Work Text:
“Uma apresentação da escola?”
Olhando para o papel em suas mãos pela segunda vez, Cassandra se sentiu pega desprevenida, um feito muito raro de se conseguir vindo de outras pessoas, mas sua filha conseguia a surpreender com muita facilidade. As façanhas que só uma criança conseguiria. Caitlyn já estava com seus 9 anos.
O convite era de um papel duro, a impressão de qualidade muito boa para se manusear, mas não era a textura e muito menos os aspectos do design que perturbaram Cassandra Kiramman, mas sim o que estava escrito dentro do papel.
Senhores(as) pais, mães e/ou responsáveis,
Gostaríamos de convida-los para nossa peça de teatro trimestral organizado pelos estudantes da Academia Jr.
A peça escolhida foi: Chapeuzinho vermelho
Elenco:
Caitlyn Kiramman – Chapeuzinho Vermelho
Danian Lethur – Lobo
Judy Yang – Vovózinha
Alax Demian – Caçadora
Theodor Gharp – Porquinho I
Luck Fow – Porquinho II
Adrian Datrz – Porquinho III
Contamos com a presença de todos para prestigiarmos nossos jovens talentosos.
Data de apresentação:
Próxima sexta-feira as 19 h no teatro principal da academia.
Cassandra encarou sua filha do outro lado da pequena mesa de quatro lugares que eles reservavam todos os dias para o café da manhã na padaria perto de casa.
A jovem Caitlyn Kiramman parecia nervosa, os ombros altos enquanto bebia seu suco de laranja sem olhar a sua mãe nos olhos. Um leve rubor em suas bochechas. Seu cabelo azul, idêntico ao de Tobias, estava um pouco abaixo dos ombros, caído de forma uniforme sem um fio fora de lugar.
“O que foi querida?” Tobias perguntou, deixando de lado o jornal. Parecia a edição do dia do The Waves, um novo jornal da cidade.
Cassandra estendeu o convite em direção a Tobias, que agarrou o papel entre os dedos e firmou os óculos no nariz enquanto lia silenciosamente. Um sorriso se alargou em seu rosto quando ele terminou.
“Meus parabéns Cait, essa é sua primeira peça, não é? Ficamos muito felizes em ver você participando.”
Sua filha abandonou o copo de suco, limpando os lábios com um guardanapo e assentiu com a cabeça levemente. Uma inspiração profunda foi feita antes de ela falar:
“Sim, é a minha primeira peça. E eu gostaria de saber se vocês... Iriam?”
A voz miúda e falha no final da pergunta quase quebrou o coração de Cassandra. Como se a gente pudesse estar com alguém mais importante do que você. Mas não foi isso que escapou dos lábios de Cassandra.
“O conselho terá que lutar muito para impedir que eu compareça a sua apresentação, talvez precisem convocar a cavalaria e não acho que a Xerife Grayson esteja interessada em subir em um cavalo.”
Caitlyn deu uma risadinha, seu rosto relaxando e seus ombros caindo com a falta de tensão neles. Como se um peso tivesse sido tirado de suas costas. Melhor assim. Uma criança ainda é uma criança. Cassandra sorriu com isso, perguntando-se se algum dia sua filha herdaria a cara de pôquer dos Kiramman. Ela era um livro aberto para se ler, muito parecida com Tobias nesse quesito.
Um pigarro interrompeu a mesa e as duas mulheres encararam a fonte do barulho.
Tobias apontou para o convite, a expressão curiosa de repente.
“Perdoe-me querida, mas se a peça é do chapeuzinho vermelho... Qual o sentido dos três porquinhos?”
Caitlyn franziu a sobrancelha, Tobias observou Cassandra com brilho nos olhos. Ela sabia o que ele estava pensando. Ela faz a mesma expressão que você.
“Sinceramente? Eu não faço ideia. A equipe de teatro decidiu que seria interessante misturar as duas histórias.” Respondeu ela.
Tobias assentiu e colocou o convite na mesa, empurrando em direção a sua esposa.
“É melhor você guardar, é um objeto de alto valor que não pode cair em mãos erradas.”
“E nos não queremos isso não é mesmo?” respondeu ela com uma piscadinha.
Cassandra alcançou o papel e o guardou no bolso do casaco. Sexta-feira poderia ser um dia agitado no conselho, mas quem ousaria a impedir de limpar sua agenda um único dia? Absolutamente ninguém. Talvez ela encaminhasse um memorando a Grayson para adiantar uma reunião, existiam alguns assuntos dos executores que precisavam de atenção... Sua assistente lidaria com isso depois, o café da manhã ainda é um evento do qual ela gostaria de fazer parte por inteiro e não apenas fisicamente.
