem de olhar para trás. 

–Mas eu gosto de você! – ele disse, e diferente do que achei, não soava tão bem quanto imaginei, porque eu não acreditava, eu não acreditava que ele pudesse realmente olhar pra mim, por todos esses anos eu fantasiei porque parecia algo distante demais, e nas minhas fantasias sou mais corajoso do que na realidade, nos meus sonhos eu não sou eu. 

–Você não gosta de mim de verdade, só nos falamos algumas vezes, você nunca olhou para mim antes – respondo, torcendo ser o suficiente para fazê-lo esquecer de mim. 

–Mas foi o suficiente para descobrir que eu quero falar mil e uma outras vezes com você, de todos os assuntos, músicas, cores, comidas e até mesmo sobre coisas que ainda não existem, não precisamos nos beijar se você não quiser, não precisamos dizer eu te amo ou coisas clichês de romance, posso ficar aqui e você aí, mas eu ainda quero falar com você. 

Enquanto ouvia seu discurso, percebi que parte de mim não queria que ele fosse embora, parte de mim realmente queria que ele me beijasse, parte de mim não dava ouvidos para o que a outra parte dizia, parte de mim pensava na carta que Mark me escreveu, sobre as palavras e a resposta que ele pensou tanto em me dar, só para descobrir que ela era muito simples, e eu devia tornar as coisas mais simples, afinal, não existia uma receita mágica para deixar de ter medo, ele sempre estaria comigo. 

–Jeno, eu não vou me ajoelhar e dizer que te amo avassaladoramente como nos livros de romance que eu li ou nos filmes de cinema que assisti, mas eu posso dizer que gosto de você, eu sinto mesmo com poucos encontros que nós podemos ser alguma coisa, alguma coisa bonita – Jaemin continuou, e só parou de falar quando me virei para ele de novo, seus olhos saltaram em esperança, ele me encarou com os mesmos olhos de Donghyuck quando esperava pelas cartas de Mark ansiosamente, e uma parte de mim dizia para ir em frente e deixar de ser um  idiota. 

–Eu te encaro e não sei como você pode ser real, Jaemin – digo, e não saiu sem querer, eu realmente pensei em dizer aquilo e disse com convicção – Nem sei porquê você gosta de mim, mas não vou mentir, saber que minha maior paixão gosta de mim é surreal. 

Os olhos dele mudaram, mudaram para olhos de quem achou minha resposta adorável e me fizeram um carinho no queixo, mas ele se afastou quando nós dois ouvimos algumas vozes se aproximarem da porta.

– Hoje… - Jaemin pega o bloco de notas e o lápis que estavam no balcão – Serei o garçom, e espero meu pagamento mais tarde – ele pisca para mim e vai até a mesa, agora ocupada pelos clientes que tinham acabado de entrar. 

 

 

Jaemin me observa fechar as portas da Dance Zone, hoje, assim como o seu Silva me disse, fechei mais cedo, em parte pelo pouquíssimo movimento e também porque queria poder passar um tempo com Jaemin que não fosse vestido com aquele avental e com um balcão nos afastando. 

- Para onde vamos? – pergunto logo depois de guardar minhas chaves no bolso da calça. 

- Eu conheço um lugar  - ele diz. 

Estou exatamente ao lado dele, nossos ombros estão quase colados. Atravessamos a rua e estamos andando pela areia da praia em direção às pedras.

Após o pequeno trajeto rochoso estamos em meio a um pedaço de areia, com o mar inteiro na nossa frente, escondidos no meio de todas aquelas pedras. 

- É lindo aqui – o reflexo da lua está refletido na água, é quase como uma pintura, ótima para se observar. 

Mas algo me chama mais atenção, as ondas, com seu vai e vem constante que me lembravam uma pessoa.

- Eu ainda não entendo - digo ao mar, mas Jaemin sabe que estou falando com ele. 

- O que? - estamos olhando para o mesmo lugar. 

- Por que você some? Aparece e some o tempo todo, toda vez que você some… eu penso que será a nossa última vez. 

Ele fica em silêncio por uns bons minutos antes de pegar um palito de picolé que estava jogado na areia e desenhar um círculo no chão, Jaemin passa um tempo encarando o pedaço de madeira em suas mãos até cravá-lo no meio do círculo. 

–Eu sinto muito, sinto muito por ser tão egoísta – ele me diz, com olhos marejados – Eu não devia ter ido atrás de você, não devia te dar esperanças de que eu possa ficar, porque você merece alguém que fique por você, e eu não posso fazer isso, Jeno. 

Eu o encaro, confuso, perdido, com medo de novo. 

