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Xie Lian despertou de seu leve cochilo ao sentir o ônibus parando em outra rodoviária.
Olhando meio desnorteado pela janela, viu que a escuridão já havia cobrido totalmente o céu; diferente de quando estava caindo no sono, quando o horizonte ainda estava pintado com um roxo e laranja que se entrelaçavam.
O jovem olhou o horário em seu celular e voltou a abraçar seu travesseiro depois de organizar seu moletom que estava sobre seus ombros e se ajeitar no banco. Já fazia mais de sete horas que ele estava no segundo andar daquele ônibus e seu destino ainda se encontrava longe. Depois do desembarque de alguns passageiros o veículo voltou a se mover.
Lá fora não se podia ver nada além do breu, como se um gigantesco void tivesse engolido parte da Terra. As pequenas luzes brancas nos postes que apareciam quando eles passavam por algum povoado pareciam estrelas que haviam caído do céu para iluminar aqueles lugares que ficavam tão longe das grandes cidades.
Enquanto estava entediado por não ter nada para fazer no momento e sonolento demais para procurar algo para se entreter, Xie Lian percebeu que o ar condicionado finalmente começará a ter um real efeito no ambiente; fazendo com que ele colocasse seu capuz, naquela altura não se importando mais se seu cabelo estava arrumado ou não; cobrisse suas pernas com o cobertor fofinho que havia trazido e mantivesse em seus braços seu companheiro inseparável, seu travesseiro.
Depois de algum tempo, por volta das 20:20, o ônibus parou para que os passageiros pudessem jantar, o que obrigou Xie Lian a sair de seu confortável acento. Não estava com fome mas como todos haviam descido, ele tinha que descer também. Quando entrou no restaurante que podia ser usado num episódio de coragem, o cão covarde; ele pediu um misto quente que não veio sequer morno.
Uns trinta minutos se passaram até que ele pudesse finalmente voltar ao ônibus e retornar a viagem, ainda levaria longas horas até sua chegada em seu destino.
A única coisa realmente boa nessa parada foi que ela tinha levado seu sono embora, o que permitiu que ele passasse as próximas horas navegando entre seus filmes e músicas e visse os raros veículos que passavam nas avenidas mais isoladas. Um tempo depois eles pararam para abastecer no maior posto que Lian já tinha visto, devia ser um posto somente para veículos maiores, já que além do ônibus só havia largos caminhões.
Em alguns momentos na estrada a torre de internet sumia, o que fazia Lian pensar divertidamente se eles não haviam entrado em um portal para outra dimensão. Um portal escuro que devoraria o ônibus para toda a eternidade e confundiria a cabeça dos passageiros, os fazendo pensar que o tempo estava passando de forma normal quando na verdade eles já estaria ali a séculos.
O jovem balançou a cabeça em negação com um pensamento tão ridículo e conferiu a hora, 23:00.
Não pode evitar suspirar.
Ainda estava tão longe.
As 00:00, o jovem voltou a se perder em pensamentos. Ele nunca fora uma pessoa que ficava fora de casa as altas horas da noite, sempre voltava antes das 00:00. Uma viajem dessas era uma rara oportunidade para observar o mundo do lado de fora quando a maior parte das pessoas já estava dormindo.
Pensamentos aleatórios o levaram a um sono profundo só voltando a acordar na hora do cadê da manhã. Depois de um pão de queijo e um copo de café, Xie Lian pode voltar a seu mais recente hobby e o que o manteve distraído na maior parte do caminho durante o dia, crochê. Estava no meio da produção de uma bolsa que provavelmente ainda levaria dias para ficar pronta, mas até o presente momento, estava satisfeito com o resultado.
Ao chegar em outra rodoviária, Xie Lian desembarcou, indo direto comprar a passagem para seu próximo ônibus que saia dali uns vinte minutos.
O outro ônibus não era tão confortável quanto o primeiro mas o jovem não tinha coração para reclamar, seu destino agora estava a poucas horas de distância. Na estrada agora, ele nem conseguia continuar sua bolsa, tentando se distrair vendo as nuvens brancas e cinzas que decoravam o céu; sua mente focada na chegada na próxima rodoviária.
Ao chegar, pegou suas malas e começou a procurar uma pessoa. Sua pessoa.
Depois de olhar ao redor e não achar seu alvo, Xie Lian já estava indo em direção a saída achando que o outro ainda não tinha chegado quando escutou aquela voz que lhe seguia até em sonhos.
"Gege!"
Ao se virar com rapidez, seu coração parecia querer destruir sua caixa torácica de tão rápido que batia, seu sorriso cheio de vida não refletia o cansaço de uma pessoa que passou mais de um dia viajando, e as lágrimas em seus olhos mostravam seu alívio.
Finalmente havia chegado ao seu destino.
"San Lang!"