Pegando um bule prateado da mesa e derramando o liquido preto na xícara, Cassandra se dirigiu ao marido prestes a comentar algo quando parou no meio do caminho para observar a cena que se desenrolava em sua frente. Caitlyn estava rindo enquanto seu marido fazia caretas e enrolava seu bigode com as duas mãos, parecendo estranhamente familiar.
“Eu tenho certeza absoluta que sai de casa acompanhada com meu marido e não com o meu vizinho de reputação duvidosa e humor conhecidíssimo o Sr. Jefferson.”
Segurar a língua também não era um forte das mulheres Kiramman.
Uma tosse escapou pelos lábios de Tobias, seu rosto ficando ruborizado. Era de conhecimento público a reputação do Sr. Jefferson na vizinhança. Você poderia chutar uma pedra e ele provavelmente sairia debaixo dela. Um homem pequeno e barrigudo que adorava se meter em assuntos que não lhe diziam o respeito, com sua barba trançada e seu bigode esvoaçante a reboque. Tobias chamava isso de a visão do portão infernal, ela cada vez mais estava tentada a aceitar o fato como tal.
Uma respiração depois seu marido parecia mais composto, alisando a lapela do seu colete e alcançando seu jornal esquecido, olhando brevemente para Cassandra. Seu marido não estava nem um pouco arrependido das travessuras que fez para divertimento único da sua maior fã, sua filha.
“Mãe?” chamou Caitlyn.
“Sim?”
Cassandra desviou os olhos do marido e se concentrou em sua filha, seu rosto ainda estava corado das risadas anteriores.
“Você tem novidades sobre Tarcila Wate?”
“Isso mesmo Cait! Eu também estava curioso sobre ela e me esqueci completamente.”
Tobias dobrou o jornal ao meio e se projetou para frente, descansando os braços na mesa. Quantas vezes mais ele deixaria de lado aquele jornal? Uma postura totalmente reprovável e grosseira, ela poderia ouvir com bastante clareza a voz de sua falecida mãe. Jesus.
Cassandra bebericou seu café lentamente, deixando os dois curiosos ainda mais ansiosos com a sua demora.
“Agora, vocês dois estão agindo como senhoras fofoqueiras. Mas, talvez eu tenha algumas atualizações interessantes”
Tarcila Wate, novo nome que circulava na boca de algumas pessoas importantes. Filha de um mercador muito rico em Iônia que estava entediada com a cidade de seu pai e resolveu fugir das responsabilidades do seu sobrenome, navegando até seu novo refúgio, Piltover. Não contente com o ato escandaloso na aristocracia, decidiu por abrir um jornal. O The Waves. O boato que se divulga é que seu pai ficou furioso com a fuga da filha e a deserdou, enterrando qualquer possibilidade de assumir a herança da família. Um assunto quente como esse só ajudou a divulgar ainda mais o seu negócio. Seu marido já se tornando um assinante assíduo do jornal só para acompanhar os possíveis desdobramentos ou fisgar alguma outra história.
Deixando sua xicara de lado e limpando os lábios com o guardanapo, Cassandra juntou as duas mãos em cima do colo.
“Bem, por onde eu começo?”
A expressão curiosa de Caitlyn e a expressão exasperada de Tobias lhe diziam o suficiente. Um pequeno sorriso ameaçou estragar a sua fachada estoica, mas Cassandra não era uma política à toa.
“Alguém quer mais café?” Perguntou ela inocentemente.
“Mãe!”
“Cassandra!” repreendeu Tobias.
Um suspiro coletivo era música para seus ouvidos. Agora quem estava rindo?
Sua mãe poderia revirar no tumulo pelo que era mais sagrado, mas Cassandra não poderia dizer que se importaria. Eles eram sua família e ela não estava se privando de algo que a fazia tão bem, passar um tempo junto das pessoas que ela mais amava no mundo. Deus sabe o quanto foi difícil crescer com o ombro gelado de seus pais, ela não estava fazendo isso com Caitlyn. Ela sabia, no entanto, que eventualmente ela não poderia mais fechar os olhos para as responsabilidades que recairiam sobre sua única filha, mas até lá, deixem o sobrenome Kiramman ser apenas o que ele é para Caitlyn, uma palavra por trás do nome.