–Eu escolhi viver no meio desse furacão – ele aponta para o círculo no chão – Eu sou esse pequeno palito, vivendo no meio desse furacão que é o meu irmão, Renjun. Sim, você provavelmente não sabia desse detalhe sobre nós dois, poucos sabem, meu pai traiu minha mãe com uma das nossas vizinhas, depois que Renjun nasceu ela sumiu, e meu pai o criou, nós nos mudamos daquela cidade porque minha mãe podia até ter perdoado a traição, mas não suportaria viver com os olhares dos vizinhos – Jaemin chutou o palito para longe – Quando viemos morar aqui, ela queria que Renjun fingisse ser filho dela, mas Renjun nunca aceitou, nunca aceitou minha mãe e nem o pai dele, ele diz que não tem família, que não tem um irmão, mas que tem um amigo, e eu sou esse amigo, sou o único que ele ainda respeita, sou esse amigo que ele ainda consegue se lembrar durante as crises de abstinência, sou o amigo que ele lembra de não roubar as coisas para comprar as drogas que ele usa, passo a maior parte do meu tempo o tirando de confusões e lugares errados, sou o único que acredita que ele pode ser salvo e sou o único que acredita que posso salvá-lo. 

–Você  não deveria viver por dois, Jaemin – é a única coisa que consigo dizer, mas quero que Jaemin viva bem, não quero vê-lo preso em um furacão, quero vê-lo feliz, feliz e comigo, e eu sei que é egoísmo da minha parte, mas não queria vê-lo ir embora de novo.

- Ele é meu irmão, eu faria de tudo por ele - seu olhar está perdido em algum ponto do mar – Sinto que é meu dever salvá-lo de si mesmo. 

- Você continuará sumindo, não é? 

- É… eu vou - ele sorri e volta para mim, suas mãos seguram as minhas – Me desculpe por ser tão egoísta, por você eu ficaria, eu ficaria e iria para onde você fosse, mas não agora, não enquanto eu ainda puder ajudar meu irmão. 

–Eu entendo, eu também sou um pouco egoísta, tão egoísta que te quero para mim, pelo menos por essa noite – eu aproximo nossos corpos, e ele me abraça apertado, posso ouvir seu coração acelerado – Por favor, você pode ser só meu pelo menos essa noite? 

Jaemin me responde com um olhar e um sorriso antes de colar nossas testas e sussurrar: 

–Essa noite, serei inteiramente seu, mas não quero que pense que essa será nossa despedida, ainda posso fugir para te encontrar em algumas noites e ligar para sua casa em outras, eu quero ser um pouco mais egoísta e te manter perto de mim.

–Eu vou me mudar para Portugal, Jaemin – digo, afastando nossas testas – Em Fevereiro. 

–É um pouco longe – ele ri da própria fala, era longe, muito longe, mas nunca tão longe do quanto estávamos antes daquela noite de sexta onde ele me pediu um milk shake – Eu espero que você seja feliz, não só em Portugal, mas em qualquer outro lugar. 

–Vou ficar muito feliz se você fizer me fizer algo…

–O que? – ele pergunta, erguendo uma sobrancelha quando o puxo de volta para o caminho que fizemos há alguns minutos atrás – Para onde vamos? 

–Eu conheço um lugar! E você o conhece bem. 

 

 

Jaemin me ajudou a reacender as luzes da Dance Zone enquanto tranco as portas, ele ainda não sabe o que vamos fazer, só está fazendo o que eu peço, seu rosto permanece com uma expressão curiosa desde que eu nos trouxe de volta para cá. 

–Luzes acesas, chefe! – ele está parado em posição de alerta, com a mão direita na testa feito um soldado. 

–Descansar, soldado! – o corpo dele relaxa, e eu aproveito para ir até a pista ligar a jukebox, imaginando se os olhos dele estavam em mim – Sempre quis que você me escolhesse, nunca soube o que tinha que fazer para você me tirar pra dançar…

Ele entende o que eu quero, mas não vem até mim, pelo contrário, ele volta para o mesmo lugar que costumava se sentar, a mesa dos fundos, onde podia ver todos os clientes e escolher a garota com quem iria dançar. Acho que entendo sua ideia e vou até o balcão, vestindo o mesmo avental de sempre, fingindo não ver ele caminhando até mim e apoiar os dois cotovelos na bancada. 

–Veio me pedir um milk shake? – pergunto. 

–Não, eu vim te tirar para dançar – ele estende a mão para mim, assim como fazia com todas aquelas garotas, mas seu sorriso era diferente, seu olhar era diferente e ele era diferente agora.

Ele solta minha mão quando chegamos na pista e coloco a música que escolhi para tocar, Sonho do Roupa Nova. 

’Leve feito o vento vem já quase de manhã , quase não acreditei nesse sonho. 

Pude até sentir você chegando pelo ar, e entrando em mim, devagar’’ 

Jaemin usa as duas mãos para segurar meus ombros por trás, então as desliza por toda extensão dos meus braços, até que suas mãos estivessem junto às minhas, até que estivéssemos abraçados, seu nariz tocando minha nuca e nossos corpos balançando suavemente assim como a música.

"Deusa da beleza e cor, feito pro amor, quero ter você de manhã, quero ver você de manhã.

E sentir o amor desse sonho’’

Ele me ajuda a girar e estamos de frente um para o outro, a mão direita dele sobre minha cintura, e a outra ainda segurando minha mão, eu conseguia ouvir as batidas do coração dele enquanto apoiava minha cabeça em seu peito. 

‘’Minha deusa da beleza e cor, quero amar você, cada movimento seu.

Foi fonte de prazer, nunca vou me esquecer desse sonho’’

–Também gosto dessa música, é linda – ele diz, apoiando seu queixo em mim. 

–Eu sempre pensei em você quando a ouvia – confesso, aproveitando que não posso ver os olhos dele. 

–Você é tão galanteador! – Jaemin ri. 

–É um costume de família paquerar usando músicas do Roupa Nova, titia fez isso com meu tio, meu primo mais velho também já usou com a paixão dele e aposto que Jisung também vai, ele finge que não sabe as músicas mas já o peguei cantarolando várias! 

–Sua família parece divertida. 

–Queria que você pudesse ir até lá em casa, ficar para jantar, conhecer meu primo mais velho… queria que a gente tivesse acontecido antes.

‘’Pude até sentir você fugindo pelo ar, me deixando assim sem dormir.

Deusa da beleza e cor, quero seu amor’’

–Fico feliz que eu te conheci em uma conversa tão banal como pedir um milkshake e não em uma dança, acho que acontecemos na ordem certa, primeiro as conversas, depois a dança – ergo minha cabeça e o encaro – Nós acontecemos na ordem certa.

–Mas não na hora certa – digo, tínhamos parado de dançar, a música estava no fim. 

’Nunca vou me esquecer desse sonho.

Pude até sentir você fugindo pelo ar…’’ 

Jaemin depositou um pequeno beijo na minha testa e me levou de volta até o balcão, como sempre fez com as garotas com quem dançava, as devolvendo para seu devido lugar. Ele me observou esperando que eu desse um próximo passo, Jaemin sempre tinha ido embora depois dessa parte, nunca teve um depois. 

Ele fez menção de ir a algum lugar, mas o segurei pelo pulso e o fiz olhar para trás, para mim, que não sabia o que dizer mas sabia o que queria, e eu queria ele! E ele também me queria, pois grudou sua testa na minha e esperou até que eu balançasse a cabeça e o desse permissão para continuar, sua mão direita segurando minha nuca e puxando meu corpo na direção que ele queria, me fazendo perder a noção e nem notar quando sua jaqueta tinha ido parar no chão e nossos corpos em cima do balcão. 

 

"São Paulo, 23 de dezembro de 1999 

Primo, acho que quando essa carta chegar para você talvez já estejamos no famoso ano 2000! Isso se ele chegar… Hyuck e eu estamos viciados nas revistas científicas e nas reportagens sobre o famoso Bug do Milênio! Bobeira nossa, gostamos de gastar tempo na varanda aqui de casa lendo e separando os melhores recortes de revistas para por em um quadro, em dezembro relembrar tudo o que passamos no ano é divertido, Hyuck teve essa ideia depois de uma aula na faculdade de jornalismo  

Mas como vai a vida? Por aqui tudo está bem, mamãe está dividida entre ficar aqui e no Rio com Jisung, mas ele tem uma carta na manga, mamãe não consegue ficar muito tempo longe da netinha dela, aliás quando é que você vem conhecer a integrante mais nova da família? Estamos todos com saudade, eu sei que você não gosta de voltar para o Rio… mas você sabe, São Paulo vai estar sempre aberta para você. 

Mas ainda falando sobre o Rio e respondendo o que eu sei que você quer saber … eu e Hyuck ficamos um tempo por lá quando a Li nasceu, passamos pela vizinhança e descobrimos que Jaemin não mora mais lá, nem a família dele, ninguém sabe sobre eles, sinto muito que a história de vocês nunca tenha ganho um final de verdade, mas eu acho que ele deve estar em algum lugar por aí pensando em você também. 

Feliz ano 2000, primo, espero te ver em breve. 

Mark, o cabeça."